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Friday, November 9, 2007

Carolina Maria de Jesus e a NoCu

Quarto de Despejo, por Carolina Maria de JesusJá que rendeu tanto a discussão sobre a importância da NoCu (NormaCulta), acho interessante apresentar vocês a uma de nossas escritoras mais esquecidas.

Carolina Maria de Jesus era negra, favelada, catadora de papel e mantinha um diário. Descoberta por um repórter, que editou e publicou seus diários no começo da década de 60, ela virou uma celebridade. O livro foi traduzido em diversas línguas (minhas duas edições dizem que foi o maior best-seller brasileiro de todos os tempos) e ela viajou o mundo. Carolina, entretanto, tinha a língua afiada, desagradou a esquerda e a direita, acabou sendo esquecida e morreu na pobreza. Um trecho de Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada:

1 de julho. Eu percebo que se este Diário for publicado vai maguar muita gente. (...) Quando passei perto da fabrica vi varios tomates. Ia pegar quando vi o gerente. Não aproximei porque ele não gosta que pega. Quando descarregam os caminhões os tomates caem no solo e quando os caminhões saem esmaga-os. Mas a humanidade é assim. Prefere vê estragar do que deixar seus semelhantes aproveitar.
A edição da Ática avisa com certo orgulho: Antologia Pessoal
Esta edição respeita fielmente a linguagem da autora que muitas vezes contraria a gramática, mas que por isso mesmo traduz com realismo a forma de o povo enxergar e expressar seu mundo.
Aparentemente, todos vêem essa fidelidade aos erros da autora como respeito. Será que sou só eu que vejo como desrespeito?

* * *

Alexandre Soares Silva, falando da Matemática Naïf:
Noto que agora já não se diz Arte Primitiva, nem Arte Naif; agora é Outsider Art. Ah, certo. Será que existe Outsider Math? O molequinho fazendo conta errada, o caboclo na sua casinha, tirando bicho-do-pé com canivete e cavando equações erradas de segudo grau num pedaço de madeira. "É a matemática do nosso povo, tudo erradinho, que bonito!" O matemático de Cambridge parando na beira da estrada pra ver o vendedor de pamonha que faz Outsider Math.
* * *

Em todas as narrativas históricas dos grandes descobrimentos, o padrão se repete perversamente: o chevalier Auguste de Quelque-Chose leva três índios e duas índias para fazer uma festa americana para o Rei de França; em menos de duas semanas, todos morrem de fome, frio, doença ou banzo.

Não faz bem ser mascote da elite.

* * *Quarto de Despejo, por Carolina Maria de Jesus

Fico imaginando o Guga, o Agassi e o Sampras me convidando pra jogar dupla. E a cada tropeção, a cada ace, a cada bola fora, eles ficariam dizendo: olha só, que bonitinho, ele não consegue chegar na bola, ahhh, que fofo, é uma denúncia ao sedentarismo dos gordinhos que já não conseguem mais correr direito.

Sim, o meu pouco preparo físico é uma denúncia à crescente obesidade da nossa sociedade, assim como o português capenga de Carolina é uma denúncia à injustiça e desigualdade de nosso país. Mas resta o fato de que me colocar na quadra ao lado do Sampras não é "inclusão esportiva" nem é nenhum favor que me fazem: é um modo simpático de me humilhar para divertimento alheio.

* * *

Quando minha editora, na Tribuna da Imprensa, encontra um erro de português em minha coluna, ela corrige. É um ato de amor e de respeito. Ela não quer que eu passe por ignorante.

A NoCu é um dialeto tanto quanto o miguixês, mas cada coisa na sua hora. Minha coluna é escrita na NoCu. Eu não posso escrevê-la em miguixês assim como não posso escrevê-la em espanhol. Nada disso quer dizer, entretanto, que um dialeto seja intrinsecamente superior ao outro. Antologia Pessoal

* * *

Manter os erros de Carolina é um meio garantir que ela seja vista somente como mais um literary freak. Nesse jogo entre pessoas limpinhas e cheirosas, Carolina só entra mesmo como atração principal no picadeiro. O jornalista que editou o livro é o mestre de cerimônias do circo, nós somos a platéia e Carolina, coitada, é a mulher-barbada.

A graça de Quarto de Despejo parece ser justamente fazer seus leitores bem alimentados sorrirem condescentes e pensarem: olha só, que bonitinho, a preta ignorante quase consegue escrever direito...

* * *

Ao receber os originais do novo livro de Rubem Fonseca, a editora prontamente coloca um revisor para corrigir todos os erros da NoCu. Por que não fizeram o mesmo por Carolina?

Por que os erros de um são interferências a serem eliminadas para melhor degustação do texto, enquanto os erros da outra são não apenas mantidos como ressaltados pela editora?


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