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Contra o Capitalismo (Mudanças Ideológicas, 2 de 9)
A Ideologia da Arte: Pato Donald e Jornada nas Estrelas
O chileno Ariel Dorfman, autor de A Morte e a Donzela, escreveu um livrinho nos anos 70 que fez muito sucesso no Brasil: Para Ler o Pato Donald, em que mostra como as histórias da Disney eram um veículo da ideologia imperialista do Tio Sam. O engraçado nesse livro é que as bestas da esquerda o tomaram como uma Bíblia da doutrinação ideológica enquanto as bestas da direita caçoaram da análise: onde já se viu dar tanto poder assim às histórias em quadrinhos?
Naturalmente, estão ambos meio errados e meio certos.
Qualquer obra narrativa é veículo da ideologia do autor. Sim, as histórias Disney são veículos da ideologia americana, assim como as histórias da Turma da Mônica são veículos de ideologia cristã. Impossível ler as histórias do Anjinho, da Turma do Penadinho e, em maior grau ainda, do Horácio e do Astronauta, sem se dar conta de que uma ideologia cristã bem rasteira nos está sendo enfiada goela abaixo.
E, por outro lado, as histórias Disney não fazem nenhuma apologia do capitalismo, não senhor. Apesar do Tio Patinhas ser visto com simpatia, sua arrogância e ganância são tripudiadas o tempo todo. As histórias, pelo contrário, forçam o leitor a simpatizar com os personagens que nunca ligam para dinheiro, como o próprio Donald e os sobrinhos. Sim, se o texto faz ALGUMA apologia do capitalismo, ao não criticá-lo e ao mostrá-lo como normal e aceitável, mas não o exalta nunca.
Enfim, isso tudo foi pra dizer que, depois que virei acadêmico, não consigo mais consumir cultura com meu olhar inocente de outrora. Se as histórias da Disney passaram no meu teste, Jornada nas Estrelas não passou. Eu, que adorava o seriado, não consigo mais ver um filme ou episódio sem me dar conta do processo ideológico em ação.
O universo ficcional de Jornada das Estrelas é como a realização dos sonhos de Francis Fukuyama: a História acabou porque o American Way of Life ganhou, todos os seus possíveis adversários cederam, aderiram ou sumiram, não sobrou mais ninguém para ser do contra, não há conflito, diversidade, choque. A História, se existe, é feita lá fora, entre os alienígenas, entre aqueles que ainda não aderiram ao pensamento único dos humanos e da Federação. Entre o século 22, palco da série Enterprise, e o século 24, das séries Nova Geração, Deep Space Nine e Voyager, a impressão que temos é que a nossa doméstica História terrestre realmente parou.
Acompanhamos as aventuras dos bravos homens da Frota Estelar no espaço porque, convenhamos, se ficássemos na Terra, não haveria nada pra acompanhar. Sintomaticamente, os viajantes espaciais passam pela Terra dezenas de vezes ao longo de três séculos e nada nunca muda. Nunca ouvimos falar de guerras, rebeliões ou dissidências. Nunca há uma nova moda, um novo movimento literário, um novo sistema econômico. Realmente, com a vitória de um way of life sobre todos os outros, com a total uniformização da cultura humana, não haveria como surgirem novos movimentos literários, políticos ou econômicos. Ao consenso, segue-se à estagnação. Não é à toa que a Frota Estelar parece atrair os melhores talentos do planeta: para qualquer um com iniciativa, criatividade e liderança, morar nesse planeta estagnado deve ser um inferno.
Ao contrário do Pato Donald, Jornada nas Estrelas nunca fala em dinheiro, pobreza ou capitalismo e, por isso mesmo, é um instrumento ideológico tão poderoso. Já dizia Borges que o melhor modo de chamar atenção para uma palavra é nunca usando-a. Pois a grande apologia ao capitalismo no universo de Jornada nas Estrelas é que ele é um dado tão grande, tão aceito, tão inconstestável que, realmente, mencioná-lo para quê? Os valores da humanidade e, por extensão, os valores da Federação Unida de Planetas, capitaneada pela Terra e com capital em Paris (!), são os valores ocidentais anglo-saxões.
E eu fico me perguntando: o que será que foi feito da cultura asiática, com valores completamente opostos? Terão os bilhões de chineses, japoneses e afins sido eliminados em massa ou simplesmente sofrido lavagem cerebral? O que terá acontecido com a cultura latino-americana, também completamente alheia aos valores de Picard & Janeway? Meu deus, eu me pergunto, com uma última fagulha de esperança, será que os parienses, pelo menos eles!, torcem o nariz pra Federação e fazem passeatas e piquetes na porta da sua sede? Seria, no mínimo, um consolo.
Mas nem isso.
De certo modo, ainda consigo assistir à série clássica. Os valores, as regras, a ideologia da Federação já são os mesmos que na época de Picard, cem anos depois, mas Kirk é tão abertamente egocêntrico e rebelde que ainda podemos sentir uma esperança. Sim, existem regras sufocantes e universalizantes, mas também é possível chegar ao topo cagando pra elas e fazendo o que bem se entende. Além disso, se pode existir um russo na ponte de comando falando com fortíssimo sotaque (a pior coisa de ver Jornada das Estrelas dublado em português é perder o sotaque de Chekov) e sustentando que tudo foi inventado na Rússia, bem, significa que pelo menos um pouco de "História" deve ter restado. Ainda existem conflitos, rivalidades nacionais, orgulho, patriotismo.
Na época de Picard, entretanto, parece que já não sobrou nada do iconoclasta espírito de fronteira que animava Kirk. As regras são antigas, todos cresceram rodeados por elas e não são mais questionadas. Picard é politicamente correto do começo ao fim, o perfeito manager. Não é a toa que existem livros de business sobre o "jeito de liderar de Picard". Se eu fosse acionista, também gostaria que meu CEO fosse como Picard e minha empresa, como a Enterprise.
Gene Roddenbery conseguiu a façanha de transformar um programa de ficção científica, normalmente um excelente veículo pra críticas sociais alegóricas, em uma série profundamente conservadora. Para entender a diferença basta assistir Babylon 5, de J. Michael Straczynski ou Firefly, seriado precocemente cancelado de Joss Whedon. Ou então assistam o magnífico Battlestar Galactica, hoje na terceira temporada. (Apesar de o Nemo achar direitista; eu discordo.)
* * *
Então, de certo modo, se isso significa ter me tornado ainda mais crítico do capitalismo, sim, estou mais à esquerda do que quando saí. Além disso, agora apóio as cotas. Enfim, estou quase tão marxista quanto Trotski ou Che Guevara.
Mas essa não foi a minha única mudança ideológica.
(Amanhã, contra o politicamente correto...)
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Demorei um mês e meio pra escrever esse texto, longo, passional, confessional. Será publicado em nove partes. Abaixo, um pequeno índice. Para facilitar a consulta, irei adicionando os links a medida que os posts forem ao ar.
Série Mudanças Ideológicas
Contra o Capitalismo
1. As Certezas dos Americanos (Seg, 12 Fev)
2. A Ideologia da Arte: Pato Donald e Jornada nas Estrelas (Ter, 13 Fev)
Contra o Politicamente Correto
3. A Sistematização Compulsória do Bom-Senso (Qua, 14 Fev)
4. As Opiniões Ilegais (Qui, 15 Fev)
5. O Desconforto Ilegal (Sex, 16 Fev) (meu aniversário!)
Contra o Apartheid Brasileiro
6. A Couraça da Insensibilidade Social (Seg, 26 Fev)
7. Crianças Mandando em Adultos (Ter, 27 Fev)
8. Antipatia Cidadã vs Simpatia Servil (Qua, 28 Fev)
9. Gente que Sabe o seu Lugar (Qui, 1 Mar)
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