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Thursday, March 30, 2006

A Favor das Cotas

Empatia

Empatia é uma coisa engraçada.

Paz das Senzalas: Família Escrava e Tráfico Atlântico, por JOSE ROBERTO GOES   MANOLO FLORENTINO  Eu parei de comer bicho morto porque não gostava da idéia de comer cadáver mas nunca me preocupei muito com os direitos dos animais. Se eu não tivesse que comê-los, podiam sangrar até a morte e eu nem ligava.

Entretanto, depois de alguns poucos meses sem comer carne morta, eu já estava quase entrando na Peta e no Greenpeace.

Pois comecei a pesquisar escravidão por achar o tema intelectualmente instigante e rico - como descrevo aqui - mas sem nenhuma grande preocupação com os aspectos sociais contemporâneos da coisa.

Entretanto, depois de seis meses de leituras intensas, já estou revertendo uma posição que sempre tive.

A partir de hoje, vou a favor das cotas.Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre

Más Companhias

Não gosto muito de ser a favor das cotas.

Assim como ser contra o aborto me coloca ao lado de gente pouco simpática (a direita religiosa), ser a favor das cotas me coloca ao lado daquelas pessoas que mais consistentemente lutam a favor de intervenção do estado nas liberdades individuais.

Mas, enfim, qualquer ser humano tem como obrigação intelectual seguir seu raciocínio aonde ele for e, se ele nos levar a uma má vizinhança, o melhor que podemos fazer é tentar não socializar com os vizinhos de má-reputação.

O Peso da História

Em um post de 2003, eu descrevo minha principal objeção às cotas assim:

"Não se corrige uma injustiça cometendo outra. Não se purga a falta de termos trazidos negros escravos em navios-negreiros mantendo crianças talentosas fora da escola. Eu posso bem ver um jovem, de qualquer cor que seja, que tirou 9 na prova e não entrou na universidade vendo um outro jovem, de qualquer outra cor que seja, tirando 5,5 e entrando. Preencham as lacunas com as cores que quiserem. Não é justo. A escravidão também não foi justa, mas o jovem que tirou 9 poderia dizer: eu juro que nunca escravizei ninguém! Nunca fui à África laçar pretos, nunca mandei ninguém pro tronco! Eu juro! Deixa só eu estudar Direito, por favor! Eu mereço, tirei a melhor nota!"

http://afiliados.submarino.com.br/books_productdetails.asp?Query=ProductPage&ProdTypeId=1&ProdId=59306&ST=SEEntretanto, depois de ler dezenas de livros sobre a escravidão e seus efeitos, uma história de horror que fica cada vez pior e mais terrível, espalhada por vários séculos e vários continentes, a ponto de quase fazer o Holocausto parecer um fenômeno localizado e menor, você começa a perceber que a História ainda é uma bola de ferro que os descendentes dos escravos arrastam pelos tornozelos.

Eu pensava que, já que os governos pós-abolicionistas não tinham indenizado quem precisava e merecia, os ex-escravos, que indenizar os seus descendentes só criaria novas injustiças como as descritas acima.

Basicamente, o que mudou meu raciocínio foi a seguinte realização: os efeitos nocivos da escravidão continuam afetando os descendentes de suas vítimas diretas.

Eu estudei na UFRJ porque meu pai cresceu em Botafogo, estudou no Andrews e na UFRJ. Ele estudou na UFRJ porque meu avô estudou engenharia no Instituto Eletrotécnico de Itajubá (turma de 1938) e trabalhou nas obras da Usina de Paulo Afonso, com a Chesf. Meu avô foi engenheiro porque meu bisavô, nascido na época da escravidão, saiu do Mato Grosso pra estudar no Colégio Militar, no Rio, onde foi primeiro aluno e tem uma plaquinha lá com o nome dele até hoje, depois formando-se engenheiro militar. Vida dos Escravos no Rio de Janeiro (1808-1850), A MARY C. KARASCH

Em 1888, com 12 anos de idade, meu bisavô estudava na capital do Império, em um dos melhores colégios públicos do país, com bolsa integral, soldo e emprego garantido após a formatura.

Se, ao invés disso, nesse mesmo ano, ele tivesse sido libertado (leia-se posto pra fora de casa) com a roupa do corpo e sem nem saber ler, onde será que a cadeia de acontecimentos que foi dar na minha vida iria parar? Teria eu tido a chance de conhecer a Europa de primeira classe ou de estudar no colégio mais caro do Rio? Provavelmente, não.

Ou seja, dado que os efeitos nocivos da escravidão ainda se fazem sentir na pele dos descendentes das vítimas, não é tarde demais para serem indenizados pelo Estado.

Naturalmente, isso gera uma série de outros problemas operacionais, que são os descritos no resto do meu post original e também nesse aqui. Intervir num sistema meritocrático que funciona é como introduzir uma nova espécie em um ecossistema complexo: você nunca tem certeza absoluta do que vai acontecer. Basicamente, está se criando uma nova injustiça pra se reparar uma velha injustiça. Quase sempre dá merda.

Mas, uma vez decidida a questão filosófica, realmente não há mais opção. Os problemas operacionais a gente senta e resolve, nem que seja por tentativa e erro.

É como na questão do aborto: a partir do momento em que você reconhece, de verdade, que os fetos são seres vivos, então não dá pra argumentar que uma mãe tem o direito de escolher matar o filho para evitar desconfortos tanto quanto não tem o direito de escolher matar um colega de trabalho para evitar de ser preterida em uma promoção.

O resto é sintonia fina.

Livre Competição e Escravismo

De tudo o que li, e andei lendo muito sobre escravidão, talvez o texto que chegou mais perto de, sozinho, mudar minha opinião foi um discurso de um dos mais impopulares presidentes americanos.

Lyndon Johnson entrou para história como um dos responsáveis pelo fiasco do Vietnã, mas também foi um dos presidentes mais interessados em questões de justiça social - sem, por isso, como bom americano, negar os valores da competição, do capitalismo e do livre-mercado. Seu discurso na Howard University, uma universidade negra norte-americana, em 1965, foi um dos precursores do movimento da ação afirmativa. Mais importante, além de denunciar os efeitos da escravidão nos EUA, ele propõe soluções concretas e ajudou a implementá-las. Caetana Diz Não: Histórias de Mulheres da Sociedade Escravista

Meu trecho preferido:

Freedom is not enough. You do not wipe away the scars of centuries by saying: Now you are free to go where you want, and do as you desire, and choose the leaders you please.

You do not take a person who, for years, has been hobbled by chains and liberate him, bring him up to the starting line of a race and then say, "you are free to compete with all the others," and still justly believe that you have been completely fair.

Thus it is not enough just to open the gates of opportunity. All our citizens must have the ability to walk through those gates. (...)

Much of the Negro community is buried under a blanket of history and circumstance. It is not a lasting solution to lift just one corner of that blanket. We must stand on all sides and we must raise the entire cover if we are to liberate our fellow citizens.

Leia o discurso completo ou ouça em formato real audio.

Caetana Diz Não

Aproveitem e dêem uma olhada no melhor livro sobre escravidão que li esse ano.

UPDATE

Não misturaremos os assuntos. O ponto que eu levantei é se os descendentes de africanos merecem ou não algum tipo de indenização pela escravidão. Depois, caso a resposta seja sim, a gente debate como fazer isso.

Responder que não devemos indenizações aos afrodescendentes porque seria difícil definir quem é negro e quem não é, ou porque isso sucatearia o sistema universitário, etc etc, é como dizer que o estupro não deveria ser crime porque é muito difícil de provar.

Ora, primeiro a gente decide a questão ética (sim, é moralmente errado enfiar seu pau numa mulher contra a vontade dela) e depois a gente decide como fazer pra aplicar isso na prática.

Antes de decidir COMO fazer alguma coisa é preciso antes decidir se DEVEMOS fazer essa coisa.

Deixem suas objeções operacionais para depois. Por enquanto, me digam porque acham que os afrodescendentes NÃO merecem reparação pela escravidão.


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