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Friday, July 15, 2005

Minha Primeira Vez (Confissões Sexuais, 3)

A Malvada Mais Autêntica

O fascínio pelas más é uma ocupação de alto risco. Elas não perdoam quem se apaixona por elas. Podemos nos divertir, transar, morrer de tesão, ficar fascinados, até ter curiosidade antropológica, mas amor, não. Eu já me envolvi com muitas mulheres erradas e erradíssimas, e consegui escapar inteiro. Me segurei, não me apaixonei.

Clarice era uma menina bem malvada. Ela gostava de ser cruel, sacanear os outros, inventar histórias, torturar os homens. Vamos ser honestos: são todas coisas relativamente normais, que todo mundo faz. Eu a considero uma pessoa cruel pois fazia tudo isso conscientemente, tinha um prazer concreto nas pequenas crueldades do dia-a-dia e ficava muito excitada de ver que eu me excitava por isso, e eu ficava excitado de ver como ela se excitava de ver que eu me excitava e ela, enfim, eu tinha 19 e ela 17, vocês sabem onde isso vai acabar.

Eu nunca me apaixonei por ela, mas ela teve uma paixonite por mim, da qual se curou rápido. Depois do caso, passamos a ser bons amigos e cúmplices. Sim, cúmplices, pois eu estimulava ao máximo esse seu lado cruel. Ela me mostrava as cartas que outros homens lhe mandavam (é, na era mesozóica ainda não havia email), contava das torturas que infligia, dos corações que partia. Coisas bobas, mas perversas e prazerosas.

Por exemplo, uma que ela me contou às mil gargalhadas: deu o máximo de bola pra um cara inexperiente e apaixonadinho, marcou de sair com ele no dia seguinte e viajou por dois meses.

Ainda fazia questão de me escrever da viagem, queria saber como ele estava, se ficou mal de verdade. A graça era justamente essa: quanto mais fudido ele, mais feliz ela. Era assim que seu cérebro funcionava: vou viajar dois meses, como é que eu posso fazer pra unir isso a alguma sacanagem? Pra mim, nada poderia seria mais sexy do que isso.

Eu me masturbava ao telefone, ouvindo essas histórias, e ela dizia que isso era nojento, mas adorava saber que eu a entendia e que isso me excitava.

Em suma, amei a malvada, fui seu cúmplice e não me queimei. Foi perfeito.

Aliás, só não foi perfeito (ou talvez foi perfeito justo por isso) porque ela não me deixava beijar seus lindos pés, de solas sempre deliciosamente amarelinhas. Dizia se sentir nua estando descalça na minha presença. Não adiantava eu argumentar que fazer um homem lamber seus pés era algo super malvado. Ela sabia que eu queria muito e tinha um prazer quase físico em não me dar o que eu mais desejava. Era sua única maldade comigo.

Engraçado. Todas as mulheres com quem já tive algum relacionamento tinham um quê de malvada. A maioria, só na fantasia. A Paula, por exemplo, tinha o maior prazer em se imaginar Cleópatra, me obrigar a lamber seus pés e me jogar aos crocodilos depois do sexo ? e eu achava isso super sexy. Mas não eram mulheres cruéis.

Clarice foi a única mulher realmente cruel que conheci, mas também a mais baunilha, a mais feijão-com-arroz. Não tinha fetiches nem taras, nem gostava de fantasias.

Era autêntica.

Minha Primeira Vez

Eu, 19, virgem, Clarice, 17, sexualmente ativa há quatro. Estávamos saindo há cerca de três semanas. Ela me liga uma noite e diz que vai matar aula no dia seguinte pra passar a manhã comigo. Vai despistar o motorista (que tinha ordens de se certificar que ela de fato entrasse na escola) e me esperar na esquina.

E o que vocês acham que o idiota aqui fez? Dormi demais no dia seguinte. O despertador simplesmente não tocou. Quando acordei, desesperado, ela já estava me esperando. E na rua. Pior, não havia como entrar em contato com ela. (Nota aos mais jovens: a história se passa antes dos telefones celulares.)

Saí de casa desabalado. Eu, naquela época, dirigia, e muito mal, um Santana, que bati onze vezes ao longo daquele ano. Ainda nem tinha carteira, que só iria tirar no ano seguinte. Nunca dirigi tão mal, nem tão desesperadamente.

Finalmente, cheguei lá, e ela estava placidamente me esperando. Nem deu esporro nem nada. Entrou no carro e disse que queria ir pra minha casa.

Na época, eu morava com meu pai e minha irmã em um apartamento de quatro quartos na praia da Barra. Alguns meses antes, meu pai tinha dado a mim e a minha irmã, 17, uma cama de casal pra cada um e a chave do quarto.

De modo que, o quarto que ela queria ir não era qualquer quarto. Era um quarto com TV no teto, vídeo, aparelho de som, cama de casal, vista pro mar e chave na porta, na casa de um "adulto" que passava o dia inteiro fora.

Chegando lá, ela sugeriu, para minha imbecil surpresa, que queria ficar sem camisa, tirou a dela e tirou a minha. Dali pra diante, as coisas não tinham muito pra onde ir a não ser pra onde foram.

Mas nada na minha vida é simples.

Naquele mesmo momento, sem que eu soubesse, pois estava com coisas mais importantes na cabeça, minha irmã estava ardendo em febre no quarto ao lado, com as amídalas inflamadas e minha mãe tinha vindo cuidar dela.

Então, às onze da manhã de 19 de outubro de 1993, enquanto eu penetrava suavemente a Clarice, minha mãe, a pessoa mais liberal do mundo, que nunca teria batido na porta se soubesse que eu estava perdendo a virgindade naquele momento, pediu, por favor, pra eu sair e comprar frango fresco pra fazer uma canja pra minha irmãzinha doente.

Pronto, lá se foi o clima. Eu pedi pra minha mãe voltar depois, e ela até atendeu, mas a Clarice já tinha desmontado e começado a se vestir.

E assim acabou a minha primeira vez. Fomos os dois comprar ingredientes pra canja da minha pobre irmã, que no fim da tarde piorou e, à noite, foi operada de emergência pra retirar as amídalas.

Quando minha mãe soube o que tinha feito, quis pedir desculpas pessoalmente à Clarice, mas eu não deixei. Alguns meses depois, minha mãe voltou pra nossa casa. Ela e meu pai moraram juntos por mais seis anos, apesar de estarem divorciados, o que foi uma experiência muito interessante. Afinal, éramos quatro adultos solteiros e desimpedidos, morando juntos, cada um com seu quarto, sua chave, sua cama de casal e seu carro.

Eu e Clarice fomos visitar minha irmãzinha no hospital à noite e ficamos juntos por mais um mês. Não digo namorando, pois não éramos namorados: ela já tinha um namorado, de seis anos. Eu era o outro. Ela jurava que o titular não sabia de mim, mas até hoje eu tenho certeza que ele sabia e deixava.

Mas enfim. Continuamos amigos até hoje. De vez em quando, jogamos tênis juntos, mas ela nunca mais me ligou para, como ela mesmo dizia, "falar maldade". Ou porque perdeu o gosto pela coisa ou (mais provável) porque nossa intimidade já não é mais o que era.

Tenho saudades da minha malvada mais autêntica.


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