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Tuesday, July 26, 2005

Como Acontecem os Estupros (Confissões Sexuais, 10)

Heather e eu nos conhecemos em um jantar com várias outras pessoas, no saudoso Grottamare, em Ipanema. (Vocês não sabem a falta que sinto do Grottamare. Às vezes, dói na ponta da língua.) Sentamos de frente um pro outro e conversamos a noite toda. Ela disse que eu a conquistei quando pediu pra matar um dos meus potinhos de antipasti e eu respondi: "knock yourself out", em uma maneira que não só demonstrou bom humor como excelente conhecimento de inglês.

Aparentemente, ela tem uma definição de conquistar bem diferente da minha.

Naquela noite, não tentei nada. Começamos a nos falar por telefone e ICQ - sim, já houve época em que as pessoas só usavam ICQ e consideravam símbolos de status ter UINs com menos de seis dígitos. Chamei ela pra sair logo no dia seguinte. Tivemos uma noite ótima. Comecei a ensaiar algumas investidas, mas fui delicadamente barrado. Entretanto, ela demonstrava enorme interesse em mim, queria saber tudo da minha vida, me ligava o tempo todo. Deve ser do tipo que só amolece no terceiro encontro, pensei.

Mas houve o terceiro, o quarto e o quinto, e nada. Eu já estava quase desistindo. Antes de desistir, eu era tão inexperiente que chegara até mesmo a expor meus sentimentos verbalmente pra ela. (Nunca façam isso em casa, amiguinhos, sobre hipótese alguma.)

Poucos dias depois desse papelão, ela me convida para ver um filme em sua casa. Enquanto estávamos no telefone, ela ainda fez questão de confirmar com seu colega de apartamento que ele não estaria em casa naquela noite - americano adora dividir apartamento. O filme seria Carne Trêmula, recém-lançado em vídeo e que ela queria muito ver comigo.

* * *

Pausa para reality check.

Eu, ela, solteiros, desimpedidos, final dos vinte anos. Saímos algumas vezes. Ela sabe com certeza que sou a fim dela, pois fiz questão de afirmar isso verbalmente, e me chama para um filme algo caliente em seu apartamento, e ainda faz questão que eu ouça que ela se certificou de que seu apartment-mate não estaria lá.

Sou tão pouco machista que nem mesmo concluí que ela queria dar pra mim. Preferi pensar que ela estava me dando uma última chance de conquistá-la. E eu não iria desperdiçar.

Queridos leitores e queridas leitoras, estou errado? Interpretei mal os signos? O que mais eu poderia pensar?

* * *

Quando ela abriu a porta, achei que estava só de camiseta, mas é que seu shortinho era tão curto e ínfimo que mal aparecia. Abaixo dele, aquelas pernas brancas, sardentas e maravilhosas que não acabavam mais, coroadas por dois lindos pezinhos descalços, de unhas pretas - contraste perfeito com a cor da pele.

Aquela recepção só fez aumentar minha certeza de que ela estava me dando todas as aberturas. (Leitores, me ajudem: estou surtando? Estou vendo coisas?)

Mas não. Nunca o amor foi tão parecido com um jogo de vôlei. Eu tentei cortar por todos os lados e fui bloqueado em cada jogada.

Por fim, sugeri fazer uma massagem naqueles pés maravilhosos. E veio a resposta:

Não, melhor não, porque massagens nos pés levam a outras coisas... Foot massages can lead to other things...

* * *

No meio do filme, ela já estava dormindo no meu ombro e aproveitei pra ir embora. Heather continuou me ligando com a mesma freqüência de antes, mas aí quem não queria era eu.

Nunca mais nos vimos.

* * *

Heather me fez compreender porque acontecem tantos estupros.

Não sei bem qual era seu problema. Seria monumentalmente estúpida? Achapantemente inocente? Incrivelmente alucinada? Depois daquela noite, eu não queria mais papo com ela pra descobrir.

Mas fiquei pensando quantas outras noites ao redor do mundo haviam começado exatamente como aquela e terminado com uma mulher sendo estuprada aos gritos de "No means no! No means no!"

Antes que as mulheres malas que atazanam o Rafael venham me encher o saco, quero deixar bem claro: não estou botando panos quentes em estupradores. Nenhum homem tem direito de estuprar nenhuma mulher, nem mesmo as idiotas que os provoquem além de qualquer limite. Acredito sinceramente que, a qualquer momento, no means no.

Só que as mulheres precisam aprender a não se colocar em armadilhas. Heather não era uma menina inexperiente de 15 anos, criada em uma comunidade Amish. Ela tinha 27, cresceu em uma cobertura em Park Avenue, era milionária e já tinha rodado o mundo várias vezes.

Não há justificativa para ela criar a situação que criou, a não ser com:

1) Um homem pra quem ela estivesse seriamente considerando dar;
2) Seu melhor amigo da infância, aquele na frente de quem você até troca de roupa.

Como eu sabia que não era o segundo, só pude concluir que era o primeiro.

* * *

Não sou arrogante ao ponto de excluir minha própria inépcia da equação.

Nada impede que Heather tivesse realmente concebido aquela noite porque estava louca para dar pra mim. Programou cada detalhe pra melhor me seduzir, mas não rolou. Eu fiz alguma coisa, ou deixei de fazer, ou estava com um pedaço de espinafre entre os dentes, sei lá. Heather perdeu o tesão. Não rolou.

Se for assim, eu sei como ela se sentiu. Eu também já criei uma situação parecida para comer uma menina, seria uma noite inesquecível, planejada nos mínimos detalhes, mas a garota era tão chata, tão grudenta, tão dependente, tão capacho que eu perdi totalmente o tesão e não rolou nada. Pra ser bem honesto, ela poderia escrever sobre mim tudo o que escrevi sobre Heather.

Com uma enorme diferença. Eu nunca estive a perigo. Não havia a possibilidade de ela me colocar uma arma na cabeça e dizer: "Você me trouxe até aqui, cozinhou pra mim, beijou meu pé, me encheu de vinho, enfiou a língua na minha orelha, agora vai ter que me comer, seu filho da puta!"

Já Heather era uma americana solteira, morando sozinha em uma cidade latino-americana, sem amigos ou parentes próximos, e provocando homens de uma cultura conhecida por ser machista e nem um pouco politicamente correta.

Quase uma roleta russa sexual.


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