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Sunday, April 2, 2006

Os 100 Livros do Século

Faz alguns anos, deve ter sido na virada do milênio, a Folha convidou um painel de intelectuais para escolher os melhores livros do século. De todas as listas similares que li, foi a que mais gostei, e a adotei com guia particular de leitura.

Via de regra, as listas que eu encontrava eram ou elaboradas por estrangeiros e não tinham nada a ver com a minha realidade, ou então por brasileiros ufanistas, que pareciam achar que dos 100 maiores livros do século, no mundo todo!, mais da metade eram nacionais.

Essa lista me pareceu perfeita. Os autores tiveram a serenidade de não enchê-la de nomes brasileiros. Dois em 100 está de bom tamanho. Grande Sertão Veredas não poderia faltar, mas Macunaíma foi uma senhora forçação. E cadê Clarice?

Por outro lado, se não era próxima ao ponto de estar cheia de brasileiros, era próxima ao ponto de estar cheia de latino-americanos. Corri atrás dos nomes latinos e conheci muita gente boa, como Lezama, Astúrias, Rulfo, Carpentier, Guiraldes, Casares.

Dá até para perdoar a omissão de A Hora da Estrela, ou Água Viva, por estarem muito próximos, mas omissão imperdoável é Sobre Heroes y Tumbas, do Sábato. De resto, está todo mundo aí. Também achei que há um excesso de Beckett: o homem é bom, mas nem tanto. E Os Cus é dos livros mais fracos do Lobo Antunes, mas os outros talvez sejam recentes demais.

Não há nenhum livro do último quartel do século, o que é até compreensível, pela proximidade. Mas fariam melhor então de chamar a lista de os melhores livros de 1900-1975, ou talvez até devessem ter feito a lista do século 1875-1975.

Mas são detalhes. A lista é boa, tem me servido bem e, por isso, a compartilho com vocês. Os itens negritados eu já li, inteiro ou em grande parte. No total, 34 em 100. Ainda falta um bocado.

Em vermelho, os que eu acho que não deveriam estar na lista. Dos 34, pouco menos da metade, 13, eu acho que não merecem essa distinção.

Vamos à ela.

1°- Ulisses (1922) Joyce (1882-1941). (it's not a novel, it's a fucking practical joke!)

2°- Em Busca do Tempo Perdido (1913-27) Proust (1871-1922).

3°- O Processo Kafka (1883-1924).

4°- Doutor Fausto (1947) Mann (1875-1955).

5°- Grande Sertão: Veredas (1956) Rosa (1908-1967).

6°- O Castelo (1926) Kafka.

7°- A Montanha Mágica (1924) Mann.

8°- O Som e a Fúria (1929) Faulkner (1897-1962).

9°- O Homem sem Qualidades (1930-43) Musil (1880-1942). (hilário, preciso terminar!)

10°- Finnegans Wake (1939) Joyce.

11° A Morte de Virgílio (1945) Herman Broch (1886-1951).

12° Coração das Trevas (1902) Conrad (1857-1924).

13° O Estrangeiro (1942) Camus (1913-1960).

14° O Inominável (1953) Beckett (1906-1989).

15° Cem Anos de Solidão (1967) García Marquéz (1928).

16° Admirável Mundo Novo (1932) Huxley (1894-1963).

17° Mrs. Dalloway (1925) Woolf (1882-1941).

18° Ao Farol (1927) Woolf.

19° Os Embaixadores (1903) James (1843-1916).

20° A Consciência do Zeno (1923) Svevo (1861-1928).

21° Lolita (1958) Nabokov (1899-1977).

22° Paraíso (1960) José Lezama Lima (1910-1976).

23° O Leopardo Lampedusa (1910-1976).

24° 1984 (1949) Orwell (1903-1950).

25° A Náusea (1938) Sartre (1905-1980).

26° O Quarteto de Alexandria (1957-1960) Lawrence Durrell (1912-1990).

27° Os Moedeiros Falsos (1925) André Gide (1869-1951). ("Les Faux-Monnayeurs", França).

28° Malone Morre (1951) Beckett.

29° O Deserto dos Tártaros (1940) Dino Buzzati (1906-1972). ("II Deserto dei Tartari").

30° Lord Jim (1900) Conrad (1857-1924).

31° Orlando (1928) Woolf. (unreadable, pointless)

32° A Peste (1947) Camus.

33° Grande Gatsby (1925) Fitzgerald (1896-1940).

34° O Tambor (1959) Grass (1927).

35° Pedro Páramo (1955) Juan Rulfo (1918-1986). (ai ai, the jury is still out na minha cabeça mas não tenho nenhuma simpatia por esse livrinho non-sense)

36° Viagem ao Fim da Noite (1932) Celine

37° Berlin Alexanderplatz (1929) Alfred Döblin (1878-1957).

38° Doutor Jivago (1957) Boris Pasternak (1890-1960).

39° Molloy (1951) Beckett (1906-1989).

40° A Condição Humana (1933) André Malraux (1901-1976).

41° O Jogo da Amarelinha (1963) Cortázar (1914-1984).

42° Retrato do Artista quando Jovem (1917) Joyce. (tem todos os defeitos de Ulysses e nenhuma das qualidades)

43° A Cidade e as Serras (1901) Eça de Queirós (1845-1900).

44° Aquela Confusão Louca da Via Merulana (1957) Carlo Emilio Gadda (1893-1973).

45° Vinhas da Ira (1939) Steinbeck (1902-1968).

46° Auto da Fé (1935) Elias Canetti (1905-1994).

47° À Sombra do Vulcão (1947) Malcolm Lowry (1909-1957). (o autor era um bêbado idiotizado, and it shows.)

48° O Visconde Partido ao Meio Calvino

49° Macunaíma (1928) Andrade (1893-1945). (sua presença na lista é apelação pura de brasileiro sem noção. Macunaíma é vinte vezes pior do que o pior livro dessa lista.)

50° O Bosque das Ilusões Perdidas (1913) Alain Fournier (1886-1914). (muito bom, mas não está no nível dos 100 melhores do século, post sobre ele aqui)

51° Morte a Crédito (1936) Céline (1894-1961).

52° Amante de Lady Chatterley (1928) Lawrence (1885-1930).

53° O Século das Luzes (1962) Carpentier (1904-1980).

54° Uma Tragédia Americana (1925) Theodore Dreiser (1871-1945).

55° América (1927) Kafka.

56° Fontamara (1930) Ignazio Silone (1900-1978).

57° Luz em Agosto (1932) Faulkner.

58° Nostromo (1904) Conrad.

59° A Vida Modo de Usar (1978) Georges Perec (1936-1982). Cia das Letras.

60° José e seus Irmãos (1933-1943) Mann.

61° Os Thibault (1921-1940) Roger Martin du Gard (1881-1958).

62° Cidades Invisíveis (1972) Calvino (1923-1985)

63° Paralelo 42 (1930) dos Passos (1896-1970)

64° Memórias de Adriano (1951) Yourcenar (1903-1987). (ver comentário ao 50)

65° Passagem para a Índia (1924) Forster (1879-1970).

66° Trópico de Câncer (1934) Miller (1891-1980).

67° Enquanto Agonizo (1930) Falkner.

68° As Asas da Pomba (1902) James (1843-1916)

69° O Jovem Törless (1906) Musil.

70° A Modificação (1957) Michel Butor (1926). Minuit ("La Modification").

71° A Colméia (1951) Camilo José Cela (1916). (uma deliciosa surpresa e um dos meus livros preferidos de todos os tempos, post aqui)

72° Estrada de Flandres (1960) Claude Simon (1913)

73° A Sangue Frio (1966) Truman Capote (1924-1984).

74° A Laranja Mecânica (1962) Anthony Burgess (1916-1993).

75° O Apanhador no Campo de Centeio (1951) Salinger (1919). (haha, que piada. não entra nem na lista dos 100 melhores romances da semana em que foi lançado. em termos literários, é a encarnação do mal: mal bolado, mal concebido, mal escrito. só consegue ser melhor do que Macunaíma porque aí também seria covardia.)

76° Cavalaria Vermelha (1926) Babel (1894-1944).

77° Jean Christophe (1904-12) Romain Rolland (1866-1944).

78° Complexo de Portnoy (1969) Roth (1933).

79° Nós (1924) Evgueni Ivanovitch Zamiatin (1884-1937). (ver comentário ao 50)

80° O Ciúme (1957) Allain Robbe-Grellet (1922). ("La Jalousie")

81° O Imoralista (1902) Gide (1869-1951). ("L'Imoraliste") (ver comentário ao 50)

82° O Mestre e a Margarida (1940) Mikhail Afanasevitch (1891-1940)

83° O Senhor Presidente (1946) Miguel Ángel Asturias (1899-1974).

84° O Lobo da Estepe (1927) Hesse (1877-1962).

85° Os Cadernos de Malte Laurids Bridge (1910) Rilke (1875-1926).

86° Satã em Gorai (1934) Singer (1904-1991) (ver comentário ao 50. o autor é talvez o melhor contista do século mas seus romances não estão à altura.)

87° Zazie no Metrô (1959) Raymond Queneau (1903-1976).

88° Revolução dos Bichos (1945) Orwell.

89° O Anão (1944) Pär Lagerkvist (1891-1974) ("Dwarf").

90° The Golden Bowl (1904) James.

91° Santuário (1931) William Falkner.

92° Morte de Artemio Cruz (1962) Fuentes (1928).

93° Don Segundo Sombra (1926) Ricardo Guiraldes (1886-1927).

94° A Invenção de Morel (1940) Adolfo Bioy Casares (1914).

95° Absalão, Absalão (1936) Falkner.

96° Fogo Pálido (1962) Nabokov (1899-1977).

97° Herzog (1964) Bellow (1915).

98° Memorial do Convento (1982) Saramago (1922).

99° Judeus sem Dinheiro (1930) Michael Gold (1893-1967).

100° Os Cus de Judas (1980) Antônio Lobo Antunes (1942). (se fosse escolher um Lobo Antunes para estar nessa lista, seria o Manual dos Inquisidores. esse aqui é apenas o seu segundo livro, o estilo magistral que o caracteriza ainda estava embrionário.)

E você, amigo leitor? Qual o seu preferido? Quais você já leu?


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