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Fumar em Cuba
Voei para Cuba lendo o Contrapunteo Cubano del Tabaco y del Azucar, de Fernando Ortiz, uma obra-prima ao mesmo tempo acadêmica e literária, linda, belíssima, original, explicativa, poética. Algo assim como o Casa-Grande & Senzala cubano. O livro em si é pequeno, tem menos de cem páginas mas outras 500 de apêndices e complementos. Ortiz traça um paralelo entre o açúcar e o tabaco em Cuba, mostrando como o cultivo de cada produto engendrou uma cultura totalmente diferente, desde a economia até a organização do espaço. O autor não esconde sua predileção: para ele, o açúcar é conservador, reacionário, capitalista, monopolista, enquanto o tabaco é rebelde, individualista, libertário, revolucionário. O livro é uma ode de amor ao tabaco do começo ao fim. Quando pousei no Aeroporto Internacional José Martí, eu estava simplesmente seco por um bom charuto.
Pois bem, desembarco em Havana e o primeiro cheiro que sinto é o de charuto. Sim, Cuba é um país onde se fuma charuto dentro do saguão do aeroporto. Eu tive vontade de beijar o chão. Estou em casa.
Se você odeia gente soprando fumaça na sua cara, se não quer cheiro de cigarro na sua roupa, se acabou de parar de fumar pela qüinquagésima vez e não quer tentações, Havana realmente não é pra você. Vá visitar São Francisco, na Califórnia, uma cidade maravilhosa que me recebeu de braços abertos quando fugi do Furacão Katrina. Em São Francisco, não se pode fumar livremente nem ao ar-livre, muitas vezes nem em sua própria casa. Parece que a Câmara Municipal está prestes a aprovar uma lei autorizando o linchamento sumário de qualquer um que ouse acender um cigarro em público. Periga de ser aclamada por unanimidade.
Naturalmente, em Cuba, as pessoas não só fumam. Elas fumam umas toras de trinta centímetros de comprimento que parecem desafiar a própria lei da gravidade. Deus parece ter modificado a física somente para que os cubanos possam fumar seus puros. E fumam o tempo todo. Mesmo na sala de periodicos da Biblioteca Nacional, folheando jornais de mais de 200 anos, as pessoas fumam seus charutos tranquilamente. Até agora, o único lugar onde não vi gente fumando foi no cinema. Fui assistir La Noche de Los Inocentes, no Cine Payret, em frente ao Capitólio Nacional. É o novo filme de Jorge Perrugoria, de Fresa & Chocolate e Guantanamera, um ator que já se tornou um dos meus favoritos de todos os tempos. Diga-se a bem da verdade, ninguém fumou no cinema. Talvez porque não havia ar-condicionado e estava tão quente que bastariam uns cinco charutos acesos para matar todas as centenas de pessoas sufocadas. Ou vai ver é proibido. Mas, confesso, proibir alguém de fumar já me parece uma das atitudes mais anti-cubanas que alguém poderia ter.
Ainda assim, entretanto, não ficamos longe do fumo. O filme inteiro se passa em um quarto de hospital: ao mesmo tempo em que um jovem travesti luta pela vida depois de uma surra violenta, um policial interroga seus familiares em busca da verdade sobre o crime. E imaginem se algum deles, o detetive ou os familiares, em uma situação tão tensa como essa, verdadeiro jogo de gato-e-rato policial, deixaria de acender seus cigarros e charutos! Valha-me deus!
Eu, infelizmente, não posso comprar fumo. Os preços para turistas são inflacionados demais. A minha anfitriã tem comprado uns charutos pra mim na bodega da esquina, do tipo que fumam os cubanos não-membros do partido. Baratíssimos. Um peso cada - cerca de oito centavos de real. E, quer saber?, devem ser os mesmos que os turistas gordos e brancos compram por cem dólares. Só muda a embalagem.