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Friday, June 9, 2006

Duas Vezes Junho, por Martín Kohan

 Duas Vezes Junho MARTIN KOHAN  Idelber está começando hoje um novo Clube de Leituras. O primeiro livro é Duas Vezes Junho, romance argentino de 2002, escrito por Martín Kohan.

Como parece que eu e Idelber não concordamos em quase nada (exceto, talvez, Grande Sertão Veredas), eu confesso que não me apaixonei pelo livrinho, não.

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O livro se passa em dois junhos, separados por quatro anos, em dias de derrota da seleção argentina de futebol. Há mais detalhes que devem querer dizer alguma coisa para quem entende, mas que não dizem nada pra mim. Maradona quase não participa do primeiro jogo mas é a estrela do segundo. O primeiro jogo se passa na Argentina e o segundo, quatro anos depois, na Espanha, etc.

Não é dito se os jogos são em Copas do Mundo ou não. Que eu saiba, podem ser amistosos, ou algum outro campeonato qualquer que eu nunca nem ouvi falar. Não sei os anos em que foram disputadas Copas do Mundo - tenho como saber, óbvio, basta pegar 2006 e ir contando pra trás, mas eu teria que calcular, não é uma informação que eu saiba. Não sei se já foi disputada alguma Copa do Mundo na Argentina. Não tenho nem como dizer com certeza em que anos se passam os dois episódios, mas provavelmente 1978 e 1982.

Não são informações esotéricas, claro. Me dê uma conexão à internet e 30 segundos e eu descubro tudo. Mas resta o fato de que o livro não me dá essas informações, presumivelmente porque elas são auto-evidentes para 99,9% dos seus leitores.On the Road, de Jack Kerouac

Assim como que para mim, digamos, se um livro mencionar o Dia D, ninguém vai precisar me dizer que ele se passa na França, em junho de 1944: eu vou saber.

Uma amiga disse que não gostou de On the Road, de Kerouac, porque parece um livro de meninos escrito para meninos, um grande clube do bolinha onde ela não se sente bem-vinda.

Bem, Duas Vezes Junho claramente também não foi escrito pra mim.

(Pra ficar claro: não estou reclamando do livro não soletrar essas informações. Estou só achando graça de eu ignorar tão completamente informações que imagino serem tão óbvias pra todo mundo!)

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Entre tantas cenas de tortura e morte, o trecho que mais me chamou a atenção foi a descrição da reação popular à derrota da Argentina no primeiro jogo. As pessoas andam pelas ruas, arrasadas, destruídas, suas vidas sem sentido, sem saber o que fazer, pra onde ir.

Eu não consigo ter empatia com algo assim. Se eu não vivesse no Brasil e visse esse tipo de coisa acontecer, eu não acreditaria. Ora, mesmo já tendo visto, eu ainda assim não acredito.

Dá vontade de escrever uma resenha criticando a falta de verossimilança do livro: Kohan perdeu a mão, sua descrição da derrota da seleção argentina não faz nenhum sentido. Por que aquelas pessoas se sentiriam tão mal assim por causa do resultado de uma simples partida de futebol? Tinham algum parente em campo? Tinham apostado altas quantias no resultado? Não dá pra acreditar que um mero joguinho entre homens suados e peludos possa despertar esse tipo de reação em completos estranhos!

Naturalmente, Kohan não está errado nem foi inverossível. Você, amigo leitor, já deve ter ficado puto ou deprê, alegre ou empolgado, porque seu time ganhou ou perdeu.

O louco, claramente, sou eu.

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Os capítulos do livro são numerados não sequencialmente. Os primeiros são: 497, 128, 118, 1978, 80.000, etc.

Esse é o tipo de coisa que já me faz brochar. Eu não gosto de enigmas. Se quiser resolver um enigma, eu faço palavras cruzadas. E eu odeio palavras cruzadas, justamente porque não tenho paciência pra enigmas.

Eu vejo uma coisa assim e já fico imaginando o autor sentado em sua mesa, rindo pra si mesmo e pensando no trabalho que seu leitor terá pra quebrar seu código, solucionar seu enigma, decifrar seus signos. Grande Sertão: Veredas JOAO GUIMARAES ROSA

Não é nem que sejam enigmas tão complicados assim. Alguns são óbvios. 1978 é o ano em que se passa a história. 80.000 é a capacidade de um dos estádios citados. A questão é outra: por que eu deveria perder meu valioso tempo entrando nesse jogo? Pra quê?

Vejam bem, existem livros difíceis que valem muito a pena, cuja dificuldade não me parece gratuita, como Grande Sertão Veredas, alguns de Clarice e toda a obra de Lobo Antunes e Mia Couto.

Mas não consigo dar confiança para autores que tenho a impressão de terem propositadamente complicado seus livros só pra mistificar leitores e acadêmicos, como Joyce, Beckett e Osman Lins.

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Duas Vezes Junho começa muito bem, com uma questão instigante: o quão cedo se pode começar a torturar uma criança?

Mas, daí em diante, ao invés de explorar o drama humano da situação, da ditadura, da desumanidade, o autor parece se preocupar mais com artifícios literários. Em detrimento de personagens completos sofrendo e amando, temos um mosaico de cenas desconexas em capítulos com números misteriosos habitados por personagens sem empatia.

Não adianta. Talvez seja preconceito meu.

Literatura é sobre pessoas vivas, pulsantes, entrando em conflito umas com as outras. Se o livro tem isso e também faz suas firulas estilísticas literárias, tanto melhor. Se não vejo esse drama humano essencial no enredo, não vai ser a excelência estética da forma que vai salvar o romance.

Sobre Héroes y Tumbas, de Ernesto SábatoPelo contrário, só realça sua artificialidade.  Manual dos Inquisidores, O ANTONIO LOBO ANTUNES

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Vejam bem, não sou um classicista reacionário. Quando muito, estou comparando Kohan com outros romancistas ibero-americanos contemporâneos que trataram de tema semelhante usando ferramentas semelhantes.

Em termos de romance pós-moderno, de narrativa fragmentar, desconexa e onírica, abordando as questões éticas e os dramas humanos de uma ditadura em colapso, recomendo sem reserva duas obras-primas: Manual dos Inquisidores, de Lobo Antunes, e Sobre Heróis e Tumbas, de Ernesto Sábato.

Aliás, estou indo daqui a pouco pra Joinville, 15 horas no ônibus, e estou aproveitando pra levar três Lobo Antunes comigo: Fado Alexandrino, O Esplendor de Portugal e Exortação aos Crocodilos. Me desejem sorte: o homem é difícil, mas vale muito a pena.

 Esplendor de Portugal, O ANTONIO LOBO ANTUNES  Exortação aos Crocodilos ANTONIO LOBO ANTUNES  Fado Alexandrino ANTONIO LOBO ANTUNES

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Muitos outro blogs também estão falando sobre Duas Vezes Junho hoje. Veja a lista completa lá no Idelber.


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