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Wednesday, August 17, 2005

A Difícil Tarefa de Dizer Não (Confissões Sexuais, 21)

Uma das coisas mais difíceis que um homem pode fazer nessa vida é rejeitar uma mulher que quer dar pra ele.

Pra começar, boa parte dos homens simplesmente jamais faria isso. Eles vão lá, comem e pronto. Um amigo sábio sempre me diz: cuidado, cabra; as boas fases vêm e vão. Pelo menos, quando vier a seca, você vai poder dizer: e pensar que teve época em que eu comia até quem não queria...

Mas, partindo do princípio que não sou um touro reprodutor e só cubro as vacas que valem a pena, como fazer isso? Como chegar pra uma menina simpática, bonita, admiradora do meu trabalho, cheia de fogo no rabo pra me dar, e dizer:

Olha só, foi mal, mas não vou te comer, não, tá?

Convenhamos, é impossível. Até mesmo pra um libertário libertino rebelde extravagante e excêntrico como eu.

Culturalmente falando, se os homens não estão capacitados para dizer algo assim, as mulheres estão menos capacitadas ainda pra ouvir. Periga de surtarem, terem crises de depressão, pularem de pontes ou baterem em nossas cabeças com pedaços de pau com pregos na ponta. All bets are off.

Então, se não podemos abrir o jogo, o que resta? Demonstrar através de todos os meios possíveis que não estamos a fim. Mas até parece que funciona.

E não funciona por dois motivos.

Em primeiro lugar, a maioria dos homens, emocionalmente falando, são uns liquidificadores. Não têm a menor capacidade de expressar emoções ou de conversar sobre seus sentimentos. Então, para a mulher média, um homem frio, desinteressado e distante não é um homem que não quer transar com ela: é só um homem comum.

Como se não bastasse isso, a maioria das mulheres, racionalmente falando, são umas torradeiras. Além de adorarem joguinhos mentais insensatos - se aquele pombo voar pra esquerda, eu compro esse sapato etc - também têm como hobby inventar desculpas para a insensibilidade dos homens. (Ou isso, ou teriam que se admitir mal-amadas.)

Ele não ligou no dia seguinte, te comeu e nem te deixou em casa, gozou, virou pro lado e dormiu, nunca disse eu te amo, nunca te deu um presente, nunca lembrou do seu aniversário? Ah, homem é assim mesmo, menina, eles não têm cabeça pra esse tipo de besteirinha, não, mas eu tenho certeza que ele me ama.

Ou seja, não há solução. As mulheres estão tão acostumadas com esses arremedos de ser humano que não saberiam reconhecer um homem gentil e cavalheiro nem se ele lhes desse com uma frigideira na cabeça.

Grosso e canalha eu não vou ser, mas nada impede um cavalheiro de ser frio, distante, impessoal, desinteressado.

E nem assim elas entendem.

* * *

Depois de uns beijinhos sem compromisso, Bruna me surpreendeu com uma proposta à queima-roupa: vamos pra um motel?

Em meu cérebro, ecoou um grito desesperado: NÃÃÃOO!

Entendam bem: não porque não goste de mulheres que tomam a iniciativa. Adoro mulheres que tomam a iniciativa. Era ela que não me despertava o mínimo tesão.

O que um homem pode fazer numa hora dessas? "Não" seria impensável, então falei "sim", mas com o mínimo possível de entusiasmo: ah tá, então vamos, né.

Mesmo com toda a torradeirice feminina (ah vai ver ele é assim mesmo), ela não pôde deixar de perceber um quê de desânimo em meu desespero e reclamou: caramba, que empolgação, hein?

Em uma voz lenta e pastosa, com somente um pentelhésimo a mais de empolgação, eu fiz questão de deixar clara minha vontade irrefreável de ir ao motel com ela: não, não, vamos sim, claro...

Por incrível que pareça, esse pentelhésimo a mais e essa brochante confirmação foram suficientes pra ela, que continuou imperturbável em seus planos motelísticos.

Comecei a ficar seriamente desesperado. Não queria nada menos na vida do que ir para um motel com aquela mulher.

Finalmente, na completa falta de outra alternativa, abri o jogo. Tentei ser o mais delicado possível. Não enrolei. Não inventei histórias. Não dei detalhes desnecessários. Não menti.

Falei apenas que preferiria não ir ao motel com ela. Pronto. Por caridade, não explicitei nem o óbvio motivo - não tenho tesão algum por você - nem dei o tiro de misericórdia - vamos ser só amigos.

Por um segundo, tive a esperança de que seria fácil. De que ela agiria como um ser humano com brios. Não quer ir ao motel comigo? Quem perde é você. Tchau e benção.

Nada disso, meus amiguinhos. Ela fez a pior coisa possível. Quis saber o motivo. Por quê? Por quê? O que foi que eu fiz? Onde foi que eu errei?

Enquanto eu me recolhia ao silêncio mais constrangedor da minha vida, ela começou a repassar tudo o que tinha feito. Foi porque eu me atrasei hoje? É porque eu engordei 1kg no mês passado, não é? Eu sei, eu sei. Ou foi por que você não gostou da cor do meu esmalte? Eu sabia que devia ter passado pérola, que droga!

Eu queria sumir, mas agüentei firme. Tinha prometido a mim mesmo que não diria nem lugares-comuns (vamos ser só amigos) nem mentiras (hoje estou menstruado), o que limitava tremendamente minhas opções.

Verdadeiro Bartleby do sexo, só me restava repetir que preferiria não ir com ela ao motel e pronto.

Daqui a pouco, a menina deu uma pirueta emocional e partiu pro ataque: não fica me enrolando nem inventando desculpas, não, Alex!

Eu não entendi nada: olha só, a única coisa que eu disse foi que preferia não ir ao motel com você. Exatamente o quê, nessa frase, pode ser mentira ou enrolação?

Aí é que ela encolheu de vez. Como sou patética, que vergonha, que vergonha! Desculpe!

Bruna estava descendo desabalada a ladeira da dignidade e eu esperava ansioso o momento em que sua auto-estima pelo menos pegaria no tranco. Mas nada.

A menina estava tão por baixo que cogitei seriamente lhe fazer uma caridade: falar que tinha me arrependido e tentar levá-la para o motel.

Ela então poderia limpar as lágrimas, erguer o queixo, recusar briosamente meu convite e até mesmo esnobar esse meu tesão fora de hora:

Agora, não quero mais, ela diria, altiva. Perdeu sua chance.

E me daria as costas, ego inflado, sorriso nos lábios, poderosa.

Só não fiz isso porque ela provavelmente aceitaria.

* * *

Seis anos depois, nos encontramos em uma livraria de shopping e ela fez questão de dizer:

Naquele dia, você não me comeu só porque não quis.

Ou seja, demorou seis anos mas ela entendeu.


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