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Monday, January 31, 2005

Clube de Leituras: Crime e Castigo (I)Columbo

Crime e Castigo É Um Episódio de Columbo

Inclua o botão da campanha em seu site e ajude a divulgarNão sei nem se alguém lembra de Columbo. O seriado foi ao ar entre 1971 e 1978, nos Estados Unidos, e continua vivo até hoje, em telefilmes esporádicos - o último é de 2003. Aqui no Brasil, não passa na TV faz tempo, mas é inesquecível.

A estrutura de um episódio de Columbo é sempre a mesma: pra começar, vemos tudo do ponto de vista do criminoso. No começo do episódio, acompanhamos o crime sendo cometido. Só então, uns 15 minutos depois, quando começam as investigações, aparece o Tenente Columbo, da Divisão de Homicídios da LAPD, interpretado brilhantemente por Peter Falk. O homem parece sujo, mal-ajambrado, confuso. Ele faz umas perguntas aparentemente inócuas, nada leva a nada, o suspeito vai ficando progressivamente de saco cheio até que ele vai embora. O suspeito já está respirando aliviando quando ele, antes de sair, inevitavelmente, bate a mão na testa, se volta e pergunta: só mais uma coisinha....

O genial do seriado é que, como ele é todo contado do ponto de vista do criminoso, nunca vemos Columbo em sua casa, em seu trabalho, com seus colegas, etc. Columbo só aparece quando vai falar com o suspeito. Lentamente, Columbo vai fechando o cerco, aparecendo nas piores horas, fazendo as perguntas mais esdrúxulas. A tensão vai ficando insuportável: o suspeito acha que ele sabe, mas não tem certeza, como ele poderia saber?, eu fiz tudo certo, não deixei nenhuma pista, ou será que deixei, oh meu deus! E, no meio dessa bad trip, lá vem ele de novo, fazer só mais uma perguntinha...

ColumboFinalmente, o suspeito cede, se incrimina, confessa ou é desmascaro mas, nesse momento, seus nervos já estão em frangalhos - e os nossos também.

E Columbo em nenhum momento foi grosso, insistente, violento. Que eu me lembre, nunca nem levou os suspeitos para a delegacia. Pelo contrário, ele é cortês, educado, solícito, engraçado, chega às vezes até a ser irritantemente servil. E sempre, invariavelmente, conta uma história de sua esposa, Mrs Columbo, cujo primeiro nome ele nunca revela.

Soou familiar?

* * *

Em um mundo onde Crime e Castigo é um clássico universal, não poderia ser coincidência. A conexão parece não ter sido percebida por muita gente, mas uma busca por Columbo + Porfiry encontra algumas discussões. O pessoal se pergunta: será que Columbo foi mesmo baseado em Porfiry? Confiem em mim: foi. Se Crime e Castigo fosse um romance obscuro, talvez. Mas, sendo o romance pop que é, com certeza a semelhança é intencional.Columbo

Não há a menor dúvida que a melhor coisa de um romance reacionário, ideológico e mesquinho como Crime e Castigo é o mesmo o jogo de gato-e-rato entre Raskolnikov e Porfiry.

Abaixo, dois dos melhores momentos, que poderiam estar (não duvido que estejam) em qualquer episódio de Columbo:
- Bem, quer me censure ou não, se aborreça ou não comigo, o certo é que eu não posso conter-me - declarou novamente Porfíri Pietróvitch. - Dê-me licença que lhe faça ainda uma pergunta (já o incomodei tanto!), uma única pequena pergunta, só para não esquecer...

- Bom, diga-me do que se trata - e Raskólhnikov, sério e pálido, parou diante dele, na expectativa.

- Pois fique sabendo... Na verdade não sei como hei de exprimir-me menos desajeitadamente... Trata-se de uma idéia demasiado chistosa... psicológica... Pronto, vou dizer-lhe: quando o senhor escreveu esse artigo... com certeza que... he... he... he... se considerava a si mesmo... ainda que fosse só um pouquinho... um desses seres extraordinários e que dizem uma palavra nova... Quero dizer, no sentido que o senhor dá a esta frase... Não é verdade?
Mais um:
- E, quando subiu a escada, às oito, não viu no segundo andar, naquele que está aberto, lembra-se? uns operários ou, ao menos, um deles? Estavam pintando, não reparou? Isto é muito importante para eles, importantíssimo!

- Pintor de paredes? Não, não vi nenhum... - respondeu Raskólhnikov lentamente, e como se fizesse esforço para se lembrar, enquanto todo o seu ser ficava numa tensão e palpitava na ânsia de descobrir o mais depressa possível a que é que se resumia a armadilha e não cair nela. - Não, não os vi, nem também reparei que houvesse algum andar aberto... mas olhe, no quarto andar - já tinha percebido qual era a armadilha e rejubilava com o seu triunfo -, lembro-me bem de que um funcionário saiu do quarto... fronteiro ao de Alíona Ivânovna... estou a lembrar-me... estou a lembrar-me muito bem: uns soldados transportavam um divã e obrigaram-me a encostar-me à parede; mas, pintores, não me lembro de ter visto nenhuns... não; nem também havia aí qualquer andar aberto, que eu me lembre. Não; não havia...

- Mas que dizes tu? - exclamou de repente Razumíkhin, como se puxasse pela memória e reconsiderasse. - Se os pintores estiveram trabalhando lá no dia do crime e ele estivera três dias antes! Por que lhe perguntas isso?

- Ah! Fiz confusão! - disse Porfíri dando uma palmada na testa. - Raios me partam, ainda hei de acabar louco por causa deste processo! - exclamou, dirigindo-se a Raskólhnikov com ar de desculpa. - É que, repare, seria tão importante para mim comprovar se alguém os viu às oito no andar, que me lembrei de pensar se o senhor não poderia dizer-me qualquer coisa a esse respeito... mas que grande confusão!  Columbo PETER FALK
Finalmente, o próprio Porfiry explica seu método para um Raskolnikov a beira de um ataque de nervos. Columbo não teria dito melhor. Não me surpreenderia que esse trecho estivesse no manual dos roteiristas do seriado. É longo, mas perfeito:
Pois aqui tem um pequeno exemplo que poderá ser-lhe útil no futuro... Isto é, não vá supor que eu me proponho dar-lhe lições, ao senhor, que escreveu aquele artigo sobre os crimes! Não se trata disso, mas apenas de apresentar-lhe um fato, como um pequeno exemplo... Assentemos em que eu passei a ter suspeitas deste, daquele ou daqueloutro, por me parecer que é o autor de um crime; vejamos: por que hei de eu ir incomodá-lo antes do tempo, embora possua algumas provas contra ele? Umas vezes vejo-me obrigado, por exemplo, a mandar prender um indivíduo urgentemente; mas, outras, a pessoa em questão é de outro caráter, e, de fato, por que não havia eu de dar-lhe tempo a que passeasse todavia um pouco pela cidade? He... he! Não, o senhor, eu bem vejo, não está compreendendo o que eu lhe digo, e por isso vou explicar-lho com mais clareza: se eu o mando prender demasiado cedo, presto-lhe, por assim dizer, um auxílio moral. He... he! O senhor ri-se - Raskólhnikov nem de longe pensava em rir-se, pelo contrário, rangia os dentes, não afastando o seu olhar inflamado dos olhos de Porfíri Pietróvitch. - E, no entanto, é assim, sobretudo tratando-se de alguns indivíduos, porque são tipos muito diferentes e, com eles, só a prática é que vale. O senhor há de dizer-me: e as provas? Suponhamos que as provas existam; mas repare, bátiuchka, as provas são, na sua maior parte, armas de dois gumes, e eu sou juiz de instrução, um homem fraco, reconheço-o; o que uma pessoa desejaria era estabelecer os resultados do seu processo com uma exatidão, por assim dizer, matemática; desejaria encontrar uma prova de tal natureza, qualquer coisa de gênero dois e dois são quatro. O que uma pessoa quereria seria uma prova clara e incontestável! E veja, se o prendo antes do tempo, embora eu esteja convencido de que é "ele", sou eu próprio que acabo por privar-me do meio de desmascará-lo mais à vontade; e como? Porque dessa maneira lhe destino uma posição, por assim dizer, definida; defino-o psicologicamente e tranqüilizo-o, e ele escapa-se-me e mete-se na sua concha; compreende, finalmente, que está preso. Dizem que em Sebastópol, quando do caso de Alma, algumas pessoas inteligentes temiam que o inimigo atacasse a povoação declaradamente e a tomasse de um golpe; mas, vendo que o inimigo iniciava um assédio segundo todas as regras e abria a sua primeira trincheira, as tais pessoas inteligentes alvoroçaram-se e tranqüilizaram-se; pelo menos durante dois meses a coisa dilatar-se-ia, até que a tomassem por um assalto em regra! Ri-se outra vez, duvida outra vez? Sim, é claro; também tem razão nisto. Tem razão, tem razão! Tudo isto são casos particulares, concordo com o senhor; o caso que lhe apresentei é, de fato, um caso particular. Mas repare, meu muito excelente Rodion Românovitch, é preciso lembrar-se de uma coisa; o caso geral, esse que apresenta todas as fórmulas e regras jurídicas, o que os livros consideram e escrevem, não existe na realidade, pela simples razão de que cada assunto, cada crime, por exemplo, assim que se deu na realidade, passa imediatamente a converter-se num caso particular; e às vezes em circunstâncias tais que não se parecem em nada com o anterior. Às vezes acontecem casos muito cômicos, nesse gênero. Bem; eu deixo o homem completamente só; não o prendo nem o incomodo, mas de maneira que fique sabendo, em todas as horas e em todos os minutos, ou pelo menos suspeite que eu sei tudo, que sei tudo ponto por ponto, que lhe sigo a pista dia e noite, inutilizo as suas cautelas, e viva numa eterna suspeita e medo de mim, e de tal maneira o envolvo, juro-o, que ele próprio me há de vir ter às mãos ou fará qualquer coisa que será já muito parecida com o dois e dois são quatro, isto é, que tenha uma aparência, por assim dizer, matemática... Isso é que é agradável. Isto pode dar-se com um pacóvio, mas também se dá com o nosso irmão, com um homem perfeitamente inteligente e até culto na sua especialidade, e ainda há pouco tempo se deu! Porque, caríssimo, é uma coisa muito importante saber sobre que é que uma pessoa é culta. E depois há os nervos, os nervos, de que o senhor se esquece! Porque todos eles andam hoje doentes, débeis, excitados! E a bílis, todos eles têm tanta bílis! Olhe, sou eu quem lho diz: em chegando a ocasião, pode ser esse o filão! Que pode importar-me a mim que ele ande à solta pelas ruas? Que passeie tudo o que lhe apetecer; eu não preciso de mais para saber que ele é a minha pequena vítima e que não há de escapar-me! Pois para onde poderia ele fugir? He, he! Para o estrangeiro? Para o estrangeiro poderá fugir um polaco, mas não "ele", tanto mais que eu lhe sigo a pista e tomei as minhas medidas. Iria fugir para os confins do país? Mas aí vivem os camponeses verdadeiros, autênticos russos, e um homem imbuído de cultura contemporânea há de preferir sempre ir para o presídio a suportar o convívio com uma gente que lhe é tão estranha, os nossos camponeses, he... he... he! Mas tudo isto são absurdos e superficialidades! Que vem a ser isso de fugir? Isso é pura fórmula; o essencial não é isso; não só ele não me escapa por não ter para onde fugir, como também não me escapa por razões psicológicas, he... he! Esta frasezinha, hem? Não me escapa pela lei da natureza, ainda que tivesse para onde fugir. Já reparou numa borboleta à volta da luz? Bem; pois da mesma maneira se porá ele a dar voltas e voltas em meu redor, como em torno de uma vela; a liberdade deixará de ser-lhe agradável, começará a matutar, a viver numa inquietação, a ficar preso nas suas próprias redes e a sofrer angústias mortais... E isso ainda não é tudo: ele próprio, espontaneamente, me proporcionará alguma prova matemática, do gênero de dois e dois são quatro... assim que eu lhe consinta um intervalo mais longo... E não fará mais do que traçar círculos e mais círculos cada vez mais apertados à minha volta, até que... pumba! Num desses vôos me virá cair na boca e eu engoli-lo-ei com todo o gosto, he... he! Não lhe parece?

Raskólhnikov não respondeu: continuava sentado, pálido e imóvel, contemplando com a mesma atenção concentrada o rosto de Porfíri. "Boa lição!", pensava, transido de frio. "Isto já não é nem mesmo o jogo do gato com o rato, como ontem; e não iria demonstrar-me inutilmente a sua força e... sugerir-me... é demasiado esperto para isso... Não há dúvida de que persegue outro objetivo, mas qual? Ah, é absurdo, meu caro, que tu queiras assustar-me e valer-te de estratagemas para comigo! Tu não tens provas e o homem de ontem não existe! O que tu queres é unicamente atrapalhar-me; o que queres é irritar-me adiantadamente e, uma vez que eu caia nessa disposição, deitar-me as garras; mas estás enganado, estás enganado, não hás de levar a melhor! Mas por quê, por que me espremerá ele até este ponto? Contará com os meus nervos doentes? Não, meu caro, não, estás enganado, apanhas uma desilusão, embora andes tramando alguma. Bem, vamos lá a ver o que é que andavas tramando."
Visite esse excelente site sobre Columbo.

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