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Monday, June 6, 2005

Dinheiro do Governo Corrompe a Arte

Famintos de Fomentos

Depois de cineastas e dramaturgos, agora também os escritores (apesar de não terem custo de produção algum) querem montar na viúva.

Leiam esse excelente artigo de Janer Cristaldo: Faminto de Fomentos. Alguns trechos:
Para o governo, que não produz dinheiro algum, tanto faz liberar alguns milhões para estes pedintes de elite. Passa por generoso, protetor da cultura e das artes, e abafa regougos de oposição nos jornais. Quem acaba apoiando a "cultura" - isto é, o dolce far niente dos artistas - é você, contribuinte. Que, se quiser assistir a alguma das "obras" que você mesmo financiou, tem de desembolsar mais alguns trocados de seu orçamento. (...)

É curioso ver a grande imprensa denunciar a corrupção vigente nos organismos estatais e jamais dizer uma palavrinha sobre a corrupção no mundo literário e nas universidades. Pois que outro nome poderia se usar para esta prática infame, a dos livros de leitura obrigatória, nas escolas e nos vestibulares, que só contemplam - e regiamente - os escritores amigos do poder? (...)

Famintos de fomentos, os escritores contemporâneos abdicam da independência intelectual (porque o Estado sempre cobra de volta) que sempre caracterizou a grande literatura, e se tornam reles mendigos que adoram viver da caridade pública.

Que Filmes o Simão Quer Assistir?

Quando o governo financia a arte, várias coisas acontecem:

A arte é desvirtuada. Um ponto de vista (o do governo) se impõe sobre a miríade de pontos de vista da sociedade civil (o público, o mercado). Cada vez mais, os artistas conformistas e preguiçosos vão produzir arte que se adeque aos padrões do governo, para tentar montar na viúva, e vão fugir cada vez mais de si mesmos e de seu público. Em contrapartida, filmes que não se adequem aos interesses do governo vão ser progressivamente não-produzidos ou marginalizados.

Se o filme X, produzido com dinheiro privado, não interessar ao pedreiro Simão, ele simplesmente não vai ver. Os produtores do filme X nunca verão a cor do dinheiro do pedreiro Simão e pronto. Assim funciona o mercado.

Mas os produtores do filme X, já sabendo que seu filme não desperta interesse algum no público (entre eles, o pedreiro Simão), decidem nem correr esse risco: buscam financiamento governamental prévio para o filme.

Quando o filme sai, Simão, sem interesse algum, não vai ver o filme. Mas, do ponto de vista dos produtores, nem precisa. Simão e todos os brasileiros já fizeram uma vaquinha com seu rico e suado dinheirinho para que o filme fosse produzido. Simão, independente de sua vontade e de seus gostos, foi obrigado a dar, a revelia, seu dinheiro para os produtores do filme X - que ele não quer ver!

A graça é que, se fosse um filme que interessasse ao Simão ou ao grande público, ele não precisaria de dinheiro do governo e poderia se garantir nas bilheterias. A maior perversidade do sistema é que todos os brasileiros se cotizam para pagar justamente por aqueles filmes que MENOS querem ver.

Quem Banca a Integridade Artística do João?

Aí, alguém vem me dizer: mas o o João das Couves, cineasta/videomaker paulista independente inédito gonzo, com uma câmera na mão e uma idéia na cabeça pra fazer um pusta filme, o que ele faz? Como ele vai viabilizar seu projeto?

Bem, ninguém rasga dinheiro. Existem trocentos bancos e investidores dispostos a investir em um filme de sucesso. Basta João convencê-los de que seu filme será lucrativo. Se o projeto for bom, não será difícil.

Eu sei como são essas coisas. Quando tivemos a idéia do SobreSites, meu sócio e eu escrevemos um Plano de Negócios e ficamos batendo de porta em porta, tentando convencer possíveis investidores de que o negócio seria um sucesso. A empresa só passou a existir quando, finalmente, conseguimos convencer alguém. Senão, teríamos desistido, arranjado empregos e pronto. Por que o João das Couves, cineasta/videomaker/etc e tal, não pode fazer o mesmo? Ou será que ele é bom demais pra bater de porta em porta como um caixeiro-viajante?

Mas aí você diz: não, Alexandre, o João é alternativo. dark e maldito, ele não quer se vender ao mercado, não quer se dobrar ao gosto do público, seu filme é uma fábula simbólica existencialista da luta do homem contra si mesmo, blá blá blá, que não vai interessar ao grande público.

Muito justo, eu respondo, arte é arte, boa sorte ao João das Couves, cineasta/videomaker/etc e tal, tentando realizar essa sua visão. Mas, convenhamos, alguém tem que pagar as contas, senão o filme nunca chegará a existir. E quem poderia ser?

A maioria das pessoas já grita logo "o governo!", mas, onde essas pessoas lêem "governo", eu leio "todos nós", inclusive aqueles brasileiros bem pobres e humildes mesmo, aqueles que nem pagam imposto de renda mas que bancam filminhos como os do João comprando frangos pelo dobro do preço - vocês sabiam que mais de 50% do preço do frango vai direto pras mãos do governo?

Sinto muito, embora eu até respeite a integridade artística do João, eu simplesmente não acho justo que todos os brasileiros, inclusive o meu porteiro, o seu Mardueicleison, façam uma vaquinha para pagar pela fábula simbólica existencialista da luta do homem contra o homem blá blá blá que o João quer fazer. É uma questão de justiça social que o pessoal de esquerda festiva parece não querer ver.

Se João já sabe que seu filme não vai se pagar e não vai despertar interesse nem no público e nem nos investidores (aliás, parece que só João está interessado nesse filme!), ainda assim lhe restam muitas opções: vender seu carro, chantagear seu pai, extorquir um tio distante, arranjar um segundo emprego, essas coisas

E, meus amigos, vou dizer o seguinte: se João fizer isso, se João arranjar um segundo emprego e vender seu carro para bancar sua visão artística, se ele colocar o seu na reta pra não ter que se vender nem pro governo e nem pro mercado, então João terá se provado um verdadeiro artista e terá meu respeito eterno.

Em Quem Você Confia?

Tem gente que não confia na iniciativa privada, mas confia, pasmem, no governo.

Já eu não confio no governo pra nada. O governo corrompe todo lugar onde enfia a mão.

Quanto mais o governo financia a arte, mais conformistas e obedientes se tornam os artistas. Quanto mais conformistas e obedientes os artistas, menos artistas são. Em pouco tempo, a arte torna-se apenas o negócio de falar bem dos amigos do governo em troca de dinheiro público.

E é o fim.

Estou Defendendo a Liberdade

Tem leitores que não entendem onde eu me situo politicamente. Alexandre, você me confunde, às vezes acho que você é um anarquista libertário, outras, um burguês reacionário. Quem é você?

Eu não sei quem eu sou, mas sei o seguinte: quem não me entende é porque também não entendeu o tema desse blog. Seja lá em que lado do espectro político eu estiver, eu estou sempre falando de liberdade.

E eu acho que o meu porteiro, o meu Margleidsonaldo (que nem vai ao cinema, porque não tem R$16 pra pagar num filme) deveria ter a liberdade de só pagar pelos filmes e peças que ele de fato quer ver, ao invés de ser compulsoriamente forçado a realizar as visões artísticas dos filhinhos de papai que têm vida muito mais mansa que ele.

Conservadores & Contestadores

Com certeza, algum idiota vai ler esse post e me chamar de conservador - ainda mais depois de ter citado o Janer Cristaldo. Por outro lado, o abaixo-assinado defendendo que os escritores também montem na viúva está cheio de assinaturas dos escritores mais moderninhos e contestadores da nossa nova literatura. Eu não entendo mais nada. O mundo está ao avesso.

Ora, conservadora é a arte feita por quem vive mamando nas tetas dos governos e das empresas.

Eu defendo a arte anti-conservadora. A arte individual, original, iconoclasta, libertária, contestadora. Uma arte que só pode ser realizada por artistas que não tenham o rabo preso.

Na verdade, toda essa estrutura de financiamentos que existe hoje é um bom teste para medir o impacto de uma obra de arte:

Você leva o seu projeto para o Ministério da Cultura, Petrobrás, Shell, Organizações Tabajara, o que seja. Se os burocratas, engravatados e executivos gostarem, você já sabe que seu projeto está conservador demais, bem comportado demais, conformado demais.

Ainda não está no ponto.

Update: O Interesse Público

O Kitagawa citou um dos lideres do movimento Literatura Urgente, Ademir Assunção. Não tenho dúvidas de que Assunção tem as melhores intenções. Ele escreve:
Entendo que ARTE, CULTURA e dentro disso a LITERATURA são coisas de INTERESSE PÚBLICO e não se restringem apenas ao MERCADO, PRODUTO. Portanto, o que estamos tentando estabelecer não é vantagens para a CORPORAÇÃO, mas regras para o PODER PÚBLICO fomentar o que é de INTERESSE PÚBLICO.
E o Paulo matou a pau o X da questão:
Quem define o que eh de interesse publico? O Alexandre diz que eh o "publico". Outros dizem que eh o governo.
O pior é que até o Ministro da Cultura, petista mas artista, concorda comigo, e afirmou, não faz muito tempo, que o cinema nacional precisa de um "choque de capitalismo":
A cadeia produtiva deve se remunerar na bilheteria, não com o investimento público. Este, por sua vez, deve ser um estímulo, não a única fonte de recursos, e deve chegar equilibradamente ao conjunto da atividade, nas formas de incentivo fiscal, como agora, e também de crédito barato, fundos públicos e prêmio de performance
Arte é importante demais pra ser deixada nas mãos do governo.

Quem tem que decidir que filmes ganham rios de dinheiro e que filmes ficam à míngua é justamente o público, não o governo.

* * *

Vivemos em um país pobre e desigual, onde a maioria das pessoas não consegue pagar nem mesmo por suas necessidades básicas, como comida, transporte, saúde. Em um país assim, o governo extorquir parte da renda dessas pessoas e reinvesti-la em romances experimentais, filmes existenciais, exposições de arte concreta ou apresentações de dança moderna é obsceno. Perverso. Imperdoável.

Onde estão os homens de esquerda desse país que não vêem isso?


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