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Thursday, December 20, 2007

A Femme Fatale na Literatura Brasileira

   Perfis de Mulheres: Diva, Lucíola, SenhoraA femme fatale é um arquétipo comum da literatura mundial. Ela representa o medo primordial do homem diante do "mistério" feminino. A femme fatale é íncubo que destrói o homem usando aquelas armas que ele teoricamente não tem, armas "tipicamente femininas", como a sedução, a mentira, a traição, a dissimulação, a sensualidade. Curiosamente, entretanto, essa figura arquetípica aparece muito pouco na literatura brasileira.

Nossas mulheres brancas são, em geral, senhoras recatadas e bem comportadas. José de Alencar publicou alguns perfis de mulheres fortes (Senhora, Diva, Lucíola) mas nenhuma era propriamente a femme fatale arquetípica, perversa e manipuladora. Quando    Carne, Amuito, eram mulheres feridas que tornaram-se fortes para se vingar, nunca deixando de ser primordialmente boas, e logo cedendo novamente às pressões da sociedade patriarcal para que voltassem a ser "boas moças". Via de regra, mesmo quando momentaneamente rebeladas contra a sociedade, a personagem feminina brasileira raramente é verdadeiramente perversa.

A femme fatale brasileira, quando existe algo próximo, é somente uma mulher super-sexualizada. Lenita, de A Carne, não é uma pessoa perversa: ela apenas gosta demais de sexo. Naturalmente, para a moral do século XIX, que depositava toda a virtude Escrava Isaura, A feminina em sua sexualidade, é isso que fazia dela uma mulher pervertida: mas não cruel, não uma femme fatale. Aliás, o romance deixa bem claro que o despertar sexual de Lenita se deu por causa de sua proximidade excessiva com os escravos, esses sim, vistos como bestas totalmente sob o controle dos seus impulsos sexuais.

O elemento negro não surge por acaso. Na literatura brasileira, a personagem sexualizada por definição é a mulata. Entretanto, a mulata também não é uma femme fatale, não é a mulher calculista que uso o sexo ao seu favor: quando muito, as mulatas são mostradas como seres tão intensamente sexuais que estão sob controle de sua sexualidade, e não oposto. Isaura é uma mulata pura e virtuosa que, mesmo   Cortiço; Casa de Pensão, Oassim, não consegue evitar o efeito enlouquecedor que desperta nos pobres machos. Rita Baiana causa a morte de seu homem e desgraça de um português, mais por sua sexualidade animal do que por algum plano ou vontade sua. Gabriela encarna uma mulata de sexualidade tão aflorada que chega a ser ingênua e inocente: para ela, é normal ser desejada e é normal desejar. Apesar de catalizadora de mortes, ciúmes e paixões, a mulata da literatura brasileira não é uma femme fatale: por não ter controle sobre sua sexualidade e sobre seu efeitos nos homens, ela é praticamente inocente do caos que gera.   Gabriela, Cravo e Canela

Nesse aspecto, apesar de mostrada com simpatia pelo narrador, apesar de também ser uma vítima do sistema que a engendra, a Leniza de A Estrela Sobe é uma femme fatale clássica: dotada de certo desprezo pelos homens (gerado por desilusões amorosas prévias), ela usa sua sexualidade com frieza e calculismo para conseguir o que quer e para manobrar as contradições e entrelinhas da sociedade patriarcal. Como tantas femme fatales, Leniza também trabalha como prostituta e vive um caso de amor com outra mulher, Dulce. A simpatia com que o  Estrela Sobe, Anarrador vê Leniza não impede que também seja mostrada como a típica femme fatale manipuladora e mentirosa. O autor critica o sistema que engendra Leniza, mas também enfatiza que ela é responsável por suas ações e que age movida por ambição e vaidade.

Leniza tem muitos pontos em comum com uma das poucas outras femmes fatales da literatura brasileira: Ambrosina, a protagonista homônima de A Condessa Vésper (1882), de Aluísio de Azevedo. Ela também aprende cedo a usar sua sexualidade pra vencer no mundo masculino, também torna-se prostituta por um tempo e  Condessa Vésper, A vive um caso de amor com outra mulher. As diferenças páram aí, entretanto, pois A Condessa Vésper era um típico folhetim melodramático de aventuras: enquanto Leniza é vista como uma pessoa completa, às vezes perversa, às vezes hesitante, e sempre humana, Ambrosina é um monstro da maldade. Nas palavras de Adeítalo Manoel Pinho: "ambiciosa, mentirosa, falsa, adúltera, ladra, prostituta, sedutora, homossexual. Ela é hiperbolicamente negativa. Chamá-la de dissimulada seria uma ironia, e não uma adjetivação."

Obras Citadas

Pinho, Adeítalo Manoel Pinho. "A condessa da maldade: formação da personagem feminina no romance brasileiro do século XIX." Trabalho apresentado no "Seminário Internacional Fazendo Gênero 7: Gênero e Preconceitos", Simpósio Temático 13C - "Ruídos na representação da mulher: preconceitos e estereótipos na literatura e em outros discursos". Florianópolis, UFSC, 28-30 de agosto de 2006.


Nesse natal, dê um vira-lata de presente

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Ué, te dou o meu livro: "A feia noite", lançado em 2006. Personagem principal, Maria Luiza. Deixe-me encontrar um trecho representativo:
"- Você está tremendo - diz outra voz, distante. A voz de Maria Luiza.
Não sabia que estava tremendo. E suando em bicas. Levanta. Pára, zonzo, enjoado, prestes a cair. Era como se a cada palavra que ela dissesse um arpão o empalasse - só um pouquinho, tentava se dizer, continuando a andar, ignorando a dor, - e de pouco em pouco o sangue lhe empapasse a blusa e, cínica, ela o amparasse.
Não conseguia se decidir se ela tramava inocente de como seria ruim ou se tinha a malícia de fazer com que fosse ruim e ainda simular inocência depois. Às vezes parecia cruel. Outras, parecia que se atrapalhava com a própria crueldade."

O livro não fez quase barulho, estou pensando em fazer uma versão e lançá-lo no exterior.
 

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