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Friday, December 30, 2005

Prisão Felicidade: Nietszche e Outras Sugestões

 Teoria da Justiça, Uma JOHN RAWLS Antes de escrever a Prisão Felicidade (breve resumo abaixo), estou lendo e relendo algumas obras importantes sobre o assunto. Como podem ver na minha lista de leituras, acabei de reler La Mettrie (o grande inspirador das prisões) e agora estou lendo Utilitarismo, do Mill, e depois pretendo ler Uma Teoria da Justiça, do Rawls, que discorda de Mill.

Também queria ler algo de Nietzsche. Por uma enorme lacuna na minha bibliografia, apesar de já ter sido chamado de nietzschiano a torto e a direito, nunca li Nietzsche. Alguém sabe que Nietzsche abordou essa questão moral da felicidade em algum dos seus escritor?
 Utilitarismo JOHN STUART MILL
Ou teriam alguma outra obra a sugerir? Por sugetão de uma leitora, vou procurar também A Conquista da Felicidade, do Russel.

Sobre a Prisão Felicidade

Uma leitora escreveu:

Li aqueles teus artigos sobre as prisões. Em um deles tu falas que a felicidade deve estar acima de tudo, inclusive da verdade. Muito bem. O que tu tens a dizer de alguém que tem prazer em matar os outros, ou roubar, ou estuprar. A felicidade do sujeito consiste nisso, então pela tua teoria é uma felicidade legítima. Tu podes esclarecer-me a respeito disso?
Realmente, essa é a conseqüência lógica de todo o raciocínio subjacente às prisões e o ponto mais polêmico desse livro que estou escrevendo ao vivo aqui pra vocês. Deixei esse ponto para o final, pois ainda estou me preparando para a saraivada de críticas que receberei.

   Conquista da Felicidade, A BERTRAND RUSSELLSim, se o prazer de alguém é matar, roubar ou estuprar, coisas horríveis em geral e etc, não vejo que outra opção essa pessoa tenha a não ser tentar ser feliz fazendo as coisas que a fazem feliz. Do ponto de vista dela, sua felicidade é legítima, como é a de todos nós.

Anti-natural e hediondo seria alguém conscientemente escolher ser infeliz, escolher não fazer as coisas que satisfazem seus prazeres. (Apesar disso, a maioria das pessoas vive exatamente assim, se sacrificando, se reprimindo, se limitando, se aprisionando, se forçando à infelicidade. Deve ser por isso que não entendem o que estou falando.)

Naturalmente, nada disso quer dizer que roubar, estuprar e matar sejam aceitáveis. Assim como a felicidade dessa pessoa hipótetica depende, digamos, de estuprar, a felicidade de qualquer mulher hipotética depende de não ser estuprada. E a sociedade, que existe justamente para impedir que seus membros tolham as liberdades uns dos outros, está do lado da mulher.

Em outras palavras, cada um tem que defender a sua felicidade. O facínora persegue sua felicidade cometendo as atrocidades que o fazem feliz - pois ele não tem outra escolha. Nós, a sociedade, perseguimos nossa felicidade (ficar vivos, não ser roubados, etc) combatendo o facínora e encarcerando-o pra sempre.

Vou repetir, pra não me encherem o saco (mas sei que vão): pessoas cuja felicidade é causar o mal às outras têm que ser perseguidas, neutralizadas e encarceradas com todo o vigor da lei. Ficou claro?

A Questão Social

Sempre tem alguém que vem me falar da questão social. São todas variações da velha objeção: "e se todos fizessem como você?", que eu já cansei de responder. É como se eu estivesse fazendo um estudo sobre a poços de petróleo e algum viesse me perguntar qual a aplicação prática disso para as artes conceituais.

Ora bolas, não sei, nem quero saber. Eu só estou dizendo como EU vivo a minha vida. Se um ou outro leitor achar bonito e quiser adaptar algumas das coisas que eu digo à SUA vida, beleza - por sua conta e risco.Não estou preocupado com os reflexos sociais dos meus textos porque minhas pobres teorias jamais teriam sucesso o suficiente pra serem aplicadas por largas parcelas da sociedade.

E, digo mais, se tivessem, eu já estaria tão rico de vender tanto livro que estaria morando em um praia deserta e só saberia das convulsões sociais pelo seu Manuel, da padaria da vila mais próxima.

Escreveu o Kita:
Alexandre, uma coisa que talvez voce não tenha percebido, mas esse seu louvor à irresponsabilidade civil incondicional só estimula o aumento da repressão. Nesse sentido, se todos fizerem o que voce prega, o que acontece? O Estado e a sociedade como um todo vão se ver obrigados a incrementar ainda mais o aparato repressivo. Escolas vão ter que contratar seguranças pra tirar alunos baderneiros que só atrapalham a aula dos outros e se recusam a sair, clinicas vão ter que pedir pra seus clientes esvaziarem seus bolsos na entrada pra assegurar que eles não vão acender um cigarro em lugar proibido, o Estado se ve obrigado a por lombada e cameras na ruas, enfim, a nos controlar cada vez mais nosso ir e vir. Por que hoje ninguem mais pode beber cerveja num estadio aqui em São Paulo? Porque sempre tem aquela meia duzia de irresponsaveis libertarios que bebem e fazem merda.

Sei que voce só quer chamar a atenção escrevendo algo "polemico", mas quando voce é chamado à respinsabilidade, sai com algo do tipo "ninguem precisa me obedecer". Ou diz que não é pra todo mundo fazer isso, só uma minoria privilegiada de espertinhos libertarios deve fazer isso, senão fode tudo. Ou seja, vazio, vazio.
Aliás, o Kita menciona algo que era ponto pacífico para o grupo dos Libertinos Eruditos, do século 18: que suas teorias libertárias e libertinas realmente só tinham aplicação individual e elitista. Se o grosso da galera chutasse o balde, a festa acabava pra todos.

Vocês podem concordar ou não com as prisões, mas se não reconhecerem que elas refletem uma filosofia individual, libertária e anti-social, vai ser como somar bananas com laranjas. Não dá nem pra conversar.

Se você quer ler um texto com preocupações sociais, por favor, vá catar algum manual marxista e não venha me encher a cachola aqui no LLL. Se você acha que o indivíduo existe para servir à sociedade, e não vice-versa, então as prisões não são pra você.

O que eu não quero (e já estou fazendo) é defender o texto antes de escrevê-lo. Estou demorando a escrever justamente por ser algo que tem que ser dito com cuidado.

Entretanto, nada do que eu falei, falo ou falarei enfatiza ou defende irresponsabilidade civil ou desrespeito às leis. A não ser que ninguém esteja olhando, claro.

* * *

O que vocês acham? Alguém tem mais alguma sugestão? A Prisão Felicidade ainda está em aberto mas quase formada na minha cabeça: quero escrevê-la em breve.


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