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Contra o Capitalismo (Mudanças Ideológicas, 1 de 9)
As Certezas dos Americanos
Algumas pessoas andaram dizendo que virei de esquerda depois que fui pros Estados Unidos. Achei interessante o comentário. Realmente, depois de dois anos na terra do Tio Sam, já pude começar a ver algumas mudanças ideológicas em mim, especialmente em relação ao capitalismo, ao politicamente correto e à desigualdade brasileira. Nos próximos dias, vou postar algumas de minhas novas opiniões sobre esses assuntos.
Pra começar, eu sempre vi com simpatia o American Dream e o capitalismo de modo geral. Agora, me parecem cada vez mais ridículos. Vejam bem, eu ainda acho que a democracia, o capitalismo e o livre-mercado são as melhores coisas que a humanidade inventou pra se auto-organizar política e economicamente. Passamos os últimos dois séculos testando umas teorias novas que inventaram por aí e só foi tragédia em cima de tragédia. Mas nada disso quer dizer que esses sistemas são perfeitos. Pelo contrário, são inerentemente falhos e precisam de vigilância constante, governos racionais, checks and balances, etc. Capitalismo é muito bonito quando regulamentado. Se largado livre, voltaríamos às jornadas de trabalho de 22 horas diárias, pra não falar em escravidão e outras coisas menos salutares.
Dito isso, apesar de eu ver o capitalismo com simpatia, a fé ingênua, completa e irredutível dos americanos no capitalismo me fez perceber o quanto essa ideologia tem de má-fé, lavagem cerebral e hipocrisia.
As pessoas que acreditam nisso são boas, trabalhadoras, honestas. Elas conseguiram seus SUVs e suas casinhas de cerca branca no subúrbio respeitando a lei, sendo honestos e trabalhando duro. O problema é, indutivamente, querer expandir isso pra humanidade inteira e achar, sinceramente, que basta respeitar a lei, ser honesto e trabalhar duro para qualquer um, em qualquer lugar do mundo, ficar rico e próspero.
Só mesmo cidadãos do país mais rico e próspero do mundo podem dizer isso na cara dura, falando sério, sem hipocrisia, sem nem enrubescer. Qualquer um da favela do Rato Molhado conhece a história de algum tio Juvenal que trabalhou duro, foi honesto e respeitou a lei a vida toda - e morreu torturado por um PM neandertal que o confundiu com o Marcão Pau-de-Fogo, o dono da boca do morro.
O que esses ideólogos capitalistas de fim-de-semana teriam a dizer à sua viúva? Qual foi o erro do tio Juvenal - além de nascer na favela, claro? De que modo uma maior aplicação aos ideais capitalistas teria salvo sua vida e lhe permitido a prosperidade de uma casa com piscina? Será que não trabalhou duro o suficiente?
Todo mundo sabe que um salário mínimo, no Brasil, não dá pra nada. E, sempre que falam em aumentar o mínimo, vem algum economista dizer: não podemos aumentar o mínimo, com um mínimo maior, o país quebraria, se tornaria inviável, etc.
Naturalmente, é a mais pura verdade. Se o governo der uma canetada e instituir o mínimo de R$1.500 (um número que foi divulgado outro dia como sendo o salário mínimo real para quem mora sozinho numa grande cidade brasileira), no dia seguinte o país, economicamente falando, acaba. Puff.
O buraco, entretanto, é mais embaixo: se isso é verdade, e é, então o país JÁ é inviável. Como pode ser viável um país que só é "viável" se mantiver a maior parte da sua população vivendo em níveis subhumanos? Ele é inviável por definição. Se você considera que a única razão de ser de um Estado é garantir condições mínimas de vida à sua população, e se você considera que o Estado brasileiro, pra existir, pra não quebrar, tem que manter sua população em condições inumanas, então qual é a razão de ser desse Estado? Para que ele serve? Qual é a sua justificativa pra existir?
O mesmo vale para os Estados Unidos. Os americanos que sinceramente acreditam que exportar sua fórmula de democracia liberal, trabalho duro e capitalismo sério é a solução para a pobreza do mundo aparentemente ignoram que os EUA tem 5% da população do mundo e 50% da riqueza. É questão de simples aritmética. o padrão americano de vida e o seu nível de consumo simplesmente não são exportáveis. 5% das pessoas só desfrutam de 50% da riqueza porque 95% estão dividindo, aos trancos e barrancos, a outra metade. Os números, em si, são irrelevantes. Se forem 8% usufruindo 48% dos recursos ou 4% usufruindo de 60%, que diferença prática faz?
O que importa é que são poucos montados em cima de muito.
(Amanhã, arte e ideologia capitalista... Pato Donald... Jornada nas Estrelas...)
* * *
Demorei um mês e meio pra escrever esse texto, longo, passional, confessional. Será publicado em nove partes. Abaixo, um pequeno índice. Para facilitar a consulta, irei adicionando os links a medida que os posts forem ao ar.
Série Mudanças Ideológicas
Contra o Capitalismo
1. As Certezas dos Americanos (Seg, 12 Fev)
2. A Ideologia da Arte: Pato Donald e Jornada nas Estrelas (Ter, 13 Fev)
Contra o Politicamente Correto
3. A Sistematização Compulsória do Bom-Senso (Qua, 14 Fev)
4. As Opiniões Ilegais (Qui, 15 Fev)
5. O Desconforto Ilegal (Sex, 16 Fev) (meu aniversário!)
Contra o Apartheid Brasileiro
6. A Couraça da Insensibilidade Social (Seg, 26 Fev)
7. Crianças Mandando em Adultos (Ter, 27 Fev)
8. Antipatia Cidadã vs Simpatia Servil (Qua, 28 Fev)
9. Gente que Sabe o seu Lugar (Qui, 1 Mar)
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