Quer comprar no Submarino? Entre por aqui e eu ganho 8%.

O que você ainda está fazendo aqui? O LLL mudou de endereço. Atualizem bookmarks e links.

Novos posts, agora, só em
http://www.interney.net/blogs/lll

Ou então, assine o RSS: http://feeds.feedburner.com/LiberalLibertarioLibertino


Friday, April 28, 2006

Consumismo

Eu tenho um amigo que, como tantos homens no começo dos 30, vive pro trabalho, trabalha que nem um mouro e está sempre cansado. De vez em quando, ele lê os meus textos e vem me dizer que queria muito ver a vida como eu vejo, não dar tanta importância a essas coisas, saber relaxar mais.

Super MáquinaEle chega em casa com o corpo tão moído e o cérebro tão entorpecido que não consegue fazer nada de útil a não ser se jogar em frente a tv e zumbizar, vendo seriados na TV a cabo. Outro dia, ele comprou o DVD da primeira temporada da Super Máquina. Pagou R$200.

Eu disse pra ele que viver a minha vida não é difícil. Basta você simplificar as coisa. Trabalhar menos, gastar menos. Mas tem um preço: abdicar de ser consumidor.

O DVD da Super Máquina ficou na minha cabeça como um símbolo do consumismo. Além de ser caro e inútil, é um seriado absolutamente idiota.

Até meu amigo concordou.

* * *

A humanidade sempre sonhou que o avanço tecnológico liberaria o tempo do homem. Fazia sentido. No século 19, demorava-se um mês pra fazer 100 sapatos. Com os avanços da tecnologia, podemos fazer esses 100 sapatos em um dia. Não é perfeito? Mais tempo para brincar, passear, andar sob o sol.

O problema não é a tecnologia, claro, que é moralmente neutra.

O sistema capitalista nos acena com cada vez mais produtos interessantes (iPods, TVs de plasma, carros com GPS), que nos obrigam a trabalhar cada vez mais para poder ganhar cada vez mais dinheiro para consumir cada vez. E quanto mais consumimos, mais queremos consumir, e mais temos que trabalhar pra poder consumir ainda mais.

Sem estimular essa nossa ganância primordial, o capitalismo quebra.

Seria desperdício, pensa o sapateiro, fazer 100 sapatos em um dia e deixar o equipamento ocioso. É muito tentador fazermos 3 mil sapatos por mês. Podemos expandir os negócios, ganhar mais dinheiro, economizar, ter mais segurança. Sei lá, pode acontecer alguma coisa, o futuro a gente nunca sabe. É melhor aproveitar pra ganhar agora.

Quase dá pra ouvir o clang metálico quando a armadilha se fecha.

* * *

Quando eu era jovem e muito rico, eu tinha essa idéia meio preconceituosa de que era preciso muito dinheiro para se viver. No meu mundo, tudo era muito caro: bastava uma aritmética simples para concluir que só ganhando muito, muito dinheiro para manter aquele estilo de vida.

Buscando essa quimera, montei uma empresa e, logo depois, fali. Meu pai e minha mãe não estavam em condições de me ajudar financeiramente com nada. Fui morar com a esposa na casa da minha mãe, e pagando aluguel, ainda por cima. Vendi o carro e fiquei a pé pela primeira vez desde os 17 anos, uma experiência bem mais emasculante do que eu imaginaria.

Então, abri o jornal de domingo e fui procurar um modo de ganhar dinheiro. A demanda por professores de inglês era gigantesca e eu estava em posição ideal de supri-la. Passei dois meses espalhando currículos até obter a primeira resposta. Tinha dias que eu pegava mais de oito, nove ônibus pra dar duas ou três aulas em pontos diferentes da cidade. Foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido.

Percebi que não precisava ter medo da vida. Não são necessários R$15 mil por mês para ser feliz. Com poucas horas de aulas em dias alternados da semana eu já conseguia ganhar o suficiente para pagar minhas contas básicas - e viver como um bicho, é verdade, mas sem depender de ninguém e saqueando a biblioteca da PUC. Se e quando eu precisasse de mais dinheiro, bastava encher progressivamente os outros horários. Além disso, minha reputação na praça ainda era boa o suficiente para que trabalhos de consultoria surgissem esporadicamente aqui e ali.

Essa certeza de que eu conseguia me sustentar sozinho (e com esforço mínimo) foi talvez a revelação mais importante da minha vida.

As pessoas acham que precisam se escravizar dez horas por dia em um escritório sem janelas para poder viver. Que o único modo de terem tranqüilidade na vida, de serem consumidores, de garantirem sua velhice, é vendendo a alma ao mercado de trabalho.

Não é verdade. E isso não é vida.

Se a sua vida é isso, você quer viver pra quê?

* * *

Muitas das pessoas de esquerda que mais vociferam contra o capitalismo globalizante são as que mais compram esse discurso, trabalham sem parar e consomem tudo quanto é badulaque. Hipócritas que são, sustentam a estrutura que criticam.

Eu não sou de esquerda. E nem de direita. Esse texto não é uma crítica ao capitalismo. O capitalismo é lindo, cria riqueza e gera felicidade. Para isso, entretanto, ele escraviza as pessoas dentro do seu paradigma de mais trabalho e mais consumo, mais consumo e mais trabalho.

As pessoas são agentes racionais. Ninguém é obrigado a comprar iPods ou comer Big Macs. Assim como as empresas são agentes livres e têm direito de vender seu peixe e anunciá-lo e promovê-lo, as pessoas também são agentes livres e tem direito de não comprá-lo. As pessoas acreditam nos discursos em que querem acreditar.

O capitalismo não me incomoda. Ao contrário de outras ideologias, ele pelo menos tem a grande vantagem de não obrigar ninguém a nada. Eu, por exemplo, me sinto totalmente livre para viver à margem do capitalismo.

* * *

Hoje, já não sou consumidor faz tempo.

Minha única compra cara foi meu computador, que eu precisava pra trabalhar. CDs não compro desde o Napster. DVD só comprei um. Livros eu leio na biblioteca. Gibis eu larguei. Quase não vou ao cinema. Não janto fora. Não tenho nem celular. Nenhum gadget.

(Outro dia, num grupo de amigos, vi um cara com uma cigarreira prateada na mão, perguntei o que era, e todos sorriram de lado, devem ter achado que vim do meio da selva, pois devia ser o único ali que nunca tinha visto um iPod. E até agora eu ainda não entendi qual é a grande vantagem de andar por aí carregando suas músicas.)

Mas eu vivo de bolsa em um país estrangeiro, uma bolsa que é só 3 mil dólares anuais acima da linha de pobreza oficial determinada pelo governo. Divido uma casa com outras duas pessoas, o que nem sempre é agradável. Compramos comida e cozinhamos em casa. Estou escrevendo isso numa mesa e sentado numa cadeira que já estavam na casa quando cheguei. Tenho um radinho de pilha onde ouço rádios locais. Durmo num colchão. Não temos TV. Muito menos TV a cabo. Nunca viajo. Só ligamos o ar quando a temperatura passa dos 90 graus.

* * *

A verdade é que ninguém vai tomar essa decisão por nós. Tudo nos empurra para a armadilha do consumo capitalista. Felizmente, pra sair dela, só é necessário vontade.

Não, eu não vou pegar esse emprego, porque ele vai me fazer trabalhar 10h por dia e ninguém merece trabalhar 10h por dia. Ele paga R$5 mil por mês e, sim, preciso de R$ 5 mil por mês se eu quiser comprar o DVD da Super Máquina, ou passar férias em Bonito, ou comprar um novo home theather, mas não preciso de R$ 5 mil pra viver.

* * *

Vejam bem: eu não estou dizendo que meu modo de vida é melhor do que os dos outros. O LLL não vende certezas, lembram? Ele é o melhor estilo de vida pra mim, senão não o teria escolhido, e só. Vocês que se virem.

Super MáquinaNa verdade, todo esse texto foi somente pra responder ao meu amigo.

É fácil viver uma vida mais simples, basta você abdicar de ser consumidor. Não há como separar as duas coisas.

O DVD da Super-Máquina é bom (sic!) mas ele foi comprado com o dinheiro das suas 10h de trabalho de por dia. Se você trabalhasse menos e ganhasse menos, jamais teria R$200 sobrando pra gastar em besteira, iria usar esse dinheiro pra comprar arroz, feijão e frango. Por outro lado, se você não trabalhasse 10h por dia, 6 dias por semanas, você não estaria sempre exausto e não precisaria anestesiar seu cérebro vendo DVDs de seriados idiotas.

O que complica sua vida é justamente ser consumidor. É isso que te joga direto nas garras do paradigma capitalista.

Update

Quem fala da ditadura do capital não sabe o que é uma ditadura de verdade. Deveriam ter experimentado as ditaduras do Stalin (ou do Pinochet) pra saber o que é ditadura.

O belo do capitalismo é justamente, além de gerar riqueza e felicidade em uma proporção fora de escala com qualquer outro sistema já inventado, que ele não obriga ninguém a nada. Você pode ser anti-capitalista e anti-globalização na Suiça ou em Nova Iorque e ainda assim usufruir de toda a riqueza, sabedoria e conforto acumulados pelo capitalismo, inclusive proteção da lei, liberdade de expressão, habeas corpus, etc. Por outro lado, vá tentar ser anti-comunista em Cuba ou anti-sharia em Teerã.

O que os malucos-beleza de Berkeley não entendem é que Berkeley só é o berço da contra-cultura mundial porque fica em uma das regiões mais prósperas do país mais próspero de todos os tempos. Sua contra-cultura é 100% bancada pelo capitalismo internacional.

Quem passa o dia inteiro nos canaviais de Cuba pra tentar alimentar sua família não tem nem tempo, nem inclinação e nem direito constitucionalmente garantido de ser do contra.

Update II

Escreveu o Paulo, a voz da razão:

Esse seu estilo de vida tras muitos riscos que vc nao aborda. Por exemplo: E se vc casar e tiver filhos? E se vc ficar doente?
E a Te respondeu:
Engraçado, quando decidi que não ia mais viver junto de gente me vampirizando, me disseram: e se você ficar doente?
Reparem que ela já trabalhou pra mim e foi a primeira funcionária do SobreSites. Mas deixa quieto, adorei.


Voltar para Liberal Libert‡rio Libertino

[Powered by Blogger]

8129 Panola St, New Orleans, LA, 70118, msn, tel, email

Ao me enviar email ou comentar no LLL, voc est‡ automaticamente permitindo que eu publique sua mensagem no blog, inclusive com seu nome e endereo. Pense bem.