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Tuesday, November 6, 2007

O Tempo em "Funes" e "Menard", de Borges

(Antes de começar, leia ou releia os contos em questão. Vale muito a pena. Ambos estão disponíveis na web e são alguns dos melhores contos de todos os tempos: “Pierre Menard, Autor do Quixote” e “Funes, o Memorioso”.)
Borges
Dois dos mais estudados contos de Ficciones, de Jorge Luis Borges, são “Pierre Menard, Autor do Quixote” e “Funes, o Memorioso”. À primeira vista, ambos parecem ter como temas principais a memória e o esquecimento. Entretanto, defenderei aqui a tese de que os contos são, na verdade, sobre o tempo, sua passagem e sua progressão. Afinal, a memória nada mais é do que pensamento vivido ao longo do tempo. Sem essa progressão sequencial, não poder haver relmente memória. Funes, por exemplo, ao recordar tudo mas em uma dimensão ahistórica e atemporal, não tem realmente memória: só um acúmulo de fatos desconexos.Ficções JORGE LUIS BORGES

Em “Pierre Menard, Autor do Quixote”, o método inicial pensado por Menard para sua obra “invisível” era “relativamente simples”:

“Conocer bien el español, recuperar la fe católica, guerrear contra los moros o contra el turco, olvidar la historia de Europa entre los años de 1602 y de 1918, ser Miguel de Cervantes.”
Entretanto, ele descarta esse método, por ser demasiado simples. Qualquer um que seja Cervantes poderia facilmente escrever o Quixote: a contribuição e o mérito de Menard estão em escrever o Quixote sendo Menard, um homem do século XX.
“Componer el Quijote a principios del siglo XVII era una empresa razonable, necesaria, acaso fatal; a principios del XX, es casi imposible. No en vano han transcurrido trescientos años, cargados de complejísimos hechos.”
Mais adiante, uma frase de Cervantes descartada como um “mero elogio retórico da história” é saudada como uma “idéia assombrosa” quando vinda de Menard,  Dom Quixote de La Mancha MIGUEL DE CERVANTES “contemporâneo de William James.”

Desse modo, o verdadeiro autor do texto de Menard é não o próprio Menard, e nem mesmo Cervantes, mas sim os trezentos anos que os separam. Ou seja, é a passagem do tempo que dá sentido ao ato de reescritura e faz com que, apesar de serem “verbalmente idênticos”, o texto de Menard seja “quase infinitamente mais rico” que o de Cervantes. Menard inventa a nova técnica do “anacronismo deliberado”, mas quem escreve o texto é o próprio tempo. Mais do que um conto sobre autoria, “Pierre Menard, Autor do Quixote” é um conto sobre o tempo.

“Funes, O Memorioso”, ostensivamente sobre a memória e o esquecimento, também revela-se um conto sobre o tempo – já que nem memória nem esquecimento podem ser entendidos exceto em função do tempo. É sintomático que Funes tenha a capacidade de relembrar um dia nos seus mínimos detalhes (“esos recuerdos no eran simples; cada imagen visual estaba ligada a sensaciones musculares, térmicas, etc.”), mas para isso ele necessite de um outro dia inteiro. Para Funes, a memória é um traiçoeiro pacto do diabo, um sinistro jogo de soma zero: para cada dádiva que recebe precisa fazer um sacrifício de igual valor.
“No sólo le costaba comprender que el símbolo genérico perro abarcara tantos individuos dispares de diversos tamaños y diversa forma; le molestaba que el perro de las tres y catorce (visto de perfil) tuviera el mismo nombre que el perro de las tres y cuarto (visto de frente).”
Por um lado, a prodigiosa memória de Funes fazia com que vivesse em um eterno presente: como o cachorro que ele observa, Funes também vive de minuto em minuto, sempre no presente, fora de qualquer tempo sequencial histórico. Por perceber tudo, Funes não percebe nada: ao registrar minuciosamente todas as diferenças entre o cachorro das três e quatorze e das três e quinze, Funes não concebe conceber que animais tão diferentes entre si (com ângulos, sombras, expressão diferentes) possam ser o mesmo animal. Ironicamente, Funes vê tudo, menos a passagem do tempo – que é justamente o que conecta o cachorro das três e catorze ao das três e quinze, “mesclando-os” em um mesmo animal.

Por outro lado, entretanto, ao ver tudo e registrar tudo, Funes percebe passagem do tempo talvez melhor do que ninguém: todo dia, diante do espelho, cada aspecto de sua progressiva decadência física lhe é surpreendente:
“discernía continuamente los tranquilos avances de la corrupción, de las caries, de la fatiga. Notaba los progresos de la muerte, de la humedad.”
Na verdade, resta uma dúvida: se não conseguia perceber que o cão das três e catorze e o das três e quinze eram o mesmo animal, conseguiria perceber que o rosto no espelho de ontem e o de hoje, um pouco mais velho, pertenciam à mesma pessoa, ele, Funes? Será que sua prodigiosa memória não teria o efeito de fazer com que nem mesmo se reconhecesse no espelho, que sumisse completamente enquanto indivíduo? Será esse o preço da memória?Ficções JORGE LUIS BORGES

Em “Pierre Menard, Autor do Quixote” e “Funes, o Memorioso”, temos dois personagens que lidam com o tempo de maneira radicalmente oposta. Menard coloca o tempo como dimensão primordial de sua obra invisível: a única diferença entre sua obra e a de Cervantes, a diferença que faz da primeira “genial” e da segunda “contingente”, são os trezentos anos que transcorrem entre elas. É a passagem do tempo que dá sentido (algum sentido, ao menos) para o processo de reescritura do Quixote. Sem o intervalo de trezentos anos, Menard seria apenas um plagiador barato. Já Funes simplesmente não vê o tempo: vive somente no presente e sua existência é ahistórica. Tem poderes mentais milagrosos (poderiamos dizer amaldiçoados), mas quanto mais recorda, mais torna-se incapaz de perceber qualquer sequência temporal. Para ele, é como se o tempo não existisse: cada cachorro observado é um novo cachorro. O tempo não passa, ele se reinicia a cada nova observação. O cronômetro está sempre sendo zerado. Para Menard, o tempo é tudo; para Funes, não é nada.


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