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Nelson Rodrigues, Moralista ou Pornógrafo?


A partir de setembro, em minha aula de Português Intermediário, eu e meus alunos vamos ler três grandes peças brasileiras e assistir aos respectivos filmes: O Beijo no Asfalto, O Auto da Compadecida e O Pagador de Promessas. Eu não saberia dizer qual eu gosto mais.



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Já que estamos falando de Nelson, deixa eu contar pra vocês uma promoção que achei lá no Submarino. Na compra de dois ou mais livros do Nelson (nas novas edições da Agir, que estão lindas, ilustradas pelo Zéfiro e com a maior cara de livro erótico), você ganha uma bolsa exclusiva. Basta clicar no bannerzinho abaixo.

Dos livros disponíveis na promoção, eu recomendo, enfaticamente, O Casamento e A Vida Como Ela É.
O Casamento é maravilhoso. A cada nova baixaria, você pensa: pronto, o homem chegou ao chão. Daqui o nível não cai mais. Simplesmente, não tem pra onde. E, então, você vira a página e, pimba!. a coisa piora. Lindo.
A Vida Como Ela É é uma seleção de minicontos que o Nelson publicava na imprensa sobre os amores (e, mais precisamente, as infidelidades) da classe média suburbana carioca. Os contos não passam de 3, 4 páginas, são o presente perfeito praquele seu amigo vagabundo que gosta de ler 10 minutos antes de dormir - ou pra chocar aquela tia Carola.
Acabei de comprar também o dvd com os quadros de A Vida Como Ela É que passaram no Fantástico. Eu só vi alguns poucos e gostei bastante. Vai ser interessante passá-los para os alunos, pois são curtos e repletos de ação, perfeitos pra esquentar uma aula parada.
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Última pergunta. Nelson Rodrigues era:
a) Um reacionário moralista, defensor da moral e dos bons costumes, dos valores da família e da religião, escrevendo para mostrar como estava podre e hipócrita nossa classe média;
b) Um sátiro imoral, um pornógrafo sem-vergonha, que se excitava escrevendo contos e romances tórridos de sexo, incesto e traição. Poucas pessoas fizeram mais para subverter a moral e os bons costumes, os valores da família e da religião, do que ele!
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Acho interessante quantas vezes essas questões surgem na literatura. Outra dia, eu escrevi sobre um livro dizendo que ele fazia apologia à apatia. Pouco depois, o autor me respondeu afirmando que escreveu o livro para denunciar a apatia da nossa geração.
Mas o que o autor diz não conta, não é? O que importa é o que está na obra. Goethe, em Werther, não fez apologia ao suicídio, mas causou uma onda de suicídios por toda a Europa.
Minha pesquisa de doutorado é sobre os romances (teoricamente) abolicionistas brasileiros e cubanos do século XIX. De um modo bem real, cabe ao escritor blindar sua obra para que não possa ser usada por seus inimigos ou adversários. Senão, por exemplo, seu livro pseudo-abolicionista escrito com as melhores intenções vai ser lido como uma confirmação da selvageria daquelas bestas-fera que têm mais é que ser escravizadas ou voltar pra África.

Afinal, como disse Benjamin, nem os mortos estão a salvo. A gente nunca sabe como vai ser lido:
To articulate the past historically does not mean to recognize it "the way it really was" (Ranke). It means to seize hold of a memory as it flashes up at a moment of danger. Historical materialism wishes to retain that image of the past which unexpectedly appears to man singled out by history at a moment of danger. The danger affects both the content of the tradition and its receivers. The same threat hangs over both: that of becoming a tool of the ruling classes. In every era the attempt must be made anew to wrest tradition away from a conformism that is about to overpower it. The Messiah comes not only as the redeemer, he comes as the subduer of Antichrist. Only that historian will have the gift of fanning the spark of hope in the past who is firmly convinced that even the dead will not be safe from the enemy if he wins. And this enemy has not ceased to be victorious.
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Então, voltando à vaca tijucana, Nelson era um moralista ou um pornógrafo?