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Friday, December 31, 2004
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LLL no EstadãoComo é que sou mencionado no Estadão de quarta, 29 de dezembro, e ninguém me avisa? Será que nenhum leitor desse blog lê o Estadão? Tive que descobrir pelo Google Alert!
Vejam o que escreveu Robson Pereira:
"MENDIGANDO LIVROS "Se você dispõe dos meios, por favor, considere doar um ou dois livros para um pobre escritor falido que não recebe um tostão pelo que escreve." As aspas integram um manifesto sincero e bem-humorado divulgado no blog Liberal Libertário Libertino, mantido pelo escritor carioca Alexandre Cruz Almeida. Para facilitar eventuais doações, Almeida criou uma lista de presentes no Submarino, onde discrimina os livros que gostaria de receber. Independentemente de doações, os textos escritos por ele estão disponíveis para download no próprio blog (www.sobresites.com/alexandrecruzalmeida/artigos/mendigando.htm) ou pelo e-mail cruzalmeida[guess what]sobresites.com." Obrigado, Robson. Adorei.
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Prisão VergonhaNão sei se publico a Prisão Vergonha amanhã ou espero até segunda. Esse blog hoje deve ter só uns 1.500 pageviews, um dos dias mais fracos do ano, e amanhã deve ficar ainda pior. Não quero postar uma das coisas que mais me deu trabalho no dia em que ninguém vai ler. Fica pra segunda.
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FlickrConfesso que estou viciando em Flickr. Já coloquei zilhões de fotos, organizei em pastas, adicionei comentários, postei fotos aqui no blog via Flickr, o troço tem mil e uma utilidades. O Fotolog pode se considerar morto.
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Feliz 2005!Para todos, menos para Branca de Neve. São os sinceros votos da Rainha Má e deste que vos escreve. (Eu sei, eu sei, eu sou doente, mas esse desenho me leva à loucura!)
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Emails Incompreensíveis que ReceboAcho que a intenção era boa, então agradeço:
"nao eseste aumoso mas eseste programas tipo o flogao eu nao quero que vc nao fique com raiva mas e so desendo que eseste xaos a i um feliz ano novo para vc "
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O Mensageiro, de L.P.Hartley Comentário do Márcio Hack ao post sobre Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, de Lima Barreto:
"O trecho do Lima Barreto que te lembrou do Sábato me lembrou de um parágrafo do romance "The Go-Between", de L. P. Hartley, sobre um homem que, ao se deparar o com o seu diário no qual narrara os acontecimentos infelizes que marcaram o verão dos seus 12 anos, passado na casa de um amigo rico, rememora o passado:
"My secret - the explanation of me - lay there. I take myself too seriously, of course. What does it matter to anyone what I was like, then or now? But every man is important to himself at one time or another; my problem had been to reduce the importance, and spread it out as thinly as I could over half a century. Thanks to my intermetent policy I had come to terms with life, I had make a working - working was the word - arrangement with it, on the one condition that there should be no exhumation. Was it true, what I sometimes told myself, that my best energies had been given to the undertaker's art? If it was, what did it matter? Should I have acquitted myself better, with the knowledge I had now? I doubted it; knowledge may be power, but it is not resilience, or resourcefulness, or adaptability to life, still less is it instinctive sympathy with human nature; and those were qualities I possessed in 1900 in far greater measure than I possess them in 1952." Márcio, muito obrigado pela contribuição. Eu nunca tinha ouvido falar nem desse escritor, nem desse livro, mas bastou esse trecho para me deixar muito interessado. O romance já está na minha Lista de Presentes, vou correr atrás dele.
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Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (Lima Barreto, 10) Some authors grow on you.
Eu nunca fui muito com a cara de Lima Barreto. Li Policarpo Quaresma na escola, achei chato, nunca mais pensei nele. Agora, com o lançamento de suas crônicas completas pela Agir, me bateu uma curiosidade e li um livro de crônicas dele que tinha aqui. Abriu meu apetite e acabei lendo também Clara dos Anjos, Recordações do Escrivão Isaías Caminha e alguns contos. Antes que eu percebesse, tinha escrito nove longos posts sobre ele e incluído dois de seus livros em minha Lista de Presentes.
 A simpaticíssima leitora e mecenas Maryanne, de Cuiabá, leu meu romance, adorou e, de acordo com os novos Termos de Uso, achou que eu merecia um mimo.
Mandou para mim Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá. Devorei no mesmo dia e, pronto, dou o braço a torcer. Realmente, Lima Barreto não é um figurante na Literatura Brasileira. O homem é bom mesmo.
Maryanne, muito, muito obrigado. Agora é esperar outro leitor rico me dar meu novo objeto de desejo: sua Prosa Seleta, da Nova Aguilar, que coloquei lá na Lista de Presentes.
Mas vou esperar sentadinho.
* * *
Gonzaga de Sá é um romance que parece simples e curto, mas não é. Alfred Bosi considera-o a mais curiosa síntese de documentário e ideologia que conheceu o romance brasileiro.
O pretexto da história é simples: um funcionário de repartição pública decide escrever a biografia de um colega recém-falecido. A tal biografia nada mais é do que um veículo para longas caminhadas pelo Rio de Janeiro, nas quais são expostas os pensamentos, esperanças e, principalmente, desilusões de Gonzaga de Sá.
Lima Barreto é o poeta do fracasso. Em suas mãos, os personagens sofrem fracassos totais, absolutos, inevitáveis e irrecorríveis. Gonzaga de Sá não seria exceção. Depois de um livro inteiro de observações intelectuais e controladas, ele, por fim, desaba:
"Pensei que os livros me bastassem, que eu me satisfizesse a mim próprio... Engano! As noções que acumulei, não as soube empregar nem para minha glória, nem para minha fortuna... Não saíram de mim mesmo... Sou estéril e morro estéril... As palavras me faltam; as idéias não encontram expressões adequadas, para se manifestarem... Enfim, estou no fim da vida, e só agora sinto o vazio dela, nota a sua falta de objetivo e de utilidade.... (...) Tenho desgosto de mim, da minha covardia... Tenho desgosto de não ter procurado a luz, as alturas, de me ter deixado ficar covardemente entre tais patos. (...) O que mais me aborrece é ter chegado a esta idade vazio de tudo, vazio de glória, de amizade, só,e quase isolado dos meus e dos que me podiam entender. Estou abandonado como um velho tronco desenraizado num areal... (...) Fugi das posições, do amor, do casamento, para viver mais independente... Arrependo-me!..."
Um solilóquio desses me gela o sangue. Poderia ser o Lima Barreto. Poderia ser eu. Provavelmente, era. Provavelmente, será.
* * *
Em uma atitude que me lembrou Sábato, Lima Barreto também faz uma crítica, de certo modo, à inteligência e à educação. Pois de que adiantam inteligência e educação se não levam a uma maior felicidade?
"Porque não sou assim como aquele barrigudo senhor, inconscientemente animalesco, que não pensa nos fins, nas restrições e nas limitações? Longe de me confortar a educação que recebi, só me exacerba, só fabrica desejos que me fazem desgraçado, dando-me ódios e talvez despeitos! Por que ma deram? Para eu ficar na vida sem amor, sem parentes e, porventura, sem amigos? Ah! se eu pudesse apagá-la do meu cérebro! (...) Repara (...) como esta gente se move satisfeita. Para que iremos perturbá-la com as nossas angústias e nossos desesperos?"
* * *
Por fim, em uma crítica social mais ao estilo de Lima Barreto, Gonzaga de Sá simplesmente não compreende porque aquelas pessoas humildes continuam vivendo naquelas condições, porque não se revoltam:
"Eu não compreendo (...) um animal dotado de senso crítico, capaz de colher analogias, levantar-se às quatro horas da madrugada, para vir trabalhar no Arsenal de Marinha, enquanto o Ministro dorme até às onze, e ainda por cima vem de carro ou automóvel. Eu não compreendo (...) que haja quem se resigne a viver desse modo. (...) Porque aqueles homens maltratados pela vida, pela engrenagem social, cheios de necessidades, excomungados falariam tão santamente entusiasmados pelas coisas [tanques, encouraçados, aviões militares] de uma sociedade em que sofriam? Porque a queriam de pé, vitoriosa - eles que nada recebiam dela, eles que seriam espezinhados pela mais alta ou pela mais baixa das autoridades, se alguma vez caíssem na asneira de ter negócios a liqüidar com alguma delas?"
* * *
Maryanne, mais uma vez, muito, muito obrigado. Como vê, adorei o seu presente e foi muito bem utilizado. Não sei o que faria sem mecenas como você.
Gostou desse artigo? Resolveu sua dúvida? Representou valor na sua vida? Então, retribua - na medida do possível. Envie um livro pra mim e me ajude a continuar nessa trincheira.
Lista de Presentes do Liberal Libertário Libertino
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Victoria: Os Pés de uma Leitora MáMeu romance se paga pelas oportunidades que ele me proporciona. Ele já teria valido a pena só por ter me juntado à Victoria.
Ela era uma conhecida social. Acabou lendo meu romance porque eu, escritor estreante, empurro meu romance goela abaixo de todo mundo. Victoria voltou com ele todo sublinhado e com mais quatro páginas de caderno cheias de impressões e opiniões. Tinha muita coisa a dizer. Fomos caminhar pela cidade enquanto ela ia me contando tudo o que achara.
Acabamos entrando em um shopping vazio e sentamos em umas mesinhas desertas, em um canto onde não passava muita gente. Parte de sua empolgação era com a podolatria escancarada de Murilo. Ela tinha tido um caso com um homem que adorava idolatrar seus pés, lambê-los e beijá-los: aquilo, para ela, era o êxtase. Dizendo isso, colocou seus pés em meu colo e comecei a massageá-los.
Nos conhecíamos há meses e nunca tínhamos olhado muito um para o outro. Até aquele momento, nunca conversáramos por mais que alguns minutos. Mas aquela tara em conjunto nos aproximou.
Aos poucos, ela foi se revelando. Não gostava somente da sensação de ter seus pés beijados. Gostava de se sentir desejada, poderosa, uma rainha. Seu alter-ego, que usava em salas de chat, era Victoria, uma rainha absoluta e cruel.
É engraçado como a internet facilita muitas coisas. Pessoalmente, Victoria me deixava massagear seus pés e ronronava como uma gatinha satisfeita, mas não passava disso. Uma brincadeira inocente, uma sensação gostosa. De madrugada, quando nos falávamos pelo MSN, ela deixava sair seu lado mais pervertido e falava livremente aquelas coisas que não tinha coragem de falar cara-a-cara. Pela internet, ela tornava-se realmente Victoria, crescia em poder e superioridade, me xingava, dizia as coisas horríveis que faria comigo se me tivesse em suas garras.
 Suas inibições eu tive que destruir aos poucos, com delicados golpes de cinzel. Da conversa no shopping ao primeiro beijo, foram três meses e meio de muitas idas e vindas. No dia seguinte, estávamos em um motel e a Rainha Victoria se revelou em toda a sua maldade e majestade.
Seu maior prazer era me xingar. Ela me fazia adorá-la, como uma deusa distante, depois adorar suas botas e, por fim, adorar seus pés, sempre fazendo questão de me dizer o que achava de um homem que se prestava aquele papel. Tinha orgasmos só de me dizer aqueles impropérios. E eu, de ouvir.
Fantasiava coisas horríveis. Enquanto eu lambia seus pés, ela me dizia qual seria meu triste destino. Gostava de dizer que, depois de me usar como seu brinquedinho sexual, iria me encolher, me enfiar em seu tênis, que tinha usado o dia todo, e colocar seus pés lá dentro, para se deliciar com meus esperneios contra suas solas. Quando se cansasse, apertaria, me sentiria esmagar ali dentro como um besouro gordo, até eu fazer ploc, mexeria os dedinhos na pastinha que tinha sido eu, e sairia do quarto de motel sozinha, Victoria vitoriosa.
Também gostava de fantasiar que me encolheria e me daria um peteleco, me arremessando janela afora, e ficaria apreciando o arco que eu desenharia no ar até cair e me espatifar lá embaixo. Sua favorita absoluta era me transformar num cachorro coxo e me largar no meio de uma auto-estrada, para ficar observando do acostamento até que um caminhão apressado me acertasse. Imaginar que faria isso a um homem que tinha acabado de amá-la lhe dava tremendo prazer.
Depois que gozávamos ambos com essas loucuras, eu ia subindo por suas pernas, beijando e lambendo seu corpo inteiro, e fazíamos amor. E ela dormia abraçadinha comigo, gatinha desarmada, rainha destronada.
 Nos amamos por quatro meses. Só esses quatro meses já me fizeram valer a pena ter escrito o maldito romance.
Hoje, ainda somos amigos próximos. Ela gosta de me ligar pra me fazer ciúmes com histórias dos outros homens de sua vida. E pergunta: ainda tem vontade de lamber meus pés, cachorrinho? Eu respondo que sim, claro, e ela retruca: você não sabe o prazer que me dá ouvir isso, ainda mais sabendo que jamais beijará meus pés de novo.
Que bobinha. Ninguém melhor do que eu sei o prazer que ela tem em ouvir isso. Por isso é que digo. E por ser verdade, claro.
Perguntei se podia contar nossa história aqui no blog e postar algumas das fotos que tirei dela - sem seu rosto e usando seu codinome Victoria. Ela respondeu que sim, mas eu não teria vergonha dos detalhes sórdidos?
Ora bolas, são os detalhes sórdidos que fazem a história ser interessante. Sem eles, não haveria nada pra contar. E ela deveria saber que não tenho vergonha de nada.
Depois de Victoria, eu nunca mais olhei para as mulheres negras do mesmo jeito. Ela é psicóloga e atende dezenas de pacientes em seu consultório.
 Aliás, dentre as malvadas que encontrei em minha vida, a maioria é de psicólogas (profissionais que tratam da nossa saúde mental!), professoras primárias e secundárias (mandonas e tiranas por obrigação de ofício) e, quem diria, contadoras (compensando na fantasia a carreira mais chata do mundo).
O resto das fotos da Victoria está no meu novo fotolog.
Considerem esse texto sem vergonha uma introdução à Prisão Vergonha, que começará a ser publicada amanhã, 1º de janeiro de 2005.
Feliz ano novo.
Leia também:
Elogio as Malvadas
Aprendizes de Malvadas
Thursday, December 30, 2004
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Calando aos Beijos Primeiro, o Biajoni, do excelente Tiro & Queda, escreveu uma resenha do meu romance, Mulher de Um Homem Só, em que fala mais de mim do que do romance em si. Eu agradeci mas disse que achava que autor é uma coisa, obra é outra. Enquanto isso, a Dani prontamente escreveu um post concordando com o Bia, que conhecer a vida de um autor é importante para entendermos seus livros.
Eis que hoje, enquanto estou ocupado escrevendo um artigo para demonstrar que conhecer a vida de um autor não só não ajuda a conhecer sua obra como, pior, quanto mais se conhece a vida de um autor, MENOS conhecemos sua obra, eis que no meio disso tudo me chega aqui pelo correio Um Ensaio Autobiográfico, do Borges, presente de natal do Bia pra mim. Logo o Borges, um dos meu autores preferidos!
O colega Rafael Galvão outro dia me confidenciou que não suportava Borges, não conseguia gostar dele, por causa do seu apoio à sangrenta ditadura argentina.
Mas o que importa é a obra, não o autor. O que importa é termos Ficciones, El Aleph, El Hacedor. Se eu soubesse que Borges só escrevia tão bem assim porque gostava de torturar criancinhas no porão de sua casa, eu mesmo levaria umas crianças chatas pessoalmente pra ele. Em 500 anos, ninguém vai nem se lembrar onde fica a Argentina, mas ainda vão ler o Quixote, de Menard.
 Se eu fosse um homem digno e coerente, devolvia o presente sem nem ler. Afinal, de que me importa a autobiografia de Borges, quando tenho sua obra?
Mas coerência é para os fracos e os medíocres. Nunca vi ninguém desmontar um argumento com um presente. O Bia deve ser daqueles que calam mulher faladora com beijos.
Bia, muito, muito obrigado. Sensacional.
Visitem o Tiro & Queda, que o Bia merece, e também dêem uma olhada em minha lista de presentes.
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The New Annotated Sherlock HolmesEscreveu Nemo Nox, o melhor blogueiro do mundo:
"Já li todas as histórias do Sherlock Holmes em português. Já li todas as histórias do Sherlock Holmes em inglês. Já li vários livros sobre o Sherlock Holmes, em vários idiomas. Mas agora parece que vou ter que comprar mais uma edição dos contos do detetive de Baker Street: "The New Annotated Sherlock Holmes, a two-volume, 10-pound collection of all 56 Holmes short stories by Sir Arthur Conan Doyle, complete with Mr. [Leslie] Klinger's exhaustive footnotes. The collection, published last month by W.W. Norton is being hailed as the definitive exegesis of Holmes and his times.""
E eu queria confessar: eu comprei! Eu comprei! Empenhei até a alma, carne agora só em março, mas comprei.
Eu também li todas as histórias do Holmes em português, quando era moleque, naquelas edições da Melhoramentos. Eu também li vários livros sobre o Holmes - adorei The Seven Percent Solution. Eu também li todos os contos de novo em inglês - comprei uma edição das histórias completas do Holmes, editada pela Barnes & Noble.
E meu sonho sempre foi ter uma edição anotada das histórias, pra saber o backround, as fofocas, os erros internos. Agora, tenho. Custou U$45 mas valeu a pena. Era preço de lançamento, depois subiria pra US$75.
Mandei pra casa da minha irmã, na Califórnia (senão seria o triplo só de frete) e ela trouxe o livro pro Brasil nesse natal. Disse que foi metade do peso da mala. Bem feito. Foi a cachorra dela que comeu a minha edição da Barnes & Noble.
5kg de puro Holmes. Estou babando. Morram de inveja.
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Novos LinksAgora, cada vez mais selecionados. Só papa fina.
Blog da artista plástica Isabel Löfgren, minha amiga do coração e uma das pessoas mais próximas a mim. Tudo sobre artes plásticas e internet.
Último post: Susan Sontag: a mulher que deu sentido a fotografia A belíssima Cinthia Rocha, estudante de História, namorada do Marcelo que não escreve pra poucos, mantém um blog sobre ciências humanas, arte e atualidades. No começo do mês, eu fiz um post em homenagem a ela, que a moça merece.
Último post: A Tragédia na Ásia e as Profecias A Viajandona acabou de se formar e está indo viver sua vida.
Último post: É... Projeto colaborativo criado pelo incrível Biajoni. Todo dia, novos colunistas, novas colunas, novos artigos. Tem sempre coisa boa lá.
Último artigo do Bia: Mulher de Um Homem Só
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Por Onde Começar a Ler a Bíblia? (Bíblia, 3)
 Todo mundo tem uma Bíblia em casa. Mesmo que não seja a ideal, é melhor que nada. Por onde começar então? Depende do que você quer.
Filosofia
A Bíblia contém dois belíssimos livros de Filosofia, o Eclesiastes e Jó, esse último remetendo aos diálogos gregos. A graça da brincadeira é justamente comparar como a filosofia e lógica hebráicas são totalmente diferentes das gregas em conteúdo e objetivo, mesmo que superficialmente parecidas.
Poesia
Além dos Salmos (que eu acho insuportáveis, mas há quem goste), a Bíblia tem diversos livros de poesia, ou com extensos trechos em poesia. Os meus preferidos são o Cântico dos Cânticos (um livro sensual que ninguém entende o que faz na Bíblia) e Naum, em que um profeta sedento de sangue canta, com um êxtase cruel, a queda dos inimigos do povo de deus.
História
Nenhum livro da Bíblia é histórico como entendemos hoje, mas muitos enganam bem. Também é interessante comparar os livros de Samuel, Reis e Macabeus às histórias de Heródoto e Tucídides. Assim como os livros filosóficos, eles são traiçoeiramente parecidos na forma, mas totalmente distintos em conteúdo, tom e objetivos. Inclusive o Livro dos Macabeus é ostensivamente anti-grego. Não leia Crônicas, é chato demais.
Leis & Romance Policial
Para quem quiser saber como surgiram os códigos legais que influenciam nossa vida até hoje, recomendo os áridos Levíticos e Números mas, melhor ainda, o Livro de Daniel, que apresenta a primeira investigação policial e julgamento com testemunhas dignos desse nome da história. Mas, cuidado, pois a História de Suzana e os Anciãos é um trecho do Livro de Daniel que só aparece nas Bíblias católicas. Não foi Poe quem inventou o conto policial, foi Daniel.
Literatura & Folclore
Alguns dos melhores livros da Bíblia são os que largam mão de qualquer pretensão histórica ou de verossimilança (a não ser para os fundamentalistas, claro, que acham que é tudo verdade) e abraçam seu lado mais imaginativo e folclórico, narrando as lendas de formação do povo judeu. São eles o Gênese, o Êxodo, Juízes, Rute, Judite, Jonas e Tobias (esse só nas Bíblias católicas). É um melhor que o outro.
Literatura Beat
Inclassificável é o Apocalipse, talvez o meu favorito. É um livro louco, que remete aos mais loucos escritos de Burroughs e Ginsberg. Impossível não imaginar que seu autor estava cheio de haxixe na cabeça pra imaginar aquelas imagens tão loucas.
 Naturalmente, há todo um contexto histórico e literário. O gênero apocalíptico (existiram vários apocalipses, o da Bíblia é só um deles) foi a uma resposta à opressão política que o povo judeu sofria e os freis betos da Teologia da Libertação adoram cooptar o Apocalipse pra si, rotulando-o de literatura de resistência. Tudo isso é, ao mesmo tempo, algo verdade e algo besteira.
Esqueça o contexto histórico. O Apocalipse é, e sempre será, literatura de primeira grandeza pela sua imagética, bem, apocalíptica. Poucos livros são mais eminentemente visuais, grandiosos, sensacionais, enlouquecidos.
Divirta-se e me conte como foi sua jornada pela Bíblia.

Gostou do artigo? Foi útil pra você? Se foi, retribua. Dê um livro ao seu blogueiro preferido e me ajude a manter esse blog no ar.
Lista de Presentes do Liberal Libertário Libertino
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TsunamiCom certeza, para grande parte da elite anglófoba do mundo, a pior coisa desse tsunami é que não dá, simplesmente não dá pra culpar os EUA por nenhuma parcela do desastre.
Bush não assinou Kioto, os EUA consomem mais do que o resto do mundo, etc etc, mas nada, nada disso afetou, criou ou estimulou o tsunami. A única crítica que conseguiram fazer (pueril!) foi dizer que o país que doa 40% de tudo o que é doado no mundo foi "sovina".
Sério, deve ter neguinho enfiando o dedo no cú e rasgando de tanto ódio.
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Saldão de Fim-de-Ano com 70% de DescontoPra torrar tudo o que não vendeu no Natal. Pelo sim pelo não, vale a pena conferir.
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Viciado em Lobo Antunes Fiquei dez dias com três livros do Lobo Antunes, li como um desesperado, e só consegui ler dois. E nem encostei nos Mia Couto.
Os Cus de Judas é bom, mas não é nem a obra-prima de Lobo Antunes e muito menos um clássico da literatura universal. Talvez as pessoas ainda associem mais essa obra a ele por ter sido seu primeiro grande sucesso. Talvez ele tenha escrito tantos romances que fica difícil da crítica concordar em qual é o maior.
As metáforas são lindas, a linguagem flui, mas não senti nada por trás: somente a fachada, somente o jogo estético. O romance não me envolveu em nenhum momento, mal percebi os personagens.
Fechei o livro e pensei: está aí o grande problema dessas invenções estilísticas do século XX, falta de conteúdo. Grande Sertão Veredas é bom pois aliava a prosa estonteante de Rosa a um enredo envolvente. O resto da sua obra é fraco (alguém tem saco pras novelas de Corpo de Baile?) pois a mesma prosa estonteante, sem um enredo envolvente por trás, é só jogo de cena.
Comecei a ler Manual dos Inquisidores e foi um baque. Estava diante de um novo Grande Sertão Veredas, um livro certamente grande, em todos os aspectos, ambicioso, voraz, sensacional.
 Não tenho condição de descrever o estilo de Lobo Antunes em Manual dos Inquisidores. Só posso dizer que nunca vi nada parecido. Só posso dizer que funciona - e isso talvez seja o mais incrível.
80 anos de experimentação estilística no século XX, produzindo pilhas de romances ilegíveis, beat, surrealistas, finalmente culminaram em Manual dos Inquisidores, uma prosa radicalmente nova, desconcertante, viciante, mas totalmente integrada ao enredo, aos personagens, à história que se quer contar.
O estilo é desconexo, truncado e louco, mas necessário. O leitor avança de relato em relato, de história em história, de comentário em comentário, e se vê envolvido naquela multiplicidade de vozes, naquela enormidade situações, naquela tristeza profunda. No início, a prosa parece pesada, forçada. Em breve, já não podemos conceber que o livro tivesse sido escrito de outra forma.
Depois de décadas de ditadura salazarista, a Revolução dos Cravos, de 1974, traz a democracia de volta à Portugal. Manual dos Inquisidores acompanha a decadência e queda de um dos ministros de Salazar, e de como isso influencia sua família, seus subordinados e agregados.
A principal reclamação que fazem ao livro é ser caricato, como se os personagens não fossem realistas o suficiente. Talvez. Mas não acho que quaisquer personagens tenham obrigação de ser realistas. Em Manual dos Inquisidores, estamos mais preocupados com o painél do que com os personagens individuais.
Ler Manual dos Inquisidores foi uma das experiências mais sensacionais do ano.
* * *
Para quem não lembra, a biblioteca da PUC comprou muitas obras de Lobo Antunes, mas elas não podem sair da biblioteca, só na noite de sexta para voltar na segunda de manhã. Consegui ficar dez dias com Os Cus de Judas e Manual dos Inquisidores porque era recesso de natal.
Quando fui devolver, implorei, chorei, tentei de tudo para a bibliotecária-chefe me permitir ficar com eles mais uma semana, até o ano-novo, mas nada, ela foi implacável.
Resultado: quinta vou lá de novo, pegar um ou dois Lobos Antunes e tentar lê-los obcecadamente até o dia 3 de janeiro, quando terei que levá-los de volta. Lá se vão mais alguns livros maravilhosos ser lidos de forma errada.
Ser pobre é uma merda.
* * *
Alguém comprou Manual dos Inquisidores no Submarino, clicando pelos links aqui do blog.
Confesso que, apesar de grato, me bateu uma inveja: um livro maravilhoso, que devia ser lido no seu próprio ritmo, eu tive que ler a toque de caixa, em cinco dias, pra devolver correndo pra biblioteca, e agora esse cretino, por minha indicação, vai ler o Manual dos Inquisidores sem pressa alguma.
Ingrato. Podia ter mandado outro pra mim!
UPDATE
Vocês reclamam de eu ser pidão, mas desde que escrevi as linhas acima, nessas poucas horas, esse post já vendeu mais TRÊS livros do Lobo Antunes, nenhum deles - que eu saiba - pra mim.
Ô inveja.
* * *
Será que nenhum leitor caridoso me daria alguma das obras abaixo do Lobo Antunes? Das que estão disponíveis no Submarino (o homem escreveu dezenas de livros), as que me faltam são: Fado Alexandrino, Exortação aos Crocodilos e A Ordem Natural das Coisas.
 
Lista de Presentes LLL
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Val GigantaUm amigo fez essa colagem dos belos pés da minha amiga Val (eu amo tornozeleiras de búzios) pisando em um homenzinho. Ele deveria estar gostando, o ingrato.
Está lá, no meu novo fotolog.
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A Obra como Apêndice do AutorEsse discussão é vital e nem começou ainda. Por enquanto, vou só apresentando os diversos pontos de vistas relacionados.
Com a palavra Milan Kundera, um dos grandes escritores desse século, em A Arte do Romance (1986):
O romancista é aquele que, segundo Flaubert, quer desaparecer atrás de sua obra, (...) renunciar ao papel de homem público. Não é fácil hoje, quando tudo o que é muito ou pouco importante deve passar pelo palco insuportavelmente iluminado dos mass media que, contrariamente à intenção de Flaubert, fazem desaparecer a obra atrás da imagem de seu autor. Nessa situação, da qual ninguém pode escapar inteiramente, a observação de Flaubert me parece quase uma advertência: prestando-se ao papel de homem público, o romancista põe em perigo sua obra que corre o risco de ser considerada como um simples apêndice de seus gestos, de suas declarações, de seus pontos de vista.
O romancista desfaz a casa de sua vida para, com as pedras, construir a casa do seu romance. Os biógrafos de um romancista desfazem portanto o que o romancista fez, refazem o que ele desfez. O trabalho deles não pode esclarecer nem o valor nem o sentido de um romance, apenas identificar alguns tijolos. No momento em que Kafka atrai mais atenção do que Joseph K., o processo de morte póstuma de Kafka se iniciou. Leia também
O Autor & O Livro
A Voz do Blog e a Persona do Autor
Wednesday, December 29, 2004
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Clube de Leituras LLL: PlanejamentoUm ano para ler os 10 melhores livros do mundo. Que tal?
Estou dando, em média, um mês e meio para cada livro, sendo que dois meses para o Quixote, por ser bem maior, e um mês para Hamlet e Dom Casmurro, que são curtinhos.
- 31 janeiro: Crime e Castigo
- 15 março: Processo / Metamorfose
- 15 maio: Dom Quixote
- 30 junho: Grande Sertão Veredas
- 30 julho: Hamlet
- 15 setembro: Cem Anos de Solidão
- 30 outubro: O Nome da Rosa
- 30 novembro: Dom Casmurro
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O Autor & O LivroO autor conta? O autor deve ser levado em consideração quando apreciamos uma obra de arte? A discussão, iniciada pela resenha do Bia, continua no blog da Danicast.
Ainda estou escrevendo uma resposta apropriada. Por enquanto, leiam o que a Dani escreveu:
""Já eu considero o autor 100% irrelevante: como as abelhas, ele podia bem morrer depois de dar sua ferroada e não nos faria muita falta. Quando muito, se o autor tiver que ser considerado, que seja a partir da obra, mas nunca a obra entendida a partir do autor." - Alexandre Cruz Almeida
Não considero os autores "irrelevantes", não dá para considerar o autor irrelevante. Apesar do Alexandre sempre dizer que prefere ser separado enquanto pessoa de seus textos, não há como separar.
Somos todos texto. O livro é o autor.
Na maioria dos livros nada sabemos sobre os autores. Se gostamos muito de um autor, lendo sua obra, podemos até ir atrás de sua biografia e quando temos sorte, encontramos um diário para ler - pretendo ler o diário de Kafka, é uma idéia que tenho comigo há tempos - mas temos sempre pouco sobre o autor. E mesmo esse pouco, revela-se profundamente integrado ao que ele escreve em suas obras.
"Kafka dizia abertamente que queria sair dos domínios de seu pai, e para isso acabou optando por uma profissão que não era de seu agrado. Formou-se em Direito e trabalhou por 14 anos em uma companhia de seguros contra acidentes do trabalho. Ocupação para ele alienante e burocrática, da qual se queixou em seu diário no ano de 1913:
'Meu emprego é insuportável porque se opõe ao meu único desejo e minha única vocação, a literatura. Como eu não sou outra coisa que literatura, e não posso e nem quero ser outra coisa, meu emprego nunca conseguirá apoderar-se de mim, ainda que possa a chegar a destroçar-me totalmente. Não falta muito para isso."" - O Espelho de Kafka
Ainda que do ponto de vista mais simplificado, será que teríamos O Processo, se Kafka não fosse advogado?
Durante a minha adolescência fui fã ardorosa de Somerset Maugham. Eu li Liza, A Pecadora (1897), Servidão Humana, O Fio da Navalha, Contos dos Mares do Sul. Quando fui pesquisar mais sobre a vida de Maugham, descobri que ele era órfão, foi criado por um tio, tornou-se médico - o que talvez explique várias passagens de Liza, A Pecadora - foi agente secreto na Segunda Guerra e morou na Riviera francesa - talvez a experiência de guerra tenha sido a idéia inicial para O Fio da Navalha, livro que tem entre seus cenários a Riviera. Maugham viajou pelo Pacífico e a partir de sua experiência nessas viagens, escreveu Contos dos Mares do Sul. Se a vida de Maugham fosse diferente, ele escreveria livros diferentes.
O Alexandre sempre reclama que os leitores do blog confundem-no com seus escritos. Mas a verdade é que a mesma história, se fosse escrita por outra pessoa, seria totalmente diferente. Já fizemos um exercício assim, uma vez.
Somos totalmente texto. Nosso próprio texto. Construído pelo que vivemos, o que gostamos, o que pensamos, o que lemos, como experimentamos o mundo. O que escrevemos é reflexo desse texto. É a minha opinião. " Ninguém está questionando que se a vida de Maugham e Kafka tivesse sido diferente eles teriam sido pessoas diferentes e teriam escrito livros diferentes. A Dani falou, falou, mas não entrou na questão que eu propus.
Saber que o Maugham era órfão e foi criado por um tio pode até nos ajudar a compreender melhor a PESSOA de Maugham, mas não tem nada a ver com a compreensão e apreciação de seus romances.
São, ou deveriam ser, coisas diferentes.
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Pés da ValA Val é outra bela ex-colega de trabalho, que adorava minhas massagens e me deixou tirar fotos de seus belos pés. Eu acho essa sua tornozeleira de búzios um charme.
Vejam as fotos no meu novo fotolog.
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Os Pés das Leitoras: Alyne A Alyne trabalha comigo no curso de inglês. Além de ser uma grande amiga, muito simpática e leitora desse blog, é uma gatinha e tem pés simplesmente deliciosos. Costumava ficar horas massageando-os entre uma aulas e outra.
Aí, infelizmente, a Alyne arrumou um namorado e usou isso como desculpa, safada!, para não de deixar mais fazer as massagens.
Como toda mulher, ela incompreensivelmente pensa que seus pezinhos são feios e achou a maior graça (como dá pra ver) das várias fotos que tirei. Eu não sei vocês, mas acho que rir embeleza qualquer mulher. A Alyne, então, fica ainda mais bonita rindo.
Reparem também no mais delicioso detalhe: a Alyne tem uma charmosíssima pintinha perto da unha do segundo dedo do pé esquerdo. Reparem na foto ao lado.
Para melhorar, ela ainda fez a minha posição favorita com os dedos dos pés, que chamo de Andalusian Spree, e acho linda: levantar o dedão ao máximo, e baixar os outros, como se fosse um OK com os pés.
O resto das fotos está no meu novo fotolog, pra não ficar enchendo esse blogs de pés - mesmo que lindos.
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A Voz do Blog e a Persona do Autor
Luiz Biajoni, criador do excelente site Tiro & Queda (sim, estou recomendando e muito uma visita, dê um pulo lá) escreveu uma resenha muito interessante, perceptiva e bem articulada do meu romance, Mulher de Um Homem Só. Confiram:
"Alexandre Cruz mantém um dos mais interessantes e acessados blogs de toda internet no Brasil, o LLL (tem link também na página inicial do T&Q). Ele fala com desenvoltura sobre literatura e temas atuais, instiga seus leitores a algumas discussões, brinca com fetiches particulares. Mas antes disso, gaba-se de ler muito (leu mais de 70 livros apenas neste ano) e de ter escrito um romance que está disponível para download em seu blog. ?Mulher de um homem só? foi, recentemente, rejeitado pela editora Rocco. Alexandre cria, dessa maneira, uma aura de intelectual e escritor ainda não ?compreendido? - cegas e tacanhas essas editoras!
Gosto imensamente do que escreve Alexandre em seu blog e admiro com fanatismo juvenil sua perseverança de afirmar-se "escritor até o último fio de cabelo", disposto a tudo para cumprir seus projetos pessoais - basicamente: ler livros, escrever livros e comer mulheres. Acrescentaria a esse projeto apenas ver filmes e ouvir música - mas aí precisaria de mais dinheiro e teria que trabalhar mais - e Alexandre trabalha na medida para sua satisfação; que advém das ações descritas acima. Não precisa de muito, acreditamos.
Mas o objeto aqui não era seu romance? Que estou falando dele e de seu blog? Simples: como as pessoas só têm acesso ao seu livro pelo seu blog dificilmente conseguem dissociar a voz do blog e a persona do autor da narrativa no romance. Romance? Estamos mais diante de uma narrativa, um conto de assunto fechado, do que de um romance. Não abundam personagens ou situações. E a narrativa na primeira pessoa atrapalha tanto quanto pretendo mostrar a seguir.
É Carla quem conta a história de seu casamento com Murilo, da interferência contínua de Júlia, amiga antiga do marido, no casamento, no nascimento e criação da filha e sobre como ela própria, Carla, tirou proveito e execrou essa relação com Júlia. Carla, inicia dizendo: "Não tinha nem me libertado da escola ainda quando me casei. Mas boa fedelhacente que era não encampava mais vida na minha casa: foi só Murilo puxar o pedido e eu aceitei, num estrambelho". Que tipo de mulher usa esse tipo de linguagem? Que mulher diz que era "fedelhacente" quando casou e que não "encampava" mais vida em casa quando o cara "puxou" o pedido e ela aceitou num "estrambelho"?
Pois foi a justificativa para esse tipo de linguagem utilizada por Carla durante todo o livro que eu procurei e acabou me motivando a leitura - e me frustrando no final, pois essa justificativa não existe! Não existe um motivo para Carla estar escrevendo aquilo, nem daquele jeito tão ?anti-coloquial?. A linguagem de Carla é de alguém preocupada com a estética do contar e não com uma narrativa real e consistente. A gente sabe que quem está contando a história é Alexandre Cruz - cara que sabe manejar as palavras, que gosta de Borges e lê vários livros... Carla não é assim. Ela casou muito nova, teve uma filha logo depois e foi cursar faculdade de odontologia enquanto a filha ainda era bebê e... decide contar a história desses seus dias. A gente não sabe porquê ela toma essa decisão. E nem o motivo de usar um palavreado tão rebuscado, cheio de metáforas, figuras de linguagem, comparações e palavras inusuais.
A narrativa, diga-se, é fluente e bonita; de rebusque na medida e motivadora da leitura. Só que soa artificial na boca da protagonista. Se tudo fosse passado para a terceira pessoa, seria maravilhoso: teríamos um observador objetivo e sensível da história a comparar passagens, personagens e sentimentos - e ele estaria contando uma história mais real até do que aquela vivida pelos personagens.
Ponto interessante, que achei que fosse levar por algum caminho de entendimento, é o fato de Júlia, o pomo da discórdia, ser artista. Ela é artista plástica. Murilo gosta e tem certa condescendência por ela, por essa... sensibilidade; enquanto a esposa, Carla, é uma mulher prática - acreditamos.
Pois se Carla se decidisse, lá pelas tantas, a cursar uma faculdade de Letras (sempre se sonhara escritora, por exemplo), podíamos imaginar que o resultado final do texto na primeira pessoa fosse uma concretização de seus anseios. Com isso, podia ela também estar fazendo uma afronta a Júlia e toda sua "sensibilidade". ?Disputando? com Júlia ? que é o que ela faz o tempo todo.
Júlia tem uma primeira exposição dos trabalhos, que lhe rende boas críticas. Ela é jovem. Carla está cuidando das coisas ao seu redor, não tem tempo para devaneios artísticos. As próximas exposições de Júlia são fracassos seguidos - e Carla, em Letras, poderia mostrar o exemplo de um "linear e progressivo" crescimento artístico que culminaria com... a narrativa do livro em si. Seria a justificativa para a narração e o estilo.
Mas eis que Carla vai cursar Odontologia e eu fiquei pensando em uma dentista fazendo aquele relato, com aquela linguagem. Ficou mais incrível ainda!
A falta da conexão entre a voz e o personagem, para mim, é o pior defeito do livro. A voz cabe perfeitamente em Alexandre - isso atrapalha às pampas!
Outro problema na narração de Carla é que ela dá detalhes que seriam impossíveis a ela saber. O diálogo de Murilo com o irmão de Júlia, Glicério, é cheio de detalhes (o giz que corre o chão e gruda no sapato...) que talvez só um dos dois debatedores, Murilo ou Glicério, poderiam saber. Mas isso é uma licença perfeitamente aceitável.
A mulher de um homem só, na verdade, são as duas - Carla e Júlia. Carla teve e amou objetivamente Murilo. Júlia desejou-o desde sempre, mas nunca o teve como homem. Murilo é um personagem deficiente, frente a duas mulheres tão magnânimas. Talvez fosse interessante deixar na imaginação do leitor se ele e Júlia realmente tiveram algo. Mas a coisa toda é descartada, eles não tiveram nada mesmo, por (in)vontade de Murilo.
Na verdade, Murilo parece algumas vezes intelectual demais (cerebral, Alexandre?), ou radical demais (respeitar Hipócrates, Alexandre?), ou fetichista demais (pés, Alexandre?). Em alguns momentos Carla diz ter mais desejo sexual que ele e que por vezes ele preferia ficar a beijar-lhe os pés sujos. Glicério, irmão de Júlia, não entende como ele nunca teve desejo pela irmã - e ele explica comparando-a com um amigo homem. Murilo, no fim, é quase um "não-objeto de desejo" - serve apenas à disputa dessas duas mulheres que não conseguem tê-lo por inteiro. Não sabemos se Murilo ama mesmo Carla - e essa dúvida atrapalha também, ele parece desprovido de paixão. Por cerebral e não-sexual, duvida-se que ele ame qualquer coisa... Já que se definiu que ele não sente nada sexual por Júlia podia estar explícito, em algum trecho, sua entrega a Carla. Ele sequer se dirige a ela de maneira carinhosa em todo o livro.
Júlia insinua-se por essa vida dos dois e também deita-se sobre Raquel, a filha do casal, como um fantasma de algo que Carla gostaria de ter sido. A mãe de Júlia é espírita e meio que se reconcilia com a filha como se fossem uma o carma da outra e Carla, a narradora, faz um questionamento: se não seriam, todos os personagens, carmas uns dos outros? E o livro acaba quase sem um fim. Não fosse por um parágrafo crucial.
Existe um parágrafo que cita que o espólio de Júlia passou para Mariana, provável filha de Raquel, neta de Carla e Murilo, bom tempo depois do tempo da narração dos acontecimentos. Marina se desfaz das obras. O trecho termina com uma frase sucinta de Carla: "Eu teria aprovado". Por que ela "teria aprovado"? Será que Carla morreu e toda essa narração é além-túmulo?
(UPDATE: esse parágrafo, na verdade, é o fim do livro - que muitos acham que não termina)
Aí teríamos que afirmar que as noções estéticas de narração ficam mais apuradas no pós-morte. Alexandre tem essas noções ainda vivo - e preparou um texto interessantíssimo e de fluência invejável. Talvez só tenha colocado sua voz na boca de uma defunta restrita demais para tão rebuscada prosa. Ou seria Carla a encarnação de uma Virginia Woolf?
Adorei a resenha do Bia, com algumas ressalvas. Algumas distorções de sua percepção (nas quais não vou entrar, não é o meu papel) são fruto, justamente, dessa discrepância entre "voz do blog e a persona do autor da narrativa no romance".
O Bia leu e entendeu o romance tendo como ponto de partida a pessoa do autor e não a obra em si. Já eu considero o autor 100% irrelevante: como as abelhas, ele podia bem morrer depois de dar sua ferroada e não nos faria muita falta. Quando muito, se o autor tiver que ser considerado, que seja a partir da obra, mas nunca a obra entendida a partir do autor.
Pode parecer que estou discutindo quantos anjos que dançam na ponta de um alfinete mas, para um romancista, essa questão não poderia ser mais vital e premente. Dela depende, entre outras coisas, minha postura pública e até mesmo o futuro desse blog.
Amanhã vou publicar um artigo mais elaborado sobre isso. Mas, antes, eu queria saber: o que pensam vocês? Será que conseguem ler Mulher de Um Homem Só sem pensar nesse blog? Eu também gostaria muito de saber como outros autores-blogueiros encaram esse problema.
E, aliás, será que você é o único freqüentador do LLL que ainda não leu Mulher de Um Homem Só? Vai lá, vai lá!
Ah, e uma última coisinha sobre a voz literária de Carla não ser condizente com uma dentista: quantos jagunços você conhece que falam como o Riobaldo?
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Banner do Clube de Leituras LLL
O amigo e überblogueiro Mauro Amaral, do Carreira Solo, além de fazer um simpático post sobre o Clube de Leituras, ainda criou esse simpaticíssimo banner.
Leiam o que o Mauro escreveu e ajudem também a divulgar essa idéia.
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Leia a Bíblia Certa (Bíblia, 2)
Se você vai mergulhar em deliciosa leitura da Bíblia como Literatura, também vale muito a pena comprar uma Bíblia literária.
 Cada Bíblia tem uma função. Existem Bíblias litúrgicas (feitas para serem usadas pelos sacerdotes), pastorais (para ser usadas na conversão) e de estudo (para ser usadas em estudos teológicos). Escolher bem a Bíblia é fundamental.
Bíblia Pastoral: a Bíblia da Teologia da Libertação
A Bíblia Pastoral foi editada por pessoas fortemente ligadas à Teologia da Libertagem. Elas distorceram, em função de sua ideologia, tudo o que poderia humanamente ser distorcido - especialmente as introduções, notas e subtítulos dos livros.
Exemplos de subtítulos do Eclesiastes, na tradução da Bíblia Pastoral:
- A competição é desumana
- A felidade é usufruir o fruto do próprio trabalho
- O acúmulo traz desgraça
Desnecessário acrescentar que nenhuma dessas expressões ocorre no próprio texto, mas são apenas tentativas desastradas dos editores de guiar e influenciar ideologicamente a leitura.
Ou seja, se você quer realizar uma lavagem cerebral em pobres camponeses ignorantes, a Bíblia Pastoral é a escolha perfeita. Se quiser apreciar os aspectos estéticos e literários da Bíblia, esqueça.
Eu confesso que dou boas gargalhadas com minha Pastoral. Sempre que leio um livro da Bíblia, eu vou na Pastoral conferir como os Freis Bettos a distorceram. Nunca falha em me divertir.
(O Marxismo e o Cristianismo são duas das piores, mais nocivas e mais assassinas idéias da História. Felizmente, eles raramente andam juntas: quem sofre de uma, não sofre de outra. As antas da Teologia da Libertação merecem um prêmio especial de escória da humanidade por ter conseguido, a custa de muito esforço, conciliar duas teorias idiotas e, a princípio, irreconciliáveis, em uma teoria que é, talvez, a MAIS idiota de todos os tempos - numa espécie idiota como a humana, esse é um feito e tanto.)
Bíblias Protestantes: Menos Intrusivas
Também não recomendo as Bíblias protestantes, nem a mais clássica (tradução de João Ferreira de Almeida) nem as de estudo (a mais famosa é a Thompson). Por definição, a religião protestante enfatiza uma compreensão individual da Bíblia, não mediada por sábios ou teológos. Conseqüentemente, as leituras protestantes da Bíblia são relativamente mais simples e literais.
Uma Bíblia de Estudo como a Thompson, apesar de excelente e completa, não vai oferecer todas as possíveis nuances interpretativas e literárias de cada livro - justamente para evitar guiar a leitura individual que cada um deve fazer da Bíblia.
 Ou seja, também não é recomendada para quem quer ler a Bíblia como Literatura.
Bíblia de Jerusalém e Bíblia do Peregrino
Recomendo, portanto, as Bíblias de estudo católicas. Existem duas excelentes no mercado, a Bíblia de Jerusalém e a Bíblia do Peregrino. Além de abordarem todos os aspectos teológicos e históricos que as outras abordam, ambas demonstram enorme cuidado em também apresentar aos seus leitores o lado mais poéticos e literário de cada livro.
Leitores não-católicos podem ficar incomodados com as notas teológicas mas, vão por mim, que também não sou católico: se querem entender e apreciar os aspectos literários da Bíblia, as melhores opções são essas duas. Pule os trechos teológicos, ignore o que eles falam de Maria e dos anjinhos, e concentre-se nos comentários estéticos, que são muitos e interessantíssimos.
Além disso, como bem lembrou o Igor, a Bíblia católica tem vários livros que a protestante não tem. Independente de ser inspirado ou não, o Livro de Tiago é boa literatura, com certeza.
(amanhã... por onde começar a ler a Bíblia?)
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Lista de Presentes do Liberal Libertário Libertino
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"AL JIZAH, EGYPT - A team of British and Egyptian archaeologists made a stunning discovery Monday, unearthing several intact specimens of "skeleton people" - skinless, organless humans who populated the Nile delta region an estimated 6,000 years ago.
"This is an incredible find," said Dr. Christian Hutchins, Oxford University archaeologist and head of the dig team. "Imagine: At one time, this entire area was filled with spooky, bony, walking skeletons." (leia o resto...)
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A Hora da Estrela com 30% de DescontoA Hora da Estrela só não é a obra-prima de Clarice Lispector (merecia) pois Água Viva é um romance simplesmente fora de qualquer escala. Eminentemente simples e incrivelmente complexo, A Hora da Estrela é um dos pontos altos da literatura tupiniquim.
Aliás, se fosse fazer uma lista dos cinco melhores romances brasileiros, entrariam, com certeza, Dom Casmurro, Grande Sertão Veredas, Água Viva e A Hora da Estrela. O quinto variaria de acordo com o meu humor.
Aproveite para comprar A Hora da Estrela com 30% de desconto e, clicando por aqui, você ainda faz um agrado pra esse pobre blogueiro que poderia estar roubando, poderia estar matando, mas está aqui escrevendo de graça pra você.
Tuesday, December 28, 2004
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Repercussões do Clube de Leituras LLL
O Clube de Leituras LLL já está repercutindo pela blogosfera. Só hoje, foi citado no Reflective Surface e no Bibi's Box.
O quê? Você não sabe do que estou falando? Leia tudo sobre o nosso Clube de Leituras aqui: em janeiro, estamos lendo Crime e Castigo, de Dostoievski.
E eu reitero o meu pedido: se você já tem o livro, ou está tão duro quanto eu e vai ou pegar de uma biblioteca ou garimpar em sebos, tudo bem, boa sorte.
Mas, se vai mesmo comprar, clique nas imagem aqui desse post, compre no Submarino e ajude o pobre blogueiro que inventou essa joça.
 Estou em contato com o pessoal do Submarino. Os vagabundos da Martin Claret estão em férias coletivas, então só devem chegar novas cópias da edição deles (à esquerda) na segunda semana de janeiro.
A edição da Editora 34, entretanto, muito melhor (à direita), está a venda normalmente. Se você encontrar a mensagem Indisponível isso quer dizer APENAS que uma cópia acabou de ser vendida e a outra ainda não entrou no sistema.
Eu ficaria muito, muito grato se você pudesse tentar de novo em algumas horas.
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Isaac Bashevis Singer Isaac Bashevis Singer é, certamente, um dos grandes autores da Literatura e um dos melhores contistas de todos os tempos - ao lado de Borges, Tchecov, Maupassant e Poe.
Polonês, ele emigrou para os Estados Unidos antes da Segunda Guerra e morou em Nova Iorque até sua morte, recentemente. Por decisão consciente, escreveu toda sua obra em iídiche, que não era a sua língua nativa mas que ele considerava possuir vantagens incomuns. Merecidamente - caso raro! - ganhou o Nobel de Literatura de 1978.
Quando seus contos se passam em aldeias judaicas da Europa Oriental, num passado distante, eu freqüentemente não consigo me relacionar, o tema me parece longínquo demais, mas quando seus contos se passam no século XX, entre os judeus da diáspora, são simplesmente irresistíveis.
Mês passado, li o romance que é considerado sua obra-prima, Satã em Gorai, mas não consegui me envolver. O livro conta a história de uma aldeia polonesa do século XVII que é tomada pela certeza messiânica de que o fim do mundo é iminente e de como isso afeta a tudo e a todos. Satã em Gorai, aliás, está na lista dos 100 romances do século da Folha.
 Tenho cá um volume de seus contos escolhidos, que é um dos meus maiores tesouros. A Companhia das Letras acabou de lançar uma coleção de seus 47 melhores contos que recomendo para todos. É simplesmente a melhor introdução para Singer.
Está em minha fila o romance Shadows on the Hudson, publicado postumamente, sobre a comunidade judaica de Nova Iorque.
Isaac Bashevis Singer completaria 100 anos em 2004.
Leiam artigo do New York Times de domingo, 26 de dezembro, sobre Gimpel, the Fool (Gimpel, o Tolo), talvez seu conto mais famoso:  "On Singer's 100th Anniversary, the Debate Still Rages Over a Famous Fool
By ADAM COHEN
When the townspeople of Frampol tell Gimpel that the Czar is coming to their forlorn little village, he instantly believes it. When they tell him his parents have risen from the grave, Gimpel throws on his wool vest to look for them. Whatever story his neighbors come up with, no matter how wildly improbable, Gimpel accepts it at face value. "I had seven names in all: imbecile, donkey, flax-head, dope, glump, ninny and fool," says the notably self-aware Gimpel. "The last one stuck."
Gimpel is the narrator and quasi hero of "Gimpel the Fool," Isaac Bashevis Singer's best-known and most widely anthologized short story, and one of the most perplexing characters in modern literature. Because this year has been the centenary of Singer, who won the Nobel Prize for Literature in 1978, Gimpel has been the subject of an unusual amount of discussion, including a panel this month at the Jewish Community Center in Manhattan that posed the question, "Was Gimpel a Fool?" A more basic question Singer's story suggests, however, is whether in this deeply flawed world it is really so great to be wise.
"Gimpel the Fool," which has been called the greatest story ever written about a schlemiel, arrived on the New York literary scene with a splash in 1953, when Partisan Review published Saul Bellow's still-classic translation. It was a significant milestone in the crossover success of Singer, who had fled Poland in 1935, when the Nazi shadow was growing darker, and found a home in exile at The Jewish Daily Forward, where he wrote stories and serialized novels in Yiddish, many of them set in the world he left behind.
Singer's writings often dwell on the darkness of the human heart: the critic Stanley Edgar Hyman called him the "Yiddish Hawthorne." Many of his works, including two that were made into movies, "Yentl, the Yeshiva Boy" and "Enemies, a Love Story," have psychically wounded protagonists. Yentl is a rabbi's daughter with "the soul of a man and the body of a woman," who must live as a man to study Torah. "Enemies" centers on a Holocaust survivor in New York, and the three refugee women he juggles, who are as damaged as he is.
On the surface, Gimpel's world is far less fraught. He works as a baker in an Eastern European shtetl, where life hews closely to tradition. The townspeople, having come to appreciate Gimpel's credulity, mislead him in increasingly significant ways. He is persuaded to marry the town whore, Elka, whose bastard child is, he is told, her little brother. When she gives birth four months after their wedding, Gimpel is persuaded that he is the child's father.
In time, Gimpel wises up. On her deathbed, Elka confesses that none of their six children are his. After she dies, the Spirit of Evil visits Gimpel in a dream, and tells him to get his revenge on the town by urinating in the dough before he bakes it, so the townspeople can "eat filth." Gimpel decides not to. Instead, he leaves Frampol and becomes a wandering storyteller who spins "yarns - improbable things that could never have happened - about devils, magicians, windmills and the like" - much like Singer himself.
Literature is full of simpletons, but Gimpel is a fool of an unusual sort. His lack of sense does not involve hatching inane schemes or uttering nonsense. He is foolish only in his relations with other people and, more specifically, his willingness to have faith in them when there is no good reason to. Unlike most fools, Gimpel is aware of his foolishness: he knows that much of what he is being told is highly improbable, but he makes a conscious - even a moral - decision to believe. He consults a rabbi, who tells him, "It is written, better to be a fool all your days than for one hour to be evil." Gimpel ends up defending his faith with an arresting comparison: "Today it's your wife you don't believe; tomorrow it's God Himself you won't take stock in."
"Gimpel" is, at least partly, a tribute to a classic Eastern European Jewish type, the simple, long-suffering man who accepted what the world handed him, and a dissent from the emerging, modern sensibility that argued for a more active approach to the world. When the story was written, many of Singer's fellow Yiddish writers were socialists, or idealists of other stripes. But Singer, perhaps because he was so attuned to man's imperfections, was skeptical of their wild dreams. The story ends with Gimpel waiting hopefully for the next world, where things will be simpler and purer and where "God be praised ... even Gimpel cannot be deceived."
Singer often said that he and Gimpel were one and the same, which some critics considered laughable coming from the wily and sagacious Singer. But they may have been too focused on how Gimpel starts, rather than where he finishes. It is no accident that when he comes to his senses - rejecting Frampol, but keeping his own innate goodness intact - he, like Singer, takes flight and becomes a storyteller.
"Gimpel" is, in the end, a sly rebuke to rationalism, and is a story in which the author explains, and defends, his decision to become a writer. In his Nobel lecture, Singer argued that storytellers might have the best chance of anyone to "rescue civilization." Writing fiction might not seem like the most direct way to improve the human condition, but Singer suggested that in a world where politics often failed, or worse, succeeded disastrously, intelligent, logical interactions with the world - the kind Gimpel spent a lifetime avoiding - may well be overrated. "Some of my cronies in the cafeteria near The Jewish Daily Forward in New York call me a pessimist and a decadent," Singer told his Swedish audience, "but there is always a background of faith behind resignation."
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Porque Eu Amo o CapitalismoA Walmart está vendendo o livro "How Walmart Is Destroying America And The World: And What You Can Do About It" em seu site, com 31% de desconto - de $10.95 por $7.55. Resumo do livro (tirado do próprio site da Walmart):
"Since Wal-Mart opened two superstores thirteen miles from Grand Saline, Texas, half of the retail businesses in Bill Quinn's once-thriving hometown have closed. But dismantling the American dream wasn't enough for this retail Goliath, and now Wal-Mart is aiming for world domination. If you've ever wanted to fight for the little guy, now's the time -- and this feisty Texas grandpa will show you how." Vejam com seus próprios olhos. Democracia é isso.
O que a esquerda não consegue aceitar é que capitalismo sem democracia até existe, mas democracia sem capitalismo eu nunca vi.
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A Bíblia Como Literatura (Bíblia, 1)
Muita gente se espanta ao saber que a Bíblia é o livro favorito de um ateu herege como eu. Inevitavelmente, são pessoas que nunca leram a Bíblia.
A Bíblia é literatura pura. Sexo, morte, drama, traição, amor, paixão, redenção, castigo. Tudo o que caracteriza a boa literatura está lá.
Para os religosos é às vezes problemático encarar a Bíblia como literatura. Mas não há nenhum conflito entre considerar a Bíblia um livro sagrado e inspirado, e apreciar seus aspectos estéticos e literários. Talvez seja um pouco estranho, a princípio, mas você se acostuma.
Introdução à uma Abordagem Literária da Bíblia
Para quem quer mergulhar na Bíblia como literatura, a melhor introdução é o Guia Literário da Bíblia, um dos livros mais importantes que eu tenho, uma verdadeira enciclopédia que analisa a Bíblia livro a livro, levantando os temas, imagens e metáforas mais importantes.
Não é necessário ter medo. Por uma questão mesmo de tamanho, todos os artigos são curtos e algo superficias. Mas, a partir deles, você pode mergulhar em leituras mais aprofundadas dos livros que mais lhe interessarem.
Recomendo esse Guia especialmente para quem já leu, ou já estudou, a Bíblia. Sem ser profano ou desrespeitoso, o Guia Literário da Bíblia vai lhe mostrar um lado totalmente belo e inesperado dos livros que você achava que conhecia tão bem.
(amanhã... escolha a Bíblia certa)
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Lista de Presentes do Liberal Libertário Libertino
Monday, December 27, 2004
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Já dei duas chances à Virgínia Woolf e ela desperdiçou ambas.
Orlando me interessava especialmente, pois estava fazendo um trabalho sobre transsexuais na literatura, mas o livro se perde seriamente no meio. Sobre o mesmo tema, ainda tentei ler Myra Beckinridge, do Gore Vidal, e também larguei.
Depois, empolgado por umas resenhas entusiásticas, tentei ler The Waves (As Ondas), saudado como uma verdadeira renovação da língua, etc etc. Talvez eu estivesse esperando algo no nível de Água Viva (um dos melhores romances brasileiros de todos os tempos). Também larguei. Incompreensível.
 Com a febre pelo lançamento de The Hours, de Michael Cunningham, um livro que dialoga com Mrs Dalloway, de Woolf, decidi a dar uma última chance à inglesinha suicida. Mas os dois têm que ser lidos juntos.
Uma leitora maravilhosa (posso dar seu nome aqui?) está me enviando um exemplar de Mrs Dalloway. Será que outro leitor ou leitora igualmente maravilhoso não estaria interessado em me mandar uma cópia de The Hours?
Naturalmente, prometo gratidão eterna e um megapost sobre essa experiência literária.
Lista de Presentes LLL
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A web nunca cansa de me surpreender. Reparem na incrível riqueza e profundidade de detalhes do verbete da Wikipedia sobre o 2004 Indian Ocean earthquake. Depois pensem que isso tudo foi feito de ontem pra hoje, cobrindo um desastre de informações desencontradas e incompletas.
Impressionante.
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Prisões UpdateJurei terminar logo esse meu maldito livro das prisões, para poder me dedicar a meus outros mil projetos. Esse fim-de-semana, escrevi as Prisões Religião e Vergonha. Estou revisando. Confesso que morro de vergonha da Prisão Vergonha, acho que está fraquíssima, mas nunca sei, também odiava a Prisão Conformismo, e todo mundo amou. Enfim, estou lambendo a cria, daqui a pouco libero.
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LLL CensuradoPor mais de um ano, esse foi um blog secreto. Exigências da primeira-esposa. Dizia que eu falava coisas pessoais demais sobre nosso casamento, como ela iria conseguir encarar nossos conhecidos? O blog já era famoso na blogosfera, mas meus amigos mais íntimos e família nem imaginavam que existisse.
Vocês sabem, eu odeio segredos, e esse, em especial, me incomodava muito, me pesava a língua.
A melhor coisa da minha separação foi poder, finalmente, dar o endereço do blog pra deus e o mundo. Que leiam!
Entretanto, o blog continua censurado. A namorada do meu pai lê todos os dias - ela e seus filhos adolescentes, que estão viciados - mas não deixa meu pai ler: diz que ele não está preparado para as coisas que eu escrevo.
Minha irmã faz a mesma coisa: lê quase todos os dias, mas não dá o link pro marido. Ele veio falar comigo: ela diz que você tem um blog famoso, mas acha que é melhor eu não ler.
Elas só foram descobrir hoje que faziam a mesma coisa com seus respectivos. E os dois bobões nem reclamam. Se não querem que leiam, melhor não ler e não ter surpresas desagradáveis.
Será que as mulheres da minha família não confiam nos seus homens? Será que os homens da minha família não têm curiosidade? E o que será que meu pai imagina que eu escrevo aqui?
De qualquer modo, é bom saber que o LLL não é considerado seguro para as crianças brincarem.
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Senhor dos Anéis com R$10,50 de DescontoO Submarino está vendendo a edição completa do Senhor dos Anéis, 7º no nosso ranking dos melhores livros de todos os tempos, com R$10,50 de desconto, em duas vezes sem juros no cartão.
Se você ainda não tem, é uma excelente oportunidade de comprar com desconto e ainda ajudar um blogueiro pé-rapado que fica mendigando comissão.
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RoupasCoisas que eu não uso nunca, sob hipótese alguma:
- Camisa pólo
- Jeans
- Camiseta com algo escrito - não sou outdoor
- Tênis - a não ser para a prática de esportes
- Sapato sem meia
- Calça baggy ou semibaggy
- Gravata
Uma coisa útil que eu gostaria de usar mais, se eu fosse um pouco menos vaidoso:
Uma coisa que eu adoro usar sempre, em qualquer ocasião, especialmente nas impróprias:
Fico com cara de boiola, mas amo:
- Camisa preta de gola rolê
Ingrediente essencial de qualquer combinação de roupas:
Dúvida existencial:
- Por que alguém que te conhece, convive com você e te vê sempre te dá de natal uma peça de roupa que ela NUNCA te viu usando?
Pergunta prática:
- Alguém quer uma camisa pólo, ainda na embalagem original?
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Clube de Leituras LLL A Obra: Crime e Castigo Vamos inaugurar então o Clube de Leituras LLL. A obra, escolhida por vocês, é Crime e Castigo. Eu li até a metade em 1996, em uma edição de Penguin, agora vou ler até o fim.
No Brasil, há duas edições em catálogo: uma baratinha e não tão boa, da Martin Claret, e uma mais bem cuidada da Editora 34. Recomendo, naturalmente, essa última e peço encarecidamente aos leitores participantes que comprem clicando aqui pelo blog.
Além disso, é uma obra fácil de encontrar em bibliotecas e sebos por todo o Brasil.
A Data: 31 de Janeiro de 2005Começaremos as conversas no dia 31 de janeiro, daqui a 5 semanas. Assim, todos terão muito tempo para comprar e ler o livro.
Quem Pode Participar: Qualquer Um!
Não é preciso se inscrever nem avisar que está participando. Quando as conversas começarem, basta você entrar na dança, comentar, responder, nos dizer o que VOCÊ achou de Crime e Castigo.
Um pedido: se já leu o livro faz tempo, releia. Ou, pelo menos, dê uma folheada.
O Que É Um Clube de Leituras?É um grupo de pessoas que concorda em ler o mesmo livro e se reunir para conversar sobre ele. Poucas atividades podem ser mais ricas. Se o livro for bom, se as leituras forem múltiplas, um verdadeiro mosaico de interpretações pode surgir.
Como Fazer Isso na Internet?
Às 23:59hs do dia 30 de janeiro de 2005, eu vou fazer aqui, no LLL, o primeiro de uma série de posts comentando aspectos gerais de Crime e Castigo. Naturalmente, todos os leitores estão convidados, como sempre, a falar o que bem quiserem nos comentários.
Acho que nada seria mais lindo do que um evento cross-blog pela blogosfera brasileira. Nada me deixaria com mais lágrimas literárias nos olhos do que percorrer uma dúzia de blogs na manhã do dia 31 de janeiro e ver seus autores comentando os aspectos mais variados de Crime e Castigo, de acordo com suas experiências. Nada me faria palpitar mais do que imaginar os leitores e internautas pulando de blog em blog e se enriquecendo com diversas interpretações diferentes de Crime e Castigo. Um verdadeiro sarau virtual.
Muita gente não gostou dessa idéia, por achar que seria caótica. E daí? O que vai enriquecer esse evento é a diversidade de experiências e opiniões dos leitores, não uma pseudo-organização germânica que não teria vantagem alguma.
Naturalmente, só faz post quem quiser. Os leitores que não tiverem blog ou, por algum motivo, não quiserem postar suas impressões em seus blogs, podem me mandar seus escritos e eu posto no LLL.
Ao mesmo tempo, para que exista um espaço minimamente centralizado, vou criar um Fórum para Crime e Castigo no SobreSites, onde os leitores terão mais liberdade para criar tópicos, responder e acompanhar threads de discussão. O endereço será divulgado mais perto do início das atividades.
Gentileza e Fluxo de Leitores 
Para que os leitores não se percam demais (lembrem-se: se perder é bom!), será fundamental que os blogs participantes linquem para os posts uns dos outros, levando assim seus usuários, mesmo os recém-chegados, a uma viagem dostoievisquiana de blog em blog atrás de novas visões e novas opiniões.
Diversidade de Experiências Ninguém é obrigado a ser crítico literário ou a fazer análises acadêmicas. Pelo contrário, o sucesso do evento será determinado pelo maior número de experiências de vida diferentes que forem colocadas à mesa.
O advogado pode discutir Crime e Castigo sob o prisma legal, o historiador pode apontar os delizes em O Nome da Rosa, o mineiro do interior pode contar o impacto real que Grande Sertão Veredas teve em sua comunidade, o tradutor pode comentar as impossibilidades estilísticas de Ulysses. E qualquer um pode mostrar como o livro afetou sua vida, como lhe rememorou eventos, como pensou em Kafka em sua última visita ao Detran, como tem uma prima igualzinha à Sonya, de Crime e Castigo, etc.
Tudo isso só faz atestar a força da literatura em nossas vidas.
Regra Nº1: Ninguém Comenta o Livro Até a DataEu gostaria de instituir somente duas regras inquebráveis. A primeira é que ninguém fale nada sobre o livro até o dia 31 de janeiro, para que os participantes possam ler o livro com calma.
Regra Nº2: Ninguém Pede Desculpas pela Própria OpiniãoPodem falar o que quiserem. Critiquem. Elogiem. Citem. Contem impressões.
Mas, só um aviso: quem se desculpar, vai levar um cascudo.
Nada mais desprezível do que gente que, antes de dar sua opinião, já começa se desculpando: "quem sou eu pra opinar..." ou "nunca estudei literatura nem nada..." ou, pior ainda, "não sou crítico, mas..." Nada mais nojento do que humildade e modéstia, sejam falsas ou, pior ainda, verdadeiras.
Querido leitor, arte é pra todos.
Se você realmente é tão humilde ao ponto de achar que a sua opinião, logo A SUA opinião, vejam só!, vale menos que a dos outros por qualquer motivo que seja, então, por favor, cale-se. Se nem você, que é dono dela, dá valor à sua opinião, não sou eu que vou dar. Ela não deve valer muito mesmo.
Se, ao contrário, você sabe que todos têm direito às suas opiniões e que todas têm o mesmo peso, então, por favor, enfie sua falsa modéstia lá onde o sol não bate e diga logo o que pensa.
Vamos trocar figurinhas.
ChecklistO texto é grande e muitos ainda podem ter dúvidas. Confiram a check-list:
- Leia, ou releia, o livro.
- Anote suas opiniões, impressões, dúvidas, críticas, comentários. Como Crime e Castigo afetou você?
- Escreva um texto coerente, de qualquer tamanho, e fique com ele engatilhado.
No dia 31 de janeiro de 2005:
- Poste o texto no seu blog ou mande ele pra mim.
- Visite o LLL para ler o que eu escrevi.
- Visite os outros blogs participantes e leia o que eles escreveram. (A lista, sempre atualizada, vai estar aqui no LLL.)
- Visite o Fórum Crime e Castigo e veja o que está rolando por lá. (O endereço também vai estar aqui no LLL.)
- Comente as opiniões dos outros e deixe a feira livre rolar solta.

Última RecomendaçãoQue nenhum suíço venha me reclamar da organização do evento. Mussolini fez os trens andarem no horário, e daí? Pensei o Clube de Leituras LLL como uma experiência anárquica mesmo, para testarmos a força da literatura em nossas vidas, para que todos possam falar e ser ouvidos. Isso aqui é uma grande mesa de bar e o mala que quiser exigir que falem todos em ordem, ou um de cada vez, vai acabar levando uma chopada na testa pra deixar de ser alemão.
E Um Último PedidoTitio Alê ganha a vida com dificuldade. Se ainda não tem Crime e Castigo, compre clicando pelos links aqui desse post. Eu ganho 8% e você me ajuda a continuar nesse sacerdócio. Caso o livro não esteja em estoque, espere uns dias. O pessoal do Submarino já está avisado que a demanda por Crime e Castigo pode aumentar subitamente e já encomendaram mais cópias.
Se você gostou muito da idéia, não precisa ficar acanhado. Visite minha lista de presentes e me dê alguma coisa. Estou louco por livros do Lobo Antunes.
Vão, Vão, Divulguem!Façam posts em seus blogs, mandem emails para os amigos, aporrinhem os conhecidos do MSN. Quanto mais gente participando, melhor!
E boas leituras pra todos.
Leia também:
A Lista do LLL: O Top 10
A Lista do LLL: Do 11º ao 30º
O Viés da Lista
Clube de Leituras LLL: Crime e Castigo
Sunday, December 26, 2004
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As ElitesManchete de hoje da FSP: "Chico critica as elites". Ao lado da manchete, foto de Chico, em um estiloso (e nada elitista) casaco de couro, andando pelas nada elitistas ruas de Paris.
Quem será que o Chico acha que ele é? Será que ele acha que todo brasileiro é filho de pai professor universitário e autor publicado de livros conhecidos, será que ele acha que todo brasileiro vai a Paris para visitar conhecidos e ser entrevistado para um documentário, será que ele acha que todo brasileiro tem o dinheiro que ele tem, que todo brasileiro anda pelas ruas de Paris, de casaco de couro estiloso e com a Folha atrás pra tirar fotos?
O que impulsiona um país são as suas elites, mas aqui em Pindorama, infelizmente, esse bicho não existe. Se nem o Chico é de elite, eu não sei quem é. Devem ser aqueles caras malvados de cartola e fraque e que riem muito e esfregam as mãos e ficam mexendo nos bigodes e colocam as mocinhas nos trilhos dos trens. Só pode ser.
Meu sonho é ouvir um dia um artista desses, da esquerda festiva, dizendo:
"NÓS, a elite desse país, nós, que estudamos em universidades, comemos regularmente e viajamos periodicamente, nós, que somos artistas, nós, que gravamos discos e publicamos livros, nós somos sim a elite desse país, nós tivemos sim oportunidades que os outros não tiveram e nós, a elite, temos sim uma obrigação de contribuir proporcionalmente ao que recebemos... "
Mas não adianta: se fossem capaz de assumir responsabilidade pelo que são e pelo que fazem não seriam de esquerda. Se falassem algo assim, perigavam de implodir sob o peso de sua incoerência, matéria e anti-matéria não podem coexistir.
Enquanto as elites forem os outros, esse país não vai pra frente.
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Fim da GentilezaEstou considerando me juntar às hordas dos egoístas. Realmente, a quantidade de links aumenta, e muito, o tempo de carregamento da página e ninguém clica naquele mundaréu de gente mesmo.
Minha idéia: extinguir Outros Sites, Blogs Amigos, Blogs de Humor e Imprensa, e deixar só a Galeria de Honra e os Blogs Favoritos.
A Galeria de Honra continuaria sendo para os santos que incluem botões do LLL em seus sites e os Favoritos, para os blogs e sites que realmente mais visito.
Como não consigo ser tão egoísta assim, eu continuaria agradecendo e retribuindo a todos que linkassem para o LLL, mas em posts, não mais com links permanentes na coluna da direita.
O que acham? Será que irei para o quinto círculo dos infernos, dedicado aos incoerentes? Lascite ogni speranza o voi che entrate. Ou não.
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Três Top10 do LLL a R$9,90 Cada 
Três clássicos do Top10 aqui do LLL estão em promoção no Submarino a R$9,90 cada: O Processo e A Metamorfose, de Kafka, e Hamlet, de Shakespeare. São aquelas edições vagabundinhas da Martin Claret mas, se você não tem a opção de ler edições importadas, é o jeito.
Meu plano para o Clube de Leituras do LLL é discutirmos, pelo menos, todos os Top10 - menos O Senhor dos Anéis, que demoraria tempo demais pro povo ler.
Então, se está pensando em participar, garanta logo esse três. Aproveite e confira também esse saldão de clássicos por até R$9,90 do Submarino.
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Lobo Antunes   
Estou absolutamente embasbacado e fascinado com Lobo Antunes. O homem faz coisas com a língua que nunca vi ninguém fazer. Será que nenhum leitor rico e caridoso me daria algum de seus livros de presente?
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Gente ConhecidaÓbvio que eu deveria saber o que aconteceria. Mas falo sem pensar e dá nisso. Ofereci uma história algo pessoal e embaraçosa somente para "gente conhecida" e imediatamente começou uma discussão, nos comentários e no meu email, sobre o que seria "gente conhecida".
Eu até esperei um certo constrangimento na hora de dizer não, mas jamais esse tipo de dúvida. Afinal, deveria ser auto-evidente quem é meu conhecido ou não. Nota que nem falei amigo, um critério muito subjetivo - somente conhecido. Como alguém pode ter dúvida se me conhece ou não? Mas aparentemente têm.
Alguns disseram que são meus leitores faz tempo, comentam aqui sempre, etc. Agradeço a fidelidade nas leituras mas, se me lêem, VOCÊS é que me conhecem: não necessariamente eu conheço vocês.
Não é demérito algum não ser meu conhecido. Aliás, qualquer um pode ser meu conhecido. Sou bastante amigável. Umas duas conversas interessantes no MSN já bastam. Não transformem isso numa questão de mérito ou preferência.
Por favor, desculpem o mau-jeito, mas poupemos constrangimentos. Bom carioca que sou, sou incapaz de dizer não pra alguém. Quem ia receber, já recebeu. Quem não recebeu, não peça de novo.
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Hino ao Sexo AnalEm homenagem ao Espírito Natalino, relembremos o Hino ao Sexo Anal: "Quero Ver Você Não Chorar".
A música foi composta por Edson Borges, o "Passarinho", no começo dos anos 70 para o grupo Titulares do Ritmo e acabou sendo vendida para a campanha do Banco Nacional. Hoje, o banco faliu mas a música continua sendo cantarolada.
Reparem na letra:
Quero ver
você não chorar
não olhar pra trás
nem se arrepender do que faz...
Quero ver
o amor vencer
mas se a dor nascer
você resistir e sorrir...
Se você
pode ser assim
tão enorme assim
eu vou crer...
Que o Natal existe
que ninguém é triste
que no mundo há sempre amor...
Bom Natal um Feliz Natal
muito Amor e Paz pra Você...
pra VOCÊ.
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Os 30 Melhores Livros de Todos os Tempos, Segundo os Leitores do LLL O Viés da Lista: Os Melhores ou Os Mais Lidos?
Toda lista é enviesada. Tratemos, portanto, de entender o viés desta.
Mostrei ela em primeira mão para um jovem leitor e ele comentou: que legal, fico feliz de ver que li quase todos. E eu fui obrigado a jogar um balde de água fria nele: não fique. Não quer dizer nada. Essa lista, na verdade, é a lista dos livros mais lidos pelos usuários de internet brasileiros, não necessariamente dos melhores.
Consideremos, por exemplo, Dom Casmurro, em 5º lugar. Não estou dizendo que Dom Casmurro não seja maravilhoso. Ele quase entrou na minha lista. Mas vamos reconhecer o seguinte: quase 100% dos eleitores já deviam ter lido Dom Casmurro.
 Já Ana Karenina, um gigantesco (e chatíssimo) romance russo de mais de mil páginas, ficou em 20°. Será que tantos leitores leram Ana Karenina quanto Dom Casmurro? Dificilmente. Caso mais pessoas tivessem lido Ana Karenina, será que o livro teria conseguido mais votos? Provavelmente.
Fica explícito então o viés da pesquisa.
Além disso, sem dúvida alguma, muitas das pessoas que votaram leram poucos livros. Tiveram que fazer suas escolhas com base em um pool pequeno. Se tivessem lido mais, com certeza, teriam votado em outros livros.
Mais uma vez, os livros lidos são o verdadeiro gargalo da votação.
Então, longe de representar os melhores livros de todos os tempos, a lista representa os livros mais lidos pela elite intelectual do país no começo do século XXI. Sim, não se enganem, amiguinhos: qualquer um, nesse país, que tenha dinheiro para comprar livros e os leia é elite.
Os Mais Acessíveis
Não há problemas, pois era isso mesmo que eu queria saber. Lembrem-se que o objetivo primeiro da votação era escolher os livros do nosso Clube de Leituras LLL. Naturalmente, para maior feedback e participação, é melhor que sejam livros que mais pessoas leram, livros mais fáceis de encontrar no Brasil.
 Um que quase entrou no meu top 10 foi o primeiro livro de contos do Turgenev, nunca editado em português e tão obscuro que, mesmo em inglês, ele não tem nome consagrado: algumas vezes é "A Sportsman's Notebook", noutras " Sketches from a Hunter's Album". Eu adoraria falar desse livro pra vocês. Ele tem tudo a ver com o Brasil, em especial, com o nosso legado escravista e a situação contemporânea das empregadas domésticas, e foi um livro que certamente mudou o meu modo de ver a vida. Mas iria adiantar? Alguém já leu esse livro? Se alguém quiser ler, terá onde encontrar?
Por isso, um dos objetivos da votação era encontrar os clássicos não só mais lidos, como mais acessíveis.
O Viés Temporal
Esse era bem previsível. Metade dos livros escolhidos foi do século XX. O XIX, esse século-irmão, apogeu do romance, teve outros 10. Ou seja, 25 dos 30 livros escolhidos são bastante recentes. Dos 5 restantes, dois são de Shakespeare e um de Cervantes, mais a Odisséia e a Bíblia.
Para mim, a grande surpresa da lista foi O Nome da Rosa, de Umberto Eco, em 10º lugar, um livro recentíssimo, que já foi até moda, daqueles livros que todos compram e ninguém lê. Há até uma história (talvez apócrifa) do repórter do New York Times que deixou recados em vários exemplares do livro, dizendo que leitores que ligassem para o jornal dando aquela "senha" ganhariam cem dólares. Um ano depois de serem vendidos, os exemplares não haviam sido lidos, pois ninguém ligou. Impossível? Nem um pouco.
Outra surpresa foi O Mundo de Sofia, em 24º, uma moda mais recente ainda, um livro que mal e muito mal pode ser chamado de ficção.
O Viés Cultural
 A maioria dos livros escolhidos foi escrito em inglês, naturalmente, a língua do chefe. Em segundo lugar, veio o português, afinal, quase todos os votantes eram falantes nativos: só perderia mesmo para a língua do colonizador.
Eu confesso que achei que o terceiro lugar seria de espanhol, nossos hermanos mais próximos, ou francês, porque a elite brasileira anglófoba adora lamber o saco dos franceses. Mas não levei em conta a força de Kafka, que emplacou dois em alemão.
Também confesso que não imaginava o poder dos russos. Amo os russos, claro, mas nunca vi nenhum russo em currículo de escola ou universidade brasileira, achei que eles simplesmente não eram lidos por aqui. Apareceram os quatro grandes romances russos (Crime, Irmãos, Ana e Guerra) mas nenhum dos outros grandes, como Gogol, Tchecov, Gorki, Turgenev.
Clube de Leituras
Estou pensando em estreiar nosso clube de leituras com o mais votado. Que tal lermos Crime e Castigo juntos?
Leia também:
A Lista do LLL: O Top 10
A Lista do LLL: Do 11º ao 30º
O Viés da Lista
Clube de Leituras LLL: Crime e Castigo
Saturday, December 25, 2004
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Os 30 Melhores Livros de Todos os Tempos, Segundo os Leitores do LLLContabilizamos somente os livros que tiveram, pelo menos, 20 votos.
Relembrando as regras: um voto para o 1º lugar valia 10 pontos e um voto em 10º, 1 ponto.
As convenções: posição, título, autor, votos, língua original, século.
Aplausos ao Marcelo Barros, que não escreve para poucos, mas para muito poucos, que foi o santo que tabulou isso todo.
Aqui vão os 10 primeiros.
Todos estão em catálogo e são fáceis de encontrar. Quem quiser comprar, por favor, clique nas imagens ou links, e eu ganho míseros 8%. É pouco, mas ajuda a pagar as contas e eu ficarei muito grato.
1) Crime e Castigo, Dostoiévski - 163 - Russo, XIX
Disputa, com Os Irmãos Karamazov, o título de obra-prima do autor. Considerado o clássico mais acessível. Não é à toa que lidera a lista. Comecei a ler e nunca terminei, por motivos alheios ao livro e a mim. Está na minha lista para ser retomado
2) Cem Anos de Solidão, Garcia Marquez -147 - Espanhol, XX
Obra-prima indiscutível do autor. Foi o primeiro livro de ficção que li em espanhol. Demorei seis meses, mas valeu a pena cada minuto. É, na minha opinião, o melhor romance de todos os tempos, perfeita síntese de todos os defeitos e qualidades da América Latina.
3) Dom Quixote, Cervantes - 120 - Espanhol, XVII
Li a primeira parte esse ano, a segunda está na fila. É bom, engraçado, fluente, mas não me empolgou. Dizem que a segunda parte que é a boa. Veremos.
4) O Processo, Kafka - 113 - Alemão, XX
Também um dos meus livros preferidos. Votei na legenda de Kafka por simplesmente não conseguir escolher entre O Processo e O Castelo, sua outra obra menos badalada, mas tão boa quanto.
5) Dom Casmurro, Machado de Assis - 98 - Português, XIX
Dispensa apresentações. O único livro que não conheço ninguém que não gostou. Simplesmente sensacional.
6) Hamlet, Shakespeare - 96 - Inglês, XVII
Todo mundo tem que conhecer o príncipe da Noruega. O enredo da peça já é tão conhecido que praticamente virou folclore. Passei seis meses na escola só estudando Hamlet. Dissecamos cada linha. Foi uma delícia.
7) O Senhor dos Anéis, Tolkien - 91 - Inglês, XX
Um dos grandes romances épicos e heróicos de todos os tempos, escrito por um mestre contador de histórias. Não tem nada de romance infantil. Quem diz isso, não leu.
8) Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa - 83 - Português, XX
Na minha opinião, a melhor coisa que já se escreveu nessa nossa terra, em termos de ficção. Belo, épico, dramático, traiçoeiro.
9) Metamorfose, Kafka - 64 - Alemão, XX
E Kafka, quem diria, emplacou dois no top 10. Ele merece. A Metamorfose foi outro daqueles livros que estudei e dissequei por vários meses na escola. Tem gente que acha que é só a história de um cara que vira barata.
10) O Nome da Rosa, Eco - 50 - Italiano, XX
Nunca li nem, sinceramente, tive vontade de ler. Me parece pedantíssimo. É bom? Por quê?
Leia também:
A Lista do LLL: O Top 10
A Lista do LLL: Do 11º ao 30º
O Viés da Lista
Clube de Leituras LLL: Crime e Castigo
Friday, December 24, 2004
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Maldades NatalinasPara celebrar o Natal, esse dia dedicado à bondade e fraternidade universais, promovido por uma religião que conseguiu o feito de matar mais do que o comunismo (mas só porque teve 19 séculos de vantagem), estou disponibilizando uma história que celebra as delícias da maldade mais despudorada, que canta o poder supremo das mulheres e que exalta a beleza irresistível do pé feminino.
A história só estará disponível para quem pedir e será enviada por email, na condição de não poder ser reenviada para ninguém e muito menos publicada na internet. Só aceitarei pedidos de gente conhecida.
* * *
Não consegui ficar sozinho. Estou levando o cachorro pra passar o Natal com a primeira-esposa.
Ho Ho Ho, Feliz Natal.
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Manual dos Inquisidores, de Lobo Antunes Achei Os Cus de Judas legalzinho - linguagem linda, história não-existente - mas estou absolutamente embasbacado, fascinado, perdido nesse Manual dos Inquisidores.
Quem é esse homem? De onde ele tirou esse estilo? Nunca vi nada parecido. E o incrível é que funciona. Alguém leu? O que acharam? Sabem se ele tirou esse "método" de algum lugar?
Nenhum santo leitor que me dar os outros livros do Lobo Antunes de presente não?
* * *
Comentou o Breno:
"Vi que está lendo outro livro do Lobo Antunes, talvez seja um bom sinal. Mas, sinceramente, não sei como se lê dois livros do lobo antunes assim, um atrás do outro. No final de Os Cus de Judas eu já estava exausto..." O homem é bom, mas é cansativo mesmo. Meu truque é ler um conto do Sherlock Holmes a cada 10, 20 páginas. Ajuda a cortar o efeito.
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O Vermelho e o Negro, de StendhalAdoro esse blog, pois ele é imprevisível. Quando eu imaginaria que, de tantos livros na lista dos mais votados, fosse ser logo O Vermelho e o Negro a levantar polêmica?
Vários leitores comentaram sobre ele, alguns até me escreveram emails. Disse o Idelber:
"Eu também não qualificaria o Vermelho e Negro de romance histórico não. É um livro sensacional, vale a pena, Nietzsche e Dostoiévski adoravam esse romance. Sorel é uma espécie de Raskolnikov sem a velhinha." Ok, vocês venceram. Fiquei curioso. Já tirei o romance da estante e coloquei no meu criado-mudo. Está, oficialmente, na fila.
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A cidade é muito quente e úmida, as pessoas tendem a andar peladas dentro de casa e, muitas vezes, sua nudez acaba sendo visível pelas frestas de janelas e cortinas.
Para acabar com essa imoralidade, a câmara municipal passou uma lei proibindo a nudez dentro de casa, punível com até 36 horas de prisão e multa equivalente a R$360.
A grande dúvida, como em toda lei idiota é, e aí? Como ela vai ser aplicada? O deputado que criou a lei está confiante que os cidadãos tementes a deus vão avisar a polícia quando detectares rasgos de nudez por entre as cortinas do vizinho. Só há um problema: na cidade, também há uma lei contra voyerismo.
Não seria lindo? Delator e delatado na mesma cela.
* * *
Parece piada. Pode até ser. Só achei referência a isso no site da CBS e em mais lugar nenhum. De qualquer modo, já enganou gente grande.
* * *
Eu sempre ando nu em casa. Nunca tive nenhum pudor.
Quer dizer, até tenho, mas é estético. Eu sou muito, muito feio, minhas banhas balouçam, é uma tragédia. Beleza é, realmente, fundamental, diz meu espelho, todos os dias. Mas, como não respeito o senso estético dos vizinhos, ando pelado pra cima e pra baixo mesmo, o tempo todo, e de janelas abertas, porque aqui também faz um calor infernal.
A primeira-esposa ainda passava pela casa furiosamente fechando janelas quando estávamos nus, mas eu confesso que nunca lembro de fazer isso.
Em suma: sou o próprio Ugly Naked Guy, de Friends.
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Os 30 Melhores Livros de Todos os Tempos, Segundo os Leitores do LLLContabilizamos somente os livros que tiveram, pelo menos, 20 votos.
Relembrando as regras: um voto para o 1º lugar valia 10 pontos e um voto em 10º, 1 ponto.
As convenções: posição, título, autor, votos, língua original, século.
Aplausos ao Marcelo Barros, que não escreve para poucos, mas para muito poucos, que foi o santo que tabulou isso todo.
Amanhã, revelo os 10 primeiros. Aqui vão os 20 últimos.
Todos estão em catálogo e são fáceis de encontrar. Quem quiser comprar, por favor, clique nas imagens ou links, e eu ganho míseros 8%. É pouco, mas ajuda e eu ficarei muito grato.
11) O Vermelho e o Negro, Stendhal - 43 - Francês, XIX
Romance histórico ambientado nas Guerras Napoleônicas. Já me foi muito bem recomendado, está na fila há anos. Alguém poderia falar mais sobre ele?
11) O Morro dos Ventos Uivantes, Brontë - 43 - Inglês, XIX Uma obra sensacional, selvagem, descontrolada, demoníaca, único romance de uma tímida inglezinha que morreu logo depois, antes dos 30. Aposto que ela tinha um tesão absurdo pelo Heathcliff. Já li duas vezes, fato raro, e já ouvi o audiobook outras três. Viciante. "Tudo, o Tempo Todo" poderia ter saído daí.
12) Odisséia, Homero - 39 - Grego, BC Li e adoro a Ilíada, mas nunca tive muito interesse pela Odisséia, só alguns trechos aqui e ali. Circe é uma das minha musas, claro: bastava ela estalar os dedos para eu ser seu porquinho - literalmente.
13) Os Irmãos Karamazov, Dostoievski - 35 - Russo, XIX Um dos maiores romances de todos os tempos, com certeza. Só uma coisa me incomoda um pouco nos russos: eles são grandiosos demais. De certo modo, prefiro os russos - fisicamente - menores, como Gogol, Turgenev, Tchecov e Górki.
 14) A Bíblia - 33 - Hebraico e grego, BC Meu livro favorito. Fiquei surpreso dele aparecer. Achei que só eu votaria na Bíblia. Tudo o que caracteriza a Literatura com L maiúsculo está lá: amor, traição, sexo, morte, angústia, redenção, you name it.
14) Em Busca do Tempo Perdido, Proust - 33 - Francês, XX Nunca li. Comecei o primeiro e me fez sofrer de tanto tédio. Vou voltar a ele, um dia. Diz o Idelber que "you don't read Rememberance of Things Past, you read IN Rememberance of Things Past." Faz sentido.
14) A Montanha Mágica, Mann - 33 - Alemão, XX Também nunca li, está na lista. O último grande romance da tuberculose, quando a doença já deixava de ser o que era. Dizem que é um enorme compêndio filosófico.
14) Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis - 33 - Português, XIX Ai, ai, ê livro chato. Muito chato. Tem uma sacação legalzinha mas, de resto, sobra o quê? Duas ou três frases de efeito (Marcela me amou por duas semanas e seis contos de reis, não transmiti a nenhuma criatura etc) e mais nada. Importância histórica, não literária. Overrated.
15) Guerra e Paz, Tolstoi - 32 - Russo, XIX
Não li. Omissão imperdoável a ser corrigida rápido.
16) O Retrato de Dorian Gray, Wilde - 31 - Inglês, XIX Legal, mas sem empolgações. Pra mim, o Wilde genial é o de The Importance of Being Earnest e dos contos, em especial, The Canterville Ghost. Ao lado de A Vingança do Bastardo, The Importance of Being Earnest é a coisa mais engraçada que já li na vida e The Canterville Ghost está no top 10. Ninguém me faz gargalhar como Wilde.
17) Contos, Borges - 30 - Espanhol, XX Ficciones e El Aleph são dois dos mais importantes volumes de contos de todos os tempos. Acho difícil falar de literatura ocidental no século XX e não falar de Borges. Quem me acompanha sabe que ele sempre é citado por aqui. Funes, El Memorioso, O Quixote de Menard e Tlon Ukbar são alguns dos melhores contos de todos os tempos.
18) Memorial do Convento, Saramago - 29 - Português, XX 18) Ensaio sobre a Cegueira, Saramago - 29 - Português, XX Eu admito. Eu tenho preconceito. Eu acho o comunismo um absurdo tão grande que não consigo deixar de considerar qualquer um que se diga comunista uma besta quadrada. Mas não tenho preconceitos: adoro Górki, por exemplo, que era mais comunista que Saramago. Tenho que dar uma chance a ele.
19) O Mundo de Sofia, Gaardner - 28 - Noruega, XX Cara, tirando o fato de ter sido moda recentemente, eu não sabia nada sobre esse livro. Depois que o folheei, quase foi desclassificado. Chamar O Mundo de Sofia de romance é uma forcação. É um textbook de filosofia pra gente preguiçosa. Mas vá lá: como o autor se deu ao trabalho de inventar personagens e simular um enredo, pelo menos tecnicamente, é ficção.
19) O Estrangeiro, Camus - 28 - Francês, XX Romacinho excelente, que já gerou altas pancadarias aqui no blog. História de um autista que mata um homem sem motivo nenhum e dos leitores que sofrem lavagem cerebral para não achar isso nada de mais. Tomara que as discussões do Clube de Leituras LLL sejam assim.
20) Macbeth, Shakespeare - 24 - Inglês, XVII Ainda não li. Outra omissão imperdoável. Naturalmente, Lady Macbeth também é uma das musas da minha vida e sei todas as falas dela de cor. Aliás, aviso aos navegantes: se pronuncia Macbéth, não Mácbeth.
20) Ana Karenina, Tolstoi - 24 - Russo, XIX Tive que ler pra escola, mas não aguentei. Chato, chato demais. Parei no meio. Penso em talvez lhe dar uma chance no futuro.
20) Admirável Mundo Novo, Huxley - 24 - Inglês, XX Muita gente insiste pra eu ler, mas não me interesso muito por literatura distópica. Já escrevi sobre o assunto, aliás. Por que eu deveria lê-lo?
21) Revolução dos Bichos, Orwell - 23 - Inglês, XX Também me foi recomendado e também não me interessei. Será que alguém que gostou poderia defender o livro pra nós?
22) Fausto, Goethe - 22 - Alemão, XIX Está na lista - esse e o outro, do Mann.
Leia também:
A Lista do LLL: O Top 10
A Lista do LLL: Do 11º ao 30º
O Viés da Lista
Clube de Leituras LLL: Crime e Castigo
Thursday, December 23, 2004
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Ninguém Comentou o Novo Título do BlogSerá que ninguém percebeu, ninguém entendeu ou ninguém achou graça?
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Um Comentário Maduro do PolzonoffTanta discussão literária interessante rolando e quando o Polzonoff se digna a comentar, eis o que ele diz:
"Xiiii, que discursinho mais adolescente. Me lembra daquele episódios dos Simpsons, Homer, o Herege: "Todo mundo é burro, menos eu". Hehehe.
Feliz Natal."
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Mais Birras NatalinasEu queria muito saber por que não tenho o direito de passar o natal sozinho.
Todo mundo pergunta: "vai passar o natal onde?"
Na minha casa, onde passo todas as minhas noites.
"Ah, mas com quem?"
Com ninguém. Só eu e meu cachorro. Como todas as noites do ano.
"Mas é natal! Natal, cara! Natal! Vai passar o natal sozinho?"
Ai, meu saquinho.
* * *
De certo modo, o que mais me irrita é a descrença. Já escrevi sobre isso, em relação à maldita Copa do Mundo. Não é nem que as pessoas achem escroto eu cagar pra Copa do Mundo. Elas simplesmente não acreditam.
* * *
Não entendo essa porra. Eu não passei sozinho a noite do 15 de outubro? Do 20 de maio? Do 2 de fevereiro? Qual é a diferença?
Que o natal seja uma coisa linda para os cristãos, tudo bem, eu entendo. Mas acho graça que ninguém ME entende.
Quando alguém diz que comemora o Natal, beleza. Quando eu digo que não comemoro, falam que é pirraça, que é criancice, que sou do contra.
É como se eu não tivesse direito de ter minha própria "fé", minha própria opinião, como se tudo o que eu fizesse fosse em função dos outros.
Qual é a dificuldade de compreender que só celebra o nascimento de uma pessoa quem acha que essa pessoa 1) de fato existiu; 2) nasceu naquele dia e 3) trouxe algo de positivo ao mundo?
E eu não concordo com nenhuma dessas afirmações.
Então, me deixa.
* * *
O pior é que não consigo passar meu natal sossegado.
Todo ano eu tento. Mas, na última hora, algum bom samaritano que simplesmente não suporta a idéia de alguém passar o natal em paz e tranquilidade, sem discussões ou brigas de família, simplesmente me arrasta pra algum lugar.
Juro que esse ano tentarei resistir bravamente.
* * *
Tudo o que quero é passar uma noite normal, como todas as outras do ano, usando a internet, lendo, bebendo vinho, brincando com meu cachorro.
Será pedir muito?
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Polêmica na Inglaterra:
"'What is freedom of expression? Without the freedom to offend, it ceases to exist,' wrote Salman Rushdie. (...)
'I get a bit disturbed when people talk about a right to offend. It's not a positive thing,' says Mr Mullin. 'The UN declaration talks about freedom of speech, freedom of conscience, freedom of religion, not our freedom to offend.' (...) The crux of the matter is that one person's attempt to shock, outrage and offend is another's legitimate form of creative expression." UPDATE
Disse o Rafael:
"Pô, basta regulamentarem o direito das pessoas se sentirem ofentidas que o problema acaba." Concordo e aplaudo. É isso aí. Afinal, não há problema do mundo que não se resolva com a criação de mais uma lei.
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Prisão: A Expectativa dos Outros (Epílogo)O epílogo perfeito veio da sempre insightful Ale, do Chez Nous:
"Ale, eu acho que você trabalha o mínimo possível para suprir suas necessidades a fim de ter tempo para seu projeto pessoal porque ainda não conseguiu ser bom o suficiente em seu projeto pessoal para que lhe paguem por ele (bom no sentido comercial, não questiono suas muitas virtudes literárias). Não acho que o Stephen King se queixe de trabalhar 12 horas por dia porque isso não deixa tempo para os "projetos pessoais" dele." Touché.
Mas a grande verdade é que, quando estou desenvolvendo meus projetos pessoais, blogando, escrevendo ficção, não parece que estou trabalhando - mesmo quando dá dinheiro.
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Quebrem a Corrente da CulpaNão me mandem votos de Feliz Natal.
Eu sou ateu, considero Jesus (se é que existiu) apenas um sujeito muito boa praça e, aliás, a própria Bíblia, por suas evidências internas, indica que ele nasceu em final de setembro. A data em final de dezembro é bastante posterior à época bíblica e foi criada para opor o natal cristão às comemorações pagãs pelo solstício de inverno.
Em suma, essa porra dessa data não quer dizer nada, nem pra quem é cristão de carteirinha e ama Jesus, então, por favor, não venham me aporrinhar com felizes natais.
Houve época em que eu mandava cartões de natal. Cruzes, eu até pintava os meus próprios cartões. A mão. Um por um. Não por amor à Jesus ou ao cristianismo, claro, pois ateu eu sempre fui, mas por amor ao sentimento natalino.
Que piada.
Depois comecei a ver que mandar cartões de natal era, de fato, uma grande maldade. Você está apenas contribuindo para uma grande corrente de culpa, que parece ter sido iniciado por nossas mães e que nunca mais acabará. A pessoa recebe um cartão e pensa: puxa, eu não mandei nada pra ele, eu não comprei nada pra ele, eu não falo com ele há meses/anos, caramba, que chato, e agora? Sou mesmo um cretino.
Pior, os meus cartões, por serem tão originais, pintados à mão e o escambau, deveriam aumentar ainda mais o sentimento de culpa. Afinal, como competir com isso? Vou me sentir uma ingrata se mandar um simples cartão do Garfield em resposta a um cartão desses! E agora? Só se eu for lá e der pra ele! (Infelizmente, ninguém chegou a esse ponto.)
O natal é a temporada da culpa. Sentimos culpa por não termos sido melhores, por não termos ido mais à igreja, por não termos ligado tanto para a Tia Clotilde, no Paraná, por não termos sido bons pais, filhos, irmãos ou maridos, por não termos tido tempo pra fazer cartões de natal tão bonitos quanto os que recebemos, etc.
Já há tanta culpa circulando, tentemos não dar nossa contribuição.
Eu imploro: quebrem a corrente de culpa!
Todo Mundo Não Sou Eu
Agora, toda vez que dou feliz natal para um leitor, ele diz: ué, feliz natal, vindo de você?
Sim, feliz natal vindo de mim. Não parto do princípio que todas as pessoas do mundo são iguais a mim. Pelo contrário, sei que são bem diferentes. Desejo feliz chanucá pros meus amigos judeus, por que não desejaria feliz natal aos meus amigos cristãos? Mas não gosto que me desejem nem feliz natal nem feliz chanucá. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Então, para quem comemora o chanucá, feliz chanucá. Para quem comemora o natal, feliz natal.
Para quem não comemora nada, bem... boa noite?
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Cracking the GRETirei 640 (de 800) na prova verbal e 590 (de 800) na de matemática. Isso quer dizer que, na verbal, eu me dei melhor do que 86% das pessoas que fizeram o teste. A nota média na verbal dos alunos que foram aceitos para mestrados na área de humanas foi de 550, ou seja, também fiquei bem acima da média.
Enfim, o livro já estará a venda, semi-novíssimo, com apenas três dias de uso, pronto para servir às necessidades de outros brasileiros fazendo o GRE. Se têm algum amigo nessa situação, por favor, recomendem.
O preço: os mesmos R$90 que ele me custou. Oferta válida até 12/01. Senão, minha irmã vai levar ele de volta pra Califórnia e vender por lá.
Wednesday, December 22, 2004
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Prisão: As Expectativas dos Outros (Parte II de II)As Expectativas dos Meus Leitores
Muita gente me escreve. Pedem ajuda, recomendações literárias, xingam, querem conversar, algumas querem até dar. E a triste verdade é que não dá pra responder todos.
Ou melhor, até dá, mas então eu teria que usar pra isso uma parcela grande desse tempo que me custou tão caro. De um modo economicamente bem concreto, eu pago pelo meu tempo livre com a minha pobreza. E, se eu não puder utilizar esse tempo para meus projetos pessoais, então vou utilizá-lo trabalhando. Responder emails não é uma prioridade.
Apesar disso, eu tento. Faço o melhor que posso. Algumas vezes, só piora.
Alguns leitores criam relacionamentos complexos comigo em suas cabeças. Eu me mostro muito em meus textos e eles sentem como se já nos conhecêssemos, me escrevem como se fôssemos amigos íntimos. Essa falsa intimidade não me incomoda. Sou carioca, estou acostumado. O problema é outro.
A maioria dos leitores compreende que "nossa" relação é de mão única. Elas até me conhecem bem, mas eu nem sei quem são.
Infelizmente, a diferença entre seus amigos e as outras pessoas é que você cria expectativas em relação aos seus amigos. Você espera deles um certo padrão de comportamento que não cobra das outras pessoas. E quando eles não atingem seu nível de exigência, você fica magoado, às vezes até revoltado.
Acontece sempre: alguém me manda um email enorme, contando como eu influenciei sua vida, como minhas prisões abriram seus olhos, etc etc. (Eu adoro esses emails, não me entendam mal, são eles que fazem esse sacerdócio aqui valer a pena.) Eu respondo como posso, às vezes demoro algumas semanas. De bate pronto, volta um outro email gigantesco. Antes que eu possa mesmo respirar fundo para pensar em responder, começam as cobranças: como é que você me deixa sem resposta, quem você pensa que é, quem diria que você era tão grosso/esnobe/metido/etc, pensei que éramos amigos, mas você é feio/bobo/etc.
Eu tenho ganas de perguntar: colega, eu te conheço? Eu te prometi alguma coisa?
Thoreau e As Expectativas dos Seus Leitores
Thoreau, um dos homens que mais admiro, era extremamente solitário e recluso. Com o relativo sucesso de alguns de seus livros, ele começou a formar um pequeno círculo de fãs, que lhe escreviam regularmente. Ele também teve problemas com leitores chatos.
Nas palavras de Carl Bode:
"He [Ricketson] continued to write Thoreau and he filled his letters with invitations and reproaches. Ricketson's hurt feelings showed themselves increasingly. He complained about Thoreau's neglect. Why didn't Thoreau write? Or visit New Bedford again? Thoreau, he mourned, must be cold and anti-social, indifferent to his obligations toward fellow men.
Finally, after Ricketson had besieged him with prose -- and verse -- for a year and a half, the Concord man replied. He turned on Ricketson with a hard explicitness. The disciple deserved some sort of an answer and Thoreau gave it to him. In doing so he also provided us with one of the clearest statements we have about his fundamental view of life.
This then was the manifesto of November 4, 1860; this was the letter launched at Ricketson. It begins politely enough, with Thoreau's thanks for the laudatory verses Ricketson sent. But after that Thoreau breaks out:
"Why will you waste so many regards on me, and not know what to think of my silence? Infer from it what you might from the silence of a dense pine wood... My silence is just as inhuman as that, and no more. You know that I never promised to correspond with you, and so, when I do, I do more than I promised."
Such are his pursuits and habits, Thoreau continues, that he rarely goes abroad. He has enjoyed his visits with Ricketson and regrets that he cannot enjoy them more often. But after this concession he repels Ricketson again and says flatly:
"Life is short, and there are other things also to be done. I admit that you are more social than I am, and far more attentive to 'the common courtesies of life' but this is partly for the reason that you have fewer or less exacting private pursuits."
Thoreau has his own private life to live, his own aims to pursue."
A moral da história é simples: se você tiver um projeto pessoal, se a sua vida estiver sob seu controle e se você souber pra onde está indo, dificilmente permitirá que as expectativas de outros (mesmo que justas!) lhe desviem da sua meta.
Leia o artigo que escrevi sobre os 150 anos da publicação de Walden, obra-prima de Thoreau e um dos livros mais importantes de todos os tempos.
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Alexandre, o MercenárioEmail que recebi:
"O que está acontecendo com o LLL, há algum tempo o melhor blog do Brasil, referência para leitura de outros vários. Alexandre, viraste mercenário de um tempo pra cá, linkando somente submarinos e outras coisas. Não procure nada nas entrelinhas porque não vai achar. Este é um comentário curto e grosso de quem não precisa de indicações de literatura, e que apenas gostava de teus textos, hoje raros. Abraços"
É uma crítica honesta. Eu tenho até muita coisa pra dizer em resposta, mas vou dizer só isso: o conteúdo do LLL não mudou em nada por causa das parcerias com o Submarino ou Google. Pelo contrário, acho que o blog melhorou e ficou mais literário. A parceria com o Submarino, com certeza, me fez falar mais de livros do que eu falava, mas de modo algum influenciou o conteúdo do que escrevo.
Quem discorda de minhas tentativas de ganhar dinheiro que venha aqui e me pague algumas contas, por favor, que eu estou precisando. Se um grupo de leitores fiéis se cotizar e depositar todo mês um pingadinho na minha poupança eu juro que nunca mais conto miséria, peço presente ou coloco publicidade.
Esse blog tem, em média, 60 mil visitas por mês. Se 1% dessas pessoas depositar R$2 mensais na minha conta, eu ganho R$1.200 por mês e largo até as aulas do cursinho.
Até lá, o conselheiro come: meu padeiro só aceita pagamento em espécie.
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Será o LLL um Blog de Auto-Ajuda?Hoje, no Das Coisas:
"A liberdade é raríssima de se conseguir, e, como qualquer item valioso, tem um alto preço a se pagar. As formas de pagamento, ah, cabem exclusivamente aos corajosos que se dispuserem à procura pela libertação.
Comecei a descobrir esse novo caminho por aqui. O Alexandre foi o melhor livro de auto-ajuda que eu poderia ter, e me fez perceber o quanto eu estava desperdiçando da minha vida com imposições e convencionalismos que eu obedecia sem nem mesmo contestar.
Na verdade, todos os livros de auto-ajuda que folheei já me diziam isso, enfrente seus medos, mas de uma forma tão evasiva que eu não sabia nem por onde começar. O Alexandre, aliado a milhões de outros fatores, me pôs no caminho certo.
Fui quebrando minhas próprias barreiras, meus próprios conflitos, um a um - não todos, e creio que vou morrer ainda sem os ter destruído na totalidade; mas cada conflito superado é de uma preciosidade inestimável. Também não posso passar o resto da minha vida catando meus medos como formigas a serem esmagadas pelo meu dedo: as formigas aparecerão naturalmente no passar dos meus dias, e assim eu mato cada uma delas, sem pressa nem afobação." (leia o resto)
Tuesday, December 21, 2004
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Os Pés da Professora LindaFaz algum tempo, contei a historinha abaixo:
Dinâmica de grupo da minha escola. Temos que dizer uma coisa positiva sobre a pessoa que está ao nosso lado. Todos escreveram coisas como dedicação, dinamismo, prestimosidade, etc. Quem estava sentado ao lado de gente que conhecia pouco escreveu qualidades coringas como simpatia e competência.
A moça ao meu lado dava aulas em dias diferentes dos meus. Nunca nos vemos, só nas reuniões mensais. Ela nunca abriu a boca. A única coisa que eu sabia de positivo sobre ela foi o que coloquei no meu papel:
"Ela é uma mulher realmente linda."
A reunião veio abaixo quando abrimos os papeizinhos.
* * *
Pois a professora linda, que se chama Aline e dá aulas de italiano, também é muito gente boa e me deixou tirar várias fotos dos seus pezinhos, além de massageá-los por longos minutos.
Sua solinha esquerda tinha uma pequena bolha, que mal dava pra ver, mas ela só me deixou fotografar a direita.
Esse close é uma das coisas mais lindas que já vi.
Dei o endereço do blog e disse que postaria as fotos. Não sei se veio. Se passar por aqui, Aline, muito, muito obrigado.
E você, leitora amiga, não vai mandar fotos do seus pezinhos pro seu blogueiro preferido?
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Os Pés da Professora Linda IIA solinha direita posa sobre o banco. Uma das fotos de pés mais lindas e perfeitas que já tirei.

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Os Pés da Professora Linda IIIUma pose parecida, um pouco mais de longe. Vejam como ela esconde a solinha esquerda.

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Os Pés da Professora Linda IVDetalhe do anel. Ela disse que estava andando na rua e um mendigo hippie lhe disse: Quer um presente? Ela disse quero e ele fez o anel na hora. Nunca mais se separaram.

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Visíveis QualidadesEmbora possua "visíveis qualidades", Vania Guimarães, da Rocco, decidiu não recomendar Mulher de Um Homem Só para publicação. Mais uma cartinha pro álbum de rejeições. Essa foi, aliás, a primeira rejeição de Mulher de Um Homem Só.
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Prisão, As Expectativas dos Outros, UPDATEEstá havendo um enorme mal-entendido nos comentários desse post. Eu acho que os leitores estão pensando que eu vivo de renda.
Disse a Ale (mas outros disseram parecido):
"Eu ainda não entendi bem onde é que projetos pessoais e trabalhar pra ganhar a vida se tornam excludentes. " Eu também não entendi. Onde foi que você leu um absurdo desses?
Só pra deixar claro: eu NÃO vivo de renda. NINGUÉM me sustenta. Eu TRABALHO pra ganhar a vida. O dinheiro que me pagou viagens à europa acabou-se faz tempo.
Eu dou aulas em cursinhos, dou aulas particulares, mantenho sites, faço traduções, faço revisões, presto consultoria, escrevo artigos e, pior, como não tenho carteira assinada nem salário garantido por nenhum dessses lugares, eu estou SEMPRE correndo atrás, sempre de olhos abertos para tentar conseguir mais um aluno, mais uma tradução, etc. Janeiro agora será o mês da fome, por exemplo, pois todos os alunos somem.
Ninguém disse que trabalho é ruim, ou que trabalho e ter um projeto de vida são incompatíveis. Naturalmente, a não ser que você seja um rico herdeiro, você TERÁ que trabalhar, senão seu único projeto de vida factível será morar em uma caverna no mato. Além disso, a única independência possível é a financeira. Se você não paga suas próprias contas, jamais será realmente livre.
A questão é COMO trabalhar.
Abdicar a vida no afã de ganhar a vida não faz sentido. Trabalhar pra ganhar a vida mas não ter tempo de TER vida não faz sentido.
E, lembrando, o artigo não é sobre as vantagens comparativas do trabalho vs ócio, mas sobre viver a sua vida de acordo com as expectativas dos outros ou não.
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Prisão: As Expectativas dos Outros (Parte I de II)As Obrigações do ThiagoO leitor Thiago Frazão levantou questões interessantes sobre as prisões, sobre os limites da nossa liberdade individual e sobre as obrigações que temos em relação às outras pessoas.
Vale a pena ler com cuidado. Respondo mais embaixo.
"Gostaria de comentar esse seu "chutar o balde" de uma ótica talvez muito influenciada pelo meu meio mas, de fato, a minha ótica atual.
Tenho 20 anos e faço duas faculdades ao mesmo tempo: Direito e Economia. Por diversas vezes penso em como seria largar tudo e viver de uma maneira diferente, sem preocupações como trabalho, horas, reuniões, ternos e telefonemas. Mas tem certas coisas que me incomodam e me fazem pensar duas vezes:
1. Meus pais - foram eles que me deram, por toda a minha vida, condições de estudar em bons colégios, ter boas refeições e uma boa qualidade de vida. Não deve existir ao menos um sentimento de gratidão? Até mesmo da espécie "se você me linka, eu devo te linkar"? Algo como um "se eles me pagaram tantas coisas por 20 anos, não devo ao menos atender certas expectativas deles e retribuir de alguma forma"? Afinal, eles poderiam ter usado esse dinheiro para outras coisas...
2. Minha própria felicidade - nesse caso, usarei você como exemplo. Você gosta de ler e de não ter "prisões". Ser livre.
Mas você tem que concordar que existe um preço por isso. Você poderia estar lendo muito mais livros e desfrutando de mais coisas que te dão prazer caso se dedicasse a um trabalho qualquer que te pagasse por essa "dedicação".
Talvez a solução não esteja nem nos workaholics nem nos LLLs ao extremo, mas na devida dosagem de interesses. Se por um lado você quer desfrutar das coisas que gosta, por outro, essas coisas tem um preço. E para pagar esses preços, você deve dar algo em troca." Será a Gratidão uma Prisão?Não entendi, Thiago. Como assim gratidão? Você se acha na obrigação de enterrar sua vida em gratidão aos seus pais? Será que eles não querem justamente o oposto, que você seja feliz?
Meus pais realmente gastaram uma grana absurda na minha educação. Ainda mais se você incluir as viagens à Europa - meu pai, com certeza, incluía, e me disse isso várias vezes. A mensalidade da minha escola custa, hoje, mais de R$ 2.000.
Se eu tenho a meta de não desperdiçar minha vida é, em parte, em gratidão não a esse dinheiro (que, confie em mim, teria sido torrado de outra maneira mais estúpida) mas ao amor e confiança que dedicaram a mim.
Não sei como eu seria se minha vida tivesse sido diferente. Vai ver se eu tivesse estudado com dificuldade em escola pública, engraxado sapatos à tarde e feito um curso técnico profissionalizante à noite eu não tivesse nunca tido tempo ou serenidade de perceber a absoluta insânia de tudo isso.
A maioria das pessoas que conheço acorda cedo, trabalha o dia todo, dorme tarde. Vivem exaustas. Trabalham pra nada. Trabalham para trabalhar. Será que seus pais estão orgulhosos?
Eu acho que minha única obrigação é comigo mesmo, com a minha própria felicidade. Não é fácil. Somos seres humanos complexos e contraditórios. Imagina se eu fosse me sentir obrigado também pelas expectativas dos outros. Seria um paradoxo sem fim.
Parta do princípio que seus pais também querem que você seja feliz. Pode até haver alguma divergência de opinião, caso você ache que será feliz tocando piano e eles, fazendo concurso pro Banco do Brasil, mas, nessas horas, quando dá empate, o voto de Minerva é seu: faça como achar melhor e confie que, se eles te amam te verdade, vão entender. Mais lá na frente, reconhecerão que a sua felicidade estava no piano, não no Banco do Brasil, e vão te amar mais ainda por isso.
E, claro, se eles não aceitarem as suas escolhas individuais, então, sinceramente, são um par de boçais que não te respeitam, o que, em minha opinião, te desobriga automaticamente da obrigação de mudar sua vida para agradá-los.
O Preço da LiberdadeÉ claro que você pagará o preço.
Eu dou 12 aulas por semana no curso de inglês aqui do bairro, a R$13 a aula. Você pode ficar certo que esse valor baliza todos os meus gastos. Quando penso em comprar uma pizza grande de pepperoni da Domino's, eu penso: putz, tenho que dar duas horas de aula pra ganhar essa pizza! E acabo não comprando.
Meu pai fica enlouquecido. Ninguém pode ser feliz sem ter dinheiro pra comprar uma roupa, pra ir num restaurante, pra ter TV a cabo!, ele diz. Mas dá sim. Eu até gostaria de ter essas coisas, mas teria que trabalhar mais para poder adquiri-las. Esse sacrifício não estou disposto a fazer, tenho outras prioridades.
Acho que você deve pensar a questão ao contrário: qual o preço que VOCÊ paga por fazer duas faculdades, por exemplo, ou, amanhã, por trabalhar em um escritório 10, 12 horas por dia?
Quanto tempo lhe sobra pra ser você? Que horas você toca seus projetos pessoais? Será que você tem projetos pessoais? Ou será que sua vida é trabalhar e trabalhar, ralando pra ganhar dinheiro o suficiente para comer e, amanhã, ter forças para trabalhar mais um pouco?
A grande pergunta é: será que o salário que você recebe compensa tamanha abdicação do seu eu-próprio?
A Falta de Um Projeto PessoalO grande problema da maioria dos escravos que conheço é a falta do que fazer, a falta de um projeto pessoal.
Se, subitamente, tivessem sua jornada de trabalho cortada pela metade e ganhassem mais quatro horas livres por dia, simplesmente não saberiam o que fazer com elas. Provavelmente, iriam desperdiçá-las em frente à televisão. Nesse caso, realmente, melhor arranjar um outro trabalho meio-período e ganhar dinheiro.
Eu não sei vocês, mas EU tenho projetos. Livros a ler. Romances a escrever. Mulheres a comer. Coisas assim.
Quando pego uma consultoria e tenho que trabalhar que nem um ser humano normal por algumas semanas, eu sinto que a minha vida sofre. Que cada momento que passo com o cliente interpretando o bem-comportado Alexandre-consultor é menos um momento que sou o Alexandre-real, um momento que nunca mais vai voltar. Menos duas páginas que eu teria escrito no romance que estou desenvolvendo, menos um livro que eu teria lido.
Meu único consolo é que esses trabalhos acabam rápido e são eles que bancam os meus momentos de lazer, ócio e criação entre um cliente e outro. Se não fosse isso, não suportaria. Não sei como as pessoas suportam. Basta uma semana indo ao mesmo lugar, na mesma hora, pra ver as mesmas pessoas, e eu já começo a pirar.
Meus projetos são literários, porque sou metido a artista, mas projeto pode ser qualquer coisa. Aprender uma língua. Melhorar seu backhand. Derrotar seu primo no ping-pong.
Um projeto é algo seu. É algo que você faça por prazer. Por você.
E, realmente, se você não tem isso, vai precisar de mais tempo livre pra quê? Pra dormir mais?
(continua amanhã... as expectativas dos meus leitores....)
Monday, December 20, 2004
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A Responsabilidade do Autor O excelente Marcus Pessoa, do Velho do Farol, escreve sobre Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. Vale a pena ler.
E, por falar nisso, uma coisa interessante: o suicídio do protagonista causou, literalmente, uma avalanche de suicídios de jovens apaixonados por toda a Europa.
 Já teve gente acusando o filme Natural Born Killers de incentivar o assassinato. Trocentos loucos e assassinos já alegaram ter se inspirado em obras de ficção.
A pergunta: as obras de ficção são mesmo responsáveis? Oliver Stone pode ser legalmente (ou moralmente) responsabilizado por um jovem que saia matando pessoas por achar que o casal de NBK era cool? Tinha Goethe culpa por todos esses jovenzinhos europeus cabeças-oca que extinguiram suas próprias vidas antes da hora?
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 De R$230 por R$15o, e ainda dá pra parcelar em 3 vezes no cartão.
O primeiro e o segundo demoram a começar, o terceiro é excelente, e o quarto e o quinto são verdadeiras obras-primas da literatura de aventuras.
Rowling, Tolkien e Stephen King são os melhores contadores de histórias que conheço.
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Aos Amigos, Tudo; Aos Inimigos, a LeiSoube da notícia pelo Barnabé, que está rapidamente se tornando um dos meus blogs favoritos:
"Afastado delegado da PF que cuidou do caso Duda Mendonça
O delegado Antonio Rayol, que presidiu o inquérito sobre o envolvimento do publicitário Duda Mendonça com brigas de galos, foi afastado do comando da Delegacia de Meio Ambiente da Polícia Federal do Rio. Dois agentes, Luís Amado e Marcelo Guimarães, que comandaram a operação de interdição da rinha de galos, já tinham sido transferidos para o interior do estado.
Rayol soube do afastamento na manhã desta segunda-feira através do boletim interno da Polícia Federal:
- Em 27 anos de atividades na polícia, nunca vi isso. Soube do afastamento através de colegas. Eles me informaram que o ato estava no boletim na intranet da Polícia Federal - lamentou o delegado, que agora vai aguardar novo posto." (via Globo On Line) Ora bolas, não vejo a razão de tanta surpresa. O castigo foi justo. Pensem comigo:
Um delegado da Polícia Federal que acredite mesmo que a lei é igual pra todos, que o marqueteiro-mór do governo deve responder às mesmas leis que os eleitores comuns e que pode, inclusive, ser preso (*heresia!*), bem, esse delegado ou está enfrentando um choque cultural profundo (acabou de ser transferido da Delegacia de Estocolmo e ainda não se adaptou aos costumes locais) ou então, mais provavelmente, tem um QI de ostra e é um perigo para si mesmo, para seus comandados, para o contribuinte e para a alta cúpula do PT.
De qualquer modo, todos respiraremos mais tranqüilos com esse alucinado fora das ruas. Bem, se não todos, pelo menos os amigos do governo.
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Ailin Aleixo sobre Amyr KlinkMulher bonita já é uma das melhores coisas da vida. Mulher bonita que escreve bem chega a ser covardia. Leia a crônica de Ailin Aleixo sobre Amyr Klink e aproveitem para conhecer seu excelente blog Mulher Honesta:
"Outro dia entrevistei o Amyr Klink. Sou sincera em dizer que, antes dessa data, os feitos dele me eram conhecidos porém não me tocavam de maneira especial? tudo bem, o cara tinha atravessado a remo da África até o Brasil etc e tal, mas eu achava mesmo é que ele tinha um grave problema de sociabilidade por curtir passar tanto tempo entre céu, mar e cubos de gelo gigantes.
Como nos enganamos com as pessoas.
As horas em que fiquei conversando com aquela figura aclamada e admirada foram de total surpresa: surpresa por ser tão extrovertido, articulado e dominar tantos assuntos diferentes. Surpresa por ter sido indubitavelmente simpático (ao contrário do depoimento espontâneo de tantas pessoas afirmando ser o oposto) e, acima de tudo, surpresa por ter mergulhado, mesmo que pouco tempo, na paixão daquele homem--- e compreendido seu amor pelo distante.
Não é uma aventura sair de Parati de veleiro e passar um ano encalhado no inverno antártico?é um aprendizado quase budista sobre a vida, seus ciclos, tempos, belezas mutantes; é muito mais zen do que fazer duzentas aulas de yoga e não comer carne vermelha. Não é ser aventureiro gastar milhões de dólares e passar oito anos construindo um barco idealizado para dar a volta ao mundo e chegar a China?é saber, no mais íntimo do ser, que a felicidade, aquela rara sensação de plenitude, pertence somente a aqueles que persistem em seus desejos, independente da relevância que eles tenham para terceiros.
O que hoje vejo nele é um tipo raro de homem que não tem amarras prendendo-o a uma suposta segurança e que preferiu abraçar a vida mais difícil de todas: a liberdade. Liberdade em amar sem precisar neutralizar-se, em viver transformando seus delírios polares em realidade, em não fazer questão (nem precisar) em ser adorado por todos que o cercam. Liberdade em ser quem se quer.
A existência de homens como ele é a constatação de que a vida só é medíocre para quem a faz assim ou para aqueles que não tem coragem de pensar em outra hipótese fora do conforto do seu quinta, seja ele um quadrado de terra atrás de casa ou uma mente obtusa. E comprovar que qualquer coisa por ser muito mais tanto assusta quanto atrai."
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 Lima Barreto gostava de repetir que odiava Machado e adorava Azevedo. Embora sua obra claramente reflita essa afinidade, ao morrer, ele tinha em sua casa todos os livros do primeiro e nada do segundo.
Sérgio Buarque de Holanda tem uma teoria interessante para explicar isso:
"Enquanto os escritos de Lima Barreto foram, todos eles, uma confissão mal-disfarçada, os de Machado foram antes uma evasão e um refúgio. O mesmo tema, que para o primeiro representa obsessivo tormento e tormento que não pode calar, este o dissimula por todos os meios ao seu alcance. (...) [Sua revolta determina muitas de suas reações pessoais, inclusive] a singular e renitente ojeriza contra todos aqueles que (como João do Rio e talvez o próprio Machado de Assis) tendo razões para partilhar das mesmas amarguras, tudo fazem no entanto para parecer insensíveis a elas, por enganar-se a si mesmos e tentar iludir aos outros."
O preconceito racial e social certamente marca a vida e a obra de Lima Barreto. O problema é que o escritor fez disso a sua vida. Ao mesmo tempo que sua obra demonstra que ele era um escritor talentoso e competente, ela também demonstra que ele aparentemente ainda se via como um mulatinho acuado pelo mundo, lutando sozinho contra tudo e contra todos.
Já dizia o bigodudo: quando olhamos o abismo, o abismo olha em nós. A diferença entre ser marcado por uma dificuldade e permitir que essa dificuldade molde sua vida e torne-se a parte central dela é, justamente, a diferença entre Machado de Assis e Lima Barreto.
 Partidário entusiasta da Revolução Russa, Lima Barreto sofria do típico déficit de responsabilidade que caracteriza a esquerda: nada é culpa do indivíduo, tudo pode e deve ser imputado à perversa estrutura social burguesa racista etc etc.
Sua motivação para escrever Recordações do Escrivão Isaías Caminha foi mostrar que "um rapaz com as disposições de Isaías pode falhar, não em virtude de suas qualidades intrínsecas, mas batido, esmagado, prensado pelo preconceito."
Não acho nem que estava errado, ainda mais sendo mulato no Rio da belle epoque. Mas também acho tal atitude contraproducente. Ninguém se melhora quando acha que toda a sociedade está contra ele, que todos os seus obstáculos são externos, que não há nada que se possa fazer. Como me disse um amigo negro: "Se eu for achar que todo emprego que me recusam é porque eu sou negro, não faria outra coisa."
Melhor fez Machado, que foi viver sua vida e, naturalmente, era isso que despertava raiva em Lima Barreto. O próprio sucesso de Machado ia contra toda a ideologia de Lima Barreto e comprovava que um mulato podia, sim, ser bem sucedido. A roda da vida não esmagará todos. O indivíduo pode triunfar por mérito próprio, mesmo contra enormes dificuldades.
Sim, há esperança.
O Natal está chegando. O 13º também. Sejam bonzinhos. Dêem um presente ao seu blogueiro preferido e retribuam toda a diversão que lhes proporcionei ao longo de 2004. Se não, pelo menos se presenteem: comprem alguma coisa no Submarino clicando nos links acima e eu ganho 8%. E que deus lhe abençoe.
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Eu Devia Resistir, Mas Não Consigo"Se você respondesse às minhas argumentações sem ironias, talvez pudesse convencer-me da sua capacidade sobrenatural de praticar uma leitura tão célere. "Fui Descoberto" somente corrobora-me a convicção de que tudo não passa de papo-furado para encher lingüiça. Em vez de entulhar o canto esquerdo do seu blog com uma lista de livros que não reflete o que leu neste ano, poderia pôr sua cara horrorosa para vermos o quanto o seu nariz é grande. Imagino que deva ter dificuldades quando passa pelas portas ou quando digita as mentiradas. Espero a foto."
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Os Três Homens que Mais Entendem a Natureza Feminina: Chico Buarque, Miguel Paiva... e Eu!Ou, pelo menos, essa é a opinião da Stella, do Quarto da Telinha.
Quem me dera, Stella, quem me dera. Mulher é uma delícia, não dá pra cansar, eu quero entendê-las todas, virá-las ao avesso e desvirar de novo.
Eis aqui o que ela escreveu sobre meu romance, Mulher de Um Homem Só, narrado na primeira pessoa por uma mulher:
"Então eu estou aqui embasbacada com o que eu acabei de ler.
Vá ali, vá. Depois clique aqui. Leia. E tenha um siricotico de vontade de escrever desse jeito.
Liberal Libertário Libertino. Quantas vezes eu vi esse blog linkado em gente de minha inteira confiança e passei batido? Hoje eu li Mulher de Um Homem Só, caramba. Vá entender das minhocações femininas assim lá numa mesa de bar com o Chico e o Miguel Paiva."
E acrescentou:
"Então são três, agora, a entender tanto a alma feminina que dá um certo embaraço. Você, o Chico e o Miguel Paiva. Aquele, da Radical Chic.
Eu acabei de ler. Todo mundo ainda está dançando na minha cabeça. Mas eu queria dizer: cara, você escreve.
Um abraço apertado de quem não tem décimo-terceiro mas que gostaria de dar um presente da wishlist. Você merece."
Não se preocupe com isso, Stella. Seu elogio já foi mais que suficiente.
Você se incomodaria em colocar isso por escrito, assinar em duas vias, reconhecer em cartório e mandar pra mim pra eu incorporar ao meu processo de divórcio?
Mostrei seu post para a primeria-esposa e ela comentou: "Hmm... A Marieta também não largou o Chico?"
E você, amigo leitor? Será você o único habitué desse blog que ainda não leu o meu bendito romance, Mulher de Um Homem Só? Vai fundo que ainda dá tempo.
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Amém"é decepcionante ver pessoas que naõ acreditam no criador do mundo,aquele que te FEZ.por favor não confunda o mito do papai noel com o nosso querido Jesus.por mais que não acredite nele,por incrivel que pareça,ele te ama e te protege,te dá saude,e ainda te deixa escrever essas ofensas contra ele.espero um dia te encontrar no céu,e te perguntsr se ele realmente existe, ou é só mais um homen bom!que Deus te abençõe,abraço!"
Sunday, December 19, 2004
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 Muita gente compara Lima Barreto a Górki e, de fato, há pontos em comum. O primeiro era leitor do segundo, um dos poucos escritores brasileiros da época que tinha lido e recomendava os russos, não só Górki, mas também Tólstoi e Dostoievski. Ambos escreviam sobre as agruras da arraia miúda, ambos se empolgaram com a Revolução de Outubro.
Mas as diferenças terminam por aí. Na verdade, ambos os escritores poderiam ser casos de estudo sobre como se pode escrever sobre a mesma coisa de formas totalmente diferentes. Górki era só força e poder. Não foi escolhido à toa como a voz literária de uma revolução dinâmica e triunfante que prometia mudar o mundo.
Górki descreve as agruras dos pobres e incultos, aquelas vidas duras e vazias, amarradas à mais cruel ignorância, e você sente que tudo aquilo está acabando. Que Górki está narrando os últimos estertores de uma realidade em extinção. Que, quase como que num ato de poder seu, tudo aquilo será mudado, tudo melhorará, todos os percalços serão superados.
A genialidade suprema de Górki está em narrar página após página das mais baixas pequenezas humanas e, no final, deixar seu leitor de peito inflado, deixar seu leitor com aquela fé quase comunista de que tudo aquilo será inexoravelmente destruído, que toda aquela pobreza e mesquinharia está com seus dias contados, que estamos na véspera de uma nova Era na humanidade. É um feito e tanto.
Lima Barreto é o exato oposto. Quem o descreve como escritor bem-humorado de tipos tipicamente cariocas deve ter lidos uns livros diferentes dos que eu li.
 Seus três principais romances, Policarpo, Isaías e Clara, são histórias de pessoas que começam na vida com força, orgulho, confiança e bondade, mas são sistematicamente moídas, destruídas, achapadas, até a mais sua completa dissolução moral, até não sobrar literalmente nada daqueles sonhos ingênuos, daquelas boas intenções iniciais.
Lima Barreto não nos dá nenhuma esperança de aquilo poderia ter sido, ou que vá a ser, diferente. Pelo contrário, ele se esforça para mostrar que as coisas não poderiam ter se passado de outro jeito. Simplesmente não há salvação.
Dois trechos de Cemitério dos Vivos, relato semi-auto-biográfico de sua internação em um hospital psiquiátrico, recentemente relançado:
"Veio-me repentinamente, um horror à sociedade e à vida; uma vontade de absoluto aniquilamento, mais do que aquele que a morte traz; um desejo de perecimento total da minha memória na terra; um desespero por ter sonhado e terem me acenado tanta grandeza, e ver agora, de uma hora para outra, sem ter perdido de fato a minha situação, cair tão, tão baixo, que quase me pus a chorar que nem uma criança. (...)
Eu me tinha esquecido de mim mesmo, tinha adquirido um grande desprezo pela opinião pública, que vê de soslaio, que vê como criminoso um sujeito que passa pelo hospício, eu não tinha mais ambições, nem esperanças de riqueza ou posição: o meu pensamento era para a humanidade toda, para a miséria, para o sofrimento, para os que sofrem, para os que todos amaldiçoam. Eu sofria honestamente por um sofrimento que ninguém podia adivinhar; eu tinha sido humilhado, e estava, a bem dizer, ainda sendo, eu andei sujo e imundo, mas eu sentia que interiormente eu resplandecia de bondade, de sonhos de atingir a verdade, do amor pelos outros, de arrependimento dos meus erros e um desejo imenso de contribuir para que os outros fossem mais felizes do que eu, e procurava e sondava os mistérios da nossa natureza moral, uma vontade de descobrir nos nossos defeitos o seu núcleo primitivo de amor e de bondade."
 Por fim, o retrato de Menezes, o pseudo-dentista fracassado de Clara dos Anjos. Pressionado, ele acaba cedendo a alcovitar a relação entre Clara e seu futuro deflorador. O trecho abaixo é uma pequena obra-prima, exemplo proverbial do maior talento de Lima Barreto: descrever a derrota, a baixeza, a tristeza, sem meias-tintas, sem pena, sem redenção possível:
"Na segunda-feira, à noite, depois de ter andado por toda a parte, com a sua velha mala de ferros de cirurgião-dentista, Meneses foi-se postar no botequim do Fagundes. Sentou-se, como de hábito, na última mesa, aos fundos, encostada à parede, com um jornal debaixo dos olhos e um cálice de parati na frente. Ele bebia aos goles, à vista de todos, sem vexame algum. Fazia-lhe mal, como mal faz a todo mundo; mas era solicitado a beber para se atordoar, para não se recordar, para não estar só com o seu passado, para afugentar o terror que a vida lhe inspirava, na miséria, quase indigência em que se achava, naquela idade avançada de mais de setenta anos, alquebrado, doente, sem uma amizade forte, sem um parente que o amparasse, sem uma pensão qualquer. (...)
Estava sem força moral, temia tudo, temia o menor sopro, o mais inocente farfalhar de uma árvore. Toda a criação estava contra ele, conjugava-se para perdê-lo - que podia fazer contra tudo e contra todos? E a miséria? E a fome? Se se revoltasse, que seria dele, sem futuro, sem emprego, sem amigos, sem parentes, doente? Era bem triste o seu destino... Onde estava a sua mecânica? Onde estava a sua engenharia? Amontoara livros e notas pueris, e nada fizera. Levara bem cinqüenta anos, isto é, desde que saíra da casa dos pais, a viver uma vida vagabunda de ciganos, sem nunca se entregar seriamente a uma única profissão, experimentando hoje esta, amanhã aquela. De que lhe valera isto? De nada. Estava ali, no fim da vida, obrigado a prestar-se a papéis que, aos dezesseis anos, talvez não se sujeitasse, para disfarçadamente esmolar o que comer com os seus parentes. Teve vontade de chorar. (...)
Meneses, porém, continuava passivamente a desempenhar o seu indigno papel. Se não o achava decente, conformava-se diante da sua atroz e irremediável miséria. Não se julgava mais um homem..."
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Email que recebi do Fábio:
"Uma coisa que eu notei (não sei se é viagem minha), mas os tamanhos dos capítulos remetem às ondas, à superfície do mar. Uma série de capítulos curtos, seguida por alguns longos, alternando-se, etc. Repare. Vc tb comentou algo sobre a chatice de certos capítulos que acabariam nos aproximando da exasperação que Acab deveria estar sentindo, algo assim: "Onde diabos está essa caçada, porra?!". Eu não tinha pensado exatamente nisso, mas quase: voltando à analogia com o mar, repare que esses capítulos remetem aos períodos de calmaria enfrentados pelo navio. Aquele tédio insuportável. A tripulação sem nada para fazer. Melville nos faz sentir na pele de um marujo, ficamos loucos para que algo aconteça. "
Gostou desse texto? Ele resolveu sua dúvida? Ajudou em sua busca? Acrescentou algo à sua vida? Dê um presente a um autor falido e permita que ele continue escrevendo na Internet: Lista de Presentes Liberal Libertário Libertino
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Fui Descoberto!"Se sua memória não fosse tão fraca, ou tendenciosa, pararia de dizer tais asneiras. Como leu 211 livros em apenas 1 ano se você mesmo disse em março de 2003 que "ultimamente, só venho lendo clássicos. Estou há mais de um mês no Dom Quixote, por exemplo"? É o que está escrito lá. Então? Você mentiu naquela oportunidade ou está mentindo agora? Considerando que a maioria dos clássicos possui inúmeras páginas, é matematicamente impossível você ter realizado a proeza de ler tantos livros num espaço tão curto de tempo. Se destina a um clássico 1 mês, como pode apreciar pelo menos 1 centena em 12 meses? Este e-mail com certeza não será publicado. Te peguei!"
Saturday, December 18, 2004
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Recomendo Henry Miller sem reservas. O velho pornógrafo é um dos meus autores favoritos. Em minha lista das dez maiores obras de todos os tempos, votei na sua legenda, por minha total incapacidade de escolher entre Trópico de Capricórnio, Trópico de Câncer e Primavera Negra.
O conteúdo pornográfico fez seus livros serem proibidos por décadas. Puro moralismo cego. Qualquer novela das oito tem mais cenas de sexo do que os livros de Henry Miller. Todos os idiotas que lêem Henry Miller pelo sexo acabam se desapontando.
O que faz dele um mestre é sua filosofia libertária. Primavera Negra tem todo um capítulo sobre as delícias de mijar ao ar livre.
Os críticos (e a maioria esmagadora dos leitores) não entendem que Miller encarava a vida como um todo. Ele brincava dizendo que tinha três tipos de leitores: os que gostam da filosofia e reclamam das longas cenas de sexo, os que gostam das longas cenas de sexo e reclamam dos longos monólogos filósofos e, finalmente, os que entendem que é tudo uma coisa só, matéria da vida, em estado bruto, sexo, mijo e liberdade.
Como sempre, a minha regra de ouro é começar pelos clássicos. Então, recomendo que penetrem na obra de Miller através dos trópicos, Trópico de Capricórnio ou Trópico de Câncer, e depois encarem Primavera Negra.
O resto, só depois de se viciarem.
Entretanto, o conselho nem sempre dá certo. Recebi hoje esse email do fiel leitor Marcio Hack:
"Muito obrigado por ter indicado o Henry Miller. Comecei a ler ontem o "Sexus"... Mas fiquei curioso - por que você não menciona esse livro entre os melhores dele? Tentei o "Trópico de Câncer" mas não consegui ir além da página três - melhora depois daí? Ao passo que do "Sexus" eu já gostei no primeiro parágrafo."
Do Miller, eu li:Todos são incríveis. On Writing é uma coletânea de trechos e artigos sobre a arte de escrever, e The Books in My Life é sobre os livros que mais o influenciaram e marcaram, e me indicou leituras excelentes.
Estão na fila a trilogia Sexus, Nexus e Plexus (também conhecida como Rosy Crucifixion), Dias de Paz em Clichy e O Colosso de Marúsia.
Pelo o que pude perceber sobre os livros da Rosy Crucifixion, de ler sobre eles e de folhear os meus exemplares, eles são bem parecidos, quase que uma continuação, no mesmo tom e estilo, dos Trópicos. Quase sempre, as pessoas preferem os Trópicos e só os fãs mais ferrenhos gostam de Sexus, Nexus e Plexus.
Mas, realmente, não li.
De qualquer modo, fica a dica do Márcio. Para quem não lê inglês, a Companhia das Letras acabou de lançar uma nova tradução, em edição belíssima, de Sexus (à direita).
Henry Miller vale muito a pena.
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A Retirada de LagunaAlgum santo mecenas que não se identificou acaba de me mandar um exemplar de A Retirada de Laguna, de Afonso de Taunay, uma contribuição para o meu quiçá futuro mestrado em abordagens ficcionais da Guerra do Paraguai na Literatura Latino-Americana.
Por favor, identifique-se, para que eu possa agradecer decentemente. Você merece.
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Lobo Antunes
Buscando por Lobo Antunes, encontrei esse artigo que me fez brochar. Pergunta a quem conhece o autor: é isso mesmo?
"Por trás da impressão de permanente inquietação presente nas entrevistas (raras) e artigos (mais numerosos), Lobo Antunes parece se sentir confortável nesse modelito tão contemporâneo: jamais se apresenta como um indivíduo, voz personalizada e irredutível, mas como um produto (ainda que crítico) das circunstâncias. É como se ele fizesse questão de ressaltar que se considera também uma vítima de seu país, e de sua época - como a maior parte das personagens de seus livros. (...)
Um último e quase desesperado recurso, dentro do projeto de valorização de Lobo Antunes, é a afirmação de que "seu texto é melhor do que o de José Saramago". Quanto a isso, será difícil discordar: afinal, nem os compromissos assumidos com o mito da vanguarda político-estética conseguem disfarçar o enorme talento estilístico de Lobo Antunes. Mas, convenhamos, leitor (e nisso há muito de gosto pessoal): escrever melhor do que o autor do Ensaio sobre a cegueira não chega a ser virtude: é quase uma obrigação!"
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Outra crítica comum a Lima Barreto e, em especial, à Clara dos Anjos, é o exagero caricatural de seus personagens. Uma famosa crítica literária comenta que o deflorador de Clara era tão mau, mas tão mau que até seus animais de estimação (galos de briga) eram maus.
Ora, e daí? Lima Barreto não era pós-realista? Por que cobram realismo de seus personagens?
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Curriculum VitaePerguntou o Thiago:
"Alguns posts atrás vc disse que havia feito um ano de História e Jornalismo na PUC mas não havia se formado. Você obteve algum diploma de graduação? Que área e onde? Você ainda tem acesso a biblioteca da PUC. Como? Você pretende fazer mestrado nos EUA em que área e que universidade? Estou sendo intrometido demais? Sou apenas curioso quanto a sua formação acadêmica..."
Eu fiz dois anos de História na PUC (1994 e 1995), um semestre de Jornalismo na Estácio (1994), um ano de Jornalismo na PUC (1995) e quatro anos de História na UFRJ (1996-1999), onde finalmente me formei. Depois, fiz uma pós-graduação de um ano em Jornalismo Cultural (2003-2004), na Estácio.
A PUC - graças a Machado, que ele ilumine as almas das bibliotecárias da PUC - dá aos membros da associação de ex-alunos os mesmos direitos em relação à biblioteca que gozam os alunos regularmente matriculados. E, mais graças a Machado ainda, você não precisa ter se formado na PUC pra ser membro da associação de ex-alunos, basta ter estudado lá.
Eu posso imaginar poucos artigos constitucionais cuja revogação que me fariam ir às ruas mais raivosamente de fuzil na mão do que essa simples regrinha interna da PUC.
E não, nunca morei no exterior, mas se eu me der tão bem no GRE quanto no TOEFL, se o meu Statement of Purpose ficar bonitinho, e se meus professores escreverem umas cartas de recomendação supimpas, é bem capaz de eu me mudar pros EUA em agosto para um Mestrado em Literatura.
Aí, vou me divertir ainda mais, porque cada vez que eu quiser falar mal do Brasil (dizendo tudo o que eu JÁ dizia antes) vai aparecer um boçal jogando na minha cara que eu abandonei o país, fui morar em Veneza, opa, Estados Unidos, e não tenho direito de abrir a boca.
Mal posso esperar.
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Parole, ParoleFalei que tinha gabaritado o TOEFL e o Marcus perguntou:
"O que é "gabaritar"? É acertar todas as questões?"
Logo abaixo, o Thiago explicou, e não poderia ter explicado melhor:
"Para os não-cariocas, "gabaritar" significa "fazer da sua prova um gabarito", ou seja, obter a nota máxima... Eu sei de uma outra expressão que um amigo do Espírito Santo usa: "fechar" a prova."
Antes disso, em um email, o Idelber, de Minas, tinha usado essa expressão:
"Você fechou a porra da prova *inteirinha****?????"
E comentou o Cláudio:
"Gostei do verbo "gabaritar". Na minha terra se usa: "Zerei a prova" pra dizer que não errei nada... (cada coisa...)."
Por fim, o Thiago respondeu:
"Olha que curioso: "zerar" a prova aqui no Rio é não acertar nenhuma sequer. Isso demonstra que se você, mineiro, vier para o Rio de Janeiro e incorporar essas expressões, seus desempenhos em provas irão de 100% a 0% em poucas palavras."
Achei a maior graça. Nunca teria imaginado que gabaritar era um carioquismo. A gente nunca tem noção de se as coisas que fala são regionais ou nacionais.
Quando chegou o email do Idelber, eu fiquei confuso por meio segundo: fechei a prova? Essa eu nunca tinha ouvido, mas foi fácil de deduzir. Já "zerar a prova" acho que só pelo contexto.
Reparei que não penso nesse assunto há muito tempo.
Na época da Mad, o Ota tinha verdadeira obsessão em caçar carioquismos. A revista era 90% produzida no Rio e era ponto de honra para ele que ela fosse autenticamente nacional. O homem era uma verdadeira enciclopédia de gírias locais. Volta e meia, ele mudava várias palavras nas matérias, dizendo: ninguém fora do Rio vai saber o que é isso, essa piada só tem interesse local, etc. E eu aprendi que muita coisa que pra mim era normal só era falada por aqui.
Quem dera algumas revistas e programas produzidos em São Paulo tivessem essa mesma preocupação. Quem sabe o país teria sido poupado da nefanda palavra "balada".
Mas também não dá pra falar dos paulistas. Enquanto o Mad tinha essa preocupação em se adequar à língua, o programa Casseta & Planeta, abertamente iconoclasta, é hoje o maior exportador de gírias cariocas.
Talvez estejam certos. Sei lá. Sei é que acertei TODAS as perguntas do TOEFL. Agora, todo mundo entendeu?
Friday, December 17, 2004
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Livros, Livros e Mais LivrosDepois de gabaritar o TOEFL (eu já disse pra vocês que gabaritei o TOEFL?), decidi que eu merecia uns presentes. Passei na Barateiros da Ribeiro, um dos melhores sebos do Rio atualmente, e vejam o que garimpei, por módicos R$50:
Christie, Agatha. Towards Zero.
James, P.D. A Mind to Murder.
Dois clássicos livros de mistério escritos por velhinhas inglesas, porque nem só de Proust se faz um verão.
Simenon, Georges. Meu Amigo Maigret.
Porque Maigret É muito mais livro e muito mais literatura do que Agatha Christie e esse era o único livro dele editado no Brasil que eu ainda não tinha.
Simon, Claude. A Estrade de Flandres.
Hesse, Herman. O Lobo da Estepe.
Gadda, Carlo Emilio. Aquela Confusão Louca da Via Merulana.
Três livros da lista dos 100 melhores do século da Folha. Além disso, o Lobo da Estepe já me foi repetidamente recomendado como tendo tudo a ver com as prisões.
Lermontov, Mikhail. A Hero of Our Time.
Um clássico russo que quero ler há tempos. Como não amar os russos? Essa edição tem a atração extra de ser uma tradução feita na Rússia, durante a Guerra Fria, para promover os autores nacionais no ocidente.
Levi, Carlo. A Dupla Noite das Tílias.
Nunca tinha ouvido falar, mas me pareceu bom. Às vezes, os melhores livros vêm assim. É a história de um judeu italiano que visita a Alemanha no pós-guerra imediato e suas impressões.
Huff, Darrel. How to Lie with Statistics.
 A estrela do dia. O terceiro exemplar desse livro que eu compro. É um dos melhores, mais engraçados e mais insightful que já li. Eu vivo emprestando minhas cópias para todos e, inevitavelmente, alguém sempre não devolve. Juro que essa terceira cópia não sai de perto de mim jamais. Indispensável para qualquer um que leia jornais.
Infelizmente, não vou poder ler nenhum deles tão cedo, pois acabei de voltar da Biblioteca da PUC, onde peguei:
Couto, Mia. Cronicando.
Couto, Mia. Contos do Nascer da Terra.
Lobo Antunes, Antonio. Os Cus de Judas.
Lobo Antunes, Antonio. Manuais dos Inquisidores.
Lobo Antunes, Antonio. Exortação aos Crocodilos.
Graças à gentileza das maravilhosas bibliotecárias da PUC, tenho até o dia 27 de dezembro, 10 dias, pra ficar com essas belezuras. Vou ler os Mias primeiro, o homem é o melhor autor da língua portuguesa, mas acho que dá tempo de ler pelo menos um Lobo Antunes.
Qual Lobo Antunes eu leio primeiro?
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Da Série "Coisas que me Divertem"Gente que fala Casa Germinada.
O que elas imaginam? Um cientista desenvolvendo uma cultura de casas em um tubo de ensaio?
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Vocês Estão Lendo o Blog de um Cara que Gabaritou o TOEFLEu nem imaginei que fosse possível. São quatro horas de prova, as chances de não escapar nenhuma são mínimas. Mas não escapou.
Esse foi o fácil. Quarta tem GRE. Aí eu quero ver.
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Uma das críticas mais comuns à Clara dos Anjos é ser um romance mal acabado. Tremenda injustiça. É um romance de final brusco, como o meu Mulher de Um Homem Só, o que não quer dizer desleixo na feitura.
Eu sou suspeito, claro, mas o final brusco foi o que mais me agradou. Não há explicações, elucubrações, não sabemos o futuro dos personagens, nem como a situação se resolveu. O deflorador safado sai de cena discretamente, andando feliz pela rua com o bolso cheio de dinheiro: parece que ainda mais aparecer no romance, mas não: já fez o que tinha que fazer e some.
A cena final é absolutamente soberba. Como todo final genial, redime numa canetada todos os defeitos do romance.
Uma amiga da família - alemã, raça pura - leva Clara, grávida, à casa da família de seu deflorador. Elas contam sua história triste mas a mãe do rapaz retruca que ele saiu do estado e que, de mais a mais, não tem nada a ver com o que o filho faz ou deixa de fazer. O que elas queriam que ela fizesse? Clara responde, singelamente, que queria que ele se casasse com ela, e a mãe expectora:
"Que é que você diz, sua negra?"
O pai do rapaz aparece e as coisas ficam ainda piores. Ele sabe o filho vil que tem e confessa à Clara todo a sua vergonha de pai fracassado. Literalmente, cai de joelhos, chorando, aos pés da moça, no que talvez é a cena mais patética de toda a literatura brasileira.
E, sem mais delongas, o romance termina nessa nota:
"Na rua, Clara pensou em tudo aquilo, naquela dolorosa cena que tinha presenciado e no vexame que sofrera. Agora é que tinha a noção exata da sua situação na sociedade. Fora preciso ser ofendida irremediavelmente nos seus melindres de solteira, ouvir os desaforos da mãe do seu algoz, para se convencer de que ela não era uma moça como as outras; era muito menos no conceito de todos. (...) Num dado momento, Clara ergueu-se da cadeira em que se sentara e abraçou muito fortemente sua mãe, dizendo, com um grande acento de desespero:
- Mamãe! Mamãe!
- Que é minha filha?
- Nós não somos nada nesta vida."
O Natal está chegando. O 13º também. Sejam bonzinhos. Dêem um presente ao seu blogueiro preferido e retribuam toda a diversão que lhes proporcionei ao longo de 2004. Se não, pelo menos se presenteem: comprem alguma coisa no Submarino clicando nos links acima e eu ganho 8%. E que deus lhe abençoe.
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Um Livro Tem um Percurso PróprioSensacional, comovente, linda, genial coluna de Artur Dapieve de hoje.
Ainda não tenho idade de começar a dar, ainda estou acumulando, mas boa parte do meu testamento (sim, eu tenho um) é sobre a disposição dos meus livros - afinal, são meus únicos bens. Eu tenho, por exemplo, uma biblioteca invejável de temas navais, um assunto que interessa a poucos, mas inestimável para esses poucos. Imaginem como eu iria me virar no caixão imaginando minha família deixando essas preciosidades apodrecerem com tanta gente procurando por elas.
Livro é pra circular.
"Na tarde do dia 20 de outubro de 2003, uma segunda-feira, eu liguei para o Aldir Blanc a fim de dar a notícia da morte de Manuel Vázquez Montalbán, aos 64 anos. Tinha sido na véspera, de enfarto, no Aeroporto de Bangcoc, onde ele esperava um vôo de volta para a Espanha. Dois anos antes, o poeta da Muda conhecera o romancista policial de Barcelona, de quem era ávido leitor, durante um encontro no Copacabana Palace.
Liguei e atendeu-me a famosa secretária eletrônica da Rua Garibaldi. Deixei o recado, pesaroso. Na manhã seguinte, bem cedo, retornou-me o Aldir. Mari, sua mulher, tinha ouvido a mensagem e transmitido a má notícia. Ele queria se inteirar dos detalhes. Dei os que tinha, não muitos, desligamos. Continuei a tomar café, de olho na hora das aulas na PUC. Menos de cinco minutos depois, o telefone tocou de novo. Era o Aldir, claro.
- Já chorei pra cacete trancado no banheiro - disse. - Você leu O quinteto de Buenos Aires? O profeta impuro? O estrangulador? O labirinto grego?
Depois de minha envergonhada sucessão de negativas, não, eu nunca lera Manuel Vázquez Montalbán, Aldir disse uma das coisas mais sábias que já ouvi na vida.
- Pô, irmão... Se a gente não lê os livros do cara, a vida dele foi inútil.
Quase um ano depois dessa conversa, li uma coluna do Paulo Coelho aqui na revista do jornal. Ele contava que decidira manter por perto apenas uma biblioteca básica de 400 volumes, alguns por razões sentimentais, outros por constante releitura. Escrevia de um café, no lado francês dos Pirineus, a poucos quilômetros de sua casa, e louvava a internet por permitir o acesso a todos os volumes dos quais tinha se desfeito ou que nunca possuíra.
"Claro que continuo comprando livros - não existe meio eletrônico que consiga substituí-los", prosseguia o escritor. "Mas assim que termino, deixo que ele viaje, dou para alguém, ou entrego em uma biblioteca pública. Minha intenção não é salvar florestas ou ser generoso: apenas creio que um livro tem um percurso próprio, e não pode ser condenado a ficar imóvel em uma estante."
Coelho escrevia isso e lembrava-se vagamente de um poema de Borges, sempre o bom e velho Jorge Luiz quando pensamos em bibliotecas e caminhos que se bifurcam. Decidido a provar seu ponto, procurou os versos pelo computador, ao invés de ir buscá-los na estante de casa. Deu certo. Surgiu na sua tela o poema (chamado Limites, averigüei depois) do qual reproduziu alguns versos: "Há uma linha de Verlaine que nunca mais me lembrarei./ Há um espelho que já me viu pela última vez./ Há uma porta fechada até o final dos tempos./ Entre os livros de minha biblioteca/ Há algum que já não tornarei a abrir."
Lembrei-me de outro Jorge, o Guinle. Certo dia, o bon vivant fez algumas contas e descobriu: já não tinha idade para voltar a escutar ao menos uma vez todos os LPs de jazz da sua lendária coleção. Vendeu-os todos, então, a um sebo no Centro da cidade e foi curtir o resto da vida (e a morte, como morreu bem) no Copacabana Palace, o local do encontro entre Vázquez Montalbán e o Aldir, olhe só como o círculo se fecha.
Juntei as lições de Aldir, Coelho e dos dois Jorges e decidi: minha biblioteca e minha discoteca terão o tamanho de minhas estantes. Não mais. Nem menos. Elas não são exatamente pequenas, mas decerto já têm, em suas prateleiras, um livro que não tornarei a abrir, um CD que não tornarei a ouvir. E, se isso não acontecer, como alertou o autor de Gol anulado e Choro réquiem, seus autores terão vivido em vão e sua arte terá sido inútil ao próximo. Como bibliófilo, melômano e escrevinhador, esta idéia me é apavorante.
É como naquela novela de Herman Melville, Bartleby, o escrivão (uma das edições na estante tem um prefácio de Borges; o círculo, o círculo), no qual o personagem-título desenvolve uma forma terminal de apatia depois de ter trabalhado na seção de cartas sem resposta. Livros não mais lidos, discos não mais ouvidos são cartas sem resposta.
Portanto, decidi que, nas prateleiras que já estiverem cheias, um item novo que realmente vale a pena substitui um item antigo que ou não agradou ou nunca foi sequer apreciado. Dou os livros, discos e DVDs a parentes, a amigos, a centros comunitários. Assim, escritores, músicos e cineastas estarão a salvo de um limbo pior que a morte física. E eu, a salvo de ficar emparedado por Edgar Allan Poe e Jorge Luiz Borges.
Foi o escritor argentino - na minha opinião, o mais completo do século que passou - quem estabeleceu bibliotecas e similares como metáforas privilegiadas da existência humana. São coleções que a gente constrói, nas quais acumula objetos, fatos e lembranças. Na vida, como nelas, as coisas ruins vão para a fileira de trás, longe dos olhos e do coração. Aceitar que as estantes são finitas é aceitar, serenamente, que a vida também é."
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A New Forum (Blogging) Inspires the Old (Books)No New York Times de ontem:
"Like many aspiring authors, Marrit Ingman had a tough time convincing publishers that her big book idea - a wry, downbeat memoir of postpartum depression - could sell.
"I had to convince the publisher that an audience for the topic really did exist," said Ms. Ingman, a Texas-based freelance journalist. "The big publishers kept telling us that mothers only wanted prescriptive or 'positive' books about being a parent."
But Ms. Ingman had her own persuader: her Web log. She'd been writing it for two years and had attracted a following of mothers.
"I turned to readers of my blog," she said. "I asked them to comment on whether a book like mine would be relevant to them. Readers wrote back expressing why they wanted to read about the experience of maternal anger. I stuck their comments into my proposal as pulled quotes."
Her readers were convincing. She and her agent, Jim Hornfischer, sold her memoir, "Inconsolable," to Seal Press in August, she said. "The blog showed publishers she was committed to the subject matter and already had an audience," Mr. Hornfischer said.
Bloggers have their own Web sites, on which they write frequently updated posts, almost like online diaries. The postings are about current events, culture, technology or their own lives. Many of their postings contain links to relevant sites.
During the last year many Web logs, or blogs, have focused on the war in Iraq and the presidential campaign, and as these blogs gained a wider audience some publishers started paying attention to them. Sometimes publishers are interested in publishing elements of the blogs in book form; mostly they simply enjoy the blogger's writing and want to publish a novel or nonfiction book by the blogger, usually on a topic unrelated to the blog.
One of the first to make the transition was Baghdad blogger known as Salam Pax, who wrote an online war diary from Iraq. Last year Grove Press published a collection of his work, "Salam Pax: The Clandestine Diary of an Ordinary Iraqi."
In June a former Senate aide, Jessica Cutler, whose blog documenting her sexual exploits with politicos dominated Capitol gossip in the spring, sold a Washington-focused novel to Hyperion for an advance well into six figures, said Kelly Notaras of Hyperion.
Meanwhile, a British call girl with the pseudonym Belle de Jour, who had created a sensation with a blog about her experiences, has signed a six-figure deal with Warner Books to publish a memoir, said Amy Einhorn, executive editor at Warner Books who bought the book.
Ms. Einhorn said that after she heard about the blog, "I downloaded the whole site, read it that night and then bought the book."
In October Ana Marie Cox, editor of wonkette.com, a racy, often wry Washington-based blog, sold her first novel, "Dog Days," a comic tale with a political context, to Riverhead Books. She said she received a $275,000 advance.
Lesser-known bloggers are also peddling books. Julie Powell, a Queens secretary who blogged about trying to make every recipe in Julia Child's "Mastering the Art of French Cooking (Volume 1)" during the course of a year, signed with Little, Brown to write about the experience..
Gordon Atkinson, a minister and blogger known as Real Live Preacher, published a collection of his work this fall with Eerdmans Publishing Company, a leader in religious books.
An editor "found my blog only three weeks after I started it and asked if I was interested in doing a book," he said, adding, "I was so surprised I thought he was my friend Larry playing a joke on me."
All this has begun to stimulate even more interest among editors and agents. For instance, Kate Lee, an assistant at International Creative Management talent agency in New York, has become a kind of one-woman blog boutique, surfing for the best writers online and suggesting they work with her to develop and sell a book.
"Initially, I was just e-mailing," she said, "and I'd get an e-mail from people saying 'so-and-so said I should contact you,' and I became friendly with this circle of blogger pundits."
Ms. Lee now represents Elizabeth Spiers, who founded Gawker.com, the media- and entertainment-oriented blog, and is now writing a satirical novel about Wall Street. Ms. Lee also represents, among others, Glenn Reynolds, a University of Tennessee law professor and political blogger known as Instapundit.
Several factors make bloggers' books attractive to agents and editors. "Word-of-mouth buzz is much more valuable than paid advertising," Ms. Lee said. "I think if there's a reason people come to your site, there's a built-in audience."
Publishers were always happy to have authors who already have a platform, said Mr. Hornfischer, who also has started contacting other bloggers he enjoys. That built-in blog audience is growing; because the Web has no boundaries, it is international. The Perseus Development Corporation, a research-and-development firm that studies online trends, estimates there will be roughly 10 million hosted Web logs by the end of the year. Nearly 90 percent of blogs, Perseus says, are created by people under 30.
"The moment we did the deal" for Belle de Jour's book, said Patrick Walsh, a literary agent who sold Belle's book in Britain, "I got calls from a Portuguese publisher - they were big fans of her blog in Portugal," and wanted the rights.
Charlotte Abbott, the books news editor at Publishers Weekly, cited the hipness factor. "It's still got a sexy quotient from media feature coverage, in part because it's a new medium, and writers are still testing its limits," she said.
Not everyone, though, is convinced that bloggers' skills translate to longer-form books. "The style of blog writing is more oriented towards short form one page, set in the moment," said Scott Rettberg, an assistant professor of new media studies at the Richard Stockton College of New Jersey in Pomona. "The sense of immediacy is quite important in blogs."
Even bloggers who have sold books agree that there is one topic they would not focus on in the longer-form novel: blogging. "I don't know how interesting a book just about the blogosphere would be," Ms. Cox said. "It'd just be people sitting in front of their computers."
Ms. Spiers summed up the general feeling: "There are no bloggers in my novel. None.""
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Cartão de VisitasMinha amigona, a artista plástica Isabel Löfgren, criou um cartão de visitas para o LLL. Estréio amanhã, na micareta literária. Achei que ficou lindo.

Thursday, December 16, 2004
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Sexta-Feira, 17 de DezembroTem dias que dá cansaço só de imaginar. Das 9hs às 13hs, vou estar fazendo o TOEFL, no IBEU de Copacabana. Fiz algumas simulações na Internet, acertei quase tudo, vai ser moleza. Salgado foi o preço: R$400. E o GMAT, semana que vem, foi outros R$400.
Depois, às 14hs, em Jacarepaguá, tem confraternização do curso de inglês onde trabalho, com direito a amigo oculto e dinâmicas de grupo. Acabando à reunião, tenho que ir correndo pra Universidade Estácio de Sá, Campus Tom Jobim, na Barra, para encontrar um dos meus professores do mestrado em Jornalismo Cultural, que vai me escrever uma carta de recomendação.
De lá, vou para a PUC, na Gávea, tentar passar um papo na bibliotecária e levar pra casa os Mia Couto e Lobo Antunes pra ler no recesso de fim de ano - como contei aqui.
Finalmente, vai ter micareta literária na Rua Dias Ferreira, no Leblon, com lançamento da Coleção Compacto das Edições K (ver flyer ao lado). Quem quiser se encontrar comigo é só combinar.
E, como a vida não pára, sábado, 8 da manhã, eu tenho que estar na sala de aula feliz e bem-disposto.
QUEM QUER ME ENCONTRAR NA MICARETA?
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Os 50%Era uma vez um blogueiro que postou: "5o% dos meus leitores são renitentes idiotas." Protestos generalizados. Carapuças são vestidas por todo o país. Camponeses sobem o morro com tochas acesas na mão. Assustado, o blogueiro se retrata: "50% dos meus leitores NÃO são renitentes idiotas." E reina a paz na nação.
Eu amo vocês. Todos. Amo mesmo. Por não terem medo de se expor, por darem sua opinião, por brigarem, por responderem. Por caírem nos meus truques, e também por não caírem. Por errarem, por admitirem e por voltarem, quase hipnotizados, dia após dia, me amando ou me odiando.
Ontem esse blog teve 80 comentários. Certo estava o Mauro quando disse que isso aqui é um blog de comentários. Eu só proponho assuntos. Quem faz o blog são vocês.
Eu agradeço.
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Clara dos Anjos foi um dos primeiros romances planejados por Lima Barreto. Seria um enorme épico sobre a escravidão, desenvolvido ao longo de várias gerações. Acabou sendo finalizado somente no último ano de vida do autor, como uma novela curta muito criticada.
A personagem-título é uma mulata pobre e sonhadora, excessivamente protegida pela mãe zelosa, e despreparada para os desafios da vida suburbana. Ela acaba sendo deflorada e abandonada por um rapaz inescrupuloso. Branco, claro.
Até aí, nada de mais. Esse é basicamente, também, o enredo de Fortunata y Jacinta, obra-prima de Benito Perez Galdós e um dos melhores romances de todos os tempos - e, certamente, o ápice do tradicional romance realista europeu do século XIX. A única diferença é que a moça pobre de Galdós é tão branca quanto seu explorador.
 E enquanto Galdós utiliza esse gancho para nos levar a um épico tour-de-force pela Madri da Restauração, Lima Barreto faz um romance naturalista.
Não entendo bem os acadêmicos e críticos literários, essas pessoas que rotulam e classificam livros.
Muitos manuais, por exemplo, classificam Lima Barreto de Pré-Modernista.
Definir algo em função do passado já não é muito inteligente. Odeio termos como ex-mulher. Não acho que faça sentido se referir a alguém pelo que ela deixou de ser. A Di eu chamo de primeira esposa, o que ela sempre será, independente de eu ter a insensatez de casar de novo ou não. Apesar de tudo, o uso comum já tornou essa prática nefanda mais aceitável.
Por outro lado, pode haver maior trapaça intelectual do que criar um rótulo em função de algo que ainda não aconteceu?
 Imaginem que acontecerá um evento incrivelmente importante em 2050 chamado de Bablibló, algo que irá simplesmente definir o milênio. Imaginem que toda a nossa geração fique sendo conhecida como Pré-Bablibliana. Imaginem que tudo o que vimos e fizemos seja compreendido em função de um evento que nem testemunhamos.
Pois bem, sem tirar nem por, esse é o grau de imbecilidade de chamar alguém de Pré-Modernista.
( As Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos, um dos maiores livros de todos os tempos, também é constantemente analisado, entendido e interpretado tendo como pano de fundo a Revolução Francesa, que só aconteceria 30 anos depois. É como julgar Grande Sertão Veredas em função da queda do Muro de Berlim. Um desrespeito.)
 Já Aluísio de Azevedo é considerado um Naturalista, discípulo de Zola, escritor de romances de tese.
Eu diria que O Cortiço é o ápice do romance brasileiro do século XIX se O Cortiço não fosse o ÚNICO romance brasileiro do século XIX  minimamente legível. Os outros têm até algum interesse histórico, são belas crônicas de época, divertidos de ler, etc, mas Literatura mesmo eu só vejo em O Cortiço - e, sim, estou lembrando de Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Voltemos aos rótulos. Eu quero que alguém me explique a diferença entre Naturalismo e Pré-Modernismo. Usemos dois exemplos. Quais são as diferenças de estilo, lógica interna, tema, etc etc, entre O Mulato (1881), de Azevedo, e Clara dos Anjos, (1922), de Lima Barreto, separados por um longo fosso de quarenta anos?
Aliás, o próprio Lima Barreto também era discípulo de Zola e sua intenção inicial era fazer de Clara dos Anjos um " Germinal negro".
Eu até gosto de ambos os romances, mas, se estão enquadrados em rótulos diferentes, então, desculpem minha ignorância, não entendi a classificação.
O Natal está chegando. O 13º também. Sejam bonzinhos. Dêem um presente ao seu blogueiro preferido e retribuam toda a diversão que lhes proporcionei ao longo de 2004. Se não, pelo menos se presenteem: comprem alguma coisa no Submarino clicando nos links acima e eu ganho 8%. E que deus lhe abençoe.
Lista de Presentes do Liberal Libertário Libertino
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Eu Sei que Ele Gosta de Aparecer Aqui, Mas Eu Não Resisto"211 livros?! Essa foi boa! Agora me diga sinceramente: eram livros ou revistas em quadrinhos? Se for a segunda opção, e creio que seja, qualquer infante de 08 ou 10 anos consegue realizar este feito em dois meses e com os pés nas costas. Quando critiquei a quantidade de livros lidos, me referia a obras literárias mesmo, não a entretenimentos pueris. Pare de tentar demonstrar um aparato intelectual que você não tem e seja mais humilde. É foda lidar com mendazes! Obs: se não souber o significado desta última palavra, não tenha vergonha de consultar o dicionário."
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Essas Malvadas Vilãs e os Homens que Lambem Suas BotasComo bom pedólatra que sou, amo especialmente as vilãs que usam seus pés para humilhar ainda mais o herói. Por exemplo, reparem nos balões das imagens abaixo, eles são os melhores.
Na primeira, Tetra, uma vilã menor das histórias do Conan, depois de dominar e quebrar o espírito de um rei perverso, tinha prazer em fazê-lo beijar suas botas enquanto sonhava o que faria com Conan quando o pegasse. Infelizmente, nunca pegou. Raios!
Quem é campeão de ser humilhado por belas vilãs é o Super-Homem. As duas imagens abaixo estão entre as minhas preferidas de todos os tempos, não só pelo desenho, mas pelo texto e pela pedolatria explícita.
Na primeira, a vilã Safira Estrela está dizendo: "Eu ordeno que beije minha bota, Super-Homem! Deixe o mundo inteiro ver que você virou meu escravo!"
Na segunda, em seu melhor momento, Cythonna, a perversa deusa do gelo modelada por Stacy Walker, está dizendo:
"Não brinque comigo, cachorro! Pro chão! Pro chão! De joelhos diante de sua senhora! Por ter tentado me enganar, você vai rastejar aos meus pés! Eu vou rasgar sua alma em pedaços... até que você implore pela morte!"
É ou não é uma pessoa maravilhosa? Quem não gostaria de apresentar uma namorada dessas pra mãe?
Leia o Elogio às Malvadas.
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Modelo de QuadrinhosStacy Walker tem uma profissão interessante: ela é modelo de quadrinhos. Muitas das mulheres mais gostosas dos gibis têm, na verdade, o corpo da Stacy, inclusive duas de minhas supervilãs favoritas: Cythonna e Hera Venenosa.
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A Perversa CythonnaStacy Walker, modelo de quadrinhos, interpreta a malvada deusa do gelo, Cythonna:
"In 1999, she began a series of projects with the mighty Brothers Hildebrandt, Greg and Tim. Like Vallejo, the Hildebrandts are considered to be amongst the top illustrators in the world of fantasy art. The brothers cast Stacy as the new evil nemesis to take on Superman in a spectacular graphic novel for DC Comics. The ice goddess Cythonna made her debut in the June '99 release Superman: Last God of Krypton. They then signed on to paint Stacy's fifth cover for Heavy Metal Magazine. An eye-popping futuristic creation with a doomsday message. The cover made its debut on the March 2000 issue with an overwhelming response from readers. Since they began working together, the two veteran artists have come to learn a great deal about Stacy E. Walker. "Some of her concepts sound fantastic. She has a great imagination, and that's more important than knowledge- ask Einstein." Greg praises her conceptualizing ability, and raves that "she's got a great sense of humor". Tim adds, "She did a villainess very well, because she's extremely professional, and gives us exactly the poses that we need. she's very acrobatic." To be a villainess one needs to be able to become quite animated. "We had her get more extreme with her looks, and she didn't hold back" adds Greg."
Wednesday, December 15, 2004
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Gilberto FreyreGilberto Freyre (1900-1987) é, com certeza, o maior estudioso do nosso país. Se for ler somente um livro sobre Brasil, leia Casa Grande & Senzala. Se for ler dois, leia Sobrados e Mucambos.
O Valor da Obra
Casa Grande & Senzala talvez seja a obra mais genial já escrita em nossa língua. Ela atinge picos de maestria, insight e pura delícia que são impossíveis de descrever. Uma nação que tenha alguém do calibre de Gilberto Freyre para explicá-la para si mesma poderia se dar por satisfeita na busca de sua identidade nacional. Tudo o que você quiser saber sobre o caráter do povo brasileiro está lá: e nada mais.
Algo em Comum
Tínhamos algo em comum. Ele também foi educado em Escola Americana, mas preferiu ir fazer faculdade fora. Nunca largou o Brasil, entretanto.
Gilberto, o Reacionário
Politicamente, Gilberto era conservador de fazer dó. O homem se auto-exilou no exterior em repúdio à Revolução de 30! Apoiou todas as ditaduras que viu pela frente, de Salazar à Castelo. Enfim, quem não se engana de vez em quando?
Uma das coisas mais divertidas da bibliografia sobre Casa Grande & Senzala são as reações histéricas e descompensadas da esquerda às teorias gilbertianas.
Durante a ditadura, enquanto os militares babavam o ovo de Gilberto e ele, o deles, o establishment acadêmico, tradicionalmente dominado pela esquerda, boicotou o livro o quanto pôde.
Não foi fácil: Casa Grande & Senzala é magistral demais para sumir por pirraça política. Depois do fim da ditadura e da morte de Gilberto, o livro começou a ser avaliada de forma mais imparcial.
O Primeiro Historiador das Mentalidades
Gilberto inventou a história dos costumes, da vida privada. Em uma época em que ainda só se escreviam anais dos grandes acontecimentos (1930), Casa Grande & Senzala utilizava diários, brinquedos, anúncios de jornal, e o que mais caísse nas mãos de Gilberto, para narrar o dia-a-dia do Brasil colonial.
Gilberto, o Racista
Basicamento, sua obra canta as glórias da colonização portuguesa e da miscigenação racial. Segundo ele, o português foi um excelente colonizador e a miscigenação racial, algo extremamente positivo. Se hoje ainda tem gente desejando que tivéssemos sido colonizados pelos holandeses, imaginem como isso tudo não soou revolucionário e iconoclasta em 1930.
Como o próprio conceito de "elogiar" alguma coisa é anátema à pesquisa acadêmica marxista, o livro foi e é xingado até hoje. Inclusive de racista, a maior injustiça de todas. Gilberto era conservador e reacionário, mas racista, nunca.
Foi ele que, pela primeira vez, trouxe negros e mulatos ao primeiro plano da história do Brasil.
Divina Trilogia
A divina trilogia de Gilberto Freyre é composta de Casa Grande & Senzala (Brasil Colonial), Sobrados e Mucambos (século XIX) e Ordem e Progresso (século XX). O mítico e legendário quarto volume, Jazigos e Covas Rasas, jamais foi escrito mas, borgianamente, seu título já é tão genial que é quase uma obra em si.
Eu só li os dois primeiros, que recomendo com todas as minhas forças. Na verdade, sua unicidade em tema, escopo e estilo é tamanha que parecem um livro só, dividido em dois.
O terceiro, Ordem e Progresso, está na minha fila há anos. Estou louco para lê-lo, e ao mesmo tempo, tenho medo de ler e, depois, não tê-lo mais pra ler. Acho que só leitores contumazes entendem essa sensação.
O Sexo!
Não há obras acadêmicas mais indolentemente impregnada de sexualidade do que as de Gilberto. Reparem no seguinte trecho de Sobrados e Mucambos:
"Nos banhos mornos ou quentes em que as iaiás mais lânguidas deixavam orientalmente que as mãos das mucamas não só as despissem e vestissem, descalçassem e calçassem, despenteassem e penteassem, como lhes esfregassem o corpo, o ensaboassem, o untassem de essências de jasmim, o enxugassem com toalhas finas e lhes lavassem e secassem o cabelo solto, é que, ao caráter de "festas de preguiça" (que teriam essas abluções como outros ritos da vida das mulheres senhoris da era patriarcal e escravocrática), talvez juntassem, menos inconscientemente do que os prazeres do cafuné, aproximações de luxúria lésbica."
Meu sangue esquenta só de ler isso. A linguagem é poética; seu ritmo, ao mesmo tempo lânguido e sexy. Gilberto era pura literatura.
Sua influência em mim é tão grande que incluí um parágrafo em sua homenagem em meu romance Mulher de Um Homem Só. Vejam se consegui captar o ritmo sexy e indolente do mestre:
"Lá do nosso jeito, a gente se entendia, e conversávamos muito, falávamos de Murilo, novela, política e fofocas em geral. Outras vezes, nem trocávamos palavra, e era assim que eu mais apreciava Júlia. Ela adorava mexer no meu cabelo, me pentear longamente, languidamente, lentamente, e eu gostava, me entregava, me prostrava, ficávamos no sofá da sala, ou até na rede mesmo, eu deitada sobre o colo de Júlia, sentindo a escova repuxar os cabelos, sentindo as pontas dos dedos massageando o couro cabeludo, sentindo aquela coceirinha marota nas raízes do cabelo, sempre naquela faina infindável, deliciosa, pachorrenta, úmida de tão boa, eu tenho cabelos longos, nunca cortei, vão até a cintura, e Júlia mastigava inveja, degustava mexer em meu cabelo, ajeitar, pentear e cheirar, e cuidadosamente enrolar em seus dedos e mãos e depois deixar desenrolar macio, e assim ficávamos as duas, horas, eu grávida e Júlia ali, puxando e repuxando, penteando e despenteando, depois, Raquel nascida, colocávamos o berço na sala e tudo continuava igual, eu dormia sentindo os dedos de Júlia em meus cabelos, acordava e ela ainda estava lá, e então, eu dormia de novo, e era tão bom, porque não havia palavras, não havia Murilo, não havia inconseqüência, não havia arte, não havia nada, só aquele momento, só nós duas, só aquele contato, e eu quase achava, eu me pegava imaginando que Júlia era minha amiga, uma daquelas amigonas de infância, companheira pro que descesse e subisse, sempre comigo, e assim eu me despejava naquele toque, me sumia naquele carinho, me desenganava naquele afago."
Gilberto Freyre com R$56 de Desconto!
O Submarino está vendendo as novas edições críticas de Casa Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso, recém-editadas pela Global, com um desconto de R$56. O preço é salgado mas, confiem em mim, são livros indispensáveis para qualquer um que queira entender minimamente o Brasil.
E, se você comprar clicando nos links desse post, eu ainda ganho 8% e você me ajuda a manter esse blog.
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Proteger a Língua É Dever do EstadoOpinião inteligente e articulada do Unabomber:
"Eu ja viajei pelo mundo um bom bocado, já estudei um outro bom bocado e já li muitos e muitos outros bons bocados, entao tenho uma forma mais particular de enxergar essa questao, e q é compartilhada por uma porrada de gente q estuda linguistica e se interessa por idiomas e política de um modo geral e amplo.
Se o governo não for capaz de preservar pelo menos a identidade de seu próprio idioma, em alguns séculos vamos ter uns 30 dialetos diferentes espalhados pelo país e dentro de alguns séculos talvez tenhamos uma ruptura na unidade federativa, com 30 picos querendo independência, por motivos particulares, fundamentados em lógicas particulares e apoiados por uma divisão idiomática. Isso acontece em vários lugares do mundo hoje em dia.
O chines de taiwan não é o mesmo de pequim, são diferentes ao ponto de serem incompreensiveis um ao outro em muitos , mas MUITOS momentos mesmo. No afeganistao o povo sempre se matou geral simplesmente pq cada etnia mantem sua cultura -- e lingua -- proprias. Qdo a India se separou do Paquistao, a primeira medida foi estabelecerem alfabetos para seus idiomas: paquistaneses usam o alfabeto arabe, lingua sagrada do islam, enqto indianos se valem do devanagari, alfabeto sanscrito e tb sagrado, e embora a forma falado dos DOIS idiomas seja denominada hindustani, chamamos o idioma do paquistao de urdu e o da india de hindi. E acreditem, eles estao se afastando rapido, ja estao mais distantes hj do q eram antes da separaçao, se é q o foram nesse momento (me refiro aos 2 idiomas oficiais citados, uma vez q essa regiao é a regiao do mundo conhecida por possuir mais dialetos diferentes falados). Além disso, pelo mundo td, idiomas morrem tds os dias.
A língua, obviamente, evolui, cada um escreve como quiser, mas há de existir um conjunto claro de normas cultas a serem obedecidos pelas publicações oficiais do Estado. Esqueçam escritores, poetas, jovens, esqueçam o povo, seja ele elite cultural ou punks de boutique, a questão é estatal. O Estado tem o DEVER de preservar seu idioma. Idioma é como bandeira. Observem qtas o afeganistao teve no ultimo seculo e descubram qdo cada uma entrou em vigor. Depois lembrem-se do q é o afeganistao (esqueçam a palhaçada do bush, o buraco lá sempre foi mais pra baixo). Isso ajuda a entender oq estou dizendo.
O latim não é idioma morto pq o Vaticano o mantém como idioma oficial até hoje, com regras q muita gente estudou na escola nao faz tempo e estuda ate hj. O hebraico, já fora de moda na época de Cristo, suplantado pelo poder do aramaico, voltou ao status de idioma vivo com a criação de Israel, que teve, por exemplo, a preocupaçao de adotar a forma asquenazi de se falar. A melhor gramática de Tupi q existe ainda é a escrita por Anchieta, identificamos vocábulos de origem tupi pela maneira como são grafados em português, conforme convenções oficiais. Os gregos criaram métodos de ensino sistemático da língua apenas para ensiná-la aos povos conquistados e seguimos essas regras até agora qdo estudamos qq idioma novo.
Se a questão é "não" aos estrangeirismos, estamos face a um problema mundial criado pelas barreiras construídas no âmago do pensamento de cada povo. Quem se der ao trabalho de estudar pelo menos 10 ou 12 idiomas de diferentes troncos lingüísticos vai entender isso muito bem... Russos, por explo, não possuem um verbo q expresse o conceito de posse permanente e a palavra para expressar negociação vem do inglês (nos soa algo como BÍZNES). Imaginem os russos sem entender a ideia de Business no mundo de hj. Imaginem o hebraico, milenar idioma hamito-semítico, precisando expressar a idéia simples de "computador" (para isso usam o equivalente ao termo "pensamento"). O páli, a exemplo do sanscrito, classifica mulher e vagina como palavras masculinas, embora possua 3 generose deixe claro q palavras q denotem femeas, sao femininas (!!!). Japoneses atribuem niveis de polidez aos verbos, utilizam um alfabeto apenas para grafar palavras de origem estrangeiras, coreanos atribuem "sufixos" para definir qdo qq animal é, por explo um pássaro, ou qq acidente geográfico é por explo montanha, entre muitos, muitos outros casos. Aliás, qdo o rei sejong criou o alfabeto coreano, o fez para impedir q o chines lhe conquistasse ou tranformasse os fonemas. Ele o fez para eternizar os sons do coreano. Certas tribos indígenas simplesmente concebem numerações em escalas totalmente diferentes das q conhecemos ou podemos imaginar. Um povo inserido num mundo globalizado, q se fecha a estrangeirismos corre o risco de simplesmente não ser capaz de se comunicar. É preciso, no entanto, criar regras para essa assimilação, senao vira zona. E essa regra deve ser universal dentro dessa unidade social.
O problema não é simples, nao é uma questao de "democracia e direitos", e sim de "responsabilidades e deveres", exige um debate bem mais amplo e complexo, mas a conclusão final será invariavelmente a mesma: regras e normas, são, um mal necessário, só não aceita isso quem não quer..." A opinião do Unabomber mereceu o holofote. Ela é inteligente e articulada e seu blog faz falta. Entretanto, confesso, eu realmente sou daqueles que não aceitam isso porque não querem, acho que ele está errado do começo ao fim. Não reconheço ao Estado o direito de legislar as palavras que uso e não acho que a influência de palavras estrangeiras ameaça a integridade seja dos idiomas ou dos estados nacionais.
Minha razões vocês encontram expostas aqui: Em Defesa da Língua Portuguesa.
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Dúvida CruelEu não sei se amo mais meus leitores estúpidos ou meus leitores inteligentes.
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Jogo de EspelhoSobre esse post, comentou o Marcus:
"Não concordo com essa de responder comment com post."
E eu também não concordo com essa de comentários que criticam posts que respondem comentários, mas você não está me vendo reclamar, está?
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Saldão de CDs com 80% de DescontoCompre presentes para todos os seus parentes chatos em um lugar só e pague uma merreca!
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BagagemComentário da leitora Normanda:
"Por falar em palavras, tem um erro de digitação na frase lá de cima: "Kakfa"...
Desculpe, mas achei que para você faria diferença. É que nem alface no dente, né? Alguém tem que avisar."
Olha, Normanda, sério mesmo, tenha santa paciencia, viu? Eu não sei o que é pior: você não conhecer o Kakfa, esse jordaniano sensacional que quase levou o Nobel de Literatura em 2001, ou você ainda ter a pachorra de vir me corrigir! Sinceramente!
Antes de que querer se arvorar a corrigir os outros, vá ler mais um pouco, adquira alguma bagagem, mergulhe em Shapeskeare, Samarago, Dosvoietski, Tazinaki, e depois a gente conversa!
Arre!
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Inexplicável Esquecimento (Lima Barreto, 4)O pouco apego que as pessoas têm às palavras sempre me desespera. Ainda mais quando vêm de pessoas que vivem das palavras.
 Uma de minhas edições conta com um longo prefácio de Francisco de Assis Barbosa, biográfo de Lima Barreto. Ele conta todos os preconceitos que o autor sofreu por sua cor, todos os inimigos que fez ao publicar Recordações do Escrivão Isaías Caminha, toda a sua intransigência de artista inconformado.
Vinte páginas depois, Assis Barbosa comenta: depois de sua morte, Lima Barreto "cai em inexplicável esquecimento."
Essa única palavra me fez querer dar bofetadas no autor: "Inexplicável como, animal? Você não está justamente há 20 páginas explicando isso exaustivamente, narrando cada porta que bateram na cara dele, cada inimigo que fez, cada mesquinharia que sofreu? Como é que é inexplicável? Ou será que você já esqueceu tudo o que acabou de escrever?"
Eu sei, é birra de autor chato. Mas custava ter escrito, por exemplo, "imperdoável esquecimento"?
O Natal está chegando. O 13º também. Sejam bonzinhos. Dêem um presente ao seu blogueiro preferido e retribuam toda a diversão que lhes proporcionei ao longo de 2004. Se não, pelo menos se presenteem: comprem alguma coisa no Submarino clicando nos links acima e eu ganho 8%. E que deus lhe abençoe.
Lista de Presentes do Liberal Libertário Libertino
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Policiando o Português da PatuléiaO Idelber, do Biscoito Fino e a Massa, está lançando uma campanha contra a proposta insana do Deputado Aldo Rebelo de policiar a língua portuguesa. Leiam os posts do Idelber sobre o assunto, vale a pena.
Minha opinião sobre o assunto já está dada no meu artigo Em Defesa da Língua Portuguesa, um dos mais polêmicos desse blog.
Entretanto, lá no blog do Idelber, o meu amigo e genial blogueiro Rafael Galvão, fez o seguinte comentário:
"Idelber, eu já debochei muito desse projeto, pelos motivos que você destrinchou aí. Mas hoje acho que há alguns aspectos positivos nela. Parece que a lei se restringe ao uso de palavras pelos órgãos públicos. E aí eu acho que têm razão: porque em algum lugar -- e deve ser no aparato do Estado -- um limite deve ser estabelecido. Deixe-se que a língua evolua, absorva novas palavras, mas em algum lugar esse uso deve ser contemporizado. Do contrário estaremos todos falando printar logo, logo. De qualquer forma, eu nunca li o projeto. :)"
Estamos todos falando ao léu, porque eu também não li o projeto, mas tenho duas questões de princípios a fazer:
Proibir o Ridículo
Eu também acho que usar printar ao invés de imprimir, deletar ao invés de excluir, etc, é algo sumamente ridículo, mas e daí? Se o Estado for proibir coisas ridículas, eu tenho uma lista de outras bem piores do que usar delivery ao invés de entrega.
Mas é um caminho perigoso. Eu (e o Rafael) podemos achar deletar ridículo, mas a palavra está em uso pois existem milhões de pessoas que não acham e a usam correntemente. E se elas, hmmm, forem querer também achar ridículas algumas das palavras que EU uso?
Proibir Por Um Bom Motivo
Sou liberal. Acredito que o Estado deve manter seu grande nariz longe da minha vida - e, de preferência, da dos outros também. Criar mais uma lei restringindo ainda mais uma vez a liberdade dos pobres dos cidadãos só se justifica se houver uma excelente e indiscutível razão.
E, vamos lá, pode ser até ridículo que funcionários públicos usem a palavra printar, mas qual é *exatamente* o problema? A quem isso prejudica na prática? Qual é o prejuízo concreto que essa lei procura evitar? De que modo o custo de criar uma nova lei (e não digo apenas o considerável custo financeiro) será compensado pelo tal prejuízo concreto que ela pretensamente previnirá?
Resumindo: é democrático proibir o ridículo? E com qual justificativa?
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Belas NazistasMeus leitores judeus que me perdoem, mas pra quem ama mulheres más, essas loiras nazistas são o máximo.
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Nova versão para o cinema de O Mercador de Veneza traz de volta uma velha discussão.
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Histórias de Mulheres e HomensOpiniões da leitora Carmen sobre o meu romance, Mulher de Um Homem Só:
"Impressionante como você conhece as mulheres: as histéricas, espaçosas, ciumentas, invejosas, compassivas, maternais... e tudo de bom e de ruim que podemos ser. E você (que incrível isso!) conseguiu falar bem da impressão que temos dos homens. Sim, porque o Murilo tal como foi descrito não é o Murilo de fato, mas a visão que uma mulher apaixonada e enciumada teria dele: superprofissional, inteligente, arguto em alguns momentos, mas totalmente tapado e ingênuo em outros. Perfeito!
Entretanto eu torcia o tempo todo para o Murilo dar um chega-pra-lá na Júlia, ou a Júlia sumir espontaneamente da vida deles, ou morrer... até que me toquei que cabia à Carla retomar seu espaço em sua própria vida. Na verdade me identifiquei com ela, com esse sentimento de estar sendo usada, invadida, expropriada... mas, ao mesmo tempo, me identificava com a Júlia: infantil, tresloucada, passional, intensa, invasiva. Pensei até que já fui a Júlia de um casal que conheço. E isso tudo mexeu muito comigo, porque (mesmo que você não tenha tido a intenção ao escrever) É MUITO REAL!
Dificilmente uma mulher lerá esse romance e não se identificará com as mulheres apresentadas e não lembrará de um ou mais momentos em que seu marido ou namorado foi um perfeito Murilo. Impossível sair incólume da leitura do seu romance. É um tapa na cara de qualquer mulher, com suas infantilidades, mesquinhez, inseguranças, devoção exagerada aos homens. Elas (mulheres do seu romance), como nós (mulheres reais) , elegeram os homens como a razão da sua existência. Você foi primoroso, sensível e muito perspicaz ao captar isso e nos devolver.
Quanto à linguagem: adorei, dei risadas, me encantei com as palavras bem escolhidas, às vezes debochadas. Noutras palavras, a forma esteve à altura do conteúdo. Entretanto tudo (de bom) que lemos deixa um rastro na gente. Eu estou pensando muito sobre a forma como a Carla foi deixando a Júlia invadir a vida dela dessa forma, como em nome de estar bem com o Murilo ela abriu mão do direito ao privado.
Não estou dizendo que ela deveria se resguardar de compartilhar o Murilo com a Júlia. Ele não é objeto e tem direito de escolher pra sua vida o que quiser. Mas ela foi omissa ao se alijar do direito à intimidade com sua filha, à autoridade sobre ela... algumas experiências são pra ser vividas em família.
Talvez ela tivesse que resguardar o seu espaço, pois os papéis dela e de Júlia se confundiram em vários momentos. Me senti imbecil por ver que faço o mesmo às vezes, deixo de ocupar um espaço que é meu por atribuir primazia aos homens ou a um relacionamento amoroso. Esse é um problema de quem não é dono de si. Não era Murilo que deveria afastar Júlia e nem Júlia faria isso naturalmente... a Carla é que tinha de ser mais dona de si, de seu desejo, de seu espaço (nunca de seu marido - insisto).
Tenho certeza de que se ela colocasse limites nessa invasão da Júlia, o Murilo teria mais respeito por ela (cena patética aquela em que Murilo massageia os pés da Júlia na frente da Carla - a que ponto a coisa pode chegar, hein?).
Já a Júlia, não consigo pensar o que ela poderia fazer para se tornar adulta. Talvez matar o Murilo que, com essa superproteção, não a ajudava em nada. Acho que ele precisava disso, dessa dependência da Júlia, pra se sentir amado ou simplesmente útil. Mas isso aí já é viagem minha.*
Aliás, bom mesmo é se entregar ao riso, à raiva, à indignação, ao ciúme, à tristesa, à autocrítica... e tudo o mais que seu romance pode oferecer. Infelizmente ainda não tenho nada pra falar mal, talvez depois de mais uma leitura eu consiga ver algum problema.
No mais, foi uma experiência única essa leitura! Sucesso em sua carreira de escritor! Você é muito bom, moço! Abraço de Carmencita
* Falo dessas possibilidades para os personagens não por acreditar que seu romance deveria contê-las, mas só pra você saber o que a gente fica pensando enquanto lê e depois de terminar. A coisa estar em aberto é perfeito por isso. Essa uma bela forma de respeitar o leitor."
E você, ainda não leu Mulher de Um Homem Só? Está mais do que na hora, não?
Tuesday, December 14, 2004
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Renascimento da Palavra EscritaMeus Aluninhos no Orkut
Hoje, encontrei um aluno adolescente no Orkut. Através dele, fui topando com outros e outros. Quase todos tinham blogs, mesmo aqueles que, em sala, não querem escrever nem duas linhas.
Naturalmente, nenhum dos blogs é uma obra-prima. O português, quando não é sofrível, é inexistente: muitos escrevem nakele dialetu d gent q fala axxim.
Mas escrevem. Um parágrafo aqui, outro ali, um texto grande quando lhes acontece algo digno de nota, mas escrevem todos os dias.
Será que vocês se dão conta de como isso é extraordinário? Talvez não. Afinal, se estão lendo isso é porque são internautas razoavelmente experientes, já acostumados a manter sites, comentar em blogs, postar em listas de discussão, mandar emais - todas atividades que exigem uso intensivo da palavra escrita.
Escrever em 1992
Mas pegue na minha mão e vamos voltar no tempo. Só dez anos. Eu fiz o ensino médio entre 1989 e 1993, em uma escola de elite. Tirando eu e meia dúzia de colaboradores do jornalzinho, ninguém escrevia. Nada. Nunca. Nem os mais brilhantes e nem os mais medíocres.
Pensem bem. Além de trabalhos escolares, o que mais um adolescente de 1992 teria pra escrever? Bilhetes pra mãe, listas de compras, marcar nívers na agenda, quase nada. Necessidades fortuitas e esporádicas.
Escrever era algo totalmente alheio ao dia-a-dia mesmo do adolescente mais brilhante e articulado - quiçá dos outros.
Escrever Bem É Pensar Claro
Um dos meus alunos tinha acabado de fazer um post sobre Os Incríveis. Escreveu na lingua di kem fala axxim mas, quando você lia com cuidado, percebia que era uma opinião perceptiva e articulada, com começo, meio e fim e que levaria 10 em qualquer redação de colégio - se não estivesse escrita em outra língua.
Parece pouco, mas não é. Na minha época de ensino médio, nenhum dos meus colegas jamais parou para articular, por escrito, sua opinião sobre nenhum filme. Por que fariam isso? Pra onde mandariam?
Escrever bem não é questão de gramática ou ortografia, mas de pensar claro. Muitos dos meus alunos de inglês não conseguem escrever um composition decente sobre suas férias porque também não conseguiriam em português. Quem pensa claro e escreve bem pensará claro e escreverá bem em qualquer língua ou dialeto que escolha usar.
Escrever É Para Todos
Eu sou escritor até o último fio de cabelo. Por isso, abri esse blog. Escrever, pra mim, é trabalho e manter um blog, investimento e divulgação.
Até hoje ainda não entendi muito bem o que um não-escritor faz com um blog. Seria meio como eu abrir uma oficina mecânica para consertar carros por hobby, mas enfim.
E, por isso, me espanto mais ainda em ver alunos meus, que não têm nenhum amor pelas palavras, também mantendo blogs. Hoje em dia, escrever não é mais só para os jornalistas por vocação. Do seu jeito às vezes estranho, todos escrevem. Os futuros escritores, mas também os futuros físicos e os futuros engenheiros.
Escrever não é mais tabu. Escrever não é mais coisa de escola. Escrever não é mais difícil.
Escrever tornou-se um meio de encontrar os amigos, compartilhar novidades, farrear, zoar.
Não acho exagero afirmar que essa será a geração mais letrada dos últimos 50 anos.
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Mulher de Um Homem Só: As Páginas Perdidas (VI) A Erudição de Carla
Sou um homem erudito. Posso, em uma só respiração, citar trocentos clássicos (que realmente li!), relacioná-los com os movimentos estéticos em voga na época e ainda jogar umas palavras em latim e francês pra impressionar. Por isso, confiem em mim quando eu digo: erudição não serve pra absolutamente nada. E, na arte, só atrapalha.
Nada mais chato do que aqueles autores que esfregam sua erudição na cara dos leitores, quase sempre de modo totalmente desnecessário.
Essas arroubos de erudição até me saem muito naturalmente. Meus primeiros rascunhos são cheios deles. Quase sempre, apago todos - para minha dor, pois alguns ficam até bons, mas minha teoria da literatura não permite esses excessos.
Meu romance não é sobre mim, é sobre a Carla, o Murilo e a Júlia. Eu sou erudito, é o meu hobby, a Carla não. Na versão original, ela citava até Nietszche e Sartre. Era ridículo. Carla jamais teria lido Nietszche e Sartre.
O trecho abaixo, em itálico, foi das que mais me doeu cortar. Quase tirei a referência ao niilismo também, mas decidi deixar.
"Libeca cultivava suas enormes olheiras com um cuidado que nós, as meninas mulherzinhas, só dedicávamos aos nossos cabelos: cabelos, aliás, que Libeca tinha recado no estilo cadete do exército. Fumava maconha mas nunca sentiu onda (fingia, pra não passar vergonha), e era literata, tão literata quanto se pode ser nessa idade: adorava Dostoievski, tinha lido as Notas do Subterrâneo - carregava uma edição sempre em sua bolsa, que todo mundo da turma tinha lido e sublinhado - e, empolgada, começara Os Irmãos Karamazovi e nunca conseguiu acabar. Tinha uma idéia totalmente distorcida de Dostoievski, claro, baseada em uma amostra não-representativa, e, por isso mesmo, não terminou os Karamazovi, parecia que o autor estava traindo a si mesmo. Se tivessem lhe dito que o Dostoievski verdadeiro era o dos Karamazovi, teria ficado furiosa, gritaria heresia! Deveria ter acabado o romance. E era - ou se dizia, ou se pensava - uma rebelde, uma niilista (palavra que adorava salpicar nas conversas, pra mostrar como era sofisticada e culta), e vejam só, aos quinze anos: que aliás, pensando bem, é a única idade na qual é desculpável se imaginar niilista. Morava em um apartamento de quase mil metros quadrados em frente à praia e tinha um motorista sempre à disposição, mas, por questões ideológicas, só ia à escola de ônibus e tinha um orgulho planetário disso - por outro lado, nunca havia lhe ocorrido que, pelo mundo afora, as mulheres lavassem suas próprias calcinhas."
Por favor, não venham me dizer que esses trechos estão fracos. Ou acham que saíram do livro por estarem geniais?
Se você ainda não leu o romance, está esperando o quê?
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Lima Barreto estréia na literatura em 1909, com Recordações do Escrivão Isaías Caminha.
 Foi uma decisão consciente. Na época, seu romance Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá já estava concluído, mas era, segundo ele, uma obra bem-comportada, "cerebrina, calma, solene e pouco acessível."
Já Isaías era, segundo seu autor, "um livro desigual, propositalmente malfeito, brutal, por vezes, mas sincero sempre. Espero muito nele para escandalizar e desagradar."
Pois o livro escandalizou e desagradou muito. O personagem-título é um mulato do interior, bem-educado, refinado, literato, criado com esmero por uma família protetora e acostumado a ser uma espécie de sábio local. Viaja ao Rio em busca de qualificação, cheio de sonhos, planos e projetos, e dá de cara com a crueldade da cidade grande. No interior, Isaías era filho, culto, estudado. No Rio, é só um mulatinho qualquer.
A primeira metade do livro mostra a surra de Isaías. Um a um, todos seus sonhos e ambições são destruídos, até não restar nada de sua sensibilidade, auto-estima e orgulho próprio.
Intimado a prestar depoimento sobre um roubo em seu hotel, Isaías ouve o delegado se referir a ele como "mulatinho" e isso simplesmente desestabiliza sua frágil sensibilidade. Reparem como seu patriotismo já remete ao Major Policarpo Quaresma:
"- Já apareceu o tal "mulatinho"?
Não tenho pejo em confessar hoje que quando me ouvi tratado assim, as lágrimas me vieram aos olhos. Eu saíra do colégio, vivera sempre num ambiente artificial de consideração, de respeito, de atenções comigo; a minha sensibilidade, portanto, estava cultivada e tinha uma delicadeza extrema que se ajuntava ao meu orgulho de inteligente e estudioso, para me dar não sei que exaltada representação de mm mesmo, espécie de homem diferente do que era na realidade, ente superior e digno a quem um epíteto daqueles feria como uma bofetada. Hoje, agora, depois não sei de quantos pontapés destes e outros mais brutais, sou outro, insensível e cínico, mais forte talvez; aos meus olhos, porém, muito diminuído de mim próprio, do meu primitivo ideal, caído dos meus sonhos, sujo, imperfeito, deformado, mutilado e lodoso. Não sei a que me compare, não sei mesmo se poderia ter sido inteiriço até ao fim da vida; mas choro agora, choro hoje quando me lembro que uma palavra desprezível dessas não me torna a fazer chorar. Entretanto, isso tudo é uma questão de semântica: amanhã, dentro de um século, não terá mais significação injuriosa. Essa reflexão, porém, não me confortava naquele tempo, porque sentia na baixeza do tratamento todo o desconhecimento das minhas qualidades, o julgamento anterior da minha personalidade que não queriam ouvir, sentir e examinar. O que mais me feriu, foi que ele partisse de um funcionário, de um representante do governo, da administração que devia ter tão perfeitamente, como eu, a consciência jurídica dos meus direitos ao Brasil e como tal merecia dele um tratamento respeitoso."
Na segunda metade, já um farrapo humano, Isaías consegue emprego de boy (na época, contínuo) em um grande jornal. Um subemprego, indigno de suas capacidades e de seus sonhos, mas que ele, arrasado e derrotado, agarra com unhas e dentes:
"Eu tinha cem mil-réis por mês. Vivia satisfeito e as minhas ambições pareciam assentes. Não fora só a miséria passada que assim me fizera; fora também a ambiência hostil, a certeza de que um passo para diante me custava grandes dores, fortes humilhações, ofensas terríveis. Relembrava-me da minha vida anterior; sentia ainda muito abertos os ferimentos que aquele choque com o mundo me causara. Sem os achar, em consciência, justos, acovardava-me diante da perspectiva de novas dores e apavorei-me diante da imagem de novas torturas. Considerei-me feliz no lugar de contínuo da redação do O Globo. Eu tinha atravessado um grande braço de mar, agarrara-me a um ilhéu e não tinha coragem de nadar de novo para a terra firme que barrava o horizonte a algumas centenas de metros. Os mariscos bastavam-me e aos insetos já se me tinham feito grossa a pele... De tal maneira é forte o poder de nos iludirmos, que um ano depois cheguei a ter até orgulho da minha posição."
Até a primeira parte, a intelligentsia da época deve ter lido compungida e interessada a história do pobre mulato lutando contra o preconceito.
A segunda parte, entretanto, é uma feroz crítica à literatura e imprensa da época. Isaías, inteligente e invisível como só os empregados mais baixos são, está em posição ideal para observar toda a hipocrisia e mediocridade dos meios intelectuais da época.
Com um único livro, Lima Barreto fez inimigos entre todos os que mandavam na cultura brasileira e só foi defendido por poucas vozes periféricas, como Monteiro Lobato. Por outro lado, sua estratégia deu certo: sua estréia não teve como passar desapercebida.
Muitos (quase todos!) dos personagens da segunda parte são inspirados em pessoas reais e fez muita falta uma edição crítica que explicasse quem era quem. Apesar de irrelevante para a apreciação literária do livro, seria uma fofocada legal.
O livro termina, como todos os de Lima Barreto, em uma nota cruel de derrota e decepção. Todas as melhores intenções fracassaram, todos os sonhos ruíram, nada sobrou.
 E Isaías reflete:
"Lembrava-me da vida de minha mãe, da sua miséria, da sua pobreza, naquela casa tosca; e parecia-me também condenado a acabar assim e todos nós condenados a nunca a ultrapassar. (...) Lembrava-me de que deixara toda a minha vida ao acaso e que a não pusera ao estudo e ao trabalho de que era capaz. Sentia-me repelente, repelente de fraqueza, de falta de decisão e mais amolecido agora com o álcool e com os prazeres... Sentia-me parasita, adulando o diretor para obter dinheiro... Às minhas aspirações, àquele forte sonhar da minha mocidade e eu não tinha dado as satisfações devidas. A má vontade geral, a excomunhão dos outros tinham-me amedrontado, atemorizado, feito adormecer o Orgulho, com seu cortejo de grandeza e de força. Rebaixara-me, tendo medo de fantasmas e não obedecera ao seu império. (...)
Sentia-me sempre desgostoso por não ter tirado de mim nada de grande, de forte e ter consentido em ser um vulgar assecla e apaniguado de um outro qualquer. Tinha outros desgostos, mas esse era o principal. Por que o tinha sido? Um pouco pelos outros e um pouco por mim."
O Natal está chegando. O 13º também. Sejam bonzinhos. Dêem um presente ao seu blogueiro preferido e retribuam toda a diversão que lhes proporcionei ao longo de 2004. Se não, pelo menos se presenteem: comprem alguma coisa no Submarino clicando nos links acima e eu ganho 8%. E que deus lhe abençoe.
Lista de Presentes do Liberal Libertário Libertino
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R$20 de Desconto - Só Para MecenasConfesso que quase fiquei com essa pra mim, mas meu débito de gratidão com meus mecenas é maior. O Submarino me deu um cupom de desconto de R$20 em qualquer compra acima de R$100. Basta digitar o código durante a finalização da compra.
O primeiro mecenas que pedir leva o código. Se nenhum mecenas quiser, uso eu - comprar R$100 em livros não é nem um pouco difícil.
* * *
Em tempo: mecenas são os santos que me patrocinam, me enviando livros de presente e permitindo que eu continue aqui na minha tricheira intelectual, servindo de bobo da corte pra vocês. Meus mecenas moram no meu coração e, tudo o que eu tiver de bom, eu vou sempre dividir com eles.
Quer ser um mecenas e me ter em seu débito? Basta me enviar um livrinho da minha lista de presentes.
Monday, December 13, 2004
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Soldado americano no Iraque prefere amputar o dedo a permitir que médicos serrem sua aliança de casamento. Pior: na confusão pós-amputação, o anel sumiu, mas a mulher ainda assim está "honrada".
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"Delenda Paraguay": Os Ingleses Decidem Acabar com Nossa Maior EsperançaÉ público e notório que a Guerra do Paraguai foi tramada, instigada e financiada pelos ingleses. Agora, vieram à tona as atas da sessão do parlamento inglês em que esse crime foi tão friamente urdido.
É o primeiro capítulo do meu romance sobre a Guerra do Paraguai. Passei a tarde toda de domingo escrevendo e poucas vezes me diverti tanto.
Leia aqui (em inglês)
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A Alegria AlheiaHoje, eu fiz uma coisa da qual muito me envergonhei.
Eram 9 da manhã, eu tinha dormido pouco, já tinha saído de uma reunião e meu destino era passar o dia todo no meu cliente, trabalhando como um mouro. Nada disso é desculpa.
Estava em um daqueles bares de rua, aqui de Jacarepaguá, comendo um joelho e bebendo uma média. Havia umas outras três pessoas no balcão, uma delas um velhinho sorridente, de bigode branco e careca.
O velhinho estava muito feliz. Rindo. Brincando. Fazendo brincadeiras bobas com a atendente. Só me lembro de uma: ele pediu o açucar e ela respondeu, grosseiramente, que estava no balcão. Ele nem ligou. Começou a fazer uma pantomima de procurar alguma coisa, levou a mão como uma aba sobre a testa e olhava em volta, vendo se alguém estava olhando. Como ninguém lhe deu a menor pelota - eu baixei os olhos, para evitar contato visual - ele continuou: localizou o açucareiro atrás dos canudos e disse, bem alto: "Ahá, eu não tinha visto, estava escondido por detrás essa árvore."
Eu aproveitei para me transferir ao outro lado do balcão, bem longe dele.
Mas foi só chegar lá que bateu a culpa. Eu me senti um verme. Comecei a observá-lo com mais atenção.
Ele tentou brincar com todos. Eu gostaria de poder dizer que sua alegria era contagiante, mas não era. Para vergonha de todos nós, sua alegria era tudo menos contagiante. Era enojante. Ninguém lhe deu atenção. Ninguém reconheceu sua existência. Ninguém trocou olhares com ele. Ninguém retribuiu seu sorriso.
E ele, verdadeiro herói do bom humor, não desistiu. Seu sorriso não morreu. Falou com todos, comentou o noticíario, riu, contou piadas. Absolutamente sozinho.
Finalmente, deu bons-dias sorridentes a todos e saiu. Antes de virar à esquina, ainda falou com um vendedor de cocos. O vendedor de cocos virou a cara e ele foi embora. Inabalável.
Custava alguém ter retribuído o seu olhar? Sorrido de volta? Dado qualquer indicação de que estava ouvindo?
Nenhum de nós merecia a alegria daquele velhinho àquela hora da manhã.
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A biblioteca da PUC, meu playground particular, acabou de comprar literalmente uma pá de livros de Lobo Antunes e Mia Couto, ambos com fortes raízes na África.
O moçambicano Mia Couto é, longe, o meu escritor favorito em língua portuguesa hoje. O homem faz coisas com a nossa língua que até deus duvida. Eu tenho todos os seus livros que saíram no Brasil, e mais um outro que ele teve a gentileza de me mandar pelo correio. A PUC tem outros dois, direto de Portugal.
E estou há anos para experimentar Lobo Antunes, um português cuja obra é, em grande parte, ambientada na África. A PUC comprou sua obra completa. Vocês sabem que gosto de começar pela obra-prima. Ouvi dizer que é Os Cus dos Judas. Vocês confirmam?
 Que livro do Lobo Antunes eu leio primeiro?
* * *
Só há um pequeno problema: o santo que mandou comprar esses livros maravilhosos para a biblioteca também foi demônio ao ponto de classificá-los na Coleção Didática. Ou seja: os livros só podem sair da biblioteca na sexta, a partir de 19hs, e têm que estar de volta na segunda de manhã. Justamente para evitar que aproveitadores como eu, que nem mais alunos são, fiquem com os livros em casa por seis meses, renovando pela Internet.
Mas não tem problema não. A Biblioteca entra em recesso na sexta, dia 17, e estarei lá, no fim da tarde, para levar os livros e ficar com eles em casa até depois do ano-novo.
É o único jeito.
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 E quem diria que logo em um livro de crônicas de Lima Barreto, eu iria encontrar um terrível erro de tradução. Na crônica Mais Uma Vez, sobre esposas assassinadas por seu marido, ele escreve:
"O crime teve a repercussão que os jornais lhe deram e os arredores do necrotério estavam povoados da população daquelas paragens e das adjacências do beco da Música e da rua da Misericórdia, que o Rio de Janeiro bem conhece. No interior da morgue, era a freqüência algo diferente sem deixar de ser um pouco semelhante à do exterior, e, talvez mesmo, em substância igual, mas muito bem vestida. Isto quanto às mulheres - bem entendido! Ari ficou mais tempo a contemplar os cadáveres. Eu saí logo. Lembro-me só do da mulher que estava vestida com um corpete e tinha só a saia de baixo".
Ao lado da palavra morgue, um símbolo remetia a uma nota explicativa, ou melhor, a uma nota confunditiva, que dizia: "morgue: arrogância, orgulho."
Hmmm, deixa eu ver se eu entendi. Os arredores do necrotério estavam povoados da população daquelas paragens, mas dentro da arrogância e do orgulho, a freqüência era diferente? Alguém entendeu alguma coisa?
O editor, Fernando Paixão, está errado? Não. Como todo pecador, ele tem uma desculpa a mão: abriu o primeiro dicionário francês-português que lhe passou à frente e, lá estava, morgue como arrogância e orgulho. Se for preciso, ele mostra o dicionário para quem reclamar.
Sim, mas obviamente não é esse o significado que Lima Barreto pretendia usar. Como fica abundamente claro pelo contexto, ele usa morgue como sinônimo de necrotério, para evitar a repetição da palavra.
Quem diria que, 80 anos depois de sua morte, essa sua solução estilística iria descambar em tamanha imbecilidade?
O Natal está chegando. O 13º também. Sejam bonzinhos. Dêem um presente ao seu blogueiro preferido e retribuam toda a diversão que lhes proporcionei ao longo de 2004. Se não, pelo menos se presenteem: comprem alguma coisa no Submarino clicando nos links acima e eu ganho 8%. E que deus lhe abençoe.
Lista de Presentes do Liberal Libertário Libertino
Sunday, December 12, 2004
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A Lista do LLLBoa idéia essa dos leitores. Façamos a nossa lista dos melhores livros de ficção de todos os tempos.
As regras:
Cada leitor vota uma única vez, nos comentários desse post, e só desse post.
Os comentários têm que ser identificados com email e, se possível, site.
Cada leitor votará em dez obras, numeradas da mais importante para a menos importante. Ao tabular os resultados, cada primeiro lugar valerá dez pontos, cada décimo lugar, um ponto - e assim por diante.
Cada voto é final. Não será possível modificar o voto.
Em caso de erro, o voto inteiro será anulado e o eleitor poderá votar de novo.
Podem ser votadas somente obras de ficção, escritas em prosa.
Não é permitido votar em livros de poesia.
Não é permitido votar em contos individuais, mas é permitido votar em um livro de contos, ou na obra de contos de um autor. Ex: "contos de Fulano."
Será permitido votar no nome de um autor, ao invés de obra, e esse voto será considerado voto de legenda e será tabulado para sua obra de maior votação.
Para que a eleição não continue ad eternum, só serão contados os votos recebidos até domingo, 12 de dezembro de 2004, às 23:59, horário de Brasília.
Votem, chamem os amigos pra votar, divulguem em seus blogs e sites, vamos ver que bicho dá. O link da votação, para vocês copiarem e colarem, é:
http://liberallibertariolibertino.blogspot.com/2004/12/lista-do-lllboa-idia-essa-dos-leitores.html
A VOTAÇÃO ESTÁ ENCERRADA.
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Guerra do Paraguai e Ignorância dos Clássicos Quatro Escritores e Uma Guerra
Acabei de ler mais um livro sobre a Guerra do Paraguai, O Livro da Guerra Grande (Los Conjurados del Quilombo del Gran Chaco), escrito por quatro autores dos quatro países participantes do conflito: Roa Bastos, do Paraguai, Alejandro Maciel, da Argentina, Omar Prego Gadea, do Uruguai, e Eric Nepomuceno, do Brasil.
Como literatura, sinceramente, não achei grande coisa. Como instrumento didático, pior ainda: o livro só perpetua aqueles chavões da esquerda histérica da década de 70, que negava qualquer iniciativa aos países participantes (tudo culpa dos malvados ingleses!) e ainda considerava que o Paraguai pré-guerra era algum tipo de Xangri-lá. A única coisa interessante que tirei do livro foi descobrir que quilombo, em espanhol, quer dizer coisa bem diferente.
Leia o que eu já escrevi aqui sobre a Guerra do Paraguai e sobre a Batalha Naval do Riachuelo.
Ignorância dos Clássicos ou Desleixo de Pesquisa
Uma coisa, entretanto, me irritou um pouco. Eu classifiquei ali no título de ignorância dos clássicos, mas não é isso. Ignorar os clássicos não é vergonha nenhuma. Os clássicos não servem pra nada. Conhecer Homero não faz de ninguém uma pessoa melhor.
O problema é desleixo de pesquisa. O argentino Alejandro Maciel cita diversos episódios de Homero. Um dos oficiais no quilombo gosta de contar histórias de Homero para os peões e escravos ignorantes. As aventuras fazem enorme sucesso. O autor entra em elucubrações sobre Homero. Comenta que suas histórias devem fazer parte de alguma recordação coletiva da nossa raça, pois mesmo tão longe da realidade onde foram elaboradas continuam incendiando nossa imaginação, etc etc blá blá.
Tudo isso seria muito bonito SE os episódios citados por Maciel tivessem mesmo vindo de Homero.
Homero, Guerra de Tróia e Mitologia Clássica
 O erro é até compreensível. As histórias são da Guerra de Tróia. As pessoas associam Guerra de Tróia a Homero. Logo, se ouvem uma história passada na Guerra de Tróia, presumem que veio de Homero.
Muitas vezes não é o caso. A Ilíada narra apenas um trecho relativamente pequeno da guerra e a Odisséia começa depois da guerra terminada. Por incrível que pareça, uma enorme quantidade de episódios da Guerra de Tróia vêm de fontes extra-homéricas.
Ninguém precisa saber isso de cabeça. Eu também não sabia. Fui lendo Maciel e estranhando: mas peraí, essa história não está em Homero, essa eu acho que também não, etc, e tive que pesquisar pra confirmar.
E esse justamente é o ponto. A pesquisa necessária para confirmar que alguns episódios narrados por ele como provenientes de Homero NÃO estão em Homero demorou cerca de dois minutos, via Google.
Custava o homem ter se dado esse trabalho? Ou será que ele acha que sabe tanto Homero que não precisa confirmar sua memória?
Episódios Extra-Homéricos da Guerra de Tróia
O texto abaixo exorta os leitores de Homero (inutilmente, no caso de Maciel) para tomar cuidado para não sobrepor à Ilíada e à Odisséia mitos provenientes de outras tradições:
"The Iliad has its basis in the rich mythology of Greece. Knowledge of mythology can be a hindrance as well as an aid for the modern reader approaching the Iliad, because the myths underwent changes and variations throughout the centuries before and after Homer. Readers must take care to pay attention to the specifics of Homer's story, without superimposing myths gathered from elsewhere.
Popularly known is the story of Achilles' invulnerability, with the fatal exception of his heel. This myth has no place in the Iliad: Achilles is as mortal as everyone else, and Homer explicitly tells us that this is the case. He does not owe his strength to rituals by the River Styx performed by his mother during his infancy, and there is no mention of a vulnerable heel.
The poem does not deal with the sack of Troy, or with the famous episode of the Trojan horse, although the horse is alluded to in the Odyssey.
Another myth holds that Helen's father, Tyndareus, feared that Helen's beauty would bring her suitors to war. To prevent war all across Greece, he made the suitors all swear to stand by the man chosen to be Helen's husband in the event that she should be abducted. There is no mention of this story anywhere in the Iliad.
And another well-known story tells us that the Achaean war fleet gathered at Aulis and could not sail because of the wrath of the goddess Artemis. To appease the goddess, Agamemnon sacrificed his own daughter, Iphigenia. Again, the myth is not part of Homer's story. He either lived before these myths evolved or he did not find them suitable for his purposes." (leia o resto)
Nem me perguntei o que achei de Tróia!
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