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Sempre o Último a Saber, ou Elementar, meu Caro Watson (Reflexões de Futebófobo)
Gostei que vocês perceberam que essas reflexões não são nem irônicas nem provocadoras. Eu realmente não entendo nada de futebol, não assisto, não acompanho, não leio sobre, tenho uma visão totalmente externa da coisa e, às vezes, com tanta notícia, manchetes e comentários, eu fico mesmo perdido.
Por enquanto, assisti apenas ao primeiro tempo de Brasil vs Gana, e foi pelo SporTV. Ou seja, não ouvi o tão mal-falado Galvão Bueno. Mas percebi uma coisa.
Todo leitor de romances policiais sabe a função do Watson. É fundamental que exista um personagem mais burro que o leitor. Assim como a mocinha loira que se tranca em casa depois que o maníaco já entrou, a função do Watson é ser alvo dos gritos da platéia: por aí não, seu idiota, essa até eu sabia, sua anta!, fazendo assim o público se sentir um pouco mais espertinho.
A tecnologia de hoje permitiria perfeitamente que, em caso de dúvidas, o juiz corresse pra uma telinha ao lado do campo, visse a jogada em uns oitocentos mil ângulos diferentes, e pudesse tomar suas decisões baseadas em certeza absoluta. Na verdade, não precisava nem ele sair de campo. Poderia haver um segundo juiz, fora de campo, vendo o mesmo jogo que nós, em um canal de TV qualquer, cuja única função seria justamente soprar no ouvido do juiz-em-campo tudo o que ele não viu: foi falta sim, tava impedido, o outro nem encostou nele, etc.
Mas o futebol não é o esporte mais popular do mundo a toa. Os dirigentes da FIFA entendem perfeitamente a necessidade de um Watson. Em um esporte acompanhado por pessoas pobres, oprimidas e incultas do mundo todo, pessoas acostumadas a nunca ter razão, pessoas eternamente por baixo, é um raro prazer se sentirem mais espertos que o juiz. O bobão caiu na jogada do Fulano, nem viu que o gol foi de mão, burro!, até eu, aqui num televisor em preto e branco no deserto da Etiópia, vi que não valeu, otário!
E como os torcedores pelo mundo inteiro poderiam desopilar suas frustrações gritando com o juiz se o juiz tomasse sempre decisões corretas baseadas em evidências irrecorríveis?
A função do juiz é ser o marido traído do futebol. Para o jogo ficar emocionante, para aumentar a auto-estima do público, ele TEM que ser o último a saber, o pato, o otário, o assunto do cafezinho do dia seguinte.

