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Thursday, September 27, 2007

A Riqueza da Língua Portuguesa

Uma das maiores barbaridades que ouço regularmente de brasileiros é comparar a "riqueza" do português com a "pobreza" do inglês. Faz parte do mesmo folclore consolador compensatório que enxerga os donos do mundo como simplórios ignorantes falando uma língua pobre, enquanto nós, obviamente, somos mais espertos e mais cultos, apesar de inexplicavelmente subdesenvolvidos.

Naturalmente, tamanha besteira só pode sair da boca de alguém que é, ao mesmo tempo, falante nativo de português e aluno do segundo ano do CCAA. Falam coisas como:

"O português, língua rica, tem vários modos de dizer X, enquanto que o inglês, língua paupérrima, só tem uma."
Não ocorre a eles que:

1) Vai ver o inglês também tem vários modos de dizer X, ele é que não sabe por ter somente um domínio parcial da língua;

2) É isso o que faz uma língua "ser rica"? Aliás, o que é riqueza de uma língua?

Embora essa ilusão seja disseminada, basta perguntar um pouco para perceber que o mesmo patriota que acabou de bater no peito para decretar a riqueza de sua língua-pátria não faz idéia do que é que faz uma língua ser rica ou não.

Como assim rica?, eu pergunto. Por ter mais vocábulos? Mais tempos verbais? Uma sintaxe mais complexa? O quê?

Por exemplo, em inglês, podemos dizer as seguintes frases, na qual a mesma palavra funciona como verbo, adjetivo e substantivo:
Richard took water from the water pot, to water the plants.
The painter dips his paint brush in paint, to paint the carriage.
Aí eu pergunto ao patriota: inglês é uma língua mais pobre por permitir que a mesma palavra seja usada para significar coisas diferentes, ao invés de ter uma palavra diferente pra cada uma; ou é mais rica, por ser mais flexível e adaptável?

Aí também já é demais, ora. O patriota sabe que sua língua é a mais rica do mundo; querer que ele saiba o porquê ou que defina o que é a riqueza de uma língua já seria sacanagem.

Mas a grande verdade é que, além de levantar essa questão, eu não saberia nem por onde começar a desmontar essa bobagem. E nem quero, aliás, porque vocês sabem que não debato.

Então, pedi ao meu amigo Dr Plausível (que não sou eu, ¡juro!) para me escrever uns posts sobre o assunto. O bom doutor é falante nativo de espanhol, seu português é absolutamente perfeito e o inglês, idem. Por favor, não botem palavras na minha boca: estou só linkando o homem. Não concordo com tudo o que ele diz, mas adoro cada linha:
* * *

Pós-Escrito Só para Idiotas

Com certeza, vai baixar algum patriota defendendo a língua portuguesa, supostamente atacada por esse entreguista que vos escreve.

Deixa eu deixar bem claro então: gosto muito da minha língua-materna. Vim até os Estados Unidos para estudar e ensinar português. Todo dia, dou aulas de cultura e literatura brasileiras pra alunos de todo o mundo que amam o nosso país. Poderia escrever esse blog ou minha ficção em inglês, mas ainda teimo na última flor do lácio.

Ninguém precisa considerar sua língua a mais rica do mundo para amá-la. Só os idiotas.


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