Estou lendo Ao Vencedor, as Batatas, estudo clássico de Roberto Schwarz. O livro é ótimo e tem sacações maravilhosas, ainda mais para quem, como eu, está estudando o romance brasileiro do século XIX.
Basicamente, ele quer mostrar como a ideologia liberal, inerente à estrutura do romance europeu, está totalmente fora de compasso com a realidade clientelista, paternalista, retrógrada e escravagista brasileira. Essa tensão de opostos irreconciliáveis é o fator mais característico da nossa literatura da época, um nó que somente será desatado por Machado, ao conseguir articular com maestria e ironia esses extremos. Eu não poderia concordar mais.
Minha descrição, entretanto, faz o livro parecer um pouco melhor do que realmente é, pois eu escrevi o parágrafo acima em português não-marxista.
Na introdução à segunda parte, Schwarz diz que a inspiração para o livro surgiu durante seu grupo de estudos de O Capital, na USP, na década de 60, e que sua análise deve muito à Lukacs, Benjamin, Brecht e Adorno. Alguém consegue imaginar a quantidade de merda por palavra quadrada que devia ser dita em um grupo de estudo de O Capital, na USP, na década de 60?! Eu estremeço só de pensar.
O livro fala de ideologia a cada duas frases mas o pior é que, se você amarrar o autor no detector de mentiras, ele vai jurar sinceramente que ele, Adorno, Lukacs, etc, não têm nada a ver com ideologia. Ideologia são as idéias liberais de D.Pedro II e José de Alencar, esses fidaputas!
Repetindo sem crítica os interesses da sua classe, Alencar manifesta um fato crucial de nossa vida - a conciliação de clientelismo e ideologia liberal - ao mesmo tempo que lhe desconhece a natureza problemática, razão pela qual naufraga no conformismo do senso comum, de cuja falsidade as suas incoerências literárias são o sintoma. (49)
Em suma, o livro é bom, mas é muito duro ler um texto que usa, a cada três linhas, a expressão romance burguês. Que Camille Paglia me ajude!
UPDATE
Terminei o livro. Schwarz conseguiu me convencer de que Machado é mais foda do que eu pensava que era, enquanto que Flávio Kothe - que eu adoro - falhou em me convencer que Machado era um escritor menor.
Schwarz é um crítico brilhante e perceptivo, estragado por doses cavalares de marxismo na veia.
Saí de uma cidade que enlouquece por uma semana em fevereiro e fui cair no único outro lugar do mundo que também faz isso. (Não, Veneza não conta, ninguém enlouquece no carnaval de Veneza.)
O carnaval de Nova Orleans é chamado de Mardi Gras (literalmente, terça gorda). A cidade pára, ninguém trabalha, todo mundo fica doido e sai na rua pra fazer merda, beber, transar. Sounds familiar?
Branquelos reprimidos de todo o mundo anglo-saxão, onde fazer merda na rua dá cadeia, vêm fazer merda nas ruas daqui. E deixam seus dólares. Estamos precisando de dólares por aqui.
Esse ano, o Mardi Gras é histórico, pois simboliza a recuperação da cidade depois do furacão Katrina.
Alguns idiotas achavam que era anti-ético ou imoral a cidade gastar o que tem e o que não tem pra fazer o Mardi Gras quando muitos bairros ainda estão sem luz, a coleta de lixo não foi normalizada, os bondes não voltaram a funcionar, há 3 mil mortos e desaparecidos, etc.
Mas não entendem que New Orleans vive de turismo. Se não houver Mardi Gras, se a cidade não mostrar ao mundo que está novamente pronta pra ser linda, sensual e receptiva, ela vai estar cometendo suicídio. Em um ano, seria uma cidade fantasma.
Economicamente falando, sem o Mardi Gras, a cidade não teria como gerar riqueza suficiente pra reativar a luz, os bondes, a coleta de lixo, etc. E deixa eu dar um testemunho local: luz eu tenho, mas os bondes e a coleta de lixo regular fazem uma falta danada!
Hoje faz seis meses que evacuei de Nova Orleans. Parece que faz seis anos.
Ontem, minha amigona Renata me levou a uma festa brasileira no Faubourg Marigny, o bairro dos locais. Não tinha quase nenhum turista. Só a comunidade brazuca e simpatizantes. Algumas fotos pra vocês:
Belas pernas, mas, pelamordedeus, o que fizeram com a cara dela? Uma morenaça no palco. Deve haver alguma lei federal contra fazer ISSO com a bandeira.
Três amigas. Renata, amigona carioca que me levou na festa, a única outra brasileira no departamento de português. Uma lituana de belo sorriso cujo nome eu nunca lembro e que faz uma aula de português comigo. Joyce, tenista profissional de São Paulo, veio pra Nova Orleans com uma bolsa de tênis, mas seu departamento, apesar de ser número 10 no ranking universitário nacional, foi cortado na reestruturação da universidade. Pauleira.
Cada vez que eu passava perto, tinha um cara diferente secando essas meninas. Eu adoro tudo nessas fotos. Adoro seu sapato balançando no pezinho. Adoro a barriguinha da que está de pé e o jeito como ela segura a garrafa. E adoro a cara dos sujeitos, coitados.
Reparem que a moça sentada está cheia de colares no pescoço. Nas paradas de Nova Orleans, o pessoal joga esses colares pros foliões. Quanto mais colares você tem, mais paradas você foi. Ou seja, a quantidade de colares no seu pescoço é o grande símbolo de status do Mardi Gras.
E esse aqui é o campeão, o folião dos foliões. A fotógrafa fotografada. Reparem o que ela fez com os tornozelos.
Malucos fantasiados na rua. Os meus preferidos foram o cara de azul da primeira foto (isso é pra ser fantasia de quê?), e a mulher-coelho-zebra e o negão-do-afro-branco, da segunda foto. E, no meio da madrugada, passam esses dois malucos carregando duas cruzes pelo meio da rua, sabe-se lá pra quê. Vai ver pagando promessa porque seus burricos foram salvos pelo orixá.
Essas são só algumas fotos. O resto está aqui: Mardi Gras 2006!
Amanhã, vou passar o dia na rua de novo, pois é o ápice da festa. Toda a semana de celebrações é um crescendo até culminar no Mardi Gras, ou seja, Terça Gorda, amanhã.
Depois, é quarta-feira de cinzas e de volta ao trabalho.
A minha primeira impressão de New Orleans foi de ser um cidade sensual, sombria e decadente - but in a good way.
Agora, depois do Katrina, ainda se vê por todos os lados sinais de abandono e destruição, mas também de empenho e reconstrução.
Porta da Bayou Bagelry & Deli, uma loja de bagels abandonada na Claiborne Ave.
O cartaz diz que estão fechados por causa do furacão, mas que vão reabrir na terça - teoricamente, terça, 30 de agosto de 2005.
Por que ninguém voltou&&& Será que morreram&&& Ou se instalaram em algum lugar e acham que a loja de bagels não vale a pena voltar&&&
Reparem também no cartaz vermelho abaixo. O time de recuperação pós-furacão da Coca-Cola está oferecendo diversos planos de ajuda para seus varejistas afetados pelo Katrina.
Shoppingzinho de rua abandonado na Claiborne Ave.
Passei aqui porque era a única locadora mais ou menos perto da minha casa - uma milha, ou 1,6 km - mas todas as lojas estão fechadas. E todas em reconstrução.
Algum capitalista espertinho colocou um trailer da Domino's no estacionamento, com um cardápio supersimplificado - pizza grande de pepperoni a $10 e só.
Os operários das obras de todas as casas e lojas das redondezas estavam fazendo fila.
Aviso na porta de um banco Hibernia abandonado, na Claiborne Ave, avisando os cliente sobre o procedimento para terem acesso aos seus cofres inundados.
Ao lado, o graffitti é pra indicar que os pet rescuers passaram por ali.
Por fim, uma paisagem desoladora, também na Claiborne Ave.
Escritor que tem estilo já começa errado. Escritor não tem que ter estilo. Cada história, cada personagem, cada circunstância pede um estilo diferente. Ele não tem voz, quem tem voz é o personagem. E a voz de Bentinho é diferente da de Brás Cubas, assim como a voz de Riobaldo é diferente da de Augusto Matraga.
Ostentar listas de leitura é apenas reforçar a incoerência do Liberal - para usar um termo ameno. Aos olhos dos que têm cérebro na cabeça, em vez de torresmo, bastaram alguns frangalhos de textos e uma ligeira olhadela no blog para sentir-se invadido pela mais pura verdade: o blogueiro é um mentiroso, autor das maiores patranhas. Diria até que o Liberal possui a vocação da mentira. Vocação incompleta, já que só ludibria os lorpas incuráveis, os néscios que adoram ver coligidas lorotas e falsidades. E tudo exposto com um carinho minucioso. Como poderia nutrir outra opinião se ele conspira todo o tempo contra si mesmo?
O atualizador de pensamentos miúdos diz, por outras palavras, que as impressões das pessoas a seu respeito são desprezíveis, nem espetam ou corroem sua auto-estima, por isso, não vale a pena discutir, só ignorar as aleivosias do fundo de seu tabernáculo, onde ri às escancaras dos ?idiotas? (palavra dele) que lhe enviam palavras gentis como estas. O obsessivo colecionador de insignificâncias afirma que dá de ombros aos seus detratores, sendo hermético a críticas, mas não percebe a contradição em que desaba ao mentir assim. Se ele desdenhasse com sinceridade, nem se importasse com opiniões de desconhecidos, aquela lista de leitura jamais chegaria à apreciação dos leitores. Leria e transformaria o fruto do empenho em posts substanciais. Convenhamos, alguém que fosse assim impassível teria a vaidade imatura, enrijecida na fase embrionária, dispensando-se do trabalho de chocar internautas bundões com as dezenas de livros supostamente lidos. Morando num país onde o povo não lê, é sem trauma que vejo os espantos diante de tão dedicada incursão pelo mundo das idéias. Por me expressar deste modo, darei a entender que estou fazendo uso de ironia ? mas não é outra coisa.
Olha, Liberal, estou a par das suas pretensões literárias, até do livro de título muito infeliz que garatujou, apesar de estar privado da leitura (é que tempo me falta para as atividades tolas), então me julgo legítimo para alertá-lo. Se as centenas de livros que leu vorazmente entraram por um neurônio e saíram por outro, como o nível de seus textos sempre sugeriu, é sinal de algo errado. Ninguém, absolutamente ninguém, consegue descer tão baixo no medíocre se já travou contato com Eça, Machado, Camilo, ou outros escritores de igual ou maior envergadura literária. A elevação da qualidade é uma conseqüência fora de nosso controle, se temos algo no cachaço além do cabelo. O que ponho em dúvida é se houve de fato a leitura daqueles livros citados. Quanto à quantidade, julgo que é perfeitamente viável ler trinta livros em dois meses, contanto que se embrenhe num ritmo convulsivo e tenha uma ociosidade mais densa e prolongada que a vulgar massa. É o chamado ócio criativo, nas palavras de Domenico De Masi. Mas a prova cabal de sua conversa fiada está na forma e conteúdo dos posts que soterram o blog e deixam frágil o aço da paciência, a ponto de corrompê-lo de vez.
Por favor, não me acoime de internauta intransigente com um meio feito para deleitar paladares menos sofisticados, acostumados a digestões fáceis. Aposto que à imensa maioria nunca ocorreram tais suspeitas, que ditas, soam como obviedades. Estou apenas sendo sincero e piedoso, sem intenção de abalar perenemente a auto-estima do Liberal. Há uma aluvião de maneiras de aceitar, concordar, bajular e enganar, mas só uma de ser honesto: dizendo a verdade. Negar-lhe faria supor que ele não teria coragem de ouvi-la, e isso, a meu ver, é a suprema exprobação.
Ele escreve esses longos emails pensando que está fazendo pouco de mim, mas acho que está fazendo pouco é de si mesmo.
Sim, abandonei de vez a Guerra do Paraguai. Eu sabia que meu tesão por esse conflito maldito já tinha acabado. Decidi me dedicar à escravidão, por uma série de motivos.
O campo é vasto e multidisciplinar. Pode-se pular de literatura pra história pra sociologia pra antropologia. Pode-se estudar o passado, o presente e o futuro, a realidade, o discurso e a iconografia. Eu não me sentiria restrito a uma só disciplina.
A bibliografia essencial é quase toda nas três línguas que eu domino: espanhol, português e inglês. Eu adoraria, por exemplo, trabalhar com a Bíblia, que é meu livro predileto, ou com Turgenev, mas estou meio velhinho pra aprender grego, hebráico e russo.
O assunto é polêmico e vivo. Não é como escrever sobre romances românticos ou guerra cisplatina ou etnografia da tribo dos mnbatu. Escravidão é um tema controverso, politicamente carregado e que influencia nossas sociedades até hoje. Ainda é uma área na qual um bom trabalho acadêmico pode romper os limites da academia e causar impacto verdadeiro.
Apesar de ser um tema intrinsecamente brasileiro e poder ser utilizado para melhor compreender o Brasil (esse fetiche de brasileiro de ficar sempre querendo compreender o Brasil em detrimento de todo o resto), ele também é universal, um dos fenômenos mais interessantes, vastos e horripilantes da históra humana. Transcende nossas fronteirinhas nacionais e engloba o Humano com H maiúsculo.
Comprar esse livro foi tão importante pra mim que lembro até o preço: R$75.
Hoje, seis anos depois, o livro está R$189.
Será que a inflação do período foi mesmo tudo isso? Será que os livros de usabilidade subiram mais do que a inflação? Será que o aumento do preço é fruto do aumento da demanda? Será pura sem-vergonhice?
Você vive falano que a mesmice anda tomando conta da blogosfera brasileira ou que os melhores blogs andam devagar. E tem razão. Eu estou de saco cheio desse circulozinho de blogs meio de direita, meio em cima do muro. São uns quatro ou cinco e as pessoas parecem que só lêem isso: LLL, Alexandre Soares, De gustibus sei la o quê, Leite de Pato, Garganta de Fogo. E parece que todo blog que surge agora adota o mesmo jeitão. Tem que ser meio arrogante, blazé, ficar cagando na cabeça de todo mundo e principalmente dos próprios leitores, se não não faz sucesso. Fico até concordando com a Folha sobre o salto alto da "nova direita" brasileira.
Só não entendi uma coisa. Quer dizer então que blog pra ser bom tem que ser de esquerda? Dos citados, só o Soares Silva é de direita. Os outros, que eu saiba, nunca se definiram nem se alinharam. Isso é pra ser defeito?
O estilo que você descreveu é o do ASS. Segundo alguns, até mesmo meu - mas eu nego até a morte. Maldade mesmo é você juntar o Persegonha, o Yuri, o Cláudio e o Leo nesse saco de gatos. Eles são muito mais bem-comportados que isso.
Aliás, e o nome do blog do Cláudio e do Leo é De Gustibus Pluribus... Não. De Gustibus Alea Jacta.. Não... Ah, deixa pra lá.
Ausência Ornamentada: A Falta de Escravidão na Literatura Brasileira
Estou começando a compor o esqueleto da minha futura dissertação de doutorado. A coisa seria mais ou menos assim: Introdução
Toni Morrison chama de "ausência ornamentada" a falta de narrativas sobre a escravidão durante o século XIX nos Estados Unidos. Apesar de ser um tema que dominava o discurso político do país e o dia-a-dia de metade do país, a escravidão está estranhamente ausente da literatura.
No Brasil, acontece a mesma coisa. Por algum motivo, apesar de o assunto ter mobilizado intelectuais e políticos e gerado debates e polêmicos, a literatura parece que ignorou conscientemente o assunto.
Por quê?
1. Cecília Valdes e Sab: Dois Romances Cubanos sobre a Escravidão
Para servir de contrapartida à ausência brasileira, uma breve discussão sobre duas novelas cubanas sobre a escravidão, dois romances que pegam o touro pelos chifres, abordam diversas facetas e vão fundo: Sab e Cecilia Valdes.
Por que não se fez nada parecido no Brasil?
Nenhum dos livros mencionados abaixo é sobre a escravidão em si. Para localizarmos a escravidão na literatura brasileira, temos sempre que procurar pelos cantos.
2. A Escrava Isaura: Embranquecimento e Mulatice Nosso romance abolicionista por definição de abolicionista não tem nada. Pra começar, não é sobre a escravidão: é um romanção romântico no qual a escravidão é somente o obstáculo que separa mocinho da mocinha. Poderia ter sido qualquer outra coisa.
E não é um romance que ataca a escravidão. Ataca a escravidão de Isaura, por ser tão branca e cheirosa e prendada. Os outros escravos tinham mais é que ser escravos mesmo.
3. Machado de Assis: Comendo pelas bordas
Apesar de Machado ter se mantido conspicuamente ausente dos debates sobre a questão da escravidão e sobre questões de raça, dois contos seus são as únicas obras canônicas da literatura brasileira que de fato tratam sobre a escravidão.
Uma coisa é uma obra falar da escravidão, mesmo que em primeiro plano, como A Escrava Isaura, mas sem que a obra em si seja sobre os dramas intrínsecos à estrutura da escravidão.
Pai contra Mãe e Caso da Vara, dois curtíssimos contos, são o mais perto que a literatura canônica brasileira chega de pegar a escravidão pelos chifres. Mas é pouco.
Outras obras de Machado abordar outros aspectos da escravidão, como o escravo tiranizado por Brás Cubas que fico rico e compra seu próprio escravo para tiranizá-lo, ou o escravo sempre fiel e apaixonado de Iaiá Garcia.
4. Aluísio de Azevedo: O Mulato e O Cortiço Duas visões naturalistas sobre a escravidão.
5. A Carne e O Bom Crioulo: A Escravidão como Perversão Sexual Em A Carne, as orgias animalescas dos escravos ajudam a catalizar as crises de Lenita.
Em O Bom Crioulo, foram as práticas sexuais pervertidas da senzala que perderam para sempre o protagonista, transformando-o num pederasta.
6. Ursula e Vítimas-Algozes: Dois Romances Não-Canônicos sobre a Escravidão Como contraponto, resta dizer que existiram sim bons romances brasileiros sobre a escravidão, com protagonistas negros, e tratando do assunto sem tergiversações.
Mas esses romances sumiram. Não entraram no cânone. Não foram consagrados. Mal foram lidos. Não tiveram impacto nas gerações seguintes.
Por quê?
* * *
Por enquanto, é isso. Depois, vou refinando. O que acham? Alguém tem alguma sugestão?
Blogging has flipped traditional PR on its head. It used to be that ink begat buzz. Life was simple then: you sucked up to the Wall Street Journal, one of its reporters wrote about your product, and the buzz began. (...)
Nowadays buzz begets ink. Journalists no longer anticipate or create buzz--rather, they react to it: "Everyone is buzzing about FaceBook. There must be something to this, so I had better write a story about it." This role reversal has fried people's minds.
The latest development is that blogs beget buzz. Blogs have changed everything because they represent a cheap, effective podium for creating buzz on a massive scale.
Dois grandes livros africanos de língua portuguesa. Nação Crioula, de José Eduardo Agualusa, de Angola:
Fradique, aborrecido, perguntou-me o que é que eu sentia, tendo sido escrava, e sendo filha de uma escrava. O que é que eu lhe podia dizer? Se fosse hoje, ter-lhe-ia respondido com um provérbio crioulo da Serra Leoa, país que visitei recentemente: stone we dei botam wata, no say wen rain de cam, ou seja, uma pedra debaixo da água não sabe que está a chover.
Não obstante, chamou-lhe a atenção para a grande América onde há muito tempo já sabia que as pessoas não tinham tempo nem para coçar a cabeça, coisa que ele mesmo tivera a grata oportunidade de verificar in loco. Mas Carlos, com o que ele considerou o natural espavento da juventude, respondeu-lhe que aqui é Cabo Verde, muito longe da América, aqui nós é que mandamos no tempo.
Esse último também tem a melhor cena de estupro que já li.
Dois romances excelentes, especialmente pra quem nunca travou contato com a literatura lusófona africana, ambos em catálogo no Brasil.
Daqui a um ano, em fevereiro de 2007, eu vou ter que fazer o meu teste de mestrado. Pra isso, eu escolho cinco entre nove módulos temáticos. Cada módulo tem uma lista de leituras bastante puxada. O teste dura o dia todo.
Pra vocês sacarem o meu drama, aqui vão as listas de leituras dos cinco módulos que escolhi. Não esqueçam que meu mestrado é em espanhol e português.
Podem esperar ver todos, ou quase todos, na minha lista de leituras do próximo ano. Ou isso ou estarei de volta no Brasil dando aulas de inglês.
Reparem também que essa lista é em adição às leituras para as aulas (quase sempre um livro por aula) e para a tese.
Em negrito, os já lidos.
Colonial-19th Century Latin American Literature
1. Cristóbal Colón, "Diario del primer viaje", "Relación del tercer viaje"
2. Hernán Cortés, "Segunda carta-relación" (sensacional, ele é meu herói)
3. Alonso de Ercilla, La araucana
4. El Inca Garcilaso de la Vega, Comentarios reales de los Incas. [Primera parte: "Dedicatoria", "Proemio", "Advertencias", Lib. 1 (caps. 15-19), Lib. 2 (caps. 1-21, 27-28); Segunda parte: "Dedicatoria", "Prólogo", Lib. 1 (caps. 19-25, 36-37)]
5. Felipe Guaman Poma de Ayala, Nueva crónica y buen gobierno. ["Prólogos", "Cómo Dios ordenó la dicha historia", "Capítulo de los Incas", "Conquista"]
6. Sor Juana Inés de la Cruz, "Respuesta a Sor Filotea", "Loa al Divino Narciso", "Este que ves, engaño colorido", "En perseguirme, Mundo ¿qué interesas?", "Ovillejos".
7. Álvar Núñez Cabeza de Vaca, La relación que dio Álvar Núñez Cabeza de Vaca.
8. Carlos de Sigüenza y Góngora, Infortunios de Alonso Ramírez.
9. Francisco Javier de Clavijero, Historia antigua de México. [Historia: Lib. 1, 8-10; Disertaciones 1, 5, 6]
10. Gertrudis Gómez de Avellaneda, Sab
11. José Hernández, Martín Fierro
12. Juan Francisco Manzano, Autobiografía
13. Domingo Faustino Sarmiento, Facundo
14. Selección de poesía siglo XIX/modernista:
* Andrés Bello, "Alocución a la poesía", "Silva a la agricultura de la zona tórrida"
* Rubén Darío, "Lo fatal", "El cisne," "A Roosevelt"
* Esteban Echevarría, "La cautiva"
* José María Heredia, "Niágara"
* José Martí, "Versos sencillos I,IX"
* José Asunción Silva, "Nocturno"
15. Selección de prosa siglo XIX/modernista:
* Andrés Bello, "Discurso de la Universidad de Chile"
* Simón Bolívar, "Carta de Jamaica"
* Rubén Darío, "El rey burgués"
* Esteban Echevarría, "El matadero"
* Manuel González Prada, "La educación del indio"
* José Martí, "Nuestra América"
* Ricardo Palma, "Amor de madre"
* José Enrique Rodó, Ariel, capítulos III, V, VI
Latin American Literature 20th Century to the Present
1. José María Arguedas, Los ríos profundos
2. Roberto Arlt, Los siete locos/Los lanzallamas
3. Miguel Ángel Asturias, El señor presidente
4. Jorge Luis Borges, Ficciones
5. Alejo Carpentier, Los pasos perdidos
6. Diamela Eltit, Lumpérica
7. Gabriel García Márquez, Cien Años de soledad
8. Elena Garro, Los recuerdos del porvenir
9. Rigoberta Menchú, Me llamo Rigoberta Menchú y así me nació la conciencia
10. Manuel Puig, Traición de Rita Hayworth
11. José Eustasio Rivera, La vorágine
12. Juan Rulfo, Pedro Páramo
13. Selección de ensayo:
* Alejo Carpentier, "Prólogo" de El reino de este mundo
* Rosario Castellanos, "La mujer y su imagen"
* José Lezama Lima, "La curiosidad barroca," en La expresión americana
* José Carlos Mariátegui, "El problema del indio" y "El proceso de la literatura"
* Fernando Ortiz, "Del fenómeno social de la 'transculturación' y de su importancia en Cuba" en Contrapunteo cubano del tabaco y el azúcar.
* Octavio Paz, El laberinto de la soledad, cap. II "Máscaras mexicanas" y cap. IV "Los hijos de la Malinche"
* Ángel Rama, "Introducción" a Transculturación narrativa en América Latina
* Alfonso Reyes, "Visión de Anáhuac"
* Severo Sarduy, "El barroco y el neobarroco," en América Latina en su literatura
* José Vasconcelos, "Prólogo" y "El mestizaje" en La raza cósmica.
14. Selección de cuentos:
* Julio Cortázar, "Final del juego", "Continuidad de los parques," "La noche boca arriba."
* Rosario Ferré, "La muñeca menor"
* Felisberto Hernández, "El balcón"
* Silvina Ocampo, "La furia"
* Juan Carlos Onetti, "El infierno tan temido"
* Ricardo Piglia, "La loca y el relato del crimen"
* Virgilio Piñera, "El album", "El caso Acteón"
* Horacio Quiroga, "La gallina degollada", "Juan Darién"
* Augusto Roa Bastos, "Encuentro con el traidor"
* Juan Rulfo, "Es que somos pobres"
* Ana Lydia Vega, "Encancaranublado"
15. Selección de poesía:
* Jorge Luis Borges, "Poema de los dones, "Arte poética", "La noche cíclica"
* Ernesto Cardenal, "Hora 0," "Oración por Marilyn Monroe", "Salmo 5"
* Nicolás Guillén, "Canción del bongó," "Balada de los dos abuelos", "West Indies Ltd."
* Vicente Huidobro, "Arte poética", Altazor
* José Lezama Lima, "Noche insular: jardines invisibles", "Rapsodia para el mulo"
* Gabriela Mistral, "Decálogo del artista" "Sonetos de la muerte"
* Nancy Morejón, "Mujer negra," "Amo a mi amo"
* Pablo Neruda, "Poema XX", "Arte poética", "Walking Around", "Alturas de Macchu Picchu", "Oda a los calcetines", en Antología de la poesía hispanoamericana contemporánea, 1914-1987
* Eunice Odio, "En el bosque," "Aprisionada por la espuma", "Satchmo Liroforo"
* Luis Palés Matos, "Majestad negra", "Mulata-Antilla"
* Nicanor Parra, "Autorretrato", "Manifiesto", "Cartas del poeta que duerme en una silla."Alejandra Pizarnik, Los trabajos y las noches en Obras Completas, ed. Corregidor
* Alfonsina Storni, "Tú me quieres blanca", "Dolor," "A Eros"César Vallejo, "Los heraldos negros", "El pan nuestro", "XXVIII", "Hoy me gusta la vida mucho menos", "Un hombre pasa con un pan al hombro", "Masa", en Antología de la poesía hispanoamericana contemporánea, 1914-1987
Luso-Brazilian Literature to 1900
1. Luis de Camões. Os Lusíadas, Canto I
2. Pero Vaz Caminha. A Carta
3. Gregório de Matos. Epílogos, Senhora Dona Bahia, Descreve o que era realmente naquele tempo a Cidade da Bahia, À Cidade da Bahia, O poeta é condenado ao degredo em Angola, A uma crioula chamada Cipriana ou Supupema, A uma cunhã, em lingua brasileira
4. Padre Antonio Vieira. Sermão da Sexagésima, Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as da Holanda
5. Manuel Antônio de Almeida. Memórias de um sargento de milícias
6. Gonçalves Dias. Primeiros Cantos
7. Antonio de Castro Alves. O navio negreiro
8. Aluísio Azevedo. O Cortiço
9. Adolfo Caminha. Bom Crioulo
10. Eça de Quierós. O Crime do Padre Amaro
11. José de Alencar. Iracema
12. Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas
13. Machado de Assis. Dom Casmurro
14. Euclides da Cunha Os Sertões
Luso-Brazilian Literature 1900 to present
1. Lima Barreto. Triste Fim de Policarpo Quaresma
2. Oswald de Andrade, Poesia Pau-Brasil, Manifesto Antropófago
3. Mário de Andrade. Macunaíma
4. Rachel de Queiroz. As três meninas
5. Fernando Pessoa. Mensagem
6. Graciliano Ramos. Vidas Secas
7. João Guimarães Rosa. Grande Sertão Veredas
8. Lygia Fagundes Telles. As meninas
9. Clarice Lispector. A hora da estrela
10. José Saramago. A jangada de pedra
11. Mia Couto. Terra Sonâmbula
12. Lídia Jorge. A costa dos murmúrios
13. João Gilberto Noll. Hotel Atlântico
14. João Ubaldo Ribeiro. Viva o povo brasileiro
15. Paulo Lins. Cidade de Deus
16. Italo Moriconi. Os cem melhores poesias brasileiros do século
Cultural Studies
1. Arjun Appadurai. Disjuncture and Difference in the Global Cultural Economy. Modernity at Large: Cultural Dimensions of Globalization.
2. John Beverley. Our Rigoberta I, Rigoberta Menchú, Cultural Authority, and the Problem of Subaltern Agency and Hybrid or Binary On the Category of the People in Subaltern and Cultural Studies in Subalternity and Representation: Arguments in Cultural Theory
3. Homi Bhabha. DissemiNation: Time, narrative, and the margins of the Modern Nation in The Location of Culture
4. Pierre Bourdieu. The Field of Cultural Production, or: The Economic Field in Reverse in The Field of Cultural Production.
5. Antonio Candido. Literature and Underdevelopment in The Latin American Cultural Studies Reader
6. Jean Franco. Going Public: Reinhabiting the Private in On Edge: The Crisis of Contemporary Latin American Culture
7. Nestor García-Canclini. Culturas Híbridas: Estratégias para entrar y salir de la modernidad.
8. David Gies, Ed. The Cambridge Companion to Modern Spanish Culture. Cambridge: U of Cambridge Press, 1999.
9. Paul Gilroy. The Black Atlantic as a Counterculture of Modernity and Jewels Brought from Bondage: Black Music and the Politics of Authenticity in The Black Atlantic: Modernity and Double Consciousness
10. Helen Graham and Jo Labanyi. Eds. Spanish Cultural Studies. New York: Oxford University Press, 1995.
11. Frederic Jameson. Postmodernism or, the Cultural Logic of Late Capitalism in Postmodernism or, the Cultural Logic of Late Capitalism.
12. Stuart Hall. Cultural Studies and its Theoretical Legacies in Cultural Studies (Grossberg, Nelson, Treichler)
13. Neal Larsen. The Cultural Studies Movement and Latin America: An Overview, Transcultural/Subpolitical: Pitfalls of Hybridity and Brazilian Critical Theory and the Question of Cultural Studies in Reading North by South: On Latin American Literature, Culture, and Politics.
14. Jesús Martín-Barbero. De los medios a las mediaciones: Comunicación, cultura, hegemonía.
15. Carlos Monsiváis. De cómo vinieron los Estudios Culturales y a lo major se quedan in Revista Iberoamericana
16. Mary Louise Pratt. Imperial Eyes: Travel Writing and Transculturation
17. Antonio Corejo Polar. Mestizaje, Transculturation, Heterogeneity The Latin American Cultural Studies Reader
18. Angel Rama. Literature and Culture in The Latin American Cultural Studies Reader
19. Julio Ramos. "El reposo de los héroes: Poesía y guerra" Desencuentros de la modernidad en América Latina.
20. Roberto Fernandez Retamar. Caliban: Notes toward a Discussion of Our America in The Latin American Cultural Studies Reader
21. Nelly Richard. "Intersecting Latin America with Latin Americanism: Academic Knowledge, Theoretical Practice, and Cultural Criticism" in The Latin American Cultural Studies Reader
22. Silviano Santiago. Latin American Discourse: The Space In-Between in The Space In-Between
23. Beatriz Sarlo. "Cultural Studies and Literary Criticism at the Crossroads of Values" in Journal of Latin American Cultural Studies
24. Roberto Schwarz. Brazilian Culture: Nationalism by Elimination in The Latin American Cultural Studies Reader
25. George Yúdice. The Expediency of Culture and The Globalization of Culture and the New Civil Society in The Expediency of Culture
Entrei hoje no site do Unibanco e me deparei com o aviso abaixo:
Como sou um moço curioso, cliquei pra saber mais, e abri o pop-up abaixo. Cliquem para ver em tamanho maior e poder ler o texto:
Estava tudo indo muito bem, até o finalzinho, até a antipenúltima palavra: "seguindo o fluxo existente."
Fluxo?!, pergunta o usuário, que fluxo?
Nós, que trabalhamos com webdesign, usabilidade, arquitetura da informação e design da interação, falamos tanto de fluxo pra cá e fluxo pra lá que esquecemos que fora do nosso mundinho essa palavra quer dizer coisas bem diferentes.
Perguntei pra várias pessoas aleatórias no meu MSN qual era a primeira coisa que passava por suas cabeças quando eu falava de fluxo. As respostas incluíram coisas como fluxo contínuo, fluxo do trânsito, fluxo de caixa, até mesmo fluxo menstrual.
Nenhuma das quais faz sentido dentro do texto no site do Unibanco. Nesse caso específico, não é um erro com sérias repercussões, mas poderia ter.
Nunca é demais enfatizar: fale a linguagem do seu usuário. Se necessário, chame sua mãe pra revisar o texto. Se ela não entender, mude.
Eu tenho tanta gana de viver, tanta alegria, o tempo todo, que eu cada vez entendo menos as pessoas tristes.
Algumas me procuram, dividem suas tristezas por email e por MSN, e eu tento ajudar, tento quase que fazer uma chupeta do meu coração pro delas, mas a verdade é que não tem nada que eu possa fazer.
Minha grande dúvida é como conseguem acordar todos os dias, fazer seus trabalhos, amar quem amam, quando não vêem nenhum valor em si mesmas, quando não vêem nenhuma perspectiva em seus futuros, quando suas vidas não têm nenhum sabor.
Como salvá-las? Algumas dizem que minhas prisões lhes ajudaram e eu fico grato, pois minha sensação de impotência quando estou com elas é enlouquecedora.
Eu escreveria sobre pessoas assim, se tanta coisa já não tivesse sido escrita.
UPDATE
Só pra ficar claro: estou falando das pessoas neuroticamente depressivas, aquelas que sempre arrancam algo para se entristecer mesmo das situações mais felizes. O Leo, do Gustibus Etc, entendeu exatamente o que eu quis dizer.
Nada mais natural do que cairmos prostrados de tristeza quando há motivo. Errado é não se entregar à tristeza verdadeira. Ela tem que ser vivida tanto quanto a alegria. Tem que cumprir seu ciclo. Senão, não conseguimos nos livrar dela.
Tão ruim quanto as pessoas sempre tristes são aquelas sempre felizes, meio idiotizadas, in complete denial, que nunca conseguem enxergar seus problemas, que nunca compreendem a gravidade da situação.
Tudo o que eu tenho a dizer sobre tristeza foi dito pelo genial autor do Livro de Samuel:
E o SENHOR feriu a criança que a mulher de Urias dera à luz a Davi; e a criança adoeceu gravemente. Buscou Davi a Deus pela criança; jejuou Davi e, vindo, passou a noite prostrado em terra. Então, os anciãos da sua casa se achegaram a ele, para o levantar da terra; porém ele não quis e não comeu com eles. Ao sétimo dia, morreu a criança; e temiam os servos de Davi informá-lo de que a criança era morta, porque diziam: Eis que, estando a criança ainda viva, lhe falávamos, porém não dava ouvidos à nossa voz; como, pois, lhe diremos que a criança é morta? Porque mais se afligirá. Viu, porém, Davi que seus servos cochichavam uns com os outros e entendeu que a criança era morta, pelo que disse aos seus servos: É morta a criança? Eles responderam: Morreu.
Então, Davi se levantou da terra; lavou-se, ungiu-se, mudou de vestes, entrou na Casa do SENHOR e adorou; depois, veio para sua casa e pediu pão; puseram-no diante dele, e ele comeu. Disseram-lhe seus servos: Que é isto que fizeste? Pela criança viva jejuaste e choraste; porém, depois que ela morreu, te levantaste e comeste pão. Respondeu ele: Vivendo ainda a criança, jejuei e chorei, porque dizia: Quem sabe se o SENHOR se compadecerá de mim, e continuará viva a criança? Porém, agora que é morta, por que jejuaria eu? Poderei eu fazê-la voltar? Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim.
O importante não é se ele está certo ou não. O importante é perceber que o homem foi linchado e agora expulso por ter tocado em um assunto tabu.
Ninguém se preocupou em analisar se a afirmação dele era cientificamente correta ou não. Se fosse cientificamente comprovável, talvez fosse ainda pior pra ele. Mas era incômoda, ofensiva, tabu.
A última foto quase custou a minha vida e a do Oliver. Escrevi um post sobre isso. Sumiu durante os problemas técnicos do sábado. E saco pra escrever tudo de novo?
Pär Lagerkvist (1891-1974), ganhador do Nobel de Literatura de 1951, é talvez o maior escritor sueco do século XX.
Meu interesse por ele começou fortuitamente. Vi um de seus romances em uma lista da Folha sobre os melhores romances do século. Achei o título interessante, O Anão, corri atrás, gostei da premissa, encontrei em um sebo, li e me apaixonei. Mas um bom livro pode ser coincidência. Semana passada, encontrei sua outra obra-prima, Barrabás. Li. Não era coincidência. Pär Lagerkvist é mesmo um grande autor.
O Anão (1945)
O anão Picolino é o bobo da corte de um príncipe italiano da Renascença. Por um lado, seu trabalho é puxar o saco, agradar e divertir os nobres. Por outro, Picolino tem um verdadeiro ódio por todos eles, um desprezo quase que do tamanho do mundo. Pouco a pouco, ele vai se imiscuindo das politicagens da corte, tendo cada vez mais e mais oportunidades de exercer seu sadismo, vingando-se de quem o faz de monstro.
Pela originalidade do tema e maestria na execução, O Anão é uma das melhores obras sobre o Mal, a inveja e o desprezo.
Conversando com a princesa, convertida ao catolicismo depois de uma vida de libertinagens, o anão diz:
"Then she asked me what I thought of her. I said that I considered her a voluptuous woman and that I was sure that she was one of those who are destined to burn for all enernity in the fires of hell. (...) It was natural that the Savior should not listen to her prayers. He had not been crucified for the redemption of such as she."
Não é uma pessoa adorável?
Barrabás (1950)
Em comum com O Anão, Barrabás também tem uma premissa original soberbamente executada.
Após ser libertado pela multidão, Barrabás começa a ficar obcecado por esse tal de Jesus, vulgo o Cristo, que morreu por ele. Todos os cristãos afirmam que Jesus, de fato, morreu por todos nós, mas Barrabás, ladrão e assassino, sabe que, de fato, bem concretamente, Jesus morreu por ele.
Atraído pelo seu salvador, Barrabás busca entender melhor o cristianismo e os cristãos e, também, o seu lugar nesse mundo. Barrabás quer crer, mas não consegue.
Para alguns, romance cristão moralista; para outros, romance existencialista. Não sei qual é a ideologia. Sei que a jornada existencial de Barrabás foi um dos livros mais instigantes que li esse ano.
Uma vez lidas as obras-primas, resta caçar mais livros do autor. Tomara que não seja tudo anti-clímax.
* * *
(postado em setembro de 2005)
Primeiro, eu li The Dwarf, e ficou claro que estava lidando com um autor de enorme talento. Depois, li Barrabás e meu respeito só fez subir. Agora, depois de acabar de ler The Sybil, é forçoso admitir que Par Lagerkvist é um dos grandes autores de todos os tempos.
Naturalmente, no Brasil, ninguém sabe quem ele é, mas aqui nos Estados Unidos também não. Tremenda injustiça.
A Academia Sueca, num lapso, acabou dando a ele o Nobel de Literatura de 1951, o que deve ter feito muita gente boa concluir que ele não era escritor.
Recomendo com todas minhas forças. Difícil vai ser encontrar.
* * *
(postado hoje)
Acabei de ler, em um só dia, Herod and Mariamne e Pilgrim at Sea. Sensacionais. O homem é um dos maiores autores de todos os tempos. Chega a ser insulto ele ser recipiente de um prêmio que até a besta quadrada do Saramago ganhou.
Cara, sinceramente, eu gosto do seu blog, mas o número de problemas que ele dá é tão grande que é um pedido para o leitor ir embora. Ele não abre no Internet Explorer (mesmo depois de toda a página ser baixada), ele só fica direito no Firefox depois de todas as figuras serem baixadas (uso 800 x 600 de resolução), as fotos não abrem e os comentários também não.
Eu fico imaginando que tipo de script absurdo você colocou no código, para dar esses problemas todos. Qual o problema com designs simples, com informação clara sem muita pirotecnia?
Agradeço a todos os leitores que me informem de problemas assim.
Não sei de nada disso, não sei nem que script poderia ser. Os scripts que existem são das banners, do Submarino e do Google, e dos contadores. E quando o script do Nedstat enlouqueceu e começou a abrir pop-ups, eu limei o serviço.
Acho ridículo esses blogs cheios de firulas e pirotecnias, e tento manter o LLL o mais clean possível. Com algumas pequenas modificações, ainda uso o mesmo template gratuito do Blogger desde março de 2003 - e era o mais simples daquela época.
Desde virei nômade, eu vivo abrindo o LLL em computadores públicos, em tudo quanto é browser, e nunca vi problemas.
Alguém mais viu alguma coisa? E, mais importante, alguém tem sugestões?
Outra coisa: alguém sabe de algum código que eu possa inserir na página pra todos os links abrirem sempre em nova janela?
Todos os expatriados que conheço choram as dores das comidas saudosas. Eu não tenho essas coisas.
Acho que esse povo nostálgico não deve ter curiosidade culinária, só pode. Aqui tem tanta fruta, legume, corte de carne, queijo, pão e vinho sem similar no Brasil que acho que eu só iria sentir falta de jaboticaba, requeijão e pão francês depois de provar tudo.
Mas essa teoria não se aplica aos sabonetes. Tive que vir pros EUA pra me descobrir um sabonetólatra.
Bem, sim e não. A questão é que nos mercados e farmácias onde vou fazer compras, eles só têm aquelas marcas furrecas de sabonete, os Lux Luxo e Palmolive. Se eu conseguisse encontrar bons sabonetes tão facilmente quanto encontro bons queijos, vinhos e pães, eu não iria sentir falta do Phebo.
Passei pela Lush do French Quarter pra ver se tinha alguma coisa boa. Vocês talvez conheçam, tem uma no Rio, no BarraShopping, e outras lojas em São Paulo, Ribeirão Preto, Brasília e Belo Horizonte. Cheirei a loja toda e só teve um sabonete que me atraiu.
Fui ler a embalagem e morri de rir: era um sabonete à la brasileira. Cliquem na imagem abaixo e leiam a etiqueta.
Depois, fui ver o preço e quase chorei. Cerca de R$160/kg. Desisti da compra e saí correndo.
Agora, em um supermercado natureba/orgânico (finalmente reabriu o Whole Foods de Nova Orleans), encontrei uns sabonetes apaixonantes da River Soap Company.
O que faz dele um mestre é sua filosofia libertária. Primavera Negra tem todo um capítulo sobre as delícias de mijar ao ar livre.
Os críticos (e a maioria esmagadora dos leitores) não entendem que Miller encarava a vida como um todo. Ele brincava dizendo que tinha três tipos de leitores: os que gostam da filosofia e reclamam das longas cenas de sexo, os que gostam das longas cenas de sexo e reclamam dos longos monólogos filósofos e, finalmente, os que entendem que é tudo uma coisa só, matéria da vida, em estado bruto, sexo, mijo e liberdade.
Como sempre, a minha regra de ouro é começar pelos clássicos. Então, recomendo que penetrem na obra de Miller através dos trópicos, Trópico de Capricórnio ou Trópico de Câncer, e depois encarem Primavera Negra. O resto, só depois de se viciarem.
Entretanto, o conselho nem sempre dá certo. Recebi hoje esse email do fiel leitor Marcio Hack:
"Muito obrigado por ter indicado o Henry Miller. Comecei a ler ontem o "Sexus"... Mas fiquei curioso - por que você não menciona esse livro entre os melhores dele? Tentei o "Trópico de Câncer" mas não consegui ir além da página três - melhora depois daí? Ao passo que do "Sexus" eu já gostei no primeiro parágrafo."
Todos são incríveis. On Writing é uma coletânea de trechos e artigos sobre a arte de escrever, e The Books in My Life é sobre os livros que mais o influenciaram e marcaram, e me indicou leituras excelentes. Estão na fila a trilogia Sexus, Nexus e Plexus (também conhecida como Rosy Crucifixion), Dias de Paz em Clichy e O Colosso de Marúsia. Pelo o que pude perceber sobre os livros da Rosy Crucifixion, de ler sobre eles e de folhear os meus exemplares, eles são bem parecidos, quase que uma continuação, no mesmo tom e estilo, dos Trópicos. Quase sempre, as pessoas preferem os Trópicos e só os fãs mais ferrenhos gostam de Sexus, Nexus e Plexus.
Mas, realmente, não li.
De qualquer modo, fica a dica do Márcio. Para quem não lê inglês, a Companhia das Letras acabou de lançar duas novas traduções, em ediões belíssimas, de Plexus e Sexus (acima, à direita).
Não é por não gostar, mas por tomar tempo demais. Era ou isso ou fazer como o Idelber e parar o blog.
O LLL, na verdade, não me toma tempo. As coisas que eu publico aqui eu escreveria de qualquer jeito. Eu já me desobriguei há meses de postar todo dia mas ainda não teve um dia em que eu não tivesse algo a dizer.
Já parei de ler blogs, especialmente por RSS. Já quase não respondo email. Agora, cortei MSN.
Quem quiser falar comigo algo específico, me manda um email me chamando, ou marca uma hora, e eu apareço.
Já que o Gustibus Etc (o melhor blog de nome ilembrável da blogoseira brasileira) contou a história dos dentistas cubanos que não podem sair de Cuba (eu nunca entendi porque precisa haver leis pra impedir as pessoas de sair do paraíso, mas enfim), deixa eu contar uma fofoca do Timor Leste, via ex-esposa:
Cuba enviou um grupo de médicos para ajudar na reconstrução do Timor. Os médicos, entretanto, ganham quase nada, 200 e poucos dólares por mês (e a maioria manda quase tudo pras famílias!), moram todos juntos em alojamentos no interiorzão mesmo, "lá onde Judas cagou e não limpou (palavras da ex), e são proibidos de comer fora, ir à festas e sociabilizar com os outros, de modo geral.
Pra comparar, a ex, com bolsa da CAPES, ganha 1.100 doletas por mês e ainda manda um pouco pra mim para acabar de pagar nossa conta do cartão de crédito.
Não deu outra. Um dos médicos desesperados atravessou a fronteira em plena selva fechada, entrou na Indonésia e pediu asilo, dando como justificativa as péssimas condições de vida no Timor. Parece que colou.
Em tempo: o custo de vida no Timor Leste, ao contrário do que possa parecer, é alto. Como o país foi quase que destruído pela guerra, eles precisam importar tudo, então qualquer coisinha é caríssima.
Nessa sexta, adaptei uma receita que a Paula Foschia deixou nos comentários, mas ao invés de peito de frango, que não tinha, usei lombinho de porco. Amassei o lombinho, recheei com queijo feta (um queijo grego maravilhoso que nunca vi no Brasil) e peito de peru temperado, fiz um rolinho, amarrei com uma tira de bacon e botei pra assar em um dedo de vinho branco. De acompanhamento, arroz branco e cenouras no vapor. (Tínhamos um convidado doente e o pobre homem só podia comer arroz branco e cenouras no vapor. Senão, teria sido algo mais interessante.)
No sábado, preparei uma carne moida com alho, cebola, tomate e azeitonas. A graça é que coloquei dois temperos bem brasileiros que aqui o pessoal quase não usa: folha de louro e cominho. Pra eles, ficou um gosto super exótico (caseiro pra mim): disseram que parecia carne de taco - taco é um prato mexicano, um pedaço enorme de Doritos recheado com carne, frango, queijo, etc, o que tiver na cozinha. Pra acompanhar, macarrão ao alho e óleo.
E ainda rolou sobremesa, um arroz doce que ficou simplesmente maravilhoso. Difícil foi encontrar uma receita sem leite condensado. Acabou sendo mais fácil do que eu imaginava: arroz, leite, açúcar, gemas de ovo e um pouquinho de cravo. Ficou perfeito. Da próxima vez, eu boto coco.
Sexta que vem começa tudo de novo. Estou aberto à sugestões.
* * *
Todo mundo que conhece os dotes culinários dos meus dois roommates diz que tenho sorte de morar com eles. Os dois passaram sábado o dia inteiro, das 9 às 5, fazendo raviólis. Eu admiro quem cozinha com tanto amor.
Reconheço: estou comendo bem.
Mas, quando é minha vez de cozinhar, a pressão é grande.
Acham que o conflito começa não quando elas te dão uma ordem que não têm direito de dar, mas quando você delicadamente aponta esse fato pra elas e cria "uma situação".
A pergunta é: "A qual temática se refere esse texto? Construa um comentário sobre a sua visão do texto."
A apostila foi elaborada pelo professor Lucas Rocha e será usada em nos cursinhos Atitude e Anglo-Salvador, em Salvador, e Acesso, em Feira de Santana, e no colégio Helyos, também em Feira.
Além de ter dado 10 ao meu trabalho sobre estratégia naval portuguesa na Índia no século XVI, ele também está irritando o povo da USP dizendo que a culpa das mazelas brasileiras é dos próprios brasileiros. Eu sei, deveria ser óbvio, mas ainda tem gente que defende teorias dependentes pelas quais nada nunca é culpa dos locais, sempre dos malvados estrangeiros, que esfregam as mãoes e riem assim: buáháhá.
Enfim, o Cláudio e o Leo reproduziram hoje uma entrevista linda que o Fragoso deu à Folha. Leiam, vale muito a pena.
O Fragoso e o Manolo (não é à toa que ambos já colaboraram bastante) são o que a UFRJ tem de melhor.
De vez em quando, bate aquela vontade de comer chocolate.
Nas farmácias e mercados dos EUA, você encontra tudo quanto é chocolate do tipo Mars, Snickers, KitKat, etc, aquelas barras pequenas e recheadas com milhares de coisas pastosas ou crocantes.
Mas as barras grandes de puro chocolate são um poucos mais difíceis de encontrar. Pra mim, chocolate é isso. Nestlé, nunca vi. A mais comum, da Hershey's, não tem gosto de nada.
Hoje, encontrei uma marca nova na Walgreens. Regal Dynasty. Imported chocolate. Introductory offer de 99 centavos por uma barra de 180g.
Comprei. Adorei.
E você, amigo leitor, se o estresse da vida contemporânea já não fritou seu cérebro, com certeza adivinhou de onde o tal Regal Dynasty é importado. Nada mais do que o nosso brasileiríssimo chocolate Garoto, fabricado no interior do Espírito Santo. A delícia de sempre.
Em 1993, fui com minha escola disputar uma competição em Montevideo, Uruguai. A coisa que mais chamou minha atenção no vôo de ida foi a quantidade de uruguaio voltando pra casa literalmente carregado de chocolate Garoto. Não era um, nem dois, mas muitos, e levando muito chocolate. Eu fiquei pensando: será que não tem chocolate no Uruguai, porra?
Talvez o mais engraçado do Regal Dynasty seja o fato de que só mudaram a embalagem. O chocolate em si vem com a logomarca da Garoto em alto relevo em cada quadradinho.
Moradores da Rocinha e arredores relatam ao GLOBO ONLINE os momentos de pânico durante a batalha do tráfico
E eu pensei, cá com meu mouse: será que alguém fala mesmo "sinto-me"? Nem se tivessem entrevistado um professor de português.
Fui ler a matéria e estava lá:
"Moro na rua Timóteo da Costa e não dormi à noite. Foi um tiroteio que parecia estar acontecendo dentro do meu prédio. Agora pela manhã presenciei o roubo de um carro e a fuga dos bandidos pela contramão. Não vou sair de casa hoje. Me sinto no Iraque", Haroldo B. de Carvalho Filho
Engraçado como o português dele muda entre a manchete e o texto da notícia, não é?
E a pessoa-que-acredita-em-coisas mais uma vez coloca sua mão sobre minha mão e afirma:
"Baseado na sua intuição, na sua fé. Você tem que *sentir*, no seu âmago, que eu estou falando a verdade."
"Pôxa", eu respondo, "a única coisa que estou sentindo é vontade de ir embora."
Na versão melhorada:
E a pessoa-que-acredita-em-coisas mais uma vez coloca sua mão sobre minha mão e afirma:
- "Baseado na sua intuição, na sua fé. Você tem que 'sentir', no seu âmago, que eu estou falando a verdade."
- "Pôxa" - eu respondo - "a única coisa que estou sentindo é vontade de ir embora."
O que passa pela cabeça desse melhorador impertinente? Que eu não estou familiarizado com inovações recentes como recuos, itálicos, aspas simples e travessões? Será que não imagina que se eu quisesse que a expressão pessoa-que-acredita-em coisas estivesse em itálico, já não estaria? Se eu quisesse travessões, eu não os teria usado?
Ele quadruplamente destacou os diálogos: com aspas, travessões, recuos e itálicos. Talk about overkill! Eu, em geral, não destaco os diálogos com nada e os misturo no texto, mas num texto com tantos diálogos como esse, eu ainda fiz o favor de colocá-los entre aspas. Aparentemente, não foi o bastante para o meu copidesque do mal.
Eu conheço esse tipo. É algum escravo da gramática, que leu trocentas regras em algum manual de jornal e agora acha que elas são a lei. Aí, vê um texto desses e pensa: coitadinho, o texto está até legal, mas ele não deve *saber* que diálogo é sempre com travessão, vou corrigir e ele vai inclusive ficar grato por eu ter melhorado seu trabalho. O pior é que são uns puros. Pedantes, mas puros.
Vocês me desculpem a irritação, mas mutilarem um texto assinado é ofensa muito pior do que plágio.
Se alguém lesse esse texto assinado por João Almeida, só o que aconteceria seria o João receber elogios (ou críticas) que deveriam ser meus. Eu não perderia nada, apenas deixaria de ganhar.
Mas quando alguém lê um texto assinado por mim, mas modificado a minha revelia, ele vai ficar com a impressão de que eu sou o tipo de gente que escreve diálogos em itálico, recuados, com travessões e aspas!
Pode ser distorção profissional, mas essa mera idéia me é totalmente intolerável.
Outro dia, eu vi alguém se referir à Asimov como um autor russo, e fiquei puto. O homem nasceu na Rússia mas seus pais emigraram pros EUA quando ele tinha dois anos de idade! A vida dele toda foi nos EUA! Esse homem não é russo.
Minha opinião pessoal, e o critério que uso para classificar autores na minha lista de leituras, é que quando um autor abandona a pátria A e vai morar na B, adotando as idiossincracias culturais da B e escrevendo sobre os temas da B, então ele é da pátria B.
Desse modo, eu considero Asimov e Ayn Rand americanos (apesar de nascidos na Rússia), Clarice Lispector brasileira (Ucrânia) e Conrad britânico (Polônia). Alguém conhece algum texto de Clarice sobre a Ucrânia? Ou de Conrad sobre a Polônia?
Por outro lado, muitos autores às vezes passam suas vidas inteiras no estrangeiro, mas nunca deixam de pertencer às suas pátrias de nascimento. Milan Kundera se mudou pra França e agora escreve em francês, mas continua sempre falando sobre a República Tcheca. Então, pra mim, ele é tcheco. Saer passou a vida toda na França mas sempre escrevendo em espanhol, sobre a Argentina. Era argentino.
Embora muita gente discorde violentamente dessa minha classficação, o que já causou brigas ocasionais, eu acho que todos os casos são patentemente óbvios. Só um autor me causa dúvidas.
Nabokov é russo ou americano?
Estranhamente, não vejo nele traços de nenhum dos dois, nem da Rússia onde nasceu e viveu por muito tempo (publicou seus primeiros livros em russo) nem dos EUA a pra onde emigrou e onde escreveu seus maiores romances, em inglês.
Nabokov, pra mim, é um continental, o que quer que isso signifique.
O Bia está vendendo os últimos cinco exemplares de Sexo Anal, o melhor romance brasileiro do século. Vão lá e comprem, essa primeira edição do autor um dia ainda vai valer ouro!
Muitos idiotas gostam de questionar minha lista de leituras, achando que ela é só pra impressionar. (Eu respondo que alguém que se impressione com uma lista de leituras é de fato um idiota.) Ocasionalmente, um leitor vem me perguntar de boa-fé se é mesmo possível ler isso tudo.
Acho que talvez o problema seja em interpretações diferentes de leitura. Nos primeiros 45 dias de 2006, eu já li quase 30 livros. Para alguém que trabalha 8h por dia e lê quinze minutinhos antes de dormir, quando já está exausto, com certeza parece impossível.
Acontece que sou *longo suspiro* estudante profissional. O povo aqui me paga pra estudar. Tenho três aulas, e cada uma exige algo como um a três livros por semana, pra não falar das leituras adicionais recomendadas e das leituras para minha tese e das minhas leituras por prazer. Eu só preciso estar na universidade dois dias por semana, por um total de 6 horas semanais. O resto do tempo eu tenho "livre": livre pra ler essa livraiada toda.
Então, quando eu acordo de manhã, as leituras do dia são, num sentido bem real, o meu trabalho.
Como eu disse, parece muito se você já trabalhou 8h por dia, acabou de comer e está sentando pra relaxar, mas não é tanto assim se você considera que meu trabalho hoje, pelo qual sou pago, é só isso.
* * *
Um outro leitor perguntou sobre algumas das convenções utilizadas. Comecei a anotar minhas leituras em 1996, há dez anos, e todas as convenções são dessa época.
Quando há só uma data é porque o livro foi lido em um dia só.
Quando há só uma data seguida de um tracinho é porque eu não acabei o livro, mas li o suficiente para saber do que se trata e poder falar sobre ele. Muitos livros que eu leio metade ou boa parte acabam não sendo listados por eu não achar que a parte lida me deu uma boa idéia do todo. Idem idem para todos os artigos e capítulos que leio.
O ano se refere, sempre que possível, ao ano em que a obra foi escrita, não necessariamente publicada.
O país se refere à pátria com o qual o autor mais se identificava culturalmente, não necessariamente ao país em que ele nasceu ou onde a obra foi publicada, e nem mesmo à lingua na qual foi escrita. Essa questão, aliás, é espinhosa, mais sobre isso depois.
A minha casa e a casa à minha esquerda pertencem à escola em frente (fotos acima). Agora, a escola está tentando comprar as outras casas do quarteirão pra poder derrubá-las e expandir.
A minha vizinha da direita está armada pra guerra e já disse que não vende. Na primeira vez que topei com ela, em menos de um minuto de conversa, ela já tinha contado toda a história da escola perversa.
Na primeira vez em que fui à escola pagar o aluguel, também no primeiro minuto de conversa, o diretor me contou a história toda da vizinha maluca que odeia a escola.
A escola já expandiu uma vez, para o quarteirão ao lado. Depois de comprar todas as casas, centenárias, derrubou-as e construiu o mega-ginásio que fica agora em frente à minha casa. Os vizinhos todos se mobilizaram, lutaram na Câmara Legislativa local e criaram até um site: Save These Houses, com as fotos e a histórias das casas que seriam demolidas. Perderam.
Agora, a luta é para impedir que a escola termine de comprar as casas desse quarteirão e derrube-as também.
Os moradores alegam que aceitaram abrigar um pequena escola privada e que, agora, a escola traiu a comunidade, derrubou casas, está crescendo cada vez mais e entupindo o trânsito.
A guerra continua.
Por enquanto, estou muito bem. O aluguel é simplesmente ridículo (a escola não vive disso, só aluga as casas pra ganhar umzinho enquanto não as derruba), a casa é muito confortável e ainda navego de graça no wireless fodão da escola. Perfeito.
Eu e meus roommates fazemos rodízio na cozinha. E eles cozinham muito. Planejam o calendário com antecedência. Começam a cozinhar já cedo. Todo mundo por aqui sabe que come-se bem na minha casa. Menos no meu dia, claro. Estou passando vergonha e desonrando o bom nome culinário do Brasil.
Já venho explorando todas as mulheres da minha vida (mãe, ex-mulher, namorada) e, agora, exploro até meus leitores.
Preciso de receitas gostosas, fáceis de fazer (por favor!) e com ingredientes encontráveis nos EUA ou facilmente substituíveis.
Aliás, preciso saber quais são os substituíveis. Ok, queijo parmesão vira pecorino ou asiago, requeijão vira cream cheese, mas e creme de leite? Leite condensado? Polvilho? etc
Preciso saber os nomes das ervas em inglês e português. Como é dill weed em português? Como é sálvia em inglês? etc.
HEEEELP!
Por falar em comida, depois de seis meses, comecei a sentir falta de uma coisa. Goiabada! Meu deus, tem geléia de tudo nessa terra, mas não tem de goiaba. Ai, que saudade de uma goiabada cascão de campos!
Cartunistas israelenses farão seu próprio concurso de cartuns anti-semitas: "Vamos mostrar ao mundo que nós podemos criar os melhores, mais incisivos e ofensivos cartoons anti-semitas jamais publicados. Nenhum iraniano vai ganhar da gente no nosso próprio terreno". (dica do Ricky)
Eu sempre adorei ouvir rádio o dia todo. É um veículo de possibilidades fascinantes. Agora, gosto mais ainda.
Pra começar, é o melhor jeito de manter contato com nossa terra. Sim, eu assisto o RJTV de vez em quando pela Globo.com e leio o Globo Online todo dia, mas não é uma coisa viva.
Minhas três rádios cariocas favoritas estão disponíveis pela web: Globo FM, Paradiso e MPB. Enquanto eu leio, escrevo ou fumo meu cachimbo, elas ficam tocando no fundo. Eu sei quando inunda a Praça da Bandeira, engarrafa o Joá ou tem show na praia de Copacabana, escuto os anúncios e promoções, conheço os novos lançamentos. Não há nada que crie mais a impressão de estar em casa. Jornal é global, mas rádio é local.
Por outro lado, ficar ouvindo essas rádios cariocas o tempo todo seria um comportamento extremamente obssessivo e patético, como viver aferrado ao passado, carregando o Rio nas costas por onde quer que eu vá. O Rio não é mais minha casa. É minha terra, no sentido de ser o lugar onde nasci e sempre vou amar, mas minha casa agora é Nova Orleans.
Se o Rio fez algo por mim, cidade maravilhosa, tolerante e cosmopolita, foi justamente permitir que eu more e me adapte em qualquer lugar, levando o Rio sempre no coração mas sem que essas memórias sejam um fardo ou um impedimento à minha adaptação.
Seguindo o mesmo raciocínio, ouvir as rádios locais é o melhor jeito de pegar o clima de qualquer cidade. Talvez o que mais fez com que eu já sentisse Nova Orleans como minha casa depois de somente duas semanas em agosto foi ter passado essas duas semanas ouvindo rádios locais.
Você sente o espírito da cidade, ouve o sotaque local, percebe as gírias, conhece o comércio, sabe dos acontecimentos culturais e, claro, fica sabendo quando um furacão está prestes a destruir a cidade.
Melhor ainda, o rádio, ao contrário da TV, não é intrusivo e exclusivista, não exige sua atenção total. Tempo ouvindo rádio não é um tempo roubado à sua vida: é um tempo no qual você faz alguma outra coisa e também ouve rádio. Ele fica lá tocando no fundo e você presta atenção quando quiser.
Uma dica aos leitores, dica que vou passar a seguir de hoje em dia: algumas semanas antes de viajarem para qualquer cidade, seja pra morar ou só visitar, comecem a ouvir as rádios locais pela internet. Vocês não fazem idéia da diferença que vai fazer.
É fácil de encontrar. As rádios de Nova Orleans, por exemplo, estão aqui.
Um Plano de Leituras pros Meus Quatro Meses de Brasil
Tentar ler exclusivamente aqueles romanções enormes que a gente quer ler mas sempre hesita em começar porque sabe que vão tomar muito tempo. Eis os romanções na minha fila de leituras, um mais gigantesco que o outro, pra ler ou terminar de ler:
Eu tanto manipulei o Google que o LLL foi banido dos resultados. Mas não fui o único: essa semana, o Google também baniu o site alemão da BMW.
Como sou Pollyana, aqui vai o lado bom: enquanto outros blogs tem muitos visitantes e poucos leitores, eu tenho certeza que os mil leitores diários do LLL são leitores mesmo, pois chegam quase todos por meio de bookmarks e links e não por buscas esdrúxulas. Segundo o Technorati, são 216 os blogs com links pro LLL.
E, se você considerar que o SobreSites é minha criança, que eu criei, tirei do chão e depois derrubei sobre as árvores, abandonei e só continua vivo pelos esforços hercúleos do meu ex-sócio, que toca o barco sozinho, então tenho mais de 4 milhões de leitores por mês. Mas seria forçação, né?
Como falou um amigo sincero do André Dahmer sobre o sucesso dos geniais Malvados na web, essas pessoas todas são prova documental da minha incapacidade de ganhar dinheiro.
Eu comecei a minha caminhada para a libertação mental e a busca da felicidade pessoal conversando com um primo meu pelas bandas de Minas Gerais, no começo do ano. Engraçado como uma conversa pode mudar muita coisa quando sua cabeça pensa dentro dos moldes que a sociedade te impõe, não é? Enfim. Comecei minha jornada, como eu dizia. Quando encontrei seu blog e li sobre as prisões, a afinidade das filosofias era até assustadora.
Bom, só que surgiram dois problemas que eu gostaria de compartilhar contigo para ver se me dá uma clarificada, já que eu estou ainda no início da caminhada e, de certa forma, comecei bem cedo (estou com 21 anos no momento). Cito-os:
1) Bom, o primeiro não é uma questão filosófica, mas um problema prático. Um relacionamento sério que eu tinha com uma menina acabou recentemente. Como a gente começou antes da minha fase de libertação, a gente viveu muito preso um ao outro. Briga era algo extremamente raro e a conversa sempre fluía como se fôssemos irmãos. Só que o ex dela voltou pra cidade e fodeu o relacionamento todo. A mulher surtou e acabou acontecendo mais ou menos como a história da Olívia na prisão segurança: nem muita besourada acaba com 6 anos de amor e a história que ela tinha com o caboclo lá voltou a tona e pronto. Ela não soube amar os dois e eu acabei rodando nessa história. Pensei da seguinte maneira: não tenho o direito de controlar a liberdade dela assim como ela não controla a minha (pelo menos não deu nenhuma demonstração pública disso), então ela tem o total direito de se apaixonar pelo outro e eu tenho que seguir na minha felicidade. Seria um ponto final se eu ainda não sentisse aquele maldito formigamento nas tripas toda vez que ela aparecesse no Messenger ou eu falasse com ela. Agora há pouco ela voltou comigo de carona da universidade. Foi a primeira vez que eu a vi pessoalmente depois que tudo terminou e eu fiz isso propositalmente para ver minha reação. E foi a pior possível. Pior foi quando ela me falou que iria acampar no carnaval. Sinceramente, dei gulfadas de vômito. Mas enfim, voltando ao assunto: para ter liberdade é preciso, de certa maneira dar a liberdade para quem está a sua volta. Mas o que eu faço nessa situação? Eu sei que você terminou recentemente um casório, e gostaria muitíssimo de saber como você reagiu na prática, sendo libertário igual a mim. Eu sei que não deveria me prender ao passado, pois se eu continuar perdendo tempo desse jeito me preocupando com ele, vou acabar deixando de fazer muita coisa bacana que deveria. Só que, cara, é complicado. Principalmente quando você gosta realmente da pessoa. Enfim, como você agiria ou como acha que eu deveria agir em tal situação?
Você gosta realmente da pessoa, mas ela não gosta mais de você, fazer o quê? Na vida, tem horas que é preciso saber perder. Se ela ainda te causa um efeito tão forte, evite-a. Ou, então, se arme em guerra e batalhe por ela. Mas, se ela não te ama, de que adianta? O que fode tudo, sempre, é o meio termo.
Eu ainda sinto uma pontada no coração quando vejo fotos da minha ex-mulher da nossa época de casado. Eu ainda a amo, como ainda amo todo mundo que já amei, mas não voltaria com ela. A ferida ainda dói, entretanto, pois lembro de tantos esforços, tantos planos, tantas boas intenções, tudo por água abaixo.
É duro, mas e daí? A vida é assim. A gente carrega nosso passado nas costas por onde vamos, só não podemos deixar ele nos derrubar.
2) Livros não seriam alguma forma de "semi-prisão"? Por exemplo, quantas vezes você já não leu um livro, foi andar na rua, conversou com uma pessoa e pensou: "Caramba, fulana é igualzinha à personagem do livro" e tratou-a igualmente?
Cruzes, nunca. Que idéia!
De certa forma, se você não souber direcionar seu conhecimento, você pode acabar sendo influenciado pela mediocridade de certos autores. Por exemplo, existem pessoas que lêem Nietzsche e saem por aí pregando o "Anticristo" ou as frases do "Além do Bem e do Mal" e do Zaratustra. Tudo bem, são gentes da sociedade e são altamente influenciáveis, mas existem certas coisas que não dá para não comparar. Você próprio cita muitos exemplos de livros em seus posts. Seriam os livros um certo tipo de molde para seus pensamentos? É algo de interessante a se pensar.
Depende de como se lê. Nada mais imbecil do que a pessoa que lê um livro sobre algum assunto e já sai pensando que entende do riscado.
Meu conselho: ficou curioso sobre alguma coisa? Leia pelo menos dois livros sobre o tema. De preferência, que dialoguem um com o outro. De preferência, que sejam opostos um ao outro. Não garanto que você vai entender do assunto, mas pelo menos você vai ter uma noção grande do que não sabe. Quem lê um único livro sempre acha que sabe alguma coisa.
Bom, Alex, muitíssimo obrigado por ler este e-mail e espero a tua resposta. Continue a escrever as prisões: para nós, libertários que estamos acá, é um suspiro de alívio saber que não estamos sós.
Mais um que dá mais importância a mim do que eu a ele:
Há três anos, a Internet se viu tomada por mais uma mácula inofensiva na aparência, outro blog cuja distinção - se é que podemos assim dizer - estava no apego apaixonado aos assuntos execráveis e subalternos. O único mérito do escrevinhador era ter a capacidade e ousadia de avançar sobre uma estrada cujo percurso faria ruborizar qualquer blogueiro que preza a dignidade e tem vestígios de amor-próprio. Fazendo uso de estratégias obscuras e questionáveis de divulgação, iludindo e enganando os desatentos, atraindo e seduzindo os perspicazes, manipulando os sistemas de busca, ele conseguiu emboscar vários incautos na teia de mesquinharias e boçalidades que se enroscam naquele ponto da web.
Entende-se que uma, duas, até três vezes, o internauta voltasse para confirmar aquilo que lhe deixou os olhos prenhes de estupefação. Para ele, sensibilidade virgem de porcarias tão bem concentradas, relacionadas com a exação de inventário, "era impossível haver tanta futilidade numa só cabeça, tanto lixo num só terreno baldio, teria se enganado". Mas, uma vez confirmado, não havia necessidade de retorno, censuraria aquela página em seu PC e se empenharia em desestimular as personalidades inclinadas em chafurdar naquele estrume de pensamentos nauseabundos. Ora, para meu pasmo, esta projeção, que me parecia um truísmo, se desvaneceu sob o jorro contínuo de visitas que afluiu para o LLL, no ímpeto desesperado de beber mais e mais da fonte contaminada. As exaustivas auto-indagações sobre o fenômeno não me renderam nem mesmo um sopro débil de resposta vacilante.
Como, em sã consciência, alguém pode se deleitar com temas e abordagens condenados, hipoteticamente, à danação e ao desprezo antes mesmo de serem convertidos em palavras? Um desdém gelado seria a melhor resposta aos arremedos de escritor que encontram nas improvisações do ócio a matéria-prima de sua atualização, "para encher lingüiça", no dizer do vulgacho. Ora, vá encher lingüiça no açougue, onde poderá se deparar também com a carniça, irmã siamesa daquilo que escreve.
O infame blogueiro maltrata e ofende os seus leitores, diz, palavra por palavra, que não lhes dá a menor importância e, apesar de disso, há um séqüito grandioso de visitantes que todos os dias volta e lê, sem assombro, o produto de sua indiferença. Esta seria deliciosa de se apreciar se fosse feita com habilidade e apuro formal, com técnica e ironia, demonstrando assim todo o conhecimento extraído das dezenas de livros que o Liberal diz ter lido. Até as ignomínias pedem certa elevação. Pode se ofender e desdenhar sim, em ultimo caso até se refestelar em assuntos menores, na extrema abjeção de temas aviltantes, mas há de ser feito com elegância estilística, há de se conceber engenhosamente o pensamento e depois vesti-lo. Ninguém anda pelado pelas ruas. O que se vê no LLL é uma erupção fastidiosa de coisa nenhuma, sem rigor nem qualidade. É um cortejo infindável de pés, ego e arrogância. A mediocridade não terá um leito de flores no regaço de minha alma.
De acordo com os Termos de Uso em vigor no LLL desde maio de 2004, ao me enviar email ou comentar no blog, você está automaticamente permitindo que eu faça o que desejar com sua mensagem, inclusive postá-la no blog para ridicularizá-la ou divulgar seu nome e endereço.
As condições acima não são nem inéditas nem inauditas. Blogueiros simpáticos e limpinhos, como a Cora, fazem igual.
Se não quer correr o risco de ver suas besteiras publicadas aqui no blog, por favor, não me escreva.
Vá azucrinar o Inagaki, que é gente boa e nunca faria nada parecido.
Encontrei por acaso nas estantes aqui de Tulane e estou absolutamente babando. O primeiro livro sobre literatura brasileira que me fez, de fato, vibrar. Vou falar mais dele daqui a pouco. Alguém conhece? O que acham?
* * *
Matéria de O Estado de São Paulo:
Crítico questiona literatura brasileira
Flávio René Kothe, professor de literatura da Universidade de Brasília, lançou recentemente O Cânone Imperial, em que analisa a tradição de nossa literatura
São Paulo - A pretexto de ensinar literatura, as escolas brasileiras martelam ideologia. A opinião é do professor de Teoria Literária Flávio René Kothe, da Universidade de Brasília (UnB), que lançou recentemente O Cânone Imperial (UnB, 608 páginas, 48 reais). O trabalho pode ser encarado como um segundo volume de uma obra que procura analisar tudo o que os estudantes têm de aprender no segundo grau. O primeiro volume seria, assim, O Cânone Colonial (UnB, 416 páginas, 39 reais). Ainda em 2001, deve ser publicado O Cânone Republicano, em dois tomos, completando a análise da tradição literária brasileira.
Kothe é implacável com os autores brasileiros e, especialmente, com o modo que eles são ensinados nas escolas. A leitura dele não perdoa nem Machado de Assis, considerado o ponto mais elevado da produção literária nacional. Embora ache que Assis é um escritor talentoso, recusa-se a incluí-lo no mesmo patamar de Dostoievski, Flaubert, Tolstoi e Goethe. No máximo, o põe no degrau de um Eça de Queirós.
O mais grave, no entanto, para Kothe, é a completa ausência de autores "do primeiro time" no segundo grau, o que deixaria os estudantes brasileiros sem parâmetros para ler, avaliar e produzir textos literários de qualidade. "É como se um professor de piano ensinasse somente a produção brasileira, deixando Chopin de lado", exemplifica, por telefone, de Brasília. A retirada dos escritores estrangeiros do ensino é uma herança dos militares, uma decisão que não foi revista com o fim do regime. "É inclusive um tiro no pé, um fechamento inadequado a um período de globalização, em que o mercado pede mão-de-obra criativa."
Como alternativa, ele afirma que a saída não é, simplesmente, substituir um cânone nacional por outro mundial: o ideal, diz, é combinar leituras universais com leituras locais, evitando uma sobrevalorização dos escritores nacionais. Além disso, ele propõe: que o curso secundário introduza a questão da qualidade, deixando de tratar todos os que figuram no cânone como grandes autores; uma revisão geral dos livros didáticos e o fim do "livro do professor", que traz todas as respostas prontas; e, o que parece óbvio, mas talvez não seja, estimular o espírito crítico do aluno, atualmente, visto como um depósito de informações no mínimo discutíveis. "A história da literatura brasileira é escrita como se o cânone fosse puro abrigo do talento, e como se todo talento fizesse parte desse panteão acadêmico", escreve no primeiro capítulo.
"Eu parti da concepção de que havia uma diferença básica entre o que é o todo da produção e circulação literária do Brasil e o que é ensinado nas escolas", afirma Kothe. Ele lembra que toda a literatura dos imigrantes - alemães, especialmente - produzida no Brasil está fora do universo literário das escolas, bem como uma série de autores que fica de fora por não reforçar a ideologia dominante. Contrariando Antonio Candido, acredita que não temos de amar, necessariamente a literatura brasileira porque ela "não é de primeira água" e também porque ela "não é uma expressão de todos os brasileiros", ao contrário do que o discurso teórico defende.
A definição do cânone literário brasileiro - aqueles autores que "representam" a história da poesia e da prosa do País - começa com o romantismo. Essa lista, emendada a partir de então, de José Veríssimo e Sílvio Romero a Candido e Roberto Schwarz, priorizaria, para Kothe, obras que reforçam a ideologia do Estado brasileiro, invertendo a lógica dos movimentos literários que os escritores importaram da Europa. No romantismo alemão, há um fosso entre o ideal e o real; o romantismo brasileiro, por sua vez, faz de conta que o ideal é a própria terra, o País e a Nação que está inventando. Kothe conclui, então, a equação: "Se o real é o ideal, nada deve ser modificado."
A literatura brasileira ensinada na escola, portanto, nascida da história da literatura que o romantismo cria, legitima a colonização portuguesa e o Estado brasileiro nascido em 1822. A escolha do homem ideal como sendo o índio nasce discriminando negros e mulatos: "A literatura nas escolas serve para ensinar racismo", diz ele. O mesmo se verificaria em Canaã, de Graça Aranha, mas, nesse caso, é o mulato o valorizado contra os imigrantes alemães (modelo que Mário de Andrade repetiria em Amar, Verbo Intransitivo e Macunaíma, no último caso, substituindo o preconceito contra o alemão pelo contra o italiano).
Uma das questões abordadas por Kothe é essa escolha do índio como "fundador" da nacionalidade brasileira, mito que encontra em José de Alencar (O Guarani e Iracema) e Gonçalves Dias (com o poema I-Juca Pirama), seus principais representantes. Para Kothe, além do problema da questão racial, as escolhas românticas mostram o mecanismo de inclusão e de exclusão do cânone.
Na Europa, havia três modos de pensar os índios: como a encarnação do bem (o bom selvagem), como encarnação do mal e como instrumento da sátira.
"O cânone brasileiro, sistematicamente, exclui o índio satírico, representado pelo poema O Elixir do Pajé, de Bernardo Guimarães", afirma. A obra, que usa a mesma estrutura poética de I-Juca Pirama, tem conotação sexual explícita: o pajé em questão vê-se impotente e pede uma ajuda a Tupã, mas exagera na dose do remédio.
A inversão do modelo europeu como meio de sustentar a colonização portuguesa e o Estado criado com o Império, fundado no escravismo, não seria uma característica exclusiva dos românticos. "Não à toa, o marxismo proletário de Émile Zola está ausente da obra de Aluísio Azevedo, o satanismo de Charles Baudelaire desaparece na poesia de Olavo Bilac e o espírito crítico de Flaubert desaparece nos textos de Machado."
Nos capítulos dedicados a Machado de Assis, Kothe defende que suas posições reacionárias determinaram a configuração de sua obra e ajudam a canonizar seus últimos romances. "É tal o temor reverencial que a penúltima tentativa de redimir Machado é dizer que ele não adota posição nenhuma, mas apenas desmonta, com a sua ironia, toda e qualquer posição política ou filosófica. Ora, ele apenas disfarça melhor que outros", escreve Kothe.
Nesse disfarçar, Assis teria mantido a figura da mulher sem voz em Dom Casmurro. Bentinho, o narrador, jamais lhe dá voz, ao contrário do que ocorre em Madame Bovary, de Flaubert. Se Dostoievski e Alencar usam a figura da prostituta que se redime por amor, Assis constrói personagens femininas a partir de senhoras respeitáveis que se revelam oportunistas, desleais e não-confiáveis. Capitu, bem como Escobar, representariam o perigo das classes ascendentes contra a oligarquia (Bentinho). A crítica, contudo, não estaria direcionada à elite escravista, mas justamente a esses novos atores sociais.
Mas não são inúmeras as leituras que apontam Capitu como a real protagonista de Dom Casmurro e que ensinam a desconfiar, sobretudo, do narrador? Para Kothe, essa é uma leitura enviesada, que procura salvar Machado de Assis da própria obra. Algo semelhante ocorreria com a figura do negro. Para Kothe, é uma voz que Machado de Assis sempre busca calar. Um dos exemplos que usa é o de um diálogo entre Bentinho e um negro, chamado Tomás. O narrador chama-o, faz duas perguntas, servilmente respondidas pelo escravo, logo dispensado com um "Vá-se embora". "Se ele fosse alemão, seria considerado racista; por ser mulato, fisicamente, é considerado realista. Ele procurou negar e renegar a sua origem, identificando-se com a elite branca. Nesse sentido, o "realista" é um "racista", ainda que não por ideologemas diretos e claros; por isso - e não apesar disso - entra no cânone", escreve Kothe.
A premissa de Kothe é verdadeira: há um temor reverencial diante das obras clássicas, o que vai contra a liberdade que a leitura exige para que permita uma compreensão melhor do mundo. Concordar com todas as conclusões dele é menos importante do que perceber que o livro cumpre o que promete - expõe as contradições e fraquezas dos autores tidos como grandes e da recepção com que foram agraciados. Obriga a quem quiser defender os clássicos brasileiros a responder aos argumentos dele.
Se Kothe não é tão rigoroso com os autores do grande cânone mundial como é com os brasileiros - ele defende-se, dizendo que a obra de Shakespeare supera suas fraquezas ideológicas e afirmando que orienta alunos de pós-graduação que estudam os clássicos a lê-los também de um modo implacável -, essa limitação não precisa ser aceita pelo leitor. O caminho de uma leitura crítica permanente está aberto.
Fotos tiradas no dia 4 de fevereiro de 2006, no French Quarter, bairro histórico de Nova Orleans. Todas as fotos são enormes, cliquem para ver os detalhes. Vale a pena.
A moça da fonte.
A estátua mais perturbadoramente sexy que já vi. Reparem que os pezinhos dela estão descansando sobre um pequeno apoio.
Parece que a estátua está ali desde sempre, mas foi esculpida por Paul Perret em 1984.
Músicos de rua.
Adorei o estilo da moça na foto à esquerda. Essas meias laranjas com esses coturnos estão demais.
Atrás dos músicos à direita, esses degraus levam para a beira-rio. Como podem ver, a cidade fica mesmo abaixo do nível da água.
Escrevi um post inócuo sobre pais e seus filhos. Nunca imaginei que fosse gerar polêmica. Pra minha surpresa, o leitor Marcos reagiu ao post com bastante agressividade, quase como se fosse um ataque pessoal a ele. Suas reações vocês podem ler nos comentários.
Eu quis saber de onde vinha tanta agressividade e ele respondeu.
É um fenômeno que está se tornando cada vez mais comum e incômodo nessa minha vida semi-pública de blogueiro pseudo-famoso: pessoas que eu mal conheço, e em quem nunca penso, formam relações complexas comigo em suas cabeças e, em um dado momento, descubro que estão em pé de guerra contra mim, enquanto eu mal sei quem são.
No momento em que tomo ciência da história, a coisa já está além de qualquer ajuda, o sangue já está fervendo, e não vejo como desarmar a situação e ganhar essas pessoas de novo. Pra elas, eu já sou o inimigo. Kaput.
Infelizmente, já considerando o Marcos perdido, vou abrir o assunto no blog para ver se, pelo menos, evito que isso aconteça de novo.
É muito difícil responder o seu email sem ser falar algumas coisas verdadeiras, mas algo rudes. Acho que você dá muito mais importância a mim do que eu a você. E me parece também que não sabe deixar os assuntos terminarem. Trouxe três coisas à baila que eu já havia completamente esquecido. Não faço nada em função dessas três coisas, pois nem lembro delas.
Primeiro, foi o post da Tata, que fez minha ex-mulher me ligar chorando lá do Timor querendo saber porque ela tinha falado aquilo, e da qual você foi o único a me defender, e eu te agradeci muito. Mas aí risquei a Tata da minha vida, fechei esse livro e esqueci do assunto.
Em segundo lugar, você cita a conversa sobre o Rio e diz que eu te ataquei. Não é verdade. Você fez um post dizendo que estava de saco cheio do Rio por causa de todas as violências que sofreu e eu comentei que eu nunca tinha sofrido violência alguma. Mas, naturalmente, eu sei que o Rio é uma cidade violenta, e o fato de eu ser um carioca sortudo não invalida nem desqualifica suas experiências traumáticas.
Você, entretanto, parece sinceramente achar que sim. Pelo contrário, sua insistência nesse assunto, que você continua mencionando, parece mostrar que é você que não aceita a minha experiência como válida, como se fosse odioso pra você, que já tanto sofreu com a violência do Rio, que possa haver um outro carioca que morou na cidade tanto tempo quanto, nunca deixou de fazer nada por medo de bala perdida e jamais sofreu violência alguma.
Em resposta ao meu comentário, você escreveu esse post feroz contra mim, dizendo, entre outras coisas, que eu vivo de desqualificar quem está a minha volta e muito mais. Eu, como está lá nos comentários, não respondi no mesmo tom e tentei ao máximo esfriar a situação.
Se você até hoje ainda acha que eu expor uma experiência pessoal oposta à sua é um ataque, então você realmente vai ter me construído em sua cabeca como o inimigo que você diz precisar.
Depois do seu faniquito sobre o Rio, você pediu desculpas, eu aceitei e, de novo, fechei esse livro e esqueci o assunto. Pra mim, estava encerrado. Nunca imaginei que você ainda iria voltar a isso, principalmente dado que pediu desculpas!
Em terceiro lugar, você menciona um post meu sobre rompantes, que você achou que era com você, mas não era. Pura ilusão. Como não poderia deixar de ser, era com uma pessoa do meu círculo de relacionamentos, alguém com quem eu interajo.
Então, com base em mais um pretenso ataque que não houve, você voltou a ficar de mal comigo, e agora isso tudo veio estourar em um post meu absolutamente inócuo, totalmente não-provocador, uma impressão que eu tenho do dia-a-dia e contra a qual você avançou como se fosse um ataque pessoal a você.
Agora, vem a parte delicada.
O tal post dos rompantes jamais poderia ser com você porque, veja bem, é difícil falar isso sem parecer rude, mas é um fato: eu não te conheço. Soa mal, mas não é pra ser um insulto. Eu não conheço milhões de pessoas e sei que a maioria delas devem ser maravilhosas.
Nós dois tivemos algum contato pela internet, você me defendeu de uma ofensa, e eu agradeci. Fim do caso. Depois houve um mal-entendido, você me insultou, eu não revidei e não te insultei de volta, você se desculpou e, de novo, pra mim, isso tinha encerrado a história.
Você não era nem nunca foi alguém das minhas relações. Não era um amigo, não era um conhecido, não era nem um contato no meu MSN. Não é, em suma, alguém em quem eu penso, alguém para quem eu mandaria indiretas, alguém que eu atacaria.
Como diz em sua carta, você ficou triste quando lhe descrevi como "completo estranho", mas isso não precisaria ser dito se você não tivesse formado toda essa complexa relação comigo em sua cabeça. Você está se dando importância demais em minha vida. A triste verdade é que você não é tão importante pra mim quanto eu pareço ser pra você.
Quando a Tata fez aquele post (vai ver ela também acha que fiz alguma coisa contra ela, mas nunca vou saber, pois cortei relações e não tivemos nem teremos mais contato), foi um golpe duro pra mim, pois ela era uma grande amiga, alguém que encontrei diversas vezes, em cuja casa eu fui, em quem eu confiava, para quem eu fazia confidências, com quem saí na minha última noite de Brasil. Por isso, um ataque dela me magoou bastante. É engraçado porque, de TUDO o que houve durante e depois do Katrina, foi longe a coisa que mais me abalou.
Já você, em comparação, não era alguém do meu círculo de relacionamentos. Por isso, quando soltou os cachorros em cima de mim, eu não me ofendi nem me magoei: eu não te conhecia, não era seu amigo, não esperava nada de você. Fiquei curioso com a fonte de tanta hostilidade, e só.
Sinceramente, se eu me estressar cada vez que estranhos me criticam, não vou fazer outra coisa da vida. Por isso, também, o post dos rompantes jamais poderia ser indireta pra você, pois não penso em você o suficiente para me importar com o que pensa ou para lhe mandar indiretas.
O fato de eu não ser seu amigo não quer dizer que eu seja seu inimigo. E vice-versa. A enorme maioria das pessoas que conheço não são nem um nem outro: são apenas pessoas que conheço e com as quais não tenho relação alguma.
Na verdade, só estou respondendo esse email publicamente porque episódios como esse estão começando a se multiplicar e, realmente, não sei como lidar com isso.
As pessoas não me conhecem mas, talvez por causa da natureza pessoal/confessional do que escrevo, já se sentem íntimas, criam toda uma série de complexas relações comigo em suas cabeças, começam a ler todo o tipo de indireta em cada coisa que eu falo, criam expectativas a respeito do meu comportamento e, finalmente, quando deixo de agir como o amigo que eu nem sabia que era, se ofendem. Passam, em poucos meses, de fãs a inimigos.
O Marcus Pessoa era outro que costumava gostar de mim. Um dia, ele achou que alguma coisa que eu escrevi era uma indireta pra ele, ficou putinho comigo, e agora fala mal de mim pelos blogs da vida. Quando eu fiz a ele a mesma pergunta que fiz a você, de onde tinha vindo essa súbita agressividade contra mim, ele contou uma história bem parecida com a sua. Ou seja, formou uma complexa relação comigo em sua cabeca, interpretou um post genérico como ataque pessoal e reagiu ao ataque. Enquanto isso, eu mal participei desse complicado processo e não fazia idéia do que estava acontecendo.
Veja bem, Marcos, antes que você responda que sou um ingrato filho da puta, o fato de você ter me defendido faz com que eu tenha uma imensão gratidão para você, mas não nos torna amigos. Para isso, precisaríamos nos conhecer, conversar, interagir, trocar confidências. Como poderíamos ser amigos? Nunca nem conversamos no MSN.
Eu fui muito ajudado durante e depois do Katrina, por pessoas a quem sou imensamente grato, e com quem tenho dívidas de honra que vou pagar, mas apenas isso não faz delas minhas amigas. Algumas não são nem minhas conhecidas.
Eu nunca te ataquei, nunca te mandei indireta. Nunca vou te atacar, nem nunca vou te mandar indiretas. Não vou ser seu inimigo.
Se não respondi comentários seus, não é por esse ser o "meu esquema", como você diz. Ou, na verdade, é sim. Nos dias bons, o LLL recebe 50-100 comentários. Eu realmente não tenho como, humanamente, responder a todos. Então, de fato, o meu "esquema", pra não perder todo o meu tempo com isso, é simplesmente não responder à grande maioria dos comentários. Os leitores respondem uns aos outros; eu escrevo os posts.
Se respondo a esse email publicamente, lhe usando como exemplo, é apenas porque essa situação que estamos vivendo já me aconteceu várias vezes, com várias pessoas, e não sei como lidar com esse problema.
Não é nada pessoal com você.
* * *
Às vezes, eu me sinto tão cansado.
Uma amiga que eu amo já me proibiu explicitamente de falar sobre esse assunto com ela, pois parece que todo dia eu venho falar de mais alguém que me adicionou no MSN e me alugou por uma hora, sem ter nenhum assunto ou ter falado absolutamente nada. E essas pessoas ainda saem dessas conversas, que pra mim são custosas e nas quais faço o máximo para colocá-las à vontade, achando que fui antipático, seco, monossilábico.
Eu sei que eu não sou ninguém. Mas planejo ser. Planejo ser daqueles escritores que aparecem na capa do Prosa & Verso todo ano quando lançam livro novo. Acho que tenho alguma possibilidade de chegar lá. Estou trabalhando duro pra isso. Podem caçoar, eu não ligo.
Se eu, que não sou ninguém, já sou assediado por trocentas pessoas que acham que me conhecem e querem um pedaço de mim, como fazem as verdadeiras celebridades?
Será que estou dando corda demais? Ficando num meio-termo que não leva a nada? Ao mesmo tempo que não sou, nem posso ser, amigo dessas pessoas todas que sinceramente gostam de mim, eu também não sei manter uma distância profissional e acabo deixando que se aproximem demais.
Resultado: fico cheio de amigos que não sei que tenho e acabo magoando muitos deles, como o Marcos e o Marcus. Sei que perdi os dois pra sempre. Sei que eram pessoas boas que gostavam de verdade de mim. Isso me entristece muito. A falha foi minha de mantê-los.
Não sei o que fazer. Enquanto isso, amigo leitor, por favor, pense no seguinte.
Só porque você conhece fatos privados e íntimos da minha vida, não quer dizer que somos íntimos ou que você me conhece de verdade. Trocar um punhado de emails ou conversar no MSN não faz com que sejamos amigos.
Você não tem o direito de esperar NADA de mim, a não ser textos interessantes nesse blog todos os dias - e, se não acha que são interessantes, não precisa voltar. Nossa relação é escritor-leitor. Não tenho outras obrigações para com você. Não temos relação pessoal alguma. Não me sinto obrigado a responder seus emails ou comentários, a fazer sala no MSN, ou a encontrá-lo pessoalmente.
Por outro lado, eu também não espero nada de você, a não ser que me leia. Não espero que comente, não espero que goste, não espero nem mesmo que não me xingue.
* * *
Escrever esse post me deixou imensamente triste.
Tenho certeza que o Marcos é uma pessoa boa que, no momento que em que viu um completo estranho sofrer uma injustiça, não hesitou em defendê-lo publicamente. Com o tempo, talvez tivéssemos nos tornado amigos, mas ele entrou em uma onda louca de achar que tudo o que eu falo era ataque ou indireta, e fodeu-se tudo. Idem com o Marcus, que seguiu o mesmo processo, e com tantos outros que não nomearei.
Ninguém merece ler as palavras duras que fui obrigado a escrever. Eu me sinto um bosta.
Tudo o que eu sempre quis na vida foi escrever e ser lido. Não virar psicólogo de fã ou aturar complexo de inferioridade dos outros.
Essa situação me deixou foi com uma baita vontade de fechar o blog e sumir.
É um livro agradável, gostoso, fácil de ser lido. A história flui como se escorregasse pelos sensores cognitivos, fazendo com que seja possível a reflexão sobre o que não está dito de maneira explícita.
A narradora ? é uma mulher a personagem principal do livro ? conduz o tece os fios da história ora na ordem de sucessão dos fatos, ora pula do futuro para o passado ou vice-versa para que o leitor possa compreender os fatos de uma maneira global. Afinal, é assim que são contadas as histórias, muitas vezes é só no futuro que se encontram justificativas para os acontecimentos presentes. Se bem que é também assim que se constroem as ambigüidades.
As crianças da escola ao lado gritam a manhã toda. Tem gente que precisa de silêncio e concentração pra escrever. Eu não. Criança é vida - desde que não sejam minhas, claro.
Criança é como casa de praia. É bom seus amigos terem, pra você poder curtir de vez em quando, ao invés de você ter, e se aporrinhar e pagar contas o tempo todo.
A diferença entre as criaturas mitológicas de outros países e as criaturas mitológicas brasileiras é que as primeiras têm poderes especiais e as segundas são só deficientes físicos. Se você visse um saci entrando no metrô se sentiria constrangido a dar o seu lugar pra ele - o que nunca aconteceria com o lobisomem, por exemplo, ou com o Drácula.
Ser o único descasado em um grupo de gente jovem que nunca nem morou junto é um pouco como ser veterano de guerra: uma experiência única que quem não teve sabe que muda tudo mas não entendem bem como.
Ando ouvindo a Paradiso FM pela internet, pra matar saudades do Rio. Passou agora o anúncio de uma academia chamada Bodytech. O anúncio começa assim: "O júri já decidiu, meritíssimo. Por 11 a 1, etc"
A graça é que os júris no Brasil são compostos por 7 pessoas.
Tem também aquela velha história de que perguntaram pras crianças inglesas qual era o número de emergência e a maioria disse 911. Só que no Reino Unido o número é outro.
Será imperialismo americano? Ou simples burrice dos nativos?
Não consigo imaginar nenhum agente da CIA colocando uma arma na cabeça dos redatores da agência de publicidade obrigando-os a citar um júri de 12 pessoas em seu anúncio.
E, se o que os americanos exercem é influência, então influência não é imperialismo, pois não se pode controlar quem se influencia nem como.
Meus textos influenciam muita gente de modos que nem posso imaginar. Muitos me escrevem dizendo que mudei suas vidas.
Começando as leituras para minha tese com duas mulheres brancas (bem, uma que só parecia branca) e a escravidão. A Escrava Isaura é bobinho, mas estou adorei reler A Carne, de Júlio Ribeiro.
A personagem principal de A Carne é Lenita, uma jovem culta, inteligente e bem-educada que descobre, muito para sua surpresa, impulsos sexuais incontroláveis borbulhando dentro de si. Não é à toa que o livro foi adaptado para o cinema várias vezes, começando já no início do século XX, e sempre como filme de sacanagem, pornô, chanchada, etc. Mas o livro é melhor que isso.
No trecho abaixo, ela fica violentamente excitada ao testemunhar os castigos dos escravos:
Lenita, muito de adrede, não intercedeu. Sentia uma curiosidade mordente de ver a aplicação do bacalhau, de conhecer de vista esse suplício legendário, aviltante, atrozmente ridículo. Folgava imenso com a ocasião talvez única que se lhe apresentava, comprazia-se com volúpia estranha, mórbida na idéia das contrações de dor, dos gritos lastimados do negro misérrimo que não , havia muito lhe despertara a compaixão. (...)
Lenita sentia um como espasmo de prazer, sacudido, vibrante; estava pálida, seus olhos relampejavam, seus membros tremiam. Um sorriso cruel, gelado, arregaçava-lhe os lábios, deixando ver os dentes muito brancos e as gengivas rosadas.
O silvar do azorrague, as contrações os gritos do padecente, os fiar de sangue que ela via correr embriagavam-na, dementavam-na, punham-na em frenesi: torcia as mãos, batia os pés em ritmo nervoso.
Queria, como as vestais romanas no ludo gladiatório, ter direito de vida e de morte; queria poder fazer prolongar aquele suplício até à exaustão da vítima; queria dar o sinal, pollice verso, para que o executor consumasse a obra.
E tremia, agitada por estranha sensação, por dolorosa volúpia. Tinha na boca um saibo de sangue.
Eu não sou de esquerda nem de direita porque ambas posições não fazem nenhum sentido. Qualquer um que se defina como "de esquerda" ou "de direita" está assinando embaixo dessas inconsistências, abdicando da própria opinião e passando atestado de idiota.
Faz sentido a direita defender a santidade da vida, dos bebezinhos ainda não-nascidos e das mulheres-vegetal e, ao mesmo tempo, apoiar a pena de morte e o olho-por-olho?
Faz sentido a esquerda lutar por direitos humanos, defender a vida de assassinos e estupradores e atacar o barbarismo da pena de morte e, ao mesmo tempo, permitir que bebês não-nascidos sejam massacrados em larga escala, como se fazer um aborto fosse tirar uma verruga?
Faz sentido a direita defender mais liberdade econômica e política, a necessidade de as empresas serem mais livres para gerar mais empregos e mais prosperidade e o direito ao porte de armas e, ao mesmo tempo, pregar valores anti-liberais e conservadores nas esferas privada, religiosa, comportamental? De que adianta um empresário ter maior liberdade pra construir uma puta empresa e não poder casar legalmente com seu companheiro de toda uma vida?
Faz sentido a esquerda defender maior liberdade de costumes, apoiar a luta pelos direitos dos gays e outras minorias, e, ao mesmo tempo, defender um estado enorme, que enfia a mão nos bolsos dos cidadãos pra tudo e controla cada vez mais aspectos de suas vidas? De que adianta eu poder casar com meu companheiro e não poder negociar o salário com o patrão, demitir funcionários sem justa-causa a ou decidir o que vai ser feito do meu FGTS roubado na fonte?
Se esquerdistas e direitistas pudessem me explicar esses paradoxos para mim insondáveis, eu gostaria muito de entender.
Em primeiro lugar, porque vai testar o quanto o Ocidente realmente acredita na liberdade de expressão que tanto prega. Nada mais justo do que forçar a mão de quem prega a autoridade moral de ser o inventor da democracia, blá blá.
Em segundo lugar, por mais que eu não goste da idéia de brincar com o Holocausto, a verdade é que o melhor jeito de lutar contra uma charge é fazendo outra charge. Com certeza, não queimar embaixadas ou lançar fatwas.
O jornal iraniano está certo em desafiar o Ocidente. Vejamos se o Ocidente passa no teste.
Quando a gente estuda o passado, um dos indicadores mais importantes dos comportamentos de uma sociedade são suas leis. Basicamente, não se proibe o que ninguém pode ou quer fazer. Nunca existiram, por exemplo, leis contra comer merda ou contra criar asas e voar.
Por outro lado, se você se depara com uma sociedade que tenha uma lei, digamos, contra tomar banho pelado ao ar livre, você pode ter várias dúvidas, mas uma coisa é certa: trata-se de uma sociedade em que um bom número de pessoas gosta de tomar banho pelado ao ar livre.
Agora, tendo isso em mente, o que vocês acham de um presidente da república cujo Ministro do Desenvolvimento acha necessário afirmar que ele não bebe há quarenta dias?
French Quarter, a área histórica, turística e boêmia de Nova Orleans. Sábado, 4 de fevereiro de 2006, lá pela hora do almoço. As fotos são enormes, então recomendo que cliquem para ver com mais detalhes.
Rio Mississipi, Moonwalk (a calçada que margeia a orla do rio), Natchez Steamboat (navio museu da época dos navios a vapor) e, ao fundo, a Greater New Orleans Bridge.
Mesma área da primeira foto, de outro ângulo, a partir do décimo-segundo andar do Wyndham Hotel. Ao fundo, o Toulouse Street Wharf.
Natchez steamboat. Greater New Orleans Bridge. Toulouse Street wharf. Curve of the Mississippi river. View from Wyndham Hotel.
Eu nunca fico 100% à vontade ao lado de pais e seus filhos.
Enquanto está tudo bem, todo mundo é muito civilizado. Mas eu sei que se houver uma emergência, se o navio começar a afundar, se soar o alarme anti-aéreo, eles não hesitariam em me sacrificar aos deuses astecas e arrancar meu coração ainda pulsando se achassem que isso aumentaria em meio por cento as chances de seus filhos sobreviverem.
Não estou nem dizendo que estão errados. Mas fico um pouco desconfortável.
Finalmente Me Vendi ao Sistema Capitalista Neoliberal Globalizado
Depois de anos de namoro de portão, sorrindo pra cá, piscando pra lá, eu aqui puxando o saco e tecendo loas à economia de mercado, e finalmente aconteceu.
Uma grande empresa multinacional, através de sua agência de publicidade brasileira, procurou o LLL, propôs um patrocínio, fiz um preço, eles aceitaram e apertamos as mãos virtualmente hoje. Não posso dar nomes aos bois, mas a partir de meados de março vocês vão ver.
É raro agências de publicidade e multinacionais darem valor assim ao potencial publicitário de blogs, então conto com a participação dos leitores. Se essa campanha revolucionária tiver um bom retorno, ela vai virar estudo de caso e vai criar um precedente forte para que outras agências também convençam seus clientes de que anunciar em blogs é bom negócio.
Daqui a uma semana, no dia 16 de fevereiro, eu completo 32 aninhos, aqui, sozinho, no desterro. Poucos dias depois, em 4 de março, o LLL completa 3 e não vai ter nem festa.
Se você gosta desse blog, se os meus textos já fizeram alguma diferença em sua vida e se não for fazer falta no leitinho das crianças, peço que considere me dar um presente do tamanho do prazer que lhe proporcionei.
Uma opção é clicar em minha Lista de Presentes e me dar algum dos livros que estou procurando - o meu endereço no Brasil está no topo da lista. Meus contatos nos EUA estão no topo da coluna direita aqui do blog, mas não precisa mandar nada pra cá não: dia 9 de maio, já estou no Rio.
Por outro lado, dois assuntos andam dominando meus interesses ultimamente: escravidão e romances policiais. Se você tem algum livro sobre esses assuntos que gostou muito e que acha que eu devo ler, manda pra mim. Não precisa nem comprar novo, pode ser sua cópia velha mesmo - mas é bom perguntar antes, pois eu já posso ter.
Outras sugestões: se for mulher, fotos das suas solinhas dos pés e dos seus dedinhos mexendo sempre caem bem - pra eu publicar no blog ou manter privadas. Clicar nos anúncios do Google rende cheques no fim do trimestre. Comprar no Submarino clicando aqui do blog também é lindo. Fazer um post no seu site citando o LLL ajuda bastante. Os fãs do Oliver podem até mandar alguma coisa pra ele.
Ou então, querido leitor, ligue pra minha mendigagem não: apenas volte sempre que tá bom demais.
Autores que Escrevem Sobre Suas Próprias Vidas e seus Leitores Maravilhosos
When you write about your personal life? People who are cool hang back?people who really dig the book, who have good social skills and good boundaries, don't get up in your face about your life. They're like, "Oh, I really loved The Kid, it was great to read that adoption story and learn more," and "There he is. Oh, wow, I'd approach him and tell him how much I love his book, but I don't want to bother him. He's having dinner with his family, obviously." And so the people who do approach you are the ones who don't have good boundary perception, who may be a little bit nutso or off-putting. You end up getting this skewed perception of people who like your work, 'cause the people who are cool who like your work don't come up and talk to you, usually. And the people who aren't cool will, like, charge at you in an airport, which happened to me, and will grab your dick in the line at the coffee shop, which has happened to me. I write about sex, therefore you can grab my dick in a Starbucks in Manhattan.
Programa de webmail. Estou escrevendo um email. Digito o endereço do destinatário, o assunto e o texto da mensagem (primeira imagem).
Clico em send e acho que minha vida está resolvida, mas nada disso. Aparece a mensagem de erro abaixo (segunda imagem):
Syntax error in the address list.
Erro de sintaxe da lista de endereços? Que mensagem confusa. O que exatamente isso quer dizer? Que lista de endereços? Estou usando um webmail onde nunca guardo nada, não tenho lista de endereços. Deve ser algo no endereço de email. Será? É a única coisa que me passa pela cabeça.
Confiro o email. É esse mesmo. Está certo. Clico em send de novo. Mesmo erro. Verifico tudo pela terceira vez, clico send pela terceira vez. Finalmente, desisto. Deve ser algum erro temporário, sei lá.
Vocês talvez já tenham solucionado o mistério, mas ouvindo a história é fácil.
Só na visita seguinte ao site eu entendi.
Quebrando completamente o padrão do mercado, eles colocam o campo Assunto (subject) logo abaixo do Para (to) e os campos CC e BC abaixo deste.
Ora, ninguém por aí faz isso. Em todos os sites de email que eu usei, o primeiro campo é o Para e o último é o Assunto, ponto. Você nem precisa ler. Até que porque, claro, usuário não lê. Afinal, esses dois campos são os mais importantes. Na maioria dos emails enviados, os usuários somente usam esses dois. Usar CC e BCC é coisa de gente mais experiente e, mesmo assim, somente em casos específicos.
O usuário não lê e está sempre com pressa. Por isso, é importante não quebrar os padrões de mercado, a não ser que você tenha uma excelente razão.
Vocês podem até não acreditar mas houve época, lá entre a Idade da Pedra Lascada e da Pedra Polida, antes do celular, da internet e da água encanada, que o Brasil era um país completamente fechado às importações. Só circulavam produtos made in Brasil, desde carros até computadores.
Eu ainda me lembro, logo depois da abertura da economia pelo Collor, em 1990, os primeiros carros a serem importados. Foram Nivas, da Lada, uma fábrica soviética - sim, amiguinhos, naquela época ainda havia União Soviética, estamos falando da pré-história, eu avisei. Bem típico do Brasil que os primeiros carros a serem importados eram ainda piores do que os nossos.
Enfim, antes disso, só circulavam carros made in Brazil, todos muito parecidinhos e homogêneos.
Lá pelo final da década de 70, meu pai começou a fazer dinheiro na bolsa e decidiu gastar parte dele na sua grande paixão: carros. Mas qual a graça de comprar Fuscas, Passats e Variants? Na época, o topo de linha nacional era o Alfa-Romeo, grandalhão e feioso.
Havia uma brecha na lei de importações, porém. Diplomatas podiam importar carros. O privilégio era pouco usado, não se via nenhum carro importado nas ruas, mas era a saída pro meu pai. Não sei exatamente qual era a treta, e devia custar caro, mas ele conseguia comprar carros importados legalmente por diplomatas. Tivemos muitas BMWs, Mercedes e Porshes. O auge, se não me engano, foi uma Porshe 928, em 1983, que por pouco não matou meus dois pais em um cavalo-de-pau quase marítimo em plena Avenida Niemeyer.
(Hmm, se tivessem morrido naquela época, e se eu e minha irmã tivéssemos tido um bom tutor, eu poderia ser rico até hoje... Ah, deixa pra lá, prefiro meus pais vivos e pobres.)
Acho difícil de um jovem hoje conceber o quanto uma Porshe 928 chamava a atenção no Rio de 1983. Hoje, ainda chamaria atenção, e olha que temos trocentos carros importados em circulação, de todos os tipos e modelos.
Na época, uma Porshe, um BMW ou uma Mercedes seria praticamente o único carro importado entre Gols, Corcéis, Belinas, Brasílias, Paratis. Não havia nada que chegasse nem perto. Chegava a ser um carro inroubável, pois era único ao ponto de não ter valor de mercado. O que um bandido iria fazer com ele?
Todo mundo olhava. Todo mundo apontava. Todo mundo comentava. Circular ao lado do Presidente Figueiredo em um carro aberto chamaria menos atenção. Bem menos. O pobre do homem andava todo dia no Pepino e ninguém nem olhava.
Uma cena era típica. Estacionávamos na rua, íamos pra algum lugar e, na volta, sempre havia alguém babando no Mercedes, adolescentes empolgados sonhando com o carro que nunca teriam.
Meu favorito era o cara com a namorada, mãos ao redor de sua cintura, explicando detalhadamente que aquele era um BMW 973i, da série 28, que tinha duzentos e quarenta e oito e dois terços pistões de potência, e cinco rebimbocas da parafuseta, cinco!, enquanto o melhor carro nacional tinha no máximo três rebimbocas, e, por isso, ele fazia curvas com muito mais estabilidade, blá blá blá, e enquanto a pobre moça fazia de tudo pra parecer interessada, lá vinha o macho alfa, com sua esposa e sua prole, pavoneando-se, peito estufado, cauda colorida toda aberta, chave na mão, pra tomar posse do seu brinquedo.
O diálogo seguinte era inevitável e irresistível:
Puxa, você tem um Mercedes 283¼ M! É verdade mesmo que ele tem um carburador duplo com ventoinha acoplada turbo?
E meu pai, que adorava falar do seu brinquedo, explicava cada detalhe:
Na verdade, é a 845¾ T, série beta, que tem a ventoinha acoplada turbo, a 283¼ M tem ventoinha interna oblíqua, que permite maior blablalização do combustível.
Caramba, que máximo, hein?!
Pois é.
E minha mãe, a namorada e eu trocávamos olhares entediados de que coisa, hein, meninos e seus brinquedos, vai se fazer o quê?
Antes que comecem a malhar meu pai (qualquer comentário que eu considere ofensivo a ele será sumariamente deletado), deixa eu afirmar aqui que tive o melhor pai do mundo. Ele era presente, dedicado e companheiro. Como a bolsa só opera mesmo de manhã, ele saía de casa antes do nascer do sol e, se não tivesse almoço com cliente, já estava de volta bem cedo, para ficar com os filhos, brincar, passear ou, pior, muito pior, nos pegar no colégio.
Meu pai adorava nos pegar no colégio. E podem ficar certos que ele não ia de táxi.
Eu nunca fui dessas crianças bobas que tem vergonha dos pais. Eu tinha e tenho muito orgulho dos meus. Tinha vergonha era do carro.
Meu colégio funcionava em um condomínio de classe média alta da Barra da Tijuca. Nenhum dos meus colegas era pobrinho. Mas, mesmo assim, um BMW era demais. Teoricamente, era algo que não poderiam ter nem se pagassem.
E lá vinha o macho-alfa, na fila dos carros, dirigindo seu brinquedão.
Pra mim, não havia saída. Das duas, uma.
Os meninos que não gostavam de mim caçoavam com fúria, me chamavam de filho de bicheiro, que meu pai tinha que ser ladrão, só pode!, senão como teria um carro daqueles?!, bandido, bandido!
Na verdade, eu nunca liguei pra esses. Pior eram os meus amigos.
Eles vinham falar comigo com uma empolgação quase contagiante. Quase. Pena que nasci imune:
Caralho, que máximo, você tem uma BMW 1985, série JG8½c! Não acredito! É essa que tem a injeção eletrotástica barométrica?
Não sei.
Como assim não sabe? Você tem uma BMW 1985, série JG8½c na garagem e não sabe se ela tem injeção eletrotástica barométrica?!
Não. Não sei nem o que é isso.
E válvula de escape ontológica ígnea?
Também não sei.
Porra, mas você não sabe nada.
E eu respondia: por que você não pergunta pro meu pai?
E adivinham o que acontecia? Exatamente isso, claro.
Meus amigos iam pra minha casa, cercavam meu pai como se ele fosse Sócrates na ágora, sorriso de orelha a orelha, mais feliz do que nunca, e ficavam horas conversando sobre todas as especificações técnicas do carro.
Depois, vinha o inevitável passeio.
Para quem não conheceu a Barra na década de 80, era o verdadeiro oeste selvagem. Não havia sinais de trânsito, pardais, faixas de pedestres, acostamento, faixas, nada. A lei e a ordem só iam até a Gávea. Os retornos e sinais de trânsito na Avenidas das Américas são de 1994. Quando eu aprendi a dirigir, em 1991, todo inseguro e morrendo de medo, uma das coisas que mais me confundia era que as auto-pistas simplesmente não tinham as faixas pintadas e eu dirigia que nem um bêbado indeciso.
Enfim, nada me tira da cabeça que meu pai foi morar pra Barra justamente porque era o único lugar da cidade onde ele podia levar seus carros pra passear como se estivesse em uma autobahn prussiana. E ele passeava, meus amigos. Os carros não podiam reclamar de saudades de casa.
Pior era chegar na casa dos meus amiguinhos, meses depois, e ouvir até os pais comentando o passeio. Claramente, para meus amigos, não tinha sido só um passeio de carro, mas uma aventura memorável e única, uma história que se conta pra família assim que se chega em casa e passa a pertencer ao imaginário coletivo. E me cobriam de perguntas que eu não sabia responder.
Só uma única vez eu dirigi um dos carros importados do meu pai. Eu tinha 19 anos e namorava a Clarice. Iríamos passar o fim de semana no sítio dela, na serra, e na hora H, meu carro, um Suzuki Swift hatch 1.0, morreu. Meu pai estava fora da cidade e fora de alcance - antes de emails e celulares, lembram? - e eu, muito a contragosto, sem outra opção e me cagando de medo, deixei um recado pra ele na geladeira e subi a serra no seu BMW.
Pois bem. Eu estava dirigindo um BMW caríssimo e super potente, qualquer toquezinho no acelerador e ele já vai a 200km/h, qualquer movimento brusco no volante e a porra já dá um cavalo-de-pau. Cheguei no sítio de Clarice completamente estressado. Além disso, éramos adolescentes e tínhamos coisas mais interessantes pra fazer, como jogar sueca e conferir nossas coleções de selos búlgaros. Esqueci completamente de ligar pra casa pra dizer que tinha chegado bem.
Resultado: meu pai, que perdeu a irmã em um acidente de carro, surtou. Pegou meu Suzuki, que ele conseguiu botar pra funcionar, e subiu a serra já esperando ver os destroços fumegantes pelo acostamento. Não sabia o endereço do sítio de Clarice e ficou perambulando pela cidadezinha, no meu carrinho hipercompacto, perguntando pra todo mundo se alguém tinha visto um adolescente gordinho passar num enorme BMW esportivo. Uma cena bizarra.
Não sei não, mas como ele nunca fez nada parecido, nem antes nem depois, acho que estava preocupado era com o carro.
A única vez que chorei de medo na vida foi descendo a serra, no meio de uma tempestade, e meu pai no volante. Na época em que tínhamos casa em Itaipava, o carro muitas vezes ia e vinha cheio de crianças e adolescentes. Anos depois, todos trintões, barbados e com filhos, fui descobrir que muitos dos meus amigos de infância são tão traumatizados quanto eu pela experiência de descer a serra com meu pai. Meus primos começavam a vomitar já dentro da cidade.
Mas coitadinhos dos carros. Assim como um pastor alemão, um BMW também precisa de exercício.
Só fazer posts novos depois que os posts que mais me deram trabalho tenham uma quantidade de comentários proporcional ao tempo que demorei para escrevê-los.
Aiaiaiaiaiai! O que você quer dizer com isso? Que o nosso país com as dimensões continentais que tem deve passar desapercebido no cenário das grandes nações? Te dá prazer saber que é a capital da prostituição e do oba oba? Por que temos que abrir mão da identidade linguística? Aquela merdinha chamada Portugal, por incrível que pareça, estendeu seus domínios até além do oriente. Mas por que você acha que o patriotismo aprisiona? Todos os povos sentem orgulho quando ganham medalha de ouro nas olimpíadas e disputam hegemonias em varios esportes. Patriotismo sim, por que não? Afinal de contas, você é louco ou vira-casaca? So os filhos da puta do tio Sam podem ser patriotas?
Então quer dizer que a Luiza Parente dedica toda a sua vida à Ginástica Olímpica, faz todo o tipo de sacrifício pra ir às Olimpíadas e supera todas as barreiras pra ganhar o Ouro, tudo isso só para, no dia seguinte, patriotas por todo o Brasil se orgulharem: "Ganhamos o Ouro em Atlanta!"?
Ganhamos, é? Nós quem? Onde estava você quando a Luiza Parente treinava oito horas por dia? Você colaborou em alguma coisa? Levou lanchinho pra ela no intervalo? Emprestou dinheiro quando ela precisou? Fez vaquinha pra pagar a passagem, pelo menos?
Ah, então não fode.
Outra: "ganhamos de 3 a 1 do Vasco ontem!"
E eu pergunto: nós quem, cara-pálida? Você estava em campo? Você estava quiçá no banco? Você colaborou em alguma ínfima parte que seja da vitória? Então que porra é essa de "ganhamos de 3 a 1 do Vasco"? Quem ganhou de 3 a 1 do Vasco foram aqueles onze caras em campo, você não teve nada a ver com isso.
Ou, pior ainda: "O Brasil ganhou a Copa do Mundo! O Brasil, cara! O Brasil! Você não liga pro Brasil?" Leva a mal não, mas o Brasil não cabe num estádio de futebol. Quem ganhou não foi o Brasil, quem ganhou foi uma equipe. Nem eu, nem você e nem o Brasil tivemos nada a ver com isso. Aliás, se você levar em conta como esse país é ingrato com seus atletas, é mais provável de terem ganho apesar do Brasil.
Apropriação Quase Devida
Se fosse uma guerra, seria ainda assim ridículo, mas pelo menos haveria um fundo de verdade no ufanismo babaca:
"E aí, soube que tomamos Buenos Aires ontem?"
"Que tomamos, rapaz?! Você por acaso estava lá? Fez alguma coisa?"
E o outro poderia retrucar:
"Bem, sou contribuinte, algumas daquelas balas fui eu que paguei..."
Mas Dos Defeitos Todo Mundo Corre
Isaac Asimov, um dos poucos homens que admiro, conta uma história interessante. Ele era judeu e, uma vez, um de seus amigos judeus veio dizer, em tom de vitoriosa confidência, que os judeus eram zero vírgula alguma coisa da humanidade mas que tinham ganho trinta e tantos por cento dos Prêmios Nobel. Não é incrível? E ficou rindo sozinho, que nem um idiota.
O Asimov ouviu aquilo, pensou e respondeu: e você sabia que os judeus são também zero vírgula alguma coisa da população dos Estados Unidos, mas quase quarenta por cento dos gigolôs? O amigo ficou chocado. Sério? Sim, disse o Asimov. Faz você sentir vergonha de ser judeu, não é? E o outro: claro que não, não fui eu que fiz nada disso. Bem, respondeu Asimov, esse número eu inventei agora, mas se você não sente vergonha pelas coisas ruins que não fez, por que sente orgulho das coisas boas que também não fez? Aqueles Prêmios Nobel também não foi você que ganhou.
Uma outra cena que sempre vejo: um pobre estrangeiro faz alguma crítica ao Brasil e, mesmo se for a coisa mais unânime do mundo, cai todo mundo de pau em cima do infeliz.
E eu tento defender: mas o que ele falou não está coberto de razão, meu deus?!
Claro que sim, respondem os patriotas, entre porretadas, e a gente está cansado de saber disso, mas ele não tem nada que vir pra cá falar mal da gente!
Orgulho de Ser Brasileiro
Acho muito estranho tantas pessoas dizendo que têm orgulho de ser brasileiros.
Eu não tenho orgulho de ser destro. Não tenho orgulho de ter 1,79m de altura. Não tenho orgulho de ter olhos e cabelos castanhos. Não tenho orgulho, muito pelo contrário, dos meus 100 kg.
Por que cargas d'água teria orgulho de ser brasileiro?
Ser brasileiro, assim como ser destro, não é nenhum mérito meu, não é nada que eu fiz, foi uma circunstância fortuita e totalmente fora do meu controle.
Faz tanto sentido ter orgulho de ser destro quanto de ser brasileiro.
Pessoas Vaidosas e Intragáveis Eu devo mesmo entender tudo errado.
Enquanto vejo as pessoas tendo orgulho de ser católicas, vascaínas, cariocas, brasileiras, mangueirenses, circunstâncias fortuitas ou independentes de mérito pessoal, aquelas pessoas que têm um justificado orgulho das coisas que realmente fizeram, dos seus feitos individuais, são rotuladas de arrogantes, vaidosas, insuportáveis.
Outro dia, mais um escritor famoso veio dizer, em entrevista, que Gilberto Freyre era intragável de tão vaidoso. Tudo bem, Freyre era reacionário e tinha várias atitudes políticas indefensáveis, como apoiar toda e qualquer ditadura que visse pela frente, mas o homem foi um dos maiores gênios que o Brasil produziu. Casa Grande & Senzala é, na minha modesta opinião, a maior contribuição brasileira à cultura mundial, uma idéia límpida, bem defendida e insightful, que coloca Freyre no panteão dos grandes pensadores da humanidade. Ele tinha todo o direito de ser vaidoso e de ter orgulho do que fez.
Dizem que Washington Olivetto também é assim. Não conheço o Olivetto. Mas, se for, é porque tem todo o embasamento empírico para tanto: o homem é um dos profissionais mais premiados e reconhecidos da sua área em todo o mundo. Ou seja, as pessoas se orgulham de uma goleada da seleção, da qual não participaram em absolutamente nada, mas rotulam de vaidoso e arrogante um homem que tem orgulho de sua própria obra.
O Olivetto, pelo menos, tem orgulho dos gols que ele mesmo marcou.
Vidas Vazias e Medíocres
A façanha de Portugal nos séculos XV e XVI foi realmente incrível, mas os homens que a realizaram estão todos mortos. Não temos nada a ver com isso. Aos portugueses de hoje, só resta ler Camões e João de Barros e chorar pitangas.
Ter orgulho dos feitos dos outros é o cúmulo da babaquice. Sejam os outros a seleção brasileira, a Luiza Parente ou os navegadores portugueses do século XVI.
Por trás de todo patriotismo cego e ufanista estão pessoas pequenas, sem conquistas próprias das quais se orgulhar, tentando se apropriar indevidamente dos feitos dos outros.
Coletivo vs Individual - UPDATED
Naturalmente, a explicação está na velha dicotomia entre individual e coletivo.
O sucesso do indivíduo é sempre exclusivo. Gilberto Freyre é um gênio porque os outros não são. Os medíocres não têm como embarcar no sucesso de Freyre para alimentar seus próprios eguinhos. Para eles, o orgulho de Freyre por seu sucesso é um tipo de egoísmo, pois estão explicitamente excluídos dele.
Já as conquistas coletivas, militares ou esportiva,s se prestam mais à difusão entre a massa dos sem-conquistas. A ponte entre "Luísa Parente ganhou o ouro em Atlanta", "O Brasil ganhou o ouro em Atlanta" e "Ganhamos o ouro em Atlanta", da terceira para a primeira pessoa, é automática e relativamente indolor, permitindo que pessoas pequenas, que não têm nada do que se orgulhar, possam se apropriar indevidamente da conquista do outro e sentir aquele calorzinho de auto-estima que suas próprias vidas não lhes proporcionam.
Quando um medíocre reclama da vaidade ou arrogância de quem se orgulha dos seus próprios feitos, ele está na verdade ressentido por não poder se apropriar dessas conquistas com a facilidade que se apropria do penta.
(A versão original desse texto é de 2003. Ele foi reescrito. Gostou? Clique em algum dos links ou imagens, compre alguma coisa no Submarino e eu ganho uma comissão.)
Nada é mais importante pra mim do que liberdade de expressão e manutenção das conquistas do humanismo ocidental. O pior dessa história não é a barbárie dos muçulmanos, são os ocidentais que não estão cerrando fileiras em defesa do jornal dinamarquês.
Faço minhas as palavras do intelectual muçulmano Ibn Warraq, na Der Spiegel:
A democracy cannot survive long without freedom of expression, the freedom to argue, to dissent, even to insult and offend. It is a freedom sorely lacking in the Islamic world, and without it Islam will remain unassailed in its dogmatic, fanatical, medieval fortress; ossified, totalitarian and intolerant. (...)
Should we really apologize for Dante, Shakespeare, and Goethe? Mozart, Beethoven and Bach? Rembrandt, Vermeer, Van Gogh, Breughel, Ter Borch? Galileo, Huygens, Copernicus, Newton and Darwin? Penicillin and computers? The Olympic Games and Football? Human rights and parliamentary democracy?
The west is the source of the liberating ideas of individual liberty, political democracy, the rule of law, human rights and cultural freedom. It is the west that has raised the status of women, fought against slavery, defended freedom of enquiry, expression and conscience. No, the west needs no lectures on the superior virtue of societies who keep their women in subjection, cut off their clitorises, stone them to death for alleged adultery, throw acid on their faces, or deny the human rights of those considered to belong to lower castes. (...)
Are we in the west going to cave into pressure from societies with a medieval mindset, or are we going to defend our most precious freedom -- freedom of expression, a freedom for which thousands of people sacrificed their lives?
A casa da minha mãe, no Itanhangá, onde morei por alguns anos antes do casamento, está a venda. Quem souber de alguém que possa querer comprar, repasse o link. Enquanto isso, os curiosos e fofoqueiros podem clicar e ver as fotos.
Houellebecq é um dos poucos realmente grandes autores em atividade hoje. Ao lado dele, talvez apenas Lobo Antunes.
Houellebecq has established himself as one of the great international brands of popular literary fiction. But there is a great deal of disagreement over whether he's a genius, a fraud or a reprobate. Responses to his novels largely fall into three categories.
The first is euphoric: Houellebecq as visionary. According to this view, he sees the dehumanising effects of the market, the breakdown of religion and the family, and the unbearable tensions of Western life: the sexual misery, the inevitable conflict between Western morals and Islam. (...)
The second view is that, though his perspective is not necessarily right - and probably rather regrettable - it1s an interesting and prevalent one, and illuminates the attitude of many people in modern France and Europe. As Salman Rushdie put it, "Platform is a novel to go to if you want to understand the France beyond the liberal intelligentsia, the France that gave the left such a bloody nose in the last presidential election, and whose discontents and prejudices the extreme right was able to exploit." (...)
The third attitude is outright disapproval. Houellebecq is a disgusting sexist, racist, eugenicist and pervert, who ought to repulse us. He is a professional provocateur, a marketing whizz, whose success is down to his courting of controversy, to the racist jokes and great dollops of pornography in his work.
O Haiti foi a segunda nação do hemisfério ocidental a se tornar independente, depois somente dos Estados Unidos.
Sua independência foi um dos acontecimentos mais decisivos e marcantes da história mundial, praticamente determinando todo o curso da história latino-americana no século XIX. Não é exagero.
Toussaint de L'Ouverture, chefe da revolução, foi um daqueles grandes líderes que só aparecem de séculos em séculos. Derrotou exércitos da Inglaterra, Espanha e França - algumas vezes juntos. Unificou e libertou seu país. Foi inteligente, sensato, conciliador, decisivo. E, como tantos grandes homens (penso em Viriato, outro grande líder esquecido), foi morto à traição, pois não conseguiam derrotá-lo no campo de batalha.
Infelizmente, depois de sua morte, as coisas saíram do controle, houve massacres indiscriminados e destruição extensiva de propriedades - justamente os engenhos de açúcar que, por um lado, simbolizavam a escravidão mas, por outro, representavam a riqueza do Haiti. O país mergulhou no caos e na pobreza, e continua lá 200 anos depois.
Durante as guerras de independência latino-americanas, e durante os posteriores debates abolicionistas, o Haiti era o grande bicho-papão. Como fazer a independência sem haitizar o país? Como dar liberdade aos negros de modo que não saíssem queimando tudo e degolando os brancos? Na dúvida, melhor ser conservador, fazer a coisa aos poucos. É bom não facilitar com essa negrada bárbara.
Sem ler a literatura da época, fica difícil de quantificar o quanto a simples existência da revolução haitiana mudou tudo no curso da história política e econômica da América Latina.
Um líder do porte de Toussaint não merecia o Haiti de hoje.
* * *
Toussaint infelizmente foi cooptado pela esquerda e fica difícil de encontrar um livro sobre o Haiti que não seja fortemente ideológico. O maior clássico sobre o assunto, Os Jacobinos Negros, de leitura deliciosa, tem um apêndice com o título: "De Toussaint de Louverture a Fidel Castro", pra vocês verem! Mas vale a pena. Ideologia não faz mal se você não tragar.
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Hoje, passarei o dia em um simpósio sobre o Haiti. E já fico feliz só por Nova Orleans estar voltando a receber simpósios acadêmicos.
Matéria de hoje do The Times-Picayune, o jornal de Nova Orleans, sobre o simpósio do Haiti. Trecho:
Historians, teachers and students gathering today to discuss an early 19th century diaspora from St. Domingue, today's Haiti, will hear of how that mass exodus of planters, free people of color and enslaved Africans -- prompted by a slave revolt in the French colony -- swelled Louisiana's population by 10,000 and rapidly strengthened the new American territory's French Creole traditions.
But the discussion at the event, called Common Routes: St. Domingue -- Louisiana and sponsored by the Historic New Orleans Collection, may have a broader scope than intended because it comes against the backdrop of another diaspora of historic scale, one that threatens south Louisiana's intricate cultural fabric. (...)
A slave labor force transformed St. Domingue into the wealthiest spot in the New World while it was under French rule starting in the 1690s. The slave revolt in the early 1800s brought about the founding of only the second independent nation in the Americas and prompted the immigration of a diverse collection of people to Louisiana.
They in turn influenced the territory's music, architecture, literature, legal system and its use of the French language. Largely as a result of the mass resettlement, New Orleans became home to 160 French newspapers during the 19th century, said Dana Kress, a French literature professor from Centenary College in Shreveport who is among the event speakers.
"It was the influx of the people of St. Domingue that really allowed New Orleans to retain its French character," he said.
100. Girls enjoy always having something kind of wrong, like a headache or cramping or something. Remember: No matter how bad it sounds, she's going to outlive you.
99. Most women will not have sex for the first time with a guy unless their legs are shaved. If your date shows up and you spot stubble, she's trying to keep herself in line.
97. Beware of your girlfriend's single party friend or gay bud. They want her to be single with them and will encourage any bad behavior as often as possible.
94. Never trust a girl who has no girlfriends. She doesn't get along with other women because she's either bat-shit crazy or just plain mean.
83. Women always want to believe what you're saying is true.
73. Over the course of her life, a woman will use 10 men for every one she loves. If you lent her your car or helped her move and didn't get laid, you're one of the 10.
69. If you have something to hide, she'll find it.
67. Kiss her before two dates have gone by or you'll be 'friended.'
66. They can't live without tension. Every once in a while she's gonna pick a fight with you for no reason. Accept this as a running, inevitable theme and your relationship will make a lot more sense.
65. The most painless way to end an argument: Let her win.
57. Most women think they're better drivers than they are. Don't point this out while she's at the wheel or she'l freak and crash.
50. Women often buy shoes a size or two small because they're in denial about the size of their feet - which they can't stand.
49. They dream of one day peeing in a urinal.
47. According to the U.S. Bureau of Statistics, 23 percent of 18- to 34-year-old women live with their parents, versus 31 percent of you losers.
46. Women want to talk dirty, but they're afraid you won't respect them in the morning. Reassure her that letting go in bed doesn't make her less classy and she'll probably go wild. Jäger helps.
44. A psycho jealous girl will do anything to keep her man - including anal.
41. If she suddenly cuts her hair short, it might mean she no longer cares what you think of her. But that doesn't mean she doesn't care about someone else's opinion.
39. It never hurts to say you're sorry, even if you don't mean it.
38. Let her beat you at something once in a while - poker, chess, Ping-Pong- and she'll be more likely to give you what you want, like some peace and quiet.
37. Women's public bathrooms are about three times more disgusting than men's.
32. Girls will not sit on any toilet outside their own home or a five-star hotel. Everywhere else they're hovering above the toilet in a squat.
27. Gain her trust when you're out by calling her at 10 P.M. She'll go to bed content you're thinking of her, even if you're slurping Jell-O shots off some skank's cleavage.
24. A good but flawed man is a fixer-upper gem, and women love nothing more than home improvements.
21. More than half of surveyed females between 18 and 25 would prefer to be run over by a truck than be fat.
19. The more piercings she has, the more places she'll let you put it.
16. Chicks aren't afraid to get kinky; you just have to have the nerve to ask.
15. Girls don't want to date doormats. So make her proud and refuse to give up bowling night with the guys.
10. Ugly girls like to hang out with pretty girls because it makes them feel like they're more attractive. Pretty girls hang out with ugly girls for the same reason.
9. The minute she decides she's even mildly interested in you, she starts making mental pictures of what your kids would look like and imagining her first name with your last.
8. Sixty percent of women in the United States color their hair, according to L'Oréal (who are obviously hoping they can peer-pressure the other 40 percent).
7. Dated a stripper? Keep your mouth shut, stupid.
6. Rub a sheet of medium-grade sandpaper across your face. That's your five o'clock shadow when you kiss her. Now rub that sandpaper on your inner thigh. (Mind you, we're not suggesting you shave.)
A Receita americana mantém um computador exclusivo só para controlar a declaração de Bill Gates.
* * *
O que é mais bizarro? Um político tentando ser reeleito que diz que vai ficar sem sexo até a eleição ou quando ele volta atrás e diz que era só uma brincadeira e ele não consegue ficar sem sexo?
Testemunhas parecem indicar que Nova Orleans foi atingida por TRÊS twisters essa madrugada. O aeroporto sofreu tantos estragos que foi parcialmente fechado e muitas casas que mal estavam em pé depois do Katrina caíram de vez.
Em cada esquina dessa cidade, restos e sobras de vidas humanas esperam nas calçadas pelos lixeiros.
Eu fiquei bons minutos olhando todas essas fotos, pensando nos bons tempos em que estiveram na parede de alguma caloura cabeça oca e, agora, são só lixo.
E pensei também nas minhas coisas perdidas.
O pôster histórico da exposição que deu origem ao Museu de Arte Naif (o meu museu preferido!), um pôster em alto relevo do Rio, duas aquarelas de Paraty que comprei em minha lua-de-mel, um macaco de pelúcia que uma amiga querida trouxe pra mim de avião e do qual jurei nunca me separar e um bottom perfeito que a Bel me deu e estava alfinetado no macaco, e dizia "I am my art".
Não foram muitas coisas, eu sei. Tenho até vergonha de falar nisso. Conheço muita gente aqui que perdeu tudo, tudo, tudo. Mas a única dor que posso sentir de verdade é a minha.
Antes de emigrar, eu me desfiz de 99% da carga que eu vinha arrastando pela vida. Mantive só o essencial. Trouxe só aquelas coisas que não suportaria viver sem. Recordações preciosas de pessoas queridas. Perder apenas uma já teria sido demais.
E terminaram todas na calçada em frente à minha velha casa, esperando pelo lixeiro passar.
Recebi de presente o livro Um Ninho de Mafagafes Cheio de Mafagafinhos, de José Cândido de Carvalho, que eu estava muito a fim de ler. Mas veio sem nome do remetente. Será que o mecenas vai se apresentar ou ficará anônimo?
De qualquer modo, obrigado.
E, já que é meu aniversário na outra semana, por que não dar uma olhada em minha Lista de Presentes?
Vocês já pararam pra pensar? Quero dizer, parar tudo mesmo e pensar, como se pensar fosse uma atividade a qual você se dedica, como ler, escrever ou malhar?
Ontem, eu tirei o dia pra pensar. Tirando duas refeições e três caminhadas com o Oliver, eu fiquei na varanda o dia todo, tomando doses cavalares de chá de cravo (viciei) e fumando um cachimbo atrás do outro. Pensando. Pensando.
Agora, preciso conversar com um advogado penal pra tirar algumas dúvidas. Alguém se habilita?
Acabei de ler mais um romance de Henning Mankell. O homem realmente se tornou um dos meus escritores policiais favoritos. Sensacional. Agora, infelizmente, está na hora de parar de ler um romance policial por dia e começar as leituras da faculdade.
Minha aula de Escravidão Comparada simplesmente exige 3 a 4 livros por semana. Acompanhem a lista de leituras pra vocês verem.
Renata, a Detetive Particular (trecho d'O Elefante no Corredor)
No capítulo anterior do meu romance policial, um homem a quem meu narrador deve a vida foi sequestrado e, durante o sequestro, seu cachorro se perdeu em uma favela. Agora, um trecho inédito do segundo capítulo, que ainda estou escrevendo:
Ela virou o Romanée-Conti, que desperdício, e grunhiu: - O cliente sempre tem razão, mesmo quando é você. Qual é o trabalho?
Renata tinha uma agência de detetives em pleno Fórum de Ipanema. Ela era uns dez anos mais velha que Lílian e eu, entrando nos quarenta, mas ninguém diria. Também começara como advogada criminal e parece que tanto mexeu com bandido que pegou o gosto. Contratou as investigadoras com quem sempre trabalhava, montou uma equipe, largou o direito.
Pura oferta e demanda: escritórios de direito penal havia muitos; agências de detetive de alto nível, capitaneadas por uma mulher de pedigree impecável, família tradicional da Zona Sul, fluente em cinco línguas, só havia uma. A maioria dos clientes de Renata jamais teria chegado perto de um detetive particular que não fosse ela, se já não a conhecessem das ilhas de Búzios ou das pistas de Vail. E, tendo cavado seu próprio nicho, sem concorrentes, com clientes cativos nervosos que nem olhavam para a conta antes de assinar, Renata praticava preços absolutamente criminosos.
Sempre que tinha algum serviço sujo pra fazer, Lílian chamava Renata. Os casos de Lílian, aliás, geravam uma quantidade comlurbal de sujeira. Seguir pessoas, levantar fichas, grampear telefones, encontrar testemunhas relutantes, torcer seus braços até aceitarem depor, roubar doces de criancinhas, essas coisas divertidas que os advogados criminais fazem.
Para Lílian, naturalmente, Renata cobrava preço de mercado. Os casos eram mais interessantes e, às vezes, ainda geravam alguma publicidade positiva. Além disso, Lílian jamais pagaria a Tabela Vieira Souto e simplesmente procuraria outra agência. Renata, então, deixava para enfiar a faca nos clientes que nunca procurariam outros detetives para saber que cobraram um décimo do seu preço.
- Bem, - Tateei - e se eu dissesse que quero que você me encontre um cachorro que se perdeu numa favela?
- Tranquilo. Boa parte do nosso trabalho é encontrar bichinhos das dondocas. São tantos que esse ano eu até contratei uma moça que só faz isso. Uma pet detective, você acredita? Que nem o Ace Ventura, isso existe. E ela se paga. Semana passada, a menina recuperou uma catatua em plena Floresta daTijuca que a dona achava que nunca mais iria ver. Pagou dobrado. E não foi barato.
- Nunca é.
- E desde quando você tem cachorro? Não é responsabilidade demais? Você não consegue se comprometer nem com assinatura de revista.
- Longa história.
- Sempre é.
Renata era talvez a única mulher mais durona que Lílian na cidade, com uma grande vantagem. Lílian era alta, musculosa, queixo duro e quadrado, uma verdadeira cavala de força e vigor. Não enganava ninguém. Colocava todos em guarda.
Já Renata tinha um metro e meio de altura, pezinhos 35, branquinha, loirinha, angelicais olhos azuis de longos cílios, roupinhas de patricinha cabeça-oca. Parecia a proverbial bonequinha de porcelana.
Perguntem pro Assassino da Serra - esses nomes são cafonas, né? Coisa de jornal de pobre. Enfim, o homem se recusava a dizer onde estavam enterradas a maior parte das vítimas. A Delegacia de Homicídios do Rio, não um dos lugares mais civilizados do mundo, chegara até a pedir auxílio para uns PFs com especialização extra-oficial em técnicas medievais de interrogatório. Um deles tinha o pescoço mais grosso que minha cintura. Esperava-se que, na próxima geração, sua linhagem finalmente fizesse o salto para homo sapiens mas não era garantido.
E nada.
Renata trabalhava para a mãe de uma das vítimas. Depois que os federais voltaram pra Brasília lambendo as feridas, Renata conseguiu permissão pra ficar meia hora com o homem em uma cela. Só consentiram porque não sabiam mais o que fazer. Ela entrou desarmada, sem nenhum instrumento, com a promessa de não fazer nada irreversível.
Poucos minutos depois, já sabíamos a localização de todas as covas. E não pensem que Renata conseuguiu arrancar o segredo através de engenhosidades femininas - embora ela também saiba todos esses truques. Nada disso. Renata fez o homem confessar na base da velha e comprovada porrada.
Chamei Renata pra jogar tênis achando que ficaria indignada com a proposta de procurar um simples cachorro e, quem diria, sua agência tinha uma pet detective só pra isso.
Entretanto, a medida que eu lhe explicava a situação, ficava claro que as coisas não seriam tão fáceis assim.
Vejam bem, ninguém apoia mais do que eu a divisão de tarefas. Na época em que cada ser humano tinha que construir sua casa, costurar suas roupas e caçar sua comida, ninguém ia muito longe. A maior conquista da civilização foi permitir que o sapateiro, especialista em fazer sapatos, pudesse passar o dia inteiro fazendo sapatos, para assim acumular riqueza e comprar carne do caçador, roupa do alfaiate e assim por diante. Negar isso seria negar todos os sacrifícios dos nossos ancestrais. Uma heresia.
Então, ao invés de eu perder meu sacrossanto tempo procurando por um cachorro em uma favela, algo que nunca fiz em um ambiente que nunca frequentei, nada mais eficiente do que contratar alguém que é bom nisso enquanto eu faço o que sou bom fazendo - nascer rico.
Mas não se paga uma dívida de honra assinando um cheque e passando a responsabilidade adiante. Colocar dinheiro acima de honra é coisa de noveau-riche. Quem iria ter que enfiar os cornos na lama era eu.
Vocês já repararam que a maioria dos blogs portugueses tem uma quantidade simplesmente gigantesca de outros blogs linkados? Além de ser uma lista de leituras inviável (ninguém tem como ler tantos blogs) parece que é sempre a mesma lista.
[enfiando o barrete] A coisa cultural acontece por três razões, umas vezes cumulativas, outras não:
a) O lusoblogueiro tem na sua página o menu dos blogs que habitualmente consome, evitando perdas de tempo nos apontadores nacionais;
b) O lusoblogueiro "linka" quem quer que o "linke" de forma a poder alcançar alguma projecção (quase toda a gente controla o sitemeter e o technorati) ou publicidade dentro da comunidade;
c) O lusoblogueiro tem um critério académico-banana (é o meu caso), "linkando" os blogs dos amigos, os blogs que o "linkam" e os seus blogs favoritos.
Quanto a ser maneirismo nacional, há por aí muito quem faça o mesmo, Alex. Tchau aí.
Tem gente que acha que professor não trabalha. Batem no peito e dizem: você dá quantas aulas por semana? Seis? Isso é o quê? Doze horas de trabalho por semana? Ha! Pois eu fico no escritório mais de 50 horas por semana! E não tiro três meses de férias não!
Eu nunca trabalhei em escritório. Meu único trabalho formal foi ter sido sócio-gerente do SobreSites. Mas não conta, por motivos óbvios. Depois, trabalhando como consultor da Usability, passei muitos meses dentro das maiores empresas do Brasil, como Vivo, Banco do Brasil, Telemar, Petrobras, StarOne, e outras.
E deixa eu dizer uma coisa: esses caras não trabalham. Ninguém.
Eu recebia por projeto, então minha motivação era chegar na empresa, terminar logo o que tinha que fazer, ser pago e ir embora.
Mas o típico funcionário de escritório chega, toma café, folheia o jornal, fofoca com o colega do lado, repassa uma piada por email, fala no MSN, caminha vagarosamente até o banheiro, pára na copa pra fofocar, passa pela mesa do Paulinho pra combinar a saída da sexta, liga pra esposa pra ver como estão as coisas, etc etc.
Trabalho é algo que acontece à margem desse frenesi de atividade.
Vejam bem: não estou dizendo que ninguém trabalha ponto. Sim, em algum momento, alguém cria alguma riqueza.
Estou dizendo que o cara que bate no peito e diz que fica no escritório mais de 50 horas por semanas talvez nem se dê conta de que ele não trabalha nem 20 horas por semana, talvez menos.
Não é porque ele é preguiçoso. Qualquer pagamento por hora incita à preguiça. É inevitável. Você chega ali às 8 da manhã e sabe que só vai ser libertado às 17h, independente de dar o seu máximo ou de enrolar o dia todo.
O resto é natureza humana.
* * *
Não consigo deixar de pensar nessa manchete maravilhosa do The Onion:
E fico pensando: como as pessoas faziam pra vadiar antes da internet?
* * *
Já o professor é outra história.
Dar aulas é como subir em um palco. Por aquelas duas horas, você não pode atender celular nem parar cinco minutinhos pra ver seu email. Você não pode nem ir ao banheiro - a não ser que seja uma catástrofe iminente. Sabe-se lá quantas aulas já dei quase explodindo de vontade de cagar.
Você não pode coçar o saco, cuspir no chão, tirar meleca, sentar deitado na cadeira, bocejar, nada. Dezenas de pares de olhos estão fixados em você, colega. E nem todos são gente boa. Qualquer deslize pode se transformar na fofoca da semana.
Eles vão olhar sua roupa, a brancura da sua gola, a bainha da sua calça, o pé do seu cabelo, a brancura do seu dente, a limpeza das suas unhas, muito mais do que qualquer colega de escritório olha o outro. Em um escritório, todos olham todos. Em uma sala de aula, todos olham pra você. E depois comentam: viu que a sola estava descolando do sapato dele?
Quando um professor diz que dá doze horas de aula por semana, além do tempo adicional que ele gasta preparando aulas e corrigindo material, isso também quer dizer que ele trabalha por doze horas em um grau de intensidade que um trabalhador de escritório jamais imaginará.
Hoje, voltou a água quente e chegaram meus Phebos.
Tomei o meu primeiro banho perfeito desde que saí do meu apartamento em Jacarepaguá, em agosto de 2005: com água quente, com Phebo e de pé.
Sim, de pé. Vocês não devem lembrar, mas no meu banheiro californiano, feito sob medida para uma moça deficiente, eu tinha que tomar banho agachado. Nos últimos dias, os meus banhos frios pelo menos foram de pé, o que já é alguma coisa.
Seis Bolas de Golfe e uma Revista Rasgada - Atualizado
Ontem, chegaram alguns pacotes que enviei pra mim mesmo de Berkeley. Um deles, com meus papéis e livros, estava estranhamente leve.
Abri. O caixote, que foi enviado cheio, estava meio vazio. Não tive tempo de verificar tudo o que faltava mas, no mínimo, dois suéteres que coloquei para segurar os livros.
No lugar deles, seis bolas de golfe e uma revista rasgada.
Estou falando sério.
Fico pensando se não fui vítima de algum gênio do crime do roubo postal, e que as bolas de golfe são sua marca registrada. Você abre seus pacotes, suas coisas sumiram, vê as bolas de golfe e grita:
Oh não!, fui roubado pelo Carteiro do Mal!
***
Minha amiga Samantha escreveu:
Eu acredito sim. Ano passado fui visitar Nova Orleans e aproveitei para comprar umas lembrancinhas e mandar para a galera de casa, no Rio, pelo correio (moro em Chicago). Era coisa barata: camisetas, chaveiros, caneca, chocolate. Qual não foi a minha surpresa (e raiva) qdo minha avó ligou para agraceder. A caixa com os presentes estava toda revirada. Aparentemente chegou tudo, exceto os chocolates. Vê se pode, os caras roubaram os chocolates da minha vózinha!!!
Assumi logo que tinha acontecido no lado brasileiro dos correios, mas estou vendo que posso ter me enganado...
Ou seja, o problema é mesmo de New Orleans, e os caras são miseráveis mesmo.
UPDATED
Falei com dois carteiros e eles me disseram que, quando pacotes arrebentam (o meu estava arrebentado), os carteiros não têm como saber o que estava onde - uma possível explicação para as bolas de golfe. E que eu precisaria ligar pra um 1800, ver por onde passou o pacote e conferir nos achados e perdidos de cada centro.
E acabei de me dar conta que uma das coisas que sumiu foi um saquinho com todos os meus relógios.
Um blog sobre rebeldia, contemplação e sacanagem, regado a muita literatura e humor. Nosso assunto são as várias prisões que acorrentam o homem, como ambi�‹o, verdade e medo. Dê sua opinião!
160. Omil, Alba. Cuatro Versiones del Mart’n Fierro. [Argentina, 1993] Dez. (TulBib)
159. Estrada, Ezequiel Mart’nez. Muerte y Transfiguraci—n de Mart’n Fierro. [Argentina, 1948] Dez. (TulBib)
158. Alposta, Luis. La Culpa en Mart’n Fierro. [Argentina, 1998] Dez. (TulBib)
157. Lesser, Jeffrey. A Negocia�‹o da Identidade Nacional. (Negotiating National Identity. Immigrants, Minorities, and the Struggle for Ethnicity in Brazil.) [EUA, 1999] (TulBib.) Dez.1
143. Cadena, Marisol de la. Indigenous Mestizos. The Politics of Race and culture in Cuzco, Peru, 1919-1991. [EUA, 2000] Out.
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