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Monday, August 13, 2007

Por Que Os Jovens Autores Querem Ser Publicados Pelas Grandes Editoras?

A Ana V., que já trabalhou no mercado editorial, escreveu um excelente texto sobre essa questão de publicar em grandes editoras e o que elas podem fazer pelo escritor. Vale a pena ler. Em um dado momento, ela pergunta:

Acho curioso que tanta gente boa tenha tanta vontade de ser editado por uma dessas ditas grandes casas editoriais. Porque, pela minha experiência, isso não ajuda em nada. Não sei se tem a ver com um desejo muito forte de reconhecimento, de ser notado pelo meio editorial, supostamente por especialistas (nhé!, duplo nhé!). Mas rola esse fetiche da distruibuição nacional, de ter os livros expostos em livrarias, essas coisas que não passam disso mesmo: fetiches. O resultado prático disso é o que vocês já podem imaginar: nenhum. (...) Então eu queria entender melhor por que tantos autores-blogueiros, por exemplo, gostariam tanto de ter os seus livros publicados por uma editora grande. Em que isso contribui, exatamente?
E, como autor-blogueiro, respondo: ora, capital cultural. Só isso.

Capital Cultural, Percepção e Reconhecimento

Concordo com rigorosamente tudo no texto da Ana: quem tem ilusões de que sua vida vai mudar depois de ser publicado pela Cia das Letras é um ingênuo. Você vai ser o menor peixe de um marzão enorme, não vai ter prioridade nenhuma lá dentro, vai ser mais um nome do release, vai ter sua tiragem mínima pulverizada por livrarias que só vão comprar o livro porque veio no pacote, se houver divulgação na mídia vai ser porque você correu atrás, e em poucos meses seu livro provavelmente estará esquecido.

A única diferença mesmo, e que não é pequena, é de percepção. Depois de ser publicado pela Cia das Letras você vira, bem, um autor publicado pelo Cia das Letras. Não é grandes coisa, mas é um primeiro passo, e sem ele, não existem os passos subsequentes.

Se você não entende a diferença que isso faz então você não sabe como o mundo funciona. Já senti essa diferença quando passei a escrever pra Tribuna da Imprensa: agora, eu era "colunista de grande jornal diário do Rio de Janeiro", "o jornal do Lacerda", "o jornal que derrubou o Getúlio", etc.
Eu não acho minha coluninha nada demais, mas mudou o jeito como muita gente me trata, por incrível que pareça.

Um Defeito de Cor, por Ana Maria GonçalvesA Ana Maria Gonçalves auto-publicou seu primeiro romance e vendeu por seu blog - exatamente como eu e Bia fizemos com a Os Vira-Lata. O segundo livro, Um Defeito de Cor, ela já lançou pela Record. Hoje em dia, ninguém mais chama a Ana de blogueira. Ela é escritora - como, aliás, sempre foi.

Tem gente que diz que sou superficial, vaidoso, que estou perseguindo um "rótulo", que não imaginava que "alguém livre como eu" se preocupasse com "essas coisas". A própria Ana V. especula que a vontade de ser publicado por grandes editoras tenha a ver "com um desejo muito forte de reconhecimento", e eu fico estranhando o tom de crítica. Qual é o problema?

Reconhecimento não é fama. Reconhecimento é ser reconhecido como sendo quem você realmente é. Reconhecimento é o economista não ser tratado, visto ou percebido como contador, mas como economista. Quem estudou por seis anos pra ser médico não gosta de ser chamado de enfermeiro.

A Questão da Grana

Em julho, eu vendi 33 cópias do meu livro de crônicas cubanas, Radical Rebelde Revolucionário. O preço de capa é R$20 e eu recebo 90%, ou seja, R$18: o resto é do Branco.Ou seja, por esses 33 livros, eu ganhei R$594, líquidos e livres de impostos.

Digamos que eu tivesse publicado o livro por editora tradicional, que ele fosse vendido nas livrarias pelos mesmos R$20, que eu recebesse os 5% do preço de capa garantidos por lei e que minha agente ficasse com os seus 20% de praxe, eu receberia apenas R$0,80 por exemplar. Ou seja, ao invés de R$600 receberia R$26 pelos mesmos 33 exemplares vendidos. Para ganhar os mesmos R$600 publicando por editora tradicional, eu precisaria vender 750 exemplares.

E eu me pergunto: será que algum novo autor publicado por editora tradicional vende isso? (Os títulos da Livros do Mal, por exemplo, tinham tiragem de 600 exemplares.)

33 exemplares vendidos em um mês parece pouco, mas os R$600 são bem verdadeiros e fazem um peso gostoso aqui no meu bolso.

A Internet Coloca o Mercado Editorial em Perspectiva

Hoje, estou com o meu romance sendo avaliado por grandes editoras. Enquanto isso, lancei três livros para venda direta aos leitores, de gêneros menos comerciais, contos, crônicas e impressões de viagem. Eu ficaria feliz se tivesse uns dois ou três títulos em catálogo, para fins de reconhecimento, e depois outros tantos, menos ambiciosos, para vender diretamente pelo blog.

Para mim, como escritor de literatura, a internet já me deu mais leitores e mais dinheiro do que eu conseguiria publicando por uma editora tradicional. Só falta mesmo o reconhecimento dos meus pares - outros escritores, professores de letras, jornalistas culturais, os literatos em geral. Como ainda não passei por esse ritual de passagem do livro impresso, não tenho capital cultural algum: ainda não sou escritor, sou "blogueiro".

Não estou dizendo que as uvas estão verdes, não estou reclamando de nada, não acho que é injustiça uma editora não investir em um autor desconhecido que dificilmente dará lucro. Eu quero sim passar pelo ritual de passagem, quero sair em livro impresso, quero ser aceito como um igual pelos membros da minha tribo.

A única diferença é que minha experiência na internet me fez ver que todo esse processo tornou-se apenas um ritual, de valor simbólico. Leitores e dinheiro, que são o que há de mais concreto, eu sei que consigo mais através da internet.

Alguns links:


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