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Wednesday, January 31, 2007

As Mulheres, A Astrologia e Os Homens Inteligentes

Escreveu o leitor Roberto:

PUTZ!!!!!!!!!!!!!!! Realmente existe gente para tudo nesse mundo!! Marte no signo, primeira casa, ascendente, descendente, sol em peixes...astrologia é o fim da picada!!! Meninas, aprendam: homens inteligentes abominam mulheres que curtem astrologia!
E eu respondo: homem que não gosta de mulher que curte astrologia não gosta de mulher. Se o tal "homem inteligente" do comentário for excluir as mulheres que curtem astrologia do seu caderninho de telefones será mais prático jogar logo o caderninho fora. E nem vai adiantar virar gay, porque gay também adora um mapa astral. Melhor deixar a barba crescer e virar eremita.

Existe mulher que não gosta de astrologia? Claro. Elas são tão deliciosamente ecléticas quanto os homens. Existe mulher que gosta até de corrida de monster truck. Mas são as exceções.

Tenho um conhecido que não acredita em nada mas fez um curso de astrologia só pra entender os fundamentos. Os homens inteligentes de verdade não só também gostam dos assuntos que as mulheres gostam como ainda os estudam, pra ganhá-las no papo.

Deixar comentários raivosos em blogs não é coisa de homem inteligente. É mais coisa de quem tem leão com ascendente em áries regido por Plutão. Alguém já fez seu mapa astral?

Trago Pessoa Amada em Três Dias

A Gi andou brincando que a Liloló fez magia pra mim, mas olha só a busca que trouxe um usuário do Google ontem: "magia de chamar alex". Ai que meda.

Leia também: Trago Pessoa Amada em Três Dias

Ser Você Mesmo

Esse fim-de-semana saí com uma mulher. Já estávamos de papo na internet faz tempo, falando sacanagem. Tínhamos combinado de nos encontrar na outra semana, mas ela teve a tarde livre no sábado e perguntou se podia vir à Nova Orleans me conhecer pessoalmente - ela mora em uma cidade a uma hora de distância. Eu adorei a idéia e ela veio.

Foi uma tragédia. Ela demonstrou, não só por várias coisas que disse ao telefone e pela internet, mas também por vir até aqui só por minha causa, que estava muito interessada em mim. Mas não demonstrou isso pessoalmente. Desleixada, mal cuidada, carro imundo, andar masculino, conversa chocha. Eu, que estava interessado também, me despilhei na hora.

Não estou sendo superficial e julgando a moça seja pelo seu carro imundo ou pela mancha de molho na sua camiseta. Mas eu, por exemplo, arrumei a minha casa porque ela iria aparecer. Tomei banho, fiz a barba, fiquei cheiroso, me vesti bonitinho. São todos gestos básicos de carinho, mesmo por uma desconhecida. Especialmente por uma desconhecida.

A moça, claramente, foi ela mesma. E esse é o problema. Muitas pessoas (as que acabam sozinhas, morando com seis gatos) parecem acreditar que, para conquistar alguém, basta "aparecer e ser você mesmo" - como se desse para passar em uma matéria só indo a todas aulas.

Ele acabou percebendo que esfriei e foi embora. Deve ter ficado muito frustrada de ter vindo até Nova Orleans à toa e eu também fiquei morto de constrangimento, querendo sumir. Essas coisas são foda. Queria ter sentido tesão por ela, mas quando não dá, não dá. Fiz sexo por caridade uma vez, em uma situação parecida, e jurei nunca repetir a façanha.

Enquanto estava com ela, fiquei a tarde inteira pensando em como era sortudo de ter a Lililó, que é linda, inteligente, culta, malvada, conversa sobre qualquer assunto, fala quatro línguas, conserta motor e monta computador, cozinha e costura.

* * *

Uma das maiores fontes de infelicidade no mundo são os maus conselhos. Quantas vezes vocês já não viram essa cena? Alguém reclama que está solteiro(a), sem namorado(a), e vem alguma mãe, melhor amigo, primo, sei lá, dizer coisas como: "Fica assim, não, seja você mesmo e tudo vai se resolver. "

Por que as pessoas são tão cruéis? Se é pra dar um conselho que só vai piorar as coisas, por que não ficam de boca calada?

Ora bolas, se alguém está tentando arrumar um companheiro e não consegue, provavelmente é porque está sendo "ele(a) mesmo(a)" e não está funcionando. A solução é não ser você mesmo.

Não estou dizendo pra ninguém mentir ou fingir, mas ser "você mesmo" também não dá. Não há nada menos romântico do que o nosso "eu mesmo" de quando estamos sozinhos ou com a família. Tiramos meleca na frente de todo mundo, peidamos alto, contamos piadas idiotas, somos caladões, falamos sem parar, vestimos nossas roupas rasgadas, etc etc. (Meu pai sempre reclama que uso minhas piores roupas quando saio com ele. Ora, claro, se não usar minhas roupas rasgadas indo no shopping com meu pai, vou usá-las quando? Com cliente? Com a Liloló?)

Se você sai com alguém romanticamente e age como se fosse "você mesmo", como agiria se estivesse em casa sozinho ou com seu melhor amigo, então, sinto muito. A conquista é um momento de tensão: se você está tranquilo e relaxado, se é "você mesmo", já perdeu.

Não é preciso inventar, fingir ou ser outra pessoa: basta entrar em "modo sedução". Agir, falar, andar, se movimentar, se vestir de modo mais sensual do que no seu dia-a-dia. Brincar de gueixa. Agradar o outro. Transmitir uma linguagem corporal mais relaxada, mais aberta: convidar o outro a entrar em você.

Quando estou com uma mulher, eu nunca minto ou finjo, mas também não sou eu mesmo. O Alex "ele mesmo" gosta é de ficar em casa, nu, lendo literatura, fumando cachimbo e comendo pizza, sem ter que ouvir ninguém, aturar ninguém, agradar ninguém. Os outros "eu mesmos" de todo mundo que eu conheço são igualmente deprimentes.

Na verdade, de um modo bem real, precisamos de outras pessoas em nossas vidas para sairmos um pouco de nós mesmos, para nos melhorarmos, para crescermos. Até eu casar, eu ainda era uma criança. Eu só cresci e virei gente (ou seja, só deixei de ser "eu mesmo") por causa da minha ex-mulher, porque queria casar, porque queria ter minha própria casa, porque queria ser homem pra ela e não filho.

Deixar de ser você mesmo é um excelente exercício na arte de crescer. E de arranjar mulher. Ou homem.

* * *

Antes que algum idiota me acuse de sexismo, literalmente tudo o que eu disse aqui vale tanto para mulheres buscando por homens como para homens buscando por mulheres. Ou homens buscando por homens, ou mulheres buscando por mulheres, vocês entenderam.

* * *

Pra não falarem que estou escrevendo como se fosse algum guru-conquistador-invicto, faz algum tempo eu me apaixonei por uma menina e ela, por mim. Viajei até sua cidade para conhecê-la. Passamos três dias juntos que foram maravilhosos. Transamos, comemos, conversamos, passeamos, namoramos. Eu achei que era o começo de algo longo e poderoso. Mal voltei pra casa e ela terminou tudo por telefone. Nunca fui pego tão de surpresa. Ela não soube ou não quis, por piedade, explicar o que foi. Na verdade, não faria diferença alguma: o que importa é que ela provou e não quis mais.

Ela é uma pessoa maravilhosa. Linda, inteligente, sacana. Lê o blog. Continuamos bons amigos. Ainda não perdi a esperança de ela, no futuro longínquo, me dizer o que realmente houve ou de, no futuro próximo, cair de novo em uma cama comigo.

Mas, enfim, sei como a americana se sentiu. Quem nunca passou por isso? Só quem nunca tentou - e essas pessoas é que são realmente dignas de pena.


Monday, January 29, 2007

Um Defeito de Cor, por Ana Maria Gonçalves

Casa de Las Américas

Um Defeito de Cor, por Ana Maria GonçalvesUm Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, acabou de ganhar o Casa de Las Américas, um dos mais prestigiados prêmios literários latino-americanos.

Não vi notícia disso em lugar nenhum. Soube pelo blog do Idelber, que deu link pra uma matéria enterrada nas profundezas do UOL. Por outro lado, poucos dias depois, um documentário sobre o Brasil (feito por um filho de brasileira) levou um prêmio do Sundance e saiu na primeira página de tudo quanto é site de notícias, portal, jornal. Durma-se com um barulho desses.

Dentro da Escravidão

Um Defeito de Cor é bom demais. Virei várias noites lendo. Demorei mais de um mês, simplesmente não queria que terminasse. Um dia, de manhã, fiz algo que nunca tinha feito: acordei e, antes mesmo de levantar, peguei o livro na cabeceira e comecei a ler.

E chorei, chorei aos borbotões. Talvez nem pelo livro ser tão dramático assim. Mas estudo escravidão porque aquelas cenas e situações me afetam muito. O trecho no navio negreiro, por exemplo, simplesmente acabou comigo. Eu, que já li trocentas descrições, papers e teses sobre a travessia atlântica, nunca tinha tido que encarar uma versão ficcionalizada de um tumbeiro. Tem coisas que só a ficção faz por você. A Ana me colocou lá dentro e eu chorei como nunca na vida. (Fiquei com o olho cheio d'água só de lembrar.) É por isso que eu escrevo ficção.
 Cânone Imperial, O FLAVIO R. KOTHE
Submundos do Século XIX

Escreveu Flavio Kothe, um dos meus críticos literários favoritos, no maravilhoso O Cânone Imperial:

Negro não tinha poesia, o preto poria toda a arte a perder se falasse feito crioulo. Sua "arte" não era arte: no máximo, seria arteirice. Sob a aparência de defendê-lo, a literatura abolicionista condenava-o mais uma vez. (...) O negro nem é considerado gente, não entra no enredo que conta. Não há amores de negros que mereçam (...) um conto, um romance, uma peça de teatro. Eles não são dignos de literatura; quando nela aparecem só refletem a falta de dignidade, exemplos da maldade da "natureza humana".
Depois de ler trocentos romances românticos brasileiros do século XIX, canônicos e não canônicos, a impressão que fica é que, realmente, os negros não eram capazes de grandes amores, grandes dores, grandes sentimentos que gerassem grandes histórias. As aventuras são sempre dos heróicos galãs brancos e das doces sinházinhas alvas, se encontrando nos bailes da corte e morrendo de amores, e cercados por escravos e escravos que mais parecem autômatos, ou figuras de papelão. Moreninha, A JOAQUIM MANUEL DE MACEDO

Ler o romance da Ana, acompanhar as andanças de Kahide pela Rua do Ouvidor e pelo Pelourinho, se imiscuindo no submundo secreto dos negros, de alianças, sociedades e irmandades, vivendo, sofrendo, amando, morrendo, sendo protagonista de sua própria vida, a impressão que tenho é a de estar finalmente ouvindo o outro lado da história, o lado secreto, o lado escondido. É um pouco como reler A Moreninha só pra imaginar o que estavam conversando os escravos lá do fundo enquanto a ação corria cá na frente.

Dá vontade de voltar no tempo e dar Um Defeito de Cor pra José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo e Bernardo Guimarães lerem. Será que gostariam?

Empreendora do Século  Mauá: Empresário do Império JORGE CALDEIRA

A Ana vai acabar ficando rica com esse livro. Não por causa da sua qualidade literária, claro. Qualidade literária, ainda mais no Brasil, não enche o bolso de ninguém. Mas dando palestras em empresas, talvez ensinando literatura no IBMEC ou FGV, ou mesmo sendo patrocinada pelo SEBRAE.

Não conheço nenhum livro que exalte tanto o capitalismo, o livre-mercado, o valor da iniciativa. Esqueçam Mauá: o grande empreendedor brasileiro do século XIX foi uma negra liberta chamada Kahinde.

A triste constatação é que, até mesmo hoje em dia, talvez particularmente hoje em dia, a Ana ficaria mais rica se fizesse como Kahinde e fosse vender cookie na praça ou montar uma padaria, do que escrevendo romances magistrais como
Um Defeito de Cor.

O Ritmo de um Romance de Mil Páginas

Muita gente que leu o livro reclamou que é lento e tem longos trechos chatos. Devem ser as mesmas pessoas que vão à churrascaria rodízio e reclamam que só tem carne.

Ora bolas, não entendo essas coisas. Um romance histórico de mil páginas é um tipo bem específico de romance e demanda uma sintonia do público com suas características inerentes. A construção, ritmo, vocabulário, tudo, enfim, é completamente diferente desses romances nacionais curtinhos que estamos acostumados a ler. A impressão que tenho é que são raros os autores brasileiros que se aventuram além das 400 páginas. Quantos livros recentes vocês conseguem citar? Quase nenhum.

 Senhor dos Anéis J.R.R. TOLKIEN Se um conto é um beijo no escuro, então um romance de cem páginas é uma ficada longa e um romance de mil é um namoro. Não cabem trechos lentos em um beijo ou em uma ficada, mas em um namoro de dois meses eles são inevitáveis. Qualquer um enlouquece se mantiver por vários meses o ritmo de paixão alucinada dos primeiros dias.

Os trechos chatos são os períodos de relaxamento da trama. Aqueles longos trechos de cantoria de O Senhor dos Anéis, por exemplo, são chatinhos mas sem essas paradas para respirar, o ritmo intenso do romance seria insuportável.
Meu romance Mulher de Um Homem Só, de cerca de cem páginas, não poderia ser maior do que isso e foi escrito para ser lido de uma vez só - a voz narrativa é tão frenética e tensa que ninguém a suportaria por muito tempo. Mas ninguém pode ler Um Defeito de Cor de uma sentada: ele demanda um outro tipo de leitura.

Quem se aventura por um romance de mil páginas quer uma relação de longo prazo, quer um companheiro de jornada, quer um livro onde possa morar e mergulhar por semanas ou meses - não tensão constante e estridente.

Sim, eu também tive meus trechos menos preferidos. As primeiras cem páginas, quando Kahinde é criança, foram arrastadas. Escrever do ponto de vista de uma criança é muito complicado e sempre meio tedioso - vide O Caminho de Swann.

As últimas cem páginas também me pareceram anti-climáticas. Depois de nos afeiçoarmos a uma série de personagens brasileiros ao longo de centenas e centenas de páginas, a romance subitamente vai para a África e nos pede para esquecer os personagens que aprendemos a gostar e que nos afeiçoemos a um grupo totalmente novo de pessoas. Isso é difícil de fazer, para o autor, para o leitor e até para a personagem: nem a própria Kahinde consegue, pois continua fixada no filho que deixou no Brasil. Além disso, como muitos brasileiros e algo compreensivelmente, eu também fiquei mais interessado pelas partes que se passam na minha terra do que em lugares da África que nunca ouvi falar.

A grande diferença é que acho que nada disso prejudica o brilhantismo da obra. Não existe nem poderia existir romance de mil páginas frenético, sem trechos menos tensos, com períodos de relaxamento. Somente as 800 páginas centrais de
Um Defeito de Cor já são algumas das melhores escritas no Brasil nos últimos anos.

Identidade Racial no Brasil

Uma observação sociológica: agora que o livro saiu, algumas resenhas se referem a Ana como uma "autora afro-brasileira".

Aqui nos EUA, todo mundo sabe quem é negro: é aquele sujeito que não tem cara de leite. Ponto. Basta uma gotinha. Mas, no Brasil, as classificações são muito mais fluidas e contextuais. Muitas vezes, o mulato de terno e gravata e dirigindo um BMW é branco mas, na praia de sunga, é preto.

Não sei como a Ana se vê ou se identifica, mas a referência a ela como afrobrasileira me causou um certo estranhamento pois eu jamais a descreveria assim. E fico pensando: será que sou eu ou será que o fato de ter escrito um livro com uma protagonista negra fez com que as pessoas a vissem como negra também?

Um Defeito de Cor, por Ana Maria GonçalvesParadoxos da complexa questão de identidade racial no Brasil.

Agora, os Nossos Comerciais

O livro tem mil páginas e custa R$80 (R$63 no Submarino, com R$17 de desconto!) e eu queria que fosse menor e mais barato, só por um motivo. Pras pessoas comprarem mais, pra elas se darem o livro de presente, pra não terem medo de começar a ler. Eu sei que vou passar muitos anos recomendando esse livro pra qualquer um que queira entender de verdade, na carne a escravidão, mas sei que poucos vão encarar o preço e o tamanho.

Um livro assim deveria ter uma versão single, com um capítulo de amostra, por R$5. Depois, garanto que boa parte do povo comprava o director's cut.

Conselho de amigo: compre agora, antes que vire minissérie da Globo, e eles façam uma daquelas novas edições horrorosas, com a Taís de Araújo beijando o Lázaro Ramos na capa. Ah, eu odeio quando estragam algum dos meus clássicos preferidos assim: a cada vez que pego o livro, tenho que ver algum ator hollywoodiano vestindo ceroulas!

Comprando pelo Submarino e clicando aqui pelo blog, você economiza R$16 (já dá pra comprar duas entradas de cinema), remunera a Ana pelo seu trabalho, adquire um pusta romance e ainda dá uma comissãozinha pra esse blogueiro que te pilhou pra ler o livro. Todo mundo ganha.

A Tal Fofoca

Se você era uma das seis pessoas que ainda não sabia do que se tratava, Mestre Ina faz um apanhado completo de todas as idas e vindas da situação.

The Onion

A chamou atenção para uma matéria particularmente dolorosa do The Onion. Não é segredo pra ninguém que não existe gargalhada do bem: por trás de cada gargalhada, sempre tem alguém se fudendo. E é incrível como o The Onion, de modo engraçado e cirurgicamente doloroso, tem mapeado e registrado as neuroses, depressões e desgraças desse nosso novo mundo tecnológico. Três matérias particularmente cruéis e engraçadas de - literalmente - doer:

Couple Brought Together Through Mutual Desperation

Web-Browser History A Chronicle Of Couple's Unspoken Desires

Amazon.com Recommendations Understand Area Woman Better Than Husband


Sunday, January 28, 2007


Saturday, January 27, 2007

Guerra do Paraguai

Maldita Guerra FRANCISCO DORATIOTTO

O Leite de Pato está com uma excelente resenha de Maldita Guerra!, o melhor livro já escrito sobre a Guerra do Paraguai. Leiam também meus textos sobre a guerra.

Barra, vista da Pedra Bonita

A Perfect Date

Some Girls' Idea of a Perfect Date

O mais engraçado é que, muitas vezes, a menina só falta mesmo soletrar isso com todas as letras e, mesmo assim, seu "melhor amigo" ainda vai correndo atrás de rabinho abanando. Homem é bicho burro mesmo. Mas mulher também é bom demais - especialmente as canalhas, malvadas e aproveitadoras.

Dinheiro

Trabalho com consultoria desde 2000. Em finais de 2o01, quebrei: fechei minha empresa, vendi meu carro e fui dar aulinhas de inglês. Nos meses bons (sem contar férias), eu ganhava R$600 - que mal dava pro aluguel. Meus gastos mensais, espartanos, eram de cerca de R$1500. Façam as contas.

Vivia em um eterno deficit, sempre me endividando, sempre com a cabeça mal fora d'água. Todos os trabalhos de consultoria que fiz nesses anos serviram apenas para cobrir as dívidas. Quando estava pra afundar, pimba!, lá vinha um dinheirinho, e eu pagava o aluguel atrasado, o cartão de crédito, o cheque especial, tirava meu nome do SPC, e já acabava tudo.

Uma vez, uma grande empresa multinacional atrasou meu pagamento por quase um ano e fiquei devendo seis meses de aluguel. O meu senhorio entrou contra mim na justiça um dia antes de eu receber. Pra não pagar juros e mora, paguei os seis meses que estava devendo e mais seis pra frente. E lá se foi o dinheiro todo. História da minha vida.

Enfim, hoje fui pago pela consultoria que prestei em dezembro. Pela primeira vez, em sete anos de trabalho de consultor, eu não tinha dívidas sufocantes. Dívidas até tinha. Minha irmã e minha melhor amiga me emprestaram dinheiro durante o Katrina (um ano e meio atrás!) e só agora, com esse pagamento, consegui quitar tudo. Mas era dívida pequena. Sobrou dinheiro. Sobrou!

Vocês sabem o que é isso? Eu nunca soube. Faço 33 no mês que vem e, pela primeira vez na vida, tenho dinheiro economizado, ocioso, na minha conta. Pela primeira vez na vida, ganho um dinheiro que não vai ser usado imediatamente pra cobrir algum buraco premente.

É uma sensaçãozinha gostosa.


Friday, January 26, 2007

Eleições

Parece que as eleições presidenciais americanas vão ser entre Hillary ou Obama vs McCain ou Giuliani, quatro políticos fortes, interessantes, articulados. Os democratas são mais virgens (sim, Obama é simpático mas o que ele e Hillary de fato fizeram?) enquanto que até mesmo os republicanos são dois raros "republicanos do bem", com excelente fichas corridas de serviços à nação. Bem diferente das disputas entre não-entidades Bush vs Gore ou Bush vs Kerry. Qualquer um desses quatro que seja presidente, já sabemos que ao menos não será uma tragédia - o que é um grande consolo depois de 8 anos de Baby Bush.

Alerta Vermelho

A blogosfera brasileira está em polvorosa, a boataria corre solta, teorias da conspiração abundam, meu msn quase gastou hoje à tarde de tanto pipocar. Obviamente, não posso dar detalhes - se pudesse, a fofoca não seria tão boa - mas daqui a pouco, quando a merda explodir no ventilador, lembrem-se que leram aqui primeiro. Quem souber detalhes, me escreva. Não adianta perguntar que não vou poder responder, a não ser que você demonstre já estar por dentro - lei número um da boa fofoca.

Por Amor

Liloló diz que a melhor coisa de eu ter ido embora é que ela agora pode voltar a lavar o pé, estava deixando todos os seus sapatos com chulé. E eu respondi que o lado bom de voltar pros EUA é não ter mais que fazer a barba todo dia, fico com a pele muito sensível e cheia de bolotas, mas ela odeia barba malfeita roçando entre suas coxas, coitadinha.

Ah, as coisas que fazemos por amor.


Thursday, January 25, 2007

Olavo de Carvalho

Olavo de Carvalho é um idiota. Entretanto, muito pior são os idiotas que o lêem e dialogam com ele, como se ele tivesse alguma estatura ou relevância, sem perceber que só estão colocando azeitonas no seu pastel.

Três Momentos Televisão

Obrigado ao leitor que recomendou o episódio House vs God. Nunca tinha visto esse seriado e adorei. Vou correr atrás.

O primeiro episódio da nova meia-temporada de Battlestar Galactica é simplesmente sensacional, uma das melhores coisas acontecendo na TV hoje em dia.

Agora a tarde, chorei vendo um episódio de Ghost Whisperer em que o fantasma do noivo continua grudado na noiva e ela nele, num amor que não queria morrer. Pensei em mim e na Lililó separados por tantos quilômetros e caí no choro. Sou uma mulherzinha.

Deus

Eu não acredito em deus. E tenho a impressão que muita gente que diz que acredita realmente não acredita.

Eu não acredito no deus consciente das religiões organizadas, no deus dos cristãos, muçulmanos, judeus, no deus que vê, pensa e sente, que tem vontades e planos, que observa nossa vida, guia nossos destinos, cuida de nós e pune nossas transgressões das leis que ele mesmo estabeleceu.

O engraçado é que muita gente que também não acredita nesse deus (francamente, ridículo) diz que acredita em deus, mas que deus, pra eles, é outra coisa: deus é uma força, é uma energia, é algo inexplicável e maior que nós, etc.

Ora, se deus é isso, então eu também acredito em deus. Aliás, se deus é isso, então a gravidade é deus. As leis da física são deus. O próprio universo infinito é deus.

Dizer que acredita em deus e, depois, definir deus de uma forma que não tem nada a ver com a definição corrente de deus é como dizer que sim, gosto muito de cachorro quente, mas só daquele sem pão e com uma cenoura no lugar da salsicha. Assim é fácil gostar de cachorro-quente.

O mundo seria um lugar melhor e mais tolerante se essas pessoas simplesmente admitissem não acreditar em deus.

Leiam a Prisão Religião


Wednesday, January 24, 2007

Medo

Eu não tenho medo. Esse é talvez meu maior defeito.

Sim, eu tenho meus medinhos. Sempre achei que tinha medo como todo mundo. Mas falando com os outros eu reparo que meus medinhos não tem nada a ver com os pânicos que paralizam a maioria das pessoas.

Eu não tenho medo de ficar velho, careca, broxa.

Eu não tenho medo de ser despedido, de perder minha bolsa, de ficar sem fonte de renda.

Eu não tenho medo de ser pobre.

Eu não tenho medo de recomeçar tudo de novo, e de novo, e de novo.

Eu não tenho medo de perder tudo o que eu tenho, ou qualquer coisa que eu tenha.

Eu não tenho medo de morrer.

Eu não tenho medo de ser largado pelas pessoas que eu amo.

Eu não tenho medo da solidão, ou de terminar sozinho.

Eu não tenho medo de parecer maluco, antipático, arrogante.

Não ter esses medos não faz de mim uma pessoa melhor, pelo contrário. Por não ter esses medos, eu me tornei inconsequente, excessivamente auto-confiante, arrogante, antipático, egoísta, egocêntrico.

Eu tenho medo de não ter medo.


Monday, January 22, 2007

Seguir as Regras

Pra vocês, é fácil seguir as regras? Ser um cidadão respeitador é algo que lhes vêm naturalmente? Vocês falam as mentirinhas sociais de praxe e isso não lhes dói a alma?

Às vezes eu penso que minha civilização é só superfície, que por baixo sou um selvagem completo, um cro-magnon prestes a explodir. O meu dia-a-dia é marcado por um esforço quase sobre-humano pra ser um bom menino, um bom filho, um bom aluno, um bom professor, um bom colega, manter as aparências, ter as pequenas considerações, realizar as polidezas, dizer as mentirinhas sociais.

E me sinto quase sempre a um passo de perder o controle, de mandar todo mundo a merda, de chutar o balde, de não querer mais saber, de rasgar as vestes, sumir.

Respostas das Sugestões de Filmes

Filmes que vocês sugeriram e que eu já tinha visto e deveriam estar listados:

  • Hijo de la Novia (ótimo)
  • Lisbela e o Prisioneiro (ótimo)
  • Hable com Ella (o melhor Almodovar)
  • Amarelo Manga (ótimo)
  • Madame Satã (não me empolgou)
  • Casa de Areia (meu deus, pode um filme ser humanamente mais chato?)
  • Copo de Cólera (bem legal)
  • Abril Despedaçado (um dos raros filmes que levantei e saí do cinema no meio)
  • Panteleão e as Visitadoras (sensacional, e a Angie Cepeda é mesmo tudo)
  • Jogo Subterrâneo (tem bons momentos mas no geral é fraco)
  • Espinazo del Diablo (bom DEMAIS!)
Bufo & Spallanzani é um dos piores filmes de todos os tempos.

Machuca me parece ser chato de doer.

Lavoura Arcaica, Dia da Caça e Latitude Zero, não sei nada deles. Vocês recomendam? Como são?

Vocês me deixaram muito pilhado pra ver Quanto Vale ou É por Quilo?

Pago pra não assistir qualquer coisa escrita pela Fernanda Young.

Mar Adentro: via de regra, não tenho saco pra filmes tão dramáticos.

O Pântano é La Ciénaga? Se é, eu tenho mas não vi ainda.

Zuzu Angel está comigo, ainda não vi.

Pequeno Dicionário Amoroso e Amores Possíveis são duas das minhas comédias românticas preferidas, dois filminhos despretensiosos e deliciosos que são tudo que o cinema-pipoca tem que ser.

Já incluí Amantes do Círculo Polar, La Virgen de los Sicários, Al Sur de Granada, No Sos Vos, Soy Yo e Maria Llena Eres de Gracia na minha listinha.

O filme do Xangô é bom mas o livro é ruim de doer. De doer mesmo.

Só pra constar, por enquanto acho que Redentor é meu filme nacional preferido.

Fotas e Mais Fotas

Red Sunset Courtesy of the Mcnaught Comet

Meu último pôr-do-sol no Rio, visto da minha janela. A vermelhidão do horizonte é cortesia da cauda do cometa McNaught.

Odara Tédio / Ennui

Odara, a cachorrinha mais doce e pequeninha que já conheci. Ou, pelo menos, assim ela se via. Foto tirada no meu carro, enquanto eu a levava para sua nova casa. Tenho saudades. Segunda foto: momento de tédio na Passarela de Jacarepaguá.

Three Ferries on the Lagoon / Três Balsas na Lagoa Ferries / Balsas

Balsas na Lagoa de Marapendi. Vista da minha janela no Rio.

Últimos Textos Lidos para o Exame do Mestrado

Como é pra estudo, estou tomando notas. Depois, se os leitores todos não sumirem desesperados, eu posto aqui. Não são os livros todos, somente trechos.

  • Sigmund Freud. The Interpretation of Dreams. & The Uncanny
(Freud, como sempre, é genial. Independente da validade ou não de suas idéias, é um dos maiores escritores de todos os tempos.)
  • Louis Althusser. Ideology and Ideological State Apparatuses.
  • Walter Benjamin. The Work of Art in the Age of its Technical Reproduction.
  • Max Hockheimer e Theodor Adorno. The Culture Industry: Enlightment as Mass Deception.
(Meu deus, será que estou realmente virando de esquerda? ADOREI Althusser - que tinha odiado na universidade - e Benjamin - de quem eu já gostava - e até estou concordando mais do que discordava de Hockheimer e Adorno, por quem eu também tinha uma antipatia gigantesca. Aliás, o texto de Althusser tem tudo a ver com tudo o que eu digo nas prisões)

E os romances:
  • Clarice Lispector. A Paixão Segundo G.H.
(Só uma deusa como Clarice teria conseguido pull-off esse livro. Um romance que só poderia ter sido escrito por uma mulher.)
  • Patrícia Galvão (Pagu). Parque Industrial.
  • João do Rio. A Profissão de Jacques Pedreira.
(Dois romances diametralmente opostos e, por isso, semelhantes. Pagu narra a vida dos operários mais fudidos do Braz e João do Rio, dos aristrocratas mais dândis da Capital Federal. Os dois são bem interessantes.)

Lista completa de leituras pro exame de mestrado.

Seis Fotas

Los Tres Amigos

Los Tres Amigos. Na Passarela da Freguesia, em Jacarepaguá.

Hansl & Gretel

Hansl & Gretel. Na Passarela da Freguesia, em Jacarepaguá.

Tão Me Chamando Aí? / What? Who?

Hã? Tão me chamando aí? É pro Fantástico?

Poetry in Motion

Poesia em movimento nos ônibus de Nova Orleans.

Sanduiche Larica: Pão Doce com Presunto

Cúmulo da larica: pão doce com presunto. Ninguém me contou. Vi com esses olhos que a terra há de cuspir e devolver, e ainda fotografei.

Sign of the Times / Sinal dos Tempos

Sinal dos tempos em menu de tratoria carioca: o nhoque da fortuna agora vem com euro. Na minha época, era dólar.

Marcela P.

Minha belíssima amiga Marcela. Não preciso nem dizer que as duas primeiras fotos ela tirou só pra mim, né? Visitem seu Flickr.

Marcela Marcela


Sunday, January 21, 2007

A Minha Maior Diversão do 20 de Janeiro

É contar quantos veículos de imprensa (pra não falar de sabichões em mesas de bar) vão dizer que hoje é aniversário da cidade do Rio.


Saturday, January 20, 2007

Fazendo Meus Leitores de Nemo Nox

Já pedi aqui antes mas lá vai de novo. Preciso de recomendações de filmes:

  • Hispânicos, pra melhorar meu espanhol;
  • Nacionais recentes pra não ficar muito perdido na produção local.
Alguns que eu já consegui (em negrito, os assistidos):

Hispânicos:
  • Abre los Ojos
  • Amores Perros
  • Año Sin Amor, Un
  • Batalla en el Cielo
  • Ciénaga
  • Dia de la Bestia
  • Dias de Santiago
  • El Crimen Ferpecto
  • El Espinazo del Diablo
  • Guantanamera
  • Historias Minimas
  • Iluminados por el Fuego
  • Inconscientes
  • Justino, Asesino de la Tercera Idad
  • Kamchatka
  • Labirinto del Fauno
  • Ley de Herodes
  • Lucia y el Sexo
  • Luna de Avellaneda
  • Metodo, El
  • Niña Santa
  • Nueve Reinas
  • Palabras Encadenadas
  • Plata Quemada
  • Secuestro Express
  • Sexo con Amor
  • Tinta Roja
  • Torremolinos 73
  • Torrente - El Brazo Tonto de la Ley
  • Todo el Poder
  • Volver
  • Whisky
  • Whisky Romeo Tango
  • Y Tu Mamá También
Brasileiros:
  • Achados e Perdidos
  • Amores Possíveis
  • Cazuza, o Tempo Não Pára
  • Cidade Baixa
  • Domésticas
  • Estamira
  • Garrincha, Estrela Solitária
  • Olhos de Vampa
  • Pequeno Dicionário Amoroso
  • Por um Fio
  • Quanto Vale ou É por Quilo
  • Quase Dois Irmãos
  • Querido Estranho
  • Redentor
  • Sal de Prata
  • Se Eu Fosse Você
  • Viva Voz
  • Xangô de Baker Street
O que acham desses filmes? Amam ou odeiam algum? Tem algum que eu devo parar tudo e assistir agora?


Friday, January 19, 2007

Volver

O único filme do Almodovar que eu não teria adivinhado que era dele. Assim como Match Point também foi o menos Woody Allen dos Woody Allens. A diferença é que Match Point foi melhor do que qualquer coisa que Allen fez nos últimos dez anos, enquanto que Volver é bom mas senti falta do Almodovar de O Matador, Carne Trêmula, Fale com Ela, etc. Na verdade, Almodovar e Allen tem outra coisa em comum: mesmo os seus piores filmes (em comparação com o resto de suas carreiras) são sempre melhores que o resto do lixo em cartaz.

Penelope Cruz

Não acho fisicamente possível uma mulher ser mais linda do que Penelope Cruz em Volver. Simplesmente não dá.

Sobre o Direito de Estar Mal

Minha querida amiga Lulu escreveu um post sobre o direito de estar mal:

É uma verdadeira lei social, todos temos que estar bem, o tempo inteiro. Estar bem, além de ser praticamente sinônimo de estar magro ou magra, também significa estar sorridente e simpático, cheio de trabalho ou cheio de projetos ( pelo menos cheio de projetos), namorando, ou pelo menos beijando na boca, casado, com alguém. Estar bem significa estar cheio de energia, disciplina e objetivos a serem atingidos e tal. Trabalhando muito, indo à academia, viajando nas férias, saindo com amigos... ai que sono que preguiça. Nada contra nada disso, mas... respondam-me caros leitores: quem fica bem a porra do tempo inteiro? (...)

Não estou falando de depressão nem nada disso, que são coisas sérias e não devem ser de modo algum romantizadas e sim tratadas, mas... do direito de acordar mal humorado, do direito de não querer conversar muito naquele dia, do direito de chorar meio sem motivo, e de simplesmente passar um dia meio melancólico, ou melancólica, olhando para o nada, sentindo um vazio, mesmo estando bem. Do direito de só querer colo, e não querer falar nada, do direito de se angustiar e até sufocar um pouquinho quem tá do nosso lado ( por uma dia só, tá? ) . Isso faz parte da nossa condição humana, desconfio muito das pessaos que são sempre felizes e estão sempre bem, mas... parece quase um pecado capital, de vez em quando, não estar bem.
Uns comentários foram hilários:
Essa geração happy happy joy joy movida a Prozac devia ir pro espaço. (...) essa síndrome de Teletubbies me deixa mal pra caramba.
Olha, eu não sou um inconsciente completo, não uso drogas, não tomo remédios e não gosto de Teletubbies, mas estou sempre razoavelmente bem. Nunca acordei me sentindo zangado ou triste sem motivo e não sou de ficar angustiado.

Talvez eu seja egoísta e superficial mas, sério mesmo, não tenho saco pra pessoas desesperadas, angustiadas, mal-humoradas, incompreendidas, perseguidas, vitimizadas, deprimidas. Isso pra mim é muito passé, saiu de moda com os poetas românticos. Se já era ridículo quando era Álvares de Azevedo, imagina então sendo o meu primo João Cláudio. Não aturo, não tenho saco. Mando voltar quando estiver melhor.

Eu conheço gente que acha que dilema existencial é sinal de inteligência. Que só os burros são leves, felizes e bem-humorados. Que as pessoas inteligentes têm que ser angustiadas, têm que se perguntar sobre o sentido da existência humana, têm que carregar o peso no mundo nas costas.

Sei lá, vai ver deve ser mesmo só eu, mas acho que dilema existencial é coisa de gente burra, coisa de gente que sacrifica seu tempo, sua vida, sua felicidade se angustiando com questões que não têm solução e que, por isso mesmo, não são tão importantes assim. Quem é realmente sábio nunca perdeu um segundo meditando sobre deus, o universo, o sentido da vida: quem é realmente sábio está na praia, curtindo o calor do sol, com areia entre os dedos, ouvindo o barulhinho das ondas, sentindo a brisa fresca, saboreando uma água de coco, relaxando os músculos, curtindo a vida. Pra mim, sabedoria é isso.

Reparem bem, não estou tirando o direito de ninguém ficar angustiado, de acordar em prantos, de gritar aos céus por deus mas, por favor!, não se engane achando que isso faz de você uma pessoa mais sofisticada do que o peão de obra que nunca considerou essas questões.

E, mais importante, perto de mim não. Vai se deprimir lá na esquina.


Thursday, January 18, 2007

Incentivando a Leitura

Seleção natural é foda. A culpa é sempre das mulheres. Os homens só constroem pontes, viajam à lua e usam penas vistosas na cauda porque acham que assim emprenharão mais fêmeas. E, porque as fêmeas de fato dão pra eles, seus filhos continuam construindo pontes, viajando à lua e usando penas ainda mais vistosas, e a história nunca termina.

Querem estimular a leitura? Fácil. Basta dar um jeito para que as meninas passem a dar mais para os meninos que lêem mais.

Um experimento sociológico fácil de realizar comprovará minha tese. Peguemos uma escola do ensino médio. Os meninos não saberão nada do experimento e todas as meninas serão garotas de programa experientes e bem treinadas, todas acima de 18 anos, claro, mas com cara de criança.

Essas meninas desprezarão solenemente os esportistas. Dirão que acham futebol, vôlei e basquete eminentemente estúpidos. Não chegarão nem perto dos atletas da escola. Não vão querer nem falar com eles, quem dirá ficar ou transar. Terão desprezo por gente que se dedica a coisas tão idiotas quanto correr em um campo atrás de uma bola. O capitão do time de futebol não vai pegar ninguém.

Também não vão querer saber dos músicos. Quando um mala chegar na festinha com um violão, todas as meninas sairão da sala. Quanda a banda de rock da escola for tocar em algum evento, as meninas boicotarão. Vão dizer que as músicas são chatas, as letras idiotas e, mais ainda, preferem Haydn e Bruckner. O vocalista da banda não vai pegar ninguém.

Por outro lado, as meninas andarão o dia inteiro com livros embaixo do braço. Joyce, Kafka, Guimarães Rosa. Dirão que deu na Capricho que a quantidade de livros que um homem lê por ano é diretamente proporcional ao tamanho do seu, ah, deixa pra lá. Nada é mais sexy, suspirarão, do que um rapaz que sabe declamar Fernando Pessoa. Quando vejo alguém lendo Clarice Lispector e acompanhando com os lábios, já fico com o peitinho duro.

Estarão em todas as reuniões do Clube de Xadrez, vibrando com a violência e fúrias dos lances. Ao fim do jogo, se digladiarão pra ver quem será levada para tomar um sorvete com o vencedor. Várias outras, mais maternais, ficarão em volta do perdedor, consolando-o.

Os membros do Clube de Xadrez e do Clube de Leituras perderão a virgindade antes de todos os outros, e sempre com a loira mais peituda. Histórias de sua virilidade correrão a escola: "Quando ele entrou naquele quarto de motel com "Os 100 dias de Sodoma", do Marquês de Sade, embaixo do braço, eu sabia que seria uma noite da pesada!" E as outras dirão Ahhh, Uhhh, mortas de inveja, pensando que os seus amantes lêem, no máximo, A Arte de Amar, de Ovídio.

Quando o capitão do time de futebol tentar dizer que marcou dois gols no campeonato inter-escolas, elas vão perguntar: e quem se importa?

Como vêem, o experimento é fácil de realizar.

Ao final dos três anos de ensino médio, teremos índices de leitura escandinavos. É inevitável.

Emails Maravilhosos que Recebo

Sobre a Prisão Aceitação:

Assunto: a verdade

interessante a maneira com que vc pensa,mas sobre o cabelo da moca...eu sou da seguinte opniao...se uma deter minada situacao nao exige o meu comentario,e eu nao tenho nada de bom e sincero pra comentar... simplesmente nao comento nada...

tenho muito amor pelas pessoas...e detestaria saber que magoei sem nessecidade...nao por me preocupar com o que elas vao pensar de mim...mas por ama-las...

acho lindo o seu senso de verdade e sinceridade... mas ha um limite curto entre sinceridade e falta e insensibilidade e sem perseber vc passa de um a outro...como seria maravilhoso se todos aprendessem a falar a verdade em amor.

e so quem pode ensinar isso e a palavra de Deus a biblia sagrada...ali diz conhecereis a verdade e a verdade vos libertara.a maior verdade e que :O SENHOR DEUS ENTREGOU O SEU FILHO UNIGENITO PARA QUE TODO AQUELE QUE NELE CRE NAO PERESSA...MAS TENHA A VIDA ETERNA.joao 3-16

que don lindo DEUS te deu...mais lindo ainda seria se vc usasse isso pra gloria dele...o unico do qual eu me preocupo o que vai pensar de mim e o SENHOR DEUS. cuidado pra nao passar de sincero... pra rude.... se importe com que Deus pensa de ti.

NAO TEMEI AO HOMEM QUE MATA O CORPO E DEPOIS NAO TEM MAIS O QUE FAZER...TEMEI A DEUS,QUE DEPOIS DE MATAR O CORPO TEM O PODER DE LANSSAR NO INFERNO. ESTE E O MEU COMENTARIO.AINDA QUE VC NAO SE IMPORTE COM ELE.


Wednesday, January 17, 2007

Eu e Meus Cabelos

Eu era um homem normal. Meus cabelos não eram um assunto na minha vida. Nunca pensava neles. Lavava a cabeça com qualquer xampu. Passava no cabelereiro mais vagabundo da cidade de duas em duas semanas, mandava tosar com máquina um e pronto. Mais duas semanas sem precisar pensar em cabelo, sem precisar nem pentear o cabelo, o bichinho já acordava no lugar certo.

Shaving My Head 11a

Hoje, estou amando - a mando da Liloló (LindaLoiraLouca, ou LLL), nesse que é o trocadilho mais preciso da história da humanidade. Ela ordenou que eu, por livre e espontânea vontade, deixasse o cabelo crescer e eu, numa mostra de independência e autonomia, obedeci quietinho. Agora, penso no cabelo o tempo todo. O desgraçado nunca pára quieto. Tá sempre no lugar errado. Só me faz passar vergonha.

Todos os homens que conheço me sacaneam. Dizem que pareço um gênio louco, um marginal, um doente. Meu pai pediu encarecidamente pra eu me pentear antes de passar pela imigração, pra não acharem que sou um latino maluco e me mandarem voltar pra casa.

Por outro lado, a mulherada, essas obcecadas por cabelos, adoram, não sei como. Todas comentam, falam, querem passar a mão. Olha, que incrível, que cacheado, quanto movimento, não sabia que você tinha cabelo tão lindo.

Hairy Me

Enfim, eu, que já tentei tantas vezes convencer tantas mulheres que, não, seus pés não eram horríveis e disformes mas sim lindos e beijáveis (e que fico ofendido quando não acreditam na palavra de um expert desinteressado como eu), bem, eu vou admitir que qualquer mulher entende mais de cabelo do que eu, aceitar o elogio e pronto.

Não passo mais máquina. Meu cabelo não é pra ser bonito nem pra mim nem pra esses outros homens bundões. Se a mulherada gosta, eu não preciso nem entender nem concordar. Sou pragmático. Se elas gostam de rabão colorido, a gente abre o rabão colorido, ué, mesmo que nos tornemos presa fácil pros predadores.

Afinal, biologicamente falando, ser macho não é isso?

* * *

Enfim, o que acham os leitores e leitoras?

Adeus Brasil

Estamos embarcando para Nova Orleans de novo, eu e o Oliver. Essas férias não foram férias. Não tive tempo pra nada. Não vi ninguém. Um trabalho de consultoria me sugou. Peço desculpas a todos os que eu gostaria de ter visto mas que não consegui nem ligar. Se ficou chateado por eu não ter te procurado, por favor, desfique. Lá pelo dia 10 de maio, estou de volta na terrinha. Dessa vez, juro, pretendo tirar férias de verdade.


Tuesday, January 16, 2007

Em Defesa da Vida

Como pode alguém, em sã consciência, ser contra o projeto das máquinas de camisinha em escolas? Como pode alguém sinceramente achar que uma maior oferta de camisinhas é o que vai fazer os adolescentes transarem mais, como se adolescentes cheios de hormônios precisassem de alguma razão pra transar, como se já não transassem feito coelhos desde que o mundo é mundo? Como pode alguém ser perverso ao ponto de achar que devemos negar aos nossos jovens essa proteção adicional contra uma das epidemias mais mortais de todos os tempos? Como pode alguém ser ingênuo (ou hipócrita) ao ponto de achar que ler a Bíblia e dizer que transar é feio será o bastante pra coibir os instintos mais primordiais dos nossos jovens? Como pode alguém ser tão contra A VIDA ao ponto de atacar uma política que pode salvar a vida de milhares e milhares de brasileiros?

Sabe o que mais me dá nojo? EU valorizo demais a vida humana pra ver o aborto como o procedimento tão simples que seus defensores tentam vender - como se impedir o nascimento do próprio filho fosse tão banal quanto tirar um apêndice. Mas quando vejo a direita religiosa pró-vida, que teoricamente ataca o aborto por considerar que a vida humana é sagrada, também atacar um projeto que pretende salvar vidas humanas, um projeto que pretende salvar nossos jovens das consequências potencialmente fatais de seus instintos sexuais inexperientes, aí é que fica claro que esses hipócritas não são nem nunca foram pró-vida. Que a vida humana é a última das suas prioridades. Que a única coisa que defendem é sua própria, ultrapassada e nojenta noção de moral e bons costumes.

Se nossos jovens adoecerem e morrerem, bem, quem mandou pecar e transar fora do casamento, não é? Com certeza, é tudo parte do plano de nosso senhor, para servirem de exemplos aos outros. Amém.


Monday, January 15, 2007

Diálogo numa Mesa de Bar Carioca

Amigo que já morou em São Francisco: - Então, eu acordei com os móveis chacoalhando, peguei minha filha e corri pra rua.

Eu - Você nunca pode correr pra rua. Morre muita gente eletrocutada pelos fios de alta tensão que caem dos postes.

Ele - Pois é, depois me disseram isso, tem mais é que ficar no vão da porta, ou embaixo de uma mesa forte.

Eu - O bom de furacão é que sempre tem muito aviso, já terromoto acontece de repente.

Ele - Depois disso, eu passei a manter uma bolsa-terremoto sempre pronta perto da porta, com back-up dos arquivos do computador, dinheiro, nossos passaportes e documentos.

Eu - É, em Berkeley eu também fazia isso. Lá em Nova Orleans, todo mundo está no esquema também, eles costumam evacuar a cidade sempre que tem possibilidade de um furacão,o que acontece quase todo ano, e o pessoal é acostumado, tem onde ficar em caso de evacuação, etc. Esse ano, eu já estava combinado de ir pra casa de uma amiga no Tennessee: se ela visse que Nova Orleans estava sendo evacuada, ela já podia me esperar batendo na porta dela com o Oliver.

Amiga, carioca da gema, sinceramente chocada - Meu deus, como as pessoas conseguem viver assim?

Ele - O ser humano realmente se acostuma a tudo, é impressionante.

Eu - Que mundo!

Ela - Bem, está na hora de ir pra casa, está ficando tarde. Por onde vocês vão?

Ele - Não sei. Eu nunca passo pela Linha Amarela depois das 10h mas hoje à tarde teve tiroteio na Rocinha...

Eu - Não é muito contramão pra você?

Ela - Vale mais a pena fazer a volta do que passar no meio do fogo de novo. Eu já fui da Barra à Freguesia pelo Itanhangá pra não passar pela Cidade de Deus.

Eu - Mas isso era na época que dava pra passar por Rio das Pedras tranquilo. Hoje parece que as milícias estão perdendo terreno pros traficantes.

Ele - Deixa eu ligar pro meu irmão e pedir pra ele ver na internet se está tendo tiroteio em algum lugar.

Etc.

Pôr-do-Sol Chuvoso da Minha Janela

Rainy Dusk at the Beach

De todas as fotos que tirei da minha janela, essa é a melhor. Adoro tudo. A chuva e o sol, o mato molhado e a água brilhando, os carros sobre o asfalto úmido, a cor do céu, o formato das nuvens, as ilhas lá atrás.

Vale a pena ver no tamanho original.


Sunday, January 14, 2007

Ironia ou Não

Aparentemente, muitos de vocês acham que o texto das regras do bom escrever é ironia. Um leitor até disse, incrivelmente, que "é claro que o texto é uma grande zombaria. Cada regra está escrita de forma a contrariar a própria regra." Bem, eu achei o oposto: que a regra usa o erro justamente como exemplo de como é feio uma frase com erros de ortografia, má pontuação, estrangeirismos, etc.

Mas a grande verdade é que, como sempre, a intenção do autor não vale nada. Pouca diferença faz se o texto foi escrito ironicamente ou não. O que importa, e o motivo que me levou a abordá-lo, é que ele não é lido ironicamente, que muitos leitores o levam a sério e adotam essas regras.

Regras do Bom Escrever

Circula pela internet uma listinha de regras do bom escrever. Muita gente me pergunta o que acho.

Eu acho que muita gente inocente está tendo seu estilo mutilado por essas regras idiotas. E, confiem em mim, quase todas são completamente idiotas.

Sua idiotice principal é dogmatizar algumas opções de estilo que dependem totalmente do contexto. Algumas regras podem até fazer sentido para alguns tipos de texto, mas nenhuma vale pra todos. Vamos a elas.

1. Vc. deve evitar abrev., etc.

(Melhor também não usar você, que é abreviação de Vossa Mercê...)

2. Desnecessário faz-se empregar estilo de escrita demasiadamente rebuscado, segundo deve ser do conhecimento inexorável dos copidesques. Tal prática advém de esmero excessivo que beira o exibicionismo narcisístico.

(O que é rebuscado pra um não é pra outro. Tem gente hoje em dia que já acha que o simples uso de ênclise ("trouxe-me") é pedante. Tem gente que considera erros formas já consagradas como "tem" no significa de existir e "em um > num". Se você estiver escrevendo uma redação para um concurso público, eles pedem o rebuscado.)

3. Anule aliterações altamente abusivas.

(A minha vontade depois de cada uma dessas regras peremptórias é perguntar: ué, por quê? Qual o problema de uma aliteraçãozinha? Um dos contos do meu livro Onde Perdemos Tudo se chama A Falta que Nos Fazem os Figos. É errado? É feio? Seria melhor se fosse A Falta que Sinto da Banana Nanica? Melhor avisarmos a Castro Alves que os seguintes versos de O Navio-Negreiro também estão errados: "Auriverde pendão de minha terra / que a brisa do Brasil beija e balança.")

4. ?não esqueça das maiúsculas?, como já dizia dona loreta, minha professora lá no colégio alexandre de gusmão, no ipiranga.

(Como sempre, tudo depende. Maiúsculas e minúsculas também são declarações políticas. Eu só escrevo deus em minúsculas e sei bem o que estou fazendo. Tem gente que escreve como se fosse em alemão, com todos os substantivos em maiúsculas: "O Diretor da Companhia mandou uma carta para o Escritório Central em Dezembro etc" e, se você sugere que pode estar errado, ele diz que não podem escrever Diretor em minúsculas, ele se ofenderia!)

5. Evite lugares-comuns assim como o diabo foge da cruz.

(Um lugar-comum nada mais é do que uma convenção consagrada. Fugir deles como o diabo foge da cruz também significa fugir de uma completa comunicação com seus pares. Assim como convencionamos que uma peça de mobília com assento e quatro pés é uma cadeira, também convencionamos que um programa chato, pentelho, longo, etc, é um programa de índio. São ambas convenções da nossa língua e da nossa cultura, e uma é tão válida quanto a outra. Se programa de índio é lugar-comum, cadeira também é. Na verdade, lugar-comum mesmo é esse ataque aos lugares-comuns. No meu romance, eu distorço uma série de lugares-comuns: "família é tudo esgoto do mesmo cano", por exemplo, mas que só funciona porque remete os leitores ao consagrado "farinha do mesmo saco". Reparem que não fugi do lugar-comum, como manda a regrinha burra, mas pelo contrário, eu o busquei para estabelecer um diálogo com ele.)

6. O uso de parênteses (mesmo quando for relevante) é desnecessário.

(Meu deus, isso é tão non-sense que não sei nem por onde começar. Que razão essa pessoa poderia ter pra banir os parênteses da língua? Não pode dar nem uma justificativazinha pelo menos? Se parênteses fossem desnecessários, não existiriam.)

7. Estrangeirismos estão out; palavras de origem portuguesa estão in.

(Hmmm, digamos que sim. Defina estrangeirismo. Futebol e chofer são tão estrangeirismos quando deletar e delivery. Qual é a justificativa de um poder e o outro não? É tempo, é isso? Vamos petrificar a língua? Os estrangeirismos que entraram até o ano tal (vamos inventar um ano? 1982?) pode, os mais recentes, óóó, não pode, são soldados da guerra de dominação cultural. Agora, o que eu quero mesmo ver é ele encontrar palavras de origem portuguesa mesmo. Vão sobrar duas dúzias. Todas as outras têm origem espanhola, romana, visigoda, francesa, etc etc.)

8. Chute o balde no emprego de gíria, mesmo que sejam maneiras, tá ligado?

(Porra, não pode palavra rebuscada, não pode gíria, não pode merda nenhuma? Que textos chatos esse cara vai escrever. Isso se faz lembrar quando eu escrevi um texto em que uma empregada chamada o patrão de "seu Antonio" e a professora idiota veio me corrigir que era "senhor Antonio".)

9. Palavras de baixo calão podem transformar seu texto numa merda.

(Uma palavra de baixo calão na hora certa pode salvar um texto e mobilizar o leitor, caralho!)

10. Nunca generalize: generalizar, em todas as situações, sempre é um erro.

(Sem a generalização, não teria havido nenhuma criação de conhecimento. É impossível tratar tudo individualmente, unitariamente. Depois de ver cinco coelhos, mesmo que coelhos individualmente diferentes, você generaliza e conclui que aqueles cinco indivíduos pertencem à mesma espécie, convencioa um nome que engloba os cinco "coelho" e bola pra frente. Quem acha que é possível, ou desejável, não generalizar, é um idiota. Sem exceções.)

11. Evite repetir a mesma palavra, pois essa palavra vai ficar uma palavra repetitiva. A repetição da palavra vai fazer com que a palavra repetida desqualifique o texto onde a palavra se encontra repetida.

(Repetição de palavras é um recurso importantíssimo pra dar ritmo a um texto. Muito pior do que repetir palavras são aquelas pessoas que usam sinônimos capengas pra não ter que repetir a palavra e o texto fica insólito: "Pedro pegou o livro e observou-o com cuidado. O volume era velho e bem-encadernado etc." Sério, quem usa "volume" hoje em dia? Custava repetir livro? Qual o problema?)

12. Não abuse das citações. Como costuma dizer meu amigo: ?Quem cita os outros não tem idéias próprias?.

(Já outro amigo meu dizia que é sempre bom embasar suas idéias com citações dos crássicos, porque isso impressiona os idiotinhas. Em quem confiar? No seu amigo ou no meu? Decisões, decisões. Como dizia Clarice Lispector em um email que recebi: "Quem segue regrinhas de estilo é um idiota. E pode me citar." Hmm, na verdade, no dia seguinte, eu recebi um outro email que dizia que a frase era do Veríssimo... Hmmm...)

13. Frases incompletas podem causar

(podem causar curiosidade no leitor pra ler mais, pra virar a página, para começar o próximo capítulo, pra comprar a segunda parte, etc etc.)

14. Não seja redundante, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes; isto é, basta mencionar cada argumento uma só vez. Em outras palavras, não fique repetindo a mesma idéia.

(Ser redundante é o melhor modo de ensinar. Não conheço nenhum bom texto acadêmico ou intelectual que não seja redundante. Leiam Freud, Marx e Darwin, eles repetem as mesmas coisas várias e várias vezes, de maneiras das mais diversas, de forma completamente redundante, mas sabendo que sem isso ninguém iria absorver sua mensagem. Imagina o bizarro que seria um texto de idéias em que cada idéia, ou a idéia principal, tivesse sido declarada uma única vez e pronto!)

15. Seja mais ou menos específico.

(Ser sempre específico é o melhor modo de não ser generalizante e, claro, ambas as coisas são impossíveis. E quem disse que são desejáveis? O foda é que essa anta diz que isso e aquilo é proibido mas não diz porque. Eu não sei vocês, mas eu sempre perguntava "por que" pra minha mãe - e quando a resposta não era boa, não obedecia.)

16. Frases com apenas uma palavra? Jamais!

(Por quê? Por quê? Me dê uma razão, nem que seja uma razão idiota, pelamordedeus!)

17. A voz passiva deve ser evitada.

(Sério, eu estou ficando sem saco até mesmo de comentar esse texto. Por quê, caralho, por quê? A voz passiva é um recurso tão válido quando a voz ativa, qual é o problema? Eu fico realmente imaginando como ficaria um livro que seguisse todas essas regras imbecis.)

18. Use a pontuação corretamente o ponto e a vírgula especialmente será que ninguém sabe mais usar o sinal de interrogação

(Olha, a única que eu vou ter que concordar. Grande parte dos emails incoerentes que recebo são por causa de pontuação completamente insana.)

19. Quem precisa de perguntas retóricas?

(Sabe o que eu acho? Qual é o problema? Vá tentar ensinar alguma coisa ou escrever um texto de idéias sem uma perguntinha retórica que seja. Vai. Quero ver.)

20. Conforme recomenda a A.G.O.P, nunca use siglas desconhecidas.

(Usar siglas desconhecidas pode ser um recurso completamente válido para gerar curiosidade no leitor. E como saber que todas as siglas vão ser conhecidas do seu público? Mesmo a mais óbvia que você use sem explicar vai ser desconhecida de algum idiota.)

21. Exagerar é cem bilhões de vezes pior do que a moderação.

(Exagerar também é um recurso estilístico inteiramente válido em um zilhão de situações, para dar ênfase, emoção, etc etc)

22. Evite mesóclises. Repita comigo: ?mesóclises: evitá-las-ei!?

(Por quê? Não são um recurso da língua como qualquer outro? Sim, é meio antiquado, mas e daí? Tudo depende do tom que você quer dar ao texto. Uma mesóclise na hora certa dá um tom de sofisticação, rebuscamento, passado.)

23. Analogias na escrita são tão úteis quanto chifres numa galinha.

(Sério, cansei, esse idiota não pode estar falando sério. Só ainda estou aqui porque existem infelizes que levam essa lista a sério, publicam em seus blogs, repassam por email e seguem as regras idiotas.)

24. Não abuse das exclamações! Nunca! Seu texto fica horrível!

(Estou ficando doente. Não pode parênteses, não pode exclamação, será que esse cara acha que esses recursos são enfeites, que foram inventados porque não tem função alguma? Que um personagem deve martelar o dedo e afirmar: "Ai.", já que palavrão e exclamação não pode?)

25. Evite frases exageradamente longas, pois estas dificultam a compreensão da idéia contida nelas, e, concomitantemente, por conterem mais de uma idéia central, o que nem sempre torna o seu conteúdo acessível, forçando, desta forma, o pobre leitor a separá-la em seus componentes diversos, de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do uso de frases mais curtas.

(Como sempre, ai ai ai, é tudo uma questão de estilo, porra. O último capítulo de Ulisses tem 20 páginas e três frases, se não me engano. No meu romance, várias frases têm mais de uma página. Claro, eu estava tentando simular uma fala ansiosa, nervosa, agitada, embrulhada.)

26. Cuidado com a hortografia, para não estrupar a língüa portuguêza.

(Mesmo a ortografia é uma questão de escolha. Eu acho graça que sempre que escrevo boceta, vem algum idiota corrigir e dizer que é buceta. O idiota não sabe que ambos são usados e estão certos; em sua idiotice, ele acha que o que ele usa é que é o certo.)

27. Seja incisivo e coerente, ou não.

(E se eu quiser criar dúvidas? E se eu quiser mostrar os dois lados da questão? Porra, que cara chato!)

* * *

Por favor, amigos leitores, quando algum idiota tentar lhe vender regrinhas e certeza, não aceite. Só idiotas acreditam que existem regrinhas e certezas tamanho único, que se encaixam em todas as situações. Se você está buscando por certezas, por favor, sai dessa. Não seja, você também, mais um idiota.


Saturday, January 13, 2007

Prendas Domésticas

Não tem nada que eu goste mais.

Fico em casa o dia todo, escrevendo. Ela me liga quando está saindo do escritório. Eu me arrumo, tomo banho, faço a barba pra ficar com a carinha macia, dou um jeitinho na casa, boto a comida no fogo. Quando ela chega, a recebo na porta com um beijo, massagens nos pés e nas costas. Enquanto ela vê o telejornal, eu fico abracadinho, enroscado nela. Depois, enquanto comemos, eu conto pra ela do que escrevi, do Oliver, da última da diarista, e ela me fala das politicagens do escritório e me explica o noticiário, do mensalão ao Chávez. E dormimos nos braços um do outro, satisfeitos de gozar gostoso.

Meu deus, eu sou mesmo do lar!


Friday, January 12, 2007

Contra os Descobrimentos: Auto da Índia, de Gil Vicente, e O Velho do Restelo, de Camões

Auto da Índia; Auto Barca Inferno; Farsa I. Pereira GIL VICENTEFeliz da língua que tem um Gil Vicente.

Eu sou fã. Adoro O Auto da Barca do Inferno, O Velho da Horta e, agora, acabei de ler um novo favorito, O Auto da Índia, com uma visão mordaz dos Grandes Descobrimentos.
 Farsa de Inês Pereira GIL VICENTE
Em pleno 1509, auge das grandes navegações portuguesas, o autor, grande artista que era, ousava apresentar uma visão oposta ao entusiasmo reinante. O Auto da Índia conta a história de uma mulher que, basta o marido partir pra Índia, os amantes começam a fazer fila na porta. Vai dizer que não acontecia? E é hilário.

  Lusíadas, Os LUIS VAZ DE CAMOES    O livro foi presente de um leitor. Infelizmente, como chegou no auge do Katrina, eu não sei onde anotei o nome. Por favor, identifique-se. E muito obrigado.

* * *

O Portugal dos Grandes Descobrimentos foi feliz até em possuir artistas, como Gil Vicente, Camões e Fernão Mendes Pinto, que questionaram seus grandes feitos e tentaram colocar tudo em perspectiva.

Eu não sei vocês mas acho que, sem o episódio do Velho do Restelo, Os Lusíadas seria apenas mais um empoeirado e obsoleto poemelho épico. O Velho do Restelo é o que dá grandeza, complexidade e profundidade a'Os Lusíadas.

O Velho do Restelo (restelo era o lugar de onde partiam os navios) é somente um velho chato que vai aporrinhar os marinheiros que partiam para trazer glórias a Portugal, lembrando a eles que a glória verdadeira estava em ficar em casa, cuidar da terra. Em suma, ele é a lembrança viva de que nem todo português da época estava saracoteando pelo mar, que tinha muita gente lá na retaguarda tentando manter a casa em ordem.

"Ó glória de mandar! Ó vã cobiça

Desta vaidade, a quem chamamos Fama!

Ó fraudulento gosto, que se atiça

C'uma aura popular, que honra se chama!

Que castigo tamanho e que justiça

Fazes no peito vão que muito te ama!

Que mortes, que perigos, que tormentas,

Que crueldades neles experimentas! (...)


Deixas criar às portas o inimigo,

Por ires buscar outro de tão longe,

Por quem se despovoe o Reino antigo,

Se enfraqueça e se vá deitando a longe?

Buscas o incerto e incógnito perigo

Por que a fama te exalte e te lisonge,

Chamando-te senhor, com larga cópia,

Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia?



"Ó maldito o primeiro que no mundo

Nas ondas velas pôs em seco lenho,

Dino da eterna pena do profundo,

Se é justa a justa lei, que sigo e tenho!

Nunca juízo algum alto e profundo,

Nem cítara sonora, ou vivo engenho,

Te dê por isso fama nem memória,

Mas contigo se acabe o nome e glória.
Inicialmente, o Velho do Restelo foi lido como um conservador e um reacionário, um inimigo do progresso. Até hoje, em Portugal, ser um Velho do Restelo é ser do contra.

   Peregrinação - Vol. 1 FERNAO MENDES PINTO    Para outros, no entanto, O Velho do Restelo encarnaria o bom senso, o pacificismo, as preocupações sociais; ele seria aquele que defende que o dinheiro do reino seja aplicado no próprio reino e não gasto perseguindo glórias fugazes que só trariam benefícios às elites.

Recentemente, Saramago atualizou o episódio, colocando o Velho do Restelo (Velho do Cabo Canaveral?) dialogando com os astronautas norte-americanos. O poema é péssimo, claro, como tudo o que Saramago escreve, essa velha besta comunista, mas é uma prova da atualidade ainda contundente do Velho do Restelo.

500 anos depois, o Velho do Restelo ainda vive e gera polêmica; os temas que levanta ainda são relevantes para nós. Essa é a marca do clássico universal. História Trágico-Marítima RICARDO GOMES DE BRITO

Pra saber mais:
* * *

E olha que nem comecei a falar da História Trágico-Marítima e das Peregrinações de Fernão Mendes Pintos, outras duas visões críticas contemporâneas dos Grandes Descobrimentos.

Pôr-do-Sol Chuvoso

Rainy Dusk at the Beach

Rainy Dusk at the Beach

Rainy Dusk at the Beach

Todo Nervosinho É Idiota - E Vice-Versa

Um leitor idiota e nervosinho fez um comentário idiota e nervosinho em um dos posts sobre Clarice e o nordeste:

Quem vai querer ler sobre o nerdeste ? tenha dó. Postasse sobre o bloqueio do youtube que seria melhor
No dia seguinte, o leitor idiota e nervosinho voltou, procurou por seu comentário no post errado, ficou todo idiotinha e nervosinho achando que tinha sido censurado e nos brindou com mais essa pérola idiota e nervosinha:
Apagou meu comentario otario ? Quem vai ler sobre está b0st4 de nordestes você é paraiba né ?
Ai ai, eu ganho pouco mas me divirto.

Oxente!

Um aluno de português me pergunta o significado de "oxente". Eu não soube definir. Perguntei pra deus e ele, também, nada. Oxente!, não sei mais o que fazer a não ser pedir ajuda aos meus leitores.


Thursday, January 11, 2007

Feto É Autor de Ação Judicial no Brasil

Eu tava me controlando pra não comentar o maior absurdo do ano, ainda bem que o Pablo já disse tudo que eu teria a dizer, e melhor. Imaginem as consequências disso para a questão do aborto!

Simon Bolivar, Líder Separatista

Hoje, no JB:

Citando passagens da Bíblia e declarações do líder separatista Simón Bolívar, Chávez prometeu em seu discurso no Congresso "construir a via venezuelana na direção do socialismo para construir o socialismo venezuelano".
Bem, *coça a cabeça*, tecnicamente sim, não é? Mas não dá a impressão de que, só porque o Chávez gosta dele, até o Bolívar agora virou persona non-grata? Ainda mais no JB.

Uma História de Amor em 13 Imagens

Experimento Googlático

Estou fazendo uma experiência com deus. Pra ver se ele é bom mesmo em responder às dúvidas dos seus suplicantes, sempre que preciso buscar alguma coisa eu tento primeiro escrever como algumas das buscas mais esdrúxulas que trazem usuários ao LLL. Vejam as duas primeiras que tentei. A primeira funcionou, a segunda não. Aliás, se alguém souber a resposta, me avise.

qual é o nome daquele documentário nacional sobre uma catadora

qual é o filme em que tem uma personagem que tem tesão pelo personagem do James Cromwell no filme Babe

Desconstrução de Um Olhar: A Invenção do Nordeste em A Hora da Estrela (Parte 3 de 3)

A Invenção do Nordeste em A Hora da Estrela
 Hora da Estrela, A CLARICE LISPECTOR
Apesar da forte ligação de Clarice Lispector com o Nordeste, apesar de Rodrigo S.M. ser também nordestino, apesar de Macabéa ser de Alagoas, primeiro estado onde Clarice morou antes de ir para Pernambuco, apesar da auto-identidade de Clarice como nordestina, apesar de A Hora da Estrela ser um romance escrito por uma migrante nordestina sobre um migrante nordestino tentando escrever sobre outra migrante nordestina, apesar de o conceito de Nordeste ser absolutamente central para o romance, apesar de todos esses fatores ainda não houve um estudo específico sobre o Nordeste em A Hora da Estrela.

Alguns acadêmicos, entretanto, indicaram variados pontos de contato. Lúcia Helena, em seu estudo sobre a problematização da narrativa em Clarice Lispector, aponta que a página de títulos de A Hora da Estrela remete à forma de exposição dos folhetos da literatura de cordel nas feiras e praças públicas (Helena, 1170), sendo que um dos títulos é "História lacrimogênea de cordel". O próprio Rodrigo faz questão de também deixar claro o débito de sua narrativa para esse gênero: "Eu bem avisei que era literatura de cordel, embora eu me recuse a ter qualquer piedade." (Lispector, 33) Cynthia Sloan, escrevendo sobre a questão do narrador masculino, aponta que o ato de mostrar Macabéa longe de sua terra natal, longe dos elementos que lhe conferem identidade, a torna ainda mais patética:

By removing Macabea from the backdrop of the Northeast, laden with potential symbolic insights, Lispector renders her character even more pathetic by distancing her from any possibility of identity. Macabea is lost in a city that has nothing to do with her reality, and her story is being told by a man who cannot possibly know anything about her except that she is pathetic enough to attract his attention. (Sloan, 101)
O que Sloan, e tantos outros críticos estudando A Hora da Estrela, nunca mencionam, o que talvez até mesmo ignorem, é a forte nordestinidade da própria autora. Clarice era tão migrante nordestina quanto Macabéa. Em sua juventude, passou pela experiência semelhante à de sua personagem, ao se mudar de Recife para o Rio. Ao criar seu narrador-buffer Rodrigo S. M., ela o fez homem mas, reveladoramente, manteve-o também migrante nordestino, como a própria autora e como a própria personagem. Ignorar todos esses esses dados é não entender um fator essencial na construção tanto de A Hora da Estrela, como também do romance dentro do romance sendo escrito por Rodrigo S.M. Vale a pena lembrar que A Hora da Estrela começa, para Clarice Lispector, como a simples história de uma nordestina. Fitz, em seu artigo sobre ponto de vista narrativo em A Hora da Estrela, é um dos poucos a fazer essa conexão:
Clarice, like Macabéa, knew what it meant to be a young girl obliged to move from her home in a small northeastern city and go to a huge southern metropolis. She knew what it meant to be immediately bombarded with a plethora of utterly new sights, sounds and ideas. She knew what it meant to find herself suddenly among strangers and to have to make up her life as she went along. (Fitz, 202)
Solange Oliveira, em seu artigo sobre configurações culturais em Clarice Lispector, enfatiza que essa dicotomia norte/sul é essencial para se entender não só a literatura brasileira de modo geral, mas também as próprias trajetórias das protagonistas femininas de Clarice: de certo modo, diz Oliveira, todas elas reproduzem simbolicamente a jornada de Macabéa (e da própria Clarice) em direção ao sul, ao Rio de Janeiro, uma terra de fartura econômica, psicológica e espiritual. (Oliveira, 125)

Alguns críticos, quando mencionam a questão do Nordeste em A Hora da Estrela, colocam o romance na tradição do romance de trinta: regionalista, realista, denunciador de mazelas sociais. Gotlib escreve que A Hora da Estrela segue a "trilha do romance social dos anos trinta, que tem o Nordeste como espaço da fome e da miséria" mas com a diferença de jogar a protagonista no cenário agressivo da grande capital. (Gotlib, 466) Fitz concorda:
Clarice Lispector has placed A Hora da Estrela thematically well within the tradition of regionalistically oriented literature and cultural conflict so brilliantly depicted by Euclides da Cunha. (...) It is her special genius to have added to the external story, the one that recounts what happens to an unskilled and unwanted northeastern waif in the big city, an inner drama, the disintegration of a crippled personality, one pathetically incapable of any kind of meaningful self-realization or fulfillment. (...) Macabea's story (...) is kind of updated and urbanized version of what might have been Victória's story, in Graciliano Ramos' Vidas Secas (1938) or what was actually Guta's story, in Rachel de Queiroz's As Três Marias (1943)." (Fitz, 200-201)
  Invenção do Nordeste e Outras Artes, A DURVAL MUNIZ DE ALBUQUERQUE JR. Realmente, A Hora da Estrelase encaixa no processo de invenção do Nordeste apontado por Albuquerque: ao mesmo tempo em que o Nordeste é visto por seus migrantes como um espaço da saudade, ele também é denunciado como um lugar pobre, miserável e desesperançado, de gente ignorante e cruel, explorado economicamente e dominado politicamente. Mas A Hora da Estrela é bem mais que isso. O que salva A Hora da Estrela de ser apenas mais um entre tantos romances regionalistas na tradição do romance de trinta é a genialidade de Clarice ao criar Rodrigo S. M. como narrador-intermediário entre ela e Macabéa. Na verdade, é o romance escrito por Rodrigo S.M. que se encaixa na tradição do romance de trinta; é Rodrigo S.M. o típico intelectual/artista nordestino morando no Sudeste ao mesmo tempo recriando o Nordeste como um espaço de saudade e também denunciando suas mazelas e tomando sua voz para si. Ao se distanciar de Rodrigo, Clarice ganha deniability. O romance que Clarice escreve é não a história de Macabéa, tantas vezes contada e tão difícil de contar, mas a história de Rodrigo tentando contar a história de Macabéa; é a história do Nordeste tentando entender a si mesmo, tentando se recriar à distância para consumo no Sudeste; é a história de dois nordestinos que, por suas diferenças de classe, simplesmente não conseguem se entender.

Na verdade, a tradição em que Clarice se insere é outra. De acordo com a terminologia de Albuquerque, Clarice estaria dando continuidade ao processo de "desregionalização da região" começado por João Cabral de Mello Neto. Sua crítica ataca o próprio discurso da região, desmonta suas tradições narrativas, expõe seu ridículo e sua hipocrisia. O grande dilema de Clarice (e de Rodrigo) é como escrever como uma semi-analfabeta sem enriquecer a linguagem? Como representar o pobre sem empobrecer? Como falar de pobreza de um modo que seja verossímil, como sendo um grandes temas da literatura, ao mesmo tempo em que se tenta não ser oportunista, não tratar a pobreza como somente mais um assunto? (Arêas, 81)

Pois ao criar Rodrigo S.M., Clarice foge brilhantemente dessa questão: seu tema agora é justamente a dificuldade de um intelectual classe-média em assimilar a linguagem de uma semi-analfabeta - mesmo quando ambos são migrantes nordestinos no Rio de Janeiro. Desse modo, A Hora da Estrela acaba se mostrando uma perfeita exemplificação dos conceitos desenvolvidos por Albuquerque em A Invenção do Nordeste sendo aplicados na prática. Enquanto Rodrigo S.M. embarca em uma versão tardia do romance de trinta, Clarice leva a novos patares o projeto de "desregionalização da região" iniciado por Cabral.

Bibliografia

Albuquerque, Durval Muniz de, Jr. A Invenção do Nordeste e Outras Artes. Recife: Massangana, 1999.
 Hora da Estrela, A CLARICE LISPECTOR
Arêas, Vilma. Clarice Lispector com a Ponta dos Dedos. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
Cixous, Hélène. Reading with Clarice Lispector. Minneapolis: Univ of Minnesota Press, 1990.
Fitz, Earl E. "Point of View in Clarice Lispector's "A Hora da Estrela"" in Luso Brazilian Review, Vol.19, No.2. (Winter, 1982), pp.195-208.
Gotlib, Nádia Batella. Clarice. Uma Vida que se Conta. São Paulo: Ática, 1995.
Helena, Lúcia. "A Problematização da Narrativa em Clarice Lispector" in Hispania, Vol.75, No.5. (Dec., 1992), pp. 1164-1173.
Lispector, Clarice. A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
Medeiros, Paulo de. "Clarice Lispector and the Question of the Nation" in Alonzo, Claudia Pazos and Claire Williams. Closer to the Wild Heart. Essays on Clarice Lispector. Oxford: Legenda, 2002.
Oliveira, Solange Ribeiro de. "The Dry and the Wet: Cultural Configuration in Clarice Lispector's Novels" in Oliveira, Solange Ribeiro de and Still, Judith, Eds. Brazilian Feminisms. Nottingham: University of Nottingham Press, 1999.
Sloan, Cynthia A. "The Social and Textual Implications of the Creation of a Male Narratings Subject in Clarice Lispector's "A Hora da Estrela"" in Luso Brazilian Review, Vol.38, No.1. (Summer, 2001), pp.89-102.

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Wednesday, January 10, 2007

Formulinhas Mega-Explicadoras Pseudo-Universais

Estava conversando com uma amiga. Ela disse que nunca se apaixonaria por um aquariano como eu, pois eles são transparentes e impessoais demais. Explicou o fracasso do meu casamento porque piscianos, como minha ex, se sentem facilmente sufocados. Etc.

E, a medida que a conversa prosseguia, eu me dei conta de uma coisa muito importante: formulinha mega-explicadora pseudo-universal por formulinha mega-explicadora pseudo-universal, prefiro as pessoas que entendem o mundo através da astrologia do que do marxismo, da psicanálise, do darwinismo.

Pelo menos, elas encaram o seu non-sense nos olhos. São menos arrogantes e cheias de si. E bem mais divertidas.

Desconstrução de Um Olhar: A Invenção do Nordeste em A Hora da Estrela (Parte 2 de 3)

 Hora da Estrela, A CLARICE LISPECTORA Nordestinidade de Clarice Lispector

Clarice Lispector é, talvez, o escritor brasileiro mais estudado e aclamado internacionalmente. A questão de sua identidade já foi foco de diversos trabalhos: Clarice foi estudada enquanto escritora brasileira, latino-americana, judia, feminista, esotérica, etc. Essa sua versatilidade de identidade é talvez um dos mais importantes elementos do seu sucesso acadêmico. Entretanto, além de mulher, brasileira, latino-americana, russa e judia, Clarice também era - ou se considerava - nordestina.

A autora nasce em uma pequena vila no interior da Ucrânia, filha de pais imigrantes judeus a caminho da América - naquele momento, ainda não sabiam se iriam aos Estados Unidos ou ao Brasil. A família pára na vila somente para o parto e, depois, segue viagem. Sobre sua origem russa, Lispector afirmava: "Naquela terra eu literalmente nunca pisei: fui carregada de colo." (Gotlib, 132) Quando a família chega ao Brasil, Clarice contava somente dois meses de idade. Foi alfabetizada em português e nunca aprendeu russo. Em casa, os pais preferiram desde a chegada falar somente em português com as três filhas - não falavam, e nem possuíam livros, em russo ou ídiche, a outra língua do casal. Filha de pais judeus, Clarice também aparentemente nunca praticou a religião nem comentava muito o assunto. Em uma entrevista, logo depois de confirmar ser judia, ela emenda, como se quisesse fugir da questão: "Enfim, sou brasileira, ponto e ponto." (Gotlib, 66) Clarice: uma Vida que Se Conta NADIA BATTELLA GOTLIB

Apesar da alfabetização em português, Clarice falava com um fortíssimo sotaque. Mais tarde, casou com um diplomata e passou quase vinte anos acompanhando-o por várias cidades do mundo. Todos esses elementos (religião exótica ao Brasil, nascimento e grande parte da vida adulta no exterior, forte sotaque) contribuíram para o surgimento de diversas lendas e mitos sobre a identidade nacional e linguística de Clarice Lispector. Muitos sustentavam que ela não era brasileira e não sabia falar bem o português. (Gotlib, 132) Seu forte sotaque, entretanto, era proveniente de uma língua presa que tornava impossível a pronúncia correta da letra R. Sua biógrafa Nádia Gotlib registra que a palavra "aurora" lhe atormentava particularmente (Gotlib, 132). Estritamente falando, seu único sotaque era um leve sotaque nordestino, da infância passada no Recife e em Maceió. Não apenas isso, o Nordeste marca também seu vocabulário: falava frequentemente expressões nordestinas como "sei não", "oxente!" e "virgem maria!" (Gotlib, 122). Em uma de suas crônicas para o Jornal do Brasil, depois reunidas no livro A Descoberta do Mundo, Clarice revela o impacto no Nordeste em sua vida: Descoberta do Mundo, A CLARICE LISPECTOR

Criei-me em Recife, e acho que viver no Nordeste ou Norte do Brasil é viver intensamente e de perto a verdadeiravida brasileira que lá, no interior, não recebe influência de costumes de outros países. Minha crendices foram aprendidas em Pernambuco, as comidas que mais gosto são pernambucanas. E através de empregadas, aprendi o rico folclore de lá. Somente na puberdade vim para o Rio com minha família: era a cidade grande cosmopolita que, no entanto, em breve se tornava para mim brasileira carioca. (Citada em Gotlib, 114)
E é justamente essa nordestinidade tão menosprezada pelos críticos, e também tão sutil na obra de Clarice, que vai explodir em seu último romance, A Hora da Estrela. Olga Borelli, melhor amiga de Clarice, presenciou o primeiro estalo criativo do livro. Estavam ela e Clarice na Feira de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, um tradicional ponto de encontro de migrantes nordestinos, com muita dança, diversão, comida. Assim como seu narrador Rodrigo S.M., que tem a idéia do romance ao pegar de relance o sentimento de perdição de uma moça nordestina nas ruas do Rio de Janeiro (Lispector, 12), Clarice também tem a idéia de escrever A Hora da Estrela ao ver uma moça nordestina na Feira de São Cristóvão. Segundo sua amiga Olga Borelli, Clarice sentou-se imediatamente em um banco e escreveu, ali mesmo, cinco páginas enquanto comia beiju e rapadura. (Gotlib, 473) Sobre Macabéa, que como ela, também veio de Alagoas para o Rio, Clarice disse: "ela é nordestina e eu precisava botar pra fora um dia o Nordeste que eu vivi." (Gotlib, 465)

Ou seja, apesar de ser um romance magistral e cósmico, apesar de tratar da vida e da morte, do cosmos e da biologia, da arte e da escritura, A Hora da Estrela é, antes de tudo, a história-desabafo de uma nordestina por outra nordestina, uma história do Nordeste que Clarice viveu.

O Nordeste e os Nordestinos em A Hora da Estrela

A Hora da Estrela (1977) foi a última obra publicada em vida por Clarice Lispector. Sempre uma autora introspectiva, voltada para dramas existenciais e psicológicos, nessa sua última obra Clarice enfrenta o desafio de abordar a vida vazia e muda de uma nordestina pobre, no Rio de Janeiro Macabéa. O livro poderia ter se transformado em mais um representante tardio do romance de trinta, com a única diferente de mostrar o nordestino no Sudeste ao invés de em sua própria terra, mas sempre enfatizando sua situação precária, patética, submissa, explorada. A genialidade de Clarice, entretanto, está em criar um narrador intermediário entre ela e sua problemática personagem, um buffer zone: desse modo, A Hora da Estrela torna-se muito mais do que a simples história de uma nordestina pobre no Rio de Janeiro, mas sim a história de um escritor masculino do Sudeste tentando entender, se relacionar e contar a história de uma nordestina pobre no Rio de Janeiro. A luta de Rodrigo S.M., narrador de A Hora da Estrela, simboliza a própria luta da cultura brasileira dominante parar criar, entender, digerir, domar e possuir a cultura do Nordeste. Nesse sentido, A Hora da Estrela é praticamente uma representação ficcional do processo narrado por Albuquerque em A Invenção do Nordeste. Assim como os intelectuais do Sudeste e do próprio Nordeste criam o Nordeste que lhes interessa, Rodrigo S.M., que é ao mesmo tempo carioca mas também nordestino, pois cresceu no Nordeste, tenta criar uma nordestina que possa controlar, dominar o discurso e manipular. Finalmente, porém, tanto o próprio conceito de Nordeste escapa do controle de seus criadores e torna-se orgânico para a cultura do país como a própria Macabéa se recusa a se encaixar nos limites impostos por Rodrigo e acaba tendo que ser sacrificada - como se sacrifica um projeto fracassado ou um cavalo manco.  Invenção do Nordeste e Outras Artes, A DURVAL MUNIZ DE ALBUQUERQUE JR.

A idéia de Nordeste é fundamental para o romance. Já na segunda página, Rodrigo S.M. descarta o conceito de felicidade (palavra doida, inventada por uma dessas nordestinas que andam por aí aos montes), revela que vai contar a história de uma nordestina que viu de relance pelas ruas do Rio e, tão importante quanto, estabele suas crendenciais de nordestino também: "sem falar que eu, em menino, me criei no Nordeste. Também sei das coisas por estar vivendo." (12) Existe um movimento interessante nesse trecho: ao mesmo tempo em que despreza a nordestinidade, se referindo às nordestinas que existem por aí como se fossem todas iguais e intercambiáveis, ele também valoriza o conceito, ao se propor a escrever um romance, gênero nobre, sobre a história de uma nordestina, algo que ele também é. Afinal, o leitor poderia se perguntar, ser nordestino é desprezível ou não, digno de orgulho ou não?

O nome de Macabéa só é revelado na segunda metade do livro. Por dezenas e dezenas de páginas, ela é somente "a nordestina", mais uma entre milhões, sem nada que a diferencie ou defina. O próprio ato de tardar tanto em lhe nomear é revelador da pouca importância que ela têm para o narrador. Até que seja nomeada, Macabéa não existe enquanto indivíduo mas somente como representante paradigmática dessa "nordestina" migrante, feia e burra, intercambiável e substituível:
Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam. (14) Ela era um acaso. Um feto jogado na lata de lixo embrulhado em um jornal. Há milhares como ela? Sim, e que são apenas um acaso. (36)
Na arrogância de sua voz narrativa, Rodrigo S.M. deixa claro que Macabéa somente é digna de destaque por estar tendo sua vida narrada por ele: ou seja, a dignidade humana emana dele, e não dela. Sem ele, sem sua narração, sem seu olhar, ela seria realmente somente mais uma. Mais ainda, para sublinhar a suprema desimportância de Macabéa, ele enfatiza que escreve por ele e para ele, por causa de suas necessidades e obsessões, nunca por ela. Macabéa não importa: "Preciso falar dessa nordestina senão sufoco. (17) Escrevo portanto não por causa da nordestina mas por motivo grave de 'força maior'". (18) Esse desprezo é completamente explícito, nada sutil. O narrador enfatiza diversas vezes a posição inferior de Macabéa em relação a ele e deixa claro seus esforços para se rebaixar ao seu nível. Impossível não ver nisso um paralelo com a atitude do Sudeste para com o Nordeste: "Pra falar da moça tenho que não fazer a barba durante dias e adquirir olheiras escuras por dormir pouco, só cochilar de pura exaustão, sou um trabalhador manual. Além de vestir-me com roupa velha rasgada. Tudo isso para me pôr no nível da nordestina." (19) Hora da Estrela, A CLARICE LISPECTOR

Ao longo de todo o livro, o Nordeste e os nordestinos são retratados de forma consistentemente negativa. O nordestino é doente do fígado, tem a pele manchada, é magro e raquítico, repleto de defeitos provenientes de maus antecedentes, de pais famintos e da herança do sertão, uma área de febres ruins, doenças e pobreza. (27-28, 58) Através da figura de Olímpico, Rodrigo traça um retrato cruel do homem nordestino: preconceituoso, machista, ladrão, agressivo, burro, aproveitador, seco, inculto, incompetente, arrogante, ambicioso, racista. Ele humilha Macabéa, rouba o relógio de um colega, mata um homem, só sabe falar sobre comida, nem sabe o que é cultura, não admite sua ignorância e, finalmente, troca Macabéa por Glória somente por essa ser loira, gorda, carioca e filha de açougueiro. Rodrigo faz com Olímpico o mesmo que esse faz com Macabéa e humilha-o com requintes de crueldade: "Trouxera consigo, comprada no mercado da Paraíba, uma lata de vaselina perfumada e um pente, como posse sua e exclusiva. Não desconfiava que as cariocas tinham nojo daquela meladeira gordurosa." (57) Ou seja, o típico migrante ignorante que nem mesmo domina os códigos da terra para onde migrou.

Para Rodrigo S.M., Macabéa e Olímpico são não personagens humanos, mas símbolos de tudo o que o Nordeste e os nordestinos têm de mais patético e desprezível. Similarmente, para Clarice, Rodrigo também é menos personagem do que símbolo paradigmático da atitute sulista para com o Nordeste. A Hora da Estrela, antes de tudo, é a história de um olhar.

(conclui amanhã...)

Não Me Canso Dessa Vista

Sunset from My Window
(clique para ver em tamanho gigantesco)


Tuesday, January 9, 2007

Desconstrução de Um Olhar: A Invenção do Nordeste em A Hora da Estrela (Parte 1 de 3)

Introdução
  Invenção do Nordeste e Outras Artes, A DURVAL MUNIZ DE ALBUQUERQUE JR.
Em A Invenção do Nordeste, Durval Muniz de Albuquerque Jr narra a criação e consolidação da idéia de região Nordeste ao longo do século XX, um processo que incluiu a gestação de discursos literários e políticos, se estendendo também para a música e as artes plásticas. O último autor comentado por Albuquerque é João Cabral de Mello Neto que, segundo ele, teria começado um movimento de "desregionalização da região", ao questionar sistematicamente os elementos mitológicos e discursivos desse imaginário nordestino.

O objetivo desse ensaio é analisar como o romance A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, dá continuidade a esse processo de desconstrução do discurso regional. Através da interação do narrador-ficcional Rodrigo S.M. com a personagem nordestina Macabéa, Clarice demonstra na prática as teorias de Albuquerque em funcionamento: Rodrigo é o próprio Sudeste, tentando entender, digerir e controlar o Nordeste (que ele mesmo constrói como pobre, desgraçado e indefeso) encarnado na migrante Macabéa. Hora da Estrela, A CLARICE LISPECTOR

A Invenção do Nordeste

A Invenção do Nordeste e Outras Artes, de Durval Muniz de Albuquerque Jr, foi originalmente apresentado como tese de doutorado em História na Unicamp (1994). Em 1996, ganhou o concurso Nelson Chaves, de teses sobre o Norte e Nordeste, promovido pela Fundação Joaquim Nabuco. Foi publicado em 1999 e teve sua terceira edição lançada em 2006. Uma interessante mescla de estudos culturais, história cultural e crítica literária, o livro busca mostrar o processo através do qual a região Nordeste surge no imaginário brasileiro como uma criação sociopolítica e cultural.

Segundo o autor, o Nordeste começa a ser criado em princípios do século XX, em resposta a várias crises. A seca, particularmente a de 1915, atinge a região de forma brutal. Buscando verbas e apoio na capital federal, os representantes dos estados afetados descobrem que a seca é um modo eficiente de obter recursos. De uma forma ainda incipiente e bem pragmática, "Nordeste" passa a significar a "região afetada pela seca". Um outro momento de crise propiciado pela seca é a emergência do cangaço, onde bandos de homens sem futuro e sem perspectivas assolam o sertão, desafiando a lei, roubando, matando: "O combate ao cangaceiro, que não respeitava as fronteiras estaduais, vai exigir também a crescente atuação conjunta do aparelho repressivo dos estados. O Nordeste é, pois, uma região que se constrói também no medo contra a revolta do pobre, no medo da perda de poder para a 'turba de facínoras que empestavam o sertão'". (71)

Enquanto existe e atua, o cangaceiro serve não apenas para unificar as forças policiais, mas também para sublinhar o clima de desesperança da região: ele é o sintoma de toda uma crise, o adversário paradigmático do coronel, aliás, seu exato oposto, o outro lado de uma mesma moeda. Depois de extinto, entretanto, na década de 40, o cangaceiro torna-se importante símbolo. Para os setores conservadores, ele simboliza toda a bárbarie de que o povo é capaz se não for constantemente submetido pela força da lei - justificando assim mais verbas policiais e militares para a oligarquia regional. Nesse aspecto, o beato entrincheirado em Canudos, o devoto de Padim Ciço e o cangaceiro são todos manifestações da mesma bárbarie latente do nordestino sertanejo. Para os setores progressistas, o cangaceiro simboliza a capacidade de revolta do povo contra a opressão econômica, sendo não apenas um sintoma da pobreza da região e do desespero do homem do campo, mas também um exemplo de revolta popular razoavelmente bem sucedida contra um opressor muito melhor aparelhado - justificando assim campanhas marxistas de denúncia às oligarquias e aparelhamento material e ideológico do trabalhador rural. Dado que o cangaceiro significa um pouco para todos, sua continuada sobrevivência no imaginário nacional não deve ser surpresa para ninguém.

O avesso do cangaceiro é o coronel. Embora mecanismos políticos tradicionais existam por todo país, o Nordeste ainda é visto como a região das oligarquias e dos coronéis: naturalmente, pois foi justamente no Nordeste que essas oligarquias melhor conseguiram se articular para inventar uma região em nome da qual falam e reinvindicam (129). Existe algo de fortemente conservador no pensamento que dá forma ao conceito de Nordeste. Como aponta Albuquerque, o Nordeste é filho da modernidade, mas um filho reacionário, uma maquinaria imagético-discursiva gestada para conter o processo de desterritorrialização por que passavam as elites locais (306). Na verdade, a invenção do Nordeste foi um dos principais momentos de recusa da modernidade na cultura brasileira (312). Esse fenômeno se manifesta claramente no tratamento da cidade e da indústria dentro deste "imaginário nordestino". Apesar de ter sido palco de algumas das primeiras e principais experiências urbanas e industriais do país, o Nordeste ainda é visto, representado e entendido como uma região rural por excelência:

As cidades nordestinas, quando tematizadas, parecem ter parado no periodo colonial, são abordadas como cidades folclóricas, alegres, cheias de luz e arquitetura barroca (104-105). O Nordeste como lugar da tradição é sempre tematizado como uma região rural, onde as cidades aparecem como símbolos de decadência, do pecado, dos desvirtuamento da pureza e da inocência camponesas. Embora muito antigo, o fenômeno urbano e metropolitano no Nordeste é praticamente ignorado por sua produção artística e literária. Sendo o local de uma das primeiras manifestações industriais do país, a indústria é vista com desconfiançca, como um corpo estranho numa "região agrícola" (115).
Nesse contexto, o folclore também se torna importante ferramenta conservadora. Embora se vejam como defensores da cultura popular, os folcloristas são os maiores detratores do folclore. Ao cobrar a permanência do folclore ao longo do tempo, esses estudiosos na prática pegam uma tradição viva e sempre mutável e tentam petrificá-la em algum momento do passado, impedindo que os contemporâneos tomem-na para si como fizeram seus avós. Equivale a dizer: o folclore era vivo e mutável e válido até o ano X: depois disso, mudanças passam a ser "distorções" nas tradições populares. Ao ser tornado obsoleto, o folclore torna-se também uma ferramenta reacionária. Como argumenta Durval, um dos modos dessa elite regional se perpetuar no poder é criando uma nova tradição que responda ao seus interesses ao mesmo tempo que reinvindicam uma pretensa continuidade dessa mesma tradição inventada:
O folclore seria um elemento de integração do povo nesse todo regional, (...) [apresentando] uma função disciplinadora, de educação, de formação de uma sensibilidade, baseada na perpetuação de costumes, hábitos e concepções, construindo novos códigos sociais, capazes de eliminar o trauma, o conflito trazido pela sociedade moderna. O uso do elemento folclórico permitia criar novas formas que, no entanto, ressoavam antigas maneiras de ver, dizer, agir, sentir, contribuindo para a invenção de tradições. Construir o novo, negando a novidade, atribuindo-o a uma pretensa continuidade. (77-78)
Para Albuquerque, o Nordeste é produto de uma homogeneização (26). O Nordeste é maior, mais complexo e mais multifacetado do que sua imagem, seu rótulo, seu paradigma. Para que se formasse a idéia de um Nordeste rural, foi necessário "esquecer" suas cidades; para que se formasse a idéia de um Nordeste seco e árido, foi necessário "esquecer" suas imensas florestas, e assim por diante, tudo para conseguir encaixar todo o Nordeste, em toda sua complexidade ecológica, econômica e social, dentro dos estreitos limites do seu paradigma cultural. Como escreve Albuquerque, o Nordeste é "uma construção mental, formada por conceitos sintáticos e abstratos que procuram dar conta de uma generalização intelectual, de uma enorme variedade de experiências efetivas. Falar e ver a nação ou região não é, a rigor, espelhar essas realidades, mas criá-las." (27) E mais adiante ele conclui: "O Nordeste quase sempre não é o Nordeste tal como é, mas tal como foi nordestinizado." (311)

Naturalmente, grande parte dessa nordestização simplista e redutora foi perpetrada pelos próprios intelectuais e escritores nordestinos. A partir das décadas de vinte e trinta, a literatura regional ascende à condição de literatura nacional, "preocupada com a nação e com seu povo, mestiço, pobre, inculto e primitivo em suas manifestações sociais. A literatura passa a ser vista como destinada a oferecer sentido às várias realidades do país; a desvendar a essência do Brasil real." (107) O romance nordestino por excelência vai tender a reforçar os estereótipos já vistos, como a recusa à modernidade e a repulsa à cidade e à indústria; e serão francamente nostálgicos em relação a um passado em que a vida parecia mais clara e estável, com todas as hierarquias fixas e ordenadas. São romances escritos por uma elite que se vê perdida em um mundo novo e tenta recuperar o que perdeu: "o que mais temem na modernidade é o dilaceramento, o conflito em torno do próprio espaço tido, até então, como referente natural e eterno." (114) Por isso, o discurso do romance regional é hierarquizado, valoriza uma sociedade onde cada um sabe o seu lugar. Ao enfatizar a arbitrariedade do mundo burguês e a exploração do assalariado, acabam por valorizar a sociedade patriarcal e escravista, criando uma visão lírica, muitas vezes explicitamente saudosista, da escravidão. (123) Esse conservadorismo do romance de trinta se reflete também na espessura dos seus personagens: são tipos fixos, petrificados, "que mesmo diante de todos os conflitos internos e dos dissabores externos que enfrentam ao longo da trama, nunca chegam a se negar a si mesmos; eles têm garantida a continuidade de "um modo de ser", de "um modo de pensar", de um "modo de agir" regional." Como em qualquer romance de tese, e o romance regional de trinta não deixa de ser um romance de tese, a função dos seus personagens parece ser a manutenção de uma essência e eliminação de qualquer virtualidade. (110)

O Nordeste não é somente a invenção da elite de direita mas também da elite de esquerda, escritores e artistas, estudiosos e acadêmicos cujo discurso ajuda a elaborar o que é, basicamente, um território de revolta. De certa forma, ambas elites agem de forma igual: seus discursos classe média urbanos-industriais são sempre proferidos de cima pra baixo, um discurso do Brasil civilizado sobre o Brasil rural, tradicional, arcaico, rebelde, bárbaro, primitivo, uma região bárbara que só pode ser domada seja pela disciplina burguesa ou pela disciplina revolucionária. De esquerda ou de direita, são sempre discursos etnográficos, que vêem o outro como exótico, curioso, distante, que vêem o povo como pretexto para veicular suas demandas de poder ao Estado, "de tomar a voz e a visão do povo para si; de falar em nome dele." (194-195) Um intelectual regionalista, seja de esquerda ou de direita, é aquele que se sente eternamente longe do centro irradiador de poder e de cultura. A base do seu discurso é a denúncia dessa sua distância, dessa sua impotência, dessa sua vitimização. (50)

A esquerda toma o Nordeste como "exemplo privilegiado da miséria, da fome, do atraso, do subdesenvolvimento, da alienação do país" (192); dá apenas uma leitura marxista a já existente mitologia do Nordeste, mas ainda mantendo-a presa às mesmas questões: "a visibilidade e dizibilidade da região Nordeste, como de qualquer espaço, são compostas também de produtos da imaginação, a que se atribuem realidade. Compõem-se de fatos que, uma vez vistos, escutados, contados e lidos, são fixados, repetem-se, impõem-se como verdade, tomam consistência, criam raízes" (192). Ou seja, o discurso torna-se mais real do que a própria realidade e chega-se ao ponto de que não se pode mostrar um verão nordestino em que "os ramos não estejam pretos e as cacimbas vazias" (192). O Nordeste não existe mais sem seca, coronéis, jagunços ou santos. (192) Ou, inversamente, não pode existir com progresso, indústria, florestas, eleições livres - todos elementos que extrapolam os limites do paradigma e demonstram sua explícita falsidade: "o Nordeste dos 'regionalistas e tradicionalistas' é uma região formada por imagens depressivas, decadentes." (80)

No romance de trinta, eminentemente de esquerda, "a ênfase na luta social entre as classes é uma premissa básica na construção das narrativas e das obras." (200) Entretanto, culpar o capitalismo como causa única da regionalização do Nordeste implica que, antes da criação da região, "existia uma unidade anterior que se dissolveu, quando, na verdade, tanto esta idéia da existência de uma unidade anterior, que seria a nação, como a idéia da regionalização posterior, são efeitos de relações discursivas." (34) Ou seja, insiste-se na idéia falsa de que o existe um Nordeste verdadeiro, autêntico, por trás do Nordeste falso, explorado, expoliado, que vemos hoje. Ao perseguir essa quimera, esses intelectuais cegam-se em relação ao verdadeiro processo de criação de um discurso constitutivo da região. Seus discursos, eternamente presos na lógica da vitimização, ao criar um "outro" culpado pelas mazelas sociais, criam também um "eu" descomprometido com sua condição, inocente, explorado: "o discurso das desigualdades regionais, por exemplo, traz em sua base a falsa premissa de que um dia existiu ou poderão existir regiões iguais, além de partir da naturalização e homogeneização das regiões que põe em comparação." (310)

O Nordeste não é apenas criado no próprio Nordeste mas em todo o país, especialmente no Sudeste, por intelectuais "que disputam com os intelectuais nortistas a hegemonia no interior do discurso histórico e sociológico." (101) Do ponto de vista complacente das elites sulistas, o Brasil "seria um país cindido entre a inteligência do sul, mais bem aparelhada em seus conceitos de realidade e, de outro lado, o 'nortista', fantasioso, imaginoso e sensitivo, delirante e compadecido." (104) Se, por um lado, a elite regional cria o Nordeste como o espaço do passado, a população migrante vai instituir o Nordeste como o espaço da saudade. (151) De acordo com Albuquerque, o grande responsável por esse processo teria sido o músico Luiz Gonzaga, ao assumir uma identidade francamente regional e se transformar em representante do Nordeste no Rio de Janeiro, dirigindo suas músicas ao migrante nordestino radicado no sul (154) e se colocando como "intermediário entre 'o povo do Nordeste' e o estado, que deseja saber os desejos do povo, cabendo ao artista fazê-los visíveis." (157) Seria o sucesso de suas músicas um dos fatores iniciais de solidificação de uma identidade regional entre os migrantes: apesar de provenientes de estados diferentes, com culturas diferentes, sotaques diferentes, experiências diferentes, eles começam a se ver como iguais em gostos, costumes e valores - o que não acontecia na própria região. (159) Esse processo vai responder a uma das questões levantadas por Albuquerque: como pode a cultura regional do Nordeste ser tão rica e resistente se a região é subordinada política e economicamente, se sua população migra para dentro e para fora da região, se sofrem um contínuo processo de desenraizamente cultura? Como conseguiram preservar suas raízes e tradições? (158):
Isto se deve exatamente ao fato de a "cultura nordestina" ser uma invenção recente, assim como o Nordeste, fruto em grande parte deste próprio desenraizamento. Esse espaço e essa cultura da memória, do passado, não são apenas evocação, mas principalmente criação de um espaço imaginado e de tradições feitas em contraponto à realidade urbana e sulista enfrentada pelos migrantes. (158)
Esse discurso acaba construindo uma dicotomia na qual o Nordeste - e, conversamente, o Sul - são vistos alternadamente como inferno na terra e utopia saudosista. Por um lado, o Nordeste é visto como o espaço da seca, da morte, da pobreza, sendo a terra de promissão sempre localizada mais ao sul, "o caminho da libertação do nordestino, mesmo que possa significar, inicialmente, o aprisionamente na máquina burguesa de trabalho." (199) E, por outro, o Nordeste também é construído, à distância, distância tanto espacial quanto temporal, como o espaço da ordem, da bondade, das tradições, onde as coisas ainda são como deveriam ser, em oposição a essa cidade grande sempre suja, decadente, falsa, hipócrita, hostil - tudo o que o "Nordeste verdadeiro" não é.

Segundo Albuquerque, o artista que inicia o processo de "desregionalização da região" é João Cabral de Mello Neto. Em muitos aspectos, sua obra dá continuidade a diversos elementos típicos do romance de trinta e da ideologia marxista, como a construção de "um espaço submetido a uma operação de homogeneização, onde parece só haver miséria, exploração e fome." (260) O que diferencia Cabral, entretanto, é seu projeto de representar o Nordeste através da forma e não apenas do conteúdo, através de uma linguagem que deva imitar e não encobrir a realidade (252), uma linguagem seca não por resignação, mas por contundência, uma depuração que é tanto estratégia linguística quanto política, pois ambas as coisas não se separam. (256) Cabral é diferente de seus antecessores por utilizar a linguagem e o estilo para desconstruir as tradições inventadas da região (255): ele não evoca um passado nostálgico, não se identifica nem com a sociedade patriarcal nem com a burguesa; a construção do seu futuro passa pela "destruição das ilusões trazidas pela memória e pela celebração do presente como momento transformador." (262)

O problema com Cabral, entretanto, continua Albuquerque, é que apesar de seus esforços para desconstruir a "mitologia" do Nordeste, toda a sua crítica da linguagem ainda se pauta pela busca de uma linguagem mais adequada para exprimir a realidade do Nordeste. Quando desconstrói o falso Nordeste da tradição ele também deixa implícito a existência de um Nordeste verdadeiro, encontrável e articulável em forma de poesia. O que ele deseja encontrar é a forma correta de expressar o Nordeste real, de torná-lo claro e cristalino, de mostrá-lo em sua verdade (253), permanecendo assim sempre preso à "ilusão da possibilidade de construção de uma imagem e de um texto que correspondessem plenamente à sua realidade, que fossem expressão de sua verdade" (263):  Invenção do Nordeste e Outras Artes, A DURVAL MUNIZ DE ALBUQUERQUE JR.
Ao querer reconstruir o Nordeste, ao invés de destruí-lo, por querer encontrá-lo em sua verdade, em vez de denunciá-lo como uma impostura, é que a racionalidade de sua poesia fez água. Ao não tomar o Nordeste como uma abstração a serviço da dominação, o poeta, ao concretizá-lo, ofereceu novas formas para esta dominação se reproduzir, tropeçando nas próprias pedras que quis colocar no caminho da dominação. (262-263)
Albuquerque conclui seu estudo lembrando que a busca por raízes, fruto de um olhar sempre voltado para baixo, tende a reproduzir nossa eterna condição de colonizados sempre em busca de nós mesmos: "os que vão em busca de raízes acabam cobertos de lama e de pedregulhos. O caminho da grande arte nunca foi o das raízes, mas o das estrelas." (286) Por ser uma invenção recente na história brasileira, o Nordeste não pode jamais ser estudado sem que se leve em conta essa historicidade. (305) Por fim, o grande perigo intelectual ao se escrever sobre o Nordeste, pior do que o anacronismo, é a falácia de Cabral: uma busca vã por um Nordeste verdadeiro e quimérico que nunca existiu: "O discurso regionalista não é apenas um discurso ideológico, que desfiguraria uma pretensa essência do Nordeste ou de outra região. O discurso regionalista não mascara a verdade da região, ele a institui." (grifo do autor) (49)

(continua amanhã...)

Três Anúncios

Tem anúncios que a gente não esquece. Aqui vão os meus. Vocês lembram desses? Quais são os seus? Conta pra mim.

* * *

Anúncio do jornal O Globo, final da década de 70. Era só uma musiquinha e cenas do dia nascendo no Rio de Janeiro. O anúncio não era particularmente genial mas a música, quase 30 anos depois, não me sai da cabeça. Era mais ou menos assim:

Um novo dia começou / E a cidade já vai despertar / Aquele papo na esquina / E O Globo na mão / Nosso jornaleiro / Chova ou faça Sol / Ele está sempre aí / Sempre pertinho / Nosso jornaleiro!

Sério, alguém lembra?

* * *

Anúncio do Chicabon, deve ser da década de 90. Show de rock, muitos adolescentes dançando no gargarejo. Um rapaz e uma moça, cara de roqueiros. Não me lembro como começa o diálogo, acho que ela oferece um Chicabon pra ele e chama de "picolé de chocolate"

Ele: "Peralá, não é "picolé de chocolate", é Chicabon!"

Ela, cagando: "Ah, picolé de chocolate, Chicabon, é tudo a mesma coisa!"

Ele, didático: "Não é não. Picolé de chocolate é uma coisa, Chicabon é outra. Seu pai não te ensinou, não?"

Ela, cagando cada vez mais (temos a impressão de que a discussão do Chicabon acabou de matar as chances de rolar alguma coisa entre eles): "Ah, pai essa hora tá tudo na cama!"

Ele, fazendo uma cara de espertinho: "Só se for o seu!"

E a câmera dá um close no roqueiro cinquentão dando um solo de guitarra no palco, parecido com o Joe Cocker, e dando a entender, claro, que ele é o pai do rapaz, que lhe ensinou tudo sobre picolés de chocolate e Chicabon.

Eu acho esse anúncio genial em vários níveis. Em primeiro lugar, ao contrário de muitos anúncios pseudogeniais, ele é genial porque *vende* o produto. Se você consegue lembrar de um anúncio "genial" sem lembrar o produto, então o anúncio não era tão genial assim, pois falhou em seu primordial objetivo. Anúncio tem que vender produto, não ganhar leãozinho em Cannes. Enfim, o lindo desse anúncio é que é impossível lembrar dele, ou contá-lo, sem lembrar do produto.

Ele também é genial por passar, de forma belíssima, trocentas informações vitais sobre o produto. Chicabon é picolé de chocolate (claro!) mas também não é, é muito mais que picolé de chocolate. Chicabon é uma coisa antiga, de tradição, que pode ser passada de pai pra filho. Chicabon é coisa de jovens cool, que vão a shows de rock e tudo, e de adultos cool, que dão solos de guitarra maneiros. Chicabon não é careta.

E, mais importante, Chicabon é tão fundamental que o garoto arriscou a transa garantida de depois do show pra ficar enchendo o saco da menina (que não estava com a menor paciência) com essa história de picolé de chocolate.

Perfeito.

* * *

Anúncio em preto-e-branco. Pelas roupas e carros, década de 20 ou 30. Um pai e seu filhinho estão andando pela rua. Não lembro se falam em português ou se falam em italiano com legendas. Aparentemente, estão se preparando para emigrar para o Brasil. O menino pergunta:

"Pai, tem espaguete no Brasil?"

"Tem, meu filho."

"Pai, tem lasanha no Brasil?"

"Tem, meu filho"

"Pai, tem panetone no Brasil?"

Aí o pai olha pro filho muito sério e diz num tom absolutamente heróico e visionário impossível de reproduzir por escrito:

"Filho, se não tiver, a gente FAZ!"

E aí aparece o slogan. Bauducco, 50 anos de Brasil.

Me dá calafrios até hoje.

* * *

E você? Quais são os anúncios que você nunca esqueceu?


Monday, January 8, 2007

A Solução Mais Simples Quase Sempre É a Mais Óbvia

Escreveu o genial Harry:

Acho que entendi. As pessoas que concordam com você e pensam como você não vão ficar mandando e-mail elogioso, porque não se importam, acham que você se importa ainda menos e não vão gastar tempo com isso. Só quem manda e-mail é quem não é como você.

Emails Maravilhosos que Recebo

Lendo meus emails, eu descubro quem eu sou de verdade. Descobri, por exemplo, que sou um robô sem sentimentos e um verme a serviço do capitalismo:

Estive lendo seu blog e fiquei surpresa cmg msm... Geralmente não há nd que me prenda a atenção, a não ser que tenha menos de 10 linhas para se ler... Deve ser por isso que não sou muito boa com as palavras... E apesar de ter adorado ler seus posts e tal, fucei mesmo seu blog e acabei por alguns momentos odiando vc. Adoráveis, admiráveis, sei lá... Certas vezes vc se apresenta espetacularmente sensato em suas críticas, suas opiniões decididas, porém outras vi vc como um verme, sem vestígio de qq sentimento, escreve como um robô programado para executar as tarefas essenciais de um mundo capitalista para obter o sucesso exigido por quem quer q o tenha programado ou pelo próprio prazer... Achei mesmo absurdo vc dizer q tem pessoas q dizem um simples "Oi" pra vc no msn, já que pela sua concepção, elas deveriam ter um assunto em mente para tratar... A impressão que dá é q vc pensa q as pessoas só começam uma conversa com o interesse em algo, não te passa pela cabeça q elas apenas querem jogar conversa fora? Falar de coisas inúteis, sem nexo, ou só receber um "Oi, como vai?" e se sentirem um pouco amadas, lembradas, ou sei lá oq? Existem pessoas q não tem nd além de esperança na vida... E podem estar bem ao seu lado, precisando só de um olhar seu pra sobreviverem... Posso até estar equivocada e sendo ridícula e se estiver sinceramente te peço desculpas, aliás não vi nem metade desse seu blog, mas o pouco que vi me dá a impressão de um "Alex" mais máquina q ser humano...
Para a leitora que acha que sou um lacaio do capital, mandei meu texto sobre consumismo.

* * *

Depois desse post, vários leitores que tinham me dito que "me adoram mas discordam de mim" vestiram carapuças e mandaram emails se desculpando. Um deles:
Quando eu tentei fazer jornalismo, lembro de uma tal aula que falava de "ruído" na comunicação: talvez seja esse o caso aqui. Quando eu disse que lia "apesar de discordar", achei um puta elogio, vc interpretou sei lá como. Pode ser erro meu, mas pode ser erro seu na leitura tb. Sei lá. O intuito não foi polemizar, porque tenho preguiça de polemizar e durmo no meio das discussões. O intuito foi elogiar mesmo, eu, pelo menos, vi assim. Vc não viu, pelo jeito. Enfim...dando um exemplo: tb discordo do Mainardi, por exemplo, mas não leio. Porque acho que ele é um chato da porra.
O comentário, em si, não é nem um pouco insultante, nem ofensivo, e é, de fato, um grande elogio. A dúvida que motivou o post é porque TODO MUNDO que me elogia diz isso, ao invés de somente uma ou outra pessoa. Nunca disse que estava ofendido ou magoado.

* * *

Um leitor leu os textos sobre casamento aberto e também acha que me conhece melhor do que eu mesmo. Ele parte de uma série de premissas falsas, que tirou da própria cabeça, e depois as critica. Minha participação no processo é zero:

cara. Eu já tive os dois tipos [de relacionamento, aberto e fechado]. Já tive um relacionamento que nem sabia que tinha este nome " aberto " foi bom sim pois mesmo estando com a minha gata podia curtir outras e no caso dela nem quería saber. Mas sinceramente, mesmo estando debaixo do mesmo teto e ela sendo minha mulher eu não conseguía vê-la desta forma, quando eu olhava pra ela sabía que ela não era mulher pra casar. Cara, a palavra Casamento é muito mais do que somente um nome. Não se cabe a palavra casamento sem fidelidade. Hoje sou casado de verdade e minha esposa é ciumenta sim e somente me casei com ela pois sei que ela é uma pessoa que eu posso ter um relacionamento sério e que posso dar a ela o direito da confiança. No seu caso nem você e nem sua esposa são pessoas de confiança e a carne em vocês fala bem mais alto que o espírito e não me leve a mal, quem tem a carne mais forte que o espírito não passa de churrasco ambulante, de um pedaço de carne que pode ser manipulado por qualquer bunda ou peito ou sorriso de uma boca atraente. Eu pude até topar essa coisa de relacionamento aberto mas eu na vida mas sei perfeitamente que somente na fidelidade conseguimos ter respeito pela nossa companheira, sem este sentimento fica difícil eu me entregar e por mais inteligente e professor que você se ache, não se engane, esta mulher que você tem este relacionamento aberto, aliás todas elas que você tem relacionamento você não as conhece direito e elas não se abrem de verdade pra você, então este papo de que você precisa conhecer a pessoa pra ter a relação é puro cococó, sou mais sua esposa que pelo menos assume que é carne e transa sem nem ao menos saber o nome dos caras, é tesão e ela com certeza deve estar aproveitando muito mais que você ! Uma mulher somente se entrega de verdade e naturalmente pra você e você somente consegue ser feliz com ela de verdade e amá-la de verdade se for só dela e ela somente sua. Ela anda na rua e tem as fantasias e desejos dela mas quando pensa em você, o homem de verdade dela o outro não passa de carne e o desejo vai embora ou não, mas se não for é porque os sentimentos não existem mais mesmo e aí de qualquer forma o casamento acabou. Prefiro viver assim, fiel, enquanto dure. Por mais que seja cabeça feita, uma mulher que não me dá exclusividade não merece o meu amor sincero, o problema real nisso tudo é encontrar uma pessoa que pense como você. Viver intensamente uma coisa de cada vez, acabou, adeus, sem crise e brigas e estando-se solteiro aí pode-se fazer o que quizer mas pintou amor que é bem mais bonito que a carne, viva-o exclusivamente senão irmão, nada vai ser bem feito e quem tudo quer, tudo perde (e estas frases são tão antigas quanto aquelas que você colocou e fique sabendo que a maioría destas pessoas, incluindo o Nelson Rodrigues, eram umas tremendas bichonas enrustidas).

Pôr do Sol em Ipanema

Uma amiga paulista me perguntou porque carioca aplaude o pôr-do-sol.

Porque é um espetáculo, ué.

Sunset on Ipanema

Sunset on Ipanema Sunset on Ipanema


Sunday, January 7, 2007

Flickr

Hoje, meu Flickr vai bater um milhão de visitas em dois anos de existência - em comparação, o LLL demorou dois anos e meio pra chegar ao primeiro milhãozinho. Confesso que ultimamente não leio mais blog quase que nenhum mas visito trocentos e oito Flíqueres por dia. É uma delícia. Já fiz grandes amigos pelo Flickr, inclusive até a mulher que eu amo, a incomparável Liloló (lindaloiralouca), trocando comentários nas fotos uns dos outros. Além das fotos de pezinhos, claro, eu tento me concentrar em tirar fotos de pessoas normais pelas ruas, fotos que contem histórias, que tenham uma narrativa. Se ainda não conhece meu Flickr, hoje é um bom dia.

Duas Coisas que Não Entendo na Universidade

Gente que sublinha o livro todo.

Outro dia peguei o livro de uma amiga e tinha um artigo, não estou zoando, 80% sublinhado. No fim, as frases não-sublinhadas acabavam se destacando mais. De que adianta fazer isso?

Gente que anota cada vírgula o que professor fala.

Sinceramente, o que fazem com essas notas depois?

"O Banco É do Povo Todo, Não do João ou da Maria!"

O problema da esquerda é que, mesmo quando está certa, é ridícula. Também achei que essa nova campanha do BB a maior idéia de gerico. Mas vejam o que disse o Sindicato dos Bancários de Brasília:

A estratégia de marketing é um "golpe" para tentar mudar o nome da instituição, como "quando tentaram mudar o nome para Banco Brasil". "A gente discorda porque descaracteriza o banco. Dá a impressão de um banco privado. O Banco do Brasil é dos brasileiros, e assim ele deve continuar". (...) O sindicato também condena os gastos feitos com publicidade "apenas para confundir a população". "Cabe perguntar: quanto se gastará para trocar os painéis das agências; para publicação nos principais jornais do país; em anúncios em rádios e televisão? Os responsáveis por essa ?nova idéia? irão responder pelo prejuízo que estão causando a empresa?"


Saturday, January 6, 2007

Elogio à Masturbação

Faz alguns dias, eu propus um desafio aos meus leitores. Todo mundo nos ensina que a masturbação é linda e saudával, mas ninguém nunca conversa sobre isso. O assunto é tabu, vergonhoso, silenciado, esquecido.

Confesso que foi difícil escrever esse post. Sim, eu só propus o desafio porque esse tabu era um tabu pra mim também. A abertura de vocês possibilitou o meu relato. Como exclamou surpresa uma leitora: "e não é que responderam mesmo?" Claro que responderam. Tenho os melhores leitores do mundo.

Considerei fazer minha confissão anônima, nos comentários, e mandar vocês irem lá adivinhar quem era. Mas aqui vai.

Aprendi a me masturbar sozinho, aos 11 anos, na minha cama, lendo um gibi da Mulher Maravilha, com uma vilã descalça muito gostosa, de tornozeleira de pérolas e sarongue. Infelizmente, a chata da Mulher Maravilha venceu no final. Era dia 15 de novembro de 1985. (Sim, eu lembro o dia de tudo o que aconteceu na minha vida, nunca esqueço uma data.)

Eu diria que meu ápice masturbatório foi lá pelos 14, 15. Tinha dias que rolava umas cinco. Não sei como o pau não quebra. Nunca usei nenhum apetrecho, nem KY nem nada. Sempre associei KY com sexo, nunca com masturbação. Uso apenas uma camisa velha pra limpar a porra - sempre lavada, é claro. A posição ideal é deitado na cama, de barriga pra cima - acho que homem não dá pra variar muito nesse quesito.

Masturbar a pessoa amada é sempre uma delícia. Com dedo, com a língua, com outro objeto, com o que estiver a mão. Acho especialmente romântico/sacana ficarmos os dois apertadinhos no sofá, um com a mão na virilha do outro. Mulher é muito mais gostoso de masturbar do que homem, existem milhares de variações deliciosas, homem é sempre meio igual. Experimentem clit com a língua, penetração vaginal com um dedo e anal com outro. É lindo. Já me masturbei muito na webcam, deusquemeperdoe, mas só a pedidos.

Eu nunca me masturbo só pensando, sem input. Em geral, estou lendo uma história, ouvindo um arquivo de som, vendo uma foto, assistindo um filme. Achei interessante as pessoas falarem que se masturbam pensando em transas anteriores. Nunca fiz isso. Penso em sexo na hora do sexo. Quando me masturbo, estou sempre pensando e evocando algumas das minhas mais perversas e taradas e impossíveis fantasias, coisas que só posso mesmo realizar na minha cabeça, nunca uma cena real.

Em um das minhas viagens pra encontrar mulheres, eu estava tão seco e desesperado e cheio de tesão que me masturbei no banheiro do ônibus, porque simplesmente não estava aguentando. Não fiz nada mais estranho que isso. Nunca fui flagrado me masturbando.

Nunca tentei parar de me masturbar, porque nunca achei masturbação algo feio e errado, mas já usei muito masturbação como moeda de troca comigo mesmo. Coisas como: se não escrevesse duas horas por dia, não poderia me masturbar, etc. Nunca funcionou muito bem.

Conheço homem que se masturba antes de sair com uma mulher, só pra liberar a tensão: se sai com toda aquela porra na cabeça, acaba fazendo besteira. Eu sou o contrário. Talvez por ter menos libido do que a média (ou, pelo menos, por ter menos libido do que a média diz que tem, mas isso já é outra história), se eu me masturbo, perco um pouco do desejo sexual e meu desempenho não é o que poderia ser. Gosto de chegar no sexo sedento, insatisfeito, seco. Me masturbar enquanto tenho sexo regular me parece um pouco como fazer uma boquinha antes de sair pro restaurante. Estraga meu apetite.

Agora que estou no Rio e tenho a Liloló (lindaloiralouca), não tenho me masturbado. Quando estou em Nova Orleans, a praxe é umazinha antes de dormir, pra relaxar. É melhor que um copo de vinho, tem menos calorias, não aumenta a taxa de açúcar no sangue e é de graça.

Jezebel

Fotos de uma gostosa tarde que passei com a leitora e amiga Jezebel.

Jezebel Jezebel

Jezebel Jezebel

Jezebel Jezebel

Últimos Textos Lidos para o Exame do Mestrado

Como é pra estudo, estou tomando notas. Depois, se os leitores todos não sumirem desesperados, eu posto aqui. Não são os livros todos, somente trechos.

Boris Eichembaum. The Theory of the Formal Method.
Roman Jakobson. Linguistics and Poetics. & Two aspects of language and two types of aphasic disturbance.
Roland Barthes. The Death of the Author. & From Work to Text.
Jacques Derrida. Grammatology.


Friday, January 5, 2007

Uma Coisinha que Eu Acho Fofa

Essas pessoas que entram aqui, lêem dois textos meus (ou duzentos, tanto faz) e já me conhecem ao avesso, de cabo a rabo: rotulado, definido e encaixotado. E afirmam, sem vergonha e sem pudor, sem ironia e sem auto-crítica: Alex, você é isso; Alex, você é assim. Acho lindas as certezas dos humanos.

"Te Leio Todo Dia, Te Adoro, Mas Não Concordo com Quase Nada do que Você Escreve!"

Quase todo mundo que me elogia faz questão de enfatizar que não concorda com quase nada do que escrevo. Não são duas, não são três, são quase todas as pessoas. E a ressalva não é um afterthought, ou implícita, ou mencionada de soslaio, mas enfatizada com vigor, de modo que não exista possibilidade de confusão. Quanto maior o elogio, maior a ressalva que o acompanha: te leio TODO dia, te adoro, sou sua fã, mas não concordo com NADA do que você escreve!

Não me incomodo nem um pouco. Aliás, acho tão óbvio que dispensa menção. Ninguém concorda com tudo o que ninguém escreve. Quando digo que adoro o Luis Fernando Veríssimo, não preciso acrescentar que não concordo com tudo o que ele escreve porque, obviamente, não concordo com tudo que NINGUÉM escreve.

É como dizer "eu acho" e "eu penso" o tempo todo, cacoete de gente insegura e que não assina embaixo do que fala. Ora bolas, não preciso dizer que "EU ACHO que Clarice Lispector é o maior escritor em língua portuguesa de todos os tempos". Se estou dizendo, fica implícito que quem acha isso sou eu, ué, claro! Se estivesse dando a opinião de outro, eu diria: "Fulaninho acha que o maior escritor em língua portuguesa é Camões, mas eu acho que é Clarice Lispector."

Entretanto, sempre que afirmo minhas opiniões ("Clarice Lispector é o maior escritor em língua portuguesa de todos os tempos"), vem um idiota se revoltar e responder: "Essa é a SUA opinião, não é?" e eu retruco: "Não, essa é a opinião daquele careca que vai passando ali pelo outro lado da rua. Agora, eu vou dar a SUA opinião. A minha mesmo eu vou deixar pra dar no final e causar mais impacto...." Ai ai, a grande verdade é que os idiotas me divertem.

Enfim, tirando o fato da ressalva baratear o elogio (já escrevi sobre isso aqui), ela não me incomoda mas me intriga. Dado que a chance de uma pessoa concordar com todas as opiniões de outra é zero, qualquer um inevitavelmente discorda de muitas das opiniões dos autores de quem mais gosta. Pra ficar só em blogs de amigos meus, vejo os leitores elogiando o Rafael, o Biajoni e o Idelber e ninguém se dá ao trabalho ou se vê na necessidade de verbalizar essa óbvia ressalva. Mas fazem comigo.

Tenho duas possíveis explicações:

Hipótese 1: Gostar = Concordar

Estou partindo da premissa errada ao imaginar que é inevitável você discordar mesmo dos autores de quem mais gosta. Quem deve ser assim sou eu, que sou muito crítico e discordo de todo mundo. A maioria das pessoas equaciona gostar de alguém com concordar com quase todas as suas opiniões. Então, pra eles, dizer que gostam muito do que alguém escreve JÁ QUER DIZER que concordam com quase tudo o que aquela pessoa escreve. Pra elas, é a mesma coisa.

Eu, naturalmente, seria a exceção. Eu seria aquele autor que elas gostam sem necessariamente concordar com tudo ou com quase tudo. Por isso, quase que natural e inconscientemente, mencionam esse fato ao me elogiar, coisa que não fazem quando elogiam outros: "Biajoni, eu te adoro, te leio todo dia, você é demais!"vs "Alex, não deixo de acessar seu blog nem um dia! Não concordo com quase nada mas devoro todos os seus textos!"

Nesse cenário, a questão é a seguinte: partindo do princípio (falso pra mim) que [gostar de um autor]=[concordar com suas opiniões], por que gostam de mim mesmo sem concordar com quase nada? O que faço de diferente?

Mais uma vez, não estou reclamando. Pelo contrário, sou grato de as pessoas gostarem de mim, me lerem e me acompanharem mesmo discordando de mim, das minhas posições, do meu projeto de vida. Um escritor não tem que ser verdadeiro, não tem que ser ético, não tem que ser um guru, não tem que ser coerente. Sua única obrigação é ser interessante e manter seus leitores querendo ler mais e mais. O resto é método. Cada um atrai os leitores como pode e como sabe.

A melhor coisa da literatura é que, se Antonio Fagundes se revelar um pedófilo neonazista, ele vai preso e nunca mais fará um filme ou uma novela; se for com o Rubem Fonseca, não só as vendas de todos os seus livros vão estourar como os livros que ele continuar a escrever da prisão vão ser todos best-sellers também. Esse pensamento me consola nas longas noites frias e escuras.

Hipótese 2: Entrevistas da Playboy

Minha outra hipótese é que as pessoas, por algum motivo, têm uma necessidade inconsciente de se dissociar de mim. Elas me vêem de forma negativa (louco, pervertido, perturbado, tarado, arrogante, etc etc) e, apesar de se sentirem irresistivelmente atraídas pelo que escrevo, acham fundamental deixar claro que "não são disso não", "não pense que concordo com essas coisas", etc. Usei a palavra "irresistivelmente" porque imagino que, se conseguissem resistir a ler algo escrito por alguém assim, resistiriam e não leriam.

De certo modo, voltando ao cenário hipotético acima, seria como as pessoas comprarem o livro do Rubem Fonseca e dizerem: "estou comprando só pelos tiros, palavrões e menções a charutos caros, mas não sou pedófilo neonazista, não, hein?! Não quero nada com essa gente, mas acho interessante ver o que escrevem e como pensam!" Ou, no exemplo que todo mundo conhece, como aquelas pessoas que lêem a Playboy só pelas entrevistas: "imagina, EU, comprar revista de mulénua?! Jamais! Quem você pensa que eu sou?!"

O Que Vocês Acham?

A pergunta é: por que as pessoas se sentem na obrigação de ressaltar que não concordam comigo SEMPRE que me elogiam como escritor?

Hipótese 1: porque, normalmente, elas só gostam e só elogiam das pessoas com quem concordam em quase tudo e eu sou a exceção. Nesse caso, surge outra pergunta: exceção por quê?

Hipótese 2: porque elas têm enormes reservas quanto a mim enquanto pessoa e, ao mesmo tempo que fazem o movimento de se aproximar (o elogio) também fazem o movimento de se afastar (a dissociação), para que eu não pense que só porque gostam de mim que elas também coadunam com essas minhas práticas imorais, etc.

E vocês, o que acham?

Update

Opinião maravilhosa do Rodrigo:

A segunda hipótese, evidentemente. São como mulheres que dizem "não acredito que eu estou fazendo isso" ou "essa não sou eu", quando se percebem prestes a te dar no primeiro encontro.
Update II

Eu e As Polêmicas


Tem uma coisa que eu acho engraçado. Todos vocês parecem presumir sem sombra de dúvida que eu escrevo PARA criar polêmica e nada poderia ser mais distante da realidade:
vc escreve muito bem, mas, dirige seus posts para criar polêmica...assim, fica fácil discordar de vc...
Entendam: eu até SEI que vou causar polêmica porque não sou idiota e vejo que minhas opiniões são diferentes do senso-comum dos humanos, mas o fato de eu verbalizar minha opinião sabendo que vão causar polêmica não significa que eu QUEIRA causar polêmica. Verbalizo minhas opiniões porque são as únicas que tenho. A polêmica quem faz são os outros. A não ser que eu invente opiniões mais palatáveis ao público, minha outra opção seria me auto-censurar.

Só porque observo que minhas opiniões são diferentes do senso comum, não deveria verbalizá-las?

Update III

A Seriedade do LLL

Escreveu o irmão biajônico:
eu acho que, bem basicamente, eu e o rafael não nos levamos tanto a sério quanto você nos posts. tanto que vc dá a impressão, para quem te lê, de ser um cara sério, pesado (bem, falo metafóricamente), sisudo. umbiguista todos somos, mas acho que nós somos mais... digamos, "suaves" (uh!). podemos dizer "moderados". hahahahah... :>)
Se levar a sério? Não pode ser. Não tem um post sério nesse blog. Acho que fiz um, em maio de 2003, mas apaguei antes de ninguém ver. As pessoas que lêem o LLL e encontram seriedade devem ser as mesmas que encontram imparcialidade no Jornal Nacional, sobriedade no Clodovil e modéstia no Jô.

Os leitores que acham que o LLL é um blog que se leva a sério, por favor, me escrevam. Tenho uma ponte pra vender pra vocês, baratinha, liga o Rio a Niterói, pouquíssimo uso, era de uma velhinha que só a usava pra visitar a neta em Icaraí. Negoção.

Manchetes que Gostaríamos de Ver: "Imprensa Saúda o Embarque do Primeiro Batalhão de Blogueiros Conservadores Voluntários para o Iraque!"

Uma das coisas lindas da democracia clássica grega (apesar de todos os seus defeitos) era o seguinte: quando os cidadãos da ágora votavam a favor ou contra uma guerra, eles sabiam que estavam votando com suas próprias peles. Em caso de guerra, quem teria que lutar eram eles - e mais ninguém. Podemos ter certeza de que suas decisões eram as mais lúcidas possíveis.

Até pouco tempo atrás, nas democracias ocidentais, os representantes eleitos decidiam ou não ir a guerra sabendo que não eles, mas seus filhos, teriam que se expor à bala. Isso também coloca muita coisa em perspectiva.

Já hoje em dia, deputados e senadores decidem invadir o Iraque sabendo que a luta será bravamente conduzida pelos filhos de seus garçons e motoristas, balconistas e padeiros, todos aqueles jovens pobres que se alistam no voluntário exército por pura falta de opção e perspectiva. Assim é fácil votar a favor de uma guerra. Assim, a gente declara guerra preventiva, declara guerra just in case, declara guerra só por precaução. Sabendo que não vai custar o nosso sangue, é mais seguro votar em favor da guerra do que pensar duas vezes. Afinal, a história está olhando e menos um filho de padeiro, mais um filho de faxineiro, que diferença faz, não é?

Eu queria saber quantos filhos de congressistas norte-americanos lutaram ou estão lutando no Iraque, versus nas primeiras e segundas guerras, Coréia e Vietnã. Impossível ninguém ainda ter feito esse estudo. Cadê o escroque do Michael Moore quando precisamos dele?

Vejam bem: eu não tenho nada contra pessoas de boa-fé que acham que o melhor modo de se vingar do ataque do Bin-Laden aos EUA é atacar um outro país que não tinha nada a ver com isso. Tem gente que gosta até de levar com um pau no cu, tem gosto pra todo. Mas as pessoas que gostam de levar um pau no cu de fato levam paus no cu.

Pois eu queria muito ver essas pessoas que apóiam uma guerra, qualquer guerra, se voluntariando pra se expor ao fogo inimigo. Especialmente esses jovens blogueiros e articulistas de elite, todos na mais fina flor da idade, mens sana in corpore sana, na idade perfeita pra servir ao seu país em uma guerra tão justa e tão absolutamente necessária.

Aliás, gostoso, gostoso mesmo seria ver esses jovens direitistas brasileiros, que não tem nada a ver com a história, que são muito mais vítimas-em-potencial do que aliados-em-potencial do regime bushista, se alistando como voluntários no Iraque pra ir defender suas idéias. Por que não?

Ah, que saudades dos anos 3o, quando jovens idealistas de todo o mundo, de direita e de esquerda, foram pra Espanha defender seus ideais. Se já houvessem blogs naquela época, imaginem!, teriam todos ficado blogando à distância!

Young Republicans and the War Effort


Thursday, January 4, 2007

Entreouvido nas Esquinas do Orkut

Uma menina (que eu não conheço) passando o link do LLL pra um amigo:

não sei se tu já conhece. mas pensei que talvez, só talvez, tu pudesse gostar. escroto, polêmico, acadêmico, pervertido e outras coisas. tudo misturado. ou não. =P Enfim, tome o link.
Adorei. Só achei que ela perdeu uma oportunidade de fazer umas aliterações legais que nunca tinham me ocorrido mas que seu texto quase que impõem: escritor escroto, polêmico acadêmico. Hmmm, qual seria a última? Perverso pervertido?

Vício de Televisão - UPDATED!



Passei a véspera de natal com minha família. Pra mim, isso é raro. Não sou muito de natal. Em geral, prefiro cear com amigos ou desconhecidos. Ceia de natal em família é sempre estressante. Mas quando o estresse é com a minha família, eu me estresso também. Com a família dos outros, é mais fácil de levar na esportiva. Enfim, estava na casa da minha tia. Todo mundo correndo de um lado pro outro, preparando tudo, e só eu na sala, lendo PanAmérica, do Agrippino, pro meu exame de mestrado.

A televisão estava ligada no Faustão. Coitado do Faustão. Eu ainda me lembro dele da época do Perdidos na Noite. Não assistia o Domingão há sete anos e continua tudo igual. Eu poderia tirar o som e reproduzir os diálogos. Vai um artista, o Faustão diz que ele é o máximo, o artista diz que não, nada disso, você é que é o máximo, Faustão, não, o máximo é você, Fernandinha, etc etc etc.

Como não tinha ninguém na sala, só eu e o livro que eu precisava ler, desliguei o Faustão. Veio gente de todos os aposentos da casa: "o que houve? Por que desligou a televisão?"

"Porque não tinha ninguém assistindo, ué."

"Mas, menino!, daqui a pouco começa o Fantástico!"

"Pois então, é mais seguro desligar logo pra não ter perigo da gente ver nem um pedacinho."

"Hoje é o especial de natal, Alex!"

Ai ai. Religuei a maquininha infernal. As pessoas não querem TV pra assistir. Eles querem só o barulho pra fazer companhia. É alguma espécia de dependência psicológica. Como o cobertor do Linus.

Não entendo essas coisas. Tem famílias que só jantam com a TV ligada, só comem em frente à televisão. Tem gente (sério, deus me livre, isso eu não entendo MESMO) que transa com a porra da TV ligada.

Caraio, tinha gente ali que tinha se deslocado dos quatro cantos da cidade pra passar a véspera de natal em família, qual é o sentido de ligar a TV? Se era pra ver TV, não era mais fácil ter ficado cada um na sua casa - e eu, na minha, que nem TV tem? Qual é a lógica de ter o maior trabalho pra se juntar (dirigir da Barra ao Flamengo, pra mim, é muito trabalho) e depois ligar a TV pra impedir qualquer interação?

Mais tarde, quando acabou "a maior revista eletrônica da sua televisão", blá blá blá, meu avô começou a trocar de canal, reclamando que não tinha nada de bom. Minha tia também zapeou e não encontrou nada.

Essa reclamação tão comum ("não tem nada de bom na TV") é outra coisa que não faz nenhum sentido. Por que TERIA que haver algo de bom na TV? Por um acaso ela é a sua única fonte de diversão e entretenimento? Se não tiver nada de bom na televisão, então o quê? Você fica assistindo coisas ruins e reclamando? Por que não desligar o aparelho e ir andar pelo parque, ler um livro, manter um diário, cozinhar, jogar paciência, bater punheta, sei lá, qualquer coisa?

A vida não se resume à televisão. Mesmo quando eu assistia televisão, eu a ligava quando tinha algo que queria ver e desligava quando terminava o programa. Reclamar que não tem nada de bom na TV é como ir ao cinema na hora que não está passando nenhum filme e falar que não tem nada de bom no cinema!

Principalmente, eu acho muito triste assistir pessoas vendo televisão, especialmente pessoas que eu gosto. Elas se largam no sofá de forma batatal, deixam a boca entreaberta, seus olhos adquirem uma expressão bovina, dá pra ver que estão completamente passivos, largados, esponjais, só recebendo, sem fazer, sem agir, sem responder. Para quem vê de fora, é explicitamente um processo de lavagem cerebral. Eu entendo cansaço mental, entendo querer relaxar e descansar o cérebro, mas nessas horas eu simplesmente durmo, não vou ver o Jô humilhar seu garçom chileno pela milionésima vez.

Finalmente, todos zapearam até ficarem satisfeitos que, realmente, maldição!, não tinha nada de bom na TV. Largaram num canal em que estava passando alguma coisa que claramente ninguém queria ver, e nem estava vendo. Eu peguei o controle e desliguei. Nova onda de indignação.

"Por que desligou, Alexandre?"

"Porque ninguém estava assistindo nada."

As pessoas parecem esquecer que o estado natural da TV é desligado. A gente precisa de um motivo pra ligar, não pra desligar.

Mas, muito pelo contrário, eu observo que, para a maioria das pessoas, o estado natural da TV é ligado, seja passando bons ou maus programas, seja sendo assistida ou não. Ela é a companhia do dia-a-dia, é quem traz o mundo pra dentro de casa, é quem faz barulho para parecer que pessoas tristes e sozinhas têm companhia - companhia de atores e atrizes jovens, bonitos, de dentes brancos e hálito puro, não feios, velhos e carecas como esse meu marido que não vale nada!

Para desligá-la, sim, é que é preciso um bom motivo. Aparentemente, um motivo melhor do que a família reunida pro natal.

Uma vez a TV desligada, a família rapidamente se dispersou.

Ano que vem, vou passar o natal com estranhos de novo. Podem me convidar. Eu vou.

Leia também: se fumando passivo é quem fuma o cigarro do outro mesmo não querendo fumar, será que quem assiste o programa do outro mesmo sem querer é telespectador passivo?

UPDATE

A impressão que eu tenho é que, se eu fizer um post sobre os comedores obsessivos, aqueles caras de 500kg que ingerem 5 mil calorias por refeição, vai me aparecer um leitor indignado dizendo que tenho preconceito contra comida, que ele come três vezes por dia e nunca teve problema algum, que tem muita coisa boa pra se comer por aí, etc.

Eu não falei nada contra a TV per se, somente contra o jeito como muita gente aborda a TV, não só de modo completamente passivo e batatal, mas como se a TV fosse sua única fonte de entretenimento. Sim, algum blogmaníaco que passe o dia visitando blogs, lendo feeds, e depois ainda reclame que "não tem nada de bom na blogosfera" é exatamente a mesma mosca, só muda a merda em volta da qual ele voa.

Eu sempre digo que o importante é o conteúdo, não o meio. Sempre que me vem algum idiota me defender "a leitura", eu pergunto, e se a escolha for entre ler Sidney Sheldon ou assistir a TV Cultura? Ler Paulo Coelho e assistir Discovery? Nada mais idiota do que essas pessoas que dizem que devemos "ler mais", sem especificar o quê, como se a leitura fosse algo intrinsecamente bom. Não existe meio intrinsicamente bom ou ruim, passivo ou ativo. O que importa é o conteúdo.

Hoje em dia, aliás, a TV dá um banho no cinema. Documentários são o ápice da chatice em qualquer meio ("agora acompanhamos as formigas roxas do Himalaia montando seu ninho, reparem como a mais velha lidera a fila, zzzzzzzzzz"), mas os novos seriados americanos e a tradicional teledramaturgia da Globo - especialmente as minisséries - têm um nível que poucos filmes alcançam.

Que me perdoem os idiotas que lêem buscando simplificações grosseiras e que as enxergam onde não existem, mas aqui no LLL vocês não vão ver nem os reacionários ataques à TV e nem defesas apaixonadas da leitura.


Wednesday, January 3, 2007

Você Precisa Parar de Perder Tanto Tempo com Esse Blog, Alex!

Um adendo ao post sobre minhas técnicas de ler e escrever.

Tem leitores que acham que minha vida gira em torno do blog. Amigos pessoais vêm me dizer que estou perdendo muito tempo com o LLL. E a única coisa que eu penso é: meu deus do céu, esse povo escreve muito devagar! Quanto tempo as pessoas acham que demoro pra escrever esses posts? Que são burilados com cuidados de artesão?

Um texto ou outro é mais elaborado, e são em geral os que eu posto em partes, pra ganhar uns dias, mas a grande maioria não toma mais de meia hora, quando muito. Outro dia, faz dois sábados, eu sentei uma manhã e escrevi uns 12 posts e já me livrei da obrigação de escrever qualquer coisa por semanas. Além disso, o arquivo está cheio de posts velhos. O Kafka no Restaurante, por exemplo, é de setembro, estava no arquivo esse tempo todo - justamente por ser atemporal.

Essa é outra coisa engraçada. Leitores e amigos parecem sempre pressupor que todos os posts foram escritos, digamos, ao vivo, na lata. Acontece muito de eu dizer pra alguém que estou ocupadíssimo, sem tempo pra nada, e o cara vir me jogar na cara: "se estivesse sem tempo mesmo, não teria escrito aquele post gigantesco hoje de manhã!" Sim, tolinho, mas acontece de que o texto enorme foi escrito há 3 meses, em um dia morto, e ficou no arquivo até hoje, esperando justamente um dia em que eu não tivesse tempo de escrever. Ai, ai.

Na verdade, escrever para o blog não me toma quase tempo nenhum e são quase sempre coisas que eu escreveria de qualquer jeito, mesmo se não existissem blogs - antigamente, eu escrevia emails, idênticos aos posts do LLL, e mandava pra um "mailing" de 6-12 amigos. O que me toma(va) tempo eram as atividades paralelas, tipo ler e comentar em outros blogs, ler meus comentários, checar quais foram os links mais clicados do LLL, ver quem linka pro LLL, descobrir de onde vem os leitores, etc, mas já aprendi a controlar essas coisas. Hoje, não leio mais blog quase nenhum e só fico brincando com estatísticas e comentários quando estou com muito tempo livre.

Na verdade verdadeira, dado o retorno financeiro, acadêmico, afetivo e sexual desse blog e o pouco tempo que dedico a ele, posso considerá-lo um dos melhores investimentos da minha vida.


Tuesday, January 2, 2007

A Economia da Literatura na Internet

Vendas de Onde Perdemos Tudo

Acompanhem esses números comigo, sigam meu argumento e me digam o que acham. Abaixo, vão as vendas do meu livro de contos Onde Perdemos Tudo, lançado em setembro e vendido exclusivamente pela internet:

  • Novembro - 15 cópias vendidas - R$170 arrecadados - Média de R$11,30 por cópia
  • Dezembro - 9 cópias vendidas - R$123 arrecadados - Média de R$13,60 por cópia
  • Janeiro - 5 cópias vendidas - R$72 arrecadados - Média de R$14,40 por cópia
Naturalmente, não são números de best-seller. As vendas estão caindo, como é normal com a maior parte dos livros depois do lançamento. Quase 30 cópias em três meses é pouco. Ou talvez não. Quantas cópias será que os livros dos outros novos autores da minha geração vendem? Mais, menos? Juro que não faço idéia. Onde Perdemos Tudo, por Alex Castro

Mas sei de algumas coisas. Se as vendas estão caindo, o valor médio de cada venda está crescendo. As duas coisas eram de se esperar. Depois do momento inicial do lançamento, a maioria dos compradores tende a ser novos leitores que descobrem o blog, se empolgam, passam o rodo nos arquivos ou no site, querem ler mais e compram o livro. Pessoas empolgadas são mais generosas. É natural que o ticket médio dessas vendas seja maior do que o do leitor habitual que comprou o livro logo após o lançamento.

Remuneração em Editora Tradicional

Entretanto, o mais interessante mesmo dessa questão toda é a remuneração do autor. A lei brasileira garante ao autor um mínimo de 5% do preço de capa de cada livro. Quando o autor é iniciante e desconhecido, isso é praticamente só o que ele ganha e que lamba os beiços.

Imaginemos então que meu livro foi publicado por alguma editora tradicional e custa cerca de R$15. Um livro de pouco mais de cem páginas, autor desconhecido, não teria como ser muito mais caro que isso. Isso significa que eu ganharia R$0,75 por exemplar vendido. Na verdade, como minha agente leva 20%, na prática só cairiam no meu bolso R$0,60.

Pois bem. Fiquemos somente com o fraquíssimo mês de janeiro de 2007, em que eu ganhei R$72 pela venda de cinco exemplares - ou seja, R$14,40 por exemplar. Se eu fosse um desses autores publicados, desses que dão entrevistas aos cadernos literários, e quisesse ganhar esses mesmos R$72 (que, vamos repetir, não é nenhuma fortuna), eu teria que vender 120 exemplares por mês. E aí, mais uma vez, eu pergunto: será que os outros livros de autores iniciantes da minha geração vendem 120 exemplares por mês? Não sei se vendem 30 exemplares em 3 meses, mas 120 em um mês eu duvido.

Aí eu coço a cabeça e me pergunto: qual é a vantagem mesmo de publicar por uma editora tradicional de papel, hein?

Publicar Aumenta o Alcance da Obra

Pra aumentar o alcance da obra, responderiam alguns.

Mas não é verdade. Meu romance Mulher de Um Homem Só, em três anos, foi baixado 30 mil vezes. Já as primeiras edições de autores iniciantes têm tiragens de 600, mil, quando muito duas mil edições - e, via de regra, como raramente são reeditadas, boa parte da tiragem inicial fica micada, ociosa, paralisada, não-lida e não-comprada, em livrarias de todo o Brasil. Em outras palavras, quantos desses dois mil livros vão de fato ser lidos?

Se um escritor quiser realmente aumentar seu alcance e atingir o máximo possível de leitores, ele faz melhor ficando na internet do que lançando uma edição de mil exemplares, quase sempre destinada ao esquecimento em poucos meses, um livro que a Saraiva nunca vai mostrar no display da vitrine, que quando muito terá uma resenha aqui ou ali. Então, não, a resposta deve ser outra.

Só posso pensar em uma resposta: prestígio.

O Reconhecimento da Tribo

Eu, hoje, não sou um "player" da literatura brasileira. Sem falar de qualidade, mas somente de percepção, não estou no mesmo grupo de um Galera, do Cuenca, da Ana - só pra citar o pessoal da minha geração que saiu da internet. Não é que sou melhor ou pior do que eles - simplesmente não sou percebido como alguém que exerce a mesma atividade que eles. Quem for listar os novos talentos da literatura brasileira, vai citar os nomes acima e não o meu, ou do Biajoni, por exemplo. Não sou visto, entendido ou considerado escritor. Minha tribo (e, em um sentido bem verdadeiro, somos uma tribo) de literatos, escritores, jornalistas de cultura, professores de Letras e amantes de literatura de modo geral não me reconhece como adulto, embora quem conhece o meu potencial sabe que eu chego lá. O ritual de passagem da nossa tribo ainda é o livro impresso e, por esse ritual, não passei.

O livro impresso, na verdade, está tornando-se apenas isso: um ritual de passagem, hoje já com cada vez menos função prática. Não significa maior alcance, nem mais leitores, nem mais renda. Ser publicado significa apenas, bem, ser publicado. Significa apenas que pessoas que antes me chamavam de blogueiro vão (talvez) me chamar de escritor.

E bem pouco mais do que isso.

Pós-Escrito aos Idiotas e aos que Lêem de Má Fé

Sei que alguns vão falar que estou com inveja, ou que as uvas são verdes, ou algo assim. Não estou não. Não acho que fui vítima de nenhuma injustiça nem estou reclamando de nada. Sou e sempre fui escritor, não sei nem quero ser outra coisa. Gosto muito do Cuenca, do Galera, da Ana e me considero tão escritor quanto qualquer um deles. Em breve, inevitavelmente, indubitavelmente, serei publicado e, fazendo sucesso ou não, passarei a também ser *considerado* tão escritor quanto eles - coisa que eu, naturalmente, sei que eu já sou.

Os objetivo do artigo foram dois:Onde Perdemos Tudo, por Alex Castro
  • Comparar as oportunidades de renda de um autor iniciante que publica na internet ou por uma editora tradicional;
  • Entender como funciona, em nossa sociedade, a percepção do que é "ser escritor".
Na verdade, nada muito diferente do que Pierre Bourdieu tentou fazer em The Field of Cultural Production. A grande diferença é que me usei de exemplo.

Quem acompanhou meu raciocínio, percebeu que fui obrigado a tomar conclusões e a partir de premissas que podem não estar necessariamente corretas. O que vocês acham?

* * *

Compre Onde Perdemos Tudo.

Técnicas de Trabalho e Leitura

Tem aquelas coisas que a gente sempre faz, que nos são super naturais, e um dia a gente percebe que ninguém mais faz isso. Bem, eu tenho um ritmo de trabalho e de leitura (pra mim, hoje, leitura É trabalho) que sempre segui e não faço idéia se é único ou se todo mundo faz igual. Vocês me digam.

Eu sempre leio um livro fácil e um difícil, e escrevo um texto fácil e um difícil. E meu dia fica mais ou menos assim:

Eu acordo e vou ler o livro fácil, enquanto como e tomo café, pro cérebro pegar no tranco - hoje, é o Verdade Tropical, do Caetano. Em breve, quando estou mais atento e mais desperto, começo a ler o livro difícil - hoje, Postmodernism or the Cultural Logic of Late Capitalism, do Fredric Jameson.

Daqui a pouco, quando fico tão desperto que tenho que *fazer* alguma coisa, eu vou pro computador e escrevo um texto fácil. Pelos últimos 4 anos, texto fácil é sempre um post pro blog. Esquento a pena e salto pra um texto difícil - hoje, é o relatório de Usabilidade que estou escrevendo, sobre o teste que conduzi a semana passada para uma grande rede varejista, um texto que necessita de técnica e cuidado e que será lido por um cliente que pagou caríssimo por ele.

Quando páro pra almoçar, ou para ir ao banheiro, ou se tiver que sair, levo o livro fácil. Depois de comer, invariavelmente fumo um cachimbo, sempre lendo o livro difícil. Eu só fumo cachimbo quando preciso ler um livro difícil, melhora minha concentração e me impede de me levantar exasperado quando fico puto com o livro.

O desaceleramento pra hora de dormir é idêntico e em ordem inversa, claro. Tem um momento em que meu cérebro começa a virar tapioca e percebo que não tenho mais condições físicas de escrever o texto difícil mas estou muito longe de estar cansado o suficiente pra dormir. Então, escrevo um texto fácil pra desacelerar e relaxar. Dependendo do meu ritmo de cansaço, posso pegar o livro difícil ou o fácil pra ler um pouco, em geral, o fácil - ler livro difícil quando você já está meio cansado não rola.

Se eu precisar de um desaceleramento rápido, pra ir dormir logo, existem três opções: masturbação, uma cachimbada com o livro fácil, uma taça de vinho. Qualquer uma delas, ainda mais se eu já estiver exausto, me derruba.

Muitas vezes, eu preciso parar de trabalhar porque meus olhos estão muito cansados (e tenho medo desse problema piorar com a idade), então é a hora de ouvir um áudio-book, que é como ser colocado pra dormir com uma história - hoje, e por muito tempo ainda, pois é enorme, estou ouvindo Cell, de Stephen King, um livro apocalíptico sobre um futuro em que os celulares transformam a humanidade inteira em zumbis.

E assim, eu durmo, em geral entre 6 e 8 horas, e no dia seguinte começa tudo de novo.

Figuras Carimbadas das Praias Cariocas

Setting Up the Board (A Day at the Beach) Yellow Girl  (A Day at the Beach) Girl Digging in the Sand (A Day at the Beach) Surfer Running (A Day at the Beach) Two Girls and Three Boys (A Day at the Beach) The Sunglasses Guy (A Day at the Beach)

Arrumando a prancha. Gata de amarelo. Caçando tatuí. Correndo atrás das ondas. Papeando. Vendendo óculos escuros.


Monday, January 1, 2007

Bondes e Cavalos

Streetcar and Horses

Há 18 meses, o furacão Katrina arrasou Nova Orleans. A linha de bonde que eu pegava para ir à universidade todos os dias ainda não voltou a funcionar. Virou pista de cavalos.

Histórias de Empregadas Domésticas

Um dos meus planos para o futuro longínquo é escrever um livro sobre empregadas domésticas. E já estou começando a juntar histórias. Essa foi contada por uma amiga:

A madame, riquíssima, chiquerérrima, contrata uma nova empregada e começa a lhe ensinar como as coisas funcionam na casa. O copo fica desse lado, o garfo daquele, a faca do outro, quando os talheres estiverem assim é porque pode tirar, tem que servir sempre pela direita, etc etc. A moça ouve, repete, demonstra que entendeu, vai aprendendo. No fim do dia, pede as contas.

Mas por quê, Maria?, quer saber a patroa. Foi alguma coisa que a gente fez?

Não, a senhora me desculpe, mas não dá pra trabalhar aqui não. É muita superstição.

* * *

Se isso não é uma autêntica parábola, eu não sei o que é.

Você também tem alguma história de empregada doméstica pra contar? Me conta.

Retrospecto

Lendo o livro do Caetano - por sinal, incrível - e acompanhando as idas e vindas da tropicália, encontros e desencontros, amizades e inimizades, fofocadas e ciumeiras, eu não consigo deixar de olhar em volta e pensar que eu e o Biajoni, o Inagaki e o Nemo, o Mauro e o Idelber, a Marina W e a Denise, o Rafael e o Marmota, os wunders e os apostos, os verbeats e os insanus, e muitos outros, claro, também com nossas idas e vindas, amizades e inimizades, grandezas e pequenezas, estamos construindo algo orgânico na cultura brasileira, algo estranho e disforme, mas vivo! - algo que naturalmente só fará algum sentido quando já estiver morto e puder ser visto em sua inteireza e em retrospecto, mas algo bem real, artístico, literário, vital.

Você Entende de Arte?

Descubra aqui. Talvez uma melhor questão seja: os artistas entendem de arte?


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