Quer comprar no Submarino? Entre por aqui e eu ganho 8%.

Monday, January 29, 2007

Um Defeito de Cor, por Ana Maria Gonçalves

Casa de Las Américas

Um Defeito de Cor, por Ana Maria GonçalvesUm Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, acabou de ganhar o Casa de Las Américas, um dos mais prestigiados prêmios literários latino-americanos.

Não vi notícia disso em lugar nenhum. Soube pelo blog do Idelber, que deu link pra uma matéria enterrada nas profundezas do UOL. Por outro lado, poucos dias depois, um documentário sobre o Brasil (feito por um filho de brasileira) levou um prêmio do Sundance e saiu na primeira página de tudo quanto é site de notícias, portal, jornal. Durma-se com um barulho desses.

Dentro da Escravidão

Um Defeito de Cor é bom demais. Virei várias noites lendo. Demorei mais de um mês, simplesmente não queria que terminasse. Um dia, de manhã, fiz algo que nunca tinha feito: acordei e, antes mesmo de levantar, peguei o livro na cabeceira e comecei a ler.

E chorei, chorei aos borbotões. Talvez nem pelo livro ser tão dramático assim. Mas estudo escravidão porque aquelas cenas e situações me afetam muito. O trecho no navio negreiro, por exemplo, simplesmente acabou comigo. Eu, que já li trocentas descrições, papers e teses sobre a travessia atlântica, nunca tinha tido que encarar uma versão ficcionalizada de um tumbeiro. Tem coisas que só a ficção faz por você. A Ana me colocou lá dentro e eu chorei como nunca na vida. (Fiquei com o olho cheio d'água só de lembrar.) É por isso que eu escrevo ficção.
 Cânone Imperial, O FLAVIO R. KOTHE
Submundos do Século XIX

Escreveu Flavio Kothe, um dos meus críticos literários favoritos, no maravilhoso O Cânone Imperial:

Negro não tinha poesia, o preto poria toda a arte a perder se falasse feito crioulo. Sua "arte" não era arte: no máximo, seria arteirice. Sob a aparência de defendê-lo, a literatura abolicionista condenava-o mais uma vez. (...) O negro nem é considerado gente, não entra no enredo que conta. Não há amores de negros que mereçam (...) um conto, um romance, uma peça de teatro. Eles não são dignos de literatura; quando nela aparecem só refletem a falta de dignidade, exemplos da maldade da "natureza humana".
Depois de ler trocentos romances românticos brasileiros do século XIX, canônicos e não canônicos, a impressão que fica é que, realmente, os negros não eram capazes de grandes amores, grandes dores, grandes sentimentos que gerassem grandes histórias. As aventuras são sempre dos heróicos galãs brancos e das doces sinházinhas alvas, se encontrando nos bailes da corte e morrendo de amores, e cercados por escravos e escravos que mais parecem autômatos, ou figuras de papelão. Moreninha, A JOAQUIM MANUEL DE MACEDO

Ler o romance da Ana, acompanhar as andanças de Kahide pela Rua do Ouvidor e pelo Pelourinho, se imiscuindo no submundo secreto dos negros, de alianças, sociedades e irmandades, vivendo, sofrendo, amando, morrendo, sendo protagonista de sua própria vida, a impressão que tenho é a de estar finalmente ouvindo o outro lado da história, o lado secreto, o lado escondido. É um pouco como reler A Moreninha só pra imaginar o que estavam conversando os escravos lá do fundo enquanto a ação corria cá na frente.

Dá vontade de voltar no tempo e dar Um Defeito de Cor pra José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo e Bernardo Guimarães lerem. Será que gostariam?

Empreendora do Século  Mauá: Empresário do Império JORGE CALDEIRA

A Ana vai acabar ficando rica com esse livro. Não por causa da sua qualidade literária, claro. Qualidade literária, ainda mais no Brasil, não enche o bolso de ninguém. Mas dando palestras em empresas, talvez ensinando literatura no IBMEC ou FGV, ou mesmo sendo patrocinada pelo SEBRAE.

Não conheço nenhum livro que exalte tanto o capitalismo, o livre-mercado, o valor da iniciativa. Esqueçam Mauá: o grande empreendedor brasileiro do século XIX foi uma negra liberta chamada Kahinde.

A triste constatação é que, até mesmo hoje em dia, talvez particularmente hoje em dia, a Ana ficaria mais rica se fizesse como Kahinde e fosse vender cookie na praça ou montar uma padaria, do que escrevendo romances magistrais como
Um Defeito de Cor.

O Ritmo de um Romance de Mil Páginas

Muita gente que leu o livro reclamou que é lento e tem longos trechos chatos. Devem ser as mesmas pessoas que vão à churrascaria rodízio e reclamam que só tem carne.

Ora bolas, não entendo essas coisas. Um romance histórico de mil páginas é um tipo bem específico de romance e demanda uma sintonia do público com suas características inerentes. A construção, ritmo, vocabulário, tudo, enfim, é completamente diferente desses romances nacionais curtinhos que estamos acostumados a ler. A impressão que tenho é que são raros os autores brasileiros que se aventuram além das 400 páginas. Quantos livros recentes vocês conseguem citar? Quase nenhum.

 Senhor dos Anéis J.R.R. TOLKIEN Se um conto é um beijo no escuro, então um romance de cem páginas é uma ficada longa e um romance de mil é um namoro. Não cabem trechos lentos em um beijo ou em uma ficada, mas em um namoro de dois meses eles são inevitáveis. Qualquer um enlouquece se mantiver por vários meses o ritmo de paixão alucinada dos primeiros dias.

Os trechos chatos são os períodos de relaxamento da trama. Aqueles longos trechos de cantoria de O Senhor dos Anéis, por exemplo, são chatinhos mas sem essas paradas para respirar, o ritmo intenso do romance seria insuportável.
Meu romance Mulher de Um Homem Só, de cerca de cem páginas, não poderia ser maior do que isso e foi escrito para ser lido de uma vez só - a voz narrativa é tão frenética e tensa que ninguém a suportaria por muito tempo. Mas ninguém pode ler Um Defeito de Cor de uma sentada: ele demanda um outro tipo de leitura.

Quem se aventura por um romance de mil páginas quer uma relação de longo prazo, quer um companheiro de jornada, quer um livro onde possa morar e mergulhar por semanas ou meses - não tensão constante e estridente.

Sim, eu também tive meus trechos menos preferidos. As primeiras cem páginas, quando Kahinde é criança, foram arrastadas. Escrever do ponto de vista de uma criança é muito complicado e sempre meio tedioso - vide O Caminho de Swann.

As últimas cem páginas também me pareceram anti-climáticas. Depois de nos afeiçoarmos a uma série de personagens brasileiros ao longo de centenas e centenas de páginas, a romance subitamente vai para a África e nos pede para esquecer os personagens que aprendemos a gostar e que nos afeiçoemos a um grupo totalmente novo de pessoas. Isso é difícil de fazer, para o autor, para o leitor e até para a personagem: nem a própria Kahinde consegue, pois continua fixada no filho que deixou no Brasil. Além disso, como muitos brasileiros e algo compreensivelmente, eu também fiquei mais interessado pelas partes que se passam na minha terra do que em lugares da África que nunca ouvi falar.

A grande diferença é que acho que nada disso prejudica o brilhantismo da obra. Não existe nem poderia existir romance de mil páginas frenético, sem trechos menos tensos, com períodos de relaxamento. Somente as 800 páginas centrais de
Um Defeito de Cor já são algumas das melhores escritas no Brasil nos últimos anos.

Identidade Racial no Brasil

Uma observação sociológica: agora que o livro saiu, algumas resenhas se referem a Ana como uma "autora afro-brasileira".

Aqui nos EUA, todo mundo sabe quem é negro: é aquele sujeito que não tem cara de leite. Ponto. Basta uma gotinha. Mas, no Brasil, as classificações são muito mais fluidas e contextuais. Muitas vezes, o mulato de terno e gravata e dirigindo um BMW é branco mas, na praia de sunga, é preto.

Não sei como a Ana se vê ou se identifica, mas a referência a ela como afrobrasileira me causou um certo estranhamento pois eu jamais a descreveria assim. E fico pensando: será que sou eu ou será que o fato de ter escrito um livro com uma protagonista negra fez com que as pessoas a vissem como negra também?

Um Defeito de Cor, por Ana Maria GonçalvesParadoxos da complexa questão de identidade racial no Brasil.

Agora, os Nossos Comerciais

O livro tem mil páginas e custa R$80 (R$63 no Submarino, com R$17 de desconto!) e eu queria que fosse menor e mais barato, só por um motivo. Pras pessoas comprarem mais, pra elas se darem o livro de presente, pra não terem medo de começar a ler. Eu sei que vou passar muitos anos recomendando esse livro pra qualquer um que queira entender de verdade, na carne a escravidão, mas sei que poucos vão encarar o preço e o tamanho.

Um livro assim deveria ter uma versão single, com um capítulo de amostra, por R$5. Depois, garanto que boa parte do povo comprava o director's cut.

Conselho de amigo: compre agora, antes que vire minissérie da Globo, e eles façam uma daquelas novas edições horrorosas, com a Taís de Araújo beijando o Lázaro Ramos na capa. Ah, eu odeio quando estragam algum dos meus clássicos preferidos assim: a cada vez que pego o livro, tenho que ver algum ator hollywoodiano vestindo ceroulas!

Comprando pelo Submarino e clicando aqui pelo blog, você economiza R$16 (já dá pra comprar duas entradas de cinema), remunera a Ana pelo seu trabalho, adquire um pusta romance e ainda dá uma comissãozinha pra esse blogueiro que te pilhou pra ler o livro. Todo mundo ganha.


Voltar para Liberal Libert‡rio Libertino

[Powered by Blogger]

8129 Panola St, New Orleans, LA, 70118, msn, tel, email

Ao me enviar email ou comentar no LLL, voc� est‡ automaticamente permitindo que eu publique sua mensagem no blog, inclusive com seu nome e endere�o. Pense bem.