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Monday, January 28, 2008

Retomada do Blog e Futuros Posts

(esse é o ÚLTIMO post do velho LLL. O novo LLL está aqui: http://www.interney.net/blogs/lll)

É realmente uma vergonha o abandono do LLL. Durante o segundo semestre de 2007, raramente eu sentei para escrever textos legais, pensados, articulados. Eram sempre coisinhas rápidas, links, fotos, notícias. Mas eu nunca quis que o LLL fosse um blog de comentar noticiário ou discutir internet. Nosso assunto aqui é a natureza humana: amor e sexo, relacionamentos e comportamento, o ciúme e a inveja, a ambição e o medo. Deixemos economia e política para os blogs chatos, celebridades e BBB para os fúteis.

Agora que mudei para o Interney Blogs, decidi tomar vergonha na cara. Esse sábado, sentei a bunda na cadeira, juntei todas as minhas notas (anoto idéias pra textos até em comprovante de cartão de crédito) e escrevi por dois dias, sem parar. Quando o fim de semana terminou, eu tinha 41 textos prontos: 15 mil palavras em 57 páginas. Todas aquelas pequenas coisas que eu já estava há meses querendo escrever e nunca tinha tempo. Textos com começo, meio e fim, falando sobre comportamento e natureza humana: nada imediato, nada que ficaria velho, nada que precisaria ser publicado amanhã ou nunca mais. Textos para serem relidos e relambidos, mostrados para amigos e contatos do MSN, para irem ficando melhores com o passar dos dias, até serem finalmente publicados. Textos para que o novo LLL, no Interney Blogs, seja mais como o velho LLL de antigamente.

Para dar água na boca, a lista dos textos. Todos já estão escritos e serão publicados, diariamente, pelos próximos meses. A ordem de publicação é irrelevante. Se houver algum que desperte o seu interesse, pode pedir. Quem sabe ele não vai pra frente da fila?

  • As Certezas do Meu Roommate (I)
  • As Certezas do Meu Roommate (II)
  • "Você Só Vem Falar Comigo Quando Quer Alguma Coisa!"
  • Libertário, Libertino e Casamenteiro
  • Existem Dois Tipos de Pessoas
  • As Notícias que o Corpo nos Dá
  • Água Aromatizada
  • Fãs e Desafetos
  • Pobres Homens
  • Memórias da Bolha
  • Definição de Blogueiro Metido
  • Vaidade
  • Características Menosprezadas da Mulher Perfeita
  • Ciúme e Possessividade
  • A Cara-de-Pau do Professor
  • Padrão de Beleza Diabético
  • Duas Páginas por Dia
  • Racismo às Avessas
  • O Bom Egoísta É Egoísta Até ao Presentear
  • Vocês Páram o Que Estão Fazendo pra Atender o Telefone?
  • Fotografando Pés (I)
  • Fotografando Pés (II)
  • Encontrando o Companheiro Perfeito (I)
  • Encontrando o Companheiro Perfeito (II)
  • Ainda a Busca pela Pessoa Certa
  • Mulheres que Põem os Pés em Cima das Coisas
  • Mulheres de Direita e de Esquerda (I)
  • Mulheres de Direita e de Esquerda (II)
  • Fetiche de Star Wars
  • A Direção da Filhadaputice
  • Solteiras
  • Pessoas que Carregam Tudo nas Costas
  • Malvada, Fútil e Exibicionista
  • Patriotismo Ignorantismo
  • A Pior Idéia de Todos os Tempos
  • Usabilidade da Pornografia
  • A Masturbação Está Acabando com a sua Vida!
  • O Regionalismo Brasileiro de 30
  • Por Amor
  • Depressão
  • "A Mulher de Todos" e o Amor
Acho que as próximas semanas vão ser bem interessantes. Visitem diariamente o novo LLL e confiram:

http://www.interney.net/blogs/lll

(esse é o ÚLTIMO post do velho LLL. O novo LLL está aqui: http://www.interney.net/blogs/lll)


Wednesday, January 23, 2008

Bom Crioulo, de Adolfo Caminha (II)

   Bom-Crioulo Identidades Sexuais Subvertidas

Segundo Judith Butler, em Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão de Identidade (1990), atributos de gênero não são expressivos mas sim performativos e, portanto, esses atributos constituiriam de fato a identidade que pretendem expressar ou revelar. Em outras palavras, para Butler, ser homem ou ser mulher, ser heterossexual ou homossexual, não são categorias imanentes, pois não existiria uma essência, digamos, masculina que precederia a existência do indivíduo do gênero masculino: masculino seria quem se comporta de acordo com os padrões de comportamento culturalmente definidos como masculinos. Mais ainda, se não existe uma natureza pré-existente das identidades de gênero, então não existem atos sexuais verdadeiros ou distorcidos, e a própria noção de “gênero verdadeiro” revela-se uma manobra destinada a impor a dominação masculina e a heterossexualidade compulsória.

Romance cuja trama adere estritamente à fórmula naturalista (quem não adere é o narrador, conforme veremos mais abaixo), em Bom-Crioulo os personagens são esquemáticos: ao mesmo tempo, frutos do seu meio-ambiente e reféns de seus instintos. O personagem-título, Amaro, exemplifica bem as contradições da fórmula e as inversões de identidade que ela exige. Por um lado, é o personagem mais ético do romance, agindo sempre com integridade e honestidade - até perder o controle em um acesso de   Problemas do Gênero: Feminismo e Subversão de Identidade J. BUTLER ciúmes na cena final. Por outro, o romance enfatiza reiteradamente que de nada adianta a ética e força de vontade de Amaro: por ser negro, ele é refém dos seus instintos, especialmente dos instintos sexuais; por ser ex-escravo, ele foi corrompido pelo ambiente de degradação moral e social das senzalas, "tornando-se" homossexual. Desse modo, independente de todas as qualidades do personagem, sua tragédia final é inevitável e já se encontra implícita desde o começo da narrativa.

O romance busca um equilíbrio delicado entre as teses cientificistas sobre determinismo biológico e sobre efeito corrompedor do meio ambiente. Ao mesmo tempo em que Amaro é visto como um homem dominado por seus instintos sexuais mais primitivos, o romance também atribui sua corrupção sexual ao ambiente de devassidão das senzalas, que pode ser atribuído, naturalmente, ao fato de serem habitadas por homens dominados por seus instintos sexuais mais primitivos. A partir de sua corrupção, entretanto, Amaro não é mais o mesmo homem que era, com a diferença de ser agora adepto de práticas sexuais sodomitas: pelo contrário, ele sofre uma verdadeira metamorfose conceitual e torna-se uma nova espécie: o homossexual, que surge assim pela primeira vez na literatura brasileira.

De acordo com Foucault, em A História da Sexualidade I: A Vontade de Saber (1976), até finais do século XIX, a sodomia era somente uma categoria de atos proibidos e sodomita, a pessoa que os praticava: não era algo que o definia enquanto ser humano. Entretanto, o homossexual como foi classificado no final do século XIX, torna-se um personagem, um passado, um estudo de caso, um estilo de vida, toda uma morfologia. O homossexual seria esse indivíduo cuja totalidade é definida por sua sexualidade e está presente em todas as suas ações, menos um pecado habitual do que uma natureza singular. O antigo sodomita, que era uma aberração temporária, é transformado no homossexual, uma nova  História da Sexualidade: a Vontade de Saber - vol. 1 MICHEL FOUCAULT espécie definida por uma androginia interna e um hermafroditismo da alma. No Brasil, o termo homossexual aparece pela primeira vez em 1906, onze anos após a publicação do romance, em uma tese médica "Homossexualismo (A Libertinagem no Rio de Janeiro): Estudo sobre Perversões e Inversões do Instinto Genital." (Mendes, 35-36)

A heterossexualidade não é a única identidade subvertida no romance. Amaro é negro, forte, viril, maduro e decidido, enquanto Aleixo, seu jovem amante, é quase uma criança, pequeno, branco, louro, passivo e vacilante. A relação entre eles não é apenas sexual, mas também paternal e professoral. Amaro não vê Aleixo somente como seu amante, mas também como seu pupilo, filho e protegido; Aleixo, por seu lado, se comporta de acordo. Quando Aleixo finalmente troca Amaro por Dona Carolina, parece estar simplesmente trocando um pai por uma mãe: Dona Carolina, velha prostituta, que nunca tinha experimentando nem o amor verdadeiro nem o amor maternal, sente-se atraída mais do que tudo pela fragilidade infantil e inocente de Aleixo. Sob esse aspecto, a competição entre Amaro e Carolina por Amaro se assemelha mais a uma disputa de custódia entre pais divorciados do que a um triângulo verdadeiramente amoroso. Em Bom-Crioulo, pai e mãe, homem e mulher, também não parecem ser o que tradicionalmente são.

Finalmente, ao mostrar o branco, miúdo e louro Aleixo passivo diante do grande, negro e forte Amaro, o autor subverte mais uma vez identidades que seriam tradicionais e auto-evidentes aos seus leitores: nesse ponto, a debilidade de Aleixo ecoa a debilidade do próprio Império, branco e escravocrata, que desaparece sem ter quem o defenda.

Raça e Homossexualismo

Ginway vê no livro uma grande alegoria do país: Aleixo é o Brasil, puro e virgem, corrompido tanto pela nódoa da escravidão, Amaro, quanto pela devassidão do velho mundo, Dona Carolina. (44) Ambas as relações são estéreis, indicando o impasse do cultural e racial do Brasil, incapaz de se perpetuar, incapaz de ser branco como deseja, incapaz de se imaginar mestiço como era. (45) O ideal parece mesmo ser ficar cada raça no seu lugar: quando Amaro considera terminar com Aleixo, sua primeira opção é encontrar uma mulher da mesma cor que ele, para evitar confusões. Depois de estar em um relacionamento tão revolucionário (não apenas homem com homem, mas negro dominante e másculo sobre branco submisso e efeminado), Amaro não quer mais saber de complicação.

É também interessante notar que a questão racial não aparece muito no começo do romance, sendo eclipsada pela questão homossexual. Entretanto, assim que Dona Carolina se junta com Aleixo e ambos passam a ver Amaro como rival e possível inimigo, o pederasta se transforma em negro: Aleixo e Carolina parecem ambos perceber - e mencionar - sua raça pela primeira vez. Diz Dona Carolina:

"Grandessíssimo pederasta! Nunca supusera que uma paixão amorosa de homem a homem, fosse tão duradoura, tão persistente! E logo um negro, Senhor Bom-Jesus, logo um crioulo imoral e repugnante daquele! ... Negro é raça do diabo, raça maldita, que não sabe perdoar, que não sabe esquecer... ... De resto, o caso do bilhete era uma tolice em que ninguém devia pensar: - Cousas de negro..." (cap.X)

Até mesmo Aleixo, que antes o amava e dependia de sua proteção, agora vê nele apenas uma fera, um animal:

"Receava encontrar Bom-Crioulo, ter de o suportar com seus caprichos, com o seu bodum africano, com os seus ímpetos de touro, e esta lembrança entristecia-o como um arrependimento. Ficara abominando o negro, odiando-o quase, cheio de repugnância, cheio de nojo por aquele animal com formas de homem, que se dizia seu amigo unicamente para o gozar. Tinha pena dele, compadecia-se, porque, afinal, devia-lhe favores, mas não o estimava: nunca o estimara! ... Se Aleixo havia de se desgraçar nas unhas do negro, era melhor que ela, uma mulher, o salvasse." (cap.VIII)

Como aponta Leonardo Mendes, a guerra que Dona Carolina empreende contra Amaro parece justificada mais por uma indignação estética que moral: "o crime que o negro cometia era violar e penetrar aquela delicadeza virginal; sua homossexualidade desbaratava um recolhimento tão ingênuo e discreto." (159)

O romance naturalista, quase que por definição, causa anxiedade e desassossego. Em Bom-Crioulo, não apenas a relação homossexual é escandalosa, mas também a inversão do esquema amo/escravo, talvez ainda mais escandolosa para a época: Amaro, em todos os aspectos, é macho, forte, dominador, enquanto que sobram para Aleixo as qualidades submissas dos escravos e das fêmeas: dissimulação e sensualidade:

"Uma cousa desgostava o grumete: os caprichos libertinos do outro. Porque Bom-Crioulo não se contentava em possuí-lo a qualquer hora do dia ou da noite, queria muito mais, obrigava-o a excessos, fazia dele um escravo, uma “mulher-a-toa” propondo quanta extravagância lhe vinha à imaginação. Logo na primeira noite exigiu que ele ficasse nu, mas nuzinho em pêlo: queria ver o corpo..." (cap.V)

Talvez a ilusão de ótica mais interessante de Bom-Crioulo seja justamente a de apresentar um caso tão escandaloso (o amor homossexual entre Aleixo e Amaro) que faz com que outras relações também escandalosas no romance pareçam aceitáveis na comparação. Uma ex-prostituta quarentona, que vive amigada com um homem casado que a sustenta, decide ter um amante adolescente ("queria agora experimentar um meninote, um criançola sem barba, que lhe fizesse todas as vontades," cap.VI), um rapaz que ela sabia ter vivido maritalmente, em pecado, com um negro por um ano. Em qualquer outro romance do período, essa relação seria escandalosa. Em Bom-Crioulo, ela jamais é nem problematizada. Na comparação com o resto do enredo, parece aceitável e normal, quase conservadora:

"D. Carolina realizara, enfim, o seu desejo, a sua ambição de mulher gasta: possuir um amante novo, mocinho, imberbe, com uma ponta de ingenuidade a ruborizar-lhe a face, um amante quase ideal, que fosse para ela o que um animal de estima é para o seu dono - leal, sincero, dedicado até ao sacrifício." (cap.VIII)

A relação de Aleixo com Dona Carolina é descrita em termos animalizados, brutais, cruéis: "cravou os dentes na face do grumete, numa fúria brutal, e segurando-o pelas nádegas, o olhar cintilante, o rosto congestionado, foi depô-lo na cama" (cap.IV). Em outro momento (cap.VI), ela chega a ser descrita como um basilisco. Já a relação de Aleixo com Amaro é quase artística, contemplativa, religiosa: Amaro contempla e adora Aleixo como se ele fosse uma obra de arte, um deus grego:

"Bom-Crioulo, desde a primeira noite dormida no sobradinho, começou a experimentar uma delícia muito íntima, assim como um recolhido gozo espiritual. ... Todo ele vibrava, demorando-se na idolatria pagã daquela nudez sensual como um fetiche diante de um símbolo de ouro ou como um artista diante duma obra prima. Ignorante e grosseiro, sentia-se, contudo, abalado até os nervos mais recônditos, até às profundezas do seu duplo ser moral e físico, dominado por um quase respeito cego pelo grumete que atingia proporções de ente sobrenatural a seus olhos de marinheiro rude." (cap.V)   Bom-Crioulo

O romance mostra a relação homossexual entre Amaro e Aleixo de modo muito mais sensível, abstrato, puro, singelo e verdadeiro do que a relação animalesca e sexual entre Aleixo e Dona Carolina. (Ginway, 45) Terá o autor se dado conta disso?

Por fim, o romance jamais se posiciona quanto à espinhosa questão da origem do homossexualismo. Enquanto a sexualidade de Amaro é um dado do romance, a de Aleixo é cuidadosamente construída pelo Bom-Crioulo e depois desconstruída por Dona Carolina. Afinal, para Adolfo Caminha, a homossexualidade era nata ou era adquirida? O romance não se coloca. O narrador não consegue se decidir. (Howes, 57)

(continua...)


Tuesday, January 22, 2008

Ajuda no Template - Update

Sério, eu não aguento mais o Comentar e esse maldito bug de não mostrar o número de comentários. Fechei com o Ina de ir pro Interney Blogs em fevereiro do ano passado, e achei que não valia a pena consertar. Mas o tempo passa, ainda estou aqui, e o problema está me enchendo o saco. Não quero apagar o Comentar, porque tem um valioso arquivo de 5 anos de comentários, mas queria só que os comentários do Blogger aparecessem na página principal do blog, e nada! Só aparecem nas páginas individuais de cada post. Estou no msn, HEEELLPPP!

Update: Todos os problemas foram resolvidos graças ao maravilhoso Roberto.


Monday, January 21, 2008

Dois Fetiches, Uma Modelo

Jezebel Jezebel Jezebel Jezebel

Ateus nas Trincheiras

Uma piadinha americana diz que não existe "ateu em uma trincheira". Pois bem, para negar essa besteirada, um grupo de militares, bombeiros e policiais criou a organização "Ateus nas Trincheiras" (Atheists in Foxholes) e agora estão processando o Exército Americano contra a crescente evangelização das fileiras, protestando inclusive várias ocasiões de "preces forçadas". Via de regra, eu acho que ateu, quando se organiza, fica mais chato e fanático que crente, mas apóio essa iniciativa.

Atheists in Foxholes

Atheists in Foxholes

Atheists in Foxholes

Brasileiros em Nova Orleans

"Brazilian Boom", matéria de hoje no jornal local de Nova Orleans, The Times-Picayune. E, nesse link, comentários dos leitores.

Gabeira 2008



Tudo o que eu poderia dizer, o Pedro Dória já disse aqui. Gabeira, precisamos de você. Site e email do deputado.


Sunday, January 20, 2008

Bom Crioulo, de Adolfo Caminha (I)

   Bom-Crioulo O romance Bom-Crioulo (1895), de Adolfo Caminha, surge em um contexto histórico conturbado: poucos anos antes, desapareciam dois símbolos centenários da nacionalidade brasileira, a monarquia e a escravidão. Nesse momento em que a nação é subitamente forçada a se reinventar e se redefinir, é sintomático e revelador o lançamento de um romance que questiona e inverte uma série de identidades tradicionais: homem e mulher, pai e mãe, heterossexual e homossexual. No trabalho a seguir, vamos considerar a repercussão crítica do romance, analisar a junção do elemento duplo-outro (homossexual e negro) e postular que, na verdade, o personagem mais dramático do romance, que lhe fornece boa parte da sua tensão, é o narrador onisciente em terceira pessoa.


Em 1886, durante sua viagem de instrução na Marinha, Adolfo Caminha teve oportunidade de conhecer os Estados Unidos, posteriormente escrevendo um dos primeiros livros de viagem que se tem notícia escrito por brasileiro, No País dos Ianques (1894). Nessas crônicas despretensiosas, podemos ver claramente o espírito naturalista do autor, que depois se refletirá em suas obras. Primeiro, ele elogia a independência e o desembaraço das mulheres americanas. Por seus assombrados comentários, podemos somente imaginar como eram oprimidas as mulheres brasileiras da época:

"Ah! sim, vi umas graciosas caixeiras acudirem pressurosas e desenvoltas, com o desembaraço próprio de sua raça, aos compradores, coisa aliás muito simples, muitíssimo natural, mas não no Brasil, onde as senhoras estão eternamente proibidas de competir com o outro sexo na vida pública. ... Às nove horas da manhã, que digo eu! às seis horas, depois de ligeira refeição, encaminham-se para o trabalho quotidiano, felizes, satisfeitas, envolvidas em grossas capas de lá no inverno, a bolsa de um lado, sem sequer fazerem-se acompanhar. Vão direitinhas de casa para a loja ou escritório, sem que ninguém lhes dirija uma pilhéria, sem que ninguém as desrespeite, e, à noite, recolhem-se da mesma forma, sempre alegres, transpirando saúde, a face rubra. ... O proverbial desembaraço das americanas manifesta-se a todo instante. Prontas sempre a repelir com dignidade um ataque à sua honestidade, elas se dirigem aos homens em qualquer parte, na rua ou nos salões, com a mesma simplicidade com que o fazem às amigas. O respeito entre os dois sexos, nas classes superiores, é um dos principais caracteres do povo americano. Habituados, homens e mulheres, a uma educação livre, vivendo uns e outros em comum desde criança, as americanas não se confundem nunca diante dos homens. ... Os pais depositam confiança ilimitada nas filhas. Deixam, sem escrúpulo, que elas saiam a passeio, de carro ou a pé, só ou em companhia de um amigo da casa, na certeza de que elas saberão zelar a sua castidade. Os raptos e os defloramentos são raros, não sei se devido ao temperamento da raça ou se à inflexibilidade da Lei. (caps.VI-VII, grifos meus, a não ser quando dito)

O outro lado da moeda naturalista é o racismo cientificista e determinista de Adolfo Caminha, visível em alguns trechos:

"A Escola de West Point é, sem exagero um exemplo raro de estabelecimentos desse gênero. E não era sem uma ponta de tristeza que nós, brasileiros — raça degenerada e linfática — víamos criar-se assim uma raça forte e alegre com todos os caracteres de virilidade e independência. ... É talvez um duro sistema de educação esse, mas incontestavelmente o mais acertado e eficaz. Simples questão de raça..." (cap.XV)

Em 1895, Caminha publica o romance Bom-Crioulo, cuja primeira edição se esgota rapidamente. O livro só será reeditado quarenta anos depois, em 1936, em uma edição bastante deturpada que será apreendida pelo Estado Novo sob alegação de ser comunista. Finalmente, com a terceira edição, em 1956, o livro é canonizado e não sai mais de catálogo. (Azevedo, 117, Mendes, 195) As primeiras reações da crítica são virulentas. José Veríssimo, respeitado crítico literário, é um bom exemplo da recepção do livro:

"Bom Crioulo é pior do que um mau livro: é uma ação detestável, literatura à parte. ... Como quer o sr. Adolfo Caminha que seja respeitado e estimado um homem que, sem utilidade alguma social, passou longos dias ocupado em analisar e discutir a psicologia improvável de nauseantes crimes contra a natureza, e tenta depois com isso despertar em nós o arrepio da curiosidade impura e mórbida?" (citado em Howes, 44)

Valentim Magalhães, editor da influente revista A Semana, escreveu:

"Ora, o Bom-Crioulo excede tudo quanto se possa imaginar de mais grosseiramente imundo. ... não é um livro travesso, alegre, patusco, contando cenas de alcova ou de bordel. ... é um livro ascoroso, porque explora - primeiro a fazê-lo, que eu saiba - um ramo de pornografia até hoje inédito por inabordável, por antinatural, por ignóbil. Não é pois somente um livro falsandé: é um livro podre; é o romance-vômito, o romance-poia, o romance-pus. ... Este moço é um inconsciente, por obcecação literária ou perversão moral. Só assim se pode explicar o fato de haver ele achado literário tal assunto, de ter julgado que a história dos vícios bestiais de um marinheiro negro e boçal podia ser literariamente interessante. ... Provavelmente o Sr. Caminha já foi embarcadiço, talvez grumete como seu louro Aleixo - o que ignoro. (citado em Howes, 43, Azevedo, 122-3)

A literatura naturalista é intragável: ela força os limites do possível e transforma novos temas em assunto literário, "mapeando regiões até então lacradas à literatura oficial". (Mendes, 33), revelando "os perigos e mistérios da sexualidade" (Mendes, 23) e gerando níveis de ansiedade insuportáveis. Uma história literária francesa resume grande parte da ansiedade do establishment literário e ainda antecipa a grande questão do pós-modernismo:

"(Os naturalistas) apaixonam-se pelo terrível, cedem à necessidade de fazer pasmar o público, e obedecem à lei que condena os recém-vindos a exagerar os seus predecessores: em virtude dessa progressão fatal, certo teremos escritos que farão um ponto de honra de estar para o Sr. Zola como o próprio Zola está para Balzac - mas repito-o, estão de antemão condenados a recuar um dia, seja embora perante o nojo do público ou o alto lá da polícia." (citado em Mendes, 31)Cortiço; Casa de Pensão, O

Até recentemente, Bom-Crioulo ainda era atacado em termos morais. Lúcia Miguel-Pereira, em 1959, escrevia: "O tema, já de si abjeto, é tratado de modo que o torna extremamente chocante, com pormenores de todo em todo desnecessários, por vezes com um mau-gosto declamatório impensável num escritor da categoria de Adolfo Caminha." (citado em Azevedo, 114-5) Já Wilson Martins, em 1978, criticava o livro pelo motivo oposto, pelo tema ser mais ousado do que o tratamento que recebeu, e por as relações homossexuais serem "sempre descritas por meio de perífrases e imagens envergonhadas, mal disfarçando a repugnância do autor e sua condenação moral." (citado em Azevedo, 116) Memórias de um Sargento de Milícias

Além disso, mais do que O Cortiço ou Memórias de um Sargento de Milícias, Bom-Crioulo é a primeira obra da literatura brasileira onde todos os personagens são de classe baixa. Não há mocinha pura e bonita para representar os conceitos tradicionais de feminilidade, não há vilão fácil e irredimível para odiar. Em um romance firmemente entrincheirado no território do "outro", o leitor burguês não tem nenhum personagem confortável com o qual se identificar. (Howes, 56) Não é à toa que o romance causava tanta ansiedade nos críticos.

Diante da avalanche de críticas, Caminha se vê obrigado a fazer uma defesa do livro, no qual faz uma profissão de fé do seu naturalismo:   Bom-Crioulo

"(O Bom-Crioulo é) nada mais que um caso de inversão sexual estudado em Krafft-Ebing, em Moll, em Tardieu, e nos livros de medicina legal. Um marinheiro rudo, de origem escrava, sem educação, nem princípio, num momento fatal obedece às tendências homossexuais do seu organismo e pratica uma ação torpe: é um degenerado nato, um irresponspável pelas baixezas que comete até assassinar o amigo, a vítima de seus instintos. Em torno dele, se espraia o romance, logicamente encadeado, de acordo com as observações da ciência e com análise provável do autor, que, no caráter de oficial de Marinha, viu os episódios que descreve a bordo. ... A julgar como certos imbecis - que os personagens de um romance devem refletir o caráter do seu autor, Flaubert, Zola e Eça de Queiroz praticaram incestos e atos monstruosos. ... Qual é mais pernicioso: o Bom-Crioulo, em que se estuda e condena o homossexualismo, ou essas páginas que aí andam pregando, em tom filosófico, a dissolução da família, o concubinato, o amor livre e toda a espécie de imoralidade social?" (citado por Mendes, 164; Azevedo, 123-4)

Como veremos mais adiante, tivesse Caminha se mantido fiel ao programa acima, talvez não fosse nem lido hoje. A tensão primordial que faz do Bom-Crioulo um grande romance nasce justamente da fratura do projeto naturalista de Adolfo Caminha.

(continua...)


Thursday, January 17, 2008

"Não Entendo a Claudinha!"

A maior paixão da minha vida é observar as pessoas, entendê-las, entrar dentro delas, saber porque fazem o que fazem. A maioria das pessoas não é muito difícil de entender.

Por exemplo, Claudinha é linda, inteligente, talentosa. Passou por vários namorados. Todos homens interessantes que a idolatravam. Um belo dia, conheceu Paulo, que nos dias bons a tratava como se fosse mais uma, nos dias ruins, como se fosse cocô. Casaram em menos de um ano, estão juntos até hoje, dois filhos. Apesar de ser uma mulher independente, forte e liberada, formada e pós-graduada nas melhores universidades (etc, etc), largou dois excelentes empregos para segui-lo daqui pra lá, no melhor estilo mulherzinha.

E eu acho graça porque os amigos entendem mas fingem que não entendem. É assim: "Ai, Alex! O João era lindo, rico, tratava a Claudinha como uma deusa. O Antonio era o homem mais interessante da cidade e beijava o chão por onde ela andava. E ela largou todos eles pra ficar com o Paulo que parece que só não dá na cara dela porque não vale a pena o trabalho!" E, depois de demonstrar que entendeu a Claudinha perfeitamente, a amiga suspira e fala: "Não entendo a Claudinha!" Ué, como não entende? Acabou de explicar tudo.

Em História, a gente tem um mantra: a história, por definição, nunca é paradoxal; você é que não entendeu alguma coisa.

A Claudinha finalmente ter caído na mão do Paulo não tem nada de paradoxal. Afinal, aconteceu, não é? Para os atores do drama, tudo faz o mais perfeito sentido. Se pra você, que está de fora, a relação parece paradoxal, é porque você não entendeu quem eles eram, quais eram seus anseios, o que estavam buscando, etc.

Eu tento sempre fazer o caminho oposto. Eu parto do princípio que, com raras e honrosas exceções, as pessoas acabam sempre vivendo a vida que escolheram viver, mesmo que (quase sempre) não saibam disso.

Por definição, a Claudinha passar pelas mãos de vários homens e só sossegar o facho nas mãos no Paulo não é paradoxal. Claramente, sua relação com o Paulo lhe dá algo que ela precisa e que os outros não davam. Isso é tão patentemente óbvio que me espanta não ser o senso-comum - mas não é.

Mais difícil é descobrir o quê afinal ela vê no tal Paulo. O desafio aqui é julgar não do ponto de vista dos seus próprios preconceitos, mas dos anseios e expectativas do outro. Tem gente que acha levar bofetada uma coisa ruim, tem gente que não vive sem. Conheço até quem goste de lamber pé sujo. Quanto mais você aplicar suas opiniões e valores na tentativa de compreensão do outro, mais você não entenderá nada e mais achará tudo "paradoxal".

Eu adoro a Claudinha. Já passei uns dias em sua casa e, confesso, foi constragedor o esforço dele em não dar patadas nela em minha presença e dela, em fingir que ele era o maridão perfeito e amoroso. Tentarei não me hospedar mais na casa deles. Mas, nesse caso, a maior convivência tirou minhas últimas dúvidas: não é que Claudinha seja sexualmente submissa, como tantas mulheres fortes e independentes que conheço. De certo modo, o tesão dela está na caça. Os seus outros homens já chegavam nela pré-conquistados, babando, idolatrando-a. Já Paulo ela precisa reconquistar todo dia, mantê-lo sempre interessado, agradá-lo. E cada feedback positivo, por menor que seja, é uma grande vitória que compensa tudo.

Quase posso imaginar os dois daqui a quinze anos, ele finalmente se acalmando, ficando mais calmo e amoroso, e ela tendo uma daquelas crises da idade da loba, precisando sair e dar pra todo mundo, porque ele simplesmente não responde mais aos seus anseios, porque ele não lhe dá mais a chance de reconquistá-lo. E o pobre do homem não vai entender nada quando ela finalmente sair porta à fora nos braços de um canalha de vinte.


Wednesday, January 16, 2008

Carolina Maria de Jesus

Assunto: Carolina de Jesus

Caro Alex! Gostei de ter lido algo sobre a vossa ignorancia. De um pulo em Heliopolis e veja quantas pessoas lindas VIVENDO por ali. Ha tantos catedraticos e letrados, a escrever com perfeicao gramatical e ortografica, falando tantos outros idiomas que o portugues, mas deixando de escrever algo de inteligente neste mundo. E continue assim. Meus cumprimentos
Imagino que ele se referia a esse texto.

Porque Não Me Convidam para Festas - UPDATED

Conversa no MSN, postada com permissão:

eu li o livro [Dom Casmurro] por causa do vestibular da unicamp, nao fiquei 'animado' em defender nenhum dos lados

e vc gostou?

eu não sou o maior fã de literatura mas achei um livro bom de ler, no sentido de que não se sente que está lendo, a história flui bem, entende?

hmmm.... um livro bom de ler é um livro que nao se sente que está lendo? isso é um elogio ou uma critica? uma comida boa de comer é a que vc nao sente que está comendo? uma mulher boa de cama é aquela que vc nao sente que está transando?

vou tentar me explicar melhor. li a cidade e as serras do eça de queirós também. também achei muito bom, mas tinha hora que eu ficava cansado de ler descrições e mais descrições

eu soh acho que se vc elogia uma leitura dizendo que ela nao parece leitura, o que vc está dizendo é que leitura é algo intrinsecamente ruim, e que a leitura é tao melhor quanto menos parecer leitura... eh um elogio estranho... eu entendi exatamente o que vc quis dizer, eu soh achei graca.

tipo, acho q não sei quais são os critérios pra um bom livro

oras, o criterio é se vc gostou ou não... quais sao os criterios pra uma boa comida? pra uma boa mulher?

gostei, só não sei explicar exatamente porque gostei

nao precisa explicar, ue. vc gostou e pronto. mas gostar de x pq x nao parece x é engracado... queria te ver na minha casa, comendo o feijao da minha mae. poxa, tia, seu feijao eh tao bom q nem parece feijao!

acho q estou pensando que tenho que agir feito um crítico literário

de onde vc tirou que tem que agir como critico literario?

vc perguntou se eu gostei e eu pensei mais ou menos assim: "e agora? o cara é metido em literatura. dizer que gostei só não vai ser o suficiente"

hahahaaahhaha... vixe, quanto estresse por uma pergunta tao simples

é. sabe, é engraçado que eu nunca imaginei pq algumas pessoas não te convidam mais pra casa delas depois q vc faz perguntas

pois eh, azar o delas

eu fiquei sem saber direito oq falar agora =)

relaxe, homem... tudo comecou pq eu perguntei o que vc achou de um livro e vc quis falar bonito

exato

falar bonito nunca dá certo... fale o que vc quer dizer e pronto...

haha... ja devem ter te falado, mas suas perguntas desarmam completamente a pessoa... sua curiosidade...

as pessoas é que andam muito armadas.

as coisas q vc fala q as pessoas normalmente nao falam por "educação" ou medo ou sei lá

nao foi facil, viu? tive que desaprender tudo o que me ensinaram

Update

Dois comentários:

pô Alex, se o msn te causa tanto problema assim, por que vc. não muda pro skype? acho muito melhor.
Problema? Onde foi que você viu problema??
"confesso que nao entendi tua perplexidade frente à afirmacao dele de q "um livro bom de ler é um livro que nao se sente que está lendo". ele tinha acabado de dizer que nao gosta de ler, que nao "é o maior fã" de literatura! se eu te digo que nao gosto de feijao e voce ainda assim me obriga a provar o feijao que voce fez, voce ia achar estranho se, caso eu gostasse, eu dissesse: "seu feijao eh tao bom q nem parece feijao"?"
Em minha defesa, eu posso dizer isso: eu não saio por aí perguntando pras pessoas o que elas acham de livros. Meu amigo é que puxou o assunto Dom Casmurro da cartola e eu perguntei, inocentemente, por falta de outra coisa pra dizer, o que ele tinha achado. E foi daí pra baixo.


Monday, January 14, 2008

O Problema da Moradia em Cuba

Matéria no Granma de sábado admite o sério problema da habitação e promete 50 mil novas casas ainda esse ano. Um dos capítulos do meu livro sobre Cuba, Radical Rebelde Revolucionário, é justamente sobre isso: "Quem Casa Quer Casa". Abaixo, um trechinho:

* * *

Paseo Marti, área nobre de Havana Velha, dez da manhã de sábado. Há uma pequena multidão na rua, carregando cartazes, conversando. Dêem uma olhada nas fotos abaixo. Eu penso: ué, manifestações políticas públicas não são proibidas? Curioso que sou, puxei um cubano e perguntei o que estava acontecendo. Tratava-se de uma feira informal de permuta de imóveis. (...)

Real Estate Fair

O governo costumava construir conjuntos habitacionais – pra lá de onde Trotsky perdeu as botas, horríveis, enormes, estéreis, parecendo ter sido projetados por um alemão oriental autista que estagiou com Oscar Niemeyer – mas agora, sem dinheiro dos russos, nem isso.

Se você quer sair da casa dos seus pais e morar sozinho, desista. Se você se casou e quer ir morar no seu cantinho com seu esposo, esqueça. Em Cuba, a família é como a Máfia: ninguém sai. Só morto.

De todos os problemas que o país enfrenta, talvez a falta de moradia seja o mais desesperador.

Real Estate Fair at the Paseo

Ao contrário de Nemesia, que torce para a sogra escorregar no chuveiro, Francisco não parece ter pressa para a morte da mãe. Provavelmente por amor. Talvez por dignidade humana básica. Talvez porque tanto Francisco quanto Tobias têm seus próprios quartos em suas casas. Talvez porque, de qualquer modo, não seria politicamente prudente que morassem juntos. Francisco está preocupado com outra morte: a de Fidel e o caos generalizado que, segundo ele, se seguirá. (...)

Chegamos num ponto da história em que mesmo os maiores inimigos de Fidel receiam sua morte: pelas esquinas de Havana, trocam-se cenários apocalípticos pós-Fidel como, em outros lugares, trocam-se fofocas sobre Angelina Jolie e Brad Pitt. Fica-se com a impressão de que a morte do Fidel trará nada mais nada menos que o fim da civilização. Dado o que aconteceu na Rússia, não é um temor infundado. (...)

Na Roma Antiga, o poder dos patriarcas era absoluto e incontestável. Enquanto seu pai fosse vivo, mesmo que você tivesse cinqüenta anos e fosse senador, ele podia te matar – legalmente. Ninguém ficaria espantado de saber que, nessa sociedade, parricídio era mais comum que restaurante vegetariano na Califórnia. Para muitos homens ambiciosos, matar o pai era o primeiro e mais necessário passo da vida pública.

E eu fico pensando cá com meus botões qual deve ser a taxa de familicídio na Cuba de hoje. Quantos jovens apaixonados não matariam sem hesitar uma avó gosmenta para viver juntos em seu ninho de amor? Chega a ser romântico, um ato extremo que selaria a união dos pombinhos: matamos primeiro minha mãe ou a sua, meu amor?

* * *

Radical Rebelde Revolucionário

Para ler o texto completo, e outros mais, compre o ebook Radical Rebelde Revolucionário - Crônicas Cubanas, à venda pela internet por apenas R$20.


Sunday, January 13, 2008

Stripfeet

Estou voltando pra Nova Orleans amanhã. Comentário de uma amiga querida, queridíssima que eu não consegui ver durante minha estada no Rio:

voce agora so sai com a mirna, com a morna :-) comigo nem uma aguinha de coco... deve ser pq eu n faco stripfeet p vc

Os Cds do Meu Carro

Lulu passou o fim de semana no Rio, andou no meu carro, ouviu minha seleção de CDs e comentou: "se esses seus fãs-leitores souberem dos seus gostos musicais, eles te desguruzam de vez". Bem, com tão nobre objetivo em mente, aqui vão os 10 CDs atualmente no meu carro:

  • Amazônia É Brasil - Turíbio Santos e Carol McDavit (adoro o violãozinho do Turíbio)
  • The Essential of Heitor Villa-Lobos (muito bom)
  • McHits - 10 Sucessos do Pop Rock Nacional (horrível, eu sei, eu sei, achei no meio da tralha da mudança, devia ser da ex-mulher mas fiquei curioso pra ouvir porque não conhecia as músicas)
  • Filarmônica na Rocinha - Ao Vivo - Projeto 2001 (legalzinho, mas seleção fraca)
  • Queen Live Magic (um bom disco ao vivo do Queen)
  • 25 Poesias Lidas por Luiz Biajoni (também achado na mudança, vale pelas poesias do Tiago Neloah)
  • Ibrahim Ferrer (seu primeiro disco solo, tinha que ter alguma música cubana)
  • Há Dez Mil Anos Atrás -Raul Seixas (o primeiro disco do Raul que comprei e ainda o meu preferido)
  • Floresta do Amazonas - Heitor Villa-Lobos e Bidu Sayão (maravilhoso)
  • Modinhas - Capella Brasilica (música brasileira e portuguesa de salão dos sécs XVIII e XIX; lembrem-se que o século XIX é o meu século)
Pronto. Fãs do LLL, don't let the door hit you on the way out.


Saturday, January 12, 2008

O Peso de Um Segredo

Eu sempre gostei de saber de todas as histórias sobre a vida de todo mundo. E, como bom contador de histórias que sou, também sempre gostei de passá-las adiante.

Algumas pessoas chegam ao cúmulo de me chamar de fofoqueiro, mas prefiro o termo técnico: jornalista.

Enfim, odeio guardar segredos. Acho que as boas histórias têm que ser contadas. Ser contada é a razão de ser de qualquer história. Uma boa história não contada morre de solidão.

Toda vez que alguém me pede segredo de alguma coisa, eu morro um pouco.

Não posso contar pra ninguém?

Não.

Nem mudando os nomes?

Não.

Nem se eu mudar os nomes, os locais, os fatos?

Não, não, não!

Ou seja, tortura.

Sobre a minha vida, não tenho segredos. Qualquer coisa que diga respeito a mim e que não seja pública e notória é porque envolve a privacidade de algum outro.

Segredos são cancerígenos. Eles andam dentro da gente pulsando, apodrecendo, querendo sair. Ninguém me tira da cabeça que essas pessoas que fazem um check-up e, quando vão ver, estão podres por dentro, é porque carregavam segredos demais.

A Pizza Inteira


Antigamente, quando eu era mais jovem e ansioso, eu prometia segredo em troca da confidência:

Alex, eu só te conto se você não contar pra ninguém.

Ninguém? E se for só pra uma pessoa?

Pra ninguém! Senão, não conto.

E minha curiosidade vencia, eu baixava a cabeça, derrotado:

Tá bom, conta.

Eu saciava aquela vontade irreprimível, aquela curiosidade louca, mas era como devorar uma pizza inteira sozinho: bom na hora, mas depois pesa. E eu era obrigado a andar pela vida carregando o peso daquele segredo que nem era meu, que eu não queria carregar e nem podia passar adiante, pustulando dentro de mim.

Tancredo e Woody


Dizem que um jovem político chegou pro Tancredo e disse que tinha um segredo pra lhe contar, mas que ele não podia contar pra ninguém.

E Tancredo respondeu:

Meu filho, se você, que é o dono do segredo, não consegue guardá-lo, imagine eu!

Em Desconstruindo Harry, de Woody Allen, o protagonista homônimo é um escritor odiado por todos os seus conhecidos (especialmente ex-mulheres) por incluir detalhes deles em seus livros.

Harry está errado? Claro que não. Todos os escritores são assim. Vai ver faltou avisar os amigos.

Chega de Declarações em Off


Pois agora chega. Virei o Cabo da Boa Esperança. Já tenho 33 anos.

Minha paz de espírito e minha saúde mental são mais importantes do que satisfazer meus impulsos de curiosidade. Se for segredo, então eu não quero saber. Não precisa contar.

Ok, eu admito, eu até quero saber, mas agüento ficar sem saber. O que não agüento é carregar mais um segredo.

Entrou pelos meus ouvidos ou olhos e é bem capaz de acabar saindo pelas pontas dos dedos. Tudo o que eu sei ou posso vir a saber é matéria passível de ser incluída em algum futuro romance. Quem não gostar disso, não fale comigo, não ande comigo, não pague micos na minha frente.

Alexinho não aceita mais declarações em off. Só me contem o que eu puder passar adiante, citar na matéria ou incluir no enredo. Senão, calem-se para sempre. Prefiro ler Caras.

Nem mesmo os meus segredos eu carrego, não vou carregar dos outros.

Louis CK

Ultimamente, meu stand-up comedian favorito tem sido Louis CK. Abaixo, links pra dois de seus melhores sketches:


Friday, January 11, 2008

Números de 2007

Transei com 1 mulher (ganhei aliança, montamos casinha e nos apaixonamos ainda mais)

Beijei 3

Fotografei 24

Lambi 8 pares de pezinhos.

Peguei 16 aviões (o que, para um cara que detesta se deslocar, é um pesadelo), sendo que 8 com o Oliver

Passei 1 mês em Cuba, 1 semana em Salvador, 4 dias em Washington DC, 1 fim-de-semana em São Paulo e 1 dia em Nova Iorque

Escrevi 1 livro (sobre Cuba) e publiquei 2 (o de Cuba e 1 de crônicas)

Fiz 3 lançamentos em 3 cidades (Rio, SP, Salvador)

Vendi 143 livros (dos que eu escrevi: RRR 61, OPT 28, LLL 54)

Vendi R$70 mil em livros (pelo Submarino)

Fiz 2 testes de usabilidade para 2 das maiores empresas do país

Tive 300 mil visitas no LLL, uma média de 23 mil por mês, marcando assim a decadência absoluta desse blog.

Já meu Flickr teve 960 mil visitas (quase um milhão!), uma média de 80 mil por mês, e está prestes a completar 2 milhões de visitas.

Li 167 livros (dos quais somente 19 por prazer e/ou vontade própria)

Publiquei 50 crônicas na Tribuna da Imprensa


Thursday, January 10, 2008

A Colméia, de Camilo José Cela (Livros Preferidos)

  Colméia, A por Camilo José Cela (Esse post é parte da série "Livros Preferidos", onde vou falar um pouco sobre os livros que mais marcaram minha vida - veja a lista completa)

Uma quantidade simplesmente assombrosa de personagens, gerando uma quantidade ainda mais avassaladora de tramas secundárias e terciárias, paralelas e perpendiculares, povoam A Colméia, monumental panorama da boemia madrilenha da década de quarenta do século XX.Os Maias

Muitos livros igualmente monumentais (me vem à cabeça Os Maias, de Eça de Queiroz, entre tantos) cometem o erro de ter um enredo principal: o problema, nesses casos, é que o leitor fica tão absorto por ele (será que Carlos e Maria Eduarda vão ficar juntos?) que mal consegue prestar atenção às subtramas - por melhores que sejam. A auto-estrada distrai o leitor de todos atalhos e caminhos paralelos que poderiam ser deliciosos.

   Os Maias- 4 DVDsA Colméia não tem nem um fio narrativo que passe por um arremedo de enredo. Nada disso. São só retratos dispersos, engraçados, pungentes, personagem em cima da personagem, mudanças rápidas de cenário, cenas sempre curtas. E, por não ter estrada principal, o livro permite ao leitor apreciar com mais vagar, com mais delícia, os atalhos, os desvios, as pequenas estradinhas secundárias - mesmo que você às vezes se perca um pouco.

Não importa: A Colméia foi feita para você se perder dentro dela.

* * *

Durante a Guerra Civil Espanhola, Camilo José Cela cometeu a heresia (mortal para um artista) de lutar pelo lado vencedor. Enquanto artistas do mundo inteiro se alistaram para combater o Fascismo Franquista, Cela o defendeu. Depois da guerra, horror dos horrores, ainda trabalhou de censor jornalístico. Por muito menos, Gilberto Freyre e Adonias Filho foram silenciados por trinta anos. Revolucionários: Ensaios Contemporâneos

Em artigo para o The Guardian sobre seu excelente livro Revolucionários, Eric Hobsbawm, comunista até a medula e um dos grandes historiadores do século, faz um balanço do envolvimento dos escritores na Guerra Civil Espanhola

"The Spanish civil war united a generation of young writers, poets and artists in political fervour. The wrong side may have won, but in creating the world's memory of the conflict, the pen, the brush and the camera have had the more lasting triumph"
e consegue a proeza de nem mesmo mencionar Cela:
"As for Spain, there is no doubt where the poets of the Spanish language - those who are now remembered - stood: García Lorca, the brothers Machado, Alberti, Miguel Hernández, Neruda, Vallejo, Guillén".   Colméia, A por Camilo José Cela
Ganhador do Nobel (1989) e do Cervantes (1995), entre muitos outros prêmios, Cela é com certeza um dos maiores escritores de língua espanhola de todos os tempos, no mesmo nível ou superior a todos os citados. Com certeza, um homem da erudição de Hobsbawm não ignora a presença de Cela no lado oposto do conflito: se não o menciona, é proposital. Hobsbawm não era o único: o literary establishment hispânico, esquerdista como todo literary establishment, nunca perdoou Cela.

O que não quer dizer, naturalmente, que ele fosse um queridinho do sistema. Um grande escritor é sempre incômodo, até para o lado que ele apóia. A Colméia foi censurada na Espanha, por seu conteúdo sexual, e teve que ser publicada na Argentina, em 1951.

Em tempo: não, A Colméia não é um livro reacionário, conservador, diretista ou situacionista. Segundo o autor, seu protagonista é "o medo" e não foi à toa que as autoridades franquistas o censuraram.

* * *

Outras obras de Camilo José Cela:

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Wednesday, January 9, 2008

Talvez a Mais Genial Matéria do The Onion

Former Cult Members Find New Life In Christ:

Though cults often keep initiates surrounded at all times by other members, preventing the victim from having the chance to think any individual thoughts, Hurley says that, with time, the Fellowship House can help "break" such conditioning. By providing an environment in which survivors have constant, 24-hour access to prayer counselors and other support staff, the house helps them feel closer to Christ and His all-encompassing love.


Tuesday, January 8, 2008

As Havaianas da Anon

Em fevereiro, quando minha amiga Anon veio me visitar em Nova Orleans, eu lhe dei de presente um par de Havaianas - escolhidas por Liloló. Hoje, finalmente, ela postou um ensaio de fotos com meus chinelos - e mais um pouco. Aqui vão links para as fotos: tem que estar logados no Flickr pra ver: Havaianas 1, 2, 3 e 4. Não abram no trabalho.


(Deliciosamente nua na minha cadeira azul, Anon usa o Oliver para esconder seu rosto e sua nudez. Antológica. Esse cachorro é mesmo um sem-vergonha. E cheio de história pra contar.)

Outros posts sobre ela:

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Monday, January 7, 2008

Dom Casmurro, de Machado de Assis (Livros Preferidos) Updated

 Dom Casmurro MACHADO DE ASSIS
Antes de começar a escrever sobre Dom Casmurro, eu me pergunto: o que falar sobre um livro que todo mundo leu? E depois, me pergunto também: será que leram mesmo?

* * *

  Otelo Brasileiro de Machado de Assis, ODurante mais de meio século, leu-se Dom Casmurro como um romance de adultério. Nunca houve dúvida quanto à infidelidade da sem-vergonha Capitu. Somente em 1960, em O Otelo Brasileiro de Machado de Assis, Helen Caldwell levantou publicamente a questão: mas será que era?

Trinta anos depois, quando li Dom Casmurro no Ensino Médio, nossa professora fez o tradicional julgamento de Capitu. A maior parte da turma a considerava inocente (inclusive a professora) e um grupo menor defendia sua culpa. Sobrei eu pra ser juiz, o único que não tinha opinião formada.

Meu papel era somente julgar qual dos lados tinha levantado mais fatos e argumentos para provar sua opinião. As discussões foram acaloradas. Quase perdi amigos. Houve gente me acusando nos corredores de "anti-Capitu (ou pró-Capitu) desde criancinha". Mas resta o fato de que muitos adolescentes cultos e interessados tiveram leituras tão divergentes do mesmo livro.

Anos e anos depois, já no doutorado, lemos Dom Casmurro de novo. Dessa vez, o tom foi outro. Ninguém achou que Capitu era uma adúltera - imagina!, esse infeliz teria sido levado pirâmide acima e sacrificado ritualmente aos deuses do politicamente correto! De um modo bem real, a discussão em minha escola foi bem mais rica: mais gente participou, mais pontos de vista diferentes foram levantados, ninguém teve medo de dizer que Capitu era uma vagabunda, o falocentrismo da literatura canônica não foi nem mencionado.

Um comentário que se ouviu bastante no doutorado foram variações de:

"como tanta gente pôde ler esse livro tão errado tanto tempo? É óbvio que o livro é sobre o ciume louco e obssessivo de Bentinho, não sobre uma traição (que nunca existiu) da pobre Capitu! É tão óbvia a reticência do autor quanto à traição rio de Capitu que é simplesmente impossível ler o romance como um simples livro sobre adultério!"
Pronto: o pêndulo agora girou para o outro lado. E lá fui eu ser do contra mais uma vez.   Capitu Sou Eu

Oras, se durante sessenta anos duas gerações de leitores viram o adultério de Capitu como auto-evidente, então é óbvio que o livro permite essa interpretação. Dizer o contrário é muita arrogância: é imputar uma cegueira imbecil aos leitores do passado. Equivale a dizer: pôxa, se não fôssemos nós, os leitores inteligentes de hoje, o segredo de Capitu estaria tão enterrado quanto Tutankamon antes de Lorde Carnavon. Somos o máximo!
(Dalton Trevisan, autor de Capitu Sou Eu, em entrevista a FSP, 23/5/92: "Até você, cara - o enigma de Capitu? Essa, não: Capitu inocente? Começa que enigma não há: o livro, de 1900, foi publicado em vida do autor - e até sua morte, oito anos depois, um único leitor ou critico negou o adultério?")
O lindo de Dom Casmurro é que não há saída para o enigma. Nunca vai haver resposta certa, por mais que ideólogos de ambos os lados dêem soquinhos histéricos no chão e gritem suas verdades. Cada argumento sempre corta para os dois lados.   História da Literatura Brasileira

Por exemplo, os defensores de Capitu alegam em seu favor a reticência de Bentinho: se houvesse realmente alguma prova concreta do adultério, ele teria dito e feito fanfarra. Se não fala nada, é porque não há o que dizer. Já os primeiros leitores do livro talvez pensassem o mesmo que José Veríssimo, um dos principais críticos literários da época, na História da Literatura Brasileira (1915):
"Era impossível em história de um adultério levar mais longe a arte de apenas insinuar, advertir o fato sem jamais indicá-lo. Machado de Assis é, com a justa dose de sensualismo estético indispensável, um autor extremamente decente. Não por afetação de moralidade, ou por vulgar pudicícia, mas em respeito da sua arte. Bastava-lhe saber que a obscenidade, a pornografia, seriam um chamariz aos seus livros, para evitar esse baixo recurso de sucesso, ainda que a fidalguia nativa dos seus sentimentos não repulsasse tais processos."
E então, pergunto eu, Bentinho silencia porque nunca houve adultério e não havia o que dizer, ou porque Machado é um "autor extremamente decente" e não havia porque dizer com todas as letras o que já era tão óbvio que tinha acontecido?

* * *

Para manter as coisas em perspectiva, algumas opiniões de alguns dos primeiros críticos de Dom Casmurro, gente (sempre vale a pena lembrar) tão inteligente e observadora quanto nós, mas filhos de outra época. Primeiro, mais José Veríssimo:Ensaios Escolhidos
"Dom Casmurro é exemplo desta sua superior faculdade de romancista, comprovada aliás em toda a sua obra. É o caso de um homem inteligente, sem dúvida, mas simples, que desde rapazinho se deixa iludir pela moça que ainda menina amara, que o enfeitiçara com a sua faceirice calculada, com a sua profunda ciência congênita de dissimulação, a quem ele se dera com todo ardor compatível com o seu temperamento pacato. Ela o enganara com o seu melhor amigo, também um velho amigo de infância, também um dissimulado, sem que ele jamais o percebesse ou desconfiasse."
Augusto Meyer, Ensaios Escolhidos, c.1940:
"Capitu mente como transpira, por necessidade orgânica. (...) fêmea feita de desejo e de volúpia, de energia livre, sem desfalecimentos morais (que) não sabe o que seja o senso de culpa e do pecado." [gente, que livro que esse homem leu?! Juro que só pode ter sido uma cópia diferente da minha!]
Barreto Filho, 1947:  Millor Definitivo: a Bíblia do Caos
"Essa infidelidade (de Capitu) excede o conflito moral que os romances exploram no adultério. O livro não tem semelhante vulgaridade. É uma falha mais radical, uma traição à infância, uma negação da poesia da vida, tanto mais dura, quanto se tem a impressão de que tinha de ser assim./.../ Infiel é a vida. Capitu é a imagem da vida."
Por fim, um mais recente, Millor Fernandes, aqui (dica do Bia):
Eu, porém, ao contrário dos erúditos, não tenho hipótese. Capitu deu pra Escobar. O narrador da história, Bentinho/Machado, só não coloca até o DNA de seu (do Escobar, claro) filho porque ainda não havia DNA, que atualmente está acabando com o romance “policial” e a novela passional.
* * ** * * Dom Casmurro MACHADO DE ASSIS

Defendo a ambiguidade. Eu não sei. Vai ver nem o próprio Machado sabia. O romance não é nem sobre uma adúltera safada que trai um pobre burguesinho (a certeza do adultério), nem sobre um homem obcecado por ciúmes que persegue sua inocente esposa (a certeza do não-adultério). O romance é sobre a dúvida. Se você chega em Dom Casmurro com certezas, já começou errado.

Mais interessante do que tentar adivinhar o que se passava na cabeça do autor é estudar como essas duas leituras tão óbvias e tão distintas refletem diferentes momentos da cultura brasileira. O livro continua o mesmo há 108 anos: quem mudou fomos nós. Uma história das leituras de Dom Casmurro é a própria história cultural do Brasil.

* * *
Outros livros sobre Dom Casmurro e Capitu:

  Capitu      Dom Casmurro: Escritura e Discurso: Ensaio em Literatura e Psicanálise

  Capitu: Memórias Póstumas         Amor de Capitu

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Sunday, January 6, 2008

Livros Favoritos Comprados e Não Comprados

Sobre a lista dos livros preferidos (apaguei o post original, pois os livros estão todos listados abaixo e não quis repetir), o Ulisses fez uma pergunta interessante:

Alex, vc diz q não compra livros... porém, esses vc comprou ou tem um exemplar com vc em casa (aqui ou nos EUA)? Consulta eles com freqüência? (o Whitman eu aposto q sim)
Vai parecer engraçado pra quem conhece a minha casa, vai parecer engraçado até pra mim, que passei o dia de ontem carregando parte dos meus milhares de livros do depósito para o apartamento novo, mas vá lá. Eu realmente evito comprar livros. Acho que é um dinheiro meio jogado fora. Aquilo pesa, ocupa espaço, ocasionalmente dá cheiro ruim na casa, muitas vezes você compra e nem lê, quase sempre você compra e nunca relê. Parece que as pessoas gostam mais de ter o troféu na estante da sala ("olha os livros que eu li!") do que os livros em si.

Qualquer livro que eu possa não comprar eu não compro. Empresto dos amigos, leio na web, pego na biblioteca. Obras em domínio público não tem porque comprar. Já perdi a conta de quantas vezes li Whitman e Thoreau - sempre por ebook.

Hoje em dia, eu só compro três tipos de livros:

1) Os que eu amo e adoro e quero ter por razões emocionais - mas são pouquíssimos.
2) Os que preciso pra trabalhar, que vou riscar, sublinhar, escrever na margem.
3) Os recém-lançados - e eu tento sempre encontrar primeiro um amigo que me empreste.

Pra Nova Orleans, eu só levei os segundos e alguns poucos dos primeiros. Whitman foi. Mas nunca abri. Quando preciso dele, leio no computador.

Só por curiosidade vamos ao breakdown da lista de livros favoritos:

Livros que eu li emprestado e nunca comprei
Sem Tesão Não Há Solução ROBERTO FREIRE
Na verdade, pedi um "empréstimo indeterminado" à minha amiga e lhe agradeci por ter me emprestado um dos livros mais importantes que já li. A nossa edição tem um blurb MEU na contracapa. Estou há um ano e meio pra ligar pra editora e pedir um exemplar de divulgação.

Livros que eu li da biblioteca e nunca comprei
 Quarup Amada, por Morrison
Sério. Vejam só. São dois livros maravilhosos, magistrais, sensacionais. Mas já li. Não vou ler de novo. Que bem me fará fisicamente *ter* esses livros? Se quiser ler de novo, pego na biblioteca.

Livros que eu li da biblioteca e depois comprei
     Memórias de Lázaro  ADONIAS FILHO O Senhor dos Anéis Dom Casmurro MACHADO DE ASSIS  O Cemitério dos Vivos, por Lima Barreto     Crônica da Casa Assassinada LUCIO CARDOSOSobre Heróis e Tumbas ERNESTO SABATO
E mesmo esses foram comprados "mais ou menos". Senhor dos Anéis eu comprei de novo mesmo. Crônica da Casa Assassinada foi uma loucura perdulária de um dia com muito dinheiro na mão. Memórias de Lázaro estava quase de graça num sebo. Já os outros vieram num conjunto: comprei as obras completas de Machado, Sábato e Lima Barreto, e as obras que eu já tinha lido vieram junto.

Livros que eu li da internet e depois comprei
Folhas das Folhas de Relva, de Walt WhitmanWalden ou a Vida nos Bosques e a Desobediência Civil, por Henry David Thoreau
Mesmo assim, quando quero ler, leio na internet que é mais prático. Mas são bons demais.

Livros que ganhei de presente
 Romance d´A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-VoltaOn the Road, de Jack Kerouac  Cavaleiro Inexistente, O por Italo Calvino   Mrs. Dalloway VIRGINIA WOOLF  Defeito de Cor, UmTrilogia Autobiográfica, por Gorki
Geografia dos Mitos Brasileiros, de Luís da Câmara Cascudo
O Suassuna e a Ana Maria foram exemplares de divulgação da editora. Mrs Dalloway foi presente da Ana Lúcia (muito obrigado!), o Cascudo de um leitor que eu agora não lembro (perdão!!), o Górki do meu pai, o Calvino de um amigo e o Keroauc, do povo de Berkeley, Califórnia - comprei com um vale-presente.

Livros que eu li o meu próprio exemplar
 47 Contos de Isaac Bashevis Singer  Insustentável Leveza do Ser, A Milan Kundera Declínio e Queda do Império Romano, por Edward Gibbon Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre Tropico de Câncer HENRY MILLER  Esplendor de Portugal, O ANTONIO LOBO ANTUNES   Novelas de Torquemada, As BENITO PEREZ GALDOS Amor Insensato, por Tanizaki  Terra Sonâmbula, por Mia Couto Discurso do Método RENE DESCARTES Breve Romance de Sonho Hora da Estrela, A CLARICE LISPECTOR   Água Viva CLARICE LISPECTOR   Grande Sertão: Veredas JOAO GUIMARAES ROSA Dama do Cachorrinho e Outros Contos, A  O Cemitério dos Vivos, por Lima Barreto  Colméia, A por Camilo José Cela  O Enteado, por Saer Pais e Filhos, por Turgueniev Morro dos Ventos Uivantes, O EMILY BRONTECem Anos de Solidão GABRIEL GARCIA MARQUEZFicções JORGE LUIS BORGESBíblia do Peregrino O Castelo, FRANZ KAFKA

* * *

Aproveitei a virada de ano pra atualizar minha lista de livros recomendados, na coluna direita. Esses são os livros que eu amo, que mudaram e moldaram minha vida, que fizeram de mim o homem que eu sou. Recomendo todos, sem exceção. Planejo fazer um pequeno textinho sobre cada um deles. Podem cobrar. Os dois primeiros já estão prontos: A Colméia e Dom Casmurro.


Saturday, January 5, 2008

Ping-Pong com Alex Castro

No blog do Renato.


Friday, January 4, 2008

Casa Nova no Rio

Liloló e eu já estamos juntos há dois anos e meio. Nos conhecemos duas semanas antes da minha saída definitiva do Brasil: eu desmontei casa, dei tudo o que eu tinha, queimei todas as pontes... e essa mulher me amarrou o coração quase na sala de embarque do aeroporto.

De lá pra cá, muita coisa aconteceu. Todos os meus colegas do doutorado que tinham namorados "back home" já terminaram. Relacionamento à longa distância não funciona, dizem todos. Vi muitos outros namoros e casamentos acabarem nesse meio tempo. Nós também tivemos nossos altos e baixos, mas sobrevivemos a um por um, falando duas, três horas por dia no telefone quando estou lá e nos vendo sempre que possível quando estou aqui.

Dessa vez, para satisfazer o paladar gourmet da Liloló, eu trouxe vários exemplares de culinária creole. Hoje, pro jantar, estreei a cozinha preparando um jambalaya - e ela repetiu. Semana que vem, gumbo, o meu preferido. Quando voltar no meio do ano, etouffé. (O povo adora falar da música de Nova Orleans, mas jazz não passa de um bando de negão passando o som a noite toda sem nunca começar a tocar a música: quem conhece a cidade sabe que a maior contribuição de Nova Orleans à cultura mundial é culinária. Uma boa tigela de gumbo vale todo o jazz do mundo.)

Liloló é high maintenance, como ela mesma diz. Sou proibido de escrever qualquer coisa sobre ela no blog e o pouco que escrevo tem que passar por sua censura prévia. Minha tática é tratá-la como um daqueles vira-latas ariscos: você abre o portão, coloca um pouco de comida e água, e deixa ele entrar no ritmo dele. Quando quer sair, você deixa, e nunca tenta agarrá-lo. Discutir a relação, então, jamais. Aos poucos, ele vai voltando mais e mais vezes e fica cada vez mais tempo. Aí, um dia, você derrapa, mostra uma coleira, fala em casamento, e pronto, o vira-lata corre pra rua desesperado. Mas, no dia seguinte, ele volta de novo, devagarinho.

Dois anos e meio disso, parceiro. Relacionamento é todo um processo, não? Agosto passado, ela me deu uma aliança, pra simbolizar nosso compromisso. Eu não pude retribuir o gesto, porque senão - adivinhem? - ela iria correr pra rua. Mas tudo bem, eu a amo do jeito que ela é. Se ela chegasse em casa querendo discutir a relação, eu lhe apontaria uma arma e diria: "você cometeu um erro fatal, clone alienígena, agora diga o que fez com a verdadeira Liloló!"

View from my window
Vista do novo apartamento

Antes, quando estava no Rio, eu morava de favor na casa do meu pai. Agora, em dezembro, passei a alugar um apartamentinho no subúrbio. Minha idéia era eu e Liloló termos um lugarzinho pra brincar de casinha. Ela continua no apartamento dela, claro, pra não parecer que estou querendo encoleirá-la, imagina!, mas, pouco a pouco, cada vez que ela visita, ela traz uma coisinha nova, um tapete pra porta de entrada, um mini-rodo pra pia, um jogo de toalhas, essas coisas fofas. De vez em quando, ela derrapa e chama o apartamento de "nosso". Eu não falo nada - senão ela corre pra rua, naturalmente - mas anoto tudo num caderninho: já foram dezessete menções ao "nosso apartamento", sei dia e hora de cada uma, podem perguntar.

Não sei se vou ficar nos EUA depois do doutorado ou voltar pro Rio. Não sei se ela vai querer ficar no Rio brincando de casinha nas férias ou ir pra Gringolândia. Não sei nem se estaremos juntos amanhã. As pessoas fazem planos demais. Se nossa relação tem futuro? Não sei nem se EU tenho futuro. O futuro é uma prisão.

Sei que a nossa relação tem presente e o presente, pelos últimos 30 meses, tem sido bom demais.

View from my window 2
Só amadores pensam que o Rio é uma cidade de praia. Os nativos sabem que o Rio é uma cidade de montanhas. E que saudades das minhas montanhas!


Thursday, January 3, 2008

Do Fogo para a Frigideira ou We Are Number One

Plane Landing on Rio's Domestic Airport 2 Sunset on Ipanema Igreja do Carmo e Edifício Cândido Mendes O Rappa
More of the Abandoned Chocolate Factory Minha Terra Lapa (Old Rio) Rio Cathedral, the Aqueduct, the Bay and the Sugar Loaf

Nova Orleans acabou de retomar seu tradicional posto de capital de homicídios dos Estados Unidos: em 2007, foram 71 por 100 mil. Para fins de comparação, as regiões metropolitanas do RJ e de SP, tiveram em 2004 respectivamente 64 e 53 homicídios por 100 mil. (Se alguém tiver dados mais recentes ou mais precisos, pode me passar.)

De qualquer modo, é bom se sentir seguro.

Flooded Safe Boxes Church of the Most Holy Name of Jesus Building on Esplanade Ave Street Musicians by the River  (People of New Orleans) Mater Dolorosa Church
Destroyed House Katrina Gave Me a Blow Job I'll Never Forget Bienville House Hotel Mississippi River, Greater New Orleans Bridge, Natchez Steamboat & Moonwalk View from Wyndham Hotel, New Orleans

De Tantas Coisas Lindas Nesse Mundo...

Não existe nada mais lindo do que uma mulher linda.

Renata and Water

Renata Renata in Deep Meditation Renata on Her Way to the Ocean

Renata Crunches Toes Renata and Fiona Renata in Full Glory Renata and Fiona Renata Does the Andalusian Spree Renata's Legs and Feet Renata's Feet


Wednesday, January 2, 2008

Blogs Que Eu Leio

Vivem me perguntando que blogs eu leio e a resposta é: quase nenhum. Talvez o único blog que eu leio pelo blog é o do Scott Adams. De resto, não tenho tempo nem saco pra blogs. Os únicos blogs e fotologs que visito são das pessoas que eu gosto, pra saber como estão e acompanhar suas vidas. Devo ter esquecido algum, mas a lista principal vai abaixo. Não sei se são blogs particularmente bons, mas são escritos por gente que eu particularmente gosto (os sites da Anon e da Beth são proibidos para menores, não abram no escritório):

Allan Ana Anon Bel Beth Bia Branco Bruno Camila Carol Cinthia Dani Doni Diego Fábio Flávia Harry Helder Ian Idelba Ina Léo Lulu Marcela Marina Marmota Maurício Mauro Nemo Nituche Pablo Paula Paula, fiha de Tom, afilhada de Chico, neta de Zé Loiro Rafa Renata Sergio

Um Dia em Grumari com Mirna

Matching Swimwear

Sunga e biquini combinando. Só podem ser recém-casados. Namorados não pagariam esse mico, nem ninguém casado há mais de dois meses.

Mirna's Toes Leaving Grumari Macumba Beach Prainha The Road from Grumari


Tuesday, January 1, 2008

Leituras 2007

Ano passado, eu li 167 livros. A lista completa está na coluna da direita. Eu sempre faço esses cálculos abaixo privadamente, mas como, acreditem ou não, vivem me perguntando da minha lista de leituras, aqui vão minhas considerações em público:

Minha definição de livro lido é a seguinte: um livro que eu li ao menos uma parte substancial, de modo que eu esteja apto para escrever honestamente sobre ele com segurança sobre seu conteúdo. Se fosse incluir todo livro que eu folheei ou li dois ou três capítulos, a lista cresceria exponencialmente. A bibliografia do meu ensaio sobre Borges e o Martín Fierro, por exemplo, tem 38 itens: somente 11 satisfazem a definição acima e aparecem na minha lista de leituras.

2007 foi o ano em que mergulhei de cabeça na literatura hispânica. Quase metade dos livros lidos foram originalmente escritos em espanhol: 78 - contra 52 em português e 29 em inglês. 2007 também foi o ano de Cuba: os livros escritos por cubanos ou sobre Cuba somaram 65, pouco menos da metade do total. Vamos lembrar que meu Doutorado é em Espanhol.

2007 foi um ano século XX. Eu já tive anos de ler praticamente só literatura novíssima (2003) e, em muitos anos, boa parte das minhas leituras são livros antigos. Pois em 2007 foram somente 19 livros dos últimos 3 anos, e somente 27 do século XIX (meu século) ou antes. Ou seja, o grosso da minha leitura em 2007 ficou firmemente ancorado na contemporaneidade do século XX.

Pior mesmo foi constatar o seguinte: dos 167, somente 18 foram lidos por livre e expontânea vontade, sem ligação com nenhuma obrigação pessoal, social ou profissional. (Por exemplo, Virgínia Berlim, o incrível novo livro do Bia, não entra nos 18: o Bia é meu irmão, eu jamais poderia não ler seu livro. Ou seja, apesar de lido por amor, esse "jamais poderia não ler" o coloca fora da lista dos livros lidos por livre e expontânea vontade.) Triste também é ver que são praticamente todos livros de entretenimento. Já leio tanta coisa pesada por obrigação que simplesmente não tenho mais energia pra ler A Montanha Mágica por prazer. Aqui vão eles:

Últimos Livros Lidos em 2007

167. Risério, Antonio. Utopia Brasileira e os Movimentos Negros, A. [Brasil, 2007] Dez.

166. Nejar, Carlos. História da Literatura Brasileira. Da Carta de Pero Vaz de Caminha à Contemporaneidade. [Brasil, 2007] Dez. Ex. de divulg.

  Pedagogia do Oprimido

165. Williams, Eric. From Columbus to Castro. The History of the Caribbean. [Trinidad e Tobago, 1970] Dez.

164. Borges, Jorge Luis. Prólogo con un Prólogo de Prólogos. [Argentina, 1974] Dez.

163. Borges, Jorge Luis. El Libro de Arena. [Argentina, 1975] Dez.

 Estrela Sobe, A

162. Sarlo, Beatriz. Borges, un escritor en las orillas. [Argentina, 1995] Dez. Internet

161. Freire, Paulo. Pedagogia do Oprimido. [Brasil, 168] Dez.

160. Omil, Alba. Cuatro Versiones del Martín Fierro. [Argentina, 1993] Dez. (TulBib)

159. Estrada, Ezequiel Martínez. Muerte y Transfiguración de Martín Fierro. [Argentina, 1948] Dez. (TulBib)

158. Alposta, Luis. La Culpa en Martín Fierro. [Argentina, 1998] Dez. (TulBib)

157. Lesser, Jeffrey. A Negociação da Identidade Nacional. (Negotiating National Identity. Immigrants, Minorities, and the Struggle for Ethnicity in Brazil.) [EUA, 1999] (TulBib.) Dez.1

História da Literatura Brasileira  Negociação da Identidade Nacional, A   Livro de Areia, O

156. Rebelo, Marques. A Estrela Sobe. [Brasil, 1939] Dez.1

155. Nuez, Iván de la. Fantasia Roja. Los Intelectuales de Izquierda y la Revolución Cubana. [Cuba, 2006]

154. Evaristo, Conceição. Ponciá Vicêncio. [Brasil, ?] Presente da autora. Nov.20-

153. Carpentier, Alejo. El Siglo de Las Luces. [Cuba, 1962] Nov.20-25

152. Hernandez, José. La Vuelta de Martin Fierro. [Argentina, 1879] Nov

Nostalgia da Pólio & Outros Assuntos Cariocas

Da série "Posts que eu deveria ter feito meses atrás mas não tive tempo na época":



Andou circulando pela internet um pequeno documentário turístico sobre o Rio de Janeiro de 1936. Como não escondo meu amor por minha cidade linda, muita gente me mandou o link, alguns nostálgicos ("poxa, como seria bom viver nessa época, né?") e outros provocadores ("olha como era sua cidade e chora, malandro!"). Trocentos blogs reproduziram o vídeo, todos com textos belos e saudosos sobre o Rio de antigamente.

Nós, historiadores, sempre achamos muito engraçado essa nostalgia pelo passado. Qualquer um que já estudou qualquer época com atenção sabe que o passado (qualquer passado) é uma merda comparado com a vida de hoje (qualquer vida). Sim, ser branco rico no Rio do século XIX era melhor do que ser favelado pobre no Rio de 2007, mas os brancos ricos da época caberiam num único condomínio de luxo hoje: eram pouquíssimos. Não faz sentido comparar a situação da população média de hoje com a dos 0,3% mais ricos de antigamente - e, mesmo assim, seus indicadores de saúde seriam piores que os dos favelados atuais.

Pois é, mas eu nem ia falar nada disso, pra não cortar a onda do povo curtindo o vídeo. Se faço esse discurso cada vez que alguém comete uma nostalgia idiota, não faria mais nada da vida. Mas então, meu amigo Léo, que apesar de economista, pensa como historiador, fez um post estraga-prazer comparando os indicadores sociais e econômicos daquela época e de hoje. Valeu, Léo.

* * *

Por fim, dica do leitor Lucas, uma história panorâmica sobre o Rio de Janeiro, Panocomic, uma bela idéia, muito bem executada. Li com prazer achando que tinha sido escrita e desenhada por outro carioca doente como eu e fiquei surpreso quando descobri que seu autor é um quadrinista alemão que passou somente sete meses no Rio e já voltou com um português fluente. Essa cidade é uma coisa que entranha na gente.

* * *

Estou há duas semanas no Rio e ainda fico outras duas. Não dá pra esquecer a perfeita definição do Tom: morar nos EUA é bom, mas é uma merda; o Rio é uma merda, mas é bom.

E a verdade dessa expatriado que vos escreve, que não romanceia e não idealiza nem uma única pedra portuguesa da cidade suja, perigosa e decadente onde nasceu, é que só estar no Rio já é bom demais.


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