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Introdução à Cuba II: A Salada Monetária Cubana
Eu queria partir direto pras crônicas, contar minhas aventuras e falar dos cubanos que conheci, mas, para que vocês possam entender as histórias, preciso antes explicar duas coisas que dominam o dia-a-dia na ilha: o Período Especial e a situação monetária. Talvez seja um pouco chato, e vai ter muito número, mas venham comigo que depois vai valer a pena.
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Em mais um esforço para aumentar a entrada de divisas e diminuir o acesso dos cubanos a elas, o governo recentemente proibiu a circulação de dólares na ilha e criou uma nova moeda: o peso conversível, ou CUC, que hoje vale US$ 1,25 ou R$2,4. Moedas estrangeiras só podem ser trocadas por pesos conversíveis que, teoricamente, seriam utilizados por turistas em locais onde apenas turistas pudessem entrar.
Enquanto isso, os cubanos, cuja larga maioria ainda trabalha para a gigantesca burocracia estatal, ganham salários mínimos pagos em pesos nacionais, ou MN, que não valem quase nada. Um peso conversível vale 24 pesos nacionais; um real vale 10 pesos nacionais. O salário mínimo em Cuba é de cerca de dez dólares (192 MN, ou R$19) e o máximo, para o mais alto escalão do governo, US$34 (652 MN, ou R$65).
Teoricamente, os cubanos não são proibidos de usar pesos conversíveis, mas vejam só: um Paladar vagabundo, esses restaurantes caseiros que falei, vendem um prato-feito de arroz, feijão, porco e vegetais, com um refrigerante, por 10 CUC. As bibliotecárias da Biblioteca Nacional José Martí, que tanto me ajudam, ganham por mês o equivalente a 16 CUC. Esse PF está completamente fora do seu alcance. E os restaurantes para turistas são infinitamente mais caros.
Mas nem essa prática funciona na prática. Por um lado, muitos estrangeiros espertos ou duros, como este que vos escreve, convertem seus dólares em pesos nacionais (que não deveriam nem ter) e freqüentam os estabelecimentos comerciais só para cubanos (onde não deveriam nem entrar), para comprar produtos a preços irrisórios. E, por outro, cubanos que ou têm parentes no exterior que lhes mandam dólares (quase todos) ou que arrancam dólares dos turistas por trabalhar em turismo (muitos, pois hoje é a maior indústria do país) acabam freqüentando muitos estabelecimentos comerciais só para turistas e comprando, apesar dos preços altos, produtos que não estariam disponíveis em nenhum outro lugar. Ou seja, a salada monetária criada pelo governo cubano não atinge seus mínimos objetivos e serve apenas para criar um caos monstruoso.
Deixa eu dar uma idéia de preços pra você. Primeiro, uma tabelinha de moedas:
1 USD = 0,80 CUC
1 CUC = 1,25 USD
1 CUC = 2,4 R$
1 CUC = 24 MN
1 R$ = 10 MN
No cinema, um ingresso pra turista custa 2 pesos conversíveis (2 CUC = R$ 4,8) e, pra cubano, 2 pesos nacionais (2 MN = R$ 0,20). Eu, se ficar de boca fechada, dou meus dois pesos nacionais pra bilheteira e compro como cubano. Uma passagem de guagua (pronúncia: uáua), o tipo de ônibus mais barato que pego para ir à biblioteca, custa 20 centavos de peso nacional (0,20 MN = R$ 0,02). Os táxis pra turistas cobram preços internacionais: uma corrida do centro de Havana para o aeroporto sai por 25 pesos conversíveis (25 CUC = R$ 60). Já nos táxis só pra cubanos, carros velhíssimos, quase caindo aos pedaços, sem letreiros de táxi (você tem que saber reconhecê-los), qualquer corrida custa 10 pesos nacionais (10 MN = R$ 1), mas eles fazem lotação, os passageiros andam apertados como sardinhas e, se você não estiver indo pra mesma direção aproximada dos outros, não te levam. Pior ainda, são proibidos de levar estrangeiros. A polícia os pára regularmente e pede o carnê de identidade de todo mundo. Eu, que tenho cara de cubano, nunca tive problema mas vários motoristas se recusaram a transportar a Annie, loira de olhos azuis.
No agromercado dos cubanos, eu compro um abacaxi simplesmente maravilhoso por 10 pesos nacionais (10 MN = R$ 1) e já é o meu almoço. Como sou pobre, tenho comido em barraquinhas de rua, o equivalente cubano ao joelho com refresco de caju. Um sanduíche de rua, geralmente cachorro quente (pan con perro), hambúrguer (pan con hamburguesa), sanduíche de croquete (pan con croqueta; não recomendo, trust me), de lombo (pan con pierna ou pan con lechon) ou de presunto (pan con jamon), mais um refresco de abacaxi ou goiaba, fica entre 2 e 10 pesos nacionais (2-10 MN = R$ 0,20-1), dependendo do nível da podreira. Muitas vezes, literalmente o mesmo sanduíche vendido pela loja atrás da barraquinha custa para o turista até cinco pesos conversíveis (5 CUC = R$ 12). Um refrigerante em lata Ciego Montero, uma marca cubana surpreendentemente boa, custa 10 pesos nacionais para os cubanos (10 MN = R$1) e um peso conversível para os turistas (2 CUC = R$ 4,8). A mesmíssima latinha.
Mesmo as lojas que aceitam divisas não são tão caras assim, embora pareçam caras comparadas com as lojas para cubanos. Eu pago um peso conversível por um saco de dez pães (1 CUC = R$ 2,4) e dois pesos conversíveis por um garrafão de cinco litros de água mineral (2 CUC = R$ 4,8). Menos do que no Carrefour onde faço minhas compras no Rio.
Na verdade, essa loucura monetária teve duas interessantes conseqüências. A primeira, intencional, é tornar Cuba o lugar do mundo onde o dólar vale menos. Além de o governo manter o peso conversível artificialmente alto em comparação com o dólar, qualquer conversão de dólar em peso conversível é sobretaxada em 20%. ¿Por quê? Porque sim, ué. Eu trouxe mil dólares em dinheiro e vou levá-los inteirinhos de volta ao Brasil. Estou sacando reais diretamente do meu cartão de crédito brasileiro e convertendo-os em pesos, o que sai muito mais barato. Já Annie, minha companheira de viagem norte-americana, que não tem como fazer isso, leva uma facada, com direito a torcida e tudo, a cada vez que troca seus suados dólares.
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A outra conseqüência foi com certeza não-intencional, mas seríssima: erodir ainda mais a pobre Revolução. Antes do Período Especial, ter parentes na diáspora era uma vergonha pública: primos em Miami bastavam para rotular alguém de traidor em potencial e barrar sua carreira nas áreas mais sensíveis do governo e das forças armadas. Já hoje, os revolucionários 100% leais, que nunca sofreram o vexame de ter um parente abandonando Cuba e indo viver entre os gringos (ou seja, que não tem ninguém no exterior que lhes envie dólares), que trabalham fielmente para o governo defendendo os ideais socialistas da Revolução (ou seja, sem acesso às gorjetas em dólares que enriquecem os garçons e camareiras do ramo turístico), são os mais pobres e miseráveis dos cubanos, os únicos ainda restritos exclusivamente às pobres e miseráveis lojas que aceitam pesos nacionais, onde não se encontra nem papel higiênico.
Esse mundo é injusto mesmo.
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Essa é só uma amostra dos textos que estarão disponíveis no ebook Radical Rebelde Revolucionário, à venda em julho.