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Tuesday, June 20, 2006

Parada Gay

Sábado agora, a parada gay de São Paulo fez 10 anos. Em homenagem a ela, uma historinha.

2002. Eu ainda casado. Plena Copa do Mundo. Jogo da seleção e churrasco com um grupo dos meus amigos de infância.

Depois da comilança, eu e Diane nos levantamos e anunciamos estar indo pra praia de Copa ver a parada gay. Alguém quer ir junto?

Oh, o horror, o horror! Pela reação, parecia que tínhamos dito: vamos até o depósito de lixo comer merda, vocês acompanham?

Pra começar, não acreditaram: Ah, não, fala sério. Não pode ser. O Alex fala essas coisas só pra chamar atenção.

Ficamos tão surpresos com aquela reação que praticamente só o que pudemos fazer foi confirmar que sim, íamos sim, qual era o problema?

Alguns simplesmente nunca acreditaram. Para eles, ir a uma parada gay era algo terrível demais para conceber alguém fazendo por livre e espontânea vontade. Outros começaram a questionar minha masculinidade. E poucos, os que perceberam que era verdade, ficaram perguntando: por quê?! por quê?!, como se quisessem entender, meu deus, o que poderia levar alguém a ir até o depósito de lixo comer merda.

Eu e Diane sabíamos que aquele povo era careta. Nunca tínhamos falado do nosso casamento aberto nem das experimentações sexuais que fizéramos. Afinal, pra que chacoalhar demais suas cabecinhas? Ainda assim, foi um choque perceber que até mesmo um programa vovó como ir a uma parada e ficar em pé na calçada vendo os carros passarem (sem precisar fazer nada!) era demais para os seus preconceitos. Como iriam reagir se soubessem um décimo de quem éramos e do que fazíamos? Eu sabia que vivíamos em mundos diferentes, mas não imaginava que eram tão distantes.

Por um lado, eu saí de lá feliz, sabendo que estava casado com uma mulher que pensava como eu, que era do mesmo mundo que eu.

E, por outro, fiquei um pouco triste. Sim, eram meus amigos de infância, meus amigos mais antigos, eu os amava e sabia que me amavam também.

Mas nunca me aceitariam.

Update I

Escreveu a Renata:

Queria muito ter ido com alguns amigos meus. O engraçado é que, assim como nessa sua história, alguns colegas meus que se dizem descolados, livres de preconceitos e modernos se escandalizaram quando eu disse que gostaria de ter ido e foram logo querendo me rotular e crucificar pelo rótulo que assimilaram à mim só por querer ir. Me diz onde que isso é atitude de gente "livre de preconceitos"?
A triste e dura verdade é que ninguém pode bater no peito e se dizer livre de preconceitos. (A não ser, claro, que você seja um idiota; nesse caso, pode falar o que quiser.) Só nos resta mesmo buscar a companhia de pessoas que tenham os mesmos preconceitos que nós. Eu, por exemplo, procuro andar com quem tem preconceito contra gente machista, careta, fraca, baunilha, homofóbica, racista, burra, humilde, vacilona e chata de modo geral.

Update II

Muita gente disse que não é preciso ir à Parada Gay para demonstrar não ter preconceitos. Escreveu o Kita:
Não iria pelo mesmo motivo que não iria numa passeata da CUT, ou num campeonato de bocha. Não sinto necessidade de ir no Monsters of Rock só pra mostrar que não tenho preconceito com metaleiro.
Vejam bem. Não há problema algum em não ir à Parada Gay. Eu nunca tinha ido, provavelmente, nunca teria ido, se não fosse minha ex-mulher querer ir, e, se ninguém mais me levar, nunca irei de novo. Eu também não sou de festa.

O que me chocou foi a reação dos meus amigos quando eu disse que ia.


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