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Prisão Ambição, Parte X de XI
O Gênio Incompreendido
O mundo também é cheio de gênios incompreendidos. Vocês devem conhecer alguns. Pessoas excessivamente ambiciosas, mas bem-sucedidas, ainda dá pra aturar. Pior são aquelas cuja própria ambição transforma-se em uma bola de ferro que arrastam pela vida.
Por definição, o gênio incompreendido tem mais de 35 anos. É fácil perceber porquê. Quando o cara tem menos de 30, ele ainda não se acha incompreendido: só gênio. Ele é gênio, sabe que é gênio, sua genialidade apenas não estourou porque ele é muito novo, ainda é cedo, o mundo vai ouvir falar muito dele.
O tempo passa, nada acontece, ele não estoura, o mundo não ouve falar dele. Então, ao invés de reconhecer que não é gênio coisa nenhuma, ele conclui que o mundo é que não o compreendeu, o mundo é que não o merece, ele está a frente de seu tempo!, e bate o chopp na mesa, respingando em todos à sua volta, em franco desafio às forças ocultas que tolheram seu sucesso.
Nasce um gênio incompreendido.
Na verdade, não acho nem que esse é um modo intrinsecamente errado de se encarar a situação. Sempre existe a possibilidade de ser mesmo um gênio que o mundo não percebeu - Bach, Kafka, etc. Acredito mais em felicidade do que em verdade: de que lhe adianta encarar uma verdade - sua total incompetência - que só vai lhe trazer tristeza? Melhor ser feliz na crença de sua genialidade não-compreendida.
Infelizmente, raros são os gênios incompreendidos felizes: quase todos chafurdam na amargura e na inveja com a mesma sofreguidão com que porcos chafurdam na lama.
Fracasso Energiza, Amargura Paraliza
O problema do gênio incompreendido não é ele se achar gênio. O mundo seria um lugar melhor se todos nos achássemos gênios.
O problema do gênio incompreendido é que ele cria expectativas pouco realistas sobre seu futuro. Ele passa a vida esperando um reconhecimento que pode nunca chegar.
Quem não conhece pessoas brilhantes e talentosas, na faixa dos 40, 50 anos, mas absolutamente amarguradas, rancorosas e infelizes?
E elas olham profundamente em meus olhos e dizem, certamente com a melhor das intenções: eu era muito parecido com você quanto tinha a sua idade, Alexandre - e meu sangue gela.
Tinham, ou acreditavam ter, um grande talento e esperavam, em troca disso, que o mundo lhes daria dinheiro, fama, notinhas na imprensa, convite para ao camarote da Brahma, não ter que fazer reserva no Fasano, essas coisas. Mas, por algum motivo, isso nunca aconteceu.
Ou seja, fracassam, como eu fracassei nas minhas duas grandes batalhas. Até aí, tudo bem.
O fracasso não é necessariamente paralisante. O fracasso muitas vezes energiza o fracassado para tentar de novo. O fracassado só é um fracassado até que obtenha sucesso. O importante é compreender as razões do fracasso e tentar de novo. E de novo. E de novo.
O grande problema do gênio incompreendido não é fracassar.
Como ele nunca fracassa por culpa sua, ele não tem motivos para mudar, para se melhorar, para fazer autocritica. Ele não falhou consigo mesmo, o mundo é que falhou em lhe dar o reconhecimento que ele merecia. O público - idiota - é que não entendeu seu filme genial. O editor - analfabeto! - é que não viu o potencial do livro. Quem já não ouviu xurumes assim, entre o quarto e o quinto chope, em um bar de Ipanema?
Pior que fracassado (uma falha de caráter perdoável), o gênio incompreendido é um amargurado (ou seja, um chato).
O erro foi do mundo, não dele. E como o mundo é um adversário grande demais, o tipo de amargura do gênio fracassado leva à imobilidade e ao rancor. Para que lutar, se o mundo está contra mim? Para que produzir, se o mundo é incapaz de entender minha mensagem? Melhor ficar pelos bares, bebendo cerveja e destilando veneno contra o establishment cultural.
A princípio, alguns são até fascinantes. Há meninas que se especializam em ser groupies de gênios amargurados. Estão sempre a volta deles, ouvindo como seu single de 1981 foi boicotado pelas gravadoras, balançando suas cabecinhas enquanto ele explica que, se não fosse por isso, hoje seria maior que o Djavan.
É tudo ilusão, minha filha. Não caia nessa. Oprimido e obcecado por suas idéias fixas, o gênio incompreendido pode até dar uma boa transa rápida (a maioria deve ser broxa, já vou avisando), mas é péssima companhia.
Como Não Ser um Gênio Incompreendido
Eu não espero nada, nada do mundo.
Não acho que ninguém tenha que me dar uma chance. Não acho que o mundo me deva coisa alguma. Não acho que os leitores tenham que me entender. Não acho que a sociedade tenha que me aceitar. Não acho que os editores estão errados em não investir em autores desconhecidos que raramente recuperam o investimento. Não tenho amargura nem rancor. Não vivo fechado em um mundinho só meu. Não acho que exista qualquer tipo de conspiração contra mim.
Mais importante, não me acho gênio (só me faltava essa!) e não me acho incompreendido.
Pelo contrário, esse blog me prova, todos os dias, que tenho um respeitável círculo de leitores, cujas vidas consigo influenciar positivamente.
Tirando alguns obtusos esporádicos, sou muito bem compreendido, sim, senhor.
(amanhã... conclusão... ambição e internet....)
Esse post faz parte de uma série cujo objetivo é mapear as principais prisões que represam e tolhem o homem, como Conformismo, Patriotismo, Preconceito, Verdade, Aceitação, Medo, Heterossexualidade e Monogamia. Bem polêmico, como podem ver. Futuramente, esses ensaios serão publicados em forma de livro. A principal função desse blog é servir como test-drive para esses textos, me ajudando a entender como será a reação do público a eles, e o nível de aprovação/desaprovação que vão causar. Para facilitar o acesso à série, ela está sendo arquivada também no meu site. Clique aqui para ler sobre outras prisões.
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