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Sunday, February 3, 2008

Elogio à Beleza

Um escritor argentino, autor do livro de memórias "Feio", está querendo criar um imposto sobre a beleza. Segundo ele, os belos obtém tantas vantagens adicionais que é justo que paguem impostos adicionais.

Obviamente, a proposta é imbecil mas, segundo o feioso autor, a idéia é provocar um debate. Então, vamos a ele: eu discordo. Mesmo sendo do Rio, a cidade mais obcecada com beleza física do mundo, eu ainda assim acho que a beleza anda menosprezada.

Se eu subo na vida pela minha inteligência, ou pela minha força física, ou pelo meu talento musical, ou até mesmo pela minha capacidade de fazer gols, tudo bem. Mas, de algum modo, subir na vida pela beleza é visto como algo baixo, leviano, fútil, sem valor, anti-meritocrático.

Quantas mulheres feias já não apontaram pra superiores gostosonas e acusaram: "Você só foi promovida por ser linda!"? Mas, por outro lado, quantas vezes homens burros apontaram para superiores e acusaram: "Você só foi promovido por ser mais inteligente que eu!"? Ninguém se sente injustiçado ao ser preterido pelo inteligente ou pelo talentoso, mas se perderem pro lindo, deus me livre, é um absurdo, um horror, uma injustiça!

Esse mito de que vencer pela beleza é menos meritocrático do que vencer pelo talento ou pela inteligência é uma das maiores mentiras que o lobby dos inteligentes já inventou.

É como o maneta tentando convencer o perneta a disputar uma corrida: ganhar pela queda de braço não conta. Ou a onça tentando convencer o ouriço de que seus espinhos são anti-esportivos: ele tem que encarar a onça de igual pra igual. E todos sabemos como acaba essa história.

O porco-espinho, como qualquer animal, tenta vencer usando as armas que possui, assim como os inteligentes tentam vencer pela inteligência e os talentosos, pelo talento. Errado são os lindos que caem no conto de que suas armas não tem valor, que vencer pela beleza não conta.

Se eu tivesse pernas pra cruzar ou decote pra mostrar, eu usava com a mesma naturalidade que uso minha lábia e minha cara-de-pau para conseguir tudo o que eu quero.

* * *

Comentário extremamente preciso de um amigo:

"Bem, nada mais justo então do que os inteligentes usarem sua arma, a inteligência, para convencer os belos a não usarem as deles."
Concordo. Feios e barrigudos, só resta mesmo aos inteligentes tentarem mudar as regras do jogo. Burro é quem acredita. Entretanto, eu sou vira-casaca: acho gente inteligente um porre e idolatro a beleza. Além disso, ser agente duplo para os belos tem muitas vantagens: ninguém sabe quem foi Michel Foucault ou André Brissac, por exemplo, mas os favores sexuais mais do que compensam.

Assim como o mito do valor inerente da leitura só existe porque as pessoas que gostam de ler têm um lobby mais influente do que as pessoas que gostam de jogar bola em terreno baldio, esse mito da beleza como método não-meritocrático de subir na vida só existe porque são os feios que escrevem pros jornais e fazem as leis.

História da Beleza        Ditadura da Beleza

* * *

Apêndice Socrático

Antes de publicá-los, sempre mostro meus textos para meus contatos no MSN. A conversa abaixo foi com uma das primeiras leitoras do Elogio à Beleza:

Mas, Alex, o cara pode se revoltar pela beleza alheia pelo simples fato de que a pessoa já nasceu bonita... Ou seja, nasceu em vantagem. É diferente de quando alguém vence pela inteligência, isso é adquirido ao longo da vida...

Mentira, lenda. Inteligência, beleza, talento, a gente nasce com eles todos, são difíceis de manter, e vamos refinando-os ao longo da vida. Nenhum é de graça, nem cai do céu. Pergunte pra alguém lindo de verdade o tempo e dinheiro que eles gastam nisso.

Sim, claro. Mas por exemplo, mulher quando vai procurar emprego, além da mínima formação exigida pro cargo, ela precisa ser bonita na maioria dos casos. Homem não.

Isso é escroto.

Eu acho horrível, mas eu vejo isso na minha área. Eu trabalho com TI e sempre sou chamada pras etapas seguintes das entrevistas pelo simples fato de, 1) ser mulher e 2) não ser gorda, espinhenta, ou com cara de nerd. Agora, se tu colocas um homem pra fazer entrevistas na area de TI, os caras não vão se importar com aparência...

Você devia achar isso bom, é uma vantagem comparativa pra você. Eu sou completamente incapaz de ser contra algo que me favoreça.

Mas daí isso contraria tudo o que me ensinaram a vida toda! Eu deveria vencer por méritos acerca da minha capacidade, não da minha cara ou da minha bunda!

O problema é que isso que te ensinaram foi o lobby dos feios querendo te convencer que a SUA vantagem competitiva não conta, ué. O texto é justamente sobre isso. Sua bunda é tão sua quanto seu cérebro e você obter vantagens por qualquer um dos dois é igualmente válido. Sua bunda não é menos sua do que o seu cérebro.

Isso é certo, reconheço. Mas daí me vem a dúvida: eles querem que eu trabalhe pra eles de verdade ou que eu sirva de deleite no escritório? Eu vou ser contratada pra o quê? Claro que daí alguém pode me dizer que eu posso surpreeendê-los e me mostrar realmente capaz... Mas até la eu não posso deixar de me sentir uma boneca de pano ou uma peça de leilão, sei lá.

Se te pagarem salário, do que isso importa? O importa é entrar, lá dentro você pode mostrar que é mais do que uma bela bunda... E, se passarem a mão nela, você ainda chama a polícia e ganha uma indenização polpuda. Mas minha grande dúvida é outra: por que você acha que seu cérebro vale mais do que sua bunda? De onde veio esse ranking de partes do corpo? Isso faz algum sentido?

Bem, eu gostaria de usar minha bunda pra outras finalidades... Só que é impossível esconder essas coisas, né?

Bem, a bunda é sua. Eu só quero dizer que ela é tão sua e tão válida quanto seu cérebro.

Ok, entendi. Mas ainda assim não me conformo, parece tão imbecil...

Mas isso é só porque te ensinaram um dualismo cartesiano e ultrapassado, essa história de que somos feitos de corpo e alma, um alto e sublime, outro baixo e sórdido, e portanto o que você consegue com o corpo também é baixo e sórdido, e as únicas coisas que teriam valor verdadeiro seriam as que você consegue com a alma, com o intelecto, etc. Mas essa dicotomia é falsa, você é uma só. Você é tudo isso o tempo todo.

Bem. o ruim disso é que eu não sei o que falar pros meus colegas quando eles dizem que eu consigo as coisas só porque eu sou mulher. Isso é claramente injusto já que eles podem fazer o mesmo que eu... Eles preenchem os requisitos tanto quanto...

Você pode responder que para cada coisa que você consegue por ser mulher tem outras tantas que você não consegue por ser mulher.

Daí eu penso "ok, a decisão do empregador é só dele, quem se importa se ele quer mais é uma visão feminina na empresa do que alguém capacitado?" Só que é MUITO injusto com os outros... Eles nasceram daquele jeito, não é culpa deles...

O mundo é injusto. Um emprego que escolha o mais capacitado vai ser injusto com os poucos capacitados. Se escolher os inteligentes, vai ser injusto com os burros. Se escolher os talentosos, vai ser injusto com os que nasceram sem talento. Se escolher os melhores, vai ser injusto com os piores. Qual é a solução?

Ai, Deus! Tu me deixa sem respostas!

* * *

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Friday, February 1, 2008

Malvada, Fútil e Exibicionista

Quando eu digo que gosto de mulheres malvadas, a maioria dos leitores simplesmente não entende o que quero dizer com isso. Não tem problema: o objetivo do comentário não é explicar o mundo para os desavisados, mas atrair os entendidos.

Eu me revelo justamente para descobrir quem vai bailar comigo e quem vai se encostar na parede. Muita gente me acha esquisito? Claro. Essa é a idéia. Não tenho medo de rejeição. Ser rejeitado pelas pessoas pequenas só faz bem. Os pequenos se afastarem de mim por conta própria me poupa o trabalho de espantá-los a pauladas.

Troco alegremente a rejeição dos pequenos pela aceitação dos grandes.

Ela
Talvez a melhor e mais fascinante mulher má da literatura, em um empolgante livro de ação à moda antiga.

* * *

Um dos últimos exemplares da revista da Mulher-Gato abre com uma loira gostosa e peituda falando numa webcam: ela está mostrando uma pobre menininha, também loirinha e angelical, amarrada e amordaçada numa cadeira. Ela se apresenta como Blitzkrieg, a mais nova, maior e mais malvada vilã de Gotham City e, para provar, vai matar a pobre e inocente menininha ao vivo, com transmissão pela internet:

"This little girl is going to die and there's nothing you can do it about it. Don't bother trying to figure out why she's the one. It was a totally random thing, believe me. See, this has nothing to do with her. This is all about me!"
Total e completo egocentrismo: só ela importa. A menina é menos que uma, somente um meio para seu fim, sua glória, sua vitória.

Blitzkrieg

A Mulher-Gato (a nova Mulher-Gato, aliás, toda atrapalhada) cai do telhado aos pés da vilã e ela pergunta, em uma daquelas perguntas cruelmente irônicas e bem-humoradas que deixa claro qual será o destino da heroína:
"Any last words for the million-plus viewers glued to their laptops?"
Nada mais sexy do que ironia de vilã.

Blitzkrieg

Quando a Mulher-Gato acorda, Blitzkrieg, óbvio, está se gabando do seu plano maligno: comprou aquelas luvas que emitem raios de um grupo terrorista e escolheu o nome Blitzkrieg por ser assim meio alemão e meio sinistro: "sounds sort of ominous". Não é lindo uma mulher que quer soar "ominous"?

Seu plano é simples: depois de estourar os olhinhos castanhos da menina pela nuca (sua palavras!), toda a cidade vai falar nela! E ainda pergunta: "um plano doce, não?" Eu quase posso ouvir sua voz, igualmente doce, falando palavras tão incrivelmente cruéis.

Blitzkrieg

O plano, apesar de simples (matar uma menina inocente ao vivo e ficar famosa) parece extraordinariamente cruel e leviano. Assim como a Madrasta Má e tantas outras vilãs, Blitzkrieg é extremamente vaidosa: adora saber que milhares de pessoas estão assistindo-a e pretende matar uma criança inocente só para que a cidade toda fale nela. E está empolgada com seu plano.

Blitzkrieg

A vilã anuncia para a câmera: sim, a pobre menininha ainda vai morrer, mas teremos um novo assassinato antes pra deixá-los com água na boca. Ela aponta suas luvas para a Mulher-Gato com um grande sorriso nos lábios e ainda faz pouco dos esforços da heroína para salvar a menina. Claramente sente prazer em que a Mulher-Gato morra sabendo que deu tudo errado, que ela fracassou e Blitzkrieg venceu e, pra melhorar, que a menina ainda assim vai morrer:
"Think you're pretty smart, don't you? All you did was speed things up. You die now. Then the kid gets it. Happy?"
Blitzkrieg

Mas a Mulher-Gato se desvia dos raios no último segundo e fica apenas muito ferida. Blitzkrieg se impressiona
("Still alive? I'm impressed!")
e diz que, como prêmio por ter sobrevivido mais um pouco e enquanto está se roendo de dor no chão, a Mulher-Gato vai poder assisti-la matando a pobre menininha:
"I'm gonna let you watch me kill your little friend."
Não basta matar as duas, heroína e menininha, a vilã ainda sente prazer em que Mulher-Gato vai ter que assistir a morte da criança que tentou salvar - e que isso vai ser uma das últimas coisas que verá. O sofrimento e frustração da pobre heroína alimentam seu ego. Para a vitória completa e egoísta da vilã, é necessário acabar com todos, não deixar testemunhas: no seu final feliz perfeito, ela sozinha é a dona do campo de batalha.

Nessa hora, naturalmente, ela comete o erro de toda vilã, dá as costas pra heroína ferida, a heroína puxa forças sei lá de onde e acaba com ela. Final feliz. Fim de história.

Blitzkrieg

Enfim, um gibi bem fraco. Mas eu, que coleciono e adoro vilãs, há muito tempo não via nenhuma assim tão exageradamente má, perversamente gostosa, deliciosamente fútil e absolutamente exibicionista.

* * *

Sim, confesso, eu sinto tesão por uma vilã assim como Blitzkrieg, mas ela não existe e, se existisse, seria um monstro que teria que ir preso. O tesão não significa que concordo com suas ações ou que acho que são recomendáveis, bem ao contrário. Meu tesão é por esse arquétipo (aliás, mais velho que andar pra frente) da femme fatale, da mulher má, da diva egoísta.

Por fim, trazendo a questão à realidade, meu verdadeiro tesão é pelas mulheres de carne e osso, lindas e inteligentes, tantas delas minhas amantes e amigas, que também são atraídas por esse mesmo arquétipo, que adoram a fantasia de ser essa mulher e de ter escravos apaixonados aos seus pés para usar e abusar, que gozam com a suprema liberdade de um egoísmo sem limites e de poder não se preocupar com nada nem ninguém, que se excitam ao se imaginar malvadas e poderosas, fúteis e vaidosas, gloriosas deusas do mal.

 Bórgia: Sangue para o Papa     Bórgia: Poder e Incesto
A verdadeira Lucrécia Bórgia com certeza não era tão má assim, mas a Lucrécia ficcional é o máximo.

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Raquel diz que meu Elogio às Malvadas foi uma das coisas mais importantes que já leu e conta a seguinte história: de vez em quando, conversa com suas colegas sobre fantasias sexuais e galãs da moda. Entretanto, enquanto elas sonham com o que fariam com o Brad Pitt na cama, Raquel tem outros desejos inconfessáveis.

Sua fantasia era fazer o Brad Pitt se apaixonar por ela e, depois, humilhá-lo, obrigá-lo a largar sua carreira no cinema, abdicar de tudo só para tê-la, e ela só provocando-o, atiçando-o, e então, quando já não lhe restasse nada, só aquela paixão irreprimível por ela, ela riria na cara dele, diria que agora que ele não é mais um astro, não lhe serve, não lhe tem serventia alguma, o que vai querer com um pobretão inútil desses?, que vá pintar paredes, arranjar mulheres na zona, qualquer coisa assim, mas saia da minha presença agora!, e ele sairia, arqueado, derrotado, humilhado, e o que mais a excitava, nessa sua fantasia, era a idéia de acabar com a vida de um astro de Hollywood por puro capricho, sem motivo algum, e, melhor ainda, ele ter feito tudo voluntariamente, por puro tesão, um tesão que ele carregaria pra sempre, acumulado e frustrado! (No final, ela estava quase sem ar, olhinhos brilhando, voz arquejante.)

Na sua vida civil, Raquel é mignon, educada, quase tímida, se vira ao avesso pelos amigos, faz de tudo para agradar as pessoas. Em suas fantasias, porém, é uma deusa do mal, uma devoradora de homens, cercada por dezenas de escravos devotados que ela joga aos leões depois de abusar sexualmente, adorada e desejada por multidões apaixonadas e sempre frustradas, absolutamente egoísta e mentirosa, interessada somente em si mesma, em seu poder, em sua glória, em sua vitória, em seu final feliz.

Tudo o que ela não é.

    Femme Fatale
Melhor cena: os homens brigando no ar e ela olhando tudo excitadíssima, olhos brilhando, se deliciando no duelo dos machos por ela, verdadeira deusa primitiva esperando seu sacrifício de sangue.

* * *

Para fechar, um trecho do blog Bitchy Jones's Diary sobre a delícia de submeter um homem forte e independente. Quanto maior, mais poderoso, mais másculo, mais amante da liberdade, maior é o prazer de tê-lo sob suas botas:
Male submission is about heroic masculinity and male beauty.

... I’m a straight woman. Men and masculinity turn me on. Maleness. ... And nowhere is this male beauty expressed better than in male submission. Jack doesn’t like pain, doesn’t enjoy suffering at all. But he is hot and hard for being brave. Making noble almost futile sacrifices. Bondage and force. Wanting to contain and constrain. To own. To force. To crush and possess. To venerate. To wallow in. To touch. This is about beauty. Male beauty. Savage beauty. Sexuality so virile and strong it needs to be held back, diluted with chains and cages to make it palatable – otherwise it would be so overwhelming it would be like looking at the sun. It is everything there is and every part of the heart of me. And it’s worth it. Even now.
Se gostou, não deixe de ler The Complete Bitchy Jones, onde ela resume todas as suas idéias mais interessantes. Dica da Rebeca, uma de minhas amigas mais queridas e uma das mulheres mais imaginativamente perversas que já conheci.

     Condessa Vermelha
Uma das graphic novels mais sensuais de todos os tempos. Como não amar Elizabeth?


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15 Personagens de Literatura que Eu Levaria para a Cama

     Mulheres Mais Perversas da História

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