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Wednesday, December 26, 2007

Jorge Luis Borges e o Martín Fierro

   Martín Fierro, O O argentino Jorge Luis Borges é um dos maiores autores de todos os tempos. O poema Martín Fierro, de José Hernández, é considerado a obra-prima da literatura argentina. No texto abaixo, eu analiso as leituras que Borges fez do Martín Fierro, um livraço que vale muito a pena conhecer. Para não entediá-los até as lágrimas, estou postando só a introdução e a conclusão. Quem quiser ler o texto inteiro, peça.

O Verdadeiro Herói do Martín Fierro: Civilização vs Barbárie em Borges e Hernández

A história das leituras de Martín Fierro, de José Hernández, é a própria história da literatura argentina Suas duas partes (El Gaucho Martín Fierro, também conhecido como La Ida, 1872, e La Vuelta de Martín Fierro, 1879) foram primeiro publicadas como livretos, baratos, acessíveis e despretensiosos, circulando assim separadamente por mais de 30 anos, com imenso sucesso comercial. Em 1910, são finalmente reunidas e editadas em forma de livro, o que marca o primeiro passo concreto no caminho para sua canonização literária. Na mesma década, dois influentes críticos literários, Rojas e Lugones, decretam o Martín Fierro como a epopéia do povo argentino, a obra-prima nacional por excelência, repositório das melhores qualidades e virtudes da cultura dos pampas. Pouco depois, entretanto, já surgem as primeiras vozes dissidentes, como Oyuela, seguidas pelo monumental estudo de Martínez Estrada: esses críticos não negam o valor literário da obra, mas sim a estatura do protagonista tanto quanto modelo de conduta quanto gaúcho paradigmático. Nesse momento, nas décadas de 40 e 50, acossado por um peronismo que via como um retorno da barbárie do século XIX, Jorge Luis Borges relê, reinterpreta e retoma o Martín Fierro, mudando para sempre o modo como o poema será lido.

Entretanto, a abordagem borgiana do já polêmico Martín Fierro não poderia deixar de ser também polêmica. Seus contos hernandianos ("Biografía de Tadeo Isidoro Cruz (1829-1874)" e "El Fin") e gauchescos ("La Otra Muerte", "El Sur", etc) são vistos tanto como traições ao gauchesco e ataques ao Martín Fierro quanto como homenagens a essa tradição literária nacionalista . Alguns estudiosos, que ainda enxergam em Martín Fierro um ideal virtuoso a ser seguido, consideram a abordagem borgiana, ao matar o personagem em "El Fin", um golpe de misericórdia no gênero gauchesco. Outros, mais críticos quanto às atitudes éticas do personagem, consideram que Borges salvou Martín Fierro de si mesmo, ao lhe dar a morte honrosa que Hernández lhe negara. De qualquer modo, todos concordam que Borges corrige e reescreve o Martín Fierro. Mas como? Qual é o eixo dessa reescritura?

O ponto central do debate, naturalmente, é um julgamento moral sobre as escolhas, atitudes e ações do personagem Martín Fierro. Será ele um herói forte e virtuoso ou um desertor brigão e hipócrita? Devem os argentinos tomar o Martín Fierro como ideal heróico? Merece Martín Fierro ser um modelo a ser seguido? Nesse julgamento moral do gaúcho, o principal argumento da acusação são as atitudes de Martín Fierro com dois negros. Em La Ida, enquanto está bêbado, ele puxa uma briga com um negro, o mata na frente de sua mulher e ainda o humilha. Em La Vuelta, o irmão do Negro desafia Martín Fierro para uma payada [algo como um duelo de cantores]: o gaúcho aceita mas acaba fugindo do duelo que se seguiria. Por que Hernández utiliza dois negros para ilustrar as duas ações mais baixas do seu personagem? Como esses dois negros, em especial o segundo, são mostrados pelo autor em comparação com o protagonista? Qual é a atitude de Martín Fierro em relação ao dois negros? Dentro do plano da obra, qual o significado dessas baixezas por parte do protagonista? Ou seja, por que Hernández faz seu protagonista cometer tamanhas atrocidades? Na esteira dessas perguntas, analisaremos também o conto "El Fin", de Jorge Luis Borges. Por que Borges escolhe justamente essa relação entre Fierro e o Moreno para glossar? De que modo a interação entre ambos personagens é diferente em Borges e em Hernández? Afinal, Martín Fierro é ou não um herói do povo argentino?

Nesse trabalho, vamos estudar a figura do negro em Martín Fierro, avaliar como essas personagens são tratadas na obra ensaística borgiana sobre o poema e, por fim, considerar a recriação que Borges executa do Moreno em seu conto "El Fin" [do livro Ficciones].

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"O romancista não é porta-voz de ninguém, .... nem mesmo de suas próprias idéias. Quando Tolstoi esboçou a primeira versão de Ana Karenina, Ana era uma mulher muito antipática e seu fim trágico era senão justificado e merecido. A versão definitiva do romance é bem diferente, mas não creio que Tolstoi tenha mudado nesse meio tempo suas idéias morais, diria antes que, enquanto escrevia, ele escutava uma outra voz que não aquela da sua convicção moral pessoal. Ele escutava aquilo que eu gostaria de chamar a sabedoria do romance. Todos os verdadeiros romancistas estão à escuta dessa sabedoria suprapessoal, o que explica que os grandes romances são sempre um pouco mais inteligentes que seus autores. Os romancistas que são mais inteligentes que suas obras deveriam mudar de profissão. ... O espírito do romance é o espírito da complexidade. Cada romance diz ao leitor: 'As coisas são mais complicadas do que você pensa.'" (Kundera, 198)   Martín Fierro, O
Borges, sem dúvida alguma, teria concordado, em especial em relação ao Martín Fierro, que ele considerava um romance em verso: "Hernandez escribió para denunciar injusticias locales y temporales, pero en su obra entraron el mal, el destino y la desventura, que son eternos." (Borges, Martín Fierro, 43) O fato de Martín Fierro ser tão mais do que Hernández se propôs a escrever não deve nos levar a esquecer sua motivação primeira, pois aí encontramos as chaves para entender alguns dos mistérios do poema. Em uma época de declínio do gaúcho e de constante debates civilização vs barbárie (alimentados, entre outros, pelo Facundo, de Sarmiento), nunca ocorreria a Hernández que seu personagem pudesse ser tomado como arquétipo nacional ou mesmo modelo de conduta. Para o autor, seu poema era a narrativa dos azares, desventuras e exílios de um homem assediado por todos os lados: Fierro sofre nas mãos do exército e dos índios, dos bandidos e da justiça. Durante todo o poema, com raras exceções (como a deserção de Cruz), temos a impressão de que ninguém está ao seu lado. Acossado por tantas tragédias, Fierro se refugia na bebida e no crime. Hernandez não faz Fierro matar o Negro em um duelo gratuito e escandaloso porque seria assim que os verdadeiros gaúchos se comportavam, mas para mostrar as profundezas morais onde as circunstâncias tinham jogado seu herói.

Como tantos homens do povo, Martín Fierro é racista, mas, ao contrário de tantos textos abolicionistas do século XIX, o poema Martín Fierro não é. Mais do que o gaúcho, o verdadeiro herói do poema é o Moreno, mostrado como tendo todas as virtudes civilizadas que Hernández exalta, e nenhum dos defeitos de Fierro. A mensagem parece clara: o governo falhou com o gaúcho, que foi jogado na pobreza, na infâmia e no crime. A saída para o país é sermos como o Moreno: homens de família, trabalhadores, sedentários. Enquanto os gaúchos são valentões e temperamentais, e perdem suas vidas vagando pelos pampas, o Moreno é um homem calmo, tranquilo, ponderado, controlado. Não é por acaso que um país tão orgulhoso de sua herança branca, como a Argentina, tenha se negado a admitir que o maior herói do seu maior poema é justamente um negro trabalhador.

Assim como Spagnuolo, discordamos da leitura comum que vê em La Ida uma exaltação das virtudes e do ethos gaúcho e, em La Vuelta, uma exaltação dos valores burgueses e civilizados. Não existe esse corte: todo o poema é uma exaltação da civilização sobre a barbárie e do trabalho sedentário contra o nomadismo. Não vemos contradição alguma entre La Ida e La Vuelta: Martín Fierro, ao recusar o duelo que lhe oferece o heróico Moreno, somente demonstra que começa a aprender o código da civilização. Talvez ainda exista salvação para ele, parece nos dizer o poema.

Nesse ponto, de fato, vemos uma cunha entre Borges e Hernández: preso em sua eterna contradição entre o culto aos livros e o culto à coragem, Borges lamenta que o personagem Martín Fierro seja tomado como modelo de conduta, mas não consegue deixar de admirar seu código de honra. O poema realmente termina em um ponto baixo para o ethos gaúcho: lutar contra índios e bêbados é fácil (parece nos dizer Hernández), mas quando Fierro é interpelado por um homem de verdade, íntegro, bravo, controlado, ele foge da briga, esconde os filhos debaixo das saias, muda de nome e desaparece. Ou seja, quando a civilização decide finalmente enfrentar a barbárie cara-a-cara, a bárbarie não tem nem ao menos a coragem de aceitar o duelo e perder com hombridade. Em "El Fin", Borges não muda a moral da história, somente seu eixo: a civilização ainda derrota o gaúcho, assim como Borges espera que também ainda derrote o peronismo, mas, no conto, a derrota é menos vergonhosa. Em Hernández, o gaúcho sai de cena humilhado, fugindo da briga, negando todo o seu código de conduta. Em Borges, o gaúcho é vencido, mas com honra: ele volta para enfrentar seu destino cara-a-cara, olho-no-olho, e morre como homem, de faca na mão.

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Para ver o texto todo, me escreva.


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