|
|
Wednesday, December 26, 2007
Jorge Luis Borges e o Martín Fierro
"O romancista não é porta-voz de ninguém, .... nem mesmo de suas próprias idéias. Quando Tolstoi esboçou a primeira versão de Ana Karenina, Ana era uma mulher muito antipática e seu fim trágico era senão justificado e merecido. A versão definitiva do romance é bem diferente, mas não creio que Tolstoi tenha mudado nesse meio tempo suas idéias morais, diria antes que, enquanto escrevia, ele escutava uma outra voz que não aquela da sua convicção moral pessoal. Ele escutava aquilo que eu gostaria de chamar a sabedoria do romance. Todos os verdadeiros romancistas estão à escuta dessa sabedoria suprapessoal, o que explica que os grandes romances são sempre um pouco mais inteligentes que seus autores. Os romancistas que são mais inteligentes que suas obras deveriam mudar de profissão. ... O espírito do romance é o espírito da complexidade. Cada romance diz ao leitor: 'As coisas são mais complicadas do que você pensa.'" (Kundera, 198)Borges, sem dúvida alguma, teria concordado, em especial em relação ao Martín Fierro, que ele considerava um romance em verso: "Hernandez escribió para denunciar injusticias locales y temporales, pero en su obra entraron el mal, el destino y la desventura, que son eternos." (Borges, Martín Fierro, 43) O fato de Martín Fierro ser tão mais do que Hernández se propôs a escrever não deve nos levar a esquecer sua motivação primeira, pois aí encontramos as chaves para entender alguns dos mistérios do poema. Em uma época de declínio do gaúcho e de constante debates civilização vs barbárie (alimentados, entre outros, pelo Facundo, de Sarmiento), nunca ocorreria a Hernández que seu personagem pudesse ser tomado como arquétipo nacional ou mesmo modelo de conduta. Para o autor, seu poema era a narrativa dos azares, desventuras e exílios de um homem assediado por todos os lados: Fierro sofre nas mãos do exército e dos índios, dos bandidos e da justiça. Durante todo o poema, com raras exceções (como a deserção de Cruz), temos a impressão de que ninguém está ao seu lado. Acossado por tantas tragédias, Fierro se refugia na bebida e no crime. Hernandez não faz Fierro matar o Negro em um duelo gratuito e escandaloso porque seria assim que os verdadeiros gaúchos se comportavam, mas para mostrar as profundezas morais onde as circunstâncias tinham jogado seu herói. Como tantos homens do povo, Martín Fierro é racista, mas, ao contrário de tantos textos abolicionistas do século XIX, o poema Martín Fierro não é. Mais do que o gaúcho, o verdadeiro herói do poema é o Moreno, mostrado como tendo todas as virtudes civilizadas que Hernández exalta, e nenhum dos defeitos de Fierro. A mensagem parece clara: o governo falhou com o gaúcho, que foi jogado na pobreza, na infâmia e no crime. A saída para o país é sermos como o Moreno: homens de família, trabalhadores, sedentários. Enquanto os gaúchos são valentões e temperamentais, e perdem suas vidas vagando pelos pampas, o Moreno é um homem calmo, tranquilo, ponderado, controlado. Não é por acaso que um país tão orgulhoso de sua herança branca, como a Argentina, tenha se negado a admitir que o maior herói do seu maior poema é justamente um negro trabalhador.Assim como Spagnuolo, discordamos da leitura comum que vê em La Ida uma exaltação das virtudes e do ethos gaúcho e, em La Vuelta, uma exaltação dos valores burgueses e civilizados. Não existe esse corte: todo o poema é uma exaltação da civilização sobre a barbárie e do trabalho sedentário contra o nomadismo. Não vemos contradição alguma entre La Ida e La Vuelta: Martín Fierro, ao recusar o duelo que lhe oferece o heróico Moreno, somente demonstra que começa a aprender o código da civilização. Talvez ainda exista salvação para ele, parece nos dizer o poema. Nesse ponto, de fato, vemos uma cunha entre Borges e Hernández: preso em sua eterna contradição entre o culto aos livros e o culto à coragem, Borges lamenta que o personagem Martín Fierro seja tomado como modelo de conduta, mas não consegue deixar de admirar seu código de honra. O poema realmente termina em um ponto baixo para o ethos gaúcho: lutar contra índios e bêbados é fácil (parece nos dizer Hernández), mas quando Fierro é interpelado por um homem de verdade, íntegro, bravo, controlado, ele foge da briga, esconde os filhos debaixo das saias, muda de nome e desaparece. Ou seja, quando a civilização decide finalmente enfrentar a barbárie cara-a-cara, a bárbarie não tem nem ao menos a coragem de aceitar o duelo e perder com hombridade. Em "El Fin", Borges não muda a moral da história, somente seu eixo: a civilização ainda derrota o gaúcho, assim como Borges espera que também ainda derrote o peronismo, mas, no conto, a derrota é menos vergonhosa. Em Hernández, o gaúcho sai de cena humilhado, fugindo da briga, negando todo o seu código de conduta. Em Borges, o gaúcho é vencido, mas com honra: ele volta para enfrentar seu destino cara-a-cara, olho-no-olho, e morre como homem, de faca na mão. * * * Para ver o texto todo, me escreva.
|
EpitáfioAqui, nesse endereço, viveu e brincou o blog Liberal Libertário Libertino (4 de março de 2003 – 3 de fevereiro de 2008). Atualmente, o blog pode ser lido diariamente em interney.net/blogs/lll Visite também o site pessoal do autor: alexcastro.com.br
meus livros à venda:
Arquivo
Fevereiro 2008
livros recomendados
|