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Friday, October 13, 2006

A Morte do Meu Cachorro, Conto

A Morte do Meu Cachorro faz parte do meu livro de contos Onde Perdemos Tudo.Onde Perdemos Tudo, por Alex Castro

Uma caminhada pelas ruas de Buenos Aires revela questões sobre amizade homem e mulher, as armadilhas da memória e as dores do começo da idade adulta.

Considero a melhor coisa que já escrevi. Um trecho:

* * *

Só a teimosia ainda me impele: presumir que eu seria capaz de escrever sobre Fiona foi uma temeridade, um desvario de velho carente. Não ando mais pelo Largo da Carioca; da próxima vez, faço um desvio pela Sete de Setembro.

Fiquei sem graça sim, é verdade - talvez a única verdade dita até agora. Houve um quinto sorriso, tão completo e tão sincero quanto o anterior. Sorriso também de corpo inteiro e todo meu. A história então, sob escrutínio, se esfacela:

Fiona me dá um aperto de mão mais caloroso, me fita com seus olhos incandescentes e sorri, fogosa:

- É muito bom mesmo você estar aqui comigo! - Estoura ela.

O sorriso, entretanto, não morre. Não, meus amigos, o sorriso continua lá. Gostaria de poder afirmar que ele permanecia congelado em seu rosto, mas naquele momento não havia nada congelado em Fiona: ela estava em ebulição, faiscando. Sejamos sinceros: seu corpo inteiro sorria pra mim.

Quem não suportou o calor fui eu: fracassei em gerir tamanho sorriso e cedi ante a pressão do seu carinho. Fiona me derrubou com uma erupção de amor.

Percebo agora o quão piedosa era a minha falecida versão conveniente dos fatos: eu não sabia o que fazer, não sabia em que buraco me enfiar. De que maneira poderia me defender daquela salva maciça de paixão sendo arremetida contra mim? O tal sorriso de corpo inteiro - há pouco desejado - era um fardo incômodo do qual eu precisava me livrar. Sem meios de corresponder aos sentimentos que Fiona disparava, eu ia fraquejando sob sua força.

Desse modo, e muito à revelia, preencho a lacuna do café-da-manhã: eu peguei o Clarín, eu comecei a ler, eu puxei o primeiro cigarro. Pobre Fiona, inocente ao menos dessas acusações, só fez tirar o jornal de seu colo e depositá-lo sobre a mesa. Vagarosamente, com mãos de relojoeiro.

O Clarín seria minha salvação, decidi, aliviado, e peguei um caderno qualquer do jornal. E enquanto eu abria as folhas, bloqueando minha visão de Fiona, tive um último relance de seu rosto. Ela sorria. Ainda.

Inexpugnável em meu refúgio de papel, não sei por mais quanto tempo Fiona sorriu. Por fim, deve ter desistido: afirmou um suspiro, acendeu um cigarro e escolheu uma parte do jornal pra ler. As facturas e os cortaditos, quando vieram, foram consumidos em silêncio.

* * *

Onde Perdemos Tudo, meu primeiro livro de contos, lançado diretamente na internet. São 5 contos, em 120 páginas, sobre o tema comum de perda.

O ebook, em formato pdf, pode ser comprado preferencialmente pela Amazon. Você paga US$3 (três dólares) e faz o download na hora, ou então paga R$7 através de depósito bancário e recebe o arquivo assim que entrar o dinheiro. Sem frete. Mais detalhes aqui.
Onde Perdemos Tudo, por Alex Castro
Em duas semanas, já foram vendidos 17 exemplares: 13 pela Amazon e 4 por depósito bancário. E meus santos leitores não estão se restringindo ao preço sugerido, teve gente pagando R$10, R$20, o que consciência mandar.

O elogiadíssimo projeto gráfico (o livro está lindo!) é do designer Ricardo Couto, selecionado através de um concurso promovido aqui pelo blog, idéia de São Mauro Amaral.

Ficou curioso? Instigado? Pô, sete reáu é uma merreca, vale a pena arriscar. Deixe de comprar uma bananada e torne-se acionista da novíssima literatura brasileira.

Quem sabe, vai ver é até bom!


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