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Tuesday, February 27, 2007
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Contra o Apartheid Brasileiro (Mudanças Ideológicas, 6 de 9)A Couraça da Insensibilidade Social
Minha ex-mulher é de uma pequena cidade no interior da Amazônia. Não é uma cidade rica, naturalmente, mas também não é uma cidade pobre. Havia pobreza, mas não havia miséria. Não se via mendigos dormindo nas ruas.
Quando ela foi morar comigo no Rio de Janeiro, eu acompanhei um dos processos mais tristes que já vi: o gradual endurecimento do seu coração.
À princípio, cada mendigo, cada criança de rua lhe partia o coração de uma forma tão real, tão forte que eu não conseguia nem compreender. Ela queria sair do carro, ajudar, fazer qualquer coisa. Algumas vezes, ela queria só chorar.
Eu? Eu sou carioca de nascença. Se cada mendigo ou criança de rua me partisse o coração, eu não tinha chegado aos 8 anos. De certo modo, os miseráveis eram tão parte do meu meio ambiente quanto a chuva das duas da tarde do dela.
Cariocas e paulistas vão entender bem do que estou falando. É quase que uma loteria filantrópica: ignoramos uma grande porcentagem dos miseráveis, mendigos, crianças de rua; desviamos o olhar, mentimos não ter trocado, alegamos ter dado no escritório. Então, de vez em quando, seja porque estamos nos sentindo generosos, seja porque o pedinte apertou algum de nossos botões, abrimos o bolso e damos alguma coisa. Não há outra solução que não esse cruel meio-termo. Poucos têm o coração duro ao ponto de negar sempre; e quem dá sempre não chega até o fim do quarteirão com dinheiro na carteira.
Gradualmente, minha ex-mulher criou uma couraça de insensibilidade social, a mesma que todos os cariocas e paulistas usam pra poder ir daqui até ali sem sofrer um colapso de empatia. Esse triste processo, por um lado, sublinhou a minha própria dolorosa insensibilidade. A gente não sabe que é insensível até se comparar a alguém realmente sensível. E, por outro, como foi duro ver aquela sensibilidade tão linda, tão humana, tão invejável, sendo lentamente coberta, soterrada, superada! Nunca amei tanto minha ex-mulher como naqueles momentos em que a simples visão de uma criança de rua era suficiente para quase levá-la às lágrimas.
E sabe por quê? Porque é. Porque uma única criança vivendo nas ruas já deveria ser suficiente pra fazer qualquer um chorar, pra fazer qualquer um levantar a bunda da cadeira e tomar uma atitude. Assim como eu chorei muito pelo menino arrastado pelo cinto de segurança, que era só um, por que o destino único daquele moleque encardido no sinal já não nos comove mais? Uma tragédia se soma a outra: a tragédia da miséria é terrível, assim como é terrível que nós, os privilegiados, tenhamos que, de algum grau, sublimar essa tragédia para podermos funcionar como seres humanos.
A graça é que não consigo mais. Perdi essa capacidade. Morei nos EUA por dois anos e a minha couraça, cuidadosamente construída ao longo de 31 anos, se desfez. Não tem como uma infância ter sido mais escravocrata do que a minha. Nos bons tempos, minha casa tinha dez empregados fixos, entre copeira, jardineiro, piscineiro, costureira, etc etc. Eu ia pra escola de motorista todos os dias. Só fui lavar prato e fazer minha cama quando comecei a morar sozinho. Minha couraça era das mais fortes. E puff. Acabou-se.
De certo modo, sinto falta da minha couraça. Sem ela, voltar ao Rio dói. Me dói a saudade da minha cidade querida e, agora, me dói mais ainda a realidade da minha cidade fudida. Coisas que eu nem via, coisas que faziam parte da paisagem, coisas que eu pensava que "o mundo é assim mesmo" ou que eram responsabilidade de outras pessoas resolver, essas coisas agora cortam de um jeito desagradável, profundo, inesperado.
Fui preparado para muita coisa ao longo da vida, pra ser empresário e homem de negócios, pra ser intelectual e escritor, mas nunca ninguém me preparou para ter, subitamente, uma porra duma consciência social. E agora, o que eu faço? Largo tudo e entro pra um mosteiro (ou pra uma ONG)? Me filio ao PT? Aproveito a viagem à Cuba e fico por lá mesmo, como voluntário da Revolução?
Na falta do que fazer, só sabendo fazer direito uma coisa, e nem essa lá muito bem, estou escrevendo um romance sobre empregadas domésticas, um tema bem político e bem social, bem brasileiro e bem doloroso, que sempre me interessou, sobre essas pessoas invisíveis que não são nem funcionários nem familiares, mulheres que não podem ser femininas, meninos que são criados "como se fossem filhos" mas que, na hora de ir pra Europa, ficam limpando a piscina, meninas que deveriam estar na escola e passam o dia lavando o chão e ainda servem de passivas cabritinhas para a iniciação sexual dos mancebos.
Vocês conhecem essas histórias todas. Aliás, o problema é esse. A gente conhece as histórias tão bem que já não mais as enxergamos. São como o mendigo da esquina. Invisíveis.
* * *
Belo, sincero e cruel comentário da leitora Renata:
Essa coisa sa couraça é mesmo muito triste. É uma grande verdade e, para mim, muita ironia me deparar com esse texto justo agora. Liguei o computador ao chegar em casa e, no caminho para cá, havia parado num sinal, onde aqueles menininhos de rua ficam fazendo malabarismo com bolinhas. Hoje aconteceu deles pararam na minha janela e me pedirem dinheiro, Eu menti que não tinha nada. Dois ficaram grudados no meu vidro até o sinal abrir, um deles me pediu uma fralda para o irmãozinho dele, que estava no colo de uma mulher ali perto. Eu tinha fralda, pois estava com minha filha no carro. Mas ignorei, pois jamais abro a janela do carro nos sinais, morro de medo.
Agora, lendo esse texto, fiquei com pena não só desses meninos, cujo destino nós podemos bem imaginar qual será, mas de mim mesma. É duro perceber essa couraça a que vc se refere. O que será de nossos filhos? (Amanhã, crianças mandando em adultos...)
* * *
Demorei um mês e meio pra escrever esse texto, longo, passional, confessional. Será publicado em nove partes. Abaixo, um pequeno índice. Para facilitar a consulta, irei adicionando os links a medida que os posts forem ao ar.
Série Mudanças Ideológicas Contra o Capitalismo 1. As Certezas dos Americanos (Seg, 12 Fev) 2. A Ideologia da Arte: Pato Donald e Jornada nas Estrelas (Ter, 13 Fev)
Contra o Politicamente Correto 3. A Sistematização Compulsória do Bom-Senso (Qua, 14 Fev) 4. As Opiniões Ilegais (Qui, 15 Fev) 5. O Desconforto Ilegal (Sex, 16 Fev) (meu aniversário!)
Contra o Apartheid Brasileiro 6. A Couraça da Insensibilidade Social (Seg, 26 Fev) 7. Crianças Mandando em Adultos (Ter, 27 Fev) 8. Antipatia Cidadã vs Simpatia Servil (Qua, 28 Fev) 9. Gente que Sabe o seu Lugar (Qui, 1 Mar)
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