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Tuesday, February 13, 2007

Contra o Capitalismo (Mudanças Ideológicas, 1 de 9)

As Certezas dos Americanos

Algumas pessoas andaram dizendo que virei de esquerda depois que fui pros Estados Unidos. Achei interessante o comentário. Realmente, depois de dois anos na terra do Tio Sam, já pude começar a ver algumas mudanças ideológicas em mim, especialmente em relação ao capitalismo, ao politicamente correto e à desigualdade brasileira. Nos próximos dias, vou postar algumas de minhas novas opiniões sobre esses assuntos.

Pra começar, eu sempre vi com simpatia o American Dream e o capitalismo de modo geral. Agora, me parecem cada vez mais ridículos. Vejam bem, eu ainda acho que a democracia, o capitalismo e o livre-mercado são as melhores coisas que a humanidade inventou pra se auto-organizar política e economicamente. Passamos os últimos dois séculos testando umas teorias novas que inventaram por aí e só foi tragédia em cima de tragédia. Mas nada disso quer dizer que esses sistemas são perfeitos. Pelo contrário, são inerentemente falhos e precisam de vigilância constante, governos racionais, checks and balances, etc. Capitalismo é muito bonito quando regulamentado. Se largado livre, voltaríamos às jornadas de trabalho de 22 horas diárias, pra não falar em escravidão e outras coisas menos salutares.

Dito isso, apesar de eu ver o capitalismo com simpatia, a fé ingênua, completa e irredutível dos americanos no capitalismo me fez perceber o quanto essa ideologia tem de má-fé, lavagem cerebral e hipocrisia.

As pessoas que acreditam nisso são boas, trabalhadoras, honestas. Elas conseguiram seus SUVs e suas casinhas de cerca branca no subúrbio respeitando a lei, sendo honestos e trabalhando duro. O problema é, indutivamente, querer expandir isso pra humanidade inteira e achar, sinceramente, que basta respeitar a lei, ser honesto e trabalhar duro para qualquer um, em qualquer lugar do mundo, ficar rico e próspero.

Só mesmo cidadãos do país mais rico e próspero do mundo podem dizer isso na cara dura, falando sério, sem hipocrisia, sem nem enrubescer. Qualquer um da favela do Rato Molhado conhece a história de algum tio Juvenal que trabalhou duro, foi honesto e respeitou a lei a vida toda - e morreu torturado por um PM neandertal que o confundiu com o Marcão Pau-de-Fogo, o dono da boca do morro.

O que esses ideólogos capitalistas de fim-de-semana teriam a dizer à sua viúva? Qual foi o erro do tio Juvenal - além de nascer na favela, claro? De que modo uma maior aplicação aos ideais capitalistas teria salvo sua vida e lhe permitido a prosperidade de uma casa com piscina? Será que não trabalhou duro o suficiente?

Todo mundo sabe que um salário mínimo, no Brasil, não dá pra nada. E, sempre que falam em aumentar o mínimo, vem algum economista dizer: não podemos aumentar o mínimo, com um mínimo maior, o país quebraria, se tornaria inviável, etc.

Naturalmente, é a mais pura verdade. Se o governo der uma canetada e instituir o mínimo de R$1.500 (um número que foi divulgado outro dia como sendo o salário mínimo real para quem mora sozinho numa grande cidade brasileira), no dia seguinte o país, economicamente falando, acaba. Puff.

O buraco, entretanto, é mais embaixo: se isso é verdade, e é, então o país é inviável. Como pode ser viável um país que só é "viável" se mantiver a maior parte da sua população vivendo em níveis subhumanos? Ele é inviável por definição. Se você considera que a única razão de ser de um Estado é garantir condições mínimas de vida à sua população, e se você considera que o Estado brasileiro, pra existir, pra não quebrar, tem que manter sua população em condições inumanas, então qual é a razão de ser desse Estado? Para que ele serve? Qual é a sua justificativa pra existir?

O mesmo vale para os Estados Unidos. Os americanos que sinceramente acreditam que exportar sua fórmula de democracia liberal, trabalho duro e capitalismo sério é a solução para a pobreza do mundo aparentemente ignoram que os EUA tem 5% da população do mundo e 50% da riqueza. É questão de simples aritmética. o padrão americano de vida e o seu nível de consumo simplesmente não são exportáveis. 5% das pessoas só desfrutam de 50% da riqueza porque 95% estão dividindo, aos trancos e barrancos, a outra metade. Os números, em si, são irrelevantes. Se forem 8% usufruindo 48% dos recursos ou 4% usufruindo de 60%, que diferença prática faz?

O que importa é que são poucos montados em cima de muito.

(Amanhã, arte e ideologia capitalista... Pato Donald... Jornada nas Estrelas...)

* * *

Demorei um mês e meio pra escrever esse texto, longo, passional, confessional. Será publicado em nove partes. Abaixo, um pequeno índice. Para facilitar a consulta, irei adicionando os links a medida que os posts forem ao ar.

Série Mudanças Ideológicas
Contra o Capitalismo
1. As Certezas dos Americanos (Seg, 12 Fev)
2. A Ideologia da Arte: Pato Donald e Jornada nas Estrelas (Ter, 13 Fev)


Contra o Politicamente Correto
3. A Sistematização Compulsória do Bom-Senso (Qua, 14 Fev)
4. As Opiniões Ilegais (Qui, 15 Fev)
5. O Desconforto Ilegal (Sex, 16 Fev)
(meu aniversário!)

Contra o Apartheid Brasileiro
6. A Couraça da Insensibilidade Social (Seg, 26 Fev)
7. Crianças Mandando em Adultos (Ter, 27 Fev)
8. Antipatia Cidadã vs Simpatia Servil (Qua, 28 Fev)
9. Gente que Sabe o seu Lugar (Qui, 1 Mar)

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Meu caro "Antimônio divino"

Ser politicamente correto é acreditar:
1) ... na liberdade como maior bem ao qual o ser humano pode ter acesso. (balela)
2) ... que devemos diferenciar as pessoas conforme suas qualidades e desta forma graduar sua condição social. (balela)
3) ... que Deus é bom,(monoteístas), os deuses são bons, (politeístas), o acaso é bom, (ateístas) etc... (balela)
4) ... que devemos respeitar o direito que cada ser humano tem em sua privacidade, ao seu pensamento não expresso, enfim a sua liberdade de consciência. (balela)
5) ... nas pessoas que se desapegaram de todos os bens materiais e vivem uma vida de ascetismo como se elas, por isso, fossem iluminadas. (balela)
6) ... que os efeitos geraram as causas apenas porquê aqueles realimentam estas. (balela)
7) ... que somos intrinsicamente bons. (balela)
 
Eu não simpatizo com o capitalismo de maneira alguma.

Simpatizo com pessoas que são capazes de observar a realidade à sua volta e revoltar-se com as injustiças reais. Eu acho que você foi capaz de fazer isso.

ps: a parte do salário mínimo foi especialmente interessante. Só posso acrescentar que, além do salário individual, também é possível o "salário social" composto por investimentos em saúde, educação, moradia, alimentação e transporte. Não conheço bem a pesquisa sobre esse "salário mínimo ideal" do DIEESE, mas imagino que ele inclui despesas que poderiam, e deveriam, ser "socializadas", mas não o são, ou são imperfeitamente (por causa de baixos investimentos e corrupção).

abraços
 

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