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Friday, April 30, 2004

Os Boatos e A Internet

Leia hoje, na minha colunaLeia hoje na minha coluna:

Os Boatos e A Internet

Circulou na Internet brasileira um boato de que o Google estaria vindo se instalar por essas bandas. Terça-feira, Nelson Vasconcellos, colunista de "O Globo", já se encarregou de desmentir tudo:

"Segundo um documento falso atribuído à empresa, o investimento chegaria a US$ 80 milhões, com a construção de uma sede - pelo jeito, faraônica - em São Paulo ou Petrópolis. (...) Uma pena, mas é tudo mentira. Apenas mais uma brincadeira idiota."

Antes do desmentido, entretanto, tinha muita gente acreditando. Boatos como esse se espalham pela Internet com velocidade impressionante. Um dos maiores propagadores é o site de humor Cocadaboa.

Cocadaboa

Na madrugada de quarta pra quinta, passei mais de uma hora conversando (ou não) com o Wagner, vulgo Mr Manson, responsável pelo Cocadaboa. A conversa foi deliciosa. Mr Manson é muito engraçado. Infelizmente, sua maior diversão é enganar a imprensa, de modo que quase nada do que ele falou eu tenho confiança de reproduzir. Azar de vocês. No final da conversa, ele até revelou (ou não) que não era realmente o Mr Manson (será?). Seja lá quem fosse, estava tão perfeitamente antenado ao espírito Cocadaboa que deveria ser o Mr Manson mesmo.

Recentemente, uma matéria do Cocadaboa anunciou que

"uma empresa especializada em desenvolvimento de aplicativos para celular, que não se chama nTime (www.ntime.com.br), vai lançar um novo serviço pela internet para alertar os cariocas em tempo real sobre as áreas de risco da cidade. Inspirado nos alertas de trânsito, que informam a melhor rota para fugir de engarrafamentos através de câmeras e boletins periódicos, um site especial vai sugerir o itinerário mais seguro para quem estiver circulando pelas ruas de madrugada ou em qualquer hora do dia."

Muita gente deve ter acreditado. Quantos cariocas não pagariam caro pra saber, na hora de sair de casa, qual é a rota mais segura? Não existe, mas deveria existir.

De vez em quando, o Cocadaboa até joga limpo: algumas matérias incluem pistas indicando a mentira. Por exemplo, aposto que você não percebeu, no parágrafo que citei acima, a palavra "não" em "que não se chama nTime". Só cai quem quer.

Aliás, Mr Manson conta outra história. Diz que acrescentou o "não" depois de receber reclamações da nTime - que, afinal, não fabrica esse produto. Mas será que acredito nele?

Minha matéria preferida é AOL prejudica cooperativa de catadores, lançada poucos dias depois de a AOL anunciar que não iria mais espalhar aqueles nefandos CDs gratuitos. De acordo com o Cocadaboa, cooperativas de catadores haviam entrado em contato com a direção da empresa para tentar reverter a decisão.

"CDs representam mais de 40% da renda da cooperativa. (...) Da totalidade de CDs recolhidos nas lixeiras do centro do Rio, um terço faz parte da promoção do provedor. Com o esgotamento desta fonte, a perda estimada é de 900 reais por mês. "O suficiente para garantir 3 empregos", afirmou o Senhor José Tavares, presidente da associação. E os prejuízos não ficarão restritos apenas aos catadores da região da Lapa. Segundo estimativas, só o "lixo de CDs da AOL" garante 10 mil reais por mês aos catadores do Rio de Janeiro, ou cerca de 35 empregos."

Os catadores nunca reclamaram, claro, mas deveriam. Alguém duvida que a quantidade de lixo em circulação caiu drasticamente?

Existem até os contra-trotes. Lembram quando Sílvio Santos disse para um repórter intrometido que estava à beira da morte? Pois é. O Cocadaboa não teve nada a ver com isso (talvez) mas, se aproveitando da própria fama, Mr Manson espalhou (ou não) que o trote era obra sua.

Qual será a verdade, afinal?

A verdade é que ler o Cocadaboa tentando distinguir fato de ficção é perda de tempo. Leia pra rir e se dê por satisfeito.

The Onion

Não é só no Brasil que isso acontece.

O The Onion é o mais popular jornal satírico norte-americano, bem parecido com o finado e saudoso Planeta Diário, da década de 80.

Quando caíram as torres gêmeas, praticamente só o The Onion teve coragem de fazer piada a respeito. Sua edição extra, publicada alguns dias depois, foi não apenas hilária, como também nem um pouco ofensiva à memória das vítimas, um equilíbrio quase impossível de alcançar. Só quem já trabalhou com humor (escrevi durante 10 anos para a Revista Mad) pode conceber o quanto que isso exigiu de coragem e perícia. Não foi à toa que essa edição extra chegou a ser considerada (muito brevemente, claro) para receber o conceituadíssimo Prêmio Pulitzer de Jornalismo.

Nos anos pré-internet, jornais como o The Onion ou o Planeta Diário jamais seriam confundidos com fontes de notícias sérias. Mas a internet facilita a retransmissão dos artigos via email para infinitos remetentes. Algumas vezes, a notícia chega aos remetentes já sem o nome da fonte. Outras, o nome da fonte não diz muito. Afinal, The Onion (A Cebola) é um nome estranho, mas por que não poderia ser um jornal sério?

Manchetes como "Chinese Woman Gives Birth to Septuplets: Has One Week to Choose" ou "Chinesa dá luz a sextuplos: tem uma semana para escolher", devidamente encaminhadas pela internet, geraram gigantescas correntes de oração e piedade.

Poucas matérias, entretanto, geraram mais controvérsia do que "Harry Potter Books Spark Rise In Satanism Among Children" ou "Harry Potter causa aumento de satanismo entre crianças". Uma simples busca pela Internet encontrará esse artigo citado em inúmeros sites de fundamentalistas religiosos que simplesmente se recusam a acreditar que seja tudo mentira.

Professores satisfeitos com o novo hábito de leitura adquirido pelos alunos comentam:

"It's almost impossible to find a book that can compete with those PlayStation games, but Harry Potter has done it," said Gulfport (MS) Middle School principal Frank Grieg. "I have this one student in the fifth grade who'd never read a book before in his life. Now he's read Sorcerer's Stone, Prisoner Of Azkaban, Chamber Of Secrets, Goblet Of Fire, The Seven Scrolls Of The Black Rose, The Necronomicon, The Satanic Bible, The Origin Of Species--you name it."

"É difícil encontrar livros para competir com vídeogames, mas Harry Potter conseguiu. Eu tenho um aluno de quinta série que nunca tinha lido um livro em sua vida. Agora, ele já leu todos os Harry Potter, Os Sete Rolos da Rosa Negra, O Necronomicon, A Bíblia Satânica, A Origem das Espécies, e mais!"


Naturalmente, o toque de gênio é a inclusão de A Origem das Espécies em um rol de livros tão satânicos. Nada faria mais sentido para um fundamentalista americano.

O trecho mais citado, entretanto, são essas declarações da autora J.K.Rowling, em entrevista ao jornal inglês London Times:

"I think it's absolute rubbish to protest children's books on the grounds that they are luring children to Satan," Rowling told a London Times reporter in a July 17 interview. "People should be praising them for that! These books guide children to an understanding that the weak, idiotic Son Of God is a living hoax who will be humiliated when the rain of fire comes, and will suck the greasy cock of the Dark Lord while we, his faithful servants, laugh and cavort in victory."

"Acho que é uma total bobagem protestar contra os livros infantis dizendo que estão atraindo as crianças a Satanás. As pessoas deveriam estar contentes por isso! Esses livros estão mostrando às crianças que o fraco e idiota Filho de Deus é uma fraude e que será humilhado quando a chuva de fogo vier, chupando o pau ensebado do Lorde do Mal, enquanto nós, seus servos fiéis, celebraremos e gargalharemos com a vitória."


A credibilidade das pessoas me espanta. Mesmo que J. K. Rowling tivesse desígnios satânicos para as crianças do mundo, será que ela admitiria isso em entrevista e, ainda por cima, nesses termos?! E será que um sisudo jornal inglês publicaria?

Naturalmente, a lição é simples: não acredite em tudo o que você lê. Mais ainda, na Era da Internet, não acredite em tudo o que aparece no seu inbox.

Se soa inacreditável, provavelmente é.

Links Relacionados:
Cocadaboa
The Onion

Uma versão bastante editada desse texto foi publicada na minha coluna Internet, na Tribuna da Imprensa, no dia 30 de abril de 2004. A versão não-editada que você está lendo nesse blog é de minha inteira responsabilidade e contém informações que não foram aprovadas e muito menos publicadas pela Tribuna da Imprensa. Quaisquer reclamações, portanto, devem ser dirigidas a mim. Para conferir a versão autorizada publicada na edição impressa da Tribuna da Imprensa, clique aqui.

Sai Clarah, Entra Violeta



Antigamente, eu dividia a página do TribunaBis com a Clarah Averbuck. Melhor cronista do que romancista, suas crônicas eram realmente ótimas. Mas ela andou vacilando muito, não mandou colunas, sumiu.

Adivinhem a escolhida para substituí-la?

Isso mesmo, Violeta Hardcore, participante revoltada de algumas polêmicas daqui, e que ele conheceu através do LLL.

Clarah ocupava o espaço acima da minha coluna e eu gostava de imaginá-la empoleirada em mim, com seus belos pés na minha cabeça. Bem, agora são os pés da Violetinha.

Bem-vinda, Violeta.

Cannibal Café - o novo blog da Violeta


Thursday, April 29, 2004

O Brasil, por um Islandês



Sensacional coluna de José Serra, publicada na Folha, segunda, 26 de abril:

"Visão de islandês

Conheci o professor islandês E.K., do Centro de Estudos Internacionais da Universidade de Reykjavík, no início dos anos 90 num seminário em Aspen, nos Estados Unidos. Depois ele veio ao Brasil e registrei algumas de suas observações nesta coluna. Durante o governo de Fernando Henrique, encontrei-o somente uma vez, pois deixei de comparecer a seminários internacionais. Além disso, os interesses do professor se deslocaram para o Sudeste Asiático, que se consolidava como a região dos países em desenvolvimento que, ao contrário do Brasil, têm dado certo.

Na semana passada, reencontrei EK, como é conhecido pelos amigos, em Brasília. Ansioso para debater a experiência do PT no governo, ele já havia rascunhado dois artigos para um jornal islandês, sobre os quais pediu minha opinião. Num deles, como ambientalista convicto, registrou: "Fiquei perplexo com o fato de que o governo brasileiro está concentrando sua atenção no debate sobre os transgênicos, deixando de lado o trágico e estúpido desmatamento da Amazônia, que pode ter chegado em 2003 ao equivalente a um terço da Islândia. Nessa matéria, o Brasil conseguiu dois grandes progressos: na qualidade das medidas de destruição das florestas e na destruição propriamente dita".

EK, embora seja antropólogo, tem boas noções de economia. Mas ressalva que, talvez, do lado de baixo do Equador, a teoria econômica seja diferente. "É fascinante a economia brasileira", escreve. "O governo, a fim de pagar os maiores juros reais do mundo, fixados por ele mesmo, arrecada tributos tão pesados quanto os de um país escandinavo. Com isso, eleva os custos das empresas, que, então, aumentam os preços. Para segurar o repique inflacionário, o governo mantém ou aumenta novamente os juros reais, o que exige gastos fiscais elevados, que demandam aumentos de impostos, que..."

O islandês continua: "A inflação brasileira está sendo empurrada pelos custos (câmbio, impostos, tarifas, preços públicos), mas, surpreendentemente, é combatida como se a pressão viesse apenas da demanda". Cada vez mais desnorteado, prossegue: "Os brasileiros têm também conceitos fiscais estranhos. Consideram que praticam austeridade fiscal, mas os gastos do Tesouro Nacional subiram de 25,1% para 28,5% do PIB entre 2002 e 2003, e o déficit fiscal aumentou quatro vezes".

Mais interessante foi o que escreveu sobre a política: "Estive aqui durante o governo de Fernando Collor e conheci parlamentares que apoiavam o governo. Na administração seguinte, de Itamar Franco, eles continuavam apoiando o governo. Durante o governo Fernando Henrique, ainda apoiavam o governo. Pois não é que agora também apóiam o governo Lula e até mandam mais do que antes? Não sei por que os presidentes brasileiros se queixam de falta de apoio".

Confesso que não consegui desfazer suas perplexidades. Fracassei, também, na tentativa de explicar-lhe o programa Fome Zero. Ele escreveu que, "achava, como todo mundo, que a fome no Brasil estava sendo zerada por esse programa. Fiquei surpreso ao ouvir de um senador, que é da base do governo e que encontrei num seminário na Índia, que o Fome Zero não existe na prática. Perguntei qual é, então, a idéia. Constrangido, ele admitiu que já houve várias idéias no papel, que elas mudaram muito e ignorava qual era a última". Surpresa maior, no entanto, EK teve quando o senador informou que o registro civil gratuito fazia parte do Fome Zero..."

A Sujeira Está nas Nossas Idéias



Do leitor Adar:

"As suas opiniões são deveras interessantes, porém a quantidade absurda de palavras chulas (muito chulas, como caralho, porra, etc..) inseridas nos textos somente depauperam a sua credibilidade como pensador e crítico. Melhore os termos, e atingirá o píncaro. Caso contrário, continue chafurdando com a vara de porcos, usando as baixíssimas palavras adequadas somente à súcia pavorosa a qual o senhor está se igualando. Reitero as parabenizações ao seu ótimo trabalho."

O que eu posso responder a isso?

Agradeço os muitos elogios. Cada um escreve como pode.

Nunca tive medo de palavras. Palavras são instrumentos, que servem para transmitir idéias. Sou um homem de idéias, não de palavras. Não acredito em palavras chulas, feias, sujas ou baixas.

Palavras são neutras. A sujeira está nas nossas idéias.

Conversas A Esmo



Sou sincero e direto. Quem lê esse blog sabe (ou deveria saber) disso.

Tem algumas coisas engraçadas que acontecem comigo. Entro no MSN (nunca fico muito) e sempre vem alguém que não conheço dizer "oi" ou "tudo bem?".

Pra mim, se alguém inicia um contato, é porque tem algo a dizer. Nunca passaria pela minha cabeça começar a conversar com alguém sem ter algo específico em mente.

Então, pra facilitar e quebrar o gelo, eu pergunto: "Diga" ou "O que posso fazer por você?" ou "O que deseja?", todo tipo de abertura para que a pessoa se sinta livre para dizer o que quer dizer.

Qual é a minha grande surpresa quando descubro que a maioria das pessoas simplesmente não têm nada a dizer. Nada.

Eu faço a pergunta e elas congelam:

Como assim o que eu quero? Não quero nada. Só conversar.

Sim. Conversar. Sobre o quê?

Hã...

Aí eu fico calado, para dar tempo a pessoa, pra ver se ela arranja o que dizer. Via de regra, nada acontece. A pessoa se desconecta muda.

E eu fico pensando: será que o grosso sou eu?

A Joana, por exemplo, dizia que um dos meus piores traços era que ela me ligava e eu atendia dizendo: "Diga." Por algum motivo que me escapa, ela considerava isso ofensivo.

Outro dia, um leitor impressionado com o prolixidade desse blog perguntou se eu já tinha tido a síndrome da folha em branco.

Não entendo bem como funciona essa síndrome. Eu só escrevo quando preciso, quando tenho alguma coisa a dizer que não pode esperar. Quer dizer, sempre que sento pra escrever, é porque já tenho um assunto premente a tratar.

Para sofrer da síndrome da folha em branco, a pessoa precisa juntar duas coisas: a vontade de escrever com falta de assunto. E não entendo como essas duas coisas podem existir juntas.

Se eu não tenho assunto, vou querer escrever pra quê? Vou é andar ao sol, ler um livro, dormir, qualquer coisa menos encarar a folha branca.

Então, se não tenho assunto, vou querer conversar pra quê? Sobre o quê?

Entendo que as pessoas lêem o que escrevo, me admiram e querem um contato pessoal. Isso é desnecessário. Pior, é perigoso. Admiramos o trabalho de uma pessoa, mas nada indica que iremos admirar aquela pessoa também. Quase sempre é o oposto.

Melhor nem tentar. A não ser que você tenha algo pra dizer, claro.

Da Série Leitores Satisfeitos: Liberdade Condizente



A leitora Tânia também incluiu um botão do LLL no seu blog LetraCine e entrou para a Galeria de Honra. Eis o que ela escreveu:

"Lindo este botão do LLL, não é?

Sim, este aí ao lado esquerdo! Você não conhece? Ainda não?! Pois eu descrevo um pouco para você: é o blog do Alexandre Cruz Almeida, um dos maiores blogueiros do país. Digo melhor pelo conteúdo e qualidade das matérias. Tem também uma liberdade condizente com sua própria definição. Há momentos de incrível obstinação em aprofundar discussões em temas de interesse geral dos blogueiros, internet, ferramentas, sites, política, mas não pense que o libertino não se distrái com suas "taras": indica blogs de garotas, escreve sobre sua adoração por pés femininos, e divulga muito bem seu romance, Mulher de um Homem só, romance este que inicio a leitura esta semana. Vocês podem ler, basta ir lá e clicar, é gratuito, por enquanto, pelo menos. *************** Quanto aos dizeres do botão, "compreensão não é tudo", achei bem condizente com o tema do Letra Cine. A arte é assim, você pode até analisar, mas em si, independe de compreensão."


Tânia, muito obrigado pelos elogios e pela... compreensão. Um verdadeiro blog liberal e libertário fala, de fato, sobre tudo, sem prisões.

Para quem não sabe, a frase "Compreensão não é tudo" é do artigo Os Dilemas da Tradução. Quem gostou, leia o artigo e pegue o contexto.

E você? Se gosta daqui e lê sempre, ajude a divulgar. Repasse meus emails aos amigos, coloque um link no seu blog, escreva um post sobre o LLL, inclua um botão. Você que sabe. Não cobro nada - só que você me ajude a atingir mais pessoas.

Lamentável Galeria de Honra



Márcio Hack, leitor das antigas, teve o seguinte a dizer sobre a Galeria de Honra:

"Só para registrar, Alexandre, acho esse esquema lamentável. Pelo nível das suas referências e a inteligência e independência dos seus textos, você se tornou uma referência para mim: é mais provável que eu olhe para o que você aponta como digno de atenção, do que é para o que apontam as outras pessoas. Mas com isso de ganhar lugar na galeria de honra os que te elogiam muito ou os que põem o seu botão, você substitui o mérito pelo compadrio, exatamente como as garotinhas de um texto seu, que não gostavam de quem não gostava delas. Não quero saber dos que te elogiam, quero saber de quem você realmente acha bom, independente do que acham de você. Abraço."

Márcio, respeito sua opinião, mas você também é contra publicidade em revistas? Ou acha que a Veja endossa ou garante a Varig só porque a Varig anuncia na Veja? Essa questão está ficando perigosamente parecida à do John Kerry, descrita na minha coluna de 23 de abril.

Não houve enganação, porque o objetivo das seções Galeria de Honra e Blogs Amigos sempre foi absolutamente explícita e escancarada, e eu ainda faço posts regulares sobre o assunto para relembrar todo mundo.

A Galeria de Honra é para os blogs que incluem um dos meus botões. Os Blogs Amigos são para qualquer blog que tenha link pra mim. Pronto. Esses são os únicos critérios.

Sei que tenho muitas visitas e, para blogs menores, ser citados no topo da minha coluna direita, significa, muitas vezes, triplicar o número de visitantes. E, claro, sempre tem um peixe maior. No dia em que a Rosane Hermann me citou lá no Querido Leitor, por exemplo, meus pageviews dobraram. É um bom negócio para todos.

Já os Blogs Favoritos são meus blogs favoritos. Mesmo. E Imprensa e Humor contém os sites que mais visito em ambas essas áreas nas quais trabalho.

A entrada nessas três seções não só não é negociável, como esses blogs nem precisam ter links para mim para serem citados aqui. Me dói fundo linkar um safado que não tenha a mínima gratidão e boa educação de me linkar de volta, mas esses caras são tão bons que eu deixo passar.

Assim como a Veja vende espaço à Varig em troca de muitos reais e não perde, por isso, sua credibilidade, eu também "vendo" espaço a outros blogs, em troca de divulgação, e não perco, por isso, credibilidade. Basta as coisas estarem bem separadinhas.

O que não pode é você ler um anúncio da Varig achando que é editorial da Veja.


Wednesday, April 28, 2004

Elogio à Celebridade



Eu já gostei de três novelas: Roque Santeiro, Vale Tudo e Que Rei Sou Eu. Celebridade é a quarta.

Gilberto Braga (e sua equipe, verdade seja dita) tem total domínio da arte folhetinesca.

Suas vilãs são proverbias e nenhuma mais que a Laura. Laura é minha mulher ideal. O que ela quiser de mim, eu faço. Laura não é mau-caráter, Laura não é perversa, Laura não é interesseira, Laura é tudo. Na feliz expressão de Cláudia Abreu, Laura é uma "vilã solar".

Joel é puxa-saco de Renato. Beatriz é descompesada e ciumenta. Ana Paula é esbone e interesseira. Laura não é nada disso. Laura não tem motivações com as quais possamos ter lá muita empatia - ou, verdade, até tem, mas já as transcendeu faz tempo. Laura é vilã em tempo integral, o mal encarnado.

Gilberto Braga, além de ter criado uma das melhores (e mais sexy) vilãs de todos os tempos, também parece se divertir enormemente fazendo seus heróis sofrerem. De certo modo, Celebridade me lembra as mega-novelas do Marquês de Sade.

Juliette é uma mulher liberada, forte, independente... e má. Ao longo das mil e tantas páginas do romance que leva o seu nome, Juliette faz, literalmente, de tudo, queima Roma, mata milhares de pessoas, joga sua melhor amiga dentro de um vulcão e, a cada passo de sua jornada, só se dá bem. Termina o romance linda, feliz, rica, cercada de amigos - os que ela não matou, claro. Juliette, obviamente, é Laura.

Já Justine, irmã de Juliette, também mereceu um megaromance de milhares de páginas, mas o clima é oposto. Justine é pura, boba, otimista... e só leva na cabeça. A cada página do livro, Justine é surrada, currada, torturada, humilhada, sua desgraça não parece ter fim. E, como Justine não aprende e continua se comportando de forma ingênua e imbecil, todos continuam se aproveitando dela, e os estupros, surras e roubos nunca param até que, ao final do livro, como se o próprio deus não aguentasse mais uma mulher tão sem sal e sofredora, ela morre atingida por um raio. Justine, obviamente, é Maria Clara. Se tivermos sorte, deus Gilberto Braga vai eletrocutá-la também.

Os heróis de Gilberto Braga são insossos, politicamente corretos e insuportáveis. Quem aguentaria conviver com Maria Clara ou com o Fernando? São dois malas sem alça. No melhor estilo Justine, Gilberto Braga faz seus heróis pentelhos pagarem todos os seus (quase inexistentes) pecados. Eles levam porrada em cima de porrada... e a platéia adora.

Essa última queda da Maria Clara foi tão bem orquestrada que merecia um prêmio.

Todo bom autor de novela sabe que tem sempre que adiar o clímax. Anuncie, antecipe mas demore a chegar lá. Gilberto Braga explorou por quatro longos dias a prisão da Maria Clara. Por uma semana, todos sabíamos o plano maquiavélico de Laura de colocar a droga logo na bolsa de neném (na bolsa da neném!) da filha de Maria Clara. Todos sabíamos que ela iria ser bem-sucedida, claro. Mas Gilberto Braga não teve nenhuma pressa em chegar lá.

Enquanto isso, sem piedade nem do telespectador nem dos seus heróis, cada diálogo, cada cena antes disso tinha a função de nos preparar para a queda, de piorar a situação, de fazer Maria Clara parecer ainda mais coitada.

Poucos minutos antes da porrada, Maria Clara está dizendo para Hugo que agora ela conseguiu, deu a volta por cima, o sol está começando a brilhar, a vida vai melhorar, e nós, telespectadores, tornados cúmplices de Laura, sabemos que Maria Clara está é fudida, que, em poucos minutos ela será presa e humilhada, e aquelas palavras se tornam ainda mais dramáticas, ainda mais patéticas, pela nossa antecipação do que sabemos que vai acontecer.

E, por fim, para coroar seu diábolico plano, Laura faz questão de visitar Maria Clara na cadeia, de ver com seus próprios olhos os resultados de seus esforços.

Celebridade é sensacional.

* * *

Naturalmente, ontem, os papéis se inverteram, mas, tirando isso, tudo continuou igual. Sensacional. Mas que doeu ver a malvada da Laura apanhando, doeu. Coitadinha.

Sebastião Nery



As colunas de Sebastião Nery, na Tribuna, começam sempre com uma anedota da velha guarda da política brasileira e, então, sua aplicação atual. Delícia.

Da coluna de hoje:

"Às vésperas do 24 de agosto de 54, quando se matou para impedir que 64 viesse dez anos antes, Getulio, desalentado, desencantado, conversava uma noite, no Catete, com José Americo, ministro da Viação:

- Os homens de verdadeiro espírito público escasseiam cada vez mais.

- Presidente, o que é que o senhor acha dos homens de seu governo?

- Uma parte não é capaz de nada e outra parte é capaz de tudo."

Novos Links Recomendados



Galeria de Honra, para os santos que têm botões do Liberal Libertário Libertino em seus blogs: Letracine, da Tânia Lúcia, sobre literatura, cinema e cidadania, Edaz do Conhecimento, do Rafael, Deixa Eu Me Deixa, do Eduardo, Kasaco Vermelho com Pus, do Gabriel.

Blogs amigos são todos os que têm a gentileza e o carinho de linkar pra mim: Cosmopolita, Bruaca, Blog da Paulinza, Contos Mil, Viagem à Minha Vida, Pau da Barraca, Lady of Storm, R. Junqueira e Diversidade.

Como Perder A Vida Na Internet, Parte II de II



Outros Projetos Literários

Estou falando, basicamente, de tocar meus dois projetos literários atuais.

Um, claro, é o Liberal Libertário Libertino, o livro. Pra quem não sabe, a razão de ser desse blog é servir de campo de testes para as prisões descritas no livro.

Ainda falta escrever prisões como ambição, obediência/respeito e religião (e quantas outras me ocorrerem) e também reescrever monogamia, segurança e medo para incluir muitas coisas que aprendi nesse meio tempo.

Mais trabalho ainda vão dar os fundamentais três últimos capítulos.

Muita gente me questionou, com bastante perspicácia, se a busca pela felicidade e pela liberdade não era, ela mesma, uma prisão. Até hoje, ainda não respondi a essa pergunta, mas ela será um desses capítulos fundamentais. Dá trabalho, por exigir um sólido embasamento filosófico sobre conceitos de felicidade e liberdade ao longo da história.

Dá pra ser realmente feliz e realmente livre? Uns dizem que a felicidade só pode existir dentro de alguns parâmetros, outros que a felicidade só pode existir dentro da mais absoluta liberdade. Será?

Por fim, o livro concluirá com estudos de caso sobre duas situações que estão forçando os limites da liberdade de expressão e felicidade nos dias de hoje. Ou seja, uma aplicação prática dos conceitos expostos.

Com a temeridade que me é característica, vou caminhar nos campos minados da pedofilia e do anti-semitismo, mais especificamente daquele editor gaúcho de publicações anti-semtias que foi recentemente condenado. E podem ficar certos de que só vou abrir a boca escorado por uma pesquisa sólida.

Além disso, meu romance sobre a influência do dinheiro na vida das pessoas está ficando cada vez mais definido na minha cabeça, apesar de eu não tocar nele desde janeiro de 2000.

Na verdade, me dói saber que a última linha de ficção que escrevi foi em setembro de 2001. A ficção, que tudo pra mim, luta pra sair, mas sempre tem algo na frente, um post, uma coluna, um email pra responder, uma divulgação pra fazer. Chega.

Alexandre e o Poeta

Muita gente me compara a Osho. Acho uma certa graça. Seus escritos são engraçadinhos, mas o homem era um picareta que tinha 45 Rolls-Royce. Enfim, tem uma de suas fábulas que eu amo.

Alexandre, o Grande, em uma expedição de conquista, vê um jovem poeta poetando sob o sol, encostado em um árvore. Viadérrimo, Alexandre fica ali, boquiaberto, apreciando o jovem, e o poeta nem aí. Por fim, Alexandre diz:

"Sou Alexandre, o Grande, o homem mais poderoso do mundo. Estou espantado por sua beleza. Peça o que quiser e lhe darei."

E o jovem poeta somente pede para ele sair da frente do sol, que está fazendo sombra. Desconcertado, Alexandre obedece e, depois, continua a falar que tudo o que queria era isso, ficar deitado ao sol, fazer poesias, não ter preocupações.

"Ué, por que não faz isso?" pergunta o poeta.

Alexandre diz que é difícil, tem uma missão, tem problemas, precisa solidificar as conquistas, precisa tomar a Índia, chegar à China, essas coisas, mas assim que conseguisse seus objetivos, iria parar tudo e poetar.

"Não vai, não." Replicou o poeta. "Quem é assim como você nunca pára. Sempre vai haver mais uma coisa, mais uma conquista, mais uma obrigação. A grande verdade é que para ser poeta e poetar ao sol não se precisa de nada, literalmente nada. Basta parar tudo e sentar no chão. Se você não consegue fazer isso hoje, não conseguirá amanhã. Quem quer ser poeta, é."

Já basta um Alexandre estressado e cheio de obrigações na história.

Resoluções de Maio

Aqui vão então as novas regras.

Nada mais de posts cheios de imagens e hiperlinks.

Nada mais de mandar emails a torto e a direito por aí. Emails, agora, só para cadastrados, para quem me manda email e para quem comenta nesse blog.

Nada mais de mendigar links, ou de ir no blog de quem comenta aqui comentar de volta, ou mesmo de responder comentários. Quando tiver algo a acrescentar, eu faço um novo post.

Nada mais de ferramentas agregadoras, como instant messaging, mirc ou orkut. Entrar no MSN ou ICQ só se eu estiver procurando por alguém especificamente. Não estou vetando conversas, só não vou ficar lá de bobeira. Quer falar comigo, manda um email, marca uma hora e a gente se encontra.

Amo todos vocês. Sou escritor da raiz dos cabelos ao último dedo do pé. Não consigo existir sem leitores e sem seu feedback. Mas preciso dar uma desacelerada.

Continuarei escrevendo e postando como um louco. Continuarei lendo com carinho e atenção todos os emails e comentários. Continuarei sempre pedindo suas opiniões, que muito me interessam.

E responderei o que puder.

Os Jornalistas e Os Blogs no Observatório da Imprensa

Leia esse artigo no Observatório da Imprensa, número 274, de 27 de abril de 2004
Minhas duas colunas sobre os jornalistas e os blogs foram publicadas, ontem, no Observatório da Imprensa. Quem não leu, aproveite para ler. Quem já leu, se puder passar lá e deixar uns comentários, eu agradeço.

Sobre Arte, Crime e Patrocínio



A matéria abaixo vai soar familiar aos leitores habituais, mas ela traz vários fatos novos e vale a pena ser lida.

Ao longo de março e abril, escrevi uma série de posts sobre Artes Plásticas, tentando responder à questão: o que é arte? Falei do iceberg vermelho, das caixas no metrô e das obras da minha amiga Isabel.

Também no mês passado, terminei minha pós em Jornalismo Cultural e precisava de trabalhos de fim de curso para as disciplinas de Teoria da Imagem e História da Arte.

Mas eu não dou ponto sem nó. Quando digo que esse blog é campo de provas, estou falando a verdade.

Pensei: se eu fizer um apanhado resumido de tudo o que eu disse sobre Artes Plásticas, posso matar três coelhos com uma só cajadada: os dois trabalhos da pós e ainda emplaco uma matéria de capa na Tribuna. Pra melhorar, boto o trabalho da minha melhor amiga no jornal.

Dito e feito.

O post que vocês vão ler abaixo foi publicado, sem tirar nem pôr, na capa do TribunaBis de hoje, o caderno cultural da Tribuna da Imprensa. A versão que meus professores de História da Arte e Teoria da Imagem receberam está igual, com apenas algumas notas de pé de página a mais.

Não deixem de ler sobre os peixinhos dourados.

Arte, Crime e Patrocínio



Luta por reconhecimento ressuscita antiga polêmica: o que é arte, afinal?

Um artista plástico espalha caixas pretas pelo metrô de Nova Iorque, gera pânico e acaba preso. Arte? Ou crime? Outro, pinta de vermelho um iceberg. Arte? Ou futilidade? No Brasil, uma jovem cria obras baseadas em buscas aleatórias no Google. Arte? Talvez, mas não de acordo com o Ministério da Cultura, que não prevê patrocínios para Cultura Digital.

Pânico no Metrô

Clinton BoisvertEm dezembro, Clinton Boisvert, estudante de arte de 25 anos, espalhou 37 caixas de papelão pretas pelas estações de metrô de Nova Iorque. O pânico foi tamanho que o metrô foi fechado por várias horas e Boisvert acabou preso.

As acusações são de conduta desordeira e reckless endangerment, algo como colocar pessoas em risco sem se preocupar com as conseqüências. Boisvert está tentando se proteger sob a Primeira Emenda, que estabelece a liberdade de expressão.

Mas será que expor 37 caixas pretas dizendo FEAR no metrô é um direito constitucionalmente garantido?

Julie Tilden, advogada especializada na Primeira Emenda, argumenta que a liberdade de expressão não é protegida quando causa medo, pois medo geralmente inclui ameaça de violência física, e a Emenda protege somente expressão, não conduta. Por outro lado, o valor da arte está em ser provocativa, provocativa inclusive de medo ou ansiedade. E, conclui ela, uma arte que não seja nem ao menos um pouco perturbadora não merece ser chamada de arte.Uma das caixas que tanta confusão causou

Entretanto, em um exemplo clássico do Direito, ninguém tem a liberdade de exprimir a palavra "fogo" em altos brados em um cinema lotado. Boisvert não fez nada de muito diferente.

A artista plástica brasileira Isabel Löfgren salienta que a cobertura da imprensa foi tendenciosa ao sempre enfatizar que ele "espalhou" as caixas quando, na verdade, ele "expôs" as caixas.

Porém, se os usuários do metrô de Nova Iorque tivessem sido informados de que aquelas caixas estavam ali expostas - ao invés de cuidadosamente colocadas por pessoas com objetivos sinistros e insondáveis - não teriam entrado em pânico e nem perdido o dia de trabalho.

A School of Visual Arts, onde Boisvert estudava, não só não o disciplinou como deu a ele nota máxima no semestre.

O Iceberg e os Peixes'The ICE Cube Project - an art expedition' - foto de Lars Nybøll - Clique para ver em tamanho maior

Mês passado, Marc Evaristti, artista plástico dinamarquês, utilizou 3 mil litros de tinta para tingir de vermelho um iceberg de 900 metros quadrados, na Groenlândia.

Uma vez concluído o trabalho, Evaristti declarou: "É tão poético. Parece uma ervilha vermelha."

A cobertura jornalística do evento fez o que pôde para desacreditá-lo. Muitas matérias enfatizaram que todo o trabalho durou apenas duas horas. Mas será que esse é um critério relevante para se definir o que é arte?

Evaristti criou uma nova experiência estética. Imbuído de um refinado senso artístico (e de oportunidade), ele inseriu uma cor em um ambiente onde ela simplesmente não existia, criando assim um efeito visual novo, inédito e de tirar o fôlego.

Outra estratégia para desacreditar Evaristti na imprensa foi mencionar sua exposição anterior: uma série de liquidificadores, com peixinhos dourados nadando dentro. Visitantes poderiam, se quisessem, ligar os aparelhos e matar os peixes.

Evaristti afirmou que seu objetivo era propor um dilema ético, de vida ou morte, às pessoas, "um protesto contra o cinismo e a brutalidade do mundo em que vivemos".

Um visitante cínico e brutal, entretanto, apertou o botão e matou dois peixes. O museu foi prontamente denunciado por uma organização de proteção aos animais e, pelo resto da exposição, os liquidificadores tiveram que ficar desligados.

O caso acabou indo a julgamento, pois o museu se recusou a pagar a multa, alegando que o objetivo da arte era justamente desafiar nossos conceitos de certo ou errado.

Veterinários e até mesmo funcionários da fábrica de liquidificadores testemunharam que os peixes morreram instantaneamente. Como não houve "sofrimento prolongado", o juiz absolveu o museu da acusação de crueldade aos animais.

Privacidade e Identidade na Era da Internet

A carioca Isabel Löfgren, de 29 anos, tem utilizado a arte para explorar questões como privacidade e identidade na Era da Internet. Atualmente, seu trabalho pode ser conferido na exposição Imagem: Código, na Galeria Artexarte, em Buenos Aires, até 17 de julho.[search:

Uma das obras expostas, "[search:"webcam" filetype:jpg] showing 1000 of 59,080 results", é uma impressão fotográfica sobre alumínio, de 250 cm de diâmetro, suspensa a um metro e meio do chão. Em ambos os lados da faixa metálica, milhares de pequenas imagens retiradas de webcams por todo o mundo. As imagens foram obtidas através de buscas no Google, daí o título da peça.

Para ver as imagens do lado de dentro da faixa, o visitante precisa se abaixar e entrar fisicamente no círculo. Um lembrete bem concreto que, ao observar aquelas imagens, estamos de fato entrando na intimidade de milhares de pessoas.

Uma das características mais marcantes do trabalho de Isabel é a impossibilidade de transmiti-lo por qualquer outro meio. Só estando lá pessoalmente. O impacto tanto acontece de longe, ao você ver o conjunto da obra, quanto de perto, quando você se perde naquela enormidade de fotos uma após a outra, tantas vidas, tantas histórias.

O Professor João Wesley, da Universidade Federal do Espírito Santo, afirma que a presença visual obtida por meio de "rigoroso sistema de busca e organização" aciona o "sujeito em estado de suspensão fragmentária" que hoje existe na Internet. "Antes era o verbo que criava, agora," diz ele "[são] milhões de bits circulando mundialmente próximo à velocidade da luz."

Lei Só Patrocina Velha Arte

Arte ou futilidade? Arte ou crime? Talvez a pergunta mais importante seja outra: patrocínio ou não?

Se Isabel estava contando com alguma ajuda financeira, pode esquecer. Em fevereiro, o MinC (Ministério da Cultura) baixou uma portaria definindo as novas regras para patrocínio da Lei Rouanet. Cultura digital não foi incluída, assim como outras formas de artes mais vanguardistas, como arte transgênica ou telemática e nanoarte.

Isabel faz questão de ressaltar que o problema não é a validade ou não dessas novas formas de arte, pois quem determina isso não é o governo. O problema é que, justamente por dependerem de tecnologia, trabalhos com Cultura Digital podem ser custosos. "Como convencer um empresário a patrocinar uma forma de arte que o governo não considera válida?", pergunta ela.

Ironicamente, o próprio Cláudio Prado, coordenador da área de Cultura Digital do MinC, concorda que essas formas de arte são válidas e deveriam ter sido incluídas, mas não o foram por entraves burocráticos.

Ou seja, o MinC reconhece que a Cultura Digital existe na hora de criar um setor só para ela, mas não na hora de permitir que ela seja patrocinada. Fica a pergunta: o que será que fazem, o dia todo, os funcionários desse departamento?

O site Canal Contemporâneo, da artista plástica Patrícia Canetti, está promovendo um abaixo-assinado pedindo pela inclusão da arte-tecnologia na Lei Rouanet. Você pode participar clicando em http://www.canalcontemporaneo.art.br/blog/

Sem esconder a irritação, Isabel desabafa:

"Resumindo: todas as minhas idéias de pedir patrocínio para empresas de tecnologia foram por água abaixo por causa da inoperância de dois ou três funcionários públicos sentados numa sala empoeirada em Brasília navegando na internet às custas de um salário pago pelo meu, o seu, o nosso imposto."

Leia hoje, na Tribuna da Imprensa

Esse texto foi originalmente publicado na primeira página do TribunaBis, o caderno de cultura da Tribuna da Imprensa, no dia 28 de abril de 2004.


Tuesday, April 27, 2004

Como Perder A Vida Na Internet, Parte I de II



Esse blog está sugando a minha vida.

Passo o dia inteiro conectado. Quando não estou escrevendo pro blog, estou editando posts, catando imagens, subindo imagens pro servidor, buscando links pros posts, pesquisando para uma coluna, entrevistando alguém, divulgando meu blog, respondendo comentários, comentando no blog dos outros, negociando trocas de links e divulgação, pra não falar, claro, de trabalhar pros meus clientes de consultoria.

Tenho dormido três horas por noite e estou cansado. Passo, fácil, 70% (talvez mais) do meu tempo conectado. Saio pouco. Leio quase nada.

Há muito tempo, não saio flanando sem rumo pelas ruas.

Falta de Tempo

O problema não são as três horas dormidas. Acho isso ótimo. O problema é estar gastando o que talvez seja o período mais energético e fértil da minha vida em besteiras.

Então, chega. Estou reorganizando minhas prioridades.

Não, o blog não vai sofrer. Pelo menos, não o que considero a parte essencial do blog.

Escrever essas dezenas de posts não me toma tempo algum. Pelo contrário, são uma verdadeira necessidade fisiológica. Preciso botar pra fora essas minhas borbulhantes opiniões sobre tudo e todos, desde cybersquatters até o monopólio da Microsoft, de estrangeirismos na língua até os cacoetes da literatura nacional. Pra não falar, claro, dos meus fetiches e taras.

Escrever é uma terapia.

Imagens e Hiperlinks

Uma das coisas que mais me toma tempo, entretanto, é colocar imagens e hiperlinks nos posts.

Sou eminentemente não-visual. Nunca tento imaginar a aparência das pessoas que não conheço. Nunca peço foto de ninguém pela Internet. Até hoje acho o pedido meio estranho: o que a minha aparência tem a ver com quem eu sou?

Por muito tempo, durante a era da conexão discada, esse blog não teve imagem alguma. Entretanto, começando a era Velox, e eu com muito tempo livre nas mãos, comecei a brincar de incluir imagens nos textos, e fui gostando, o blog ficou até mais bonito, mas e daí?

Houve posts ótimos, bem pensados e refletidos, que demorei menos tempo pra escrever do que para catar imagem, editar imagem, subir imagem pro servidor, escrever tags pro post, testar no ar, ver que estava ruim, mudar tag de lugar, testar de novo, etc etc.

Um enorme desperdício de tempo. Menos um post que escrevi, menos três páginas que eu li, menos meia hora de descanso. E para quê? Para o blog ficar mais bonitinho?! Por favor, não faltam blogs bonitinhos por aí.

Então, chega.

Nada mais de posts cheios de imagens. Imagens agora só quando forem estritamente necessárias. Por exemplo, o post sobre o filme Amarelo Manga não precisava daquela imagem do cartaz. Não adiciona nada. No post sobre a minha última coluna, a foto do Kerry era totalmente irrelevante. Já a foto do Kos pode até ser legal, pois ninguém conhece a cara dele, mas, no fim, também não acrescenta nada à história. Exemplos de imagens relevantes: nos posts sobre arte, não seria a mesma coisa vocês lerem sobre o iceberg pintado de vermelho, sobre as caixas no metrô ou sobre as obras da Isabel sem poderem ver exatamente do que eu estava falando.

E nada mais de posts cheios de hiperlinks, como o parágrafo acima. Ele poderia ter sido escrito em 20 segundos. Foi escrito em quase dez minutos porque eu tive que buscar os links de referência para todas as coisas que mencionei e ainda fazer e posicionar os tags. Isso toma tempo. De agora em diante, hiperlinks só quando forem essenciais para a compreensão do que estou falando. As referências, vocês correm atrás. Afinal, alguém clica nessas porras?

O Lado Social de Um Blog

Mas o que realmente me toma tempo é o lado social desse blog. Em outras palavras, amigo leitor: você. Trazê-lo aqui e mantê-lo aqui.

Acredito muito em divulgação braçal. Desse jeito, levei o Projeto SobreSites a 4 milhões de pageviews mensais sem investir em publicidade. Do mesmo modo, gerei 150 mil pageviews para esse blog e outras 10 mil mensais para o site.

Ao longo de um ano, mandei email para todo mundo que me escreveu, respondi comentários, implorei links. Sempre achei que visibilidade e divulgação eram fundamentais, mas se você perde tempo demais nisso, não tem conteúdo para mostrar. Então, chega.

Esse blog chegou longe. Muita gente, com ou sem razão, considera o LLL sinceramente o melhor blog do Brasil. Estou linkado em um número gigantesco de blogs e sites. Apareço muito bem no Google. A treta continuará trazendo levas de novos punheteiros que podem ficar ou não.

Acho que o momento atual (fisicamente falando) já basta para que eu possa tirar o pé do acelerador e me concentrar em outras coisas.

(amanhã... outros projetos literários... alexandre e o poeta... resoluções de maio...)

Burguesia



Não entendo mais nada. Ipanema está fazendo 110 anos. Agora há pouco, no Jornal da Globo, Fernanda Montenegro afirmou que uma das vantagens de Ipanema era não ser um bairro burguês.

Como assim, Fernanda?

Quer dizer, se Ipanema não é um bairro burguês, o que é um bairro burguês? Andaraí? Favela do Rato Molhado? Freguesia do Ó?

Quando eu digo que essa palavra não quer dizer mais nada, vocês não acreditam em mim. Na cabecinha de Fernanda Montenegro, o melhor elogio que poderia fazer à Ipanema era não ser um bairro burguês. O que quer que isso signifique.


Monday, April 26, 2004

Elogio à Alienação



A Não-Alienação Não Leva a Nada

Em 2002, recém-falido, eu não tinha eira nem beira. Não via TV, não lia nenhum jornal ou revista, livros só da biblioteca e acessava a Internet via conexão discada, sempre precariamente, sempre rápido, e ainda gastava todo o meu dinheiro com pulsos excedentes. Futuro profissional? Nenhum. Dava aulas de inglês no cursinho do bairro e olhe lá.

Nunca fui tão feliz como em 2002. Foi o auge da minha alienação. Jamais fui tão egocêntrico. De certo modo, quando se vive assim, é quase como se o mundo não existisse. Mergulhei dentro de mim mesmo, descobri civilizações inteiras lá dentro, dobrei o Cabo Bojador, exporei a fossa das marianas.

Se eu passasse 10% do meu tempo na Internet era muito.

Nessa época, nasceu a persona do Liberal Libertário Libertino e foram gestadas (se não escritas) as prisões.

Em 2004, não sou mais alienado.

Em parte por causa da minha coluna na Tribuna, eu assino, e leio de cabo a rabo, a Folha, o Globo e a própria Tribuna. Além disso, também leio, na Internet, bons pedaços do JB e New York Times. E ainda fico passando a limpo sites de notícias como Ananova, Slate, Wired e outros, verdadeiro colunista-predador em busca de assuntos e novidades.

Meu horizonte profissional mudou. Sou colunista de jornal, emplaquei diversos serviços de consultoria para grandes empresas, mantenho alguns sites, mas continuo dando aulas no mesmo cursinho de bairro.

Tenho Velox e passo o dia inteiro conectado. Quando não estou escrevendo pro blog, estou editando posts, catando imagens, subindo imagens pro servidor, buscando links pros posts, pesquisando para uma coluna, entrevistando alguém, divulgando meu blog, respondendo comentários, comentando no blog dos outros, negociando trocas de links e divulgação, pra não falar, claro, de trabalhar pros meus clientes de consultoria e corrigir deveres de casa.

Alguns, quase todos, aliás, diriam que a minha vida melhorou.

Tenho dormido três horas por noite e estou cansado. Passo, fácil, 70% (talvez mais) do meu tempo conectado. Saio pouco. Leio quase nada. Há muito tempo, não saio flanando sem rumo pelas ruas.

Sinto falta do meu egocentrismo. A não-alienação não leva a nada.

Vocês Pensam?

Mas como posso escrever novas prisões se estou preso nessa rede de contatos? Como posso refletir se nunca mais fico sozinho? Não tenho tempo nem mais de ler, quem dirá de pensar.

Quantas vezes por dia vocês páram e pensam? Não estou falando de deixar o pensamento vagar enquanto cagam. Estou falando de pensar, pensar mesmo. Refletir sobre alguma coisa específica. Tentar chegar a alguma conclusão sobre alguma coisa. Levantar questões.

Alguém pelo menos sabe do que estou falando?

Pois é disso que sinto falta.

Pragmatismo Versus Conformismo

Em post anterior, Não Existe Almoço Grátis: Conformismo Nunca, Pragmatismo Sempre, alguém comentou que existe uma linha muito tênue entre essas duas coisas.

Na verdade, a diferença entre ambos os conceitos é enorme e grotesca, mas existem pontos de contato e interseção.

Pragmatismo é o que eu tenho que fazer pra conseguir o que eu quero. O pragmatismo é sempre ativo, mesmo que você, ativa e pragmaticamente, decida que a melhor coisa se fazer naquele momento é se ajoelhar e lamber as botas do inimigo. De forma pensada e consciente.

Conformismo é uma atitude perante a vida, é um temperamento, é uma doença cultural. Conformismo é fazer as coisas sem saber porquê, é obedecer as ordens sem se perguntar de onde elas vieram. É o não-questionar.

Muitas das pessoas que se acham as mais revolucionárias e rebeldes são, na verdade, tremendamente conformistas. Conheço muitos vanguardistas de butique. Na verdade, você dizer com quem anda não quer dizer nada. Se anda com os vanguardistas, com os revolucionários, com os radicais mas nunca questiona o que eles dizem, se você somente repete o que eles falam, se engole todos os dogmas acriticamente, então, meu amigo, você é um conformista.

Há pontos de interseção entre o pragmatismo e o conformismo. Quando você é forçado, pragmaticamente, a não fazer nada, um observador superficial pode achar que você está sendo conformista.

Na verdade, não há mesmo como ele saber. A diferença está no seu coração.

E Se Todo Mundo Fizesse Como Você?

Invariavelmente, alguém sempre pergunta isso. É uma das objeções mais idiotas que se pode fazer contra qualquer argumento ou idéia.

Imaginem um engenheiro projetando um prédio, calculando todas as variáveis possíveis, força do vento, erosão do solo, etc, e um intrometido vem dizer: e se cair um cometa no prédio?

Porra, diria o engenheiro, a possibilidade de isso acontecer é tão pequena que não precisa ser calculada, ou mesmo levada em conta.

Eu digo mais: a possibilidade de um cometa cair em um prédio é infinitamente maior do que a de todas as pessoas adotarem o meu estilo de vida. Até que porque a primeira é improvável, mas a segunda é impossível.

Naturalmente, isso não é algo que eu precise levar em conta quando exponho minha filosofia. Ainda mais importante, não é nem mesmo desejável.

Não estou falando com os outros. Não estou pregando no deserto para modificar o comportamento dos homens.

Estou falando comigo mesmo. Estou expondo como cuido da minha vida.

Você, por favor, cuide da sua como achar melhor.

Sou Mais Eu do Que o Mundo

Há pessoas combatem a alienação. São uns criminosos contra a humanidade. Sem nossa alienação, o que seria de nós?

Para escrever a coluna sobre o John Kerry, tive que pesquisar bastante, em jornais e blogs. Estou muito antenado (ou seja, nada alienado) sobre o assunto eleições norte-americanas.

Poucos assuntos poderiam ser mais relevantes. A vitória de um ou de outro candidato terá um impacto direto em nossas vidas.

Mas e daí? Essa não-alienação vai me ajudar em quê? Sou uma pessoa melhor por estar mais informado sobre a eleição? Isso me tornou mais maduro, mais sábio? Isso vai me ajudar na minha vida? Vou poder influir no curso dos acontecimentos?

Outro dia, num teste-surpresa, minha mulher pediu pra eu dizer três coisas que ela não gostava de comer. Eu não soube dizer nenhuma.

Saber que coisas minha mulher não gosta de comer é um conhecimento infinitamente (repito, infinitamente) mais importante do que saber qualquer coisa sobre as eleições norte-americanas, inclusive o simples fato de que elas vão acontecer.

Quanto mais antenado fico com o mundo, mais me distancio de mim mesmo. Sou mais eu do que o mundo a qualquer hora. Quem perde com esse processo de distanciamento sou eu, não o mundo. Está na hora de revertê-lo.

Há um universo inexplorado dentro de cada um de nós. O Waldomiro, o MST, os tiros na Rocinha, o homem na lua, a batalha de Stalingrado, tudo isso empalidece comparado aos enormes mistérios que carregamos conosco de um lado pro outro.

Eu quero explorar os meus.

Bem que o Babá Avisou



Meu cunhado recebeu um convite para trabalhar no FMI. Antes mesmo que eu pudesse fazer um post irônico sobre o assunto (so many puns, so little time), ele recebeu um email do Fundo pedindo mil desculpas e dizendo que o convite tinha sido um engano.

Deve ser terrível ser rejeitado logo pelo lado negro da Força. Bem que o Babá e a Heloísa Helena tentaram nos avisar.

Pré-Pauta de Segunda: Cybersquatters



Aos poucos, vão se formando as tradições. Eu penso na minha coluna durante o fim-de-semana, levo a questão à vocês na pré-pauta de segunda, vou esperando as respostas e pesquisando até terça, escrevo na quarta, mando na quinta e é publicada na sexta.

Pois estou pensando em escrever sobre cybersquatters. Ainda não pesquisei sobre o assunto, não sei se existe termo para isso em português.

Cybersquatters são aquelas pessoas que registram domínios de marcas que não são suas (tipo eu registrar o domínio "www.bancoreal.com.br") e depois tentam vendê-los aos donos verdadeiros das marcas por verdadeiras fortunas. Foi prática comum no começo da Internet e, hoje, muitos deles já começam a perder, na justiça, o direito a essas URLs.

Minhas perguntas não são retóricas. Estou aqui perguntando isso porque realmente quero saber. O que vocês pensam disso? Já tiveram alguma experiência nessa área? Têm alguma boa história pra contar?

Quem está com a razão nessa história?

Blogs de Jornalismo & Humor



Preciso da opinião de vocês. Estão gostando dessas seleções de blogs? Têm sugestões? Correções?

Jornalismo

Liberal Libertário Libertino
Meu blog constantemente aborda questões relativas aos jornalismo, especialmente jornalismo digital. Destaque, todas às sextas-feiras, para minha coluna Internet, publicada pela Tribuna da Imprensa.

Ponto Media
Indispensável. As últimas novidades do ciberjornalismo, pelo português António Granado.

Jornalismo e Comunicação
Blog colectivo criado pela turma do Mestrado em Informação e Jornalismo da Universidade do Minho, em Portugal. Excelente panorama da mídia mundial.

Xingatório da Imprensa
Versão informal e bem-humorada do famoso Observatório da Imprensa, esse blog se propõe a procurar e revelar os piores erros da imprensa brasileira.

Intermezzo
Mantido pela jornalista Daniela Bertocchi, o objetivo do Intermezzo é ser uma reflexão coletiva sobre narrativas jornalísticas digitais. Algumas das questões abordadas são as possibilidades de produção e edição de conteúdos jornalísticos no meio digital, que tecnologias estão disponíveis para isso e quais habilidades deve possuir um profissional especializado nessa área.

Mané Goiaba Sempre Alerta
Apesar do título, convenhamos, ridículo, oferece um excelente panorama das mais estranhas notícias de todo o mundo.

Jornalismo Online
Estudos e curiosidades sobre jornalismo online e comunicação, por Lorena Tárcia.


Humor

Cocadaboa
Orgulhosamente hospedados na Eslovênia e longe de qualquer processo judicial brasileiro, o Cocadaboa é o site humorístico mais impiedoso que já vi. Eles não respeitam nada, nem ninguém. Por isso mesmo, são indispensáveis.

Homem-Chavão
Uma resenha dos mais hilários chavões, lugares-comuns, trocadilhos e frases-feitas que infestam nosso dia-a-dia.

Eu Hein
Nelito Fernandes comanda um dos blogs mais engraçados do Brasil.

Leite de Pato
Humor e variedades por Adaílton Persegonha, roteirista do programa Casseta & Planeta.

Kibe Loco
Boa parte daquelas imagens humorísticas que rodam a rede de email em email surgiram primeiro no Kibe Loco.

Homem É Tudo Palhaço
Quatro jornalistas cariocas contam suas desventuras no mundo dos homens e concluem: homem é tudo palhaço. A história do Bodão, por exemplo, é uma das coisas mais engraçadas que já li em toda a minha vida.

Seu Madruga
Um estudante carioca reclama de tudo e todos.

Uma Dama Não Comenta
Lilaise e Giovana comentam, e o Mestre Delih responde. Impagável.

Mau Humor
Charges e tiradas de Arnaldo Branco.

Blog0news
Ricky Goodwin, também roteirista do Casseta & Planeta, comenta o noticiário com muito humor.

Galeria de Honra do Liberal Libertário Libertino

Clique para ver mais banners

O Fábio, do Von Martius, colocou um botão do LLL no seu blog, entrou para a Galeria de Honra (agora no área superior direita da tela) e não se arrependeu:

"Alexandre, Também quero agradecer por sua galeria de honra, tem sido bom pro meu bloguinho... Hugs!"

Outros blogs que entraram para a Galeria de Honra do LLL tiveram suas visitas dobradas. Um blogueiro que se recusou a colocar um banner do LLL no seu blog caiu em um bueiro e quebrou as duas pernas, ao mesmo tempo em que uma borboleta batia as asas na China. Teóricos do caos ainda não conseguiram ligar os dois fenômenos, mas estão trabalhando duro.

E você?

O toma-lá-dá-cá é descarado: você bota um botão do LLL no seu blog e entra automaticamente na Galeria de Honra.

Os botões disponíveis podem ser vistos nesse post ou na coluna da esquerda, ao lado, e as banners estão nessa página, sempre destacando uma frase marcante do blog. Eles são bonitos, elegantes, diferentes, intrigantes e, melhor de tudo, não piscam.

Clique para ver mais bannersTodo mundo ganha nessa divulgação. Eu vou ter os meus botões e banners espalhados por aí, e você vai ter seu link em uma área nobre aqui do blog, acima até mesmo dos Blogs Favoritos. Garanto que vou lhe mandar vários novos leitores.Clique para ver mais botões

Se você já gosta desse blog e vem sempre ler as novidades, pense com carinho nessa proposta. Colocar um botão no seu blog vai inclusive facilitar as suas vindas pra cá, ao invés de você ter que ficar o tempo todo digitando URLs. Pra mim, por exemplo, meu blog é a minha lista de favoritos: só visito os sites que estão linkados aqui.

Participe: um blog lava o outro.


Sunday, April 25, 2004

Esquinas da Internet



O sempre surpreendente Nei Duclós me enviou o seguinte email com uma bela metáfora para o dilema dos links:

"Acho que link é esquina: quando dois espaços virtuais se cruzam. Uma rua não endossa a outra. Uma não recomenda a outra. Apenas se cruzam.

Pode ser visto também como uma carona. Você nem sabe quem é, mas dá carona. Ou sabe mas não pode garantir o que o caroneiro vai fazer. Ou então: você está na estrada, alguém lhe carrega. Cruzamento, carona. Linkou."


Leia minha coluna Internet da semana passada Links: Endosso ou Recomendação? sobre a polêmica envolvendo John Kerry, as eleições norte-americanas e os blogs.

Visite o site de Nei Duclós.

Direto para a Galeria de Honra



O Anselmo, criador do Turma do Bar, serviço de hospedagem de blogs, acabou de dar a maior puxada de saco que esse blog já recebeu.

Ele incluiu um dos botões do LLL em seu blog, Informaticando, com o seguinte aviso:

"Clique no banner acima e fique mais duas horas na frente do seu micro."

Resultado: direto para a Galeria de Honra.

Blogs de Literatura & Sexo



Comentem, critiquem, sugiram. Essa matéria é um mega apanhado do mundo blogger brasileiro e preciso do feedback de todos.

Sexo

Suruba Digital
Em seu já mítico blog, Jozé de Abreu publica, todos os dias, as melhores fotos de sexo explícito.

Contos da Camaleoa
Diz a jornalista Camaleoa: "A verdade está entre suas pernas. Aprecie-a."

A Verdade É o Sexo, o Sexo a Verdade
O grego Konstantin Gavros escreve sobre as formas, os prazeres e as representações da sexualidade, tanto em sociedade como em diferentes manifestações estéticas.

Deusas do Fotolog
Uma seleção dos fotologs das maiores gatas do Brasil.

Uva na Vulva
Melhor blog lésbico do Brasil.

Por Prazer
Blog de relatos eróticos.

Fêmea no Cio
Literatura e sacanagem em um blog de contos eróticos.


Literatura

Liberal Libertário Libertino
Literatura, contemplação e sacanagem em um dos melhores blogs do Brasil. Podem confiar: o blog é meu, mas sou totalmente imparcial.

Aliás - Revista de Cultura Eletrônica
Panfleto eletrônico de cultura criado pela poeta e escritora Elaine Pauvolid, em 2000.

Alexandre Soares Silva
Diário da Corte de Pisuerga, escrito no Mais Triste Exílio pelo Cavalheiro de Beri-Beri. Delicioso blog do autor de "A Coisa Não-Deus" e "Morte e Vida Celestina".

Blog do Romance
Um blog sobre a técnica do romance literário, do ponto de vista do leitor.

O Polzonoff
Excelente blog do crítico literário e editor Paulo Polzonoff.


Saturday, April 24, 2004

Não Existe Almoço Grátis: Conformismo Nunca, Pragmatismo Sempre



Meu artigo Não Existe Almoço Grátis, publicado essa semana no Observatório da Imprensa, ainda nem começou a criar confusão. Esperem até terça-feira, quando sair a nova edição do Observatório com os comentários dos leitores da semana anterior. Por enquanto, convido todos os leitores desse blog a ir lá, ler a matéria e, de preferência, comentar.

Entre os emails que recebi está esse aqui, de um leitor que pediu para não ser identificado:

"Não concordo tanto com esse discurso batido de que temos que ser realistas, a realidade é assim mesmo, o ser humano é assim por natureza etc. Que tipo de liberal, libertino e libertário você é? Será liberal na acepção política que a palavra adquiriu? Ridicularizar quem se manifesta e, além disso, luta contra esta realidade aparentemente imutável é algo válido para alguém que se diz libertário?

Ah, e quanto a "ditadura invisível ou sutil", ela não é tão caricata como você colocou, ironicamente, na fictícia reunião dos "malvados" administradores dos provedores de internet citados. No entanto, ela também se manifesta de maneira sutil em cada um de nós, de alguma forma. Quando vimos um mendigo que bebe, na rua, muitos de nós o chamamos de vagabundo, cachaceiro e outras designações. Nem me refiro ao caso específico dos provedores, mas sim aos capitalistas de uma maneira geral: é evidente que as injustiças não estão explícitas em seus discursos. Talvez, nem sequer estas injustiças se manifestem de maneira consciente na cabeça de muitos.

Não discuto a cobrança de serviços de quem os presta e dos produtos de quem os produz, pois, como escreveste, vivemos dentro de uma realidade. No entanto, é direito de qualquer um tentar boicotar ao máximo esta, desde que, para isso, também não incida em outro tipo de injustiça. Portanto, não subestime a nossa inteligência com ironias como a "conversa" entre os administradores de provedores. Sabemos que a coisa não funciona assim.

Todo este meu texto confuso foi para dizer o seguinte: ninguém pode afirmar que a realidade em que vivemos é imutável, e não podemos ironizar quem age para mudá-la nem subestimar a sua inteligência. Posso até concordar com a cobrança dos blogs, pois ela faria parte de uma realidade (não sei até que ponto os provedores de blog não faturam com publicidade, mas tudo bem...), mas, nem por isso, tenho que ser conivente com tal realidade. Vvivemos sim em uma ditadura velada, isto é FATO!!"


Nunca disse que temos que aceitar o mundo como ele é. Fiz o oposto disso a vida inteira. Digo que temos que entender a realidade como ela é até mesmo para que possamos lutar contra ela e modificá-la.

Se você chega numa empresa com discurso de ativista de esquerda, eles vão rir na sua cara e você não vai conseguir o que quer. Se você chega com um discurso de consumidor consciente, é bem possível que consiga mudar a realidade em seu favor.

Quer dizer que vivemos em uma "ditadura velada"? E que fato é esse? Como se prova uma afirmação tão radical? Você tem algum "fato" para provar esse seu fato? Acho que nossas definições de fato são bem diferentes. Você pode até dizer que essa é sua opinião, bem como da maioria da esquerda alucinada, mas FATO não é. Estranho, pois em um país dominado pela esquerda, ela deveria ser a última gritando "lobo".

Sou liberal E libertário E libertino pois acredito que a liberdade é o maior valor possível, tanto em termos comportamentais, sociais, sexuais, econômicos e políticos. Para mais detalhes, leia meu artigo Libertário e Libertino, OK, Mas Liberal?!

E, para não falarem que sempre tenho a última palavra, publico aqui o email seguinte do meu leitor, que não responderei:

"Ah, e é evidente que sei que não adianta eu, sozinho, ir em uma empresa e sair proferindo um discurso de ativista de esquerda. Eles não iriam só rir da minha cara, ele iriam me prender e me dar muita porrada, através de seu instrumento particular, a POLÍCIA. Agora, se eu reunir 1000 pessoas para fazer um protesto frente a uma empresa que de alguma forma me lese, tentar ao máximo divulgar a minha manifestação e proferir, aos berros, em coro com meus amigos, discursos racionais e muito mais amplos do que a minha queixa em relação a tal empresa, discursos estes que façam sentido e, além disso, no meu dia-a-dia, tentar, junto com meus amigos, angariar mais pessoas para lutar pela minha causa, talvez a realidade como um todo possa mudar. No entanto, tenho certeza de que se eu for com um discurso de "consumidor consciente", no máximo terei o meu problema e de mais algumas pessoas resolvido (obviamente agora a discussão já fugiu do problema dos blogs), mas a realidade estará longe, muito longe de ser mudada.

Eu não tenho essa ambição egoísta, a qual você se referiu, de mudar a situação em meu favor, e sim em favor de todos.

E é fato sim que vivemos em uma "ditadura velada". Tente fazer uma manifestação contra o governo ou contra uma multinacional para ver se a polícia não vai descer o cacete em você. Ou então, tente divulgar uma mensagem ou notícia, com o mesmo alcanace de um dono de um jornal ou um anunciante famoso, sem dinheiro ou com sua renda mensal. Por fim, tente fazer um outdoor ou tente adquirir um espaço na televisão para veicular a sua mensagem. Tenho certeza que você muiiiiiiiito dificilmente consiguiria. Imagine alguém que viva com 150 reais por mês...

Se acha democrático o fato de você poder apenas colocar um banquinho no centro da cidade e gritar, como colocaste em seu texto, enquanto um milionário aluga um espaço na televisão durante 30 segundos em horário nobre e "hipnotiza" milhões de pessoas, parabéns, o mundo é muito justo para você. Só não tente formar uma banda e divulgá-la, pois muito provavelmente as "rádios-jabá" irão rir da sua cara.

Não tenho blog, acho até meio cômodo mesmo essas pessoas, se isso que eu for falar for verdade, só se insurgirem contra a realidade quando tem seus blogs prejudicados. Este seria um motivo muito fútil, se for o único que os levem a questionar a realidade."

Links Relacionados:
Não Existe Almoço Grátis
Libertário e Libertino, OK, Mas Liberal?!

A Urina de Maradona



Do Cumasca S/A:

"Cocaína é encontrada na urina de Maradona. Depois de receber a notícia o craque pediu pra tomar um gole."

Novos Links Recomendados



Galeria de Honra: Informaticando, do Anselmo Forati, fundador da Turma do Bar e Mr.Lion X.

Blogs favoritos: Querido Leitor, da Rosana Hermann, Jesus, me Chicoteia, do Marco Aurélio, La Fille Malgardée e Tia Cris

Blogs amigos, blogueiros ilustres e todo mundo que linka pra mim: Dama de Vermelho, Vem CaNada Comigo, Proibido É Melhor, Viber Blog, Enfim..., Pensamentos de Uma Batata Transgênica, La Fille Migraine, Cinzas da Batalha, Gueixa Bania, Cabide D'Askhalsa, Flores do Bem e Viagem à Minha Vida

Por Que Linkar Seu Blog



O Anselmo, criador do Turma do Bar, serviço de hospedagem de blogs, andou falando da questão de "linkar ou não linkar" no seu blog Informaticando. Dêem uma olhada:

"Li no blog Libertário Liberal Libertino do Alexandre um post sobre um político que retirou o link de seu site que apontava para o blog de um dos seus corregilionários por causa de algo que este tinha escrito e que o político não concordava. Alexandre questionou em seu blog: Eu preciso concordar com o que é escrito nos blogs que eu linko?

Se isso fosse lei, eu estaria perdido. Muitas vezes escrevos coisas absurdas, que nem eu mesmo concordo, só para ver a reação das pessoas que me visitam (tanto aqui quanto no Lupo).

Quando linko alguém,isso significa que eu gosto do conjunto da obra, mas eventuialmente posso ser radicalmente contra alguma idéia específica. Se o LLL fizer um post criticando arduamente este blog (por exemplo), o máximo que eu posso fazer é um post dizendo que ele está errado e é chato. Ou não. Vai que ele está certo? Vai que eu pisei na bola?

Em qualquer um dos casos eu tenho mais é que agradecer.

Mais do LLL: Em outro post (este mais antigo), o Alexandre fala sobre a importância dos links como critério de colocação na ferramenta de busca "Google", uma das mais utilizadas no mundo.

O Google, explica Marcelo, entende que "quantos mais links um site recebe, mais importante ele é". Desta forma, um site que é visitado por 1.000 pessoas por dia mas que não tem nenhum outro site "apontando" para ele vai ficar numa posição abaixo daquele que nunca é visitado, mas é referenciado em uma dezena de outros sites.

É claro que o google não é assim tão simples, mas ele tem razão. Se o seu objetivo é aparecer "lá em cima", uma forma é fazer com que vários sites coloquem links para o seu blog. Não importa o lugar e se ele será ou não clicado: O importante é ter o link."


Pra ler o resto, só indo lá: Informaticando.

Novo Flog: The_Finger

Shaninha

Desde que o mundo é mundo, nós, homens, admiramos embasbacados as belas mulheres. E elas, via de regra, apreciavam nosso olhar, gostavam de se sentir desejadas.

Assovios e beliscões, claro, nunca foram aceitáveis, mas que mulher que não gosta de andar pela rua e fazer dezenas de pescoços girarem simultaneamente?

Agora, elas estão revidando.Brittany: Pés e The Finger

Nada mais comum na Internet do que fotos de belas mulheres mostrando o dedo médio para a câmera. Sorriso zombeteiro nos lábios e dedo médio em riste, elas desafiam nossa apreciação, desprezam nossa idolatria. Parecem estar dizendo: está olhando o quê, idiota?

Ou, pior ainda: pode olhar... e só! Acha mesmo que eu daria bola... pra você?! Aqui o que você merece, ó... e pimba!, lá vem o dedo.

Confesso que acho essa posição tremendamente sexy.

MitchaObservem a foto principal. Há algo de diabólico e provocador em uma menina linda como essa, barriguinha lisa, seios fartos, saboneteira definida, sorriso brilhante... me dando uma banana!

Malvada!

Porque The_Finger

Ultimamente, tenho visto muitas gatinhas do fotolog mostrando o dedo médio pra câmera. Parece ser uma das poses mais populares. Fiquei curioso? Por que essas menininhas lindas se deixam fotografar fazendo um gesto tão feio? E, mais ainda, por que isso é tão incrivelmente atraente?

O contraste entre a beleza da menina e a agressividade do gesto é justamente o que faz esse tipo de foto tão excitante e intrigante

De fato, tão excitante que vou gastar R$15 por mês só pra descobrir que tipo de fotos que as pessoas vão postar lá no The_Finger.

Além de tudo, ainda sou podólatra doente e adoro umas solinhas. Então, se as meninas quiserem, realmente, fazer o meu ano, vão mandar fotinhas de seus dedos médios e de suas solinhas também. Dá pra fazer, vejam os thumbnails.

Fotos de homens vão ser sumariamente deletadas. Argh.

Enquanto o The_Finger não vira um flog de grupo (se é que vai virar), por favor, enviem suas fotos por email.The Finger e solas dos pés

Tentarei dar crédito para as fotos sempre que puder, mas já não lembro de onde tirei a maioria delas. Se alguma delas for sua, basta provar isso pra mim e eu ou lhe dou crédito ou tiro a foto do ar, você que sabe.

Por favor, visitem também meu flog normal (ou quase).

Aproveitem!

The_Finger

Blogs de Celebridades



Ainda aquela resenha de blogs na qual estou trabalhando. Quem souber de outros, pode avisar.

Los Hermanos
Clipping, fotos e novidades sobre a banda.

Gerald Thomas
Mais do que simplesmente o blog de um famoso, Gerald Thomas mantém um excelente blog, onde aborda questões polêmicas da atualidade.

Leila Pinheiro
Saiba tudo sobre a cantora, os filmes que está vendo, seu calendário de shows, até mesmo fotos de seus cachorros.

Léo Jaime
O roqueiro Léo Jaime é dono de um texto leve e engraçado.

Luana Piovani
A maravilhosamente bela Luana Piovani mantém um blog onde fala de sua carreira e projetos.

William Shatner
Até o Capitão Kirk tem da blog. E pensar que quando ele era mais novo, lá no futuro, nem existia Internet!

Michael Moore
Vocês acham mesmo que Michael Moore não teria um blog? Impossível. Aqui está. As coisas vão ficar quentes por lá por causa da eleição.

Avril Lavigne
Diário de estrada da nova sensação entre os adolescentes.

Maurício Manieri
Saiba tudo sobre a vida do cantor.

Ultraje a Rigor
Será que os mais novos ainda sabem quem é o Ultraje a Rigor? O blog do Roger é tão engraçado e divertido quanto a galinha Marylou, e valeu muito a pena.

Samara Felippo
Típico blog de menininha que, afinal, é o que Samara Felippo é, então não cabe criticar a moça. As fãs vão adorar.

Amarelo Manga



Amarelo Manga, de Claudio AssisAmarelo Manga é um filmaço.

Em que outro filme se vê um açougueiro machão, que começa destripando um pedaço de carne com um facão e dizendo que não há nada que ele não mate, terminar o filme sem matar ninguém?

Além disso, Dira Paes está linda. Ela é paraense, como minha mulher, e as duas se parecem bastante. Por que Dira Paes só faz papel de mulher do povo, empregada doméstica, essas coisas? Meu sonho é ver Dira Paes de grã-fina ou embaixadora do Brasil na França.

O segredo de Amarelo Manga é um só: Walter Carvalho, um dos melhores diretores de fotografia do mundo. Apesar de mostrar coisas bem impalatáveis, o filme é um desbunde visual.

Amarelo Manga custou somente R$450 mil. Nessa excelente resenha do Omelete, o diretor Cláudio Assis declara:

"Num país que não tem escola, não tem saúde, não tem nada, você não pode ficar dando R$ 8 milhões para burguesinho falar de suas crises existenciais e passear pelo Brasil. Se é dinheiro do povo tem que respeitar."

Tirando o "burguesinho", adorei.


Friday, April 23, 2004

A Milésima Segunda Utilidade



Do excelente Blog0news, de Ricky Goodwin:

"A Bombril foi a empresa que mais teve prejuízos em 2003 em toda a América Latina. Se em 2002 tivera um lucrode R$ 603 milhões em 2003 apresentou uma conta negativa de R$ 1.853 bilhões. O motivo principal do prejuízo, desta empresa que praticamente monopoliza a palha de aço no Brasil, foi a retirada de um bilhão e meio de reais. Pra cobrir o rombo da Bombril na Itália. A isto se chama globalização."

Será que eu perdi alguma coisa? Qual é o problema?

Uma das razões de ser das multinacionais não é justamente poder usar os lucros de uma subsidiária mais bem-sucedida para ajudar outra deficitárias? A vantagem do McDonald's sobre o Bobs é que se o Mc brasileiro der prejuízo, a matriz pode usar os lucros do Mc japonês pra cobrir o rombo, enquanto que se o Bob's der prejuízo, bem, fudeu.

Isso é pra ser uma coisa ruim?

Amigos, Amigos...



Estou há tempos para escrever sobre isso. Ainda vou.

Por enquanto, posto somente esse breve comentário do Marco Aurélio: "Não importa há quanto tempo você lê este blog, nem o quanto você gosta do que eu escrevo: isso não faz de você meu amigo. NÃO FAZ, ok?"

É por essas e outras que, já no Orkut, eu estou marcando todo mundo como acquaintance (conhecido) a não ser as pessoas que eu conheça pessoalmente ou, pelo menos, tenha uma forte relação cibernética.

Diogo Mainardi



Citado pela Tia Cris: "Por que implicamos tanto com as terras improdutivas? Se a improdutividade fosse um critério válido para a desapropriação, a esta altura Lula já teria sido despejado do Palácio do Planalto."

Questão de Alta Indagação



Pérola pinçada em La Fille Malgardée: "Se, aos dois terços do Suflair, você percebe que ele não resolverá os seus problemas, você pára de comer ou afoga as mágoas no restante?"

Links: Endosso ou Recomendação?

Leia hoje, na minha colunaLeia hoje na minha coluna:

Links: Endosso ou Recomendação?

A Internet é uma nova fronteira cultural. Tudo ainda está por fazer. Tateamos no escuro sem regras, sem tradições, sem precedentes. Cada nova situação é um dilema a ser pensado, resolvido e convencionado.

Decisões bobas, tomadas por motivos efêmeros, podem criar jurisprudência e se estender por gerações. Quem vive na fronteira precisa tomar muito cuidado.

Que Se Danem!

Em outra coluna, falei sobre o impacto da Internet nas eleições presidenciais norte-americanas. Howard Dean trouxe os blogs para a política e, depois que se retirou da corrida, John Kerry adotou seus métodos e, também, seus militantes-blogueiros.

Senador John Kerry, candidato democrata à PresidênciaDois dos blogs mais ativos na campanha de John Kerry à presidência eram o Daily Kos, de Markos Zuniga, também conhecido como Kos, e o Eschaton, de Atrios, cuja identidade é desconhecida. Somados, ambos têm, diariamente, uma média de 300 mil pageviews. Já arrecadaram uma fortuna para John Kerry e são, em larga medida, responsáveis por popularizar a eleição entre os internautas.

A história parecia estar indo bem, os democratas tinham descoberto como potencializar uma ferramenta na qual os republicanos apenas engatinhavam e, se tudo continuasse assim, adeus Baby Bush em 2005.

Entretanto, no começo desse mês, no dia em que as imagens de quatro americanos carbonizados e pendurados em uma ponte assombraram o mundo, Kos teve a temeridade de escrever:

"Toda Morte Deveria Estar na Primeira Página.

Que as pessoas vejam como é a guerra. Isso não é um videogame. As besteiras de Bush têm repercussões reais. Não sinto nada em relação à morte de mercenários. Eles não estão no Iraque cumprindo ordens, ou tentando ajudar o povo. Estão lutando pelo lucro. Que se danem.

Every death should be on the front page

Let the people see what war is like. This isn't an Xbox game. There are real repercussions to Bush's folly. That said, I feel nothing over the death of merceneries. They aren't in Iraq because of orders, or because they are there trying to help the people make Iraq a better place. They are there to wage war for profit. Screw them."


Kos foi atacado por todos os lados e ainda perdeu vários patrocinadores. Logo depois, tentou se explicar: o problema não era nem a morte dos mercenários, mas o fato de cinco soldados americanos, também mortos naquele mesmo dia, terem sido ignorados pela imprensa. Eles, sim, eram verdadeiros heróis, cumprindo seu dever em uma guerra que não era sua culpa:

"I was angry that five soldiers -- the real heroes in my mind -- were killed the same day and got far lower billing in the newscasts. (...) Back to Iraq, our men and women in uniform are there under orders, trying to make the best of an impossible situation. The war is not their fault, and I will always defend their honor and bravery to the end of my days. (...) So not only was I wrong to say I felt nothing over their deaths, I was lying. I felt way too much. Nobody deserves to die. But in the greater scheme of things, there are a lot of greater tragedies going on in Iraq (51 last month, plus countless civilians and Iraqi police). That those tragedies are essentially ignored these days is, ultimately, the greatest tragedy of all."

Política é a arte da sobrevivência. Prontamente, a equipe do blog de John Kerry tirou o link para o Daily Kos, declarando:

"Respeito

Em vista da declaração inaceitável sobre a morte dos americanos feita pelo Daily Kos, nós retiramos o link para esse blog do nosso site.

Respect

In light of the unacceptable statement about the death of Americans made by Daily Kos, we have removed the link to this blog from our website."


Cada ato nesse drama ajuda a rachar ainda mais a frágil blogosfera democrata americana. O blogueiro Atrios, outro grande cabo-eleitoral de Kerry, não gostou nada da história:

"Eu achava que já estávamos crescidinhos. Achava que todos já meio que entendíamos como esse brinquedo chamado Internet funcionava. Achava que todos entendíamos que ter links para um site não lhe torna responsável por todo o conteúdo desse site. Achava que todos entendíamos que colocar um anúncio em uma mídia - incluindo blogs ou sites - não significa um endosso implícito a todo o conteúdo dessa mídia. Isso não quer dizer que não exista uma relação entre linkador e linkado, ou entre anunciante e veículo, mas é uma relação fluida. É razoável associar um anunciante ao tom e conteúdo do veículo em que escolheu anunciar, sem responsabilizá-lo por cada palavra dita.

"I thought we were all grownups now. Years later, I thought we'd all figured out sort of how this magic new gizmo called the internet worked. I thought we all understood that a linking to website does not hold you responsible for all of the content there. I thought we understood that an ad placed on a media outlet - including blogs and other websites - was not an implicit endorsement of all of the content found on those sites. That isn't to say that there's no association between linker and linkee, or between advertiser and the content on a media outlet, but it's a fairly loose one. Meaning that it's reasonable to associate an advertiser with the overall tone and content of their chosen outlet, without making them responsible for every single word uttered."


Atrios pediu para que seu link também fosse retirado do blog de John Kerry e anunciou não mais levantar fundos para a campanha do democrata. Não foi o único. Muitos militantes sentiram que a equipe de Kerry jogou aos lobos um dos seus principais colaboradores ao primeiro probleminha que surgiu. Pegou excessivamente mal.

Às vésperas de uma feroz batalha voto-a-voto, Kerry perdeu dois de seus principais cabos-eleitorais, e ainda desagradou muitos outros, com uma única canetada. Terá agido certo?

Teorias Excludentes

Para Atrios, um link é um tipo especialmente fluido de relacionamento: uma recomendação, nunca um endosso, indicando somente uma sintonia de tom e conteúdo.

Antes de escrever essa coluna, conversei sobre o assunto com os leitores do meu blog. Sem exceção, todos concordam com a teoria de Atrios. Mas um deles fez a seguinte ressalva:

"O político (...) poderia até deixar o link se conseguisse responder bem a ele (o que pode ser positivo), mas se ele for diminuído pelo link, nada mais natural do que removê-lo. Políticos assumem posições ideológicas. Ao receber um posicionamento contrário, que não consegue responder, ele vai desconversar, se esquivar, fazer algum jogo de palavras... mas dificilmente vai assumir o erro."

A equipe de John Kerry parece interpretar link de forma bastante conservadora. O blog do candidato agora se considera responsável pelo conteúdo de todos os sites para os quais possui link e irá remover o link de qualquer site com conteúdo questionável.

Uns dizem que a batalha será inglória: não há como exercer esse tipo de fiscalização em milhares de blogs. Outros ressaltam que, se os democratas queriam segurança, o tiro saiu pela culatra: a longo prazo, perder Kos e Atrios, entre outros, pode ser pior do que qualquer repercussão negativa do episódio entre a população em geral.O blogueiro Markos Moulitsas Zúniga, conhecido como Kos

A teoria de Kerry abre um precedente perigoso. Hoje em dia, não é assim que os links são entendidos, mas podem vir a ser, especialmente com o endosso do futuro presidente.

Por outro lado, dá pra entender a cautela de Kerry. A maioria da população ainda não tem Internet e não entende as leis da nova fronteira. Eu quase posso ouvir as chamadas da emissora direitista Fox News Network, bradando: "Kerry apóia o linchamento de americanos! Daqui a pouco, no jornal das seis!"

A equipe de John Kerry fez o que tinha que fazer. Tomara que essa decisão não lhe custe a Casa Branca. E tomara, mais ainda, que a cultura internética não pague o preço desse novo precedente.

Links Relacionados:
Daily Kos - de Markos Zuniga (Kos)
Eschaton - de Atrios
John Kerry - blog oficial

Uma versão bastante editada desse texto foi publicada na minha coluna Internet, na Tribuna da Imprensa, no dia 23 de abril de 2004. A versão não-editada que você está lendo nesse blog é de minha inteira responsabilidade e contém informações que não foram aprovadas e muito menos publicadas pela Tribuna da Imprensa. Quaisquer reclamações, portanto, devem ser dirigidas a mim. Para conferir a versão autorizada publicada na edição impressa da Tribuna da Imprensa, clique aqui.


Thursday, April 22, 2004

Orkut



Essa porra de Orkut me parece uma colossal perda de tempo.

É pra colocar imagem? Não, não é um flog. É pra colocar textos? Não, não é um blog. É pra falar com pessoas em tempo real? Não, não é nem chat nem instant messaging.

Então para que catzu serve isso? Para sugar o nosso tempo.

Minha mulher no Orkut parece uma viciada com sua última carreirinha: mais um email, mais um perfil, mais um amigo!, e eu puxando ela pra longe do computador.

Enfim, entrei.

Quem ficava me perguntando dos filmes que eu gosto, das músicas que eu ouço, bem, esse povo agora já tem onde ir.

Veremos onde essa nova mania vai dar.

Traduzir Português



Em geral, tanto autores brasileiros que publicam em Portugal quanto autores portugueses que publicam no Brasil têm algo em comum: ambos se recusam a "traduzir" seus livros para o português d'além-mar.

Nem sempre, entretanto.

"O Reserva", romance do português Rui Zink, é uma exceção. Por tratar de um tema cujo jargão lusitano seria bem diferente do nosso, futebol, o autor concordou em adaptar algumas palavras ao nosso idioma. Assim, relvado virou gramado, suplente virou reserva, etc.

Antes que os puristas comecem a chiar, considerem o seguinte: se eu fosse, digamos, francês e quisesse ler o livro de Zink, eu poderia lê-lo no conforto do meu idioma, com tudo explicadinho pra mim do jeito que eu entendo.

Mas, sendo eu brasileiro, sou penalizado por meu idioma ser próximo e, ao mesmo tempo, tão distante do idioma falado por Zink: o livro não só não é falado na minha língua como também não é nunca traduzido.

Nesse limbo de incompreensão, só faz aumentar o fosso que nos separa dos irmãos portugueses.

Como eu sempre digo, a língua é um instrumento de comunicação e é só pra isso que ela serve: se a palavra chaimite não me comunica nada, por que usá-la somente em nome de um purismo ufanista? Melhor adaptar o livro e dar aos brasileiros lendo romances portugueses (e vice-versa, claro) o mesmo conforto que teriam os franceses lendo Lobo Antunes ou os alemães lendo Moacyr Scliar.

Aliás, chaimite é tanque de guerra.

Fotos de Gisele



Mônica Bergamo de ontem, na Folha:

"Mistério em Nova York, envolvendo Gisele Bündchen: ao assistir ao show de Caetano Veloso no Carnegie Hall, a modelo ficou tão emocionada que sacou da bolsa sua câmera digital e passou a fotografar. Um segurança americano se aproximou e tirou a máquina da mão dela, à força. Gisele ficou desesperada. "Nessa câmera tem fotos muito íntimas!" Vendo o pânico da top model, a mulher do cantor, Paula Lavigne, resolveu encarar o segurança. Tanto fez que ele devolveu a digital. Parte da platéia, no entanto, não parou até hoje de comentar: que fotos seriam essas que quase levaram Gisele às lágrimas?"

Outras Encarnações da Escola Urbana



Primeiro, identifiquei e batizei a corrente literária Escola Urbana, baseada em tédio e repetição. Depois, a artista plástica e minha irmãzinha do coração, Isabel Löfgren, aplicou alguns destes conceitos às artes visuais, tentando caracterizar o que seria a Escola Urbana das artes plásticas.

Agora, o Naldinho, do Singrando, velho leitor, aplica esses mesmos conceitos ao seu campo, a música, para analisar o processo de criação da música contemporânea.

Parece que minha análise está fazendo escola.

"Iconoclastia. Atonalismo. Experimentalismo. Coragem. Diversão. Liberdade total de criação. Fuga dos padrões da música pop. Ou da música." Estas são as palavras iniciais da revista virtual Fluxonline em texto sobre o novo cd do novo pexbaA. São elogios que se casam com qualquer loucura. Antes de entrarmos no mérito do trabalho do pexbaA, quero discutir o assunto sob uma outra ótica.

Uma série de textos do Alexandre Cruz Almeida me impressionou muito. Nestes textos ele afirma que há uma estética usada na confecção de romances, com características determinadas, que são seguidas fielmente, a que chama Escola Urbana, cujas características são: protagonistas apáticos, comportamento auto-destrutivo, falta de enredo, excesso de palavrões e algumas outras boas sacadas. Neste caminho, Isabel Löfgren, artista plástica e velha amiga do Alexandre, publicou texto fazendo um paralelo da escola urbana com as artes plásticas, e nos revela maneirismos dos pretensos artistas como: quanto pior melhor, meu corpo é minha tela, eu me filmo me filmo me filmo, usar e transformar objetos cotidianos, e por ai vai.

Não tenho a pretensão de fazer o mesmo trabalho, com a música, sei que me falta a acuidade do Alexandre, mas nào posso deixar de fazer algumas observações. Quando se pretende criar uma música contemporânea, a primeira coisa que se faz é adotar o barulho como base de trabalho. Depois o uso do desconexo é levado ao exagero. A dissoância, ritmo sem sequência, instrumentos em solos antagônicos são outros truques amplamente usados. A impressão que fica, é que há uma fómula para composição, uma fórmula fácil porque cria clima de música de difícil interpretação, quando na verdade é um amontoado de maneirismos. Bem diferente de uma obra linear, que com suas dificuldades melódicas e a necessidade de se superar onde quase tudo já foi feito, leva o compositor a um verdadeiro processo criativo."


Leia o artigo completo PexbaA: O Novo É Sempre Bom?


Wednesday, April 21, 2004

Caetano Desmente O Globo



Sábado retrasado, 10 de abril, comentei uma matéria de O Globo sobre um pretenso visto exclusivo que havia sido negado a Caetano Veloso. Os tambores patrióticos começaram a rufar e até mesmo o normalmente sóbrio Itamaraty já havia designado um funcionário esclusivo (pago por nós!) somente para descolar esse privilégio para Caetano (privilégio ao qual poucos de nós têm direito!)

Aparentemente, não era nada disso. Sábado passado, O Globo publicou um artigo escrito pelo próprio Caetano onde ele não só dá esporro no jornal como desmente a história toda:

"Falsos Escândalos que Podem Resultar em Verdadeiros Pesadelos

O Globo publicou reportagem de primeira página no Segundo Caderno sobre mim, dizendo que as autoridades americanas tinham me negado um visto especial por causa de elogios que eu teria feito a Osama bin Laden. E o fez de modo espalhafatoso, com duas fotografias minhas coloridas, numa das quais apareço de barba postiça (uma homenagem ao grupo Los Hermanos em festa da MTV), além da manchete "Entre Tio Sam e Bin Laden". A informação de que um visto me tinha sido negado não era verdadeira. O Carnegie Hall, que me contrata, pediu visto do tipo P3, assim como para todos os músicos que viajam comigo.

Pedido que foi atendido prontamente. Há algum tempo venho entrando nos Estados Unidos com visto do tipo O1 (especial). Meu escritório entrou em contato com os contratantes e com os diplomatas brasileiros em Nova York para corrigir o pleito. O que foi feito com o resultado esperado. O resto é folclore de redação. A correspondente em Nova York afirma que ouviu de fontes não reveladas a história de que o problema com o visto se deveu a restrições do serviço de imigração americano ao meu nome por eu ter dito, em 2001, que Osama bin Laden era bonito. A versão apresentada por meu escritório (e que reitero aqui) é obviamente satisfatória. A outra não se sustenta: como pode ter surgido esse problema agora, se a alegada declaração foi feita em 2001? O Globo tem que reconhecer que foi um momento de mau jornalismo e pedir desculpas a seus leitores. A mim em primeiro lugar.

Sobretudo porque, para além do involuntário aspecto Agamenon Mendes Pedreira da reportagem, há o peso do assunto abordado. Tenho as melhores relações com O GLOBO, cujo respeito pela música popular brasileira chega a comover, numa fase em que a moda é a irreverência afetada, em geral copiada dos doentios jornais ingleses dedicados à música popular. E há muito que estou cansado dos repetidos embates com a imprensa. Mas não considero inofensivo esse tipo de matéria, sobretudo quando sou usado como personagem para criar falsos escândalos que podem resultar em verdadeiros pesadelos a médio prazo. Não acredito sequer que esse boato tenha partido do corpo diplomático brasileiro em Nova York (o vice-cônsul negou peremptoriamente a hipótese). Mas ainda que a correspondente tivesse ouvido boato semelhante, por que, sabendo da história do pedido do Carnegie (sim, pois Paula Lavigne foi citada como tendo contado a versão que eu sei ser a verdadeira, embora ela não tenha dado entrevista à correspondente) a redação do Segundo Caderno optou por centrar a matéria no boato, chegando ao cúmulo de afirmar ter havido negação de visto? Numa segunda reportagem, em que o jornal teve que noticiar a expedição do visto O1, insiste-se na confirmação da história infundada que serviu de motivo à primeira. Sinto muito, mas tenho que externar meu repúdio a esse tipo de jornalismo. E que o leitor de hoje saiba: eu não saí por aí dizendo que Osama bin Laden era bonito porque quisesse dizer algo chocante depois do 11 de setembro. Eu apenas reagi a uma piada que era bem semelhante a essa matéria do GLOBO agora: em 2001 circulou na internet uma foto minha com barba aplicada por computador sob a qual se lia "PROCURA-SE OSAMA BIN LADEN. ELE PODE SER ENCONTRADO NO BAIRRO DO RIO VERMELHO EM SALVADOR".

Protestei contra a temeridade da brincadeira e, perguntado sobre a semelhança física entre mim e o terrorista, desmereci a questão com um comentário objetivo: esse aspecto não me incomoda pois ele é bonito como eu, meus familiares e os iemenitas em geral. E o serviço de imigração me concedeu vistos do tipo O1 depois disso. Coisa que voltou a fazer agora mesmo. Se eles mo tivessem negado, eu seria o primeiro a discutir de público a questão. Como não o fizeram, sinto-me no dever de discutir a reportagem que afirma que assim foi.

NOTA DA REDAÇÃO: O Globo acolhe com respeito as opiniões e informações de Caetano Veloso. A reportagem citada, baseada em fontes que pareceram confiáveis ao jornal no momento de sua elaboração, não teve a intenção de causar nenhum constrangimento ao cantor. Procurava mostrar, baseada também em casos de outros artistas, o cerceamento cultural que a guerra ao terror nos EUA está produzindo. Tanto melhor, para Caetano e para a MPB, que isso não tenha acontecido no seu caso."

Rosana Hermann



A incrível Rosana Hermann, do Querido Leitor, fez um post sobre mim e é impressionante a quantidade de pessoas que ela está mandando pra cá. Peço aos meus poucos leitores que retribuam o favor. Vão sem medo: vale muito a pena.

Internet vs Televisão



O novo leitor Upiara Boschi, que chegou em mim pelo Observatório, fez o seguinte comentário:

"Estava lendo seu texto no Observatório. A argumentação tá muito bem feita, as réplicas aos blogueiros estão divertidas, etc. A velha frase-clichê "não existe almoço grátis" poderia até ser uma argumento imbatível.

Se a televisão brasileira já não servisse café da manhã, almoço e janta grátis há cinqüenta anos. Alguém paga, é claro que alguém paga. A publicidade. E talvez essa onda de mudança de regras em serviços que antes eram grátis seja somente reflexo da incompetência das empresas de internet, que ainda não descobriram como se sustentar com publicidade. Fonte que possibilita à TV e ao rádio distribuírem mais almoço grátis que a família Garotinho.

(Não foi um blogueiro quem disse, foi o Thiago Lacerda, no primeiro anúncio do iG: a televisão brasileira é uma das melhores do mundo e você não paga nada por isso... por que precisa pagar pela internet?)"


É uma observação pertinente e absolutamente precisa.

Com certeza, a televisão ser gratuita e viver só de publicidade é sua grande força. E, com mais certeza ainda, a Internet não conseguir viver só de publicidade e precisar cobrar é sua grande fraqueza.

Mas isso não invalida nem uma linha do que eu falei. Basicamente, eu só disse duas coisas:

1) Não temos direito de exigir que nenhum serviço nos seja dado de graça. As empresas dão se quiserem. E, se são incompetentes e/ou ineficientes e não conseguem ganhar o suficiente com publicidade para dar seus serviços de graça, azar o delas. E nosso.

2) O velho anúncio do iG está certíssimo: ninguém precisa pagar por nada na Internet. Liberdade (inclusive liberdade de mercado) é isso. As empresas cobram se quiserem e os consumidores também só pagam se quiserem, se acharem que o serviço vale a pena. Senão, deixa as empresas falirem e dane-se

Ridículo é exigir por serviços gratuitos como se isso fosse um direito adquirido.

Leiam meu artigo Não Existe Almoço Grátis, no Observatório da Imprensa, e não esqueçam de opinar depois.


Tuesday, April 20, 2004

Sexo Sem Intermediários: Prostituição, Jornalismo e Internet



Leia esse artigo no Observatório da Imprensa, número 272, de 13 de abril de 2004Confiram a repercussão de minha matéria Sexo Sem Intermediários: Prostituição, Jornalismo e Internet no Observatório da Imprensa. Mil agradecimentos ao Paulo, Gabriel e Naldinho, leitores aqui do blog, que foram lá comentar. E, agora, peço que meus fiéis leitores vão lá comentar também a matéria dessa semana, Não Existe Almoço Grátis. Valeu mesmo!

Prostituição e disfarce

Muito boa a matéria, interessante como a prostituição faz parte do nosso mundo e todos tentam disfarçar. (Paulo Mode)

Mesmice acomodada

É ótimo ter uma visão crítica e com novo enfoque para problemas debatidos na mesmice acomodada. Deixando de lado o falso moralismo, devemos pensar em melhores condições e liberdade de trabalho para aquelas (e aqueles) que perfilam na eterna profissão? É bom pensar! (Naldinho Siqueira)

Fonte de renda

Excelente matéria. Em outros momentos foram questionadas as fotografias explícitas que eram publicadas nos jornais, mas os anúncios em si, não! Afinal, são fonte de renda! Resta saber o que vai ser feito a respeito disso. (Maria Pons, analista de sistemas, Porto Alegre)

Hipocrisia denunciada

Ótima matéria, especialmente pela denúncia da hipocrisia de certos jornais de grande circulação. (Gabriel Costa, estudante, Rio de Janeiro)

Não Existe Almoço Grátis



As pessoas na Internet cismam em querer tudo de graça e ainda se ofendem quando as empresas tentam cobrar. Leiam, na edição dessa semana do Observatório da Imprensa, meu artigo Não Existe Almoço Grátis.

Leia esse artigo no Observatório da Imprensa, número 273, de 20 de abril de 2004Originalmente publicado aqui no blog, em outubro do ano passado, foi reescrito para publicação no Observatório. O artigo apresenta, entre outras coisas, uma entrevista com Daniel Braga, dono do Comentar, o melhor serviço de comentários do Brasil. A polêmica Ética vs Estética, sobre a moralidade de tirar os banners do seu blog, também foi incluída nesse artigo.

Vão lá, leiam e, depois, cliquem em "Canal do Leitor: Comente Essa Matéria", no rodapé da página, para mandar sua opinião para o pessoal do Observatório.

Um trecho:

"Ter um blog de graça não é um direito. Não é nem um privilégio, no sentido estrito do termo. É, digamos, um presente.

Existem empresas, empresas que empregam muitas pessoas, empresas que tiveram custos altos para desenvolver essas ferramentas de publicação de blogs, empresas que ainda têm custos altos todos os meses para manter milhares de blogs no ar. Essas empresas não têm obrigação nenhuma de oferecer de graça as ferramentas que lhes custaram tanto para criar e lhes custam tanto para manter.

Mais ainda, não há nem mesmo expectativa de que deveriam oferecer seu peixe de graça. Ninguém espera que o Jornal do Brasil gaste uma grana fazendo um bom jornal para depois distribuir gratuitamente. Por que o Blig então teria que fazer isso?

Imagine que você vá a uma empresa de outdoors e queira veicular uma mensagem de graça. E, quando ele cobra, você reage, indignado: "O quê?? Cobrando de mim?! Isso é um atentado à liberdade de expressão! Eu tenho que poder me expressar como eu quiser! E a inclusão outdoorial!? Sabe quantas pessoas não têm acesso a se manifestar num outdoor?"

E o dono da empresa vai suspirar e dizer:

"Olha, isso é tudo muito bonito, mas eu tenho custos, contas a pagar, funcionários. Para se expressar no meu outdoor, custa 150 reais por mês. Mas isso não interfere na sua liberdade de expressão. Você pode se expressar por qualquer outro meio... que não crie custos para mim! Pega um caixote, sobe nele e vai gritar na praça, por exemplo..."

É muito fácil querer ter liberdade de expressão, mas mandar outra pessoa pagar a conta."

Leiam meu artigo Não Existe Almoço Grátis.

Novos Links Recomendados



Galeria de Honra: Por Água Abaixo, do Henrique Plácido, e O Lobo, do Anselmo.

Blogs de imprensa: Intermezzo e Jornalismo Online.

Blogs amigos, blogueiros ilustres e todo mundo que linka pra mim: Emergência 699, Platão e Cerveja, L'Abatjour de la Bourgeoisie, Alex Popst, Confissões de Uma Mulher de 30, Jekyll & Dimi e Nós, por Mim.

Adonias Filho: Um dos Esquecidos



Um dos meus muito adiados projetos, desde que iniciei esse blog, é falar de três grandes autores esquecidos da literatura brasileira: Adonias Filho, Cornélio Pena e Lúcio Cardoso.

Antonio Olinto, colega colunista da Tribuna, escreveu hoje sobre os 40 anos do lançamento de Corpo Vivo, geralmente considerado a obra-prima de Adonias Filho. Eu, que li sofregamente todos os seus livros, até discordo. Acho que um dos grandes méritos de Adonias é ter quatro romances firmemente empatados no posto de obra-prima: Corpo Vivo, O Forte, As Velhas e Memórias de Lázaro. Não saberia escolher o melhor. Se fosse obrigado, ficaria com o último, por ser mais representativo.

Enfim, descobri Adonias Filho sozinho, fuçando a biblioteca da PUC. Nunca ouvi ninguém falar nele. Nunca o vi ser mencionado na grande imprensa contemporânea. Uma ou outra enciclopédia ou história geral da literatura brasileira lhe dedica parágrafos esparsos. Que eu soubesse, era o único que ainda se lembrava dele. Fico feliz em perceber que não.

Descobri também que ele apoiou o regime militar e, portanto, foi banido pela inteligentzia nacional, especialmente após 1985. De qualquer modo, suas filiações políticas são completamente alheias aos seus romances. Dá pra ler sua obra inteira e não saber se ele era da TFP ou anarco-sindicalista.

Há poucas prosas mais belas, mais fortes, mais violentas e menos intelectuais na literatura mundial.

Com vocês, Adonias Filho, por Antonio Olinto.

"Presença de Adonias

Os recentes 40 anos do lançamento do romance de Adonias Filho. "Corpo vivo", sua obra-prima, não obtiveram espaço na imprensa de agora, preocupada, como é natural, com o ano de 2004. Contudo eu vos digo que nesse livro está um momento de eternidade da ficção brasileira. Num país que sente a atração da novidade, novíssimo continua sendo o tipo de narrativa de Adonias Filho, inventor de um tempo.

A eterna luta entre conceito e intuição assume em sua obra aspectos diferentes, não só no conteúdo das histórias propriamente ditas, mas também, e principalmente, no modo como o autor as concebe e executa. Há um nível de excelência literária em cada frase de "Corpo vivo" e, contudo, não consegue a feitura esconder o impulso quase selvagem que emana do livro. Essa combinação de frio artesanato com apaixonada emoção representa o lado importante da presença de Adonias Filho em nossa novelística.

Sua força vocabular é eminentemente não-discursiva. Daí a importância e a novidade de sua obra no Brasil. A história de Cajango, do índio Inuri, de padrinho Abílio, de Dico Gaspar, de João Caio, é de cenas essenciais, nada intelectualizadas, como as dos antigos gregos que matavam por vingança e morriam pela necessidade da luta. Em nenhum momento detém-se o romancista em análises.

Seu caminho não as comporta. Os símbolos de sua arte são o sangue, o rifle, o punhal, a mulher, a montanha, a floresta, os arruados, a fogueira, o caminho, as andanças - tudo o que provém do nomadismo de um período do homem e da violência primitiva em que esse nomadismo implica. Por isto, seus romances não têm um ritmo cadenciado de obra que proporciona repousos ao leitor. Não. Para ele não há descansos. Assim como na vida de Cajango e nas realidades que o acompanham, tampouco para o romancista pode haver paradas.

O livro é de um só hausto. Começa por onde termina, termina por onde começa, e suas figuras se misturam em lutas, nítidas no entanto, e se integram numa unidade de personagens e de âmbito solidamente marcado, como se relances de tragédias tivessem sido gravados visualmente para o consumo do leitor.

A altitude da narrativa chega a tal ponto de beleza universal que a gente é capaz de estranhar quando o romancista fala em Ilhéus e Itabuna. Não que a humanidade dos que habitam o livro não seja passível dessa tipificação geográfica, mas a veemência de sua linguagem simbólica como que nos deixa inermes diante da descoberta de que tudo aquilo se passa no Brasil.

O livro é dividido em quatro partes e, antes de cada uma, pôs Adonias uma introdução, uma "ouverture" em tudo de acordo com o espírito particular daquela divisão. Uma delas termina assim: "Ela, a mulher, poderá aproximar-se. E, em silêncio, quando mover as mãos, voltará a saber que de palha é a aspereza dos cabelos".

Outra: "As florestas como que se encolhem para o sono nas trevas. O ninho, ele pensa". A quarta começa com estas palavras: "Poderão viver entre os bichos da selva, nus poderão andar, e paz existirá porque outro homem e outra mulher não descobrirão o ninho".

Do primeiro ao último som, o livro é como um poema. Os rótulos que inventamos ao longo dos tempos, para facilitar as classificações e solidificar a atividade crítica, pouco valor têm diante das obras que ultrapassam o bom gosto comum. Romance e poema são no fundo uma só coisa e não foi à toa que um poeta da força de Robert Graves rejeitou todas as racionalizações da obra de arte ao afirmar que elas afastam o escritor do que é essencial.

Entre "Invenção de Orfeu", "Romanceiro da Inconfidência", "O caso do vestido", "Gabriela", "Crônica da casa assassinada", e "Corpo vivo" - para citar obras de três poetas e três romancistas que falam poeticamente - pode a diferença ser de ângulo, de técnica, de grau, mas nunca por causa de uma separação específica. O tom de poema de "Corpo vivo" está na linhagem da narrativa heróica -e da canção para exaltar feitos que recebemos de Homero e dos poetas anteriores à época do domínio da lógica.

E as últimas palavras do livro, que repetem a certeza do encontro do ninho, fecham essa cadência de poesia bem realizada; "A serra ressurge, aleijão medonho, um homem e uma mulher agora em suas entranhas. Não há febre, o calor diminui, mas é a serra que se levanta dentro do seu olhar. Cajango e a mulher, as mãos nas mãos, pisam chão úmido. As rochas como que se movem, dobrando-se a serra, para recebê-los. Descobrirão as cavernas, examinarão os fossos, encontrarão o ninho".

Entre os romances brasileiros publicados depois da II Grande Guerra - tomando-a como ponto de partida de uma profunda modificação em nossa literatura - "Corpo vivo" é o exemplo da obra avançada, com originalidade de concepção e de feitura e em que conceito e intuição como que se pacificam e se dão as mãos."


Monday, April 19, 2004

Pré-Pauta: Link É Endosso?



Quero saber a opinião de vocês sobre o assunto da minha próxima coluna.

Campanha política. Um dos maiores cabos eleitorais e divulgadores de um certo político tem um blog. Ele faz um comentário bastante inoportuno e polêmico no seu blog. O político, temendo ser ligado àquele comentário, prontamente retira de seu site o link para o blog. Ao saber disso, muitos outros cabos-eleitorais e correligionários ficam revoltados, alguns até saem da campanha. "Quer dizer que se falarmos alguma coisa que ele discorda, estamos fora?"

A nova polêmica é a seguinte: estava certo o político? Um link é realmente um endosso?

Mal (ou bem?) comparando, será que a Folha pode ser criticada pelo conteúdo de um livro que ela resenhou?

Quando linko para alguém, isso quer dizer necessariamente que estou assinando embaixo do que aquela pessoa escrever? Consequentemente, se ela escrever algo sobre o que eu discorde, eu terei que retirar o link? Ou não?

O melhor da Internet é estar vivendo na fronteira. Tudo o que fazemos hoje, o modo como resolvemos nossos dilemas atuais, será a jurisprudência que regerá esse novo meio por ainda muitos e muitos anos.

E vocês? Já viveram situações assim? O que acham?

O Machismo Está nos Olhos de Quem Vê



O artigo anterior, A Diferença Entre as Mulheres que Você Come e as que Você Não Come, foi publicado na coluna Calça Justa do blog Elas por Elas, na sexta-feira passada, 16 de abril de 2004. O pau comeu feio: até agora, já foram mais de 150 (!) comentários, a maioria deles me acusando de ser um porco chauvinista. Vale a pena ler o artigo e também ir lá se esbaldar com o histerismo dos comentários. Eis aqui minha resposta à algumas das comentaristas.

A gente escreve o que quer e os leitores, mais ainda, também lêem o que querem. A interpretação de um texto revela mais sobre os leitores do que sobre o próprio autor. Teve gente achando que o texto era sobre um machista sexômano aturando de tudo para satisfazer seus descontrolados desejos carnais. Morri de rir. Devem ser as mesmas pessoas que acham que um teste rorschach é uma coleção de gravuras eróticas.

A acusação de machismo é triste. A história seria rigorosamente igual se fosse contada por uma mulher. "Oi, meu nome é Sílvia, eu namorava um cara assim meio cavalinho, que me dava umas patadas aqui e ali, eu relevava porque adorava ele, éramos amigos e amantes, ele acabou comigo, tudo bem, não fiquei traumatizada, mas na primeira vez em que nos encontramos, ele me deu uma patada como as de antigamente e meu rosto se iluminou: "meu deus, esse homem não é mais nada meu! Não preciso mais aturar isso! Posso virar as costas e ir embora!", e foi o que fiz."

Óbvio que a Joana não é essa mala sem alça. Ela é uma mulher maravilhosa, linda, engraçada, culta e inteligentíssima, senão não seríamos grandes amigos nem teríamos sido amantes. O fato de ela ter uma característica de personalidade que eu, pessoalmente, acho chata (ser mulherzinha demais) não quer dizer que é uma mala, uma mal-comida ou que eu só transava com ela para suprir minha desesperadamente masculina necessidade de sexo.

A Mal-Comida

Uma leitora escreveu: "A joana não é mulherzinha coisa nenhuma! É uma chata! E, me desculpe alexandre, talvez mau comida! Dai tanto chatice..."

Poucas expressões são mais machistas do que "mal-comida". De acordo com o senso comum medieval, todo o ônus do sucesso ou fracasso do sexo é solidamente jogado nas costas do homem.

No entender da minha leitora, o homem é tão poderoso e ascendente sobre a mulher que o fato de a coitadinha ser chata ou não, feliz ou não, etc, não depende dela ser bem-resolvida como pessoa mas, simplesmente, de ter à sua disposição um macho que lhe enfie uma jeba na boceta ao seu contento.

E o machista sou eu.

Brincando de Poliana

O artigo é sobre as concessões que temos que fazer para conviver com qualquer pessoa, chefe, sócio, sogro, mas especialmente namorados e esposos.

Ninguém é perfeito. Em qualquer tipo de relacionamento, temos que aturar uma série de coisas que não gostamos em troca das outras coisas boas (teoricamente, mais importantes) que o relacionamento proporciona. Quando as coisas que você atura se sobrepõem às coisas que você aprecia, bem, é hora de puxar o carro.

Fiquei triste de ter perdido a Joana como amante. Mas, como tento sempre ver o lado bom das coisas, fiquei feliz de, pelo menos, saber que nunca mais precisaria aturar suas insuportáveis crises de mulherzinha.

Continuamos bons amigos. Saímos juntos domingo à tarde, depois de seis meses sem nos encontrarmos. Seu "homem de direito" já puxou o carro e ela está solteira. Acham que me deu um beijinho? Nada. E eu tentei. Nem uma massagem nos pés. Cretina.

A Diferença Entre as Mulheres que Você Come e as que Você Não Come



O artigo abaixo foi publicado na coluna Calça Justa do blog Elas por Elas, na sexta-feira passada, 16 de abril de 2004. O pau comeu feio: até agora, já foram mais de 150 (!) comentários, a maioria deles me acusando de ser um porco chauvinista. Vale a pena ler o artigo e também ir lá se esbaldar com o histerismo dos comentários.

Joana foi minha amante e uma de minhas melhores amigas. Ela terminou comigo há poucos meses porque estava voltando para o seu homem de direito. Apoiei sua decisão, claro: nos divertimos muito juntos, mas o futuro dela é com ele, não comigo. Ainda somos amigos, mas não tanto quanto éramos. Ainda tenho tesão por ela, mas não tanto quanto tinha. Ainda a amo, mas não tanto quanto amava.

Hoje, nos encontramos em um evento. No salão, antes que eu pudesse chegar até ela, duas pessoas vieram falar comigo, uma depois da outra, e me ocuparam por uns quinze minutos. Quando finalmente cheguei até Joana, ela virou a cara pra mim. O que foi?, perguntei. E ela, em um tom de voz ofendidíssimo, apontando com olhos para sua melhor amiga que estava conversando com ela: a fulana veio direto falar comigo, não parou pra falar com ninguém antes.

Visite o Elas por Elas e leia a minha estréia no Calça JustaSabem qual é a grande diferença (além da óbvia) entre as mulheres que você come e as mulheres que você não come? É que você não precisa ouvir esse tipo de coisa das mulheres que você não come. Virei as costas e fui embora.

Joana é linda, inteligente, independente, mas tem um grande defeito: é mulherzinha. Não sei se dá pra explicar. Mas é justamente isso: só uma mulher muito mulherzinha falaria uma coisa dessas. Ela é o tipo de mulher que, quando eu ligo pra ela, ao invés de ficar feliz porque eu liguei, contabiliza há quanto tempo eu não ligo: puxa, estava morrendo de saudades, eu digo. É, sei, ela retruca, em tom mezzo-escárnio mezzo-ofendida, recebi suas dezenas de recados na minha secretária.

Ou então: puxa, estava mesmo querendo falar com você. E ela: se quisesse mesmo, não ficava sem me ligar desde terça.

Ou então, ou então, e essa é a minha preferida: oi, tentei te ligar, mas você não atendeu o celular. E ela: humpft, se quisesse mesmo falar comigo não teria me ligado logo na hora que sabe que não posso atender. Você queria é que eu visse que ligou, não falar comigo.

E como eu vou explicar que nunca me dei ao trabalho de decorar os horários dela? Sou totalmente espontâneo, ela sabe disso, ou deveria saber: ligo pra quem quero na hora que me dá vontade de falar com aquela pessoa. Ponto. Esse negócio de ligar pra alguém na hora em que você sabe que a pessoa não pode atender só pra deixar um recado na secretária, caramba, isso é tão não-eu que eu mal consigo apreender o conceito.

E eu explico: olha só, assim como a medida de distância é o metro, digamos que a medida do não-ligar seja, por exemplo, narjaras-turetas. E digamos, mais ainda, que eu tenha não-ligado pra você uma quantidade de 15,58 narjaras-turetas na semana passada. Isso quer dizer que você também não-ligou pra mim na exata mesma quantidade de 15,58 narjaras-turetas. A mesma reclamação que ela me faz de forma tão insuportavelmente deselegante (se quisesse mesmo falar comigo, não ficava sem ligar desde terça-feira!) eu também poderia fazer pra ela. Ou então, melhor ainda, ela mesma poderia se fazer essa reclamação diante do espelho e nos poupar a todos o perrengue. Que tal?

Não sei vocês, mas quando alguém que eu gosto e com quem não falo há algum tempo me liga, eu fico tão feliz que só consigo mesmo curtir aquela felicidade. Além do que, eu sei que se ela não me ligou, eu também não liguei pra ela, e então empatou tudo, não se fala mais nisso.

Estou ficando velho, minha vida, cada vez mais complicada e eu, cada vez mais louco, livre e seletivo. Cada vez tenho menos tempo pra gente que acho que não vale a pena. Quando ligo pra alguém, é um ato de amor mesmo, é porque quero muito falar com essa pessoa. Qualquer um que eu ligue (tirando a minha mãe, porque essa não tem jeito e mãe é assim mesmo) e me receba com esse tipo de cobrança, pode ficar certo que não vai receber outra ligação minha tão cedo. Talvez nunca.

A não ser, claro, que seja a mulher com quem estou transando.

Eu devo ser muito poliana mesmo, ou então vocês vão me achar muito cínico, muito as-uvas-estão-verdes, mas quando ouvi esse comentário pequeno hoje à tarde, eu fiquei até feliz.

Porque pensei: caralho, que delícia não precisar mais ouvir isso!

Fui muito feliz ao lado da Joana, mas comentários como esse quase me levaram à loucura durante meses. Saber que não preciso mais me rebaixar ao ponto de explicar que liguei na hora em que ela estava ocupada porque não sabia os horários dela, não porque não queria falar com ela, etc etc, hmmm, gente, eu juro, isso é uma delícia também.

Cada coisa na sua hora, claro, mas poder virar às costas pra alguém que faz um comentário desses é tão bom quanto sexo.


Sunday, April 18, 2004

Diretórios & Outras Ferramentas



Ainda a mesma resenha comparada de serviços de Internet. Mas, nessa aqui, além de pedir pelo feedback de vocês, que tem sido maravilhoso, eu também peço uma ajudinha numa dúvida.

Como dividir e nomear esses serviços? A seção Outras Ferramentas está um saco de sacos. Que nome colocar em uma seção que junta Blogdex, BlogChalking e TopLinks? Será que existe algum nome genérico para se referir a esses serviços? Será melhor dividir essa seção em duas outras? Quais? HELP!!

Diretórios

Blogalize
Diretório brasileiro de blogs, criado e mantido por Edney Soares de Souza, o santo padroeiro dos blogs nacionais. Você cadastra seu blog e ele aparecerá, randomicamente, em milhares de outros blogs participantes. A categorização é por ordem alfabética e só. Não tem busca.

Blogs.com.br
Possui mais de 24 mil blogs cadastrados. O diretório é dividido por estado, o que não faz muito sentido. São Paulo, por exemplo, tem 10 mil blogs. Quem se dispõe a ler essas páginas todas de listas de blogs paulistas? Às vezes, estamos com vontade de ler um blog humorístico, outras, de ler um blog de notícias. Mas quem jamais esteve no clima de, digamos, ler um blog acreano ou capixaba? Pelo menos, o site também tem uma busca que funciona direitinho. Infelizmente, todos os links abrem dentro de um frame tenebroso. Ainda assim, um dos melhores modos de encontrar um blog brasileiro sobre algum assunto específico.

BlogList
O Bloglist é o mais bonitinho e fechadinho. Infelizmente, tem menos blogs cadastrados do que os outros. Permite buscas por palavras-chave e por temas, como artes, esportes, etc.

Outras Ferramentas

Blogdex
O Blogdex se define como o "índice de difusão dos blogs". O quê? Não entendeu? É simples: todo dia, ele varre todos os blogs do mundo, descobre quantos novos links foram adicionados naquele dia e lista os sites mais linkados em ordem de importância. Imagine que, de repente, 20 blogs, por todo o mundo, linkaram para o mesmo artigo do New York Times. Deve ter algo quente acontecendo. Pois é isso mesmo: o Blogdex é o termômetro da blogosfera. Consulte-o diariamente e você nunca ficará por fora de nada. Além disso, também permite que você descubra quem está linkando pra você.

TopLinks
O Toplinks é o equivalente brasileiro do Blogdex. Ele também permite que você saiba quais são os blogs que tem mais pessoas linkando para eles, além de descobrir quem está linkando para você.

BlogStreet
Esse serviço permite que você descubra a "vizinhança" do seu blog, ou seja, blogs que tratam de temas semelhantes ao seu, que linkam para os mesmos blogs, ou que linkam para você. Também lista os blogs mais linkados e mais influentes.

Technorati
Se você quer só saber quem linka pra você, o Technorati é a melhor opção. Por um motivo simples: quando ele dá o link, ele mostra também o contexto do link no site de origem. Os outros dão só a URL e olhe lá.

Bloglines
Para quem não quer visitar dezenas de blogs por dia. Você se cadastra, escolhe os blogs da sua preferência, e vê todos os novos posts em um lugar só, na interface do Bloglines. Não funciona sempre, mas é uma excelente idéia.

BlogChalking
Eu acho isso uma imensa bobagem, mas vá lá. O BlogChalking é usado para gerar um textinho no seu blog dizendo de onde você é, o que você gosta, etc. Algo como: "Brazil, Rio de Janeiro, Complexo do Alemão, Portuguese, English, Alexandre, Male, 26-30, Cinema, Literatura." Teoricamente, isso permite que você faça buscas pelo nome do seu bairro e descubra blogueiros que moram perto de você. A grande pergunta é: e daí? A graça dos blogs é nos libertar das barreiras geográficas, nos permitir ler um blog iraniano como se o autor estivesse ao meu lado, não localizar os nerds do meu quarteirão. Mas tem quem goste.

Por favor, não deixem de comentar! Estou precisando do feedback de vocês. Corrijam meus erros, contem suas experiências, digam o que acham dessa subdivisão. Valeu!


Saturday, April 17, 2004

Comentários & Contadores



Como parte daquela mesma resenha das ferramentas, também estou fazendo uma análise comparativa dos sistemas de comentários e contadores.

Reparem, por favor, que não dá pra ser, ao mesmo tempo, abrangente e seletivo. Meu objetivo não é listar todas as ferramentas de blog, ou todos os serviços de comentários e contadores, isso seria até fácil, mas somente selecionar os melhores e mais confiáveis, e comparar suas principais características.

Por isso, tudo o que vocês puderem me dizer sobre sua experiência pessoal com esses sistemas pode ser muito útil para futuros leitores.

Comentários

Comentar
O melhor. Infelizmente, os novos cadastros foram suspensos por inviabilidade técnica, mas não custa nada ficar de olho. O Comentar suporta dezenas de templates diferentes, tags de HTML, emoticons animados, tem espaço para informações de instant messaging, bloqueia duas mensagens da mesma pessoas em menos de 30s e permite bloqueio de IP. A melhor coisa é que ele envia um email cada vez que alguém comenta. Ou seja, ninguém precisa mais ficar abrindo todas as caixas de comentário do próprio blog pra ver se alguém falou alguma coisa. Vale a pena investir R$12,90 por semestre pelo Comentar Pro.

Blogger Brasil Comentários
O sistema de comentários do Blogger Brasil também só está disponível para assinantes Globo.com, mas funciona na maioria das ferramentas de blog, como Blogger, Blig ou Weblogger. É um dos sistemas mais populares da Internet e tem uma grande vantagem sobre todos os outros: não vai nunca parar de aceitar novos usuários por falta de capacidade técnica. Por outro lado, é muito simples e não tem firula nenhuma. O template é um só, não há espaço para identificação de instant messaging e, pior de tudo, ele não envia e-mail quando fazem novos comentários. Para mim, essa é a falha imperdoável. Nada mais chato do que o próprio dono do blog ser forçado a abrir todas as caixas de comentários para checar as novidades.

Haloscan
Um dos maiores serviços de comentários do mundo. É bastante popular, mas não envia comentários por email, uma coisa que eu, particularmente, acho essencial. Além disso, tem que entender um pouco de inglês para usar.

Enetation
O sistema do Enetation também é bastante popular, mas só pra quem sabe inglês. Ele permite a maior parte das firulas, como templates, lembrar dados dos usuários, bloquear IPs e aquelas frasezinha customizáveis de "[3] gritaram por aqui". Envio de e-mails, entretanto, só para quem fizer uma pequena doação. É uma boa pedida.

Contadores

Não é bom investir em sistemas de comentários desconhecidos. Se eles forem instáveis, ou derem pau o tempo todo, você nunca saberá com certeza quantos usuários estiveram no seu site. Além, há sempre o risco de desaparecerem de uma hora pra outra e levarem sua contagem pregressa. Não há nenhum sistema de comentários brasileiro realmente popular e confiável, então eu recomendo fortemente que você tente usar alguns dos três primeiros recomendados.

SiteMeter
Um dos melhores. Infelizmente, a versão gratuita é muito limitada e só registra dados detalhados (como, por exemplo, de que site vieram) dos últimos 100 visitantes. Conta páginas únicas, de entrada e de saída, visitas e pageviews, além de dados técnicos como sistema operacional e resolução de tela dos seus usuários. Em inglês.

NedStat
Outro contador excelente, que eu também uso. Igual ao SiteMeter em tudo, nos defeitos e nas qualidades. Eu até pagaria para ter acesso a mais funcionalidades, mas o preço é salgadíssimo. Se inglês é um problema pra você, o serviço também está disponível em espanhol e francês - pra não falar de holandês, alemão e sueco.

Bravenet
O contador da Bravenet também é um dos mais populares entre os blogueiros. Eu, pessoalmente, acho fraco. Gosto de ver de onde meus usuários estão vindo, para saber quem linkou para mim. Enquanto o SiteMeter e o NedStat listam a procedência dos últimos 100 visitantes, o Bravenet lista apenas os últimos 10. Também em inglês.

Por favor, não deixem de comentar! Estou precisando do feedback de vocês. Corrijam meus erros, contem suas experiências. Valeu!


Friday, April 16, 2004

A Diferença Entre as Mulheres que Você Come e as que Você Não Come



Minha participação no Calça Justa dessa sexta-feira no Elas por Elas está pegando fogo. Já são mais de 42 comentários, a maioria enraivecidos. Vão lá jogar lenha na fogueira vocês também.

Blogs de Jornalistas Brasileiros

Leia hoje, na minha colunaLeia hoje na minha coluna:

Blogs de Jornalistas Brasileiros

Semana passada, uma pessoa leu algo que não gostou no meu blog... e foi reclamar na Tribuna da Imprensa. Para evitar problemas como esse, jornais norte-americanos estão tentando regulamentar os blogs de seus jornalistas.

Por um lado, se Clóvis Rossi é conhecido como articulista da Folha, qualquer coisa que ele diga em um hipotético blog particular seu pode acabar refletindo no jornal. Por outro lado, será que a Folha tem o direito de legislar sobre o que o Rossi escreve ou deixa de escrever em seu blog particular?

Os Blogs de O Globo

Dentre os jornalões, O Globo partiu na frente e ofereceu blogs a todos os seus colunistas - há planos de oferecer blogs aos outros jornalistas no futuro. Alguns aceitaram, outros não, talvez relutando em abrir mão da liberdade de escrever o que bem quiserem em seus blogs independentes.

Não precisavam ter medo. Pelo menos, não por enquanto. Apesar de O Globo hospedar esses blogs dentro do seu próprio site, não há qualquer tentativa de controle do conteúdo. Os colunistas-blogueiros não receberam quaisquer instruções sobre que tipo de conteúdo seria adequado incluir nos blogs. A única regra: não deixar o blog parado mais de uma semana.

De certo modo, O Globo está brincando com fogo. Alguém que leia um determinado conteúdo em um blog de um funcionário de O Globo dentro do site do próprio O Globo estaria completamente justificado em presumir estar lendo um conteúdo endossado por O Globo.

O jornal exerce controle sobre sua versão impressa, entre outras coisas, por ser legalmente responsável por tudo o que sair nela. No caso dos blogs, a responsabilidade legal é a mesma, mas o jornal não tem controle algum sobre o que é publicado, dependendo apenas do bom-senso dos funcionários.

Gravatá, um dos colunistas do caderno de informática de O Globo, usa seu blog para potencializar sua coluna, incluindo ilustrações e links que não caberiam na versão impressa, além de escrever sobre outros temas.

Blog Oficial Mesmo

O blog do Gravatá, por estar dentro do site de O Globo, parece um blog oficial mas, na verdade, não é. O Bit a Bit, por seu lado, é o blog oficial do Internet & Tecnologia , caderno de informática do jornal O Dia.

A repórter Mylène Neno, uma das colaboradoras do blog, explica:

"A idéia foi ter um lugar no qual pudéssemos postar notas sobre o mundinho hi-tech numa linguagem mais informal, algumas vezes até dando a nossa opinião (algo que raramente ocorre no caderno impresso, salvo os testes de produtos, é claro...). Vez por outra, as notas que saem no Bit a Bit são veiculadas depois na coluna chamada On-line, do caderno impresso."

A subeditora Alessandra Carneiro e a própria Mylène, empolgadas pelo mundo dos blogs e fotologs, são quem mais escrevem, junto com o editor Julio Preuss.

Apesar de ser um blog oficial do jornal, o Bit a Bit não sofre "qualquer tipo de interferência sobre o conteúdo postado lá," diz Mylène. E finaliza: "Esperávamos interagir mais com o público, mas ainda não recebemos tantos comentários quanto gostaríamos."

Os Bastidores da Matéria

Mauro Ventura era colunista do Jornal do Brasil. Quando passou para O Globo como repórter especial, sentiu falta daquele contato mais pessoal com os leitores. Por isso, criou o blog DizVentura, para "amenizar orfandade da coluna."

"A gente faz reportagens interessantes," explica Mauro "mas os bastidores são ainda mais interessantes."

Recentemente, Mauro foi a São Paulo entrevistar Chico Buarque durante o lançamento do filme Benjamin. A matéria ficou ótima, mas melhor ainda foi o post onde Mauro conta como teve que se disfarçar de funcionário da produção para poder entrevistar o Chico.

Em outra ocasião, Mauro foi convidado para cobrir uma das sessões do cineminha do Lula, no Palácio do Planalto. Lá pelas tantas, bateu aquela vontade de ir ao banheiro e Mauro se pegou urinando lado a lado ao presidente, ali, sozinho no banheiro, sem seguranças nem nada. Mauro poderia ter... mijado no Presidente! Naturalmente, como inserir isso em um artigo para o Segundo Caderno de O Globo?

"Numa matéria, não cabe o bastidor. O repórter não é noticia, ele tem que se distanciar e deixar os entrevistados aparecerem. Ficaria até cabotino falar dos bastidores em uma reportagem. No blog, faz parte."

E como faz. Quem lê O Globo não está necessariamente querendo saber das peripécias do Mauro. Quer saber é das últimas notícias e talvez nem repare no nome dele em cima da matéria. Já os visitantes de seu blog são seu público cativo por definição: eles estão lá para ouvir o que ele tem a dizer.

Mas publicar esses bastidores não seria conflito de interesses? Afinal, se não foram apropriados para publicar no jornal, talvez não devam ser publicados em lugar algum.

Mauro negou categoricamente: "Publico coisas que não cabem no jornal. E claro que tenho bom senso de saber o que colocar."

O blog de Mauro não é segredo para ninguém. Ele assina com seu nome verdadeiro e faz menção às suas reportagens em O Globo. Apesar disso, ele acha que ninguém no jornal conhece o DizVentura: "Nunca tive nenhum retorno de nenhum chefe sobre o blog, nem sei se sabem."

E, para Mauro, sua grande liberdade é justamente esse relativo anonimato do blog.

Humor Sem Papas na Língua

Nelito Fernandes assina um dos blogs mais populares e engraçados do Brasil, o Eu Hein!. Mas nem sempre foi assim. Embora a autoria do blog não fosse segredo para amigos e colegas, Nelito só passou a assinar os posts quando aceitou uma colaboradora, para diferenciar as contribuições de um e de outro.

Não foi uma decisão fácil. O Eu Hein! é um site de humor ferino. Nelito, jornalista da Época, temeu por sua credibilidade: "E se eu zoasse de alguém e depois tivesse que entrevistá-lo?". Mas acabou decidindo assinar: "Afinal, é um site de humor, não de notícias."

Parece que não havia mesmo o que temer. "O Eu Hein! não tem papas na língua," diz Nelito, "mas foi abrigado por duas corporações, o que prova que não é inconveniente."

As corporações são o Terra, que abrigou o Eu Hein!, tornando Nelito o primeiro blogueiro brasileiro a ganhar dinheiro com o seu blog, e o jornal Extra, das organizações Globo, onde Nelito tem uma coluna semanal baseada no conteúdo do blog.

"Já fui processado duas vezes," confessa, "mas a Época nunca se opôs, ou se pronunciou em respeito, bem ou mal, ao Eu Hein!."

Blog com Pseudônimo

Para maior liberdade, alguns jornalistas preferem manter seus blogs com pseudônimos.

Quando a jornalista Martha Mendonça, colega de Nelito na Época, começou o blog Elas por Elas, ela decidiu usar um pseudônimo por estar tratando de um assunto muito delicado: histórias reais de relacionamentos. Martha queria falar de si mesma e de seus conhecidos, e teve medo que, se usasse seu nome verdadeiro, as histórias seriam facilmente reconhecíveis por seu círculo de amizades.

Com o tempo, entretanto, o segredo foi se esvaecendo. Quando Martha e sua colega de blog, Carla Rodrigues, da NoMínimo, lançaram "Mulheres no Ataque", o livro baseado no Elas por Elas, já assinaram com seus nomes verdadeiros.

Marta nunca sofreu qualquer tipo de pressão da direção da Época por causa de seu blog.

A Rigidez do Meio Jornalístico

Mês que vem, será lançado pela Civilização Brasileira o livro "Blog: Comunicação e Escrita Íntima na Internet", de Denise Schittine. No capítulo dedicado à relação entre jornalistas e seus blogs, Denise conclui que esses profissionais caem na rede justamente para fugir das obrigações da profissão, para poderem escrever poesias, romances e contos sem se verem cerceados pela rigidez do meio jornalístico.

Sem dúvida alguma, esse é o caso de Martha e Nelito. Já Gravatá e Mauro escrevem não para fugir de seu trabalho, mas para complementá-lo.

Por enquanto, a situação no Brasil ainda é bem relaxada. Mesmo os jornais que hospedam blogs, como O Globo e O Dia, não impuseram nenhuma diretiva ou controle aos profissionais envolvidos. Outros jornais parecem ignorar solenemente o fenômeno blog.

O Leitor, Esse Sem-Noção

Fundei e dirigi o Projeto SobreSites, um portal com guias sobre diversos assuntos, desde Hare Krishna até Harry Potter. Cada Guia nada mais é do que uma seleção comentada de links. Cada página do SobreSites segue um template rígido, com o logo do site sempre em destaque, as mesmas cores, tudo igual.

Ainda assim, nada era mais comum do que usuários nos escreverem reclamando de conteúdo que não estava no SobreSites. Na primeira vez, demorou para entendermos o problema. A pessoa tinha clicado em um dos nossos links recomendados e estava reclamando de um conteúdo visto em outro site. E nunca percebeu que o tal site sobre o qual estava reclamando não tinha nada, nada a ver com qualquer página do SobreSites.

Com leitores assim, como culpar um jornal por temer que leitores desavisados confundam os posts de um colunista em seu blog pessoal com a opinião oficial do jornal?

Eu estaria sendo cínico se dissesse que esse temor é infundado. Já senti esse problema na pele, tanto na época do SobreSites quanto na semana passada, na Tribuna.

Por isso, alguns jornais norte-americanos estão tomando a medida extrema de simplesmente proibir seus jornalistas de manterem blogs.

Nelito Fernandes ficou revoltado: "É um absurdo! Estão confundindo pessoa jurídica com pessoa física!"

O temor pode ser justificado mas não podemos esquecer que estamos, afinal, no ramo da informação. Se já podemos prever uma possível (para não dizer provável) confusão na cabeça do leitor, cabe a nós, tanto jornais como jornalistas, informar melhor o leitor e prevenir o problema.

"Nunca proibir", sentencia Nelito.

Na primeira parte dessa coluna, eu conto a história da minha leitora sem-noção que leu algo aqui no blog e depois foi reclamar na Tribuna, e também sobre como os principais jornais norte-americanos estão tentando regulamentar os blogs dos seus jornalistas.

Uma versão duas vezes menor desse texto foi publicada na minha coluna Internet, na Tribuna da Imprensa, no dia 16 de abril de 2004. A versão não-editada que você está lendo nesse blog é de minha inteira responsabilidade e contém informações que não foram aprovadas e muito menos publicadas pela Tribuna da Imprensa. Quaisquer reclamações, portanto, devem ser dirigidas a mim. Para conferir a versão autorizada publicada na edição impressa da Tribuna da Imprensa, clique aqui.

Links Relacionados
Elas por Elas - de Martha Mendonça (Época) e Carla Rodrigues (NoMínimo)
Blog do Gravatá - de Luiz Antônio Gravatá (O Globo)
Eu Hein! - de Nelito Fernandes (Época)
DizVentura - de Mauro Ventura (O Globo)
Bit a Bit - blog oficial do Internet & Tecnologia, caderno de informática do jornal O Dia
Projeto SobreSites

Deusas do Fotolog



Falem o que quiserem. Zoem à vontade. Mas o único blog que só me dá alegria é o Deusas do Fotolog.


Thursday, April 15, 2004

Medo no Metrô: A Inutilidade da Arte (VI, final)



Chegou agora e não sabe o que está acontecendo? Leia o começo da série Medo no Metrô.

Qualquer tentativa de definir arte é tão inútil quanto a própria arte.

Desenho de Alan Sieber

A Importância dos Enfermeiros

Tenho um amigo que está se formando em Enfermagem. Sua monografia de fim de curso é sobre a importância no enfermeiro no “processo de cura” que acontece nos hospitais. Ou algo assim. Basicamente, sua tese é que, apesar de ser muitas vezes injustamente desprezado, o enfermeiro é o elemento mais vital de toda a “cadeia curativa”, aquele que conecta todos os outros e faz tudo funcionar.

Tenho a impressão de que todos os profissionais acreditam, sinceramente, que a atividade que exercem é a mais fundamental e indispensável para o bom funcionamento do mundo.

Sim, sim, claro, todo mundo é muito importante, mas se não fôssemos nós, os encanadores, nada funcionaria direito, as pessoas ainda teriam que ir cagar na vala, tirar água do poço. Não há dúvida que nós, encanadores, somos o elemento-chave da civilização.

Não ria não, que você também deve pensar a mesma coisa sobre o seu ramo de atividade. “Mas o meu é realmente essencial!”, você diz. Ah, tá. Sei. Pode ficar certo que os pilotos de combate, os trocadores de ônibus e os engenheiros de telecomunicações acham a mesma coisa. Não há ocupação tão humilde que seus praticantes não se considerem fundamentais para o bom funcionamento da humanidade.

Até hoje, por exemplo, sou atacado por dubladores por todo o Brasil por causa do meu artigo Os Dilemas da Tradução. Meu nome é constantemente citado em fóruns e listas de discussão sobre o assunto - essa semana, sou assunto no Fórum Dublagem. Eles também acham que são a última linha de defesa da civilização. Já tive que ouvir que a dublagem é necessária para a manutenção da língua e, sem ela, a língua acabaria. Cito textualmente:

"Ela [a dublagem] é necessária para a manutenção da língua, Alexandre! Se todo filme, seriado, documentário e sei lá o que mais que entrar no Brasil só tiver a sua versão original veiculada no país, aonde vai parar a Língua Portuguesa? Vamos versar inglês, espanhol, italiano... e o pobre do "português", já adoentado, vai virar língua morta.”

Queria saber como funciona esse processo. Com certeza, todo mundo deve entrar em suas carreiras como indivíduos medianamente racionais. Depois de algum tempo só convivendo com aquelas mesmas pessoas, da mesma área, com a mesma formação, vão se fossilizando os gigantescos preconceitos que levam alguém a afirmar que, sem os dubladores, a língua teria morrido!

Reparem que não tenho nada contra enfermeiros ou dubladores. São apenas exemplos. Ninguém, ninguém mesmo, é tão importante quanto pensa ser – inclusive eu.

Vejam vocês as injustiças da vida! As pessoas me chamam de metido, ou fazem piadas em relação ao meu avantajado ego, mas ninguém nunca vai me pegar falando coisas parecidas sobre o meu trabalho.

A Utilidade Desvirtua a Arte

Só o artista sabe que sua atividade é 100% inútil. Ou deveria ser.

Quanto mais útil a arte, menos arte ela é. A arte não pode servir a nenhum propósito, seja provar uma teoria filosófica, defender um governo ou mesmo socorrer uma pobre classe social oprimida. Não faz diferença.

A utilidade desvirtua a arte. O que distingue a agricultura da ópera é que uma é absolutamente vital para a nossa sobrevivência; a outra, nem um pouco.

Na verdade, as pessoas têm razão. Se, de repente, todos os peões de obra, enfermeiros ou caixas de banco sumissem, a sociedade iria virar um caos.

Mas se todos os artistas e derivados (críticos de arte, professores de literatura, etc) sumissem, nada de mais aconteceria.

Sem os lixeiros, depois de amanhã não conseguiríamos nem transitar nas ruas. Sem todos os artistas plásticos, haveria apenas mais espaço nos pedestais das praças.

Somos artistas porque somos inúteis. Estamos fora da cadeia produtiva da sociedade e temos orgulho disso.

A Questão do Ego

Por um lado, eu poderia argumentar que temos os menores egos de todos, pois só nós, realmente, encaramos de frente a inutilidade de nossos esforços.

Por outro lado, convenhamos, que piada! Qualquer um que conviva com um artista sabe que temos os maiores egos de todos. Eu sei, às vezes é chato de aturar, mas são ossos do ofício. Jardineiros têm as mãos calosas, jóqueis têm as pernas arqueadas, nós temos os egos inflados.

Não acredite em artistas tímidos e humildes. Existem artistas hipócritas, mas essa é outra história.

É preciso muita coragem para encarar a tela vazia, a partitura em branco.

É preciso muita arrogância pra achar que você ainda pode ter algo a dizer em um campo onde já pastaram paquidermes como Mozart, Picasso ou Shakespeare.

É preciso muita segurança pra não desabar ao primeiro (ou ao centésimo-nono) cascudo que a vida, o público ou a crítica nos dão.

Assim como o primeiro gole para os alcoólatras, as ciências atuarias estão sempre aí, nos tentando com uma vida regrada corretando seguros e pagando o telefone em dia

Mais do que tudo, é preciso muito ego pra dedicar sua vida ao inútil.

Outros fazem pão e cheiram e provam o resultado de seus esforços. Outros se dedicam à medicina e vêem seus pacientes saindo do hospital curados de todo o tipo de doença.

Enquanto isso, minha amiga Isabel, uma mulher brilhante, pendura fotos de webcam em volta de uma pilastra. E eu, como diz minha irmã, escrevo sobre coisas que nunca aconteceram a pessoas que nunca existiram.

A arte, quando bem feita, é inútil. E é inútil tentar defini-la.

Leia também: O Dever do Escritor, uma discussão muito interessante sobre os objetivos da literatura e da arte de modo geral.

Novos Links Recomendados



Outros sites: Blogdex, TopLinks e Technorati, três serviços sensacionais nos quais estou ficando viciado. Vou falar mais sobre eles em breve.

Blog favorito: Blog0news, de Ricky Goodwin.

Blog de imprensa: Jornalismo & Comunicação.

Blogs amigos, blogueiros ilustres e todo mundo que linka pra mim: My London, DizVentura, Teti Pons, Estado de Surto e Bit a Bit.


Tem muito blog devagar, quase parando nos blogs favoritos. Estou pensando seriamente em jogar essa turma toda lá pra baixo. Blog favorito só quem atualiza diariamente, ou quase.


Wednesday, April 14, 2004

Porra Isabel



Você vem no blog comentar besteira e não responde aos emails sérios que eu te mando! Só pode não estar recebendo! Fiz uma matéria sobre você pra primeira capa da Tribuna, e ia sair hoje, só que preciso de uma foto daquela sua obra que eu mais gosto e você não responde aos emails, caramba!

Direita ou Esquerda?





Fiz o teste do Political Compass. Você responde a algumas perguntas básicas e ele diz onde você está politicamente em relação a dois eixos: esquerda vs direita, e autoritarianismo vs libertarismo.

A lógica é a seguinte: só o eixo esquerda vs direita quer dizer muito pouco, pois iria unir, no mesmo saco de gatos, Mao e Gandhi. No teste com dois eixos, ambos ficam na metade esquerda, mas Mao no quadrante esquerda autoritária e Gandhi, esquerda libertária.

Que eu ia ficar na metade libertária, isso era óbvio. Mas pra direita ou pra esquerda? Acho a esquerda burra e a direita, canalha. Quero distância de ambos. Entretanto, com certeza, por defender liberdade em tudo (inclusive de mercado), sempre me coloquei ligeiramente à direita do centro.

Fiz o teste.

Se eu tivesse escolhido, não teria sido mais perfeito. Fiquei literalmente cravado no centro, alguns milímetros pro lado da direita, e profundo no lado do libertarismo - se não tivesse me declarado contra o aborto, era capaz de ter encostado no fundo. Exatamente onde achei que estaria.



Na descrição da direita libertária (uma área bem pouco densa, é verdade), os autores destacam duas pessoas que admiro muitíssimo: Ayn Rand (quem me lê, sabe como fiquei empolgado com ela em janeiro desse ano) e Milton Friedman, velho conhecido:

"The usual understanding of anarchism as a left wing ideology does not take into account the neo-liberal "anarchism" championed by the likes of Ayn Rand, Milton Friedman and America's Libertarian Party, which couples law of the jungle right-wing economics with liberal positions on most social issues. Often their libertarian impulses stop short of opposition to strong law and order positions, and are more economic in substance (ie no taxes) so they are not as extremely libertarian as they are extremely right wing. On the other hand, the classical libertarian collectivism of anarcho-syndicalism ( libertarian socialism) belongs in the bottom left hand corner."

Tente você também e, por favor, me conte o resultado.

Aliás, soube do teste pelo Paulo, do FYI, levemente de direita, levemente libertário.

Sexo Sem Intermediários: Prostituição, Jornalismo e Internet



Minha matéria Sexo Sem Intermediários: Prostituição, Jornalismo e Internet, que tomou muitas semanas de trabalho pra fazer e um certo culhão pra publicar, é uma das melhores coisas que já escrevi. Foi publicada originalmente na primeira página do TribunaBis, o caderno de cultura da Tribuna da Imprensa e, ontem, saiu também no Observatório da Imprensa.Leia esse artigo no Observatório da Imprensa, número 272, de 13 de abril de 2004

Quem não leu, eu recomendo muito que leia. Mas, tanto quem leu quanto quem não leu, eu agradeceria mais ainda se pudessem clicar nesse link aqui ó, dar um pulinho no Observatório, clicar em "Canal do Leitor: Comente Essa Matéria" no fim da página e, simplesmente, bem, pra que usar meias palavras?, estou pedindo mesmo, não é?, me encher de elogios.

Não estou nem dizendo que eu mereça esses elogios, não. É só mesmo pra aumentar o meu cacife com o pessoal do Observatório. Quem quiser me esculhambar também pode.

Pôxa, eu faço tudo por vocês.

Jorge Furtado e os Blogs



Em junho, postei aqui alguns comentários sobre o filme O Homem que Copiava, de Jorge Furtado. O assunto gerou uma certa polêmica e qual não foi minha surpresa quando, poucos dias depois, o próprio Jorge Furtado (ou será que era ele mesmo?) entrou na discussão.

Logo, a conversa que começou com uma pergunta despretensiosa sobre o papel da galinha no filme se transformou em uma deliciosa discussão sobre a natureza da verdade e identidade na Internet. Uma história fascinante, que só poderia ter acontecido em um blog, e que atesta, como poucas, as vantagens e desvantagens desse novo meio de comunicação que estamos desbravando juntos, eu e vocês.

Pois hoje, em entrevista a O Globo, Jorge Furtavo confirma que, realmente, usa o Google para encontrar menções a ele em blogs e, assim, medir a reação do público às suas obras.

Naturalmente, o estranho não é ele fazer isso; o estranho é qualquer celebridade com o mínimo de traquejo cibernético NÃO fazer isso. Até eu, que não sou literalmente ninguém, inscrevi meu nome no Google Alert e sou avisado sempre que uma nova menção a mim é acrescentada ao banco de dados do Google.

Trechos da entrevista de Jorge Furtado ao Caderno Megazine, de O Globo:

"A melhor resposta foi no universo dos blogs. Você puxava no Google e tinha um monte de blogs falando do filme. Um problema que o diretor de cinema tem é não ter uma resposta do público. Tem a bilheteria, mas pode acontecer de um milhão de pessoas odiarem um filme. Os blogs ajudam nesse sentido."

Jabor Sobre Osama e Bush



Vou citar mais um longo trecho de O Globo. Eu sei, ando citando muito O Globo. Antigamente, eu achava que a Folha era o melhor jornal do Brasil. Ainda adoro a Folha, assino e tudo, mas ela é intelectualóide demais. Tenho me empolgado cada vez mais com O Globo.

Enfim, o Jabor escreveu sobre o Osama e o Bush e, de tudo que já li sobre essas duas peças-raras, pela primeira concordo com tudo. Tenho que citar:

"Estamos num tempo em que as “soluções” não existem mais. Não há solução para o terrorismo, graças às tarefas que Osama encomendou a Bush e que ele executou, obedientemente. “Osama-Bush” é um veneno duplo. Osama é um dos maiores estrategistas da História: sozinho, desestabilizou o planeta, usando as armas do inimigo. Assim como usou os aviões da United para o WTC, usou o presidente dos USA contra os USA e o mundo. Mesmo que Osama morra, sua obra já está feita. Ele semeou o terrorismo e Bush legitimou-o para sempre.

Osama criou Bush como um lugar-tenente para destruir tudo que o Ocidente criou no século XX, tudo que foi conquista democrática, valores ecológicos, sexuais, culturais.

Bush não é uma pessoa; é um resultado. São séculos de uma ideologia religiosa que começa puritana, com humildade bíblica, mas que a complexidade do progresso social poluiu de rancor e boçalidade fanática. Bush é o porta-voz de uma “gangue” da América silenciosa que odeia a democracia. Como Osama odeia.

Bush e sua gangue não querem pouco; querem mudar a face do mundo e da América. Eles acham que nós, democratas, somos “cães infiéis”, exatamente como a al Qaeda. Assim como há Osama, há Bush, na mesma moeda.

O que nos choca nisso tudo é a inatualidade do fenômeno. Eles, as gangues do Bush e do Osama, ambas negam a existência do seculo XX, da arte, da política, da filosofia. Negam Marx, Freud, Picasso, renegam Darwin e seus macacos. Na gangue americana, temos Karl Rove, Perle, Rumsfeld, Wolfwitz — iguais aos fanáticos de Osama. Eles odeiam a Europa (principalmente a França) por ser mais culta, mais sábia, mais chique. Estão ainda no século XIX; são colonialistas, não isolacionistas. Eles não querem se isolar; querem nos isolar. Como Osama.

A gangue de Osama nos odeia desde 1492. A gangue de Bush tenta o poder desde o Watergate, desde o fim da Guerra Fria, desde a primeira guerra do Golfo, feita pelo papai em 91. Bush-Osama nos aparecem justamente na hora em que a América nos prometia uma multilateralidade política sedutora. Bush veio para acabar com todas as conquistas liberais dos anos 60. Só faltava um pretexto; Osama deu-o. Bush é um detergente; ele acha que problemas se “lavam mais branco”, se raspam, ele acha que dissidências se esmagam, que complexidades devem ser achatadas, que o múltiplo tem de virar “um”, que tudo tem um princípio, meio e um fim, e que o fim deve ser igual ao início, realizando o pensamento dos milhões de idiotas que jazem entre o hambúrguer e o sofá, diante da TV. Como Osama, ele também quer nos raspar da face da Terra.

Bush está arrasando com a esperança da Europa, que, depois de um século de brutalidades, de duas guerras mundiais, estava no caminho de uma solução pacífica de convivência. A gangue Bush sempre odiou os europeus afrescalhados, que falam em coisas profundas, humanistas, metidos a “superiores”. A América republicana acha que esse papo de multiculturalismo é coisa de fracos. Como Osama. Há algo de conjunção astral maligna, algo que houve nos anos 30, quando Hitler crescia. Há períodos históricos em que parecemos desejar a morte. Surge uma fome de irracionalismo, como que uma libertação animalesca dos freios da civilização. Osama-Bush fizeram o inconsciente bárbaro irromper de novo entre nós. A partir de agora, sob o comando de Bush, só vamos errar. É como se o Bush e sua turma apavorante dissessem: “Chega de frescuras de democracia, de bom senso europeu. Vamos botar pra quebrar!” Como Osama.

Bush usa o nome de Cristo em vão. Osama usa o nome de Alá em vão. Ambos rezam antes de agir. E ambos, unidos, acabaram com o sonho de se alcançar uma harmonia política futura. Mixou a idéia platônica de “futuro redentor”. Outro dia, o Baudrillard disse: “Acabou o universal; só há o singular contra o mundial”. Perfeito. A genialidade de Osama consistiu em atacar isso: o sonho universal da civilização.

Os fanáticos só têm certezas — tanto Bush quanto Osama; só que um continua a acertar. O outro, a errar. Nós achávamos que chegaríamos a um futuro sem perigos. Os fanáticos já chegaram lá, no “futuro”. O futuro deles é hoje. Os fanáticos do Islã querem o imóvel, a verdade incontestável. Osama acha que somos o mal. Ele é o bem. O Bush pensa igual, do outro lado. A América tem uma ideologia. Eles têm a teologia (ou não, pois Bush também é teologia).

Espanta-me muito que Clinton tenha quase sido impeached porque papou uma mulherzinha e, no entanto, Bush suja o nome da América, mata centenas de jovens no deserto do absurdo, arrasa o Ocidente e ninguém fala em impeachment, o que prova o horror moralista da direita cristã e a caretice da América.

Osama traçou um destino para o século XXI, que Bush executa. O terrível é que tenha sido tão fácil, tão imaginoso. Ele (Osama ou Bush?) acabou com nossa idéia de “finalidade”. O projeto do Ocidente agora é localizar bueiros com bombas e cartas venenosas. Osama acabou com nosso mito de tudo controlar, a busca do destino sem acontecimentos, sem sustos. Ele não quer nada de nós; só a tecnologia para “suicidá-la” contra nós. Ele está nos fazendo viajar no tempo. Estamos de volta ao século VII, na Idade Média, quando Maomé cria as bases de uma religião obsessiva, desértica, que louva o martírio e a exclusão dos “infiéis”.

Uma coisa é certa: a idéia de “vencer” não existe mais, não há vitórias para nós; vamos ter de incluir a morte em nosso dia-a-dia, como fazem os islâmicos. Não poderemos esquecê-la jamais. Neste sentido, ficaremos mais “orientais”, fatalistas. Consolo ridículo: “Isso pode até ser útil para o Ocidente consumista”. Achávamos também que Osama amava a morte e o Bush amava a vida. Engano. Bush também ama a morte. A única diferença é que Osama é inteligente e Bush é burro."

A Escola e a Favela

Escola Americana do Rio de Janeiro

Estudei, cresci e, depois, trabalhei na Escola Americana, na Gávea, quase dentro da Favela da Rocinha. As relações favela-escola sempre foram as melhores possíveis. Além de a escola realizar diversos projetos assistenciais e filantrópicos na favela, os americanos, pragmáticos, sempre souberam reconhecer quem mandava de fato.

Os traficantes da favela até hoje usam fogos de artíficio para se comunicar. Quando queríamos soltar fogos também, para festas ou coisas do gênero, tínhamos que pedir permissão a eles.

O chefe da segurança subia o morro pessoalmente para fazer o pedido. Jamais ouvimos um não, mas as regras eram draconianas: podem soltar quantos fogos quiserem, entre 17hs e 18hs, nem um minuto antes nem depois. E a notícia corria o morro: não considerem os fogos soltados entre 17hs e 18hs.

Adoro minha velha escola. Doeu muito ver a escola fechada, mais de mil alunos sem aula, e policiais totalmente equipados usando o muro em frente à entrada para se proteger das balas lá de cima. Foi como ver uma daquelas cenas da Faixa de Gaza - mas em um cenário dolorosamente próximo e familiar.

O Rio não é pra principiantes. Leia hoje, na Tribuna da Imprensa

Uma versão editada desse texto foi publicada na Tribuna da Imprensa, no dia 14 de abril de 2004. A versão não-editada que você está lendo nesse blog é de minha inteira responsabilidade e contém informações que não foram aprovadas e muito menos publicadas pela Tribuna da Imprensa. Quaisquer reclamações, portanto, devem ser dirigidas a mim. Para conferir a versão autorizada publicada na edição impressa da Tribuna da Imprensa, clique aqui.


Tuesday, April 13, 2004

Canal Contemporâneo



Já que estamos falando de artes plásticas, recomendo o excelente blog da artista plástica Patrícia Canetti, Canal Contemporâneo. Segundo Patrícia, "a prática política, aliada a arte e tecnologia, é o foco."

Canal Contemporâneo

Medo no Metrô: Afinal, É Arte ou Não É? (V)



Chegou agora e não sabe o que está acontecendo? Leia o começo da série Medo no Metrô.

A Isabel está conduzindo uma discussão muito legal sobre esse assunto em seu blog Book of Hours. Eis aqui um trecho de suas conclusões:Uma das caixas que tanta confusão causou

"Só pelo fato dele propor o projeto enquanto arte já legitima a obra como tal. Depois de Marcel Duchamp, e já fazem quase 100 anos do mictório no museu, fica muito complicado, historicamente, tentar definir o que é arte ou não é. Tudo o que é proposto como arte é arte e ponto final. Só que Duchamp era um homem de idéias complexas e as suas descobertas não eram de fácil assimilação. Uma vez que um elemento (considerado pela maioria) "não-artístico" penetra no sistema de arte, a função desse elemento não tem um fim em si, mas tem um significado em relação à sua antítese, que, nesse caso, seria o elemento considerado "artístico". Em suma, quando existe um elemento estranho no meio da familiaridade, ele revela muito mais sobre familiaridade do que sobre estranheza."

Clinton BoisvertPor outro lado, minha amiga que escreveu o email original, citado na primeira parte, comenta:

"O iceberg (tambem achei lindo, mas isso não deveria fazer a menor diferença) é arte? E se sim, por que é diferente do cartaz no metrô? Talvez, pela falta da propaganda, e de intencão de manipulacão do público. O que você acha?"

Eu acho, primeiro, que a liberdade de expressão não é absoluta. Não temos o direito de falar qualquer coisa que nos der na telha. A Constituição não protege a nossa liberdade de gritar fogo em um teatro lotado, por exemplo. Isso não é arte: é crime, previsto na lei.

Ao mesmo tempo, o iceberg vermelho de Evaristti é lindo. Como isso poderia não fazer diferença? Claro que faz. Não só faz diferença: é a diferença.'The ICE Cube Project - an art expedition' - foto de Lars Nybøll - Clique para ver em tamanho maior

O Evaristti criou uma nova experiência estética. Imbuído de um refinado senso artístico (e de oportunidade), ele enfiou uma cor em um ambiente onde ela simplesmente não existia, criando assim um efeito visual novo, inédito e sensacional

* * *

Não sei definir o que é arte. Não sei nem se é possível. E, mesmo se fosse, uma definição não duraria muito, pois o primeiro artista verdadeiro que surgisse já trataria logo de transcendê-la.

Mas acho que dá pra reconhecer arte quando a vemos. E aquele iceberg é arte.

Eu só queria mesmo saber quem pagou a viagem.

(amanhã... a utilidade da arte...)

Favela da Rosinha



Ancelmo Gois de hoje, em O Globo:

"A agência internacional Bloomberg espalhou ontem pelo mundo notícia da guerra no Rio em que chama a Rocinha, várias vezes no texto, de "Favela da Rosinha", com "s" no lugar do "c".

Foi erro. Ou não?"

Pombos-Correio São Mais Rápidos que Internet a Cabo



Deu em O Globo de ontem:

"Uma nota publicada semana passada num site israelense mostra que o ser humano está cada dia mais intrigado com a internet. Somente isto justifica que, de acordo com o Israel21c, um grupo de cientistas daquele país tenha se dedicado a provar que os tradicionais pombos-correio conseguem fazer a transferência de dados com mais rapidez que o sistema de banda larga ADSL. É algo bastante óbvio para usuários experientes e que estejam acostumados a baixar arquivos pesados, como filmes. Para o consumidor médio, no entanto, é bem curioso.

A experiência ocorreu em meados do mês passado, na região do Mar da Galiléia. Os cientistas prepararam três pombos-correio, cada qual deles carregando cartões de memória armazenando, no total, 4Gb de dados. Devidamente equipados, foram "instruídos" a entregar as encomendas a 66 milhas (aproximadamente 105 quilômetros) de distância.

O objetivo dos cientistas era tentar provar a hipótese de que a taxa de transferência de dados via columbídeos seria acelerável se a carga de cada pombo fosse aumentada. Ajudaria a experiência o fato de que os pombos retornam a seu hábitat de origem a qualquer custo.

A "tecnologia" foi batizada de TCP (Transmissão por Pombos-Correio, na sigla em inglês) e usou três aves com cerca de 1,3Gb de dados cada (salvos em cartões de memória flash). O tempo de transmissão foi medido assim que o último pombo chegou a seu destino. Nenhuma fonte de energia foi usada - nem mesmo pilhas ou extensões elétricas.

A velocidade de transmissão das informações foi calculada dividindo-se a quantidade de dados pelo tempo de vôo final dos pombos. Conclui-se que a banda larga pombal é bem maior do que a usada pelo ADSL internacional: 2,27Mbps (megabits por segundo) contra 1,5Mbps.

Apesar de, como nos melhores computadores, os pombos serem suscetíveis a "ataques de negação de serviço", os cientistas lembraram que a interrupção de energia elétrica não afeta o TCP. Mas o sistema columbídeo pode, naturalmente, ser afetado por obstáculos como torres de celular. A experiência está narrada em www.notes.co.il/benbasat/5240.asp."


A matéria original lança a seguinte pergunta: "Will B2B (Back to Pigeons) save an endangered technology?" O site também lista as vantagens do TCP (Transmission by Carrier Pigeons) sobre a Internet a cabo. Duas delas:

"Privacy

Pigeons are less likely than a regular ISP to cooperate, willingly or unwillingly, with the RIAA in surrendering the names of young customers who are involved with file sharing, therefore they provide higher level of privacy for P2P (Disclaimer: The owners of this site are in no way advocating, any illegal, immoral or fattening activities. All information provided here is for research, educational, scientific, humaniterian and pigeonerian purposes only).

Scalability

Infrastructure Scalability is achieved by natural replication. Increasing data rate transfer capacity, rather than being subject, as in similar cases to Gilder's law, is subject to Moor's law. Resolving Feynman's challenge will increase it further."


Vale a pena ler.


Monday, April 12, 2004

Ferramentas de Blogs



Estou fazendo uma matéria comparando ferramentas de blogs. Aqui vai o primeiro rascunho. Estou contando com o feedback de vocês.

Concordam com as informalções abaixo? Quais são suas experiências pessoais com essas ferramentas?

Blogger
O primeiro e, ainda, o melhor. Não é à toa que meu blog está lá. Melhor ainda, recentemente eles foram comprados pelo Google e estão nadando em dinheiro. Pra vocês terem uma idéia, eles cancelaram o programa BloggerPro, disseram pros assinantes que eles não precisavam mais pagar não, mandaram um brinde pra cada um e liberaram boa parte das funcionalidades do BloggerPro para todos os usuários. Por enquanto, ainda não há hospedagem de imagens: você terá que mantê-las em algum outro lugar. Outro ponto negativo: você vai precisar saber falar inglês para poder se virar mas, sinceramente, se a essa altura do campeonato, você ainda não sabe falar inglês, montar um blog é o menor dos seus problemas.

Blogger Brasil
A Globo.com tem direito exclusivo à marca Blogger no Brasil. Exclusivo mesmo, pois o serviço só está disponível para assinantes Globo.com. Se você já é assinante, tudo bem. Se não é, não vale a pena a despesa. Use o original americano ou, se não conseguir, procure outro similar nacional. Nos últimos meses, os usuários têm reclamado muito, o site sai do ar, blogs somem, a bruxa está solta.

UOL Blog
O caçula das ferramentas de blog. Acabou de chegar e, claro, graças ao enorme poder de fogo do UOL, já é uma das mais populares. Por incrível que pareça, o serviço está disponível para qualquer usuário, mas assinantes do UOL têm várias regalias. A ferramenta é completíssima: além de permitir que você importe seu blog com facilidade de outro serviço, ela já vem com todos aqueles serviços adicionais fundamentais que você teria que garimpar separadamente, como comentários, contadores, livros de visitas e enquetes. Vale a pena, especialmente se você já for assinante.

Blig
O Blig, o blog do iG, sempre foi o patinho feio dos blogs. Eu nunca entendi muito bem o que leva as pessoas a usarem esse serviço. Por tudo o que eu vi, parece fraquíssimo. Hoje em dia, com mais opções no mercado, ter um blig é quase imperdoável. Pior, o iG agora está começando a cobrar por tudo. Por exemplo, só assinantes podem editar os templates. O mais me espanta são as inexplicáveis mesquinharias: o Blig também vem com comentários e contadores, mas a janela dos comentários só permite que usuários do Blig deixem seus endereços. Por que isso? Qual a vantagem? Se a Globo.com está tendo dificuldades em fazer os usuários pagarem pelo Blogger Brasil, que é uma excelente ferramenta, eu fico me perguntando quem vai pagar R$9,90 por mês somente para usar o Blig. Esqueça.

Weblogger Brasil
O blog do Terra foi um dos pioneiros, mas parece meio parado no tempo. Oferece um servicinho bem básico para os reles mortais (o espaço para imagens, por exemplo, são ínfimos 500kb) e promete mundos e fundos para quem pagar R$9,90 pelo Weblogger Plus. Uma questão fundamental que não fica clara no site é se assinantes do Terra também têm que pagar essa quantia. Se sim, então o Terra está ainda mais ultrapassado do que eu pensava. A Globo.com e o Uol, pelo menos, oferecem todas as funcionalidades possíveis e imaginárias aos seus assinantes sem custos adicionais. Não recomendo.

Sapo
Uma excelente opção, especialmente para quem não fala inglês, são os blogs do Sapo, empresa líder da Internet portuguesa. Para quem se irrita com publicidade, os blogs do Sapo não têm banners nem pop-ups e, também, nem serviço pago - do que será que a empresa vive? Mesmo assim, oferecem comentários, contadores e 15Mb de espaço, que não é pouca coisa. Para os brasileiros, há somente o problema do choque cultural. De certo modo, o português falado na Internet brasileira está mais próximo ao inglês do que ao português de Portugal, onde eles aportuguesam tudo. Mas não tem problema. Logo logo vocês pegam que utilizador é usuário, artigo é post, modelo é template e ficheiro é arquivo.

LiveJournal
Um LiveJournal é assim meio que nem um Macintosh. Quem tem, é viciado e acha que é a melhor coisa do mundo. Quem não tem, não consegue entender porque tanto escândalo. De qualquer modo, é uma ferramenta de publicação na internet (o que preenche minha definição de blog) mas é bastante diferente dos outros sistemas citados aqui. Acho que sou meio nerd nesse sentido, mas sinto falta das funcionalidades que todos os outros blogs têm. Também me irritam as pequenas mesquinharias: usuários de LiveJournal formam um gueto porque a própria ferramenta os isola. Por exemplo, só usuários do LiveJournal podem fazer comentários. Se você não é, tem que fazer comentário como Anônimo e escrever seus dados no corpo do comentário. Não é nada, mas irrita pela pirraça. Enfim, admito que tenho birra. Mas vão lá conferir, pode ser que seja a praia de vocês.

Movable Type
O Movable Type é um sistema de blogs de alto nível mas, ao contrário das outras ferramentas citadas nessa página, ele é mesmo só o programinha. Em outras palavras, você precisa já ter um site para poder rodar um blog Movable Type. Para os usuários mais avançados, vale a pena, e muito, especialmente pelas diversas funcionalidades que nenhum outro sistema oferece. Se o seu problema é inglês, confira o Movable Type Brasil, um grupo não-oficial de suporte a usuários brasileiros do sistema.

Sério, estou precisando do feedback de vocês. Comentem, corrijam, contem suas experiências. Valeu!

Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil



Sou viciado em arte naïf e, como não poderia deixar de ser, adoro o Mian (Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil), de Lucien Finkelstein, o maior acervo de arte naïf do mundo. Pelo menos uma vez por ano, eu visito meu quadro favorito, "Rio de Janeiro, Gosto de Você" - Lia Mittarakis (1985), de 4m X 7m, e me perco nele, fico lá horas olhando, absorvendo tudo..Casamento na Aldeia - Rodolfo Flores G - 1988 - Clique para ver em tamanho maior

Amanhã, 13 de abril, será a abertura da exposição "O Mundo em Festa", da qual fazem parte as imagens desse post. Se terça-feira não fosse meu dia de dar aulas, eu estaria lá com certeza:

"O Mundo em Festa

O MIAN - Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil inaugura no dia 13 de abril de 2004 a exposição do seu acervo internacional O mundo em festa. Composta de 102 quadros de mais de trinta países, a exposição visa a mostrar as várias celebrações em torno do casamento, das datas cívicas, da alegria e da tristeza e permanece até o dia 20 de março de 2005.

Os artistas naïfs, sempre profundamente identificados com a sua terra e a sua gente, representam as festas nas suas várias modalidades: sociais, religiosas, cívicas, folclóricas. Dos delicados bordados do Camboja ao Equador, da Índia à Guatemala, passando pela Europa, nada escapa ao pincel atento e livre daqueles artistas. Pintados sobre pele de lhama, cortiça, papel de arroz, vidro ou metal, as obras falam um pouco de cada povo retratado.

Dos laços do casamento, levados ao pé da letra pelos camponeses andinos e pelos hindus, que se unem por um laço vermelho durante a cerimônia, aos rituais alegres da morte no México e no Peru, a exposição mostra o modo de viver e de festejar em diversas latitudes.

Os Padrinhos - Luis Cuyo Millingalli - 1988 - Clique para ver em tamanho maiorAs comemorações sociais como a Festa da Primavera, na China, que lembra a passagem do ano lunar, estão na base de alguns costumes nossos, como o de soltar foguetes na passagem do ano. Para o horóscopo chinês, este é o ano do macaco e o Ano Novo foi festejado no dia 22 de janeiro de 2004.

Festas cívicas com o Dia de Ação de Graças americano e o 14 de julho francês também são lembrados. E as festas religiosas da América Latina, que misturam elementos ibéricos e pré-colombianos, numa orgia de cor, música e movimento.

O mundo em festa - exposição de artistas naïfs de mais de 30 países, mostrando as maneiras de festejar nas várias latitudes. Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil. Rua Cosme Velho, 561. De terça a sexta-feira das 10 às 18 h. Sábados, domingos e feriados das 12 às 18h. Ingressos a R$ 8,00 adultos e R$ 4,00 crianças, estudantes e 3a idade. Até 20 de março de 2005."

Crédito das Obras:

Luis Cuyo Millingalli
"Os padrinhos"Concurso de Balões -  Geneviéve Peyrade - 1978 - Clique para ver em tamanho maior
Óleo s/ pele e eucatex
39,4 x 60 cm
1988

Geneviéve Peyrade
"O concurso de balões"
Óleo s/ tela e eucatex
49,6 x 60,5 cm
1978

Rodolfo Flores G.
"Casamento na aldeia"
Guche s/ papel amate e eucatex
24,8 x 44,2 cm
1988

Credito das fotos:
Fiorela N. de Salles


Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil


Sunday, April 11, 2004

Medo no Metrô: Nomear É Poder (IV)



Chegou agora e não sabe o que está acontecendo? Leia o começo dessa série.

O que houve em 31 de março ou 1º de abril de 1964 foi uma revolução gloriosa ou uma quartelada bufa? Naturalmente, como bem sabiam os portugueses que passavam por aqui colocando nome em tudo, mesmo em lugares onde nem tencionavem ficar, nomear é poder.

Diz a Isabel:

“Seu post começa com um pequeno desvio de conceito: o cara não espalhou 37 caixas apenas. Ele expôs 37 caixas com a palavra FEAR escrita em cada uma delas. Se formos julgar se o que o cara fez é arte só pela tua descrição, a resposta é obviamente não, porque vc deixou de fora da frase o que define a ação dele. just for the record...”

Sei não, mas acho que escrever que “ele expôs 37 caixas” é ainda mais tendencioso para um lado do que dizer que ele espalhou as tais caixas é para o outro.

Afinal, se os usuários do metrô de Nova Iorque tivessem sido informados de que aquelas caixas estavam ali expostas – ao invés de cuidadosamente colocadas por pessoas com objetivos sinistros e insondáveis – não teriam entrado em pânico e nem perdido o dia de trabalho.

(amanhã... afinal, é arte ou não é?)

Hoje no Fotolog: Dominatrix Barbie



Eu quero uma pra mim. Acompanha um Ken todo roxo, cheio de marcas de chicotadas. Os joelhinhos são dobráveis, claro, pra ele poder se ajoelhar.

Veja essa e outras imagens no fotolog.

Solto em Flagrante



Eu venho querendo comentar isso faz tempo, e sempre esqueço. Hoje, o Xexéo, em sua coluna em O Globo, se adiantou:

"Tem outra questão que me persegue desde a aparição nesta história do caseiro Jossiel e que torna inexplicável o fato de ele ter sido solto pela Justiça. Tudo bem, não havia provas contra ele no caso do assassinato do casal americano, mas... ele não foi detido justamente quanto tentava assaltar a residência do cônsul da Bélgica (ou da Turquia, ou da Grécia, não sei, cada dia sai uma coisa diferente nos jornais)? E desde quando a Justiça libera ladrões presos em flagrante? Já está assim aqui no Rio?"

Touché em ambos os pontos. Afinal, de onde é o raio do cônsul?

E, claro, mesmo não havendo provas contra ele em relação aos assassinatos, ele não foi pego em flagrante entrando na casa dos outros?

Só se o cônsul não quis dar queixa.


Saturday, April 10, 2004

Medo no Metrô: Chocar e Denunciar (III)



Chegou agora e não sabe o que está acontecendo? Leia o começo dessa série.

A Isabel, do Book of Hours, amiga, artista plástica e interlocutora, sentenciou:

”O que o Clinton mostrou através de um trabalho muito simples foi o nível de paranóia dos americanos em relação ao terrorismo. Conseguiu. E isso é arte.”

O Gabriel, do Kasaco Vermelho com Pus, complementou:

"O tal Boisvert mostrou todo o fear que ainda paira no ar em Nova Iorque, de uma maneira mais eficiente e imediata do que gravar uma música ou pintar um quadro sobre o tema. Chocou e obteve uma reação”

Tudo bem, ele denunciou o medo que paira no ar. Mas, se você considera que denunciar as mazelas do cotidiano é tarefa do jornalismo, então o que ele fez é jornalismo, não arte. Será? Quem disse que o papel da arte é denunciar o medo que há no ar?

Quanto à chocar, também não sei quem disse que chocar é atribuição da arte.

O João Paulo, velho leitor de Portugal, comentou com muita propriedade:

“Se arte é chocar e obter reacções, então a Al-Qaeda deve ser o grupo de artistas mais conceituado que nós temos...”

Choque por choque, o eletricista que deixou um fio desencapado aqui em casa e quase me torrou está no nível de um Picasso, então.

(amanhã... nomear é poder...)

Hoje no Fotolog: Glauco Cruz

Ilustração de Glauco Cruz para a coluna do Gravatá de 5 de abril de 2004Ilustração de Glauco Cruz, para a Coluna do Gravatá, no Caderno de Informática de O Globo, segunda-feira, 5 de abril de 2004.

Invistam alguns minutos nos detalhes. Colar com pulseira de pérolas. Calcinha de morangos. Arranhões embaixo da coxa. Piercing no umbigo. Bico do peito aparecendo. Solinha do pé pisando no rabo do gato. Ê lindeza.

Pra acabar, boas notícias: o Gravatá vai passar a publicar as ilustrações do Cruz em seu blog. Essa aqui já está lá. Visitem também o Sexy Brazilian Comic Babes, um clube no Yahoo dedicado exclusivamente às melhores mulheres do Cruz.

Uns São Mais Iguais Que Os Outros



Por causa de um pretenso elogio ao Bin Laden, os Estados Unidos negaram o visto especial 01 a Caetano Veloso.

Pronto. Os patriotas de plantão já começaram a rufar seus tambores como se isso fosse algum tipo de insulto à Pátria.

Pra começar, Caetano, que vai cantar no Carnegie Hall, em Nova Iorque, nunca correu risco de não conseguir o visto. O problema é que o visto que ele tinha conseguido era o de mortal comum, esse com o qual eu, você, todos nós temos que nós contentar. Com o visto de trabalho comum, P-3, o trabalhador tem que voltar ao seu país logo depois de terminado o serviço. Ou seja, Caetano não ia poder ficar saracoteando pela 5ª Avenida depois dos shows.

Por algum motivo que me escapa completamente, essa besteirinha, que afetava minimamente a vida de um único cidadão, virou questão de honra para o Itamaraty.

"O consulado brasileiro destacou um funcionário só para cuidar desse caso e ele passou os últimos dez dias recusando-se a aceitar o não. Insistiu, pressionou e acabou conseguindo, inicialmente, um period of grace, uma extensão do prazo de permanência de Caetano nos Estados Unidos depois de terminado os compromissos profissionais. Mas era pouco. O funcionário continuou insistindo e, na quinta-feira, recebeu o sim que queria." (fonte: O Globo On Line)

Será que sou só eu que me incomodo de um funcionário público, vivendo em Nova Iorque, sendo sustentado pelo meu, pelo seu, pelo nosso dinheiro, ter ficado dez dias exclusivamente se dedicando a essa colossal besteira?

Enquanto isso, nós, os pobres mortais que pagam essa conta, ficamos horas na fila pra sair daqui e depois ainda somos fichados quando chegamos lá. Isso se conseguirmos visto, claro. Triste sina.

Uma Figura Inacreditável



Andaram falando de mim no blog Uma Por Dia, da Carla:

"LiberalLibertárioLibertino
Um lugar mais polêmico e zoneado do que minha casa. Esse moço Alexandre Cruz Almeida deve ser uma figura inacreditável - uma passadela de olhos pelo perfil dele no blog é o suficiente para ficar, no mínimo, curiozinha. Ele andou descendo a lenha no Chico Buarque, mas sou suficientemente civilizada para tolerar e até refletir sobre críticas às coisas de que gosto. Vão lá voces também."


Friday, April 9, 2004

Medo no Metrô: Arte ou Crime? (II)

Uma das caixas que tanta confusão causouA instalação de Boisvert comporta uma questão adicional: o que ele fez é crime?

Boisvert está sendo processado por reckless endangerment e disorderly conduct. A primeira seria algo como colocar pessoas em risco sem se preocupar com as conseqüências e a segunda, conduta desordeira.

Por outro lado, pode-se argumentar que as caixas de Boisvert estão protegidas pelo First Amendment, que estabelece a liberdade de expressão.

Em outras palavras, devemos ter o direito constitucionalmente garantido de expor 37 caixas pretas dizendo FEAR no metrô?

Clinton BoisvertJulie Tilden, advogada especializada em First Amendment, analisou a questão por todos os lados e escreveu um excelente artigo para o fanzine Counter Punch sobre os aspectos legais do caso. Alguns trechos:

"The Supreme Court has made crystal clear that speech cannot be censored because it is offensive. But speech that causes fear is very much another matter. That's because speech that inspires fear includes a threat of physical--not just psychological--harm, and the First Amendment protects only "speech," not conduct. (...)

It's worth considering that art may be valuable precisely in that it is provocative--and one way to be provocative is to inspire anxiety, or even fear. After all, art that is not--in at least some respect--disturbing may not be worthy of the name; it may merely be entertainment."


Leia Fear Factor: Art, Terror and the First Amendment, por Julie Tilden

(amanhã... chocar e denunciar...)

Hoje no Fotolog: Pinky & Cérebro

Pinky & Cérebro

Os Jornalistas e Os Blogs

Leia hoje, na minha colunaLeia hoje na minha coluna:

Os Jornalistas e Os Blogs

Hoje, muitos dos melhores blogs brasileiros são mantidos por jornalistas. Não é difícil de entender o motivo. A Internet, e em especial, os blogs, oferecem aos jornalistas muitas maneiras de potencializar seu trabalho. Infelizmente, entretanto, também surgem novos problemas.

Vantagem: Pré-Pauta On-Line

Meu blog Liberal Libertário Libertino tem cerca de mil visitas por dia.

No começo da semana, eu sempre faço um post sobre o assunto da minha coluna de sexta-feira. Invariavelmente, o feedback dos leitores se prova fundamental: mais de uma coluna já foi abortada, ou possibilitada, por suas críticas e sugestões. O blog do Alex Teixeira, por exemplo, tema da coluna de 12 de março, foi indicação de uma leitora, a Mitcha, em resposta a uma pré-pauta sobre blogs das pessoas mortas.

Vantagem: Complementando o Jornal

Qualquer matéria sempre fica bem maior do que o espaço disponível. Muita coisa que seria interessante para os leitores acaba sendo cortada.

O blog atua como um complemento à coluna. Lá, eu publico a versão original do artigo, sem cortes, com todas aquelas informações mais detalhadas que não couberam no jornal, como sites das organizações citadas ou declarações ipsis litteris dos entrevistados.

Pra mim, seria impossível pensar minha coluna separadamente do blog. Pra começar, fui convidado para escrever a coluna por causa do trabalho no blog. É no blog que faço minha pré-pauta on-line e debato a futura coluna com os leitores. E, por fim, o blog acolhe tudo o que não coube, ou não foi apropriado, de publicar no jornal.

Desvantagem: Os Inevitáveis Mal-Entendidos

Há alguns dias, uma leitora ficou revoltada com um dos posts do meu blog. Abaixo do post, havia um aviso: "Uma versão bastante editada desse texto foi publicada na Tribuna da Imprensa". Ao lado, havia um link para a página do site da Tribuna onde a matéria estava publicada.

Minha leitora não clicou nesse link. Ela não comprou o jornal. Leu meu blog, não gostou e reclamou. Mas reclamou para a Tribuna. Foi uma situação sui-generis: ela escreveu para o jornal reclamando de um comentário que o jornal jamais publicou.

A explicação é simples: o tal comentário existia apenas no blog, tendo sido cortado da versão final publicada no jornal. Naturalmente, minha leitora poderia ter prestado mais atenção ao aviso "versão bastante editada". Além disso, não custa nada ler um jornal, nem que apenas a versão on-line, antes de reclamar dele.

Se eu fosse inteligente, deixaria o assunto morrer. Mas não sou inteligente, e é uma história boa demais para não virar coluna.

Jornais tentam controlar blogs

Por essas e outras, vários jornais dos Estados Unidos estão tentando controlar os blogs dos seus jornalistas. Recentemente, Steve Outing descreveu os paradoxos dessa nova situação em seu artigo "Quando Jornalistas Blogam, Editores Ficam Nervosos" ("When Journalists Blog, Editors Get Nervous"), na revista norte-americana Editor & Publisher:

O New York Times, por exemplo, proíbe jornalistas de manter blogs relacionados à sua área de atuação. E quaisquer outros blogs, sobre quaisquer outros assuntos, têm que ser previamente aprovados por uma redação nada simpática ao assunto.

Tereza Cruvinel poderia ter um blog sobre literatura, por exemplo, mas nunca sobre os bastidores da política. Fica implícito que, se ela tem algo a dizer sobre os bastidores da política, que o diga em sua coluna.

Também fica implícito que, qualquer coisa que ela por ventura dissesse sobre os bastidores da política em seu blog poderia visto como uma continuação de sua coluna. Muitos leitores não conseguiriam distinguir entre a cidadã falando por si mesma e a colunista escrevendo em O Globo e fariam exatamente como minha leitora: culpariam o jornal por um conteúdo externo a ele.

A pior solução talvez seja a dos jornais que permitem seus jornalistas terem blogs sobre qualquer coisa - desde que cada post seja previamente autorizado por um editor. Acho que se eu tivesse que esperar minha atarefada editora aprovar cada post do meu blog, eu não conseguiria fazer nem seis posts por ano.

Outing conta que uma jornalista-blogueira, depois de contratada por um grande jornal norte-americano, encontrou tantas restrições ao seu blog que confessou: se soubesse que era assim, não teria aceito o emprego.

Do ponto de vista da empresa, a situação é espinhosa: o jornal é legalmente responsável pelo conteúdo que publica e, por isso mesmo, exerce controle sobre ele. Mas o conteúdo do blog de um colunista também pode ser entendido pelos leitores como conteúdo do jornal. Como controlá-lo?

Mais importante, um jornal deve poder controlar o conteúdo do blog independente de um dos seus colunistas? Qual deve ser o limite de atuação de uma empresa na esfera pessoal de seus funcionários?

Conversei com diversos jornalistas-blogueiros tupiniquins. Aqui, felizmente, essa questão nem começou a surgir e ainda dá tempo de levá-la com mais jogo de cintura.

Semana que vem, a relação entre editores, jornalistas e seus blogs no Brasil.

Uma versão editada desse texto foi publicada na minha coluna Internet, na Tribuna da Imprensa, no dia 9 de abril de 2004. A versão não-editada que você está lendo nesse blog é de minha inteira responsabilidade e contém informações que não foram aprovadas e muito menos publicadas pela Tribuna da Imprensa. Quaisquer reclamações, portanto, devem ser dirigidas a mim. Para conferir a versão autorizada publicada na edição impressa da Tribuna da Imprensa, clique aqui.


Thursday, April 8, 2004

Kasaco Vermelho com Pus



É sempre bom saber que nosso trabalho tem um impacto positivo na vida das pessoas.

O blogueiro Gabriel, do Kasaco Vermelho com Pus, escreveu o seguinte:

"A minha vida de blogueiro se divide em antes e depois de eu conhecer o LiberalLibetárioLibertino. Eu sei, isso é mó puxa-saquice, talvez eu esteja exagerando um pouco, podem me xingar. O negócio é que a nossa (minha e do Felipe) idéia pro Kasaco Vermelho Com Pus nunca foi fazer um blog sobre as nossas vidinhas, e sim sobre o que a gente tinha a dizer sobre tudo, nada e qualquer coisa.

Eu só fui entender melhor como fazer isso depois que esbarrei no LLL (e olha que eu cheguei lá do jeito mais insólito possível).

Graças ao LLL e seus links, eu li frases como:

"Os humanos, enquanto manada, são lamentáveis. Individualmente, alguns prestam."
-Do LLL.

"Ou seja, estou começando a ver que, politicamente falando, desprezo qualquer um que fale politicamente."
-Idem.

"(...)acho que uma certa preguiça é uma coisa boa, porque a preguiça anula os outros pecados todos. Deus sabe como eu seria vítima da luxúria, da ira e do orgulho se não preferisse tirar sonecas."
-Do Alexandre Soares Silva

"confesso que cheguei a idealizar um dia um livro intitulado "História Universal da Estupidez", mas desisti a tempo. Só o primeiro capítulo renderia centenas de páginas..."
-Do Inagaki

E é isso. Chega de ser puxa-saco por hoje."


Como sempre, fica evidente a enorme importância dos links.

Através dos links do meu blog, Gabriel conheceu o Soares Silva e o Inagaki, outros dois alexandres que mandam muito bem.

Por isso, eu sempre digo e imploro, e não só em relação a mim: viu um blog legal? Linka pra ele. Leu um post interessante em outro blog? Comente no seu e coloque um link.

Um blog lava o outro.

Só ficou, entretanto, um dúvida: Gabriel, que modo insólito foi esse que você chegou aqui? Procurando fotos nuas da Antonella?

Valeu.

Um Cheque Para o Rei da Etiópia



Deliciosa história na coluna de hoje do Sebastião Nery, da Tribuna:

"Teferi Makonnen Hailé Selassié, negro, de barba e bigodão, coroado "negus" (imperador) da Abissínia-Etiópia em 1930, "Leão conquistador da Tribo de Judá, Eleito de Deus, Rei dos Reis", já com quase 70 anos, veio ao Brasil de 13 a 16 de dezembro de 1960, com enorme comitiva.

Estava jantando com o presidente Kubitschek no Palácio da Alvorada, aproxima-se um assessor e lhe diz qualquer coisa no ouvido. Selassié parou um instante, pensou, voltou a jantar tranqüilamente. Juscelino percebeu:

- Alguma coisa, imperador?

- Presidente, acabo de ser deposto por meu filho, na Abissínia (hoje novamente Etiópia). Mas eu sei que rei sou eu. Não vamos alterar o programa. Quero apenas, quando sairmos daqui, uma audiência reservada com o senhor.

Depois do jantar, foram para o gabinete. Selassié pediu a Juscelino que convocasse o gerente do Citibank. Queria sacar US$ 100 mil para alugar um avião e mandar de volta os cem generais que tinham vindo com ele.

Juscelino chamou, veio o gerente, não podia ser. O dinheiro, depositado em nome do país, já tinha sido bloqueado por ordem do novo governo de Adis-Abeba. Só havia uma possibilidade: se o Brasil avalizasse o cheque.

JK mandou chamar o secretário-geral do Itamaraty, Edmundo Barbosa da Silva, que estava respondendo pelo Ministério do Exterior, porque o ministro Horacio Lafer estava viajando. Na hora de assinar o cheque, avalizando-o, o embaixador tremeu tanto que a assinatura não saía. Juscelino tomou-lhe a caneta:

- Ora, Edmundo, me dá isso que eu assino.

Juscelino assinou, avalizou o cheque, Selassié alugou um avião da Panair, embarcou na frente seus 100 generais, cumpriu fielmente todo o programa no Brasil e voltou para Adis-Abeba. Os três chefes do golpe, o "ras" Imru, primeiro-ministro, o general Girmamé Neway, governador de província, e seu irmão Mengistu, comandante da guarda imperial, mataram um grupo de nobres que tinham tomado como reféns e "suicidaram-se" depois.

Selassié deu uma surra de chicote, no meio da praça central, no filho e príncipe herdeiro, Merede Azimach-Asfa Wessen Hailé Selassié, mandou-o para Londres como embaixador. E continuou imperador até setembro de 74, quando afinal foi deposto e preso por um golpe militar, aos 82 anos.

Em 74, quando Selassié foi derrubado, perguntei a Juscelino:

- Presidente, e se o Leão de Judá não conseguisse reassumir?

- O prejuízo seria de US$ 100 mil dólares. Muito mais barato do que deixar e sustentar no Copacabana Palace, e toda noite no Sacha's, 100 crioulos, generais abusados, mal acostumados com o poder total.

E deu uma de suas gargalhadas de janelas abertas e olhos fechados. Parou um pouco, pensou, falou mais para ele do que para mim:

- Tanto faz ser imperador na Etiópia, presidente no Brasil ou prefeito em Diamantina. Chega uma hora de decidir. E quem tem que decidir é você, eleito pelo povo ou herdeiro de uma ditadura africana. Ouve, discute, analisa, mas não pode transferir a decisão. Se transferir, não dá certo. Na hora ou lá na frente, vai ficar pior. No governo você tem sempre que saber que rei você é."

Novos Blogs Recomendados



Alguns blogs que têm me impressionado bastante foram promovidos a blogs favoritos. Outros, que estavam meio paradões, caíram lá pra baixo. E tem sempre o pessoal novo chegando...

Blogs favoritos: Velho do Farol, Alto Volta e Na Cara do Gol.

Blogs amigos: Imagine As Possibilidades da Vida, Hellfire Club, Fêmea no Cio, Tia Cris e Lanterna de Diógenes.

Amor Companheiro



Deu em O Globo, coluna Gente Boa, de Joaquim Ferreira dos Santos:

"A expressão "amor companheiro", que Pedro Bial usou para descrever a cumplicidade de Cida e Thiago no Big Brother Brasil é o mote do novo livro do psicanalista Francisco Daudt. Em "Amor companheiro - a amizade, dentro e fora do casamento", da Sextante, Daudt diz que "o amor companheiro respeita, não toma o outro como o ‘ar que a gente respira’, pois as pessoas não têm consideração nenhuma pelo ar'". O prefácio é de Bial."

Naturalmente, quem quiser saber mais sobre o assunto também pode ler um certo romance, Mulher de Um Homem Só, que ainda não foi publicado, mas está, por enquanto, disponível para download na Internet. Os leitores andam gostando e, francamente, tem tudo a ver.

E você, que gosta desse blog, vem aqui sempre, mas ainda não leu o romance, não acha que já está na hora, não? Você pode fazer o download em versão para imprimir ou para ler na tela.

Isabel Löfgren: Privacidade e Identidade na Era da Internet

[search:

Isabel Löfgren, 29, artista plástica, é uma das minhas mais antigas e queridas amigas. Nossa história é longa, intensa e dá piruetas. Meu livro de contos, Onde Perdemos Tudo, é dedicado a ela, pois ela foi a inspiração de todos os bons contos do livro, para bem ou, às vezes, para mal.

Enfim, Isabel chafurda nas trincheiras das artes plásticas desde que se entende por gente e, agora, já está mocinha. Esse mês, ela vai expor seis peças na Galeria Artexarte, em Buenos Aires, junto com seu marido, o fotógrafo Ricardo Fasanello.

Detalhe de [search:

Minha favorita, "[search:"webcam" filetype:jpg] showing 1000 of 59,080 results", nas duas fotos acima, é uma impressão fotográfica sobre alumínio, de 250 cm de diametro, suspensa ao redor de uma pilastra. Em ambos os lados da faixa metálica, como mostra o detalhe, milhares de pequenas imagens retiradas de webcams por todo o mundo.

[search: Melhor ainda, para ver as imagens do lado de dentro da faixa, você tem que se abaixar e entrar fisicamente no círculo. Um lembrete bem concreto que, ao observar aquelas imagens, você está de fato entrando na intimidade de milhares de pessoas.

(Aliás, a sexy e elegantérrima morena de costas na primeira foto é a senhora minha esposa.)

Eu não me considero suspeito pra falar, pois só a própria Bel é mais severa do que eu com seu trabalho. Eu critico mesmo. Mas esse aqui, sinceramente, eu acho genial.Waiting for the train to depart - By Isabel Löfgren - 2003 - Clique para ver em tamanho maior

Talvez o aspecto que mais me fascina nessa obra, e em outras similares executadas por ela, como "[search: "pink" fieltype:jpg] showing 1,567 of 149,675 results", acima, é a impossibilidade de transmiti-las por qualquer outro meio. Não dá pra descrever. Não dá pra reproduzir. É preciso estar lá pessoalmente. O impacto tanto acontece de longe, ao você ver o conjunto da obra, quanto de perto, quando você se perde naquela enormidade de fotos uma após a outra, tantas vidas, tantas histórias.

Sala de Reunião - By Isabel Löfgren - 2003 - Clique para ver em tamanho maiorUltimamente, Isabel vem trabalhando essa questão de privacidade e identidade na Internet. Como parte desse projeto, ela mantém o flog público ID Card, onde anônimos de todo o mundo podem publicar fotos suas de suas carteiras de identidade e motorista, ficando assim, claro, menos anônimos e criando um enorme mosaico de rostos.

Outro projeto seu que eu amo são os espaços do tédio, montagens sobre fotos de filas de banco, salas de espera, saguões, todos aqueles espaços de passagem e de espera que consomem nossa vida e não nos acrescentam nada. Ou seja, a Escola Urbana das artes plásticas.

Enquanto ela não faz o site que suas obras merecem, ela vai postando as fotos e colagens no seu flog Lobá Má. Eu sei o que vocês estão pensando, mas não tive nada a ver com esse nome. Ela trabalhou para a Disney uma vez e ganhou esse apelido lá. Tenho até medo de saber o que ela fez para merecer ser conhecida como a Loba Má. Enfim.Outra Sala de Reunião - By Isabel Löfgren - 2003 - Clique para ver em tamanho maior

E, ultimamente, também tem publicado umas reflexões muito interessantes sobre arte contemporênea no blog Book of Hours, que eu recomendo para todos.

Trechos do texto do catálogo da nova exposição, escrito por João Wesley, professor da Universidade Federal do Espírito Santo:

"Distante de ser exatamente mais um objeto pragmaticamente deslocado da banalidade do cotidiano para o ambiente da arte, as configurações de Isabel acabam suscitando outras questões que transbordam a noção primeira de ready-made. A presença visual proporcionada através de um rigoroso sistema de busca e organização, também aciona um "sujeito em estado de suspensão fragmentária", disponível e existente na rede informatizada, que se precipita na tela de um computador, ao comando codificado desta nova linguagem. Deste modo, as imagens geradas pelo sistema proposto, aprioristicamente, pela artista, assemelha-se à música; uma pauta codificada que permite, a qualquer um, acionar e trazer à existência, um efêmero evento estético pré-codificado.

Sala de Espera no Subúrbio - By Isabel Löfgren - 2003 - Clique para ver em tamanho maiorAntes era o verbo que criava, agora, milhões de bits circulando mundialmente próximo à velocidade da luz, repousam sobre a superfície do papel, revelando novas versões de antigas idéias, e neste bojo, Isabel Löfgren dissolve e reagrupa sentidos com suas imagens-código."


Finalmente, seu bio, também do catálogo:

"Isabel Löfgren was born in Stockholm, Sweden in 1975. After living in several countries, she decides to study art in the United States, where she graduates in 1996. After moving to Brazil in 1998, Isabel begins her career first in scenography and architecture, with a brief experience in the technology world as an information architect. This experience proved to be decisive in moving towards the direction of art and technology. Isabel is also a painter and drawer, and lives in Rio de Janeiro, Brazil. Some recent collective exhibitions include "Campo de Inserção" Universidade Federal Fluminense, Niterói, Brazil; Figura 3 and 4 in Rio de Janeiro, Brazil, and Projeto Alfândega in Rio de Janeiro, Brazil."

Links Relacionados:
Lobá Má
Book of Hours
ID Card
Galeria Artexarte

Hélio Fernandes de Hoje



Deu na coluna do Hélio Fernandes de hoje, na Tribuna:

"Como dizem alguns jornalistas amestrados (e muito criativos), o governador Mateus "deu um tiro que saiu pela culatra". Convencido de que a Câmara e o Senado fariam a CPI do escândalo Waldomiro, fez logo uma na Alerj. Como não se desespera nunca, e se considera um gênio (o que na verdade é, um homem com a sua deformação escolar, e não sabendo rigorosamente nada, chegar aonde chegou), manobrou para esvaziar a CPI da Alerj. Acontece que os deputados estão deslumbrados com a TV. Não obedecem a Mateus."


Wednesday, April 7, 2004

Parceria LLL e Eu Hein! para Adesivos de Pára-Choque

Conheça o Eu Hein!, o blog mais engraçado do Brasil

Faz muitos anos, escrevi uma matéria para a Revista Mad sobre adesivos de pára-choque. A matéria acabou nunca saindo e o arquivo ficou perdido aqui pelo computador por quase dez anos.

Encontrei outro dia e quase postei tudo no blog de uma vez só, mas frase de pára-choque não foi feita pra ser lida, e sim para ser vista.

Nasceu assim a parceria entre o Liberal Libertário Libertino e o Eu Hein!, do Nelito Fernandes, um dos blogs mais engraçados do Brasil e vencedor do IBest.

Eu forneço as frases, o Nelito cria os adesivos, publicamos nos dois blogs e todo mundo fica feliz.

Aguardem os próximos.

Sexo Nada Virtual



Bola levantada pelo Pedro Dória, do Weblog da NoMínimo.

Segundo essa matéria do Clarín, de Buenos Aires, 40% dos argentinos entre 15 e 20 anos de idade já transou com pessoas que conheceram pela Internet!

Incrível.

Sexo Sem Intermediários

Leia hoje, na primeira página do TribunaBis, o caderno de cultura da Tribuna da ImprensaLeia hoje na primeira página do TribunaBis:

Sexo Sem Intermediários

Hoje em dia, para conseguir uma prostituta, não é mais necessário passear de carro pela orla de Copabacana, ler os classificados dos grandes jornais ou nem mesmo folhear caderninhos em barracas na praia. Acompanhantes, de todas as raças, credos e preços, podem ser encontradas na Internet, em sites próprios, de agências ou mesmo de cooperativas.

Na segunda semana de fevereiro, o jornal O Globo denunciou um escândalo na praia de Copacabana: agenciadores ofereciam aos turistas verdadeiros catálogos de garotas de programa à la carte. Surpresa, a sociedade reagiu: já no dia seguinte, vários agenciadores foram presos e licenças de barraqueiros suspeitos de conivência foram apreendidas.

Naturalmente, o escândalo só surpreendeu quem nunca navegou na Internet, ou mesmo folheou os classificados do próprio jornal que fez a denúncia.

Classificados que Vendem

O Globo publica diariamente cerca de 100 a 150 anúncios de acompanhantes e termas. O mais simples sai por R$49 ao dia, enquanto um anúncio de quatro colunas por custar até mesmo R$500.

Na quinta-feira, 4 de março de 2004, por exemplo, havia 120 anúncios simples e 24 de variados tamanhos. Estimando todos os valores por baixo, esses ¾ de página tiveram uma renda bruta de cerca de R$11.000,00 ao jornal. Vale lembrar que, aos sábados e domingos, os preços são consideravelmente mais altos.

Não chega a ser rufianismo e exploração ao lenocínio, claro, crimes nos quais o agenciador da praia foi enquadrado, mas não podemos deixar de reparar que a publicação deve lucrar muito mais com a prostituição do que os atravessadores que andam pela orla oferecendo garotas de programa aos turistas. Pior, O Globo ganha sempre; o pobre agenciador só se conseguir fechar o programa.

Dá pra entender porque Miriam - que concordou, como as demais, em entregar o jogo, identificada por outro codinome - de 20 anos, estava revoltada com a reportagem: "Essa é a empresa que mais divulga e dá cobertura à prostituição!"

Mencionamos O Globo somente porque a denúncia partiu dele. Outros grandes jornais locais adotam as mesmas práticas, como o Jornal do Brasil, O Dia e Extra.

Caderninhos na Internet

Armar tamanho circo na mídia e junto à polícia por conta de caderninhos com fotos de garotas de programa, cujo conteúdo é idêntico ao de milhares de sites que existem por aí nos cheira a uma grande hipocrisia. Hoje em dia, qualquer garota de programa acima da linha de pobreza já conta com seu próprio site na Web.

Kelly, de 19 anos, tem sua página há três, hospedada no site de uma pequena agência de modelos carioca. Ela paga cerca de R$ 50 por mês à agência para manter sua página no ar, e só: de resto, Kelly trabalha por conta própria.

Por enquanto, somente 20% dos seus clientes chegam pela Internet, localizando Kelly ou a agência através de mecanismos de busca. Os outros 80% encontram Kelly através dos classificados de O Globo.Leia esse artigo no Observatório da Imprensa, número 272, de 13 de abril de 2004

O custo dos anúncios é pesado, mas Kelly não tem outra opção. Via de regra, seus clientes vêem seu anúncio no jornal, se interessam, vão ao site, abrem as fotos, gostam e só então ligam para marcar o programa. Não poderia haver melhor exemplo da integração entre nova mídia e mídia tradicional.

Marta, de 26 anos, também trabalhando por conta própria, poderia dar algumas boas dicas à Kelly: a página de Marta fica dentro do site da Destack, conhecida agência de modelos. Como a Destack aparece bem nos mecanismos de busca, quase todos os clientes de Marta hoje já chegam pela Internet e ela está progressivamente deixando de anunciar nos classificados. Afinal, a matemática é simples: Marta paga R$60 por mês à Destack para manter a página no ar, enquanto o anúncio mais barato sai por R$49 ao dia.

Fabyana de Castro - A única das meninas com quem falei que aceitou se identificar - Clique para visitar o site e ver essa e outras fotosNem todas as meninas, entretanto, hospedam suas páginas em agências.

Fabyana de Castro, 27 anos, a única das meninas com quem falei que aceitou se identificar, tem domínio próprio e um site luxuoso e muito bem acabado. Pudera: Fabyana atende no Rio, São Paulo e Brasília, acompanha executivos ao exterior e sua hora custa R$ 200.

Para Fabyana, na foto acima, o site tem se revelado um excelente negócio: "Fica mais fácil de o cliente te encontrar e de marcar. Ele faz tudo sozinho. E ele te vê!" Não só o cliente pode conferir várias fotos, de várias partes do corpo de Fabyana e de vários ângulos, ele ainda pode fazer tudo isso com privacidade e sem medo de ser identificado por binas ou celulares.

O Fim do Atravessador

A Internet permite que, com um investimento irrisório, as moças possam ser encontradas facilmente pelos clientes sem precisar de atravessadores, rufiões ou anúncios nos classificados. O próprio delegado da extinta Divisão de Fiscalização de Diversões Públicas, Júlio César Mulatinho, confirma a tendência: "Com o lançamento de seus sites, [as prostitutas] começam a fugir da figura do agenciador."

Pesquisas recentes sobre comércio eletrônico comprovam que, mesmo quando a compra não é efetuada on-line, a decisão de compra é muitas vezes feita na Internet. Para produtos mais sofisticados e consumidores idem, como carros de alto luxo, estima-se que quase toda compra inclui algum elemento de pesquisa ou comparação de preços e acessórios pela Web.

Profissionais do sexo como a Fernanda e a Kelly estão descobrindo que seus clientes também tomam suas "decisões de compra" on-line.

Pouco a pouco, à medida que os mecanismos de busca ficarem mais sofisticados e os clientes forem aprendendo as vantagens de escolher suas acompanhantes pela Internet, pode ser que os classificados dos jornalões fechem por pura falta de anunciantes.

Prostituição Não É Crime

Criada pela Polícia Civil em janeiro, a extinta Divisão de Fiscalização de Diversões Públicas tinha como objetivo fiscalizar o funcionamento de estabelecimentos de lazer e, dentro disso, questões sobre documentação irregular, apologia às drogas, condições de segurança e faixa etária dos freqüentadores. Investigar esquemas de prostituição era somente uma das atividades da Divisão e, mesmo assim, não o foco principal, como me afirmou o então delegado responsável Júlio César Mulatinho.

Em fevereiro, preocupação com o número de roubos a turistas fez a Divisão intensificar operações contra exploração sexual na orla da cidade.

Mulatinho ressaltou que, de acordo com a nossa lei, a prostituição não é crime. Os artigos 227 a 230 do Código Penal estabelecem que crime é mediar, induzir, facilitar ou tirar proveito da prostituição alheia.

Infelizmente, um crime muito difícil de provar, pois depende quase que só da palavra das próprias prostitutas. Se disserem que o rufião é apenas um amigo, explicou o delegado, haverá pouco que a polícia possa fazer.

Por fim, Mulatinho confirmou a tendência atual de as meninas se organizarem em cooperativas, para não depender de mais ninguém. E fez uma ressalva: "Se a cooperativa tiver uma cabeça, mesmo que também prostituta, ela pode ser presa."

A Divisão de Fiscalização de Diversões Públicas foi fechada em março, apenas três meses após ser criada, por causa de denúncias de irregularidades por parte de comerciantes.

Globalização do Sexo

No mundo globalizado, o capital persegue a mão-de-obra mais barata - e a mais bonita. Sites pornográficos internacionais vêm buscar suas meninas aqui no Brasil.

Soraya, 32 anos, mãe de dois filhos, começou faculdade de Astronomia, mas desistiu: "Muita matemática." Exibicionista nata, ela passava suas noites em salas de bate-papo provocando os homens. Depois que comprou uma webcam, câmera que transmite imagens ao vivo pela internet, passou a provocar muito mais a platéia cativa. Um dia, desempregada, ouviu de uma amiga que poderia ganhar muito dinheiro para continuar fazendo o que já havia feito de graça tantas vezes: "A única diferença pra mim foi que passei a mostrar o rosto."

Para preservar o anonimato das modelos, esses sites são, em sua maioria, vetados aos brasileiros: "Temos como bloquear os endereços de IP do Brasil," explica Soraya.

Os clientes entram em salas de bate-papo e começam a conversar com as modelos disponíveis, via teclado, microfone ou webcam. As modelos fazem o que podem para excitar o cliente, o que não é muito difícil. Difícil mesmo é manter o diálogo picante em inglês fluente, "mas isso elas vão aprendendo no serviço".

Devidamente excitado, o cliente precisa então comprar um show ao vivo para poder ver mais. Em média, o preço mínimo é de US$30 por cinco minutos. Caso o cliente seja mais pobrezinho, ele pode comprar um show pré-gravado por um dólar o minuto.

O show ao vivo é relativamente simples: sob as instruções do cliente ou não, a modelo lambe aqui, passa o dedo ali, enfia um objeto acolá. Vale o consenso: as modelos não são obrigadas a fazer nada que não queiram, e os clientes sabem disso.

Dependendo das regras do estúdio brasileiro, as modelos podem ganhar salário fixo, comissão ou ambos. Os turnos são de oito horas, mas como o trabalho é relativamente tranqüilo, muitas dobram. Essas mais diligentes tiram cerca de R$4.000,00 por mês.

Os estúdios evitam contratar prostitutas, pois elas tendem a passar mais tempo tentando marcar programas do que atiçando os clientes para os shows ao vivo. Todas as modelos do estúdio que visitei tinham algum tipo de "amigo" estrangeiro que conheceram através do site, dos quais recebem todo tipo de presente. No dia da entrevista, chegou pelo correio um bracelete para Soraya, de um cliente agradecido.

Ela mesma ficou pouco nessa vida. Em menos de dois meses de shows ao vivo, conheceu seu atual namorado através do site e ele pediu para que ela passasse para trás das câmeras. Soraya transferiu-se para a parte administrativa e hoje é gerente de um próspero estúdio na Barra da Tijuca, onde trabalham cerca de vinte e uma meninas em três turnos diários, vinte e quatro horas por dia. Ela e o namorado planejam se casar até o final do ano.

Soraya sabe que a linha entre o seu negócio e a prostituição é tênue: "Afinal, é sexo por dinheiro, mas 100% seguro."

Versões editadas desse texto foram publicadas na primeira página do TribunaBis, caderno de cultura da Tribuna da Imprensa, no dia 7 de abril de 2004 e, também, no Observatório da Imprensa, número 272, de 13 de abril de 2004. A versão não-editada que você está lendo nesse blog é de minha inteira responsabilidade e contém informações que não foram aprovadas e muito menos publicadas nem pela Tribuna e nem pelo Observatório. Quaisquer reclamações, portanto, devem ser dirigidas a mim. Para conferir as versões autorizadas publicadas pelos respectivos veículos, clique nos links acima.

Os Bastidores da Matéria



Aí está a bomba que eu tinha prometido pro dia 15 de março, cuja publicação foi tão adiada: a matéria que todos me recomendaram não escrever. Ou, pelo menos, não assinar.

Deu trabalho, mas foi uma delícia, especialmente a última parte, Globalização do Sexo.

Soraya é uma velha amiga, além de ser uma gata, e é pena eu não poder liberar pra vocês as fotos que tirei dela no dia da entrevista. Há tempos, eu esperava uma chance de conversar melhor com ela e entender seu trabalho, e essa matéria foi uma excelente oportunidade.

Os dois últimos subtítulos, Prostituição Não É Crime e Globalização do Sexo, foram originalmente planejados como boxes independentes. Entretanto, a Divisão de Fiscalização de Diversões Públicas foi extinta no dia 18 de março e o pessoal da Tribuna achou, não sem razão, que não fazia mais sentido publicar o primeiro box, Prostituição Não É Crime.

Eu até concordo, mas o delegado foi uma simpatia, me recebeu muito bem e tivemos uma conversa maravilhosa. Portanto, fiz as mudanças necessárias e estou publicando o box aqui, pois blog é pra isso mesmo, pra publicar o que não coube no jornal.

Não por acaso, minha coluna dessa semana é justamente sobre essa relação complementar entre jornal e blog. Reparem que o disclaimer ao final da matéria também mudou, e não foi à toa. Mais detalhes sexta-feira, na minha coluna.

Eu estaria mentindo se dissesse que não tenho medo de ser posto em alguma espécie de lista negra das Organizações Globo. Às vezes, acho que sou louco de publicar uma matéria como essa, outras, que sou louco é de achar que alguém vai ler, se importar e lembrar disso depois. Pensei muito. Além disso, também adoro O Globo e sou assinante.

Escrever, eu escreveria de qualquer jeito. Sou profissional. Escrevo o que me pagam pra escrever. Mas assinei porque, acima de tudo, concordo com cada palavra que escrevi.

Fiquei pensando nos leitores que vêm ao blog, me lêem e têm o mínimo de respeito por mim. Eu teria que engolir todas as minhas palavras, desistir da literatura (não estou nem falando do jornalismo!) e ir fazer um curso técnico de Ciências Atuariais se tivesse me auto-censurado. E pior, por medo do futuro.

Meu respeito próprio vale mais que isso. E sempre posso ganhar a vida dando aulinhas de inglês.

Amanhã, continuo a discussão sobre artes plásticas.


Tuesday, April 6, 2004

Arte Digital É Arte?



A nova lei de patrocínio do Ministério da Cultura exclui sumariamente algumas novas formas de arte, em especial, as relacionadas à tecnologia e internet.

Eu ia falar sobre esse assunto, mas primeiro o Arnaldo Bloch escreveu uma excelente matéria para o Segundo Caderno, de O Globo, e, depois, a Isabel também fez um post muito interessante sobre o mesmo assunto, em seu blog Book of Hours.

Vão, leiam e voltem. Temos muito a conversar. Acho que essa vai ser a semana de artes plásticas no LLL.

Clichês da Arte Contemporânea



Minha querida amiga, a artista plástica Isabel Löfgren, está com um post hilário em seu blog, Book of Hours, sobre os clichês da arte contemporânea. De certo modo, a Escola Urbana das artes plásticas. Vale a pena ler.

7. Usar e transformar objetos cotidianos
Warhol fez, Lichstenstein fez, e até o cara que faz esculturas com latinhas de coca-cola na feira de São Cristovão fez. Hoje, constitui um verdadeiro marco de originalidade nas artes, e ainda empregam o termo "ready-made" para descrever a obra.

8. A pegadinha urbana
Plantar uma sombrinha amarela no centro da cidade e filmar a reação dos transeuntes ao avistar um objeto tão "estranho" num espaço tão comum é um exemplo dessa vertente. Até o Faustão acha chato.


Leia Clichês da Arte Contemporânea.

Hoje no Fotolog: Morte de um Web Designer



Morte de um web designer. Veja essa e outras imagens no fotolog.

Medo no Metrô: Afinal, O Que É Arte? (I)



Clinton Boisvert, estudante de arte de 25 anos, espalhou 37 caixas de papelão pelas estações de metrô de Nova Iorque. O pânico foi tamanho que o metrô foi fechado por várias horas e Boisvert acabou preso.

Isso é arte?

* * *

Marc Evaristti, artista plástico dinamarquês, utilizou 3 mil litros de tinta para tingir de vermelho um iceberg de 900 metros quadrados. 'The ICE Cube Project - an art expedition' - foto de Lars Nybøll - Clique para ver em tamanho maior

Isso é arte?

* * *

Uma das minhas mais antigas amigas e mais fiéis leitoras me enviou o seguinte email:

"Recentemente, um estudante acho que de design (não tenho certeza) aqui em NY resolveu fazer alguns cartazes escritos "FEAR" e colocar em alguns pontos do metrô (foi um projeto para a faculdade). Obviamente, o primeiro que viu entrou em pânico e no final das contas o pessoal saiu em massa do metrô e os policiais tiveram que fechar o metro e sweep para ver se estava tudo ok.

Aí eu te pergunto - isso é arte? O cara criou uma "instalação" e o público deu o seu próprio significado pro treco e com certeza houve uma reação. Mesmo assim, acho difícil considerar isso como arte. Uma das caixas que tanta confusão causou

Por outro lado, o iceberg (tambem achei lindo, mas isso não deveria fazer a menor diferença) é arte? E se sim, por que é diferente do cartaz no metrô? Talvez, pela falta da propaganda, e de intencão de manipulacão do píblico. O que você acha?"


* * *

Deu no site da CBS News:

"This Art Will Kill You

Clinton BoisvertNEW YORK - The menacing boxes that led police to evacuate one of the city's busiest subway stations and call out the bomb squad were just part of an art class project, a student says.

Clinton Boisvert was arrested after admitting to police that he painted the word "FEAR" on 37 boxes and placed them inside the bustling subway station at Union Square. It was his way of meeting an assignment for the School of Visual Arts, said Boisvert, who was released on his own recognizance Tuesday. Boisvert, 25, was charged with reckless endangerment, a misdemeanor punishable by up to a year in jail, and disorderly conduct.

The scare happened Dec. 11 when a police sergeant spotted one of the shirtbox-sized boxes in a stairwell. Others - some painted black, some wrapped in electrical tape - were found on platforms, and attached to walls, benches and floors. The station was closed for nearly six hours while officers determined that the boxes were empty.

"It's a case of an innocent art project going awry," Boisvert's lawyer, Bill Stampur said. Sculpture teacher Barbara Schwartz wouldn't say how his effort would be graded, but told The New York Post he received an "A" for the semester. The school probably won't discipline Boisvert, said spokesman Adam Eisenstat."


Faço aos meus leitores a pergunta que minha amiga me fez: isso é arte?

Mais importante, isso é crime?

(amanhã... arte e liberdade de expressão...)


Monday, April 5, 2004

Jornalistas & Blogs: Pedido de Feedback



Minha próxima coluna será sobre blogs e jornalismo: como funciona essa relação, como um blog pode complementar o trabalho de um jornalista e algumas considerações éticas relacionadas.

Para tanto, gostaria de falar com jornalistas que mantém blogs:

1) Dentro do site do jornal. Exemplo: os jornalistas do Globo;

2) Totalmente independentes;

3) Com pseudônimos, para não serem identificados.

Obviamente, esses últimos falarão em off.

Gostaria muito de saber qual é a relação entre os blogs que mantém e o trabalho que exercem, e se os veículos para os quais trabalham exercem algum tipo de pressão ou controle sobre os blogs.

Por favor, deixem comentários ou cliquem aqui para enviar email.

Mais Ousadia



Uma das maiores críticas que fazem ao governo Lula é falta de ousadia.

Pois eu acho que excesso de ousadia é o que quebra o nosso país. Cada presidente acha que pode e deve reinventar a roda, quando o que precisamos é de um mínimo de continuidade e estabilidade nas instituições.

Apesar de suas falhas hercúleas, o governo Lula pelo menos parece ter percebido isso.

O Plano Cruzado, o Plano Collor, as moratórias, nada mais foram do que soluções ousadas, heterodoxas e catastróficas. Aliás, olhando pra trás, é quase impossível de acreditar como fomos tão passivos com tanta loucura que nos foi enfiada goela abaixo.

Da morte do Tancredo ao primeiro Plano Real, parece que a esperança venceu o bom-senso.

Com certeza, o momento histórico mais inacreditável que presenciei foi a queda das torres gêmeas. Esse vai ser difícil de superar.

Mas o momento mais difícil de explicar foi outro. Lá se vão catorze anos e quem era recém-nascido ou bem criança na época hoje não só já faz filho como também perguntas inconvenientes:

Tio, o Collor tomou mesmo o dinheiro de todo mundo?

Tomou. Só sobraram cinqüenta sei-lá-qual-era-a-unidade-monetária-da-época na conta de cada um.

E ficou todo mundo sem dinheiro?

Ficou. Sem nada.

Hã... Tio... E por que o povo não foi pra rua quebrar tudo?

E aí? O que eu respondo?

Odeio Televisão



Nossa casa teve que ser dedetizada. Passamos o fim-de-semana na casa do meu pai, em frente à praia. Chegamos cheios de planos, coisas a fazer, atividades.

Infelizmente, meu pai tem TV a cabo. Lá se foi o fim-de-semana todo perdido em filmes antigos e reprises de sitcom. Não fizemos nada. Não saímos de casa.

Às vezes me pergunto como as pessoas que têm televisão conseguem fazer qualquer coisa de útil de suas vidas.

Leia meu artigo Telespectador Passivo.


Sunday, April 4, 2004

Hélio Fernandes



Os americanos têm uma expressão para aquelas coisas que, pouco a pouco, vão caindo no nosso gosto e, quando vemos, estamos viciados: it grows on you.

Nunca tinha lido a Tribuna até começar a escrever pra lá. É um jornal voltado para política, de circulação pequena para uma cidade como o Rio, cerca de 50 mil exemplares, com poucos anunciantes.

A grande estrela da Tribuna é o colunista, dono e editor Hélio Fernandes.

Complicado falar sobre ele. Pra quem o conhece, irrelevante. Pra quem não conhece, inútil. Não basta ler uma, duas ou três colunas. É preciso de um mínimo de tempo e exposição à sua verve. It grows on you.

Andei pesquisando sobre ele. O homem é polêmica. Muita gente boa pela imprensa acha que ele não vale nada. Pessoas cuja opinião não pode ser levianamente relevada. Talvez.

Muitos leitores assíduos desse blog dizem que discordam de quase tudo o que eu falo (alguns chegam ao cúmulo de dizer que discordam de TUDO que eu falo) mas mesmo assim adoram me ler, aprendem muito comigo e voltam todos os dias.

Estou começando a entender um pouco como esses leitores se sentem.

Eu também discordo politicamente do Hélio Fernandes em muita coisa. Talvez quase tudo. Mas não consigo deixar de lê-lo - e de respeitá-lo.

Hélio Fernandes me parece gozar de uma liberdade sem precedentes. Ele tem 83 anos e exala enorme vigor, pois assina duas enormes colunas diárias. Já viu tudo, sabe tudo e conhece todo mundo. É mordaz, desrespeitoso, irônico, engraçado. Não presta contas a ninguém, a não ser a si mesmo e à posteridade: é dono do seu próprio jornal, um jornal de quase nenhum anunciante e que vive de vendas. Ou seja, não precisa ter medo nem de anunciante melindrado.

Hélio Fernandes conta tudo porque não tem motivo para esconder nada. Aos 83 anos, das duas uma: ou você pára, porque já fez tudo o que tinha pra fazer e seu tempo está acabando, ou você acelera e engata velocidade máxima, porque você ainda tem muito o que fazer e seu tempo está acabando.

A impressão que tenho, depois de passar meses lendo o Hélio Fernandes todos os dias, é de que estou excepcionalmente bem-informado.

Leia a coluna diária do Hélio Fernandes.

Isolado o Gene Responsável por Blogar



Deu no The Register, conceituado jornal inglês:

"Professor Teilhard, who holds the Poindexter Chair of Physics at the University of Santa Fe's Department of Extropian Studies, says that weblogging performs a harmless social function.

"Webloggers are born not made," he said. "And shouldn't be persecuted." The activity could be a positive, group-bonding social function such as grooming, or simply a harmless way of passing the time, such as masturbation. (...)

However, the breakthrough raises serious ethical concerns. Is it right for parents to choose whether or not their child will be a weblogger? Can eradication of the gene provide a biological cure for solipsism?"


Leia a matéria completa.

Momento Celebridade



Com quem Tony Belloto foi ao Show dos Titãs?


Saturday, April 3, 2004

Ficar Rico, De Vez Em Quando



Cito O Globo somente porque leio O Globo todos os dias. O problema, infelizmente, é disseminado e afeta todos os brasileiros, especialmente os anglófilos e anglicizados. Infelizmente, como eu me incluo nesse grupo, também cometo esse erro eventualmente, o que me irrita ainda mais.

Do Globo On-Line de terça-feira, 30 de março:

"Gregory Olsen, o milionário que (pela bagatela de US$20 milhões) será o terceiro turista no espaço, afirma: "Espero motivar jovens, em vez de topar com eles como algum empresário rico. Sou apenas um cara comum que trabalhou duro e eventualmente obteve sucesso."

Quem pegou o erro? Ou será que vocês estão tão infectados que não percebem?

Houaiss

Vamos aos Houaiss. Ele define:

"Eventual. Adjetivo de dois gêneros. 1. que é fortuito, podendo ou não ocorrer ou realizar-se; casual. 2. que ocorre algumas vezes, em certas ocasiões; ocasional."

Não existe verbete para eventualmente mas, se eventual é isso, não é difícil de concluir que eventualmente é algo que acontece fortuitamente, casualmente, ocasionalmente. "Você vai muito ao cinema? Não, vou ao cinema, assim, eventualmente." Ou seja, de vez em quando. Eu mesmo admiti que esse tal erro em questão eu também cometo - eventualmente.

Voltando ao Globo

Examinemos então a declaração de Gregory Olsen: "Sou apenas um cara comum que trabalhou duro e eventualmente obteve sucesso."

Como assim? Ele obteve sucesso de vez em quando? Obteve sucesso casualmente? Obteve sucesso fortuitamente? Isso faz algum sentido pra vocês?

Na verdade, o próprio tempo da frase não concorda com o significado das palavras. Tentem substituir o eventualmente por de vez em quando, que é seu significado de fato, e verão:

"Sou apenas um cara comum que trabalhou duro e de vez em quando obteve sucesso."

A palavra eventualmente pede o tempo presente pois, se é algo eventual, é um processo que ainda não acabou e, portanto, ainda pode acontecer de novo. O mais lógico seria:

"Sou apenas um cara comum que trabalhou duro e eventualmente obtém sucesso."

Ficamos sem entender o que raios Olsen quis dizer com isso. Ele obtém ou obteve o sucesso de vez em quando? Que coisa confusa!

Consultar o Original

No site da Reuters, é fácil encontrar a declaração original:

"Hopefully I will be motivating young people rather than coming across as some rich businessman. I am just an average guy that worked hard and made it eventually."

Estranhamente, em inglês, a frase parece fazer sentido. Por que será?

American Heritage

Vamos ao meu outro fiel companheiro, o dicionário American Heritage. Ele define:

Eventual. adj. 1. Occuring at an unspecified time in the future; ultimate: his eventual failure. 2. Depending on circumstance; contingent. - eventually. adv.

Não é estranho? Não tem absolutamente nada a ver com eventualmente em português.

Agora, fica fácil de entender o que Olsen quis dizer: não é que ele "made it", ou obteve sucesso, de vez em quando, mas sim que ele obteve sucesso ao final de uma vida inteira de esforços, e por causa desses mesmos esforços.

Será que sou só eu que me incomodo com isso?

Um Último Exemplo

"She obssessed about it all day long, trying to repress her tears, trying to occupy her mind with other things. Eventually, she cried."

A tradução de orelhada (que, por incrível que pareça, é a feita por 80% das pessoas que vivem de tradução) seria a seguinte:

"Ela obcecou (SIC!) com isso durante todo o dia, tentando reprimir as lágrimas, tentando ocupar sua mente com outras coisas. Eventualmente, chorou."

Ao contrário da frase de Olsen, citada acima, essa aqui até faz sentido em português. Infelizmente, é um sentido totalmente oposto ao da frase original.

No parágrafo original, tínhamos uma mulher torturada, deprimida mas forte, que passou o dia inteiro lutando contra as lágrimas e, só muito depois (já de noite?), sucumbiu às lágrimas e chorou. Aparentemente, uma vez só. Nada nos dá ao direito de concluir que ela chorou mais de uma vez.

No parágrafo traduzido (deus proteja os monoglotas!), temos uma mulher fraca e chorona que passou o dia inteiro chorando pelos cantos. Até tentou se conter, mas chorou de vez em quando - o que, por definição, quer dizer que chorou mais de uma vez.

Eu tenho pena dos monoglotas. Eu tenho, porque os nossos tradutores com certeza não têm.

Eis minha sugestão de tradução:

"Ela ficou obcecada com isso o dia todo, tentando segurar as lágrimas, tentando pensar em outras coisas. Por fim, chorou."

* * *

O grande problema é a falta de releitura. Jornalistas, tradutores e profissionais das letras em geral simplesmente não relêem o que escrevem. Senão, não poderiam deixar de perceber que trechos, frases, às vezes parágrafos inteiros não fazem sentido algum.

Como o do homem que ficou rico de vez em quando.

Piada-Parábola Nº8: A Sala de Espera



Essa aqui é uma das minhas piadas-parábolas preferidas. Nem imagino porque não lembrei dela durante a série original. Também acho fantástico eu não tê-la mencionado durante aquela série sobre a Auto-Confiança dos Ricos e a questão de ir ou não ir ao banheiro do Sofitel. Teria tudo a ver.

A Sala de Espera

Sala de espera. O homem puxa um cigarro e, antes de acender, pergunta à recepcionista:

"Posso fumar aqui?"

"Não", ela responde, prontamente.

Ele está guardando o maço quando percebe todas aquelas guimbas a sua volta, fumadas até o fim. E questiona:

"E essas guimbas? De quem são?"

E a recepcionista, imperturbável:

"Ah, sim, são das pessoas que não perguntaram."

* * *

Um dos meus lemas mais queridos e mais rigorosamente seguidos: é mais fácil pedir perdão do que permissão.


Friday, April 2, 2004

Hoje no Fotolog: Enormes Mulheres Malvadas



Eles estão gritando, acenando, pedindo piedade. Ao mesmo tempo, estão hipnotizados por aquela visão magnífica, por aquela mulher bela e impiedosa, por aquela gigantesca sola do pé descendo sobre eles.

Colagem de EdisonA giganta poderia poupá-los. São inofensivos e ela não tem nada contra eles. Mas gosta de ser má e quer ter o prazer de sentir aqueles corpinhos se debatendo debaixo de sua sola. Faz umas cosquinhas gostosas. E gosta mais ainda de senti-los estourar, como se fossem uvas gordas que fazem ploct sob seu pé. Sim, poderia ser boazinha, mas por quê? Existem vários outros homenzinhos para pisar no mundo.

Antes de cobri-los com o pé, ainda acha graça de ver que um dos homenzinhos parece estar com uma ereçãozinho, mesmo sabendo qual será seu doloroso destino. Que fofinho, ela pensa. Vou esmagá-lo com carinho especial.

E baixa o pé.

Piada-Parábola Nº7: O Concurso das Polícias



Essa prisão surpreendente e fora do nada no caso Staheli me fez lembrar a piada-parábola do concursos das polícias.

O Que São Piadas-Parábolas

Logo no começo desse blog, eu escrevi uma série sobre piadas-parábolas.

Pois piadas não são só piadas. Piadas nos ajudam a entender melhor quem nós somos, nossos gostos, preconceitos, medos, preferências. Pelas piadas, se conhece uma civilização. E, de vez em quando, piadas se tornam verdadeiras parábolas, um modo simples e popular de se transmitir verdades profundas, ensinamentos inestimáveis.

Piadas-parábolas não são, necessariamente, mais engraçadas que piadas normais, mas são, realmente, mais significativas. São as que transcendem meras piadas, cujo objetivo é só fazer rir, e também transmitem ensinamentos concretos.

O Concurso das Polícias

Fizeram um concurso de polícias. O objetivo: capturar um coelhinho.

Primeiro foi o FBI. Soltaram o coelhinho e lá se foi o FBI de helicóptero, óculos de lentes infravermelhas, toda a mais nova tecnologia no combate ao crime e, pimba, em uma hora, os agentes voltaram com o coelhinho sob custódia.

Depois, foi a vez da Scotland Yard. Soltaram um outro coelhinho (o primeiro estava muito cansado) e lá se foram os ingleses atrás, com lupas, microscópios e cães perdigueiros, todos os métodos mais tradicionais no combate ao crime. Em meia hora, já estavam com o coelhinho sob custódia.

Finalmente, chegou a hora da PM do Rio de Janeiro defender o Brasil na competição. Soltaram um terceiro coelhinho e lá se foram nossos honrados PMs, com suas patamos e cassetetes.

Pasmem! Somente quinze minutos depois, os competentíssimos brasileiros já voltam com um porco, todo porrado, sangrando, cheio de hematomas. E o porco está gritando:

"Eu sou um coelhinho! Eu sou um coelhinho!"

Leia Mais

Leia outras piadas-parábolas do passado:

Nº1: Os Dois Caipiras (explica porque a esquerda só sabe ser oposição e só faz merda no governo)

Nº2: O Judeu e os Barbeiros (explica o preconceito)

Nº3: A Cindy Crawford (explica os homens)

Nº4: A Onça (explica o mercado e a livre-concorrência)

Nº5: Muita Pizza (explica que tudo é relativo)

Nº6: O Bode (a melhor: explica tudo, rigorosamente tudo)

Uma Dúvida

Jossiel Conceição dos Santos, de 20 anos, preso ontem pelo assassinato de Todd e Michele Staheli

O Caso Staheli foi, aparentemente solucionado. Mas tenho uma dúvida.

Como um estrangeiro, que estava somente há 3 meses no Brasil, falava português o suficiente para chamar alguém de crioulo?

Minha Coluna na Tribuna:
A Pirataria e o Ridículo

Leia minha coluna de hoje na Tribuna da ImprensaLeia, hoje, na minha coluna:

MP3s Não Afetam Vendas de CDs

Um estudo realizado pela Harvard Business School e pela Universidade da Carolina do Norte sugere que a troca de arquivos de música em formato MP3 não é a causa da crise na indústria fonográfica.

Os pesquisadores acompanharam as vendas e os downloads de quase 700 álbums. Ao contrário do senso comum, músicas muito baixadas não significaram queda nas vendas dos respectivos CDs. Além disso, alguns dos álbuns mais vendidos pareciam vender ainda mais quando eram muito baixados.

A indústria fonográfica, entretanto, continua cética.

Essa semana, a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI) entrou com ações judiciais contra 247 pessoas em todo o mundo, suspeitas de compartilhar arquivos de músicas, através de redes ponto-a-ponto como o Kazaa.

Reuters Vai Caçar Copiadores de Conteúdo

Definitivamente, a questão de uso indevido de conteúdo protegido por copyright é um dos maiores problemas da Internet.

Agências de notícias, como a Reuters ou a Associated Press, ganham a vida licenciando seu conteúdo para clientes pagantes. Via de regra, outros jornais.

Hoje em dia, entretanto, qualquer um pode entrar no site de uma dessas agências, copiar notícias e colar em seus sites ou blogs. Pior ainda, jornalistas preguiçosos da Folha de Quixeramobim ou na Gazeta de Imbirituba também podem fazer o mesmo.

Mas os problemas que a Internet cria, ela mesma resolve.

A Reuters acabou de fechar contrato com a Fast, empresa de busca norueguesa, para varrer a Internet atrás de conteúdo copiado indevidamente.

Além disso, a Fast também fornecerá à Reuters inteligência sobre como seu conteúdo vem sendo usado pelos assinantes do serviço.

Usuários comuns, que trocam músicas pelo Kazaa, já estão recebendo suas intimações judiciais. Aquele blogueiro seu amigo, que adora copiar notícias dos jornais, pode bem ser o próximo.

Forçando As Raias do Ridículo

A indústria fonográfica tem toda razão em ter medo das MP3s, mesmo que o medo não se justifique na prática. As agências de notícias estão certíssimas em tentar coibir o uso não-autorizado do conteúdo que lhes custa tanto criar.

Infelizmente, as coisas estão saindo do controle.

O Amarula com Sucrilhos era um dos melhores blogs brasileiros. Nele, Alessandra Félix costumava escrever sobre sua vida, sobre literatura e sobre o mercado editoral. Digo "era" pois no mês passado Alessandra recebeu uma notificação extra-judicial da Southern Liqueur Brandy, fabricantes do licor Amarula, pedindo, ou melhor, exigindo, que o domínio fosse retirado do ar.

A empresa alega que o blog de Alessandra violava seus direitos tanto de usar "exclusivamente a marca" quanto de "zelar por sua integridade material e reputação". Além disso, por induzir à confusão, o blog ainda cometia crime de "concorrência desleal" por empregar "meio fraudulento, para desviar, em proveito próprio ou alheio, clientela de outrem".

Continuam os advogados:

"Uma das modalidades de concorrência desleal é denominada "concorrência parasitária", entendida como as "tentativas de se tirar proveito do renome legitimamente adquirido por um terceiro, sem que haja normalmente o risco de confusão entre produtos e estabelecimentos. (...) A existência de referido nome de domínio pode levar o público em geral a acreditar que haveria alguma relação entre este, seu conteúdo, e os produtos de nossa cliente, o que não é verdade."

Obviamente, a situação é esdrúxula.

O blog de Alessandra era um diário cibernético absolutamente pessoal, sem quaisquer objetivos comerciais. Ela não tirou proveito da marca Amarula. Nem mesmo mencionava muito a marca, a não ser no título, criado pois o licor Amarula lhe evocava boas lembranças.

Não estava vendendo nada. Não desviou a clientela de outrem para si. Não utilizou seu blog para confundir o consumidor. Aliás, só um consumidor com muita Amarula na cabeça seria capaz de confundir um blog pessoal com o site corporativo de uma fábrica de bebidas.

Alessandra passou uma semana pensando no que fazer:

"Entrar na briga seria lindo porque de acordo com as leis que regem o uso de marcas e patentes (inpi.gov.br), não há nenhum lugar que diz que as pessoas estão proibidas de citar nomes de marcas em livros, músicas ou "blog". É uma prática comum desses escritórios fazer esse tipo de ameaça. E, mesmo sabendo disso, optei por desistir. Achei que era uma boa forma de ridicularizar essa situação e a atitude mesquinha dessas empresas. Mesmo que isso me custasse o raio do nome."

E foi o que fez. Desistiu do domínio. Fechou o velho blog. O novo se chama Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados, para evitar qualquer tipo de confusão. Nele, ela escreve:

"O mundo está embrutecido demais para compreender que um diário, mesmo público, não passa de um passatempo de criança. E que, nas mãos de um adulto, é só uma tentativa de resgatar sonhos e verdades."

Que palhaçada.

Links Relacionados:
Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados
Reuters
Fast

Uma versão editada desse texto foi publicada na minha coluna Internet, na Tribuna da Imprensa, no dia 2 de abril de 2004.

Cronistas Mentirosos



O Paulo Polzonoff escreveu um belo texto hoje sobre as mentiras que os escritores contam. Diz ele:

"Minto. Minto muito nos meus textos. Não nos textos jornalísticos. A ética profissional e o meu caráter não me permitiriam. Mas nos meus textos cotidianos, minto muito (...)mas em pequeno detalhes, apenas para tornar o texto mais saboroso. (...) Não é mau-caratismo, não. É apenas para adocicar os textos. Além disso, quem é que disse que eu tenho compromisso diário com a verdade? (...) Quantas vezes você já leu por aí alguma crônica que fazia menção a uma enxurrada de cartas (com lugar-comum e tudo) ou a um amigo que mencionou um caso? Mentira. Geralmente não chegou nenhum carta na redação e o amigo não passa do autor mesmo criando um interlocutor imaginário para dar mais consistência ao texto. O pior é que dá certo em 90% dos casos."

O homem está certíssimo. Quem disse que (fora dos textos jornalísticos) temos qualquer compromisso com a verdade? Eu sei que não tenho. Quem duvidar disso, que leia a Prisão Verdade.

Meu único compromisso é escrever textos interessantes e, se pra isso eu tiver que inventar um ou outro detalhe, que seja.

Qualquer escritor, cronista ou colunista faz isso, mas é incrível como a maioria dos leitores simplesmente não se dá conta e, quando se dá, não aceita.

O meu caso mais famoso foi com a história do Big Mac e da Coca Light.

O texto começava assim:

"Algumas situações irritam, ainda mais porque se repetem todos os dias.

Estava eu na fila da lanchonete e a moça à minha frente, gordinha, pede um Big Mac e uma Coca Light média. Atrás de mim, dois galalaus zoam: "Vê se pode, Big Mac e Coca Light, que ridículo, até parece que se importa com o próprio peso!"

Se vocês forem como quase todo mundo que eu conheço, vão achar que o irritante é a moça gorda consumir um Big Mac com Coca Light. Se vocês forem como eu, vão achar que o irritante é um comentário tão babaca sobre uma atitude tão perfeitamente racional."


Depois disso, o texto tenta entender, de modo geral, por que existe esse tipo de preconceito contra uma atitude (acho!) bastante sensata.

Entretanto, ao invés disso, quase todos os leitores me vieram comentar a situação específica.

"Talvez a gorda prefira o gosto da coca light ao da normal."

"Mas ela era gorda gorda ou só gordinha?"

"Quantos anos tinham os caras?"


Um pouco frustrado, respondi que a história era apócrifa.

Não adiantou nada. Ninguém mais deve saber o que isso quer dizer. Esclareci:

"Gente, essa história não só é apócrifa como também nunca aconteceu de verdade."

Nem assim deu certo.

Naturalmente, a história não é menos verdadeira por ser apócrifa. Já testemunhei cenas parecidas dezenas de vezes. Essa cena, especificamente, é apócrifa por ser amálgama de todas as outras que tesmunhei, e foi inventada não para enganar ou ludibriar o pobre e ingênuo leitor, mas somente para "adocicar" a crônica.

Mas vai explicar isso pros leitores revoltados.


Thursday, April 1, 2004

Hoje no Fotolog: Vegetarianismo



Fui vegetariano total por dois anos - logo depois de ser gerente de lanchonete e ficar seis meses tentando tirar o cheiro de gordura de hamburger do meu cabelo.

De 1993 a 1995, eu só comi carne viva, do sexo feminino e se mexendo.

Parei mais por comodismo do que por outra coisa, pois é um saco ser vegetariano, mas continuo achando profundamente nojenta a idéia de se comer um cadáver. Cada vez que vejo alguém comendo um bife, eu não consigo deixar de pensar: será que essa pessoa tem alguma noção do que ela está colocando na boca? Um corpo morto em vias de putrefação?

É engraçado. Me perguntavam se eu tinha pena dos bichinhos e eu respondia que cagava pros bichinhos. Não comia carne por achar carne nojenta e o efeito dela no meu organismo, mais nojento ainda. Só que aconteceu uma coisa incrível: quanto menos eu comia carne, mais eu me preocupava, sinceramente, com os animaizinhos, com sua dor, sofrimento, péssimas condições de vida. O maior efeito que meus anos de vegetarianismo tiveram foi deixar minha sensibilidade à flor da pele.

Hoje, voltei a comer bicho morto e estou de novo cagando pros animais.

Daí minha teoria: todo carnívoro é um assassino insensível em potencial. Cartaz para Campanha de Incentivo ao Vegetarianismo

Naturalmente, Hitler era vegetariano. Lá se vai uma teoria.

Veja hoje, no fotolog, essa bem-bolado cartaz da PETA, a associação protetora dos animais americana. Aliás, já valeria a visita só pela gostosa nua.

Homicídio Sem Vítima



Semana passada, o Senado norte-americano reconheceu, de fato, que um feto é um ser humano e merece a proteção da lei. A partir de agora, alguém que mata uma mulher grávida está cometendo dois homicídios: da mãe e do filho ainda por nascer.

O pessoal que defende o aborto está tendo calafrios, e com razão: apesar de o texto da lei dizer claramente que essa lei nunca será usada para interferir com o direito ao aborto, garantido por lei, é óbvio que é exatamente isso que a nova lei faz e é exatamente essa sua intenção escancarada.

Logicamente falando, entretanto, nada faz sentido. Considerem.

Cenário Um. Eu dou um tiro em uma mulher, ela sobrevive mas o feto em seu útero não: sou condenado por assassinato.

Cenário Dois. Na mesma tarde, visto meu avental branco, vou pro hospital e arranco um feto no mesmo estágio de desenvolvimento do útero de uma paciente: tudo bem, só um procedimento cirúrgico.

As duas leis não vão conviver por muito tempo. Uma das duas vai cair.

Paradoxo Insustentável

O mais delicioso dessa história é que ela esbarra em uma discussão semântica maravilhosa e insustentável.

Para que a lei passasse, os defensores do aborto expurgaram totalmente qualquer referência à feto ou morte do feto do texto da lei. Naturalmente, a última coisa que querem admitir, ou encarar, é que um feto é algo vivo e que pode ser morto. O crime, de acordo com a letra da lei, é simplesmente "interromper ou terminar a gravidez."

Entretanto, se eu atiro na mulher, ela sobrevive mas o feto não, o crime ainda assim é homícidio.

Naturalmente, trata-se do homicídio mais estranho de todos os tempos, pois a lei toma o maior cuidado para explicitar que, nessa situação, nada nem ninguém morreu. Então, como pode ser um homicídio?

Vai ter advogado mirando em feto de mulher grávida só pelo prazer de ser o primeiro a derrubar essa lei no tribunal.

Que Se Fodam as Grávidas, Dizem Feministas

Como eu sempre digo, eu me sinto mal nessa questão, pois em geral estou do lado dos liberais e, aqui, me vejo forçado a concordar com conservadores e reacionários.

Mas confesso que acho a maior graça em ver as feministas, os ultraliberais e os politicamente corretos de modo geral lutando visceralmente contra uma lei que, afinal de contas, visa punir mais severamente quem ataca ou mata mulheres grávidas.

Até as pedras da rua sabem que o buraco é mais embaixo, claro, mas não deixa de ser irônico.

Deu no The New York Times

Para os monoglotas, matéria de Carl Hulse, para o New York Times, traduzida e publicada em O Globo:

"Senado dos Estados Unidos reconhece feto como pessoa

Defendendo a aprovação da medida, seus defensores no Senado listaram uma série de crimes de grande repercussão e alegaram que seu único objetivo era estabelecer na lei penal o princípio de que um feto ferido num ataque era tão vítima do crime como a mãe grávida. "É simples assim", disse o senador Mike DeWine, republicano de Ohio e proponente da medida. "Essa lei reconhece que quando alguém ataca e fere uma mãe e seu filho ainda não nascido, esse ataque na verdade resulta em duas vítimas distintas."

Oponentes da proposta, embora afirmando que simpatizam com o desejo de punir severamente quem atacar uma mulher grávida, disseram estar preocupados com a definição de "criança no útero", coberta pela lei como "um membro da espécie Homo sapiens, em qualquer estágio de desenvolvimento, que é carregado no útero".

A senadora democrata Dianne Feinstein, da Califórnia, e outros dizem acreditar que uma vez que essa definição seja incorporada à lei federal, seria usada mais tarde como argumento para derrubar as leis que protegem o direito de aborto.

"Este será o primeiro golpe contra o aborto nos Estados Unidos da América", advertiu a senadora.""

Leia a matéria completa.


Deu na Slate

Mas o artigo do New York Times, via O Globo, é seco, sóbrio e só dá o contexto geral.

Boa mesmo, divertida e inteligente é essa matéria opinativa, escrita por William Saletan e publicada na minha nova revista favorita, Slate:

"Face The Fetus

[The law] says that anyone who commits one of the enumerated violent federal crimes and "thereby causes the termination of a pregnancy or the interruption of the normal course of pregnancy" will get a second punishment "the same as the punishment provided for that conduct under Federal law had that injury or death occurred to the pregnant woman."

One word is notably missing from the amendment. The word is "fetus." There is no fetus. There is only a "pregnancy." (...) It's a strategy of denial. And this week, it ran into too much reality.

On the Senate floor, Sen. Sam Brownback, R-Kansas, displayed a devastating series of pictures of murdered women accompanied by the viable fetuses who died with them. "The question is simple," Brownback told his colleagues. "Do we have one victim or two involved in violent crimes such as these?" In one case, Brownback pleaded, "Look at this photo again of Christina and Ashley in the coffin. Is there one victim? Or are there two?" In another case, Brownback noted that the woman survived, but the fetus died. "Any congressman who votes for the 'one-victim' amendment is really saying that nobody died that night," said Brownback, referring to the Feinstein alternative. "And that is a lie."

Sen. Mike DeWine, R-Ohio, turned that moral observation into a legal observation. "The Feinstein amendment does not punish the criminal for harming or injuring the baby," he noted. "It only punishes the criminal for 'interrupting or terminating a pregnancy.' So if a child is injured, not killed, the pregnancy not terminated, the Feinstein amendment will not cover it." DeWine went on: "When it describes the punishment, it refers to injury or death. Whose injury or death are we talking about here?" The Feinstein amendment doesn't recognize that the interruption and termination of the pregnancy means the injury or death of the fetus, because it won't acknowledge the fetus, of course, as a separate being. The injury or death provision has no object."

This is what happens when you deny reality. You have trouble making sense. You use words like "injury" and "death," forgetting that you've refused to acknowledge the existence of anything capable of being injured or dying."

Leia a matéria completa.

Um Big Mac e Uma Coca Light



Algumas situações irritam, ainda mais porque se repetem todos os dias.

Estava eu na fila da lanchonete e a moça à minha frente, gordinha, pede um Big Mac e uma Coca Light média. Atrás de mim, dois galalaus zoam: "Vê se pode, Big Mac e Coca Light, que ridículo, até parece que se importa com o próprio peso!"

Se vocês forem como quase todo mundo que eu conheço, vão achar que o irritante é a moça gorda consumir um Big Mac com Coca Light. Se vocês forem como eu, vão achar que o irritante é um comentário tão babaca sobre uma atitude tão perfeitamente racional.

Usemos o exemplo acima.

De acordo com os sites das respectivas empresas, um Big Mac tem 490 calorias e uma Coca-Cola média, 200. Uma Coca Light do mesmo tamanho tem pouco mais de uma caloria.

O consumo médio de calorias recomendado para um adulto é de 2000 a 2500. Para quem quer emagrecer, recomenda-se um consumo médio de aproximadamente 1200 a 2000 calorias, dependendo do seu tamanho. Eu, por exemplo, que malho quatro vezes por semana, tenho 1,79m e 95 kg, tento consumir cerca de 1500 calorias por dia. Digamos que a moça gorda esteja seguindo, ou deveria seguir, a mesma dieta.

A refeição que ela escolheu tem cerca de 500 calorias, ou seja, um terço do seu total diário ideal. Ela ainda pode fazer duas refeições iguais a essa e ficar bem.

Por outro lado, as duas mulas atrás de mim e, aparentemente, a torcida do Flamengo, acham que já que ela caiu em tentação e pediu o Big Mac, ela devia escancarar logo de vez e pedir uma Coca normal.

Mas a diferença é gigantesca.

Pra começar, a tal refeição da torcida do Flamengo é 40% mais calórica. Ao invés de um terço, ela passa a representar praticamente a metade da ingestão calórica diária ideal.

Pior, enquanto um Big Mac não é lá flor que se cheire (eu odeio!), as 490 calorias de um Big Mac trazem junto uma série de nutrientes importantíssimos presentes na carne, verduras, queijo, pão, etc. As 200 calorias da Coca Cola não trazem, literalmente, nada de bom. A não a cafeína, que só é boa se você estiver tentando ficar mais ligado, o resto é açúcar e químicos: só servem pra te fazer arrotar.

Por fim, as calorias também não são todas iguais.

Hoje em dia, mais do que nunca, o peixe morre pela boca. Estatística e espelhisticamente (basta eu me olhar no espelho para saber disso), minhas chances são altas de morrer de um ataque do coração por causa do meu excesso de peso. Cada caloria adicional que eu como é um grãozinho de terra a mais sobre meu caixão. Elas todas têm que valer a pena. Como disse o paciente ao médico que lhe pediu pra cortar o charuto: "Mas um bom charuto É a vida!"

Cabe a cada um de nós decidir pelo que vale a pena morrer.

Quem sabe, pra menina gorda e para tantos outros que fazem esse tipo de opção, uma Coca-Cola não é algo pelo qual valha a pena morrer. Um suculento Big Mac sim.

É uma decisão tão racional quanto qualquer outra.

Eu fico só imaginando algum desses indignados no super-mercado. Está com o carrinho cheio, já gastou R$490. Aí, alguém sugere que ele gaste mais R$200 em porcarias, coisas que são até gostosas, mas que ele não precisa. Ele responde que não, que já gastou R$490, já está no seu limite, agora não pode gastar mais e precisa segurar sua onda.

E os dois babacas atrás de mim na fila comentam: "Vê se pode, já gastou R$490 e agora não quer gastar mais R$200, que ridículo, até parece que se importa com o próprio dinheiro!"

Como se quem gastasse R$490 pudesse, por definição, gastar mais R$200. Como se quem ingere 490 calorias também pudesse, por definição, ingerir mais 200 sem problema algum.

Uma versão editada desse texto foi originalmente publicada na coluna Calça Justa do blog Elas por Elas, no dia 9 de janeiro de 2004

Novos Blogs Recomendados



Coluna de Honra: Deusas do Fotolog.

Vocês vão achar ridículo, mas adoro esse blog. É impressionante como existem menininhas vaidosas que criam fotologs única e exclusivamente com o louvável objetivo de mostrar ao mundo o quão gostosas são. Benditas sejam.

E bendito seja o Digos, que criou o blog e seleciona as deusas. Quando fui lá comentar, ele se empolgou e disse:

"Eu sempre leio seu blog liberal libertario libertino... eh parada diareia obrigatoria!!!"

Meu deus, que ato falho! Parada diária ou parada diarréia? Será que quero realmente saber?

Coluna de Honra: Danadnha [Vadia&Correta], um blog muito do sem-vergonha

Blogs amigos: Rafael Galvão, Here, There and Everywhere, Frenesi e Lucidez e Daqui pra Lá.

De casa nova: Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados, Pensar Enlouquece, Pense Nisso e DaniCast's Mad Tea Party.

Dani, dá pra parar quieta agora?


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