Um dos golpes mais baixos (e mais idiotas) que alguém pode fazer durante uma discussão é criticar a gramática, ortografia ou sintaxe do outro.
É baixo sobretudo por ser inútil.
Pra começar, ou sua platéia viu o erro ou não viu. Se viram, já sabiam que o outro cara errou, já sabiam que ele não domina as regras básicas da língua e isso já ficou registrado - a seu favor. Mencionar ou zombar do erro não vai fazê-los ficar mais ao seu lado do que já estão, mas pode fazê-los pensar que você é um idiota arrogante. Eu sou assim.
Pior ainda, se a sua platéia não viu o erro, então há boas chances de eles serem tão ignorantes quanto a pessoa que você está corrigindo. Ao lhe ver corrigindo o outro, eles vão se colocar no lugar dele e se imaginar também sendo humilhados por você. Gol contra.
Mais importante, a não ser que a discussão seja sobre gramática, sintaxe ou ortografia (às vezes, nem mesmo nesses casos), tais erros não fazem diferença prática alguma. Seja num debate sobre política, engenharia química ou klingons em Star Trek, alguém que diz "nós vai" tem tanta possibilidade de estar certo, ou de ter uma boa idéia, ou de ter toda a razão do mundo, quanto qualquer outro.
Tanto sua platéia quanto seu interlocutor vão perceber que você, de forma pedante e arrogante, está apenas querendo desviar a discussão do seu verdadeiro assunto para um outro campo não relacionado, irrelevante para a assunto, mas que você domina.
Você não prova nada e ainda aliena os espectadores. Sempre uma má estratégia.
* * *
Na verdade, não dominar as sutilezas da língua não faz de ninguém burro. Talvez somente num aspecto.
A gramática, a sintaxe e a ortografia (e também a crase) não foram feitas para humilhar ninguém. Elas não são perversas nem aleatórias. A existência de normas padronizadas e universalmente aceitas tem como único objetivo facilitar a comunicação entre o maior número possível de falantes.
Enquanto cumprem esse objetivo, são úteis e saudáveis. Quando já não comunicam, tornam-se obsoletas.
E mesmo quando a língua torna-se um dialeto, como a das meninas ki falaum axxim, o novo dialeto também obedece à regras próprias e intrínsecas, para que possa ser mutuamente inteligível pelos falantes.
Então, não dominar essas regras não faz uma pessoa ser burra. Ou melhor, faz, mas só se você considerar que é uma burrice não se preocupar em aprender as regras que regem (e sobretudo facilitam) a comunicação entre seus pares.
* * *
Para fazer a breve pseudo-citação acima, eu fui verificar se tinha mesmo sido o Ferreira Gullar quem disse que a crase não foi feita pra humilhar ninguém e encontrei a seguinte, e deliciosa, história: Poeta é traído pelo Top of Mind.
Não consegui falar sobre A História sem Fim II sem falar de Xayide, interpretada por Clarissa Burt. Mas, como não tinha nada a ver com a história dos astros-mirins, recortei e colei tudo pra montar esse novo post.
Meus leitores habituais sabem que tenho um nada saudável fascínio por mulheres más, perversas, mentirosas, cínicas, egoístas, etc. Para mais detalhes, leia meu artigo Elogio às Malvadas.
Bem, A História Sem Fim II marcou minha adolescência. Corria o ano de 1990 e eu tinha 15 aninhos. Meu tesão pelas malvadas já estava bem estabelecido e resolvido na minha cabeça quando... de repente... esse filme!
Meu deus, quem é essa mulher?!, eu pensei.
Clarissa Burt parece perfeita demais para ser de verdade. Seu rosto é o sonho de qualquer fábrica de cosméticos. As fotos dão uma boa idéia. E Xayide era assim como a Madrasta Má da Branca de Neve (outro ícone sexual meu) mas de carne e osso. E que figurino era aquele!
Fiquei enlouquecido. Pela primeira e única vez, me masturbei em pleno cinema.
Xayide
A história do filme, com todos os spoilers possíveis, é a seguinte: Bastian, interpretado pelo falecido Jonathan Brandis, é convocado de volta à Fantasia para ajudar a combater o terrível Vazio, simbolizado, representado e liderado pela malvada bruxa Xayide.
Ela tenta acabar com Bastian diversas vezes, nem se importando que ele era apenas um pobre menininho, até que ele invade seu castelo das trevas. Por algum motivo, ao invés de acabar com ele ali mesmo, Xayide decide brincar com o garoto. Finge que se rende e que é sua escrava, ao mesmo tempo em que mexe com a vaidade dele e começa a jogá-lo contra Atreyu, o maior guerreiro de Fantasia. Por instigação da malvada, que não deixará nada ficar no caminho de sua dominação do mundo, Bastian ataca Atreyu e só não o mata por pura sorte.
Ainda mais diabólico é o presente que Xayide dá a Bastian: um amuleto que realiza qualquer desejo. Não é lindo?
Xayide não conta é que, a cada desejo, Bastian perde uma de suas memórias. Se fizer desejos demais, sua mente acabará vazia. Enquanto isso, as memórias vão se acumulando em uma máquina no castelo de Xayide e ela - será que a maldade dessa mulher não tem limites? - ainda fica fazendo pouco das memórias mais queridas de Bastian.
No final, Bastian está quase desmemoriado e só tem mais um desejo. A bruxa manda que ele deseje voltar pra casa, pois se desejar qualquer outra coisa e ficar em Fantasia, se tornará um vegetal. Era uma oferta justa e não sei porque aquele moleque insuportável não voltou pro paizinho dele e deixou a bela Xayide dominar Fantasia. Sério. Ela merecia. Trabalhou duro, pisou em muita gente.
Mas não, o moleque deseja que ela tenha um coração. Xayide era tão má que só o fato de possuir um coração faz com que entre em colapso. A bruxa deixa cair uma única lágrima e, ai ai, explode.
Lá se vai mais uma malvada. Por que elas sempre perdem no fim? Não me conformo!
Clarissa Burt
Clarissa Burt nasceu nos Estados Unidos, em 1959, e tinha 31 anos na época do filme. Fiquei desesperado atrás de mais informações sobre ela, fotos, outros filmes, calcinhas usadas, qualquer coisa. Mas não era fácil ser adolescente na era pré-internet, meus amigos. Não encontrei nada.
Só quando a Web entrou na minha vida é que redescobri Clarissa Burt. Soube que ela já foi modelo e manequim (que dúvida!) e estava na Itália, onde faz sucesso na TV, já apresentou vários programas, participou de diversos filmes e tem uma escola de modelos.
Aos 45 anos, continua batendo um bolão, como dá pra ver pelas fotos ao lado. Aliás, com pernas como essas, ela deve literalmente bater um bolão mesmo. As fotos foram uma grata surpresa, pois em História sem Fim II nada aparece do seu corpo, a não ser o rosto, o colo (e que colo!) e as mãos.
Clarissa é uma mulher linda, refinada e inteligente. Melhor ainda, tem noção exata do poder e importância da Internet, pois tem domínio próprio desde 1996 (no mínimo) e seu site é muito bem feito.
A maravilhosa DaniCast também anda falando sobre a Escola Urbana.
"Não consigo levar a sério nenhum escritor cuja proposta básica seja escrever sobre o tédio da vida na cidade grande. Acho que se alguém quer sentir e experimentar um pouco de tédio, que vá assistir TV aberta num domingo. (...) Para que escrever um romance sobre isso? Não entendo. (...) É curioso mesmo que tantos escritores brasileiros, em especial os aspirantes, escolham Bukowski como modelo inspirador. (...) Esses candidatos-a-autor estão a milhas de distância de perceber que a forma, quando esvaziada, torna-se meramente cliché. (...) É desprezível que tantos escritores tentem trazer a mentalidade brasileira do concurso para funcionário público para a literatura, ou seja, tentar fórmulas fáceis sem deixar de levar uma vidinha burguesa e medíocre."
Quando eu era adolescente, eu achava que meu dom não valia de nada.
Fulano tinha o dom da música. Isso vale alguma coisa. Nem todo mundo consegue tirar som de um piano. Beltrano tinha o dom da bola. Nem todo mundo consegue mandar aquele passe perfeito. Eram coisas que os distinguiam. Que tinham valor de mercado.
Eu? Eu sabia escrever. E daí? Todo mundo sabe escrever. É como andar. Vai ver eu só fazia isso um pouco melhor. Não era vantagem nenhuma. Eu ia ser o quê? Andador profissional?
Felizmente, eu estava errado. A grande maioria das pessoas (e não estou falando dos semi-analfabetos, pois seria covardia, estou falando de bacharéis, mestres e doutores) não conseguiria escrever um parágrafo concatenado e articulado nem para salvar a própria vida.
Se eu colocasse uma arma na cabeça de cada universitário brasileiro e dissesse "Rápido, escreve uma redação sobre os prós e contras da atitude do Zeca Pagodinho ou eu te mato!", eu iria gastar toda a produção nacional de metal só em bala. E olha que escolhi um tema fácil.
O dia em que me dei conta dessa triste verdade foi um dos mais felizes da minha vida. Eu pensei: sou útil. Esses putos precisam de mim e vão pagar pelos meus serviços.
Enfim, a capacidade das pessoas de não-escrever é uma coisa que sempre me surpreende. Admito que escrever bem é difícil e demanda alguma técnica, mas articular uma opinião em palavras é algo simples.
Os Emails Incoerentes que Recebo
Essa semana, recebi o seguinte email:
"pra vc me parece q só quer ser feliz independente da onde da 1,ou 2 realidade pois bem ,deveria saber q felicidade naum existe é em termos finais só uma palavra oq importa é liberdade quanto mais livre mais vc se define e se auto conhece.mais me iludi vc é só mais um q quer oq eles querem q vc pense."
Como sou uma pessoa boa e paciente, e sinceramente quero saber o que os meus leitores têm a dizer, eu pedi pra ele explicar de novo. O próximo email, por incrível que pareça, veio mais confuso ainda:
"q bom foi vc q escreveu aquilo vc existe ,estou acordado.começo eu:pra um homem como vc sabe q a gente é preso nesse sistema em q mais importa mais oq temos em vez do nós somos e conhecemos ,deveria saber q felicidade é um elo pra te manter preso aqui como preferir q chame realidade,matrx hihihi ,um teste.etc felicidade assim como outras emoções vem duma parte do cerebro a amigdala perto do neo cortex ,vc acha lendo por ai,mais a razão pode controlar isso ou seja ,felicidade não existe.aquilo com a mulher em q coisa.vc é escravo de seu impulso sexual.a razão com muito esforço domina isso .mais vc não vai entender isso porque já está acostumado com esse modo de vida,a liberdade é q importa.ou seja igual o smith falou o proposito.o primeiro e mail era um teste.já q naum ops não o entendeu te escrevo esse. hihihi pegue a azul e seja feliz iludido"
A Validade dos Dialetos
Reparem, por favor, que o problema não é a ortografia truncada ou resumida. Eu sou um dos poucos que defendem as menininhas ki falaum axxim. O que elas criaram é, de fato, um novo dialeto. Um dialeto ridículo, é verdade, que não leio e não entendo, mas um dialeto válido e funcional.
Não é questão de pensar se esses novos dialetos são certos ou errados, nocivos ou inovadores. A função de uma língua é comunicação. Por definição, se esses dialetos estão em uso e, principalmente, se são inteligíveis por uma grande parcela da população, é porque estão respondendo a algum tipo de necessidade por parte dos falantes.
Sempre defenderei o direito dos falantes de modificarem a língua de acordo com suas vontades e necessidades. O falante, assim como o freguês, sempre tem razão.
A Importância da Pontuação
Ora, o problema desse email que eu recebi é que ele não comunica nada. Podemos somente tentar adivinhar, aqui e ali, o que ele quis dizer. Em situações assim, percebemos a real importância da pontuação, algo que sempre ressalto aqui.
Quando alguém erra na ortografia, na sintaxe, na concordância, a pessoa está somente demonstrando sua ignorância em relação à norma culta da língua, mas isso em geral não afeta a comunicação. Todo mundo entende o que ela quer dizer. Raro é o erro de ortografia ou concordância que altera significativamente o sentido da mensagem.
Já pontuação, se usada no lugar errado, muda tudo.
Quem Não Pensa Bem, Não Escreve Bem
Infelizmente, o buraco é ainda mais embaixo. A pontuação torta piora as coisas, mas o problema mesmo é um raciocíonio aparentemente confuso. Quem não pensa bem, não escreve bem. Quem não sabe o que quer dizer, acaba não falando nada.
Em suma, fico feliz. Ainda não é hoje que vão me aposentar. Minhas poucas habilidades ainda são necessárias.
Mãos como essa me levam à loucura. Olha que coisa linda, esses dedos, essas unhas, essas jóias. Tão bela e sexy e, por outro lado, tão potencialmente perigosa e perversa. Olhando assim me parece uma daquelas mãos de belas e cruéis feiticeiras de filmes da Seção da Tarde. Mãos de fazer feitiços perversos, mãos de alisar o rosto do herói enquanto tenta seduzi-lo, mãos de furar olhos de mocinha boba em combate corpo-a-corpo no final do filme.
Mês passado, pedi aos brasileiros paciência com o Fotolog. Afinal, são três rapazes de Nova Iorque que trabalham o dia inteiro e só podem cuidar do Fotolog à noite, em suas horas vagas. Além disso, quem não paga que não reclame.
No começo de fevereiro, entretanto, eles conseguiram um aporte de capital, largaram seus empregos e começaram a investir em infra-estrutura. Mas estamos quase em abril e só tristeza.
O sistema não funciona direito há quatro meses. Os arquivos desapareceram. Os não-pagantes, que antes podiam postar somente entre 2 e 11 da manhã, estão há vários dias sem poder postar hora nenhuma.
Não custa lembrar: o Fotolog é o primeiro e o mais famoso, mas há dezenas de outros serviços exatamente iguais.
Hábitos são difíceis de largar. Mesmo os flogueiros mais empedernidos estão migrando para outras bandas e, quando se estabelecerem lá, não voltarão mais.
Essa notinha foi escrita para minha coluna de sexta-feira passada, na Tribuna da Imprensa, a que não saiu. Não é nada de brilhante, e estou postando logo antes que fique velha.
O Triste Destino das Estrelas Infantis, Parte III de III: Culpa de Sobrevivente e o Paradoxo de Tostines
Culpa de Sobrevivente é comum entre pessoas que sobrevivem à tragédias. É impossível não se perguntar: por que só eu sobrevivi daquele vagão? Por que aquela criancinha morreu e não eu? Por que eu? O que eu poderia ter feito?
De certo modo, sinto isso em relação às celebridades mirins da minha geração. Afinal, eu, Brandis, Wheaton e Simony temos a mesma idade, pouco mais de trinta.
É quase como se eu tivesse falhado com eles. Eles fizeram sua parte, trabalharam duro quando poderiam estar brincando, me divertiram muito. Eu adorava o Jornada das Estrelas, o Balão Mágico, Seaquest.
Mas eu segui viagem e os deixei pra trás. Andei pra frente enquanto eles parecem ainda presos à década de 80.
O que eu poderia ter feito para ajudá-los? O que nós, como geração, poderíamos ter feito para resgatar nossos velhos ídolos?
* * *
Talvez o problema seja intrínseco. Talvez astro-mirim seja mesmo sinônimo de futuro fracassado.
Um visitante estrangeiro ao Brasil Colonial estava conversando com um brasileiro e manifestou a sua surpresa - surpresa positiva - de que o Capitão-Geral da província era negro. Foi rispidamente cortado pelo brasileiro, às gargalhadas. Onde já viu, essa era boa!, um negro Capitão-Geral!, onde esse mundo iria parar! Nunca!
Na verdade, impossível não era um Capitão-Geral ser negro: era um negro chegar a Capitão-Geral sendo negro. Antes, ele teria que embranquecer aos olhos dos seus pares.
Às vezes, eu digo que há vários casos de astros-mirins muito bem-sucedidos, como Deborah Secco, por exemplo. Incrivelmente, todo mundo ri de mim: Deborah Secco não é estrela infantil nem aqui nem na China!, respondem.
Perguntaram a ela, numa entrevista, se achava que conseguia seus papéis pela beleza. Deborah achou graça na pergunta e respondeu que só ficou bonita, malhada e siliconada há pouquíssimo tempo, para sua personagem na novela O Beijo do Vampiro, de 2002. E que já era atriz muito antes de ser bonita, muito antes de ser mulher, muito antes de ser gente.
Deborah, 25, estreou em novelas aos 8 anos de idade. Trabalhou durante toda a infância. Quem acompanhou o seriado Confissões de Adolescente sabe que Deborah, aos 14 anos, era uma das melhores atrizes de sua geração muito antes do silicone nos peitos.
Mas tudo isso foi abafado. Para fazer sucesso como adulta, Deborah Secco teve que embranquecer: seu passado de estrela mirim foi totalmente esquecido pela mídia e nunca é nem mencionado.
Que fique claro: Deborah é exemplo, não exceção. Assim como ela, existem vários ex-astros mirins muito bem-sucedidos. Eles só não são percebidos como astros mirins. O seu próprio sucesso atual eclipsa o sucesso passado. Quem, afinal, se referiria a Selton Mello como ex-celebridade infantil?
Parece ser realmente impossível uma ex-estrela mirim fazer sucesso. Se faz, é porque não é mais ex-estrela mirim. Se é ex-estrela mirim, é porque está em desgraça.
Uma versão perversa do paradoxo de Tostines.
A metáfora do Capitão-Geral negro é explorada mais a fundo na Prisão Preconceito. Dê uma olhada.
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America's Least Wanted - Imperdível artigo sobre o destino das antigas estrelas-mirins
Paul Petersen - Página pessoal do fundador de A Minor Consideration
A Minor Consideration - Website da organização que luta pela defesa dos artistas-mirins
Course on Children's Studies - Crianças no show-biz ao longo da história
Uma versão bastante editada desse texto foi publicada na primeira página do caderno TribunaBis, do jornal Tribuna da Imprensa, em 26 de março de 2004
Agradecimentos ao Paulo, do blog FYI, por ter me ajudado a mexer no template e criar, finalmente, minha coluna da direita.
Aliás, O Paulo mora nos EUA e o FYI apresenta visões não-xenófobas da cultura norte-americana. É uma excelente leitura e eu recomendo.
Trecho:
"Por algum motivo o capitalismo no Brasil tem certas restrições morais que não fazem o menor sentido. Deve ser ainda relacionado com a idéia de que empregados tem que ser 'leais' e agradecidos ao empregador. Parece que o povo acredita que quando um empregado 'veste a camisa' do seu emprego (seja qual for), está prometendo fidelidade total.
Será que as pessoas realmente acreditavam que o Zeca Pagodinho aparecia bebendo a cerveja X na TV de graça? Que ele realmente achava aquela cerveja especial e que seu comercial era um serviço de ajuda à comunidade? Ou o problema era somente a eventual falta de respeito com a marca de cerveja que foi trocada?
(...) O brasileiro não gosta de competição aberta. A confrontação direta é históricamente mal vista. As empresas evitam engajar diretamente os competidores porque isso seria considerado uma falta de educação! E nesse caso foi exatamente isso que fez a Brahma: desafiou claramente a Schincariol e usou seus recursos para contratar um funcionário da adversária que considerou importante."
O Triste Destino das Estrelas Infantis, Parte II de III: Blogs de Ex-Astros Mirins
Nem toda ex-celebridade mirim vira segurança de shopping ou casa com bandido, mas o destino é sempre melancólico.
Wil Wheaton, outra ex-estrela mirim, era freqüentemente comparado à Brandis: enquanto Brandis interpretava o menino-prodígio do submarino Seaquest, Wheaton interpretava o menino-prodígio da Enterprise, no seriado Jornada nas Estrelas: Nova Geração (1987-1994).
O próprio Wheaton pediu para sair do programa, para investir em sua carreira cinematográfica. Infelizmente, a partir do momento em que sumiu da televisão, os convites de trabalho sumiram. Wheaton acabou indo pro Kansas trabalhar com informática.
Hoje, ele é escritor. Encontrou um meio saudável de destilar sua verve humorística e as suas frustrações de ex-astro mirim. Seu blog é, merecidamente, um dos melhores e mais famosos dos Estados Unidos.
Eis o comentário de Wheaton sobre a morte de Brandis:
"Several people have written in with the news of Jonathan Brandis's apparent suicide at age 27. I guess many TV watchers put us in a category together, because we both played "The Kid" on a SF show. I've heard him called "The Wesley of SeaQuest" more than once, and not in a kind way. Jesus, I bet that sucked for him."
"Várias pessoas me escreveram para contar do suicídio de Jonathan Brandis. Eu imagino que muitos telespectadores nos coloquem em uma mesma categoria, pois ambos fomos "o menino" em um seriado de ficção científica. Eu já o ouvi ser chamado mais de uma vez de "o Wesley do Seaquest" e não foi um elogio. Putz, isso deve ter sido uma merda pra ele."
* * *
A Internet é uma grande abridora de caminhos. Quem não tem mais opções, sempre pode criar um blog ou um site, divulgar seu nome, congregar os poucos fãs que restam.
Aqui no Brasil, outras ex-estrelas mirins também usam blogs para se comunicar com os fãs. Wheaton, pelo menos, é um blogueiro de mão cheia e encontrou sua vocação como escritor. Não podemos dizer o mesmo de Luciano, ex-Trem da Alegria, grupo musical infantil que fez muito sucesso na década de 80.
O blog de Luciano se parece com todos aqueles blogs de adolescentes que pululam pela rede, cheio de guitarrinhas flutuando e botões piscantes. O problema é que Luciano já passou dos trinta, deveria estar em outra. Eis como ele define o blog:
"Eu, como vários artistas da minha época, tivemos a glória de estarmos no meio musical...Eu nunca saí dele por completo...e nem pretendo. O propósito desse blog é um só:
"MOSTRAR UM PASSADO GLORIOSO!"...Matar a saudade de muita gente que passa por aqui...Satisfazer o desejo de quem era novo na época e não teve a oportunidade de conhecer um dos maiores fenômenos infantis do Brasil!...Mostrar que não tenho vergonha de dizer quem fui!...Suprir a necessidade de "nostalgia" de algumas pessoas! Esse é o intúito desse blog!...Pra quem quiser saber o que eu estou fazendo atualmente entrem no site da banda POP UP. Lá vcs saberão como a banda foi formada, agenda de shows, etc... (...) Vão perceber que eu não vivo só de passado!"
Luciano não vive só de passado, mas mal deve viver de presente. Pelo site, dá pra perceber que a Pop Up se mantém tocando em barzinhos de São Paulo. E, por causa da presença do Luciano, o repertório contém muitas músicas infantis da década de 80.
Parece que estou criticando, mas não estou não. Quem está certo é o Luciano. Poderia ter ido estudar Engenharia, vender seguro ou prestar concurso público. Oportunidades não devem ter faltado. Pressões menos ainda, A mãe deve ter insistido. A namorada deve ter dado um ultimato. O pai deve ter ameaçado, de dedo em riste.
Luciano poderia poderia ter cedido às porradas da vida, poderia ter desistido. A contabilidade é uma estrada sem volta.
Mas ele parece ter uma cabeça boa. Não nega nem o presente nem o passado. Sabe quem foi, sabe quem é e não tem vergonha de dizer. Toca sua guitarra pelos bares de São Paulo de cabeça erguida. Afinal, como ele mesmo disse, nunca saiu do meio musical.
Essa determinação é a marca do verdadeiro artista.
Mas que ele podia melhorar o blog, podia.
(amanhã... conclusões... culpa de sobrevivente... uma versão perversa do paradoxo de tostines...)
Ontem, citei o Rafael Lima, do Na Cara do Gol, e seu post sobre Diogo Mainardi. Hoje, Rafael leu meu artigo sobre a Escola Urbana, gostou e me recomendou um outro artigo dele sobre o mesmo tema.
Adorei. Recomendo a todos que acompanharam e gostaram da polêmica sobre a Escola Urbana.
Alguns trechos:
"Bukowski está longe de ser o pior escritor de seu tempo, até conseguindo alguns momentos de notável lirismo em seus poemas, mas é sério concorrente a pior influência literária de todos os tempos. Só em termos de Brasil, já devemos estar na terceira ou quarta geração de jovens escritores que se diz "seguidora espiritual" do velho safado e ainda assim "malditos", constituindo-se numa espécie de tradição maldita, se é que isso é possível. (...) São temas de seus escritos a derrota (em oposição à glória do sonho americano), o tédio cotidiano, a falta de expectativas & perspectivas, o vazio da existência, a serem encenados por prostitutas velhas e feias, trabalhadores braçais, jogadores profissionais, delinqüentes e o tipo de gente que transita entre as brechas dos sistemas social, econômico e legal. (...)
Como disse em recente entrevista Alexandre Soares Silva, "Entre todos os escritores da literatura mundial, eles escolheram Bukowsky e John Fante como modelos. Acho que isso diz tudo. A história da literatura brasileira é a história de uma longa paixão pela sarjeta, e só Machado de Assis escapou disso."
Mesmo que se retire da questão a temática abordada - valem meleca, sangue e fezes - é completamente questionável a adoção de Bukowski para modelo literário a ser seguido, ou, como colocou com muita graça Ruy Goiaba nesta analogia: "Pense na literatura universal como um grande supermercado. Você dentro de um Pão de Açúcar literário, com dinheiro para gastar em livros fresquinhos. Obviamente, a grana não dá para comprar o supermercado inteiro; contudo, ela é suficiente para encher seu carrinho. Você circularia várias vezes por entre as gôndolas, hesitaria na hora de decidir entre um autor e outro ("este Shakespeare está cheirando bem, aquele Byron parece meio rançoso"), mas se abasteceria. E voltaria ao supermercado dali a uma semana ou um mês, dependendo do apetite. Por que, então, certas pessoas vão sempre à mesma empoeirada prateleira dos vinhos Chapinha e escolhem uma garrafa de Bukowski ou John Fante? Isso não enche o carrinho, não mata a fome e, caso vocês não saibam, dá uma literocaganeira filhadaputa."
O Triste Destino das Estrelas Infantis, Parte I de III: Morte de Uma Ex-Celebridade
O ator Jonathan Brandis, de 27 anos, enforcou-se em sua casa, em Los Angeles.
Poucas pessoas vão reconhecer o nome.
Aos 14 anos, em 1990, Brandis estrelou A História Sem Fim II, um dos filmes que mais marcou a minha adolescência. (Quem adivinhar porque ganha um doce!) Depois, entre 1993 e 1996, interpretou o garoto-prodígio da tripulação do submarino Seaquest, um seriado simpático que deixou saudades. Depois disso, os bons papéis foram escasseando, mas Brandis não estava sem trabalho. Em 2002, teve participação de destaque em A Guerra de Hart, com Bruce Willis.
Por algum motivo, entretanto, Brandis se enforcou.
* * *
Se fosse só isso, Brandis que me perdoe, não valia uma matéria.
Mas todos os artigos sobre sua morte citavam insistentemente um press-release de um certo Paul Petersen, presidente da ONG A Minor Consideration. Uma tradução possível para o nome da ONG seria Uma Consideração Menor.
Diz Paul Petersen:
"We are left with a sense of helplessness and perhaps even anger that this thoroughly unexpected death occurred when we have spent years developing resources to deal with any and all crisis situations. This one hurts. What more can we say?"
"Ficamos com um sentimento de impotência e talvez até de raiva que essa morte, completamente inesperada, tenha acontecido quando passamos anos desenvolvendo recursos para lidar com essa e qualquer situação de crise. Essa doeu. O que mais podemos falar?"
O tom da mensagem me intrigou. Petersen parece pessoalmente magoado de Brandis ter tido a falta de consideração de se enforcar: "Como esse cretino teve coragem de se matar depois de tudo o que fizemos por ele? Ingrato!"
Fui correr atrás da história.
* * *
Na verdade, uma tradução mais apropriada para o nome da ONG seria Uma Consideração de Menor.
Quando criança, na década de 60, Petersen, foi um dos protagonistas do sitcom The Donna Reed Show. Em 1991, depois do suicídio de mais um antigo colega, ele fundou A Minor Consideration, com o objetivo de proteger os direitos das estrelas-mirins do show-biz.
Você poderia se perguntar: alguém que tem seis anos de idade e já ganha milhões de dólares precisa de proteção de quem?
Bem, pra começar, de si mesmo e dos seus pais.
Macaulay Culkin travou longas batalhas jurídicas com seu pai (que também era seu empresário) por ter sumido com o dinheirão que ele ganhou. Os pais não só gastaram tudo como ainda entraram com uma ação na justiça para ter acesso ao trustfund reservado para idade adulta de Macaulay.
Comentou Petersen:
"Macaulay has given up his childhood for his work; it would be a travesty if his future security were lost as well."
"Macaulay deu sua infância pelo trabalho. Seria muito injusto se perdesse sua segurança para o futuro também."
São inúmeros os casos de astros mirins milionários que se descobrem pobres aos 21. Em parte por causa do lobby da ONG de Petersen, uma lei foi passada na Califórnia esse ano que obriga os pais dos artistas-mirins a depositar 15% do que eles ganham em um fundo que só poderá ser mexido quando fizerem 21 anos.
Além disso, a ONG também oferece apoio psicológico para as crianças e seus familiares, ajuda-os a planejar a carreira e dá até auxílio jurídico, quando necessário.
Gary Coleman, astro infantil da década de 70, hoje trabalhando como segurança de shopping center, está enfrentando processo criminal por ter agredido um fã que disse que ele era um "washed-up child star" ("estrela-mirim ultrapassada").
Enquanto isso, no Brasil, Simony, do Balão Mágico, começou a trabalhar aos cinco anos, sumiu, voltou, sumiu de novo, posou para a Playboy, virou evangélica e casou com um presidiário.
(amanhã... blogs de ex-estrelas mirins... wil wheaton, de jornada nas estrelas e luciano, do trem da alegria)
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Uma versão bastante editada desse texto foi publicada na primeira página do caderno TribunaBis, do jornal Tribuna da Imprensa, em 26 de março de 2004
O Dinamarquês que Pintou o Iceberg:
Afinal, O Que É Arte?
"Dinamarquês pinta iceberg de vermelho e chama de arte
Copenhague, Dinamarca - "Todos temos o desejo de decorar a Mãe Natureza, porque ela nos pertence." É o que acredita o artista dinamarquês Marco Evaristti, ao explicar uma inusitada criação sua, na costa oeste da Groenlândia. De posse de 3 mil litros de tinta, Evaristti tingiu de vermelho sangue um bloco de gelo de 900 metros quadrados.
A mancha berrante se destaca brutalmente das geladas paisagens da Groenlândia, onde, naturalmente, imperam os tons de branco. A intervenção custou ao artista apenas duas horas, durante as quais enfrentou temperaturas de até -23 graus C. "Este é o meu iceberg. Ele me pertence", diz o artista, de sua base em Ilullissat - que quer dizer bloco de gelo em groenlandês, dialeto do esquimó.
Ainda não se sabe que reação as autoridades locais tomarão a respeito da obra. Mas é notório seu empenho e rigor em proteger o meio ambiente de ações predatórias, tenham ou não pretensões artísticas.
Não é a primeira vez que Evaristti chama atenção com sua arte extravagante. Há dois anos, ele expôs em uma galeria dinamarquesa uma série de peixinhos em liquidificadores que podiam ser acionados pelos espectadores - com conseqüente trituração e morte dos animais. Alguns visitantes chegaram a ligá-los, peixes morreram, e o diretor da galeria acabou sendo acusado de crueldade contra os animais. Mais tarde, o caso foi arquivado. (Fonte: Tribuna da Imprensa via Agência Estado via Associated Press)"
Não há dúvidas de que o efeito visual é lindo e insólito. Mas será arte?
Resistamos ao nosso primeiro impulso de dizer "não", nem que seja apenas para contrariar quem escreveu essa matéria tendenciosa. Reparem como o texto faz questão de ressaltar qualquer coisa para desqualificar o trabalho, por mais fora do comum que seja. Por exemplo, quantas outras notas sobre obras de arte incluem o tempo que ela levou pra ser feita, uma, duas ou cem horas? Será que isso faz diferença?
Talvez a Violeta dissesse que não é arte por não ter engajamento político. E as criancinhas passando fome no Paquistão? De que modo essa arte tão alienada ajuda o proletariado à superar as históricas desigualdades sociais? E se o artista dissesse que o iceberg foi pintado de vermelho (e não, digamos, de azul) porque o vermelho simboliza o sangue do povo sendo sugado pelos perversos capitalistas globalizados? Será que isso faz diferença?
E se ele tiver feito isso única e exclusivamente por dinheiro e atenção? Do mesmo jeito, aliás, que Shakespeare escreveu Hamlet? Será que isso faz diferença?
"Thematically Marco Evaristti has continually placed his audience in mental dillemmas, such as placing loose parts for lethal bombs -inoccently presented as single components in a travelbag. When he let the quality of sports shoes be evaluated by the marks they made on a prostitutes behind. Or when he let decorative goldfish peacefully swim behind the protective aquarium glasswall of a blender bowl.
What´s next? (...) Will we choose to raise our voices and shout somebodys head off? Or will we watch in amazement as we encounter the beauty that can be added to beauty - if we dare.
Marco Evaristti never harms or endagers anyone or anything in his works - and yet he is able to create esthetic experiences, which seem to place their focus an inch or two behind the blind spot at the back of our eyes. In the zone where some audiences will be blinded and others will watch in awe."
Afinal, é arte ou não é?
Links Relacionados: Marco Evaristti - Site Oficial, com a história por trás do The Ice Cube Project
O Fábio, do Von Martius, colocou um botão do LLL no seu blog, entrou para a Galeria de Honra (agora no área superior direita da tela) e não se arrependeu:
"Alexandre, Também quero agradecer por sua galeria de honra, tem sido bom pro meu bloguinho... Hugs!"
Outros blogs que entraram para a Galeria de Honra do LLL tiveram suas visitas dobradas. Um blogueiro que se recusou a colocar um banner do LLL no seu blog caiu em um bueiro e quebrou as duas pernas, ao mesmo tempo em que uma borboleta batia as asas na China. Teóricos do caos ainda não conseguiram ligar os dois fenômenos, mas estão trabalhando duro.
E você?
O toma-lá-dá-cá é descarado: você bota um botão do LLL no seu blog e entra automaticamente na Galeria de Honra.
Os botões disponíveis podem ser vistos nesse post ou na coluna da esquerda, ao lado, e as banners estão nessa página, sempre destacando uma frase marcante do blog. Eles são bonitos, elegantes, diferentes, intrigantes e, melhor de tudo, não piscam.
Todo mundo ganha nessa divulgação. Eu vou ter os meus botões e banners espalhados por aí, e você vai ter seu link em uma área nobre aqui do blog, acima até mesmo dos Blogs Favoritos. Garanto que vou lhe mandar vários novos leitores.
Se você já gosta desse blog e vem sempre ler as novidades, pense com carinho nessa proposta. Colocar um botão no seu blog vai inclusive facilitar as suas vindas pra cá, ao invés de você ter que ficar o tempo todo digitando URLs. Pra mim, por exemplo, meu blog é a minha lista de favoritos: só visito os sites que estão linkados aqui.
Em vez de promover a castração de animais de rua, Fernando de Noronha optou pela via simplista e está expatriando seus cães abandonados. Banidos para Recife, os animais -pode apostar- terão um triste fim. Enquanto isso, a rede hoteleira da ilha se gaba de investir na proteção de golfinhos e tartarugas."
Quem me chamou atenção para esse assunto foi o Pedro Dória, do Weblog da NoMínimo.
Um americano está tentando tirar as palavras "under god" (sob deus) do juramento à bandeira (pledge of allegiance) dos Estados Unidos.
Obviamente, em um estado laico, que teoricamente nem reconhece a existência de deus, isso faz todo o sentido do mundo.
Eu até hoje me revolto quando vejo aquele crucifixo na parede do nosso Congresso Nacional. Aqui no Rio, então, sob o governo teocrático do clã Garotinho, nem se fala. É cruel. O meu belo estado, que em uma pesquisa do IBGE se mostrou o estado brasileiro com maior índice de pessoas sem religião (15%), submetido a isso.
Enfim, o americano está lutando heroicamente essa batalha tão inglória.
A história já é deliciosa lida no sóbrio New York Times, mas o Pedro ainda fornece link para uma matéria na Slate Magazine, escrita por uma certa Dahlia Lithwick. Nunca tinha ouvido falar nessa moça, o que, sem dúvida alguma, foi erro meu.
Dahlia Lithwick é Editora-Sênior da Slate, escreve de forma leve, inteligente e engraçada e cobre a interessantíssima área jurídica. Depois de ler essa matéria, fucei os arquivos por tudo mais que ela escreveu e não me arrependi.
Uma excelente história, magistralmente escrita, sobre um tema (que eu acho) fundamental. Não podia ser melhor.
Hoje, por incrível que pareça, minha coluna não saiu na Tribuna. Mandei por email, eles não receberam, não cobraram, eu achei que tinha chegado, a edição fechou, babau. Pena, embora a coluna não fosse grande coisa. O original foi vetada e tive que fazer outra às pressas. Ironia suprema: nenhuma das duas foi publicada.
Apesar disso, o dia não foi uma perda total, jornalísticamente falando. A matéria de capa do TribunaBis (o caderno de cultura da Tribuna) foi minha, um artigo sobre estrelas-mirins do show-business, escrito originalmente para o blog.
Comentei com a editora, ela gostou da idéia, eu cortei, domestiquei e encaretei, e a série de posts virou artigo de capa.
Não coloco nem o texto nem o link da matéria aqui pois iria perder a graça. Obviamente, a versão original mal-comportada é bem mais divertida.
A partir de amanhã, acompanhem aqui O Triste Destino das Estrelas Infantis.
Polígono das Secas é, por enquanto, a obra-prima de Diogo Mainardi, romance ao mesmo tempo debochado e corajoso. Dom Quixote está para os romances de cavalaria assim como Polígono das Secas está para os romances regionalistas.
Um dia, tomara, alguém escreverá o Polígono das Secas da Escola Urbana, a praga que vem assolando a literatura regional.
O Rafael Lima, do blog Na Cara do Gol, escreveu um interessante post sobre o Polígono das Secas.
Glauco Rodrigues e a Imortalidade dos Ricos, Parte III
Confesso que imagino, em algum futuro longínquo, o quadro que separou meus pais pendurado em algum pequeno museu brasileiro.
Museu pobrinho, orçamento apertado, sem dinheiro pra ter um dos quadros mais famosos do Glauco, acaba comprando esse, desconhecido, nada badalado, baratinho em um leilão.
Afinal, pensa o curador, melhor um Glauco Rodrigues obscuro do que nenhum. Além disso, o quadro apresenta todas as técnicas de retratismo psicológico que o fizeram famoso.
E então, pelos séculos, enquanto a pintura embranquece aos poucos, os visitantes leriam na plaquinha ao lado: "Glauco Rodrigues, 1929-2004. Retrato da família Cruz Almeida, c.1990. Rio de Janeiro."
E as crianças apontariam rindo pra mim: olha, esse gordo lendo, aposto que ele não pegava ninguém! E que porra é essa na cara dele?
Crianças, crianças, quietas!, o nome disso era óculos, algo que as pessoas que não pegavam ninguém usavam no rosto. O pobre menino já envelheceu e morreu há séculos, não tem graça nenhuma! Vamos, vamos, antes que a exposição do Barroco Mineiro feche!
* * *
Esse é um cenário. Há outro. Vocês juram que não vão me achar muito egocêntrico se eu contar?
Afinal, sempre há a possibilidade de eu publicar um romance, depois outro, as pessoas gostarem, comprarem, daqui a alguns anos eu posso ser um escritor conhecido. Quem sabe até um escritor famoso. Possível é. Os leitores brasileiros gostam até de Estorvo, são capazes de qualquer coisa, até mesmo de me consagrar um grande escritor.
E qualquer réstia de sucesso que faça multiplicaria o valor do quadro.
Uma coisa é Victor Meirelles pintando o quadro da desconhecida família Bulhões de Alcântara Machado. O único atrativo seria, realmente, a assinatura de Meirelles.
Mas digamos que a escrava dos Bulhões de Alcântara Machado tivesse um filho, um mulatinho que cresceu pela casa, e o pintor incluísse os dois no quadro, lá no fundo. Digamos que esse molequinho crescesse, aparecesse e acabasse escrevendo Clara dos Anjos, Recordações do Escrivão Isaías Caminha e (quem não reconheceu, vai reconhecer agora) O Triste Fim de Policarpo Quaresma.
Bem, meus amigos, esse seria um outro quadro. Esse seria um quadro que mereceria uma salinha a parte em um grande museu. Lima Barreto, enquanto criança, retratado por Victor Meirelles, no auge de sua fama. O passado retratando o futuro. As artes plásticas retratando as letras.
Seria bonito.
* * *
Mesmo que eu me torne apenas um escritor de médio-baixo escalão, o quadro já vai valer dinheiro. Por menor que seja minha nesga de fama, o quadro crescerá nos ombros da fama do Glauco.
Pior, o safado ainda me pintou lendo.
Imagina o bafafá na vernissage! Quando o MNBA abrir o quadro à visitação, com certeza os mais esotéricos irão dizer: é o destino! O pintor estava tão sintonizado às enegias artísticas do universo que ele pressentiu naquele menino, gordinho e absolutamente insuportável, o próximo Machado de Assis! Estava escrito!
O quadro é horrível, mas ainda não perdi as esperanças de ganhar algum dinheiro em cima dele. Nem que apenas vendendo esse artigo.
* * *
Os paulistas têm razão quando dizem que essa cidade é uma vila. Fui buscar informações sobre o Glauco Rodrigues na Internet e a única foto decente que encontrei para ilustrar esse post estava em uma entrevista do Glauco para o Jornal Copacabana, no ano passado.
A entrevistadora, Júlia Viegas, minha querida amiga e leitora, foi quem me indicou ao Caetano, então editor do TribunaBis. Júlia, dona de belos pés tamanho 41 (qualquer mulher que calce 41 já está a meio caminho andado de conquistar meu coração) saiu da Tribuna poucos dias depois. E eu fiquei me sentindo como aqueles heróis de filme que saem da casa um segundo antes de ela explodir.
Café Impresso é o site do escritor e jornalista Antônio Caetano.
Enquanto foi o editor do TribunaBis, o caderno de cultura da Tribuna da Imprensa, Caetano foi responsável pelo convite a blogueiros de destaque para escrever colunas. Primeiro, a Clarah. Depois, o Cuenca. Por fim, eu. Outros cronistas são ele próprio, a Cecília Gianetti (também conhecida como Gonzo Girl) e a Luciana Arraes.
A Tribuna é um jornal pequeno, mais voltado para a área da política, e o Caetano conseguiu, com os poucos recursos de que dispunha, fazer um caderno de cultura vibrante, original e diferente.
Infelizmente, o Caetano passou dessa pra melhor: foi chutado escada acima e hoje é Editor-Executivo da Tribuna, uma espécie de ombudsman sem frescuras.
Enquanto isso, continua escrevendo suas crônicas das segundas-feiras e mantendo o site Café Impresso, com o singelo tagline de "arte, ócio & idéias".
Essa puxada-de-saco-básica foi, claro, para agradecer o convite de me juntar ao time, para lhe desejar sorte no novo cargo e, mais ainda, para que vocês também conheçam o trabalho dele.
Alguns dos meus trechos favoritos:
"Teoria da Conspiração: Você Ainda Vai Ter Uma
A minha preferida? MATRIX!
Pura Gnose.
Mas todo mundo tem uma.
A mais célebre é a de Karl Marx.
Você sabe: materialismo dialético, luta de classes e tal...
A psicanálise também não deixa de ser uma. Ou seja: qualquer teoria que apele para a hipótese de uma "causa oculta", presumida apenas pela correta interpretação de sinais aparentemente sem importância, mas que somados "desenham um quadro" - eis aí o resumo de qualquer teoria.
Visto assim, nem Bohème escapa: da mais relés à mais sublime, metafísica e teoria da conspiração são o mesmo.
Que horror!"
"Felicidade de Pedra
"Minha felicidade às vezes me envergonha. Não é uma felicidade exuberante, de quem ficou rico de repente ou sempre deu certo na vida. É uma felicidade pequena, simples, obstinada - de pedra. Feliz até da vergonha que às vezes me causa ao contrastar-se com os horrores do mundo e a infelicidade alheia. (...)
Olho para dentro: a generosidade, a dedicação, a coragem não fazem parte do repertório das minhas qualidades. Apenas não sou mal - o que já é muito - nem procuro a chance de roubar ou humilhar os outros. Não é a ganância ou a inveja que me movem. Isso talvez me faça um pouco menos egoísta. Só um pouco. Ou seja um outro tipo de egoísmo, que é mais isolamento do que indiferença."
Deu hoje na coluna Gente Boa, de Joaquim Ferreira dos Santos, em O Globo. Por algum motivo, só saiu na versão impressa, não apareceu na Internet.
Carolina Larriera, que foi a mulher de facto de Sérgio Vieira de Mello durante os últimos anos de sua vida, acompanhou a mãe do diplomata à solenidade de entrega do prêmio Faz Diferença, promovido por O Globo.
Sérgio Vieira de Mello recebeu, postumamente, o prêmio Faz Diferença na categoria Mundo.
Parece que Carolina está começando a ser reconhecida como a verdadeira viúva de Sérgio Vieira de Mello.
Glauco Rodrigues e a Imortalidade dos Ricos, Parte II
Em 1987, meu pai finalmente cedeu e contratou Glauco Rodrigues para pintar o retrato da família. Eu tinha 13 anos.
O pintor subiu a serra e passou alguns fins-de-semana em nossa casa de campo, em Itaipava, perto de Petrópolis. Éramos tão chiques que tínhamos casa em Itaipava antes de Itaipava virar a Búzios da serra.
Enfim, Glauco levou seu trabalho a sério. Não se misturou. Estava ali pra nos observar, não pra fazer social. Ficava se esgueirando pelos cantos, tirando fotos de tudo e todos, fazendo rabiscos em seu bloquinho.
Imagino os desafios de pintar um quadro desses. Glauco sinceramente tentou entender os retratados e pintar o que realmente eram. Por outro lado, os ricos, especialmente os ricos que encomendam serviços carerérrimos, são bastante sensíveis, pra não dizer outra coisa. Glauco não poderia se arriscar a pintar uma coisa que fosse considerada ofensiva.
Semanas depois, o quadro ficou pronto. Todos acharam horrível, menos minha mãe, que nunca esteve tão feliz.
Meu pai parecia 20 kg mais gordo, minha irmã estava com cara de nojo, minha mãe parecia uma vampira e o yorkshire da família parecia estar flutuando. Só quem ficou bem fui eu.
O preço: 15 mil dólares. Não, não estou convertendo para dólares o valor que pagamos na época. Pintor famoso na década de oitenta recebia em dólares mesmo. Em valores de hoje, segundo meu prestimoso leitor Marcelo, seriam cerca de 24 mil dólares ou 72 mil reais.
Até hoje, minha mãe olha o quadro e suspira: minha família perfeita!
Até hoje, principalmente hoje, meu pai olha o quadro e suspira: o que eu não faria com R$ 72.000!
E eu continuo achando o quadro muito fraco.
* * *
Uma coisa é inegável: dinheiro não compra felicidade mas, em maior ou menor grau, compra imortalidade.
Leland Stanford era conhecido como um empresário corrupto da Califórnia. Antes de morrer, fez uma doação miliardária para a criação de uma universidade e, por isso, vive até hoje como patrono de Stanford University, seus pecados apagados como se nunca houvessem existido.
Os Castro Maya abriram sua casa e seu acervo de obras de arte ao público. Sabe-se lá quantos esqueletos havia em seus armários Luis XV.
Ricos de quinta como éramos, quase classe média alta (argh!), ficam restritos a somente pintar o retrato da família e torcer pelo melhor.
Minha mãe ainda mandou fazer um busto meu e um da minha irmã, pelo artista plástico Carlos Somlo.
Pra garantir pelo menos a imortalidade dos filhos.
(amanhã... conclusão... victor meirelles pinta lima barreto... um artista pressente o outro...)
Alguém da Tribuna transcreveu a frase abaixo como: "Toca da traíra. Cerveja: a melhor opção é a sua traíra. A melhor opção é a nossa: experimenta, experimenta, experimenta!"
Poderia haver melhor exemplo da importância da pontuação?
Primeiro, chamaram o Zeca Pagodinho de traíra. Depois, ele disse que traíra eram os outros. E, no meio de toda essa briga, ninguém se lembrou de perguntar a opinião das próprias traíras - e de quem as vende. A resposta veio hoje, na forma de uma faixa em frente a um restaurante especializado em traíras, em Jacarepaguá.
Foto tirada por mim em 24 de março de 2004.
Uma versão editada dessa nota foi publicada (sem crédito) na coluna Márcio G, de 25 de março de 2004, na Tribuna da Imprensa. Márcio G, pra quem não conhece, é o colunista social da Tribuna.
Autoridades do Sanjay Gandhi Botanical Garden and Zoo, na cidade de Patna, Índia, proibiram gargalhadas dentro do zoológico.
A razão foi uma visita por membros de um Clube de Gargalhadas, uma nova moda indiana, formado por pessoas que gargalham em público como forma de combater o stress.
Infelizmente, as autoridades não acharam graça naquele grupo de pessoas gargalhando juntas em alto volume pelo zoológico e argumentaram que tantas risadas não só incomodam os animais como podem transmitir doenças.
Não sabemos como os funcionários do parque pretendem aplicar o novo regulamento mas, pelo menos no resto do país, todos estão rindo da decisão. E essa gargalhada geral vai ser difícil de proibir.
Uma versão editada dessa nota foi publicada (sem crédito) na coluna Márcio G, de 25 de
março de 2004, na Tribuna da Imprensa. Márcio G, pra quem não conhece, é o colunista social da Tribuna.
"A Espanha diminuiu de 202 para 190 o número de mortos nos ataques terroristas do dia 11.
Testes de DNA mostraram que partes de corpos do que seriam 13 vítimas não identificadas eram de pessoas que já haviam sido incluídas na lista de mortos ou de sobreviventes que tiveram membros amputados. O governo incluiu entre os mortos um feto que estava em adiantado estado de gestação.
Esse assunto já rendeu muito pano pra manga nesse blog. Acompanhe a polêmica nos links logo abaixo.
Glauco Rodrigues e a Imortalidade dos Ricos, Parte I
Semana passada, morreu Glauco Rodrigues, 75, um dos maiores pintores brasileiros.
Glauco foi, antes de tudo, um excelente retratista, conhecido por pintar retratos psicológicos, mostrando não só o exterior mas também o interior dos retratados.
Nas palavras do obituário de O Globo:
"Ele (...) conseguia captar como poucos a psicologia de cada retratado. Rodrigues criava retratos em que o ambiente e cada detalhe dizem muito sobre quem está sendo mostrado. Foi assim com o ator José Lewgoy, retratado usando um luxuoso quimono oriental de sua estimação, como um dândi. Foi assim também com o antropólogo Darcy Ribeiro, pintado cercado dos índios, sua fonte de pesquisa a vida inteira, e também das mulatas, objeto de desejo que o confesso mulherengo fez dançar no Sambódromo, um projeto de sua autoria."
Não sei o que a Violetinha acharia disso, mas Glauco também era bastante mercenário. Assim como a maioria dos grandes pintores vivos (algo que a mídia raramente menciona), ele ganhava dinheiro mesmo era pintando retratos dos ricos e riquíssimos, gente com cacife para pagar verdadeiras fortunas pela vaidade de ser retratada por um grande pintor.
Como a minha família, por exemplo.
* * *
Adoro passear pelo Museu Nacional de Belas Artes, aqui no Rio. A coisa que mais me chama a atenção são os diversos retratos de completos desconhecidos. Naturalmente, o que dá valor a esses quadros são os pintores. Mas quem eram essas pessoas?
Um quadro do Comendador Bulhões de Alcântara Machado e família, circa 1880, em sua chácara de Botafogo, por si só, não vale nada. Vale se tiver sido pintado por Victor Meirelles. O valor do Comendador está em ter podido pagar o absurdo que Meirelles deve ter cobrado para pintar seu retrato, garantindo assim a imortalidade de sua endinheirada família.
* * *
Minha mãe sempre teve delírios matriarcais, mesmo quando ainda era classe média. Era a irmã mais velha de uma família grande e puxava toda a responsabilidade pra si, controlava tudo, mandava até na própria mãe.
Depois de rica, tentou de tudo para virar matriarca de um grande e nobre família. Fazia questão de ajudar todos os parentes, dar casa e comida, trazê-los para debaixo de sua asa e sob seu controle. Nenhum ficava por muito tempo.
Parte fundamental de seu projeto de imortalização do clã era ter um retrato de sua família perfeita pintado por um grande artista.
Meu pai tinha muito dinheiro e gastava a rodo, mas resistiu bravamente. Era um gasto exorbitante e esdrúxulo, dizia ele.
Sejamos honestos. Meu pai realizou todos os seus desejos materiais. Tinha um Porshe 911 na garagem em plena década de 80, em uma economia fechada onde não entrava nada importado e o topo de linha nacional era o Alfa Romeo. Enquanto isso, minha pobre mãe só queria duas coisinhas: uma festa de debutante nababesca para a filha e o quadro da família na parede.
Ela também lutou bravamente. O desgaste foi tanto que eles se separaram poucos meses depois da tal super-festa, mas ela conseguiu tudo o que queria.
Por um lado, é um contra-senso rachar a família em nome de um quadro cujo objetivo é imortalizar a família.
Por outro, a família se racharia de qualquer jeito. Hoje, pelo menos, ela tem o quadro.
Mora modestamente. Vendeu todos as outras obras de arte. Ganha a vida dando aulas particulares. Nem recebe pensão.
Mas o quadro está lá na parede. A família perfeita.
(amanhã... o método de trabalho de glauco... dinheiro compra imortalidade...)
"A pureza e a genialidade do original existem mesmo com essa força toda, ou tudo isso não seria um resquício da tradição romântica de louvar o "gênio" criador do artista ("o fulano é único, inigualável!")?"
Ora bolas, quando eu invisto suados R$60 para comprar Ulysses, do James Joyce, traduzido em português, é porque quero ter contato com James Joyce, quero saber quem é e o que escreveu esse gênio de quem tanto ouvi falar.
Isso não quer dizer que quero ter contato com as idéias, interpretações e interferências do Pedro de Souza, que fez até o 4º ano do IBEU, morou seis meses em Londres e hoje traduz romances pra Nova Fronteira.
Eu paguei pelo Joyce e quero o Joyce. Porque eu não sei falar inglês, a mediação do Pedro de Souza entre eu e o Joyce é inevitável, mas que ele tenha a humildade de interferir o mínimo possível.
Pra quem não fala a língua, o contato com a pureza do original nunca será possível, mas deve ser tentado sim. Pelo menos isso.
Senão, você está dizendo que o Pedro de Souza vale a mesma coisa que o Joyce. Que se você comprar um livro do João Ubaldo, abrir e vier um livro de um escritor novato, ah, tudo bem, não ligo mesmo pra essa tradição romântica de louvor ao gênio criador do artista. Tanto faz. Leio o Ferrez.
O Medo
Confesso que fico preocupado de ouvir um tradutor dizer que a pureza do original não existe ou que não deveria ser importante. Tremo de imaginar o que tradutores imbuídos dessa filosofia não devem modificar, interferir ou "melhorar" nos livros que traduzem.
Será que você traduz alguma das línguas que não sei ler?
Se possível, faça uma lista dos tradutores que concordam com essa teoria, vou guardar na carteira, pra ficar de sobreaviso.
O leitor Fábio Maciel, tradutor profissional, acabou de ler Os Dilemas da Tradução e me mandou o seguinte email, com algumas considerações interessantes:
"Só queria mesmo (...) trazer à tona uma dimensão que, a meu ver, foi esquecida tanto por você como pelos "contestadores", algo que ninguém parou pra pensar e que, no entanto, já vem sendo discutido entre os teóricos da tradução há algum tempo: Será que o original de uma obra (literária, cinematográfica...) é mesmo passível de ser apreendido em sua totalidade, mesmo por um leitor que seja falante nativo da língua, more no país onde ela é falada, conheça a sua cultura etc. e tal? Você realmente acredita que uma obra "chega" em duas pessoas (cultas ou incultas, intelectuais ou não) do mesmo jeito? A pureza e a genialidade do original existem mesmo com essa força toda, ou tudo isso não seria um resquício da tradição romântica de louvar o "gênio" criador do artista ("o fulano é único, inigualável!")? O que dizer sobre o conceito de "obra aberta"? Você, por acaso, sabia que o final do Ulysses de Joyce foi alterado pelo próprio autor após ele ter lido a tradução para o francês? Você mesmo, quando lê o Cervantes em espanhol, acredita que está lendo a mesma obra que um leitor contemporâneo de Cervantes lia? E quando vê um filme em inglês, sem legendas ou dublagem, acredita mesmo que está "captando" toda a "essência" da obra que o diretor tinha em mente transmitir? Existe mesmo esse original perfeito, intocável e imutável?"
Fábio, eu a princípio não tinha falado desse tema, pois achei que era meio que auto-evidente. Agora, vejo que não é. Pelo menos, não tanto quanto eu imaginava.
O Final de Ulysses
Antes de tudo, por favor verifique essa história do final de Ulysses.
Meu exemplar, esse mesmo aí ao lado, é uma fac-símile da primeiríssima edição de 1922 (Coleção World's Classics, da Oxford Univ. Press, 1993). Segundo o Joyssólogo que preparou essa edição crítica, Jeri Johnson, a primeira edição é a que contém menos erros e é a que deve ser usada em futuras reedições.
Não conheço Joyce o suficiente para julgar se isso é verdade, mas sei que a Oxford não utilizaria uma fac-símile da primeira edição se Joyce tivesse, posteriormente, modificado o final do livro.
Além disso, procurei por esse assunto na Internet e não encontrei nada. Dê uma checada.
Os Múltiplos Significados
Naturalmente, qualquer boa obra pode ser entendida de múltiplas maneiras. Infelizmente, quando a obra é traduzida, muitas dessas múltiplas maneiras simplesmente desaparecem.
Há textos que, no original, são ambíguos, se prestam à múltiplas interpretações. Mas, quando vamos traduzi-los, vemos que é impossível manter essa ambiguidade. Teremos que escolher um sentido ou outro, não dá pra manter todos.
Já é ruim quando o tradutor percebe o problema e é forçado a fazer uma escolha consciente. Mas e quando não percebe?
Vi isso muito. Como o tradutor não vê a ambiguidade, ele traduz o trecho literalmente e mata a riqueza de interpretações.
Confesso que uma ambiguidade que o tradutor não pega é capaz de ser uma ambiguidade que muitos leitores do original também não pegariam. Mas pelo menos teriam uma chance. Agora, quem ler a versão traduzida, nem mesmo isso terá.
Concordo com você que uma obra pode ser apreendida de múltiplas maneiras. Nenhum leitor lê do mesmo jeito.
Por isso mesmo, é fundamental ler no original.
O tradutor, enquanto intermediário, é um funil: ele limita essas múltiplas maneiras. Se antes o livro poderia ser entendido de 300 maneiras diferentes, agora são só 30. A presença do intermediário empobrece a riqueza de interpretações.
Não estou dizendo que isso é culpa dos tradutores, mas sim decorrência das diferenças mesmo entre as línguas.
O leitor Carlos Henrique disse que batizou o seu blog de Olhando os Trilhos por causa do ditado: "Você não pode saber para que lado foi trem, só olhando os trilhos".
Nunca ouvi esse ditado, mas fui só eu que achei o significado dessa frase meio obscuro?
"Eu costumava vir aqui sempre e comentar, agora é o último da minha lista que visito, e nem sempre me sinto compelida a comentar. Por quê? Porque os textos não são mais autênticos, quase sempre são citações, ou blogs antigos republicados. Sinto falta do escritor que me surpreendia, quando ele vai voltar?"
Krika, a qualidade do conteúdo desse blog é minha preocupação constante.
Ultimamente, tenho me dado o direito de fazer posts mais pessoais, citando outros blogs ou artigos de jornal, elogios ao meu romance, etc, coisas que eu antes não publicaria.
Entretanto, por mais que existam outros posts mais light, faço questão de haver pelo menos um post diário de conteúdo original, mantendo o nível de qualidade que estabeleci para esse blog. Pode conferir.
Fiquemos só nessa semana.
Domingo foi o da importância dos links, sábado o do outros caminhos, sexta os blogs de pessoas mortas, quinta a questão da privada, quarta o gaiatos inc, terça o mala que sabe o preço de tudo e o não haverá outro dia e segunda, o jovem discípulo e o velho libertário. Esses são, digamos, os posts de verdade.
Não é nem que os outros sejam ruins, mas são auxiliares, complementares: atualização do meu site, a menina que está fazendo tese sobre mim, a questão ética dos mesmos trabalhos para diferentes matérias, mudanças na coluna da esquerda, artigos no jornal sobre as cotas raciais, charges, etc etc.
Um dia ou outro, a gente pode até discordar do nível de qualidade, mas que eu tento, eu tento.
Também vale a pena lembrar que não conheço nenhum outro blog (blog de qualidade, claro) que tenha conteúdo novo literalmente todos os dias, inclusive fins-de-semana e feriados, natal, ano-novo e carnaval.
Aliás, podem ficar tranqüilos: caso o nível do blog não esteja agradando, eu devolvo integralmente o dinheiro de vocês. Basta enviar o comprovante de compra e o código de barras da embalagem. Não precisa nem justificar.
Mais elogios. Citei ontem um email que o Naldinho, do Singrando, me mandou sobre os farmacêuticos da literatura, fui lá hoje visitá-lo e o homem estava falando de mim!
"Os blogs também funcionam como ponto de partida para gente talentosa procurar seu público, praticar sua retórica, e mostrar seus dotes. Um exemplo deste talento podemos ver no produtivo Alexandre Cruz Almeida, de Liberal, Libertário, Libertino. Alexandre escreve como um louco (pelo volume da produção) e um visionário (pelos temas sempre renovadores, inovadores e bem burilados). Uma entrada diária em seu blog é pouco para tomar completo conhecimento do que se edita lá, além de estar disponibilizado seu romance, Mulher de Um Homem Só, para para download."
Eu sei que sou um homem cheio de fetiches e taras. Sei também que não deveria compartilhar esse tipo de coisa com vocês, meus pobres leitores, que vêm aqui me ler e ainda têm algumas ilusões sobre minha sanidade.
Mas algumas coisas dá vontade de contar. Que eu acho pés a parte mais linda do corpo humano, isso tudo mundo já sabe. Nada chama mais minha atenção do que uma mulher mexendo seus dedinhos. Pode ser na sala de aula, no ônibus, em uma reunião, onde quer que seja. Ela começa a flexionar os dedinhos ou tirar e colocar os pés nos sapatos... e pronto. Não consigo olhar para mais nada.
Anteontem, teve reunião de professores. A professora sentada bem na minha frente ficou a reunião inteira, a cretina, tirando e colocando os pés das sandálias e flexionando os dedos. Pior, ela fez essa posição aí das fotos que, por um motivo inexplicável, é a que acho mais linda, levantando o dedão ao máximo e abaixando os outros.
Como eu sou louco mesmo e não tenho vergonha de nada, eu já pedi pra ela me deixar tirar fotos dos seus pés. A pergunta é menos louca do que parece, pois tem uma taxa de aceitação de quase 80%. Infelizmente, justo essa safada que mexe os dedinhos do jeito mais lindo se recusa. Por vergonha. Diz que seus pés são muito feios.
Enfim, se me perguntarem do que tratou a reunião ontem, juro que não faço idéia. Fiquei que nem um cachorrinho vendo o dono mexer o osso daqui pra lá.
Algumas pessoas chamam essa posição de Andalusian Spree, outras de Joinha. É como dar um OK com os pés. As leitoras que me mandarem fotos de seus pés assim terão minha gratidão eterna e o que mais desejarem de mim.
O Carlos Henrique ressalta que encontrou o meu site através de uma busca no Google. Do site, veio pra o blog. E, por causa dos meus links e referências, acabou conhecendo os Alexandres Soares Silva e Inagaki, e o Polzonoff.
Só posso ficar feliz de ter podido apresentar o Carlos à um trio da pesada desses.
Tráfego de Leitores
Assim como li Whitman por recomendação de Henry Miller, Emerson por recomendação de Whitman e Thoreau por recomendação de Emerson, bem, nós, os blogueiros que produzem conteúdo de qualidade, também enviamos usuários uns aos outros.
Acho normal que um leitor que caia aqui e goste muito acabe visitando todos os meus links favoritos. Ele pensa: gosto muito do Alexandre, concordo com ele em muita coisa, vamos ver do que mais ele gosta, hmm, esse tal de Elas por Elas deve ser bom, e por aí vai.
Estava conversando isso com o Soares Silva e com o Polzonoff. Já vi, nos comentários de ambos, leitores dizendo que amaram, adoraram, etc etc, e que chegaram lá através de mim. Do mesmo modo, vários blogueiros vêm me agradecer, pois as menções que faço a eles às vezes triplicam suas visitas.
Sempre que vejo algo legal em algum blog, faço questão de citar e dar o link. Sei que isso faz muita diferença para o blogueiro citado.
Naturalmente, ninguém tem obrigação de linkar quem não gosta.
Eu confesso que não gosto nem um pouco de alguns dos blogs listados em Blogs Amigos. Também não peço desculpas por ser viciado nos blogs que estão em Blogs Favoritos. Mas faço questão de linkar de volta qualquer um que me linke, e a seção Blogs Amigos é o espaço para isso.
O Google
Imagino que aqueles trocentos blogs amarfanhados lá em Blogs Amigos não devem receber muitos cliques. Não tenho culpa se muita gente me linka. Para ajudá-los, tento criar diferenciações (Blogs de Humor, de Imprensa, Galeria de Honra) para poder divulgar todos. Mas é difícil.
Ainda assim, só o fato de um blogueiro ter link aqui, mesmo que ninguém nunca clique nele, já é uma senhora ajuda.
Digamos que você busque por Harry Potter no Google e encontre dois resultados. (Hahaha, naturalmente, isso é como os físicos que sempre presumem que tudo acontece no vácuo para simplificar suas contas!) Bem, o desafio do Google é o seguinte: como fazer para mostrar em primeiro lugar o site mais relevante para essa busca?
O Google tem um algorítmo complexíssimo que leva em conta trocentas variáveis. Uma das mais importantes é a quantidade de links apontando para o site.
Pensem comigo: o primeiro site de Harry Potter têm outros 10 sites linkando pra ele, o segundo, 876. O robozinho do Google é burro, não sabe ler e nem gosta muito de Harry Potter. Com base nesses dados, qual site vocês acham que ele vai deduzir que é o melhor?
Muita gente não sabe disso, mas quanto mais sites linkarem pra você, melhor você aparecerá no Google. E aparecer bem no Google é um ativo que ninguém pode desprezar.
90% dos usuários do meu site, por exemplo, chegam pelo Google, como o Carlos Henrique. Quando usuários buscam por monogamia, hererossexualidade, aceitação ou patriotismo, o primeiro, o primeiríssimo resultado é a minha prisão correspondente. Podem testar. Isso vale ouro.
Em suma, mesmo que ninguém clique no link, só ter um link já pode fazer uma diferença enorme na sua vida.
Por isso, minha campanha do um blog lava o outro. Por isso, eu faço questão de linkar todo mundo que linka pra mim, mesmo que não possa dar destaque. Por isso, eu faço questão de citar, em post, qualquer coisa que me chame atenção nos blogs que visito.
E, finalmente, por isso, eu vivo mendigando links para quem não tem a generosidade de oferecê-los.
O post do Carlos Henrique sublinha algo que venho repetindo aqui há tempos: a importância dos links.
Leiam e depois conversamos mais:
Como este blog nasceu
Justiça deve ser feita e eu devo me render a esse lugar comum. Até cerca de dois meses atrás eu achava que blog era aquele negócio que adolescentes usavam pra escrever diários recheados de figurinhas coloridas e uma linguágem incompreensível. Fazendo uma pesquisa sobre a lei de defesa da língua de Aldo Rebelo, me deparei então, com o site de Alexandre Cruz Almeida, onde em um longo artigo ele expunha seu pensamento a respeito da Defesa da Língua Portuguesa. Pensei na hora: "Não é possível, esse cara pensa exatamente como eu". Descobri depois que o artigo havia sido originalmente postado em seu blog Liberal, Libertário e Libertino e não entendi nada. Como assim, blog? Dá pra escrever textos sérios em blogs? Passei as semanas seguintes lendo o blog e os artigos do Alexandre Cruz e através dele descobri a existência do Polzonoff, do Alexandre Soares Silva, do Alexandre Inagaki (meu Deus, só tem Alexandre nesse meio?), devidamente linkados na coluna da esquerda e de vários outros blogueiros que tinham idéias muito interessantes. Se não pude concordar com tudo que escrevem pude pelo menos perceber que esse é um meio de comunicação muito interessante.
Agora vem a parte da justiça da qual eu falei. Depois de resistir por um tempo, li o romance do Alexandre Cruz, Mulher de um Homem Só. No começo não gostei muito e escrevi uma longa e enfadonha crítica onde eu dizia ao autor porque achava que algumas coisas não funcionavam em seu livro. Quando enviei a crítica, por um problema de email ele não a leu imediatamente. E no meio tempo, antes de reenviá-la, tive tempo para uma segunda leitura do livro.
Estranhamente o desagrado inicial diminuiu um pouco, pude perceber que alguns dos argumentos estavam mal elaborados e na tentativa de reescrevê-los comecei a perceber novas nuances no livro e que alguns dos argumentos que eu usava derrubavam a si mesmos. Enviei a crítica como estava, mas não consegui me desprender do livro. Voltei ao blog várias vezes à procura de algum comentário do Alexandre à minha crítica. Ele não o escreveu, mas encontrei ao invés disso comentários de outros leitores, que me faziam perceber novos pontos de vista e reforçavam alguns dos meus pontos de vista.
Se fiz privadamente a crítica, acho que devo agora fazer o elogio publicamente. Não porque eu espere receber agora uma resposta, mas porque minha opinião realmente mudou. Continuo achando o tempo do romance um pouco confuso e acelerado, continuo achando que alguns detallhes poderiam ser melhor trabalhados, mas por outro lado não acho mais que sejam artificiais as reações de Carla e das demais personagens. Acho que o que define melhor a humanidade é sua ambiguidade e sua capacidade de surpreender, de se mostrar apenas parcialmente e de se mostrar diferente a cada novo olhar. E certamente isso as personagens de Mulher de um Homem Só possuem.
Depois disso tudo, montei esse blog. Escrevi alguns posts, configurei algumas ferramentas e só agora tomei coragem de mostrar a cara. Não sou escritor por isso peço desculpas pelo estilo pobre, mas pretendo escrever o que penso, mesmo que as idéias mudem com o tempo, como mudaram as idéias acima.
Leiam o livro do Alexandre Cruz e o seu blog e também os outros que estão linkados. Eles mandam muito bem. E se você já veio até aqui, não custa nada voltar de vez em quandoi pra conferir as últimas."
Como Ganhar Meu Respeito
Pra começar, Carlos, muito obrigado pelos elogios.
Sobre o meu romance, eu li seus comentários com atenção e me surpreendi com a profundidade e carinho da sua crítica. Só não postei aqui ainda porque, como você sabe, sua resenha ficou gigantesca, mas estou vendo se separo o email em algumas partes para poder comentá-lo e compartilhá-lo com os outros leitores.
De qualquer modo, sempre recomendo não esperarem resposta minha de nada, pois sou lento que só.
Mas saiba que você mereceu o meu respeito.
Não por gostar ou não gostar do meu romance, pois isso é uma questão de gosto, e gosto é sempre algo superficial e circunstancial. Eu teria que ser muito vazio para gostar de alguém só porque ela gosta do meu trabalho, ou desgostar pelo motivo oposto.
Também não foi por escrever uma crítica tão longa, carinhosa e ponderada do meu romance. Por isso, eu te agradeço, mas não granjeia respeito adicional.
Você ganhou meu respeito por ter uma opinião, e uma opinião negativa, ainda por cima, e ter coragem de defendê-la e elaborá-la para o próprio autor, sempre uma tarefa difícil que exige caráter.
Depois, ganhou mais ainda ao fazer algo fora do comum: absorver novas informações contrárias à sua opinião original (a maioria das pessoas nem registra opiniões de outros que contradigam às suas), considerá-las e pesá-las e terminar mudando de opinião.
Por fim, ainda conseguiu subir mais no meu conceito fazendo um post no seu blog contando toda essa história, dando sua cara a tapa em público e confirmando o que todos deveriam saber: a cabeça é redonda para podermos mudar de idéia.
Três charges excelentes, de três excelentes chargistas, dos três jornais que leio diariamente: Henrique, da Tribuna da Imprensa, Chico Caruso, do Globo, e Angeli, da Folha de São Paulo.
Gente, essa minha lista de links não pára de crescer. Todo dia descubro um blog ou site novo linkando pra cá. Daqui a pouco vou ter que fazer uma nova limpa das pessoas que não linkam de volta pra mim e vão me chamar de antipático de novo, mas o espaço simplesmente não dá!
O leitor Naldinho, do blog Singrando, me enviou o seguinte email, com um trecho do livro Formas Breves, de Ricardo Piglia:
"A vanguarda é uma das ideologias espontâneas de todo escritor. (A outra é o realismo.) Se ser de vanguarda quer dizer ser 'moderno' todos nós, escritores, queremos ser de vanguarda. A modernidade é o grande mito da literatura contemporânea. Ao mesmo tempo, nos dias de hoje, pelo menos na Argentina, a vanguarda converteu-se num gênero (o grifo é meu). Existe uma maneira cristalizada, tão plena de convicções e de regras que se poderia escrever um romance de vanguarda com a mesma facilidade com que se pode escrever, por exemplo, um romance policial. Por tudo isso, caberia dizer, enfim, que o problema não está tanto em uma obra ser ou não ser de vanguarda: o fundamental é que o autor e o público sejam de vanguarda."
Trecho de Formas Breves, de Ricardo Piglia.
Alexandre, não li o livro, retirei o trecho acima da edição de 04/02/04 da Veja (pag. 105), porém mesmo sem ler todo o contexto, não pude deixar de notar os pontos comuns entre o que você fala sobre o romance urbano e a vanguarda de Ricardo Piglia. Todo escritor de romance urbano acredita que é vanguarda, e que é moderno. Estes farmacêuticos da literatura repetem a fórmula crentes de estarem rompendo tabus e engendrando novas criações. O triste é que hoje existem uma crítica e um público de vangarda, presos ao romance urbano. Conto com você para despertar os pobres zumbis. Um abraço."
Chegou agora? O Naldinho está comentando o meu artigo A Escola Urbana, sobre uma nova estética literária que está tomando conta da nossa literatura. Dê uma olhada e me diga o que acha.
Na semana passada, falei sobre o blog Outros Caminhos, criado por Alex Teixeira. Alex faleceu em outubro do ano passado, de um tumor cerebral, e o blog vem sendo mantido por sua esposa, Bia.
O caso está longe de ser único. Hoje em dia, a população blogueira ainda é majoritariamente jovem, então as mortes ainda são esporádicas e acidentais. A medida que a Internet se popularizar e envelhecer, blogs, sites e flogs de pessoas mortas serão tão comuns quanto, digamos, livros de pessoas mortas.
* * *
No dia 31 de maio de 2003, três adolescentes foram pisoteados e mortos durante o show de rock Unidos pela Paz, no Jockey Club de Curitiba. Larissa Cervi Seletti, uma das vítimas, tinha um blog.
Na segunda, 19 de maio, menos de duas semanas antes de morrer, Larissa conseguiu criar o seu novo blog:
"AAAAAHHHHHH GRAÇAS A DEUUSS FINALMENTE CONSEGUI FAZE ESSE TRECO DI NOVUUU TO FELIIIIZ... bem como vcs perceberam eu fikei um bom tempo sem blog... pq esse blig eh uma kenga.. mais tudu bem... fiz otro... igual dããã... (...) comentem pq eu to de kra com vcs q ngm mais lembra di mim...."
Larissa parece ser a típica blogueira de 15 anos de idade, com seu dialeto incompreensível, fotinhas de todos os amigos e dezenas de botões piscantes. Algumas das fotos, inclusive, são de Larissa e seus amigos em um show do Dead Fish (confesso nunca ter ouvido falar) realizado poucas semanas antes no mesmo Jockey Club onde Larissa morreria.
Como nenhum blog é uma ilha, e sim um arquipélago, a morte de Larissa repercutiu em outros blogs de seus amigos e conhecidos.
Uma blogueira, que diz ter estado no show, escreveu:
"Neste domingo três pessoas morreram em Curitiba num show que deveria ser "unidos pela paz". Duas delas, Mariá de Andrade Souza e Larissa Seletti, eram amigas da minha irmã e ex alunas da minha mãe. Eu estava no show e vi o corpo da Larissa estendido, coberto por um casaco e sem bolsa, tênis, celular, nada, pq além de matarem ainda roubaram. Só me resta esperar justiça."
No mesmo blog, outra menina, Beatrice, respondeu:
"É muitu tristi mesmu, a Larissa e a Mariah eram do meu colegio, Colegio Marista Santa Maria, e sow em pensa, q ninguem tevi coragem de ajuda elas, elas tavam taum felizes, pois tinham recuperadu 1 indicador ondi ainda estavam pendentis no colegio."
Alguns meses depois da tragédia, o blog de Larissa foi tirado do ar.
* * *
Os termos de uso do Blig, onde ficava o blog da Larissa, dizem que o serviço se dá o direito de excluir qualquer blog ocioso por mais de 45 dias. Mais radical, o Blogger brasileiro apaga automaticamente qualquer blog parado por mais de dois meses.
Os americanos são mais tolerantes: o Blogger e o LiveJournal deixam os blogs no ar indefinidamente a não ser que a família faça um pedido formal para que seja apagado.
Os velórios virtuais brasileiros precisam de movimento constante para não desaparecerem.
* * *
Blogueiro, em geral, é jovem. Jovem, quando morre, é morte súbita. Imprevisível.
Os amigos do morto vão ao blog e ainda não acreditam no que aconteceu. É como se esperassem um novo post a qualquer momento. Daqui a pouco, vocês vão ver, ele vai falar do Zeca Pagodinho ou do caso da Luma e do bombeiro.
Mas, dia após dia, nenhum post novo.
Finalmente, alguém faria o primeiro comentário. Talvez um aviso (olha só, gente, o fulano morreu anteontem) ou um desabafo (cara, não acredito que você morreu!), quem sabe até uma mensagem à família (meus pêsames nesse momento etc).
Uma vez feito o primeiro, o dique estaria aberto. Os amigos do morto iriam começar a conversar entre si através dos comentários, consolando um ao outro, trocando anedotas do falecido, postando fotos.
O e-mail avisando da missa de sétimo dia iria incluir um link para o blog. Os pais ou esposa postariam alguma mensagem.
Um verdadeiro velório virtual.
Com o passar dos anos, os amigos não apagariam o blog dos seus favoritos. Voltariam lá quando sentissem saudades do falecido. Releriam velhos posts, cheios de vida e alegria. Confeririam os novos comentários. E, nas datas comemorativas, aniversário de morte ou de nascimento, o blog seria o ponto de encontro de uma verdadeira romaria virtual de saudosos.
Nada disso é teoria. Já está acontecendo em centenas de blogs ao redor do mundo.
* * *
Desde que escrevi sobre o blog do Alex Teixeira, na coluna passada, vários leitores foram lá deixar comentários de pêsames e encorajamento para a Bia, sua viúva. Ela inclusive fez um novo post em agradecimento.
Rebecca Kris morreu em um acidente de carro em janeiro de 2002, mas seu blog continua bem vivo para amigos e parentes, que já deixaram quase 200 mensagens de amor e saudades. Ironicamente, seu nick era "lucky me" ou, sortuda.
Brian Faughnan desapareceu durante uma caminhada nas montanhas em julho de 2002. Seu pai criou um blog especialmente para agir como uma central de informações para amigos e parentes durante a busca. Brian ainda não foi encontrado.
Os amigos de Scott Vice, falecido em julho de 2002, converteram seu blog particular em um blog público. Hoje, qualquer um pode fazer posts compartilhando histórias ou fotos do amigo. O resultado final é uma das mais belas homenagens que uma pessoa pode receber.
Nem todo blog de pessoa morta precisa ser triste.
O diário de Samuel Pepys (1633-1703) cobre uma das épocas mais tumultuadas da história britânica, incluindo a morte de Oliver Cromwell, o grande incêndio de Londres e o reestabelecimento da monarquia. Agora, o diário está sendo publicado em forma de blog, uma entrada por dia. É quase como se Pepys estivesse blogando, ao vivo, direto do século XVII.
* * *
A Internet fez muitas promessas de mudança: mudar o modo como fazemos compras, procuramos empregos ou até mesmo lemos jornal.
Quem diria que uma das coisas que a Internet mudaria seria o modo como velamos nossos entes queridos, uma das mais consolidadas tradições humanas.
Em algum futuro dois de novembro, quem sabe, bastará uma peregrinação por meia dúzia de blogs para estarmos em dia com nossos mortos.
A Questão das Cotas: Injustiça Com Injustiça se Paga
Deu em O Globo de ontem, quarta, 17 de março:
"Tribunal de Justiça considera que cota para negros é inconstitucional
A estudante Luísa Peixoto conseguiu autorização na Justiça para se matricular no curso de desenho industrial da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). A decisão é da 5ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio, que concedeu sentença alegando que a lei de cotas para negros é inconstitucional, conforme noticiou Ancelmo Gois em sua coluna no GLOBO.
Luísa fez o vestibular da Uerj ano passado, foi a 10ª colocada no curso, mas não se classificou porque a Uerj reservava parte de suas vagas para alunos de escolas públicas, negros e pardos. A decisão da 5ª Câmara foi unânime e pode abrir caminho para que outros estudantes consigam sentenças favoráveis baseadas nesse julgamento.
"A decisão pode criar jurisprudência. Os desembargadores são livres para julgar, mas os advogados podem alegar que já existe uma sentença a respeito" disse o advogado de Luísa, Rodrigo Massard.
Em maio do ano passado, Luísa obteve liminar para se matricular na Uerj, mas a universidade recorreu no segundo semestre e ela perdeu a vaga. A estudante fez o primeiro período do curso e parte do segundo. Das 36 vagas oferecidas para desenho industrial, apenas quatro não foram preenchidas por cotistas.
"A cota para alunos da rede pública é até compreensível, mas para negros é um absurdo. Beneficiou negros de escolas particulares" afirmou Luísa.
Decisão não suspende o efeito da lei de cotas da Uerj
No ano passado, a lei de cotas da Uerj foi reformulada. No vestibular deste ano, houve reserva de 45% das vagas, sendo 20% para alunos da rede pública, 20% para negros e 5% para deficientes e índios nascidos no Brasil. A sentença da 5ª Câmara não suspende o efeito da lei.
Ontem à tarde a Uerj ainda não havia recebido notificação da Justiça. A universidade poderá recorrer ao Superior Tribunal de Justiça, alegando que a cota não fere qualquer lei federal, e ao Supremo Tribunal Federal, argumentando que não fere a Constituição."
O racismo é e continuará sendo, por muito tempo, um grande problema no Brasil. Mas não é um problema que vai se resolver, pelo contrário, só piorar, com o sistema de cotas que está sendo implementado em algumas universidades.
A primeira razão é filosófica, e deveria ser a mais importante: não se corrige uma injustiça cometendo outra. Não se purga a falta de termos trazidos negros escravos em navios-negreiros mantendo crianças talentosas fora da escola. Eu posso bem ver um jovem, de qualquer cor que seja, que tirou 9 na prova e não entrou na universidade vendo um outro jovem, de qualquer outra cor que seja, tirando 5,5 e entrando. Preencham as lacunas com as cores que quiserem. Não é justo. A escravidão também não foi justa, mas o jovem que tirou 9 poderia dizer: eu juro que nunca escravizei ninguém! Nunca fui à África laçar pretos, nunca mandei ninguém pro tronco! Eu juro! Deixa só eu estudar Direito, por favor! Eu mereço, tirei a melhor nota!
Caso queiram ignorar a primeira, a segunda razão é a que de fato inviabiliza a coisa: raça não é um critério objetivo ou cientificamente aplicável. Negro, na prática, é quem é visto como negro e, em geral, quem é visto como negro acaba se vendo e se pensando como negro. Nem que fosse na Suiça haveria o caos, quem dirá no Rio de Janeiro, pátria da malandragem. Como todo mundo tem algum sangue negro nessa cidade, todo mundo vai poder se dizer negro de consciência limpa. E quem é que vai dizer que não? Vai haver um comitê regularizador? Vocês podem imaginar a festa que a imprensa fará com isso? "Família de Jovem Negro Declarado Não-Negro Processa UERJ" e por aí vai. Pra não falar, claro, dos negros briosos que vão querer passar por seus próprios méritos e não vão se declarar negros. No fim da história, o único jeito será liberar geral. Negro vai ser quem se diz negro e todos, menos meia dúzia de orgulhosos, se dirão negros. Caos.
Caso o governo ignore a primeira objeção e considere que o caos gerado pela segunda é um preço pequeno a se pagar, os próprios negros deveriam se levantar contra essa lei por causa da terceira objeção.
Hoje, quando vejo um médico negro (ou um juiz da Suprema Corte negro) eu penso: taí um herói. Sabe-se lá as dificuldades que esse homem não enfrentou e venceu. Provavelmente deve ser, no mínimo, três vezes melhor do que todos os colegas dela na faculdade de Medicina.
Amanhã, quando eu vir um médico negro, eu vou pensar: será que esse cara é bom mesmo ou será que ele é um médico café-com-leite? Será que entrou na faculdade por mérito ou será que entrou com pistolão?
Se eu fosse um negro inteligente e talentoso, sabendo os obstáculos históricos que a minha raça teve que superar pra ser mesmo considerada gente e sabendo os obstáculos pessoais que eu ainda vou ter que superar em minha vida... Bem, ser rotulado de café-com-leite é a última coisa que eu gostaria. Isso é voltar o relógio no tempo 100 anos.
Durante muitos anos, ouvi as mulheres reclamarem sobre a questão do assento da privada.
A reclamação nunca era explicada em muitos detalhes, mas sempre presumi que o problema era o seguinte:
O homem chegava pra mijar, levantava o assento e deixava levantado. Quando a mulher ia usar a privada, corria o risco de não reparar no assento levantado e dar de bunda n'água.
É reclamação simplesmente ridícula. Caramba, custa olhar antes de sentar? Afinal, eu também uso o vaso tanto sentado quanto de pé e, com certeza, antes de sentar, eu me certifico de que o assento está abaixado.
As mulheres são sem noção, pensei.
* * *
Mais tarde, descobri que a reclamação do assento da privada não era essa. Pelo contrário, as mulheres queriam mesmo era que os homens levantassem o assento. O problema era que os porcos não levantavam, mijavam por cima do assento e deixavam o assento todo sujo.
Não é à toa que eu nem tinha considerado essa hipótese. Sou viadamente organizado. Nunca me passaria pela cabeça que alguém pudesse ser porco ao ponto de mijar sem levantar o assento. Caralho, esse animal não percebe que está sujando o assento que ele mesmo vai precisar daqui a pouco?!
As mulheres estão certíssimas, pensei.
* * *
Algumas, entretanto, estão certas pela razão errada. Em um jantar no campo, o assunto surgiu à mesa e as mulheres presentes argumentaram que os homens não eram porcos, eram incompetentes. Porra, claro que dá pra mijar sem levantar o assento e sem fazer sujeira. Os homens é que não mijam direito.
Naquele dia, fiz pela primeira vez uma demonstração que tem feito muito sucesso. Levei a mulherada pro jardim, coloquei um bambolê no gramado, dei uma mangueira pra elas e desafiei: quero ver molhar dentro do bambolê sem respingar o bambolê.
(Algumas mulheres se emocionam com a experiência. Dizem que é o mais perto que chegaram de ter um pau.)
Já apostei até dinheiro. Sempre tem uma feminista boçal que acha que vale a pena apostar R$50 que ela e seu ego conseguem fazer algo que todos os homens porcos do mundo tentam fazer há séculos. Adoro tirar dinheiro dessa gente. Mas não tem jeito: seja no jato inicial ou no jato final, sempre suja, sempre pinga.
Algumas das perdedoras ficam defensivas. Nada mais defensivo do que uma feminista que acabou de perder uma aposta. E daí?! O que você quer dizer com isso? Que os homens têm mesmo que sujar tudo e fodam-se as mulheres? Porcos chauvinistas!
Claro que não. Só provei empiricamente que o problema dos homens não é imperícia na mijada, pois mijar sobre o assento sem fazer sujeira é impossível. O problema dos homens é simples porcaria mesmo: eles têm que levantar a porra do assento na hora de mijar e pronto.
Finalmente, em outras discussões sobre o tema, descobri que nem mesmo as mulheres estão de acordo sobre esse tema. Algumas concordam com a minha primeira hipótese, que o problema é o homem levantar o assento pra mijar e não abaixar depois, enquanto outras acham que o problema é o homem mijar sem nunca levantar o assento.
O melhor da história: como o assunto não é nunca tratado em detalhes, as mulheres de ambos os grupos acham que todas as outras pensam como ela, e nem fazem idéia da outra hipótese. Ao final da conversa, a mesa parece palco de uma revelação religiosa à mesa: olhos se abriram, novas realidades se mostraram, o nosso modo de ver o mundo nunca mais será o mesmo.
A questão fica então lançada às leitoras: o que vocês acham? Qual é o dilema da privada pra vocês?
Uma versão editada desse texto foi originalmente publicada na coluna Calça Justa do blog Elas por Elas, no dia 27 de fevereiro de 2004
Saíram as últimas notas. A Prisão Ambição (ainda inédita) tirou 10 em Crítica Literária, 9 em Sociologia, 9 em Monografia e 8 em Teorias Contemporâneas da Comunicação. O professor de Monografia fez questão de ressaltar que era 9 por causa do atraso.
E, por fim, o artigo O Lado Cômico do Edifício Master tirou 8 em Cinema. Esse foi a única verdadeira forçação de barra, pois apesar de bem sacado é um artigo que não tem absolutamente nada de acadêmico, e só mandei por puro desespero, pois era a única coisa que eu tinha escrita que falava minimamente sobre cinema.
Ou seja, os leitores habituais desse blog já leram toda a minha produção acadêmica da pós-graduação.
Vocês vão achar que estou zoando, mas não estou não.
Oportunidade única, só para humoristas profissionais. Dez anos escrevendo na Mad me qualificam para participar da Gaiatos Inc. Quem mais se qualifica? O Adaílton trabalha pros Cassetas, o PC foi meu colega na Mad, o Mr Manson e sua turma são maravilhosos, o Nelito está fixo em O Dia. Quem mais?
Vamos à proposta.
Consultoria em Consultoria
Outro dia, estava em uma multinacional e vi o cara pagar uma fortuna para uma consultoria especializada em nomes inventar o nome da nova intranet.
Uma consultoria... especializada em nomes! Pode isso?
Se tivessem perguntado pra mim, eu teria inventado um nome melhor pela metade do preço.
Ou seja, existe consultoria pra literalmente tudo. Claro. As empresas pagam bem, você a princípio não tem custo nenhum e qualquer um pode se dizer um expert em, digamos, inventar nomes. Se colar, colou. Se só ligar um infeliz por ano, já valeu a pena o investimento, que foi zero. E, quem sabe, depois de dez anos disso, você pode mesmo se tornar um expert em nomes.
Puxemos a sardinha pro nosso lado.
Kafka já dizia que contra uma piada não há argumentos. É impossível se defender de zoação. Você fica calado e espera passar. Mas, quase sempre, essas grandes empresas são zoadas porque querem, porque deram abertura. Ou melhor, porque não receberam assessoria humorística apropriada.
Vivo Clonado
Por coincidência, eu estava fazendo um trabalho pra Telefônica durante a troca de nome. A primeira vez que ouvi o nome Vivo foi lá dentro. E já falei na hora, quase que automaticamente: vivo caindo, vivo clonado, vivo fora de área, etc.
Meu cliente arregalou os olhos e eu calei a boca rapidinho, ciente da gafe. Afinal, eu era um consultor terceirizado, não podia zoar da empresa.
Mas ele quis saber e me apertou: como assim, "vivo caindo"? E eu tive que explicar que essa seria a piada inevitável que todo o Brasil estaria fazendo quinze minutos depois do lançamento do novo nome. Ele me olhou estupefato, como se a culpa fosse minha.
Era inevitável. O que me espanta é: como ninguém pensou nisso?
Pra quem é zoador profissional, essas coisas são automáticas. Simplesmente aparecem no nosso cérebro e, se não nos cuidarmos, saem pela boca nas piores horas. Perguntem pro Nelito, pro Adaílton, pro PC, pro Mr Manson.
Roubando Sem Parar! Sem Parar!
Outra, essa só pros cariocas.
O lema da nova campanha publicitária da prefeitura é "sem parar! sem parar!"
E, de novo, lá se foi o meu cérebro, praticamente sozinho: roubando sem parar, superfaturando sem parar, etc etc. Como não sou o único piadista da cidade, a sacanagem já ganhou as ruas.
Precisava a prefeitura ter pago esse mico?
Gaiatos Inc Em Ação!
Não há defesa, você poderia dizer. Qualquer coisa é zoável.
Sim e não, amigo leitor. Claro, dá pra zoar de tudo. Afinal, somos profissionais aqui. (Ainda vou escrever um artigo longo sobre a prática profissional do humor e seus dilemas éticos.) Que dá, dá.
O ladrão, se quiser mesmo, sempre vai conseguir entrar na sua casa. O segredo é a sua casa ser mais difícil de entrar do que a do vizinho. Pois é.
O nome Vivo é eminentemente zoável. As sacanagens simplesmente pululam. É irresistível.
Zoar de Tim, Oi, Intelig ou Nextel seria bem mais difícil.
A Telefonica gastou trocentos milhões pra trocar a marca. Se tivessem dado só cinquentinha mil pra Gaiatos Inc nós teríamos evitado todo esse constrangimento.
Fico imaginando a cena: reunião com os bam-bam-bams da empresa, consultores fodões engravatados vindos direto de Londres ou Nova Iorque, um cavalete coberto, a equipe descobre o cavalete em um gesto dramático, tã-ram!, aí está a nossa nova marca, senhores e senhoras, um boneco de jujuba e o nome Vivo! E, antes mesmo que a diretoria possa começar a aplaudir, eu, o PC e o Adaílton já começar a gritar e rir lá de trás: vivo fora de área, vivo sem batéria, vivo dando dor-de-cabeça...
Cai o pano, rápido!
Em menos de cinco minutos, os consultores já estariam em seus aviões de volta. Melhor sorte na próxima vez.
Sei não, mas acho que existe um enorme nicho de mercado só esperando pela Gaiatos Inc.
"Acha bonito tirar um 9 (ou 10 no caso) apresentando o mesmo trabalho pra 4 matérias....você quer só o diploma...mas não venha me falar sobre ambição ou honestidade... Se eu fosse teu professor e soubesse disso, e levasse a sério minha atividade te dava um zero!"
Dou aulas há onze anos e sou aluno há muito mais que isso. Dou minha cara a tapa a quem encontrar algum problema ético com a minha decisão.
Caso o professor decida me reprovar, eu entro na justiça contra a universidade e ainda faço o maior escarcéu na mídia. Vocês sabem que eu adoraria.
Não há nenhuma regra, seja escrita ou mesmo implícita, que um trabalho universitário tenha que ser inédito. Ele tem que ser uma produção original minha e tem que seguir os guidelines estabelecidos pelo professor. Os guidelines, naturalmente, ficam a critério do professor: número de páginas, bibliografia usada, assunto a ser tratado, etc.
Caso o meu trabalho tenha uma temática ampla e seu assunto se enquadre nos guidelines de um ou mais trabalhos de uma ou mais matérias, não há conflito ético algum.
O professor, quando julga o meu trabalho, tem que julgá-lo em termos do que ele pediu para o trabalho em si, partindo do princípio que aquela é uma produção original minha.
Se é uma produção original minha que eu fiz ontem à noite, especialmente para essa matéria, ou se é uma produção original minha publicada numa revista especializada há dez anos, ou se é uma produção original minha feita para outra matéria e reaproveitada pra essa, tudo isso é rigorosamente irrelevante.
O trabalho é meu? É. O trabalho está dentro do que foi pedido? Está.
Pronto. Só isso importa.
O professor de Sociologia tem que julgar se ele é um bom trabalho de Sociologia.
O professor de Cinema tem que julgar se é um bom trabalho de Cinema.
Se é um trabalho sobre a Sociologia do Cinema que se aplica a ambas as matérias, tanto melhor pra mim que não vou precisar escrever dois trabalhos.
Eu confesso que, antes de fazer, nunca tinha pensado nessa questão. Ela é, realmente, fora do comum. Mas, depois do escândalo que fizeram, parei, pensei, considerei as questões éticas e realmente acho que não há nada de errado, desde que o trabalho seja meu.
Quem discordar, tudo bem. Mas o ônus da prova é de vocês. Provem que é anti-ético. Mostrem algum manual ou guia de conduta acadêmico que diga que um trabalho deva ser inédito. Conversem com professores de ética.
Não basta a opinião de vocês. Tem que estar escrito ou previsto na lei. Senão, eu entro com recurso contra um professor que por um acaso tenha a mesma opinião que o Fábio e me reprove à revelia do regulamento.
É impossível andar com o mala que sabe o preço de tudo.
Você pede um sanduíche de filé de frango e o mala que sabe o preço de tudo grita: sete reais?! Que absurdo! Com esse dinheiro, eu compro um quilo de filé de peito!
(É, só que o quilo do frango está no mercado, tem que ser carregado pra casa, temperado e cozido, e eu agora estou aqui nesse balcão de lanchonete morto de fome.)
Vocês vão no restaurante a quilo, ele te vê colocando arroz no prato e já reclama: meu deus, você sabe quanto custa o quilo do arroz?! Um décimo do preço do quilo desse restaurante!
(E você fica olhando pro prato dele e se perguntando o que será ele vai colocar ali. Caviar? Ouro em pó?)
Você pede um eggcheeseburger e ele fica horrorizado: caramba! dois reais de diferença entre o cheeseburger e o eggcheeseburger! Com dois reais, eu compro uma dúzia e meia de ovos lá na feira!
E não é só com comida, não, meus amigos, quem dera. O mala que sabe o preço de tudo sabe (ou, pelo menos, blefa que sabe) o preço de tudo mesmo.
Você vai comprar um vestidinho e ela (muitas vezes, o mala que sabe o preço de tudo é mulher) fica chocada: que desperdício! Por esse preço, eu compro tecido suficiente lá em Madureira pra fazer cinco vestidos iguais a esse! E ficariam bem mais bonitos!
(Ah, sim, claro, o mala que sabe o preço de tudo sempre tem algum fornecedor secreto no subúrbio que vende tudo bem mais em conta.)
Você pára numa papelaria da Zona Sul para comprar uma simples bic por cinqüenta centavos e o mala que sabe o preço de tudo vem lhe cutucar: mas você gosta mesmo de jogar dinheiro fora, hein? Aqui é tudo caro. Essa mesma bic você compra lá em Coelho Neto por menos de dez centavos! No Makro, uma caixa com cem canetas dessas não custa nem trinta reais.
(Esqueci de dizer: o mala que sabe o preço de tudo só faz compras no atacado.)
Você chama o mala pra fazer qualquer programa e ele prontamente inclui o preço da gasolina nas despesas. Vamos pro Jardim Botânico? Não, não posso, dezesseis reais é muito caro. Dezesseis?!, você diz. É, quatro da entrada, quatro do estacionamento e sete e cinqüenta da gasolina ida e volta.
(E você respira aliviado dele não ter incluído nessa conta a amortização do valor do carro, o cálculo atuarial do risco de ter o carro circulando na rua por x horas e, muito menos, graças a deus, o custo-oportunidade de seu tempo.)
Implícito no comportamento do mala que sabe o preço de tudo está a firme convicção de que todos no mundo são otários, menos ele.
Só ele sabe o verdadeiro valor do dinheiro, só ele faz compras direito, só ele conhece os fornecedores certos, só ele não é roubado em todos os estabelecimentos. Só ele...
Bem, só ele é como ele geralmente anda, pois ninguém o atura por muito tempo.
Todos nós já fomos, em algum momento, o mala que sabe o preço de tudo. Ser assim sempre é que não dá.
Eu e minha mulher queríamos ir à praia. Mas acordamos tarde, ficamos enrolando, demoramos pra almoçar. Quando vimos, eram quase três horas.
Já está muito tarde, eu disse. Não vale a pena colocar isso tudo no carro e dirigir até a praia pra ficar só duas horinhas. Melhor deixar pra outro dia.
* * *
Meu porteiro descobriu que eu era professor e começou a conversar comigo sobre suas frustrações acadêmicas.
Ele tem cinqüenta e poucos, mas eu podia jurar que eram quase quarenta. Já prestou o vestibular várias vezes. Na última, em 2002, ele não entrou pra Biologia na UFFRJ por menos de meio ponto na prova de Geografia. Foi por muito pouco.
Já está muito tarde, ele disse. Estou muito velho. Não vale mais a pena.
* * *
Contei pro meu porteiro a história da praia.
Eu olhei pro relógio, vi que estava tarde e desisti porque amanhã seria outro dia. Amanhã o sol nasceria de novo e eu teria, novamente, doze horas de praia pra aproveitar.
Mas o sol não vai mais nascer na vida do meu porteiro. E nem na de nenhum de nós. Quando a gente olha no relógio da vida e vê que está ficando tarde, a hora é de correr, não de deixar pra depois. O que não fizermos hoje, amanhã fica mais difícil, depois de amanhã talvez impossível.
Se fossem três da tarde e eu soubesse que o sol nunca nasceria de novo, teria saboreado ao máximo aquelas últimas duas horas de luz.
O Nordeste é muito rico em histórias. Contaram-me, certa vez, que um jovem advogado, recém-formado, aceitou defender um réu acusado de ser matador profissional, mas somente matava bandido por encomenda da família das vítimas assassinadas por outros pistoleiros. Em conversa com seu pai, o causídico foi aconselhado a procurar o chefe político da região da cidade onde se realizaria o julgamento pelo júri popular. Meio vexado, procurou o coronel. E explicou que a acusação era exagerada, homicídios qualificados, agravantes de todas as espécies, tocaias, emboscadas, crimes continuados mediante paga, pena de 12 a 30 anos de reclusão. Tentou explicar que seu cliente agia em razão de relevante valor social, pois era um justiceiro, quando o coronel o interrompeu:
"Pode parar, meu filho. Essas coisas não contam. São muito complicadas. Sou amigo de seu pai e vou atender ao pedido dele. Diga-me, sem arrodeios, o que você quer".
O advogado disse que queria, para seu cliente, a pena mínima do homicídio simples: seis anos reduzida de um terço.
No dia do julgamento, o promotor fez sustentação não muito eloqüente e ele caprichou na defesa, citando juristas nacionais e estrangeiros, examinou detalhadamente a denúncia, qualificou-a de inepta e não sofreu apartes do acusador. Final: o júri deliberou e seu cliente foi condenado a quatro anos, tal como pedira ao coronel.
Exultante com a vitória, foi agradecer ao coronel e ouviu: "Tem nada não, meu filho. Não podia deixar de atender a um pedido de seu pai. Mas não foi fácil. Tive que dobrar muitos cabras teimosos. Foi difícil, porque os jurados queriam absolver seu cliente. Agora me diga: quer que ele cumpra a pena ou posso mandar soltar?".
Além dessa demonstração de como funciona o controle externo do Judiciário, quando exercido por chefes políticos, o jovem causídico descobriu também porque o promotor não lutou como devia: sabendo das tratativas e que o réu seria condenado ao menos a quatro anos, não quis fazer nada que pudesse absolvê-lo.
Há alguns advogados que, por ingenuidade ou inexperiência, conseguem condenar seus clientes quando podiam absolvê-los, não por influência externa, como na história nordestina, mas pela inabilidade da defesa e, o que é mais comum, por irritarem os julgadores com teses mal elaboradas que, em vez de conduzirem à absolvição ou ao benefício da dúvida, aumentam a pena dos seus constituintes.
É mais ou menos desse tipo a defesa do governo e do ministro José Dirceu feita pelo PT no caso Waldomiro Diniz."
O artigo continua, mas o resto é o mesmo blá-blá-blá de sempre sobre o Waldomiro. Dá vontade de dizer pro autor a mesma coisa que o coronel disse pro advogado: "Pode parar, meu filho. Essas coisas não contam. O que era importante você já disse."
Recebi mais uma nota da universidade. Lembram a Prisão Ambição, ainda inédita, que entreguei como trabalho para quatro matérias diferentes? Pois uma delas foi Projeto de Monografia. A nota veio 9 - e o professor ainda escreveu embaixo "pelo mês de atraso na entrega". Acho que isso quer dizer que normalmente seria um dez.
Eu tenho que aprender a ser menos vagabundo. Demorei um mês pra entregar e olha que já estava tudo escrito!
Em tempo: uma das minhas colegas desse mestrado em Jornalismo Cultural está fazendo sua monografia... sobre mim!
A tese tenta mostrar que os blogs literários de mais alto nível estão se tornando uma alternativa ao jornalismo cultural de quinta que tem sido feito pela grande imprensa, usando eu e o Digestivo Cultural como case studies.
Aqui o resumo:
"Na peneira digital, sites e blogs são novas opções de jornalismo cultural
O jornalismo cultural dos cadernos culturais tem se apresentado com uma natureza espremida por alguns dilemas como o culto gratuito a celebridades e o rebaixamento geral dos critérios de avaliação dos produtos, por exemplo. Como alternativa para estes leitores e autores que buscam ou escrevem textos reflexivos e que desejam ou mantém uma visão além da imposta pela indústria cultural, propõe-se estudar (conteúdo, linguagem, apresentação) dois veículos culturais virtuais - o site Digestivo Cultural e o blog Liberal Libertário Libertino - para através de textos ou imagens neles contidos mostrar que o jornalismo cultural online pode ganhar um novo fôlego na mídia digital. A vasta bibliografia sobre o assunto e as entrevistas realizadas e coletadas sobre o tema servem para embasar ainda mais essa teoria."
O jovem discípulo vai visitar o velho libertário em sua casa no topo da montanha. Há anos o jovem discípulo é fascinado pelas palavras do velho libertário, por sua filosofia de amor livre, liberdade intransigente e paixão acima de tudo. As palavras do velho libertário o eletrizam. O jovem discípulo bate na porta esperando encontrar um dínamo vivo, uma força da natureza.
Atende um velhinho, visivelmente contrariado pela interrupção. Lá dentro, o clima é quente, desconfortável. O velho libertário senta perto da lareira para esquentar os pés e toma o seu leitinho com dificuldade, pois suas mãos entrevadas mal conseguem segurar a xícara.
A conversa segue dura e protocolar. O jovem discípulo está confuso. Será que está na cabana certa? Esse aqui parece um velho pefelista, não um velho libertário.
Ele pergunta, o velho confirma: sim, escrevi todos esses livros. Há muito tempo.
Mesmo assim, o jovem discípulo está cada vez mais constrangido. Claramente, o velho quer ficar sozinho com seus livros, seu leitinho e sua lareira.
O jovem pede licença para ir embora e se levanta, sem nem uma palavra de protesto por parte do velho.
Quando está na porta, entretanto, o velho diz:
Meu filho, peço perdão por não ser mais o homem que escreveu esses livros. Mas nem mesmo naquela época eu era assim o tempo todo.
O importante é que eu era assim no momento em que escrevi aquelas palavras. O importante é que você seja assim no momento de lê-las. O resto é ficção.
O autor desses livros agora é você. Seja-o enquanto puder. Depois, suba a montanha e venha ocupar minha casa. Ela estará vazia.
Essa não foi uma atualização fácil. Pra começar, foi a maior de todas, pois englobou dois meses, janeiro e fevereiro, e, pra piorar, dois meses atípicos.
Janeiro foi dominado pela monumental série sobre A Escola Urbana, que deve que ser domada, organizada e reeditada. Ela é a grande vedete dessa atualização.
Fevereiro foi um mês de muitos posts pequenos e poucos posts longos e seqüenciais, como de costume. A dificuldade foi escolher quais dos posts seriam arquivados no site. Não dava pra ser todos.
Foram arquivados, na seção Artigos, os seguintes posts:
Outra coisa que vocês só podem fazer no site é se cadastrar pra receber, via email, os destaques desse blog.
Podem ficar tranqüilos: o blog é atualizado todo dia, mas só mando mensagem uma ou duas vezes por semana, chamando atenção para posts que acho especialmente dignos de nota. Além disso, são emails pequenos, que nunca passam de 20k. Assine a newsletter.
Sensacional crônica de João Ubaldo Ribeiro, em O Globo de hoje:
"Há leitores que não conseguem acreditar que se escreva sobre algo que nunca se experimentou. Volta e meia fica difícil conversar com eles. Uma vez, questionado sobre uma cena de parto contida em outro livro, encontrei dificuldade em provar que nunca tive um filho, digamos, pessoalmente - e até agora não estou seguro de que me dei bem. O interlocutor não pareceu muito convencido de que o famoso lado feminino de que hoje todos os homens têm de se orgulhar e manter com afinco, não era tão radicalmente desenvolvido em mim. O bigode, a careca e a voz grossa não se revelaram suficientes para tornar incontestáveis meus argumentos, pois, ao que tudo indicava, ele conhecia algumas boas mães de família com tudo isso e talvez mais alguma coisa. Suspeito que devo ter uma reputação meio estranha em certos círculos. (...)
Uma comissão (sei que talvez seja difícil de acreditar, mas recebi visitas de grupos interessados em meus préstimos) chegou a me chamar de irresponsável, por não assumir meus deveres, diante da necessidade de superar o atraso que, segundo ela, ainda impera no terreno sexual. Tentei fazer ver às militantes que certamente elas tinham razão e não seria eu quem as desmentiria, mas, infelizmente, eu não reunia condições para capitanear iniciativas redentoras, não só nessa como em inúmeras outras áreas. A História será meu juiz e espero que me avalie com clemência, ao descobrir que, talvez por minha causa, não tenha vingado o movimento "Suruba pela Paz", que era a bandeira de um dos grupos, cujo eloqüente nome de guerra, aliás, não tenho coragem de divulgar aqui. (...)
Meu próximo romance vai intitular-se "Firma reconhecida" e versar sobre a vida empolgante de um tabelião de notas. Espero que o máximo que se solicite de mim seja uma carimbadinha eventual. E, pelo amor de Deus, no bom sentido."
Eu sempre gostei de saber de todas as histórias sobre a vida de todo mundo. E, como bom contador de histórias que sou, também sempre gostei de passá-las adiante.
Algumas pessoas chegam ao cúmulo de me chamar de fofoqueiro, mas prefiro o termo técnico: jornalista.
Enfim, odeio guardar segredos. Acho que as boas histórias têm que ser contadas. Ser contada é a razão de ser de qualquer história. Uma boa história não contada morre de solidão.
Toda vez que alguém me pede segredo de alguma coisa, eu morro um pouco.
Não posso contar pra ninguém?
Não.
Nem mudando os nomes?
Não.
Nem se eu mudar os nomes, os locais, os fatos?
Não, não, não!
Ou seja, tortura.
Sobre a minha vida, não tenho segredos. Qualquer coisa que diga respeito a mim e que não seja pública e notória é porque envolve a privacidade de algum outro.
Segredos são cancerígenos. Eles andam dentro da gente pulsando, apodrecendo, querendo sair. Ninguém me tira da cabeça que essas pessoas que fazem um check-up e, quando vão ver, estão podres por dentro, é porque carregavam segredos demais.
A Pizza Inteira
Antigamente, quando eu era mais jovem e ansioso, eu prometia segredo em troca da confidência:
Alexandre, eu só te conto se você não contar pra ninguém.
Ninguém? E se for só pra uma pessoa?
Pra ninguém! Senão, não conto.
E minha curiosidade vencia, eu baixava a cabeça, derrotado:
Tá bom, conta.
Eu saciava aquela vontade irreprimível, aquela curiosidade louca, mas era como devorar uma pizza inteira sozinho: bom na hora, mas depois pesa. E eu era obrigado a andar pela vida carregando o peso daquele segredo que nem era meu, que eu não queria carregar e nem podia passar adiante, pustulando dentro de mim.
Tancredo e Woody
Dizem que um jovem político chegou pro Tancredo e disse que tinha um segredo pra lhe contar, mas que ele não podia contar pra ninguém.
E Tancredo respondeu:
Meu filho, se você, que é o dono do segredo, não consegue guardá-lo, imagine eu!
Em Desconstruindo Harry, de Woody Allen, o protagonista homônimo é um escritor odiado por todos os seus conhecidos (especialmente ex-mulheres) por incluir detalhes deles em seus livros.
Harry está errado? Claro que não. Todos os escritores são assim. Vai ver faltou avisar os amigos.
Chega de Declarações em Off
Pois agora chega. Virei o Cabo da Boa Esperança. Já tenho 30 anos.
Minha paz de espírito e minha saúde mental são mais importantes do que satisfazer meus impulsos de curiosidade. Se for segredo, então eu não quero saber. Não precisa contar.
Ok, eu admito, eu até quero saber, mas agüento ficar sem saber. O que não agüento é carregar mais um segredo.
Entrou pelos meus ouvidos ou olhos e é bem capaz de acabar saindo pelas pontas dos dedos. Tudo o que eu sei ou posso vir a saber é matéria passível de ser incluída em algum futuro romance. Quem não gostar disso, não fale comigo, não ande comigo, não pague micos na minha frente.
Alexandrinho não aceita mais declarações em off. Só me contem o que eu puder passar adiante, citar na matéria ou incluir no enredo. Senão, calem-se para sempre. Prefiro ler Caras.
Nem mesmo os meus segredos eu carrego, não vou carregar dos outros.
Dialogando com a Violetinha:
Foucault, Dogville, Esquerda e Direita
Acreditem ou não, esse post começou com um comentário e foi inchando.
Violetinha, você escreveu tanto apartheid social quando Waldorf Astoria certo, parabéns.
Acho que meus leitores devem perceber meu senso de humor sim, senão por que voltariam? Sem meu senso de humor, eu seria insuportável. Sem senso de humor, esse blog seria totalmente estéril e sem sentido.
Mas enfim, não deixem que eu interrompa a briga, vou até me ajeitar aqui na poltrona, adoro ver leitor brigando.
Foucault
Foucault não é feio. Na verdade, ele se parece um pouco com o Uncle Fester. Ou seja, um charme.
E também não é nem burro e nem mau escritor. Seus livros são uma delícia de ler. Ele escreve bem e é cativante. É como ler um romance de Agatha Christie. O problema é quando você pára pra pensar no que ele falou e repara que nada faz o menor sentido.
Foucault só não é historiador nem cientista social, pois sua pesquisa histórica é totalmente falha e suas teorias são paranóicas, conspiratórias e alucinadas.
Uma vez, eu estava na Martins Fontes folheando uns livros de Foucault e um cara veio me perguntar se eu gostava de Foucault. Não sou de ter vergonha do que pensam de mim, mas naquele momento fiquei apavorado com a possibilidade de aquele completo estranho achar que eu gostava de uma sumidade-unanimidade como Foucault, e falei:
Foucault, se caísse de quatro, não levantava nunca mais...
E o outro respondeu, na lata: Claro, viado do jeito que era, ia ficar lá de quatro mesmo, dando e gostando...
Violetinha, acredite em mim que eu não estimulo comportamentos homófobos nem rio de piadas desse tipo, mas dessa vez não deu.
Dogville
Em seu blog, a Violeta elogia uma resenha do filme Dogville escrita por Konstantin Gavros, o excelente blogueiro de O Sexo É A Verdade, A Verdade O Sexo. Ela cita seu trecho preferido:
"(...)Um contrato de cláusulas leoninas, segundo as quais a imensa maioria deve servir e apodrecer na miséria, na fome e na doença, enquanto uma minoria legisla e governa em causa própria, além, é claro, de enriquecer. E denominamos esse estado de absoluta discrepância de poderes com um outro adorável eufemismo: "democracia". Uma palavra que de tão falsa chega a me provocar pruridos anais... As regras, como vemos, são muito simples: eu te exploro e você me agradece (ou, como é o costume, finge agradecer). Se, por alguma incontrolável razão, você decidir se vingar... bem... para isso existem as prisões e os hospícios... (...)Um contrato de cláusulas leoninas, segundo as quais a imensa maioria deve servir e apodrecer na miséria, na fome e na doença, enquanto uma minoria legisla e governa em causa própria, além, é claro, de enriquecer. E denominamos esse estado de absoluta discrepância de poderes com um outro adorável eufemismo: "democracia". Uma palavra que de tão falsa chega a me provocar pruridos anais... As regras, como vemos, são muito simples: eu te exploro e você me agradece (ou, como é o costume, finge agradecer). Se, por alguma incontrolável razão, você decidir se vingar... bem... para isso existem as prisões e os hospícios..."
O Konstantin é foda quando fala de sexo, mas esse blá-blá-blá marxista parece que alguém acabou de catar de debaixo de uma das pedras do muro.
Sério, que mundo é esse em que vocês vivem? Será que suas vidas são tão insuportáveis assim? Fico lembrando de uns malucos que conheci na faculdade, só andam de preto, cultivam sua revolta como eu cultivo meus cabelos, tomam tequila até às cinco da manhã discutindo a Escola de Frankfurt (uma das escolas mais imbecis de todos os tempos) e combinando o cargo que cada um vai ter depois da revolução.
Sei lá, Violetinha, bota uma bermuda, uma sandalinha (seus pés devem ser uma delícia), leva o Konstantin e seu homem malvado pro parque, vão andar no Ibirapuera, tomar sol, ver as crianças brincarem, ouvir os passarinhos cantarem, essas coisas. Vai fazer bem.
Esquerda vs Direita
Não pense que deixo de te amar. Outro dia saí com umas pessoas que se entitulam neocons (novos conservadores). Não me conformo de alguém com menos de 30 anos já se entitular conservador. Deve ser algum tipo de retardamento mental. O que esse cara vai estar fazendo aos 50? Reeditando a Inquisição Espanhola? Praticando Macartismo?
Teorias políticas furadas por teorias políticas furadas, as idéias desses neocons são tão imbecis (não mais nem menos, exatamente no mesmo nível) quanto as idéias marxistas-revoltadas dessa resenha de Dogville.
Ou seja, estou começando a ver que, politicamente falando, desprezo qualquer um que fale politicamente.
A diferença é que o pessoal de direita é péssima companhia. Eles têm wit, é verdade, algo que a esquerda jamais terá. Aliás, acho que se injetarem wit na esquerda ela explode, assim meio como matéria-anti-matéria.
Mas, apesar do witty conversation, os neocons são conservadores, religiosos, pentelhinhos. Como aturar alguém que usa expressões como "os valores morais da sagrada família católica brasileira"? Não dá nem pra conversar.
A esquerda tem paixão, que é algo que respeito mais. São insuportáveis, claro, com seus cartazes e slogans e pôsteres do Che, sempre gritando que você não pode ser tão alienado, você não vê o mundo lá fora?! O Petróleo é nosso!
Naturalmente, a paixão é tão anátema à direita quanto o wit à esquerda. Ninguém pode defender o status quo entusiasticamente. Não faria sentido. Por definição, um conservador não pode ser apaixonado.
Além do mais, a esquerda é mais liberadinha sexualmente, aberta a todos os deviantes e marginalizados, e menos religiosa. Afinal, Marx disse que a religião era o ópio do povo e só esqueceu de dizer que o marxismo seria o ópio dos intelectuais com preguiça de pensar.
Enfim, escória, escória mesmo só a teologia da libertação, que consegue juntar o pior da esquerda (ou seja, a própria doutrina marxista) com o pior da direita (o cristianismo). São verdadeiros inimigos da humanidade.
Violetinha, querida, isso tudo foi só pra dizer que, podemos até discordar politicamente, mas é com você que eu gostaria de sair pra tomar um chope.
Da Série Leitores Satisfeitos:
Sérgio Barcellos Ximenes, do Blog do Romance
O Sérgio, do Blog do Romance, não morre mais. No mesmo dia em que publiquei o artigo Confesso Ter Medo, sobre o medo que tenho do que certas pessoas que admiro podem achar do meu romance, o Sérgio, uma dessas pessoas, me escreve pra dizer o que achou.
Antes de tudo, recomendo que visitem o seu excelente site, Blog do Romance, para conferir as referências literárias do Sérgio. Quando voltarem, já convencidos que ele entende muito do assunto, leiam o que ele me escreveu:
"Acabei há pouco de ler sua história.
Às vezes, recebo solicitações de internautas para analisar textos que, logo nas primeiras linhas, evidenciam uma incompatibilidade entre a intenção de contribuir para a literatura e as habilidades (ou melhor, a falta delas) para realizar esse objetivo.
No seu caso, existe uma evidente compatibilidade entre capacidade e intenção. Qualquer editor que leia a história perceberá que o autor é alguém que sabe escrever e que possui a capacidade de impressionar o leitor com algo fundamental na literatura: um estilo próprio.
A história é fácil de ler, flui com naturalidade, e a narradora consegue passar como um ser humano possível, dotada de características próprias de personalidade.
Existe a escrita literária, própria dos narradores tradicionais. Na sua história, a narradora "fala" diretamente com o leitor (as leitoras), mas este logo percebe que a fala não é normal, mas trabalhada artisticamente. Chamo esse recurso de "fala literária", uma opção válida tecnicamente, já que o leitor sente e aprova o enriquecimento do conteúdo em relação a uma comunicação trivial do dia-a-dia.
(...) Acho que poderá haver uma diferença básica na recepção: as mulheres devem se sentir mais à vontade com o texto porque você reproduziu muito bem o mundo interno feminino (emocional, espontâneo) e o modo como a mulher dá sentido aos fatos. Já alguns homens podem se cansar porque, com o tempo, a voz assemelha-se à de outras autoras que desenvolvem a "narrativa verborrágica feminina", aquela fala feminina incessante que às vezes nos irrita mais pela forma do que pelo conteúdo. É um efeito curiosamente contraditório: as características criativas do texto que servem para reproduzir com fidelidade a fala ou o pensamento da narradora são aquelas que dão vida e credibilidade à enunciação, mas são também as que vão, com o tempo, tornar cansativa a leitura, por sua repetição incessante.
(...) Para mim, o melhor foi perceber que você tem todas as condições técnicas de dar uma contribuição original à literatura."
E você, que gosta desse blog, vem aqui sempre, mas ainda não leu o romance, não acha que já está na hora, não? Você pode fazer o download em versão para imprimir ou para ler na tela.
O melhor da história é que, mesmo que eles peçam pra você se retirar, quem disse que você precisa sair?
Ser auto-confiante demais faz você ficar abusado. Eu, com certeza, estou sempre testando os meus limites e de todo mundo a minha volta.
Eu falei que os funcionários de estabelecimentos de luxo evitam interpelar as pessoas por medo do escândalo. Mas não só elas: a grande maioria das pessoas está sempre tentando evitar o escandânlo e fugir do confronto. Portanto, se você não perde a calma, mas deixa claro que vai fazer um escândalo, as chances são grandes de você conseguir tudo o que quiser.
Outro dia, eu estava em uma das salas de computador da universidade. Na frente, um professor dava aula de contabilidade enquanto eu, no fundo, acessava à internet. Daqui a pouco, veio o professor perguntar se eu estava matriculado naquela disciplina. Eu respondi que não e ele, educamente, pediu para eu me retirar pois aquela sala era só para alunos daquela matéria. Um pedido perfeitamente razoável. Posso imaginar poucas pessoas que não atenderiam.
Mas a sala estava vazia. Havia cerca de trinta lugares e só uns dez ocupados, os alunos amontoados em volta dele na frente e eu sozinho atrás. Além disso, eu sabia que todas as outras salas de computador estavam fechadas. Entrei lá porquee era a única.
Ele pediu educamente pra eu eu sair e eu disse, educadamente: "Não."
Todo mundo devia tentar isso pelo menos uma vez na vida. Eu tento quase sempre, ainda vou levar um tiro. Mesmo as pessoas que têm menos autoridade esperam sempre ser obedecidas em suas ordens disfarçadas de pedido. Dizer um simples não, e observar a reação, é um prazer raro.
Como assim não?, ele disse. E começou a falar que aquela sala era só pra alunos, que havia uma placa na porta dizendo isso e etc. Eu interrompi delicadamente e dei para ele as seguintes opções.
Eu estou aqui usando a Internet sem incomodar ninguém, seus alunos não estão nem me vendo, tem lugar sobrando na sala. Se você deixar eu ficar aqui sozinho, não vou te atrapalhar em nada. Aliás, essa conversa já demorou muito, daqui a pouco eles vão começar a viajar e vão perder a concentração. Agora, se quiser me fazer sair, eu vou dar um escândalo, não vou sair por bem, vou dizer que sou um aluno pagante e não admito isso, o segurança vai ter que vir me arrastar, eu vou dizer pra ele que se ele encostar em mim, eu vou contar pro meu avô, o Juiz, que vai tirar até as calças dessa universidade. Enfim, eu vou até acabar saindo, imagino, mas sua aula vai por água abaixo. E como essa é uma universidade mercenária, eu nem mesmo vou ser expulso ou penalizado, pois eles querem meu dinheiro mais do que qualquer coisa.
Ele bufou, suspirou, rolou os olhos. Esticou o braço até o meu pulso, pensou seriamente em me agarrar fisicamente, depois desistiu, deu de costas e continuou a aula.
Não é à toa que minha mulher tem vergonha de sair comigo, mas a gente sempre consegue o que quer.
Temor Reverencial
Até entendo o temor reverencial que as pessoas mais humildes têm por esses templos do dinheiro que eles, afinal de contas, nunca freqüentaram.
O irônico é que pessoas acostumadas a ser roteineiramente interpeladas e chamadas atenção por policiais, garçons, vendedores, etc, tenham receio de entrar, por medo de ser chamadas atenção, nos poucos lugares em que ninguém chama a atenção de ninguém.
Final da história: entramos no Sofitel, eu dei bom-dia ao pessoal da recepção como se morasse ali há 20 anos, fiquei no saguão lendo um jornal enquanto esperava, ela saiu, bons-dias para todos e ponto final.
Designers de livros parecem não se dar conta que os volumes serão muito mais vistos pela lombada do que por qualquer outra parte. Afinal, somente ficarão expostos nas mesas de lançamentos por algumas semanas ou meses, quando muito. Pelo resto da eternidade, na estante, com todos os outros.
E como fazer seu livro se diferenciar somente pela lombada?
Blogs de Pessoas Mortas:
Outros Caminhos, de Alex Teixeira
As pessoas morrem, mas seus blogs continuam.
Alessandre Américo Teixeira, 31 anos, também conhecido na Internet como Alex Doido ou Alex Teixeira, criou o blog Outros Caminhos em junho de 2003: "Aqui é um lugar que criei para escrever, sobretudo para me divertir e divertir os amigos, nem sempre com idéias comuns... Estou cansado de não falar, não escrever, não expor meus pensamentos..."
Alex trabalhava como auxiliar em um escritório de comércio exterior de Santo André, no ABC Paulista, mas queria voar mais alto. Em agosto, ele decidiu "prestar vestibular no final do ano. Como cansei da minha profissão e quero mudar de ares, vou fazer Direito, (...) continuar em negócios internacionais, mas pelo lado legal."
Ao mesmo tempo, Alex tinha outros projetos. Um dos personagens constantes de seu blog é o livro que estava escrevendo. Já em julho, ele anuncia: "Estou radicalmente a fim de dar continuidade ao meu livro-mor."
Algumas vezes, Alex fala do livro com enfado:
"Eu ainda no marasmo que antecede boas coisas, tenho certeza disso. Nada de novidades, nada de nada... (...) O livro?!? Que livro?!? Não estou com paciência para livro, apenas coisas práticas estão me impregnando nesses dias. Acho que estou velho, mas não quero ser um velho chato, do tipo que incomoda todo mundo. Mas ainda tenho 31, e só fico velho daqui 1000 anos...tenho muito de juventude, só a cabeça está meio cansada...mas isso passa..."
Outras, com entusiasmo:
"Estou positivamente decidido a trabalhar com mais afinco. Walt Witman ficaria com inveja da minha disposição. Cansei de perambular pela net e no fim do dia não ter nada para mostrar para a Bia."
A esposa, Bia, administradora de um restaurante industrial, e os três filhos, Vitória, 11, Caio, 8 e Letícia, 6 anos, também são presenças constantes no blog do Alex:
"Como não tive pai fico me baseando naquilo que eu gostaria de ter como pai, assim posso ser para meus filhos aquilo que alguém poderia ter sido para mim. (...) Fazemos filhos para serem a continuidade de nosso DNA pelos séculos vindouros. Para serem a parte que falta em nossas conquistas."
Alex comenta que só de madrugada sente a tranqüilidade necessária para criar, mas que tem "um entrave chamado esposa... Ela não dorme se eu não estiver com ela, e acabo por deixar de lado o momento da criação e vou, placidamente, dormir com minha pequena."
Também não faltam as elucubrações filosóficas sobre a vida e a morte:
"Qual é a idade certa para se morrer?!? O que determina que uma pessoa viveu o suficiente?!? (...) Aproveitar a vida não está intrinsecamente ligado aos anos que se viveu. Não se determina uma boa vida pelos anos de passagem terrena. (...) Uma vida medíocre só é assim aos olhos dos outros, nunca aos olhos de quem está vivendo a mediocridade, que é um ponto de equilíbrio entre o banal e o perfeito. Quem sabe se viva melhor assim?!"
Aos poucos, Alex deixa transparecer problemas. Aumentos súbitos de pressão arterial, dores de cabeça muito fortes. Ele chega a ser internado brevemente "por algo que está acontecendo com minha pressão arterial...sinto que minha cabeça vai explodir, e não é nada agradável..."
Em agosto, vem um diagnóstico tranqüilizador: "Ontem o mistério foi desvendado, e minha doença é meramente cefaléia motivada por um stress imbecil...portanto, amigos que se preocupam, fiquem um pouco mais calmos...ainda estou mal, mas isso vai passar."
Infelizmente, não é só isso. Em 3 de setembro, a bomba: "Essa semana foi diagnosticado um tumor em meu cérebro, em uma região delicada. Não sabem ainda o que está alimentando esse tumor, nem se é benigno. (...) Tenho terror em pensar em ficar internado."
Depois disso, os posts começam a se espaçar mas a determinação de Alex em vencer o tumor e manter o blog é inabalável:
"Estou bem e tenho certeza de que assim permanecerei. Minha vontade de viver é maior que meu medo, e minha fé cresce a cada minuto. Não estou mais tendo tempo para postar (...) e isso me incomoda, não gosto de deixar as coisas pela metade, mas (...) estou deixando o pc cada vez mais de lado para estar com minha família. (...) Não irei detonar esse blog, mas vamos deixar as coisas assim, e eu vou escrevendo eventualmente..."
O último post é de 2 de outubro de 2003: "Resolvi mesmo ficar bem, sair já dessa situação besta e voltar a carga com minha vida, da maneira como tem que ser, com trabalho, vida, saúde, fé, esperança e paz."
Conversei com Bia, a esposa do Alex, e ela supriu as lacunas. Dois dias depois, com dores intensas e gastrite nervosa, ele foi internado pela primeira vez. Passou só uma noite no hospital, mas sua situação piorava bastante. Tentou passar o máximo de tempo com os filhos. Bia continua:
"No dia 12/10, domingo, ele até estava bem ficou o dia quase sem dores, se alimentou um pouco, mas no dia seguinte, quando cheguei do trabalho, ele estava com retenção urinária e tive que levá-lo até o hospital pra passar uma sonda de alívio, foi desde aí que ele não voltou mais pra casa, porque depois da sonda ser passada, quando voltamos até o consultório médico, ele teve uma crise convulsiva e a médica internou-o imediatamente. Então, ele foi internado no dia 13/10 por volta das 22hs e faleceu no dia 20/10, às 22:35hs. Foi uma semana certinho. e o que ele queria era ficar mais com a família..."
Hoje, o blog Outros Caminhos continua vivo, mantido pela Bia, honrando um dos últimos desejos de Alex:
"Assim, um dia, ele, o Ale, passou pela minha vida e eu aqui estou pra continuar aquilo que ele mais gostava, fazer amigos e escrever pra todos que aqui vem ler... Continuarei por aqui (...), tentando dar continuidade neste blog, que peço ajuda de todos aqueles que gostavam dele."
Eles iriam se casar no papel em 17 de janeiro desse ano, no aniversário de 10 anos de seu primeiro encontro. Foi em um ônibus, de madrugada, voltando do Hollywood Rock. Dois estranhos que sentaram juntos.
Alex completaria 32 anos em abril.
* * *
Ainda bem que a língua permite referência a autores falecidos no presente. Foi um grande consolo não ter precisado escrever esse texto inteiro no pretérito.
Semana que vem, outros blogs de pessoas mortas e considerações sobre o fenômeno.
Uma versão editada desse texto foi publicada na minha coluna Internet, na Tribuna da Imprensa, no dia 12 de março de 2004.
Agradecimentos à Bia, por ter conversado comigo, à Mitcha que, apesar de má bem do jeito que eu gosto, foi quem me indicou o blog do Alex, e à minha esposa, que foi quem me aturou na deprê que fiquei por escrever essa coluna.
José Murilo de Carvalho foi eleito para a ABL. Merecidamente.
José Murilo é um dos maiores especialistas brasileiros em Segundo Reinado. Suas duas obras-primas, A Construção da Ordem e Teatro das Sombras, praticamente moldaram nosso entendimento do período. Sua outra grande obra, Os Bestializados, é um retrato interessantíssimo do momento da Proclamação da República. Adorei também A Formação das Almas.
Minha área de maior interesse em História do Brasil sempre foi justamente o Segundo Reinado e suas guerras, em especial, a do Paraguai. Um dos motivos de minha transferência da PUC para a UFRJ foi para poder ter aulas com o José Murilo e/ou ser orientado por ele. Ironia das ironias, nunca consegui, em parte por problemas burocráticos, em parte porque ele passou minha graduação emprestado a uma universidade americana.
Muitos disseram que tive sorte. Que José Murilo era excelente autor, mas péssimo professor e orientador. Nunca saberei. Com ele, travei apenas breves conversas nos corredores do IFCS.
Curiosamente, apesar de tantas obras-primas, acho que seu melhor livro é Pontos e Bordados, uma coletânea de despretensiosas crônicas escritas para jornais.
Esses grandes homens, de vasta erudição e conhecimento enciclopédico, fazem mesmo valer todo seu diferencial é na hora de escrever textos simples, curtos e despretensiosos, nos quais utilizam toda sua cultura para mostrar novas perspectivas e criar conexões inesperadas.
Nesse ponto, José Murilo de Carvalho também é mestre.
"A comunicação por telefone celular tornou-se quase impossível entre 9h e o meio-dia devido à enorme quantidade de pessoas que buscavam contato com parentes ou amigos que utilizavam as linhas férreas atingidas. Membros das equipes de socorro contaram, impressionados, que celulares de várias vítimas tocaram quando seus corpos eram removidos para um necrotério improvisado num pavilhão de exposições."
Excelente artigo de Sílvio Ferraz, publicado na página de Opinião de O Globo de hoje:
"Enviar 1.300 soldados brasileiros para pacificar Port au Prince enquanto nosso país arde em revolução urbana sangrenta é, no mínimo, falta de sensibilidade. De Copacabana a Caxias, o mais populoso município da Baixada Fluminense, tudo é tiro, tudo é bala perdida. As vítimas inocentes, dezenas ao mês, e os reféns da bandidagem, os moradores das favelas cariocas, milhares. O Haiti não é problema nosso. Os presidentes Bush e Chirac que o resolvam. Nada temos com aquele desolado pedaço de ilha perdido no Caribe.
(...) No Haiti, a tropa brasileira irá policiar as ruas, protegendo os haitianos da violência do bando armado com antiquados fuzis. Os brasileiros ficam aqui mesmo, vítimas dos bandos de cá, muito mais modernos em armamento e ousadia.
O presidente Lula sabe, mas quer ignorar, que o Haiti é aqui. Seu próprio filho escapou do seqüestro em São Paulo e o segurança foi morto por bandidos. D. Marisa enviuvou do primeiro marido, honrado motorista de táxi, assassinado por ladrões. Enfim, o crime ronda o íntimo da família presidencial , como a de todos os brasileiros. Não é novidade.
Mas a condição de vítima não é o bastante. Precisamos de enérgicas providências. Tropas brasileiras têm que pacificar o nosso território, não o dos outros. A desculpa oficial para evitar soldados do Exército patrulhando as ruas contra o crime é a Constituição. As Forças Armadas são para a exclusiva defesa do território nacional contra agressões externas, respondem. E as cidades brasileiras não estão sendo atacadas? Seus moradores não estão sendo fuzilados? Há dias em que morrem mais brasileiros do que iraquianos, afegãos, ingleses ou americanos. Só que esses estão em guerra declarada, a nossa só falta declarar.
Presidente, não precisa ir longe para conhecer a realidade. Venha tomar um chope em Copacabana. Sozinho, deixe a segurança que o cerca para trás. É mais emocionante. Eu pago."
O Polzonoff fez um post muito interessante sobre Ötzi, o homem do gelo encontrado na Aústria. Pesquisas posteriores revelaram que Ötzi foi assassinado por uma flechada e que ele tinha esperma no ânus. Aliás, será que a flechada não poderia ter sido acidente de caça?
No texto, Polzonoff comenta esse tipo de "romance policial arqueológico". Mas o caso de Ötzi não é o único. Existe outro bem perto de nós.
Dom João VI, o melhor chefe de Estado que esse país já teve, morreu envenenado por uma dose cavalar de arsênico, em 1826, aos 59 anos de idade.
Vale a pena lembrar que a morte de Dom João teve conseqüências profundas. A herdeira do trono era D.Maria, filha do nosso Dom Pedro, ainda criança na época e o irmão de Dom Pedro, Dom Miguel, aproveitou-se da situação para tomar o trono. Resultado: Guerra Civil.
Dom Pedro, vendo que as coisas aqui não estavam bem pra ele depois de perder a Guerra da Cisplatina, cada vez mais impopular e rabugento, resolve abdicar do trono do Brasil, voltar para Portugal e combater ao lado da filha.
Usando o nome português de Dom Pedro IV, nosso ex-imperador conduziu uma guerra muito bem-sucedida contra os absolutistas liderados por seu irmão, colocou a filha firmemente no trono e morreu poucos meses depois da vitória, aos 35 anos de idade.
Dom João VI foi um monarca tolerante, ponderado e sábio. Em um das épocas mais difíceis da história européia, ele soube manter-se de cabeça tranqüila, preservou a independência de Portugal, manteve a amizade da Inglaterra e catapultou o Brasil à autonomia.
Não é de hoje que eu digo que o El País é um dos melhores jornais do mundo. Eu vou lá sempre, ler suas páginas de opinião e o noticiário internacional.
Hoje, nesse dia negro pra Espanha, eles estão dando uma aula de jornalismo.
Os seus infográficos, animados e clicáveis, e olha que eu odeio coisinhas animadas, me explicaram com clareza e concisão tudo o que aconteceu.
Os caras são tão fodas, mas tão fodas, que prevendo a fome de informações que os espanhóis teriam hoje, eles ainda abriram todo o site aos não-assinantes.
Ou seja, o dia de aproveitar pra ter aula de jornalismo com o El País é hoje.
Em tempo: a melhor notícia da situação é que os bancos de sangue, agora a tarde, precisaram pedir aos madrilenhos que parem de doar sangue, pois já não tem mais onde colocar. Isso é que é povo solidário.
Quando eu tinha onze anos, minha família estava com uma limusine alugada em Los Angeles. Foram todos bater perna na Rodeo Drive mas, como eu não tinha saco pra isso, mandaram a limusine dar voltas na cidade comigo. Passei pro banco da frente, para poder conversar com o motorista e aprender sobre a região.
De repente, me bateu uma vontade de vomitar e eu não consegui me fazer entender, nem pra ele encostar o carro, muito menos pra ele baixar a janela. Enquanto eu estava virado pra ele, tentando me comunicar, saiu o jato de vômito.
O homem, amarelo da cabeça aos pés, nem piscou. Encostou o carro do lado de uma lata de lixo, saiu, deu a volta, abriu a porta pra mim, me levou até a lixeira e me passou um lenço limpo. Enquanto eu acabava de vomitar, só então ele puxou outro lenço branco do bolso e começou a se limpar metodicamente, começando pelo rosto. Escorria vômito pela sua sobrancelha.
Ele não piscou, não suspirou, não reclamou, não fez tsc tsc. Nada. Sua fleuma era inabalável. Esperou eu acabar, me passou um outro lenço, abriu a porta pra mim, entrei, ele deu a volta no carro, entrou, e fomos encontrar meus pais. Ele explicou o acontecido com muita educação e disse que já tinha mandado vir um carro limpo. Em poucos minutos, o carro novo, com motorista também limpo, chegou e o meu herói vomitado sumiu da minha vida para sempre.
O Banheiro É Só para Clientes
A La Mole e a C&A podem até vender comida e roupas, mas o que o Enotria e o Sofitel vendem é o "experience", é a satisfação do momento. Você paga o preço de um Sofitel para que nada dê errado, para não ser incomodado, para que todos os detalhes estejam absolutamente impecáveis, para saber que tem alguém cuidando de literalmente tudo para você.
Quando você pede pra usar o banheiro do Mab's, um daqueles restaurantes típicos da praia de Copacabana, o garçom pergunta rudemente: "Você é cliente?!". Ele faz isso porque sabe que, se você for cliente, você vai apontar pra sua mesa, dizer "Sou, estou sentado ali, ó", e pronto. E, se não for, vai botar o rabo entre as pernas e ir embora.
Se você atravessar a rua e fizer a mesma brincadeira no Meridien, ninguém vai falar nada. Podem ir lá testar. Por quê?
Antes de tudo, a equipe do hotel nunca tem certeza absoluta de quem é hóspede e quem não é. Ou de quem não é hóspede, mas é convidado do hóspede. Eles sabem que se lhe perguntarem "Você está hospedado aqui?" e você estiver, eles podem até ser despedidos. Imagine a repercussão! O hóspede vai voltar pra sua terra e comentar com seus ricos e influentes amigos que, no Meridien no Rio, ele não podia nem usar o banheiro do saguão sem ser interpelado e ter que se identificar. Que pobreza, hein? Vamos ficar no Copa, então?
Melhor deixar dezenas de penetras usarem o banheiro do que se arriscar a estragar a satisfação de um único hóspede.
Mais ainda, mesmo que tenham certeza que você não é hóspede, se você estiver simplesmente usando o banheiro, sentado no saguão ou mesmo nas cadeiras da piscina e não estiver incomodando ninguém, ou tirando lugar de um hóspede, a gerência vai deixar passar.
Pra começar, se você está lá com essa fleuma toda (e fleuma é a palavra), é porque você não é *deus me livre* pobre, pois pobres têm medo de entrar em lugares como esse. Se não é pobre, então é cliente em potencial, melhor deixar correr.
Por fim, mesmo que você seja quem for, um bom profissional do turismo sabe que quando se aborda uma pessoa para que ela se retire, bem, tudo pode acontecer. Ela pode dar um escândalo, ela pode nem mesmo falar a sua língua, ela pode ficar violenta. Pior, pode ser que os seguranças precisem vir ajudar. Cruz credo, pode ser até que tenham que chamar a polícia!
A equipe do hotel pode até te observar de longe, mas se você não incomodar ninguém, eles provavelmente não vão querer arriscar o escândalo de te incomodar.
Pode até ser que você pegue um concierge mais brigão que queira te colocar pra fora, mas as chances de isso acontecer são pequenas. Essas pessoas até existem, mas duram pouco nesse tipo de emprego.
(amanhã... conclusão... não ter medo do escândalo... temor reverencial...)
BRASÍLIA - Um dos 35 ministérios de Lula é a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. Muita gente sabe quem são José Dirceu e seu ex-assessor Waldomiro Diniz. Poucos têm idéia de quem dirige o "ministério da mulher", o que é e o que faz essa pasta. É quase irrelevante. Ali, a atividade principal tem sido a inação afirmativa.
No primeiro ano do PT no Palácio do Planalto, a cadeira foi ocupada pela ex-senadora Emília Fernandes. Agora, está com Nilcéia Freire. Anteontem à noite, a ministra participou de um evento público -o lançamento de um filme, "Benjamim", da diretora Monique Gardenberg. Distribuiu-se um folheto com as realizações (sic) da pasta. A primeira frase: "A Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres foi criada no primeiro dia do governo Luiz Inácio Lula da Silva para reafirmar o compromisso com as mulheres". OK. O que foi realizado? No opúsculo oferecido ao público só há um item: "Foi sancionada a lei nº 10.745/03, que instituiu 2004 como ano da mulher no Brasil". Gastou-se um ano para fazer do ano seguinte o ano da mulher. OK. E agora?
O próximo passo será realizar, em julho deste ano, a "1ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres - Políticas para as Mulheres: Um Desafio para a Igualdade numa Perspectiva de Gênero". Tudo bem. Vamos debater a "perspectiva de gênero". Mas depois de um ano e meio o governo Lula terá então sua política para esse novo (sic) ministério, certo? Não, calma, não tão rápido. Segundo o panfleto da ministra, as "resoluções" da conferência "serão apresentadas no dia 25 de novembro de 2004 (...), fechando as atividades do ano da mulher no Brasil". Somos informados, portanto, de que no "ministério da mulher" o ano tem menos de 11 meses (termina em 25 de novembro) e será usado para pensar no que fazer no ano seguinte.
Como se diz, de tanto olhar para o abismo alguns acabam pulando. O governo Lula, de tanto não fazer nada, nada acabará fazendo.
Minha mulher vem de família pobre (quase disse humilde, mas odeio eufemismos) e ainda tem alguns pudores de pobre. Eu venho bravamente tentando extirpá-los. Não é fácil, até que porque, hoje, somos de fato pobríssimos. O que eu tento ensiná-la é que não termos dinheiro nem pra pagar os 10 reais da conta de gás não é motivo para nos comportarmos como se fôssemos pobres.
Não somos pobres, estamos pobres.
O Banheiro do Sofitel
Outro dia, andando pela praia de Copacabana, ela queria muito ir ao banheiro. Mulheres sempre querem ir ao banheiro. Parece que suas bexigas são do tamanho de uma noz. Sugeri usar o banheiro do Sofitel Rio Palace onde eu, em outras épocas, já me hospedara na suíte presidencial pra ver os fogos de ano-novo.
Nada disso. Bateram os pudores de pobre. Ela teve vergonha, receios, palpitações. Preferia ir em um daqueles postos imundos da praia ou em algum dos ainda mais imundos restaurantes da Atlântica.
Para alguém que nunca entrou em um hotel de altíssimo luxo, o Sofitel realmente parece imponente e ameaçador. Para quem conhece os melhores hotéis do mundo, o Sofitel é apenas um cinco estrelas local que, se estivesse no primeiro mundo, talvez não chegasse nem a quatro.
As pessoas têm uma idéia estranha de que se entrarem nos melhores ambientes, hotéis e restaurantes de luxo, vão ser chamadas atenção, seguranças engravatados e de óculos escuros vão perguntar o que estão fazendo por lá, quem pensam que são para entrar no Sofitel Rio Palace? Fora daqui, intruso!
Nada, nada mesmo, pode ser mais distante da verdade.
Consumidores Humildes
Você entra na C&A, ou vai comer no La Mole, ou tenta fazer um crediário nas Casas Bahia, e há uma série de restrições que você tem que obedecer. Os funcionários não fazem muita questão de lhe agradar - especialmente se isso entrar em conflito com as draconianas regras do estabelecimento. A fila é só aqui, não aceitamos esse método de pagamento, os pratos não podem ser modificados, reclamações e trocas só na matriz. Arre!
Realmente, já fui muito interpelado pela segurança e chamado atenção, mas só nesses estabelecimentos comerciais para pessoas de baixa renda (leia-se lugar de pobre) que tenho que freqüentar hoje em dia. Minha mulher diz que não sei me comportar, e é verdade: não sei me comportar como gado.
Parece que esses lugares foram desenvolvidos especialmente levando em conta a baixa auto-estima dos seus clientes, como se a loja estivesse fazendo um grande favor de deixar essa gentinha humilde gastar seu dinheiro ali. Como a minha auto-confiança é tão inflacionada que nem todos os golpes da vida conseguiriam me deixar humilde desse jeito, meu comportamente realmente destoa do esperado. Os seguranças fazem mesmo bem em me pedir para me retirar, pra eu não dar idéia aos outros clientes bem-comportados.
Por outro lado, mal consigo imaginar o que alguém teria que fazer no Enotria, ou na Daslu, pra ser chamado atenção. Dependendo do cliente, acho que ele pode até bater no garçom e nada acontece. O maitre faz um sinal lá detrás pro garçom aguentar firme e não revidar, dá um gorjetão depois e fica tudo por isso mesmo.
(amanhã... a fleuma de um motorista de limusine... o banheiro é só pra clientes, e agora?)
Quem mais vai no lançamento do livro do Soares Silva amanhã? Por enquanto, confirmaram a Dani, a Cris, o Saint-Clair e, talvez, o Igor. E o resto dos leitores? Apareçam!
Quando eu estava montando minha empresa, decidi fazer um MBA intensivo por conta própria. Fui para a Barnes & Noble da 5ª com 50 e fiquei lá por sete horas. Folheei todos os livros das seções de business, marketing, internet, etc. Li as orelhas, quarta capas, introduções e conclusões. Eliminei a grande maioria. Saí de lá com 300 dólares em livros. Um dos melhores investimentos que já fiz.
Dois livros me marcaram especialmente: Motivational Management, de Thad Green, e 1001 Ways to Reward Employees, de Bob Nelson. Eles me ensinaram uma lição que muitos de vocês vão achar bobinha, ou óbvia, mas que eu precisava aprender.
Sou uma pessoa ativa, energética, dominadora. Gosto de responsabilidades e desafios. Tenho espírito de liderança demais pro meu próprio bem. Na escola e na vida, todos meus amigos e companheiros sempre foram, também, pessoas fortes. Literalmente, eu fui educado para pensar que o mundo era meu, que não havia nada que eu não pudesse atingir. Meio que como Kerry e Bush, no artigo do New York Times citado abaixo.
Em um dos episódios de Star Trek, o Capitão Kirk reconta as Guerras Eugênicas do século XXI. A ciência havia criado homens geneticamente perfeitos, inteligentes, fortes, resistentes. O problema é que eles se sabiam perfeitos e tinham ambições à altura. Prontamente, começaram a guerrear um contra o outro pelo controle do mundo.
Em geral, quem tem o dom, tem a ambição correspondente. O perna-de-pau do XV de Limeira sabe que nunca será Pelé.
Administradores, gerentes, empresários, gente que se dispõe a embarcar na aventura empresarial, em geral têm ambição, determinação e espírito de liderança acima da média. E, por isso mesmo, para essas pessoas é às vezes difícil lidar com quem não é assim. E nem todo mundo é assim.
O autor de Motivational Management conta a história de uma funcionária insegura e incompetente. Ao conversar com ela para tentar resolver o problema, ele acabou descobrindo que ela havia sido humilhada pelos pais a vida inteira. Sempre que tentava fazer alguma coisa, atingir algum objetivo, suas ambições eram achapadas: você não vai conseguir, você é uma idiota, você nunca faz nada direito, sua burra! Até aquela época, ela com 61 anos e a mãe com mais de 80, sendo sustentada por ela!, a mãe ainda dizia regularmente que a filha não prestava pra nada. Com o passar dos anos, acreditou.
O comentário seguinte do autor poderia ser meu:
"Porque cresci em uma família de pessoas fortes e confiantes, que moldaram minha auto-confiança, eu sempre achei que todo mundo tinha crescido num ambiente assim e também tinham a auto-confiança para enfrentar praticamente qualquer coisa."
Tão óbvio e tão complexo.
Se não por humanidade ao menos por produtividade, cabe ao patrão suprir essa deficiência de auto-confiança que muitos empregados têm. Cabe ao patrão sentar ao lado do empregado e convencê-lo que sim, ele pode fazer o serviço, ele tem capacidade e você confia nele para fazê-lo.
Naturalmente, não só do chefe, mas do pai, do amigo, do professor.
Os homens perfeitos da ciência eugênica do pretenso século XXI só eram perfeitos pois foram feitos assim. E nós também temos o poder de fazer a mesma coisas pelas pessoas que estão ao nosso alcance.
* * *
Antes de acabar, eu queria dizer que odiei esse artigo, fiquei parecendo um Paulo Coelho da vida, dando lições de moral e aconselhando todos a se amarem e se ajudarem, blá blá blá. Quase não publico. Ele só faz sentido se inserido ao lado dos outros posts sobre riqueza e pobreza. Os ricos não são, de modo algum, melhores do que os pobres, a não ser por já serem inoculados de auto-confiança, o que faz, obviamente, toda a diferença do mundo.
* * *
A Te, que comenta sempre aqui no blog, foi minha funcionária nessa época. A maior prova de que sou um bom chefe é que ela é gata, nós éramos solteiros, e eu nunca dei em cima dela. Só depois, claro.
Perguntem pra ela que tipo de chefe eu fui, mas perguntem em privado, por favor, para que eu ainda possa me agarrar a algumas ilusões na minha vida.
Pode algo ser mais belo e cruel do que um pé de mulher pisando no pobre coração de um homem? Indiferente, altiva e superior, ela pisa no amor que lhe oferecem, despreza a adoração que lhe dedicam, ignora a homenagem que lhe prestam... E pisa forte. Sem pena.
A leitora Cris me mandou o seguinte email, no qual reclama do título do meu livro:
"Li o seu romance. Mais do que isso: não consegui parar de ler o seu romance! Li e pensei: agora preciso escrever pra ele. Mas, escrever o quê? Dizer que gostei que achei instigante, envolvente, bem escrito, apaixonante? Não. Clichê demais. Quem sabe um grande comentário academicóide, cheio de considerações sobre estilos e linguagem? Também não. Estou sem saco.
Daí pensei... e resolvi que vou te escrever pra te dizer que não gostei do título. Isso mesmo: não gostei do título! Não leve a mal, não é pessoal, só estou pensando no marketing,afinal, como apocalíticos infelizmente integrados a esse capitalismo selvagem, sempre acabamos pensando no tal do marketing.
Fiquei me imaginando entrando na Letras e Espressões às duas da manhã de uma terça-feira ociosa e insone procurando a minha presa literária a ser devorada na noite e lá está seu livro "Mulher de um homem só"... e eu: "Putz! isso tá com maior pinta de novela mexicana"...e pronto, lá se vai a minha chance de ter orgasmos literários naquela noite..."
Cris, muito obrigado pelos elogios. Fico feliz de ter lhe proporcionado orgamos literários. Existem outros tipos, aliás, mas falemos deles em privado.
Quanto ao título, o primeiro iria ser Uti Possidetis, um termo latino, mas ficaria muito academicóide, não combinaria com a Carla. Uma segunda opção foi Usucapião, que nada mais é do que Uti Possidetis em português. Mas também fica um palavra estranha demais, apesar de ter absolutamente tudo a ver com o romance.
Fechei em Mulher de Um Homem Só por ser chamativo (talvez mexicano?), também ter tudo a ver com a história e ser fácil de lembrar.
Mais ainda, Mulher de Um Homem Só, assim como o livro, é um título que parece simples, mas que possui múltiplas camadas. Que eu possa ver (óbvio que eu não conto), há no mínimo três maneiras diferentes de se entender o título.
Vocês conseguem ver as três?
E você, que gosta desse blog, vem aqui sempre, mas ainda não leu o romance, não acha que já está na hora, não? Você pode fazer o download em versão para imprimir ou para ler na tela.
"Você poderá receber um aparente inofensivo e-mail anexado com uma apresentação do Power Point intitulada "Life is beautiful.pps". Se você receber "NÃO ABRA SOB NENHUMA CIRCUNSTÂNCIA" e apague-o imediatamente."
Confesso que fico embasbacado.
Como eu disse antes, a maneira mais segura de não pegar vírus é simplesmente não abrindo esses arquivos suspeitos, assim como a maneira mais segura de não pegar AIDS é não transando. A diferença, claro, é que ficar sem transar é muito mais difícil do que ficar sem abrir arquivos idiotas.
Agora, vamos lá, fala sério. Precisava avisar? Por que cargas d'água alguém abriria um arquivo altamente suspeito chamado Life is beautiful.pps? Essa pessoa merece ou não perder todos os dados do seu HD? É uma questão de puro darwinismo internético.
Daqui a pouco vão me mandar emails avisando: "Se você encontrar um pirulito meio chupado na rua, NÃO LAMBA SOB NENHUMA CIRCUNSTÂNCIA! Ele pode fazer mal!"
Morreu, falido aos 88 anos, Jorginho Guinle. Uma de suas melhores frases era: "Planejei gastar para viver até os 80. Já estou com 87 e me ferrei."
Jorginho Guinle estava certíssimo. Daqui nada se leva. Se ele tivesse somente mais 40 mil dólares, valia mais a pena tê-los gasto na véspera comprando um carro pra dar uma volta pela Atlântica do que morrer e deixar os 40 mil pros herdeiros.
Aliás, Jorginho é o maior exemplo de que herdeiro é mesmo uma raça de inútil.
Sei como ele se sentia. Também venho de família rica. Na minha infância, tínhamos Porshes e BMWs, viajávamos vários meses por ano para a Europa (de primeira classe, claro) e, só na minha casa, eram mais de 10 empregados. Depois, foram-se todos os anéis e sobraram só os dedos. Os dedos, as fotos, as baixelas de prata, as amizades, a cultura adquirida, o elan, o aplomb, a fleuma, a finesse, etc. Enfim.
Dizem que foda adiada é foda perdida. Pois dinheiro poupado também. Um dia a gente morre e aqueles dez reais que sejam que ficaram no banco teriam comprado mais um Kir à beira da piscina.
A lição mais importante que ex-milionários como Jorginho Guinle nos ensinam é que estar pobre é bem diferente de ser pobre.
Quem já andou de limusine, se hospedou nos melhores hotéis e comeu das melhores comidas tem uma noção da sua própria importância que as porradas da vida simplesmente não apagam. Quem já foi milionário nunca terá aquela humildade natural e pragmática de quem sempre foi pobre.
Quem já foi rico de verdade pode até estar pobre, sem dinheiro algum, almoçando de favor na casa dos amigos e remendando roupa, mas nunca será pobre.
O Amigo Milionário
Eu tinha um amigo milionário. Assim como Jorginho, também era herdeiro, nunca trabalhou e morreu sem um tostão. Morava na cobertura do meu prédio, onde ele, por falta do que fazer, era síndico.
O cara detestava dirigir e não queria ter carro, pra não se estressar com documentação, seguro, consertos, etc. Ele contratou uma empresa de rádio-táxi para que mantivesse um carro, a disposição dele, 24 horas por dia, na portaria do seu prédio. Pronto. Se a empresa de táxi fosse deixar sempre o mesmo carro ali embaixo, ou fazer rodízio, se fossem ser dois turnos de 12 horas ou quatro turnos de 6 horas, ele não queria saber. Se um carro quebrasse, que mandassem outro. Ele só sabia que tinha dinheiro que não acabava mais e que não queria se aporrinhar.
A pergunta: esse homem vivia fora da realidade?
Pra começar, que realidade, cara-pálida? Existe só uma realidade? Ou será que existe uma realidade certa e outras tantas realidades erradas? Se sim, quem decide qual é a certa e qual são as erradas?
Realidade é que nem cu, cada um tem o seu. O mendigo que passa fome nas ruas de Recife está tão fora da realidade do meu amigo quanto meu amigo está fora da realidade do mendigo.
Por que ninguém acusa o mendigo de estar fora da realidade? De que modo a experiência de catar restos de comida em latas de lixo e dormir ao relento é mais real do que ir ao coquetel de um pintor famoso e depois pegar o concorde pra Paris? Pior, claro. Mais lamentável, com certeza. Mas "mais real"? Por quê?
Será que existe uma escala de realidade e ninguém me avisou? Qual é a medida? Sacos de pitombas? A realidade do meu amigo atingiu 3 graus na escala saco de pitombas; a do mendigo do Recife, 8 graus. Logo, a realidade do mendigo é mais real que a do meu amigo. É isso?
Qual das duas realidades ganha? Existe uma que é certa? Por que ninguém nunca fala que alguém está dentro da realidade? Isso quer dizer alguma coisa?
Um conselho: se alguém, algum dia, acusá-lo de viver fora da realidade, em geral é porque você está se divertindo demais. Mande-os todos à merda e continue a fazer o que estava fazendo.
As realidades são muitas, todas igualmente válidas. Cada um vive a realidade que pode. Meu amigo tinha lá seus muitos defeitos, mas estava vivendo a realidade dele, a realidade em que nasceu, uma realidade que é tão válida quanto qualquer outra. Dizer que ele vivia fora da realidade é dizer que a vida dele não era válida.
Mas era pra ele fazer o quê? Doar tudo pra caridade e entrar pra um mosteiro? Ou então qual é o problema? É que ele está gastando muito? Era pra ele gastar quanto? Quem é que determina esse limite? Se ele gastar até vinte mil por mês (do próprio dinheiro, claro), então ele vive NA realidade, se gastar mais que isso, ele vive fora da realidade? Como funciona essa regra? Será que tem uma escala também (sacos de pitombas? narjaras-turetas?) e esqueceram de me avisar?
O New York Times publicou no sábado, e O Globo reproduziu na segunda, um artigo de David Brooks sobre as semelhanças entre Bush e Kerry, especialmente o fato de ambos serem representantes da mais alta elite da Nova Inglaterra.
Não sei por quanto tempo os links estarão válidos, então leiam logo.
Meu trecho preferido:
"The anthropologist Lionel Tiger points out that in many primate communities, the offspring of high-status females are immediately accorded membership in the troop's elite. Tiger points out that politics is a visceral business. It's a tremendous advantage to have been instilled with the habit of self-assertion since infancy. If you can project a physiological comfort with power, others around you will begin to accept your sense of self-worth. There aren't too many normal people waking up in normal suburban split-levels assuming they should rule the world. But God bless the upper class. They've lost their legitimacy, but they haven't lost their self-confidence."
"O antropólogo Lionel Tiger revela que em muitas comunidades primatas, os filhotes de fêmeas que gozam certos privilégios no grupo são imediatamente aceitos como membros no grupo de elite. Tiger sublinha que a política é um negócio visceral. É uma enorme vantagem ter sido inoculado com o hábito da autoconfiança desde a infância. Se se pode projetar um conforto físico com o poder, os outros que estão ao seu redor começarão a aceitar seu senso de auto-avaliação. Não existem muitas pessoas normais despertando em bairros normais assumindo que eles deveriam governar o mundo. Mas Deus abençoa a elite. Eles perderam a sua legitimidade, mas eles não perderam a sua autoconfiança."
Links Relacionados Clash of Titans - Publicado no sábado, 6 de março de 2004, no New York Times
Duelo de Titãs - Reproduzido em O Globo, de 8 de março de 2004
Quinta-feira, 11 de março, às 19hs, no Café com Letras, do Leblon, será o lançamento de Morte e Vida Celestina, do colega Alexandre Soares Silva.
O Alexandre é um dos melhores escritores da nossa geração (ou seja, são dois Alexandres entre os grandes escritores dessa geração) e eu vou estar lá com certeza.
Convido os leitores do Rio a aparecerem também, senão pelo Alexandre, por mim. Como não costumo perguntar localizações geográficas, nem sei quem é do Rio ou não, mas venham, quero conhecer vocês.
A Danicast vai estar no Rio. Saint Clair, apareça também. Vou tentar arrastar a Tata, do Kit Básico, e as meninas do Elas por Elas. Julia Lennon, que me arranjou a coluna na Tribuna, eu quero te conhecer!
A questão do aborto é uma das mais polêmicas da nossa época. Talvez seja a questão que vai definir o nosso tempo. Sempre que encontro um brasileiro do século XIX, eu me me pergunto: será que ele era contra ou a favor da escravidão? Como será que ele se posicionou?
Reconheço os enormes méritos de cada lado. Não é uma questão fácil ou objetiva. Dezenas de variáveis científicas, culturais e religiosas estão em disputa - simultaneamente.
Quase todos os meus amigos, liberais, seculares, cosmopolitas, politicamente corretos e prafrentex, são a favor do aborto por princípio e por agremiação. Dizem que é só um procedimento médico e pronto.
Como se impedir uma pessoa de existir fosse equivalente a arrancar um dente para impedi-lo de apodrecer. Simplesmente se negam a considerar qualquer aspecto filosófico da coisa.
Eu os respeitaria mais se tivessem a coragem de encarar esse aspecto e rejeitá-lo. Mas não. Acho que têm medo das implicações de andar por esse caminho. Têm medo de serem obrigados a concordar com aquela nada agradável turminha que luta contra o aborto, a nefanda direita religiosa.
Ninguém defende mais a liberdade do que eu. Mas acho que a ninguém deve ter a liberdade de matar ou impedir outra pessoa de existir. Se ainda existe um debate científico válido sobre o que é vida e quando ela de fato começa, então acho que devíamos errar em favor da vida, não em favor da escolha. Pelo menos, por enquanto.
Não vou entrar nos méritos e argumentos pró e contra cada lado. Muita gente boa e honesta tem muita coisa relevante e instigante pra dizer tanto pró-vida quanto pró-escolha. Minha cabeça chega a girar e não são muitas questões que me deixam assim mexido.
Sou ateu, mas reconheço que até mesmo os argumento religiosos são válidos, pelo menos intrinsicamente, pois a pessoa não pode acreditar em alma e vida após a morte e não aplicar esses conceitos à polêmica.
O aborto é uma questão complexa. É uma questão feminina, sim, mas também é uma questão religiosa, uma questão filosófica, um questão legal, uma questão cultural e, mais ainda, uma questão de vida e morte que deve ser debatida pela sociedade como um todo.
Por isso, só há um único argumento nessa história que considero absolutamente imbecil, mesquinho, indefensável e chauvinista: dizer que homem não tem nada a ver com isso.
Ora essa, homens só não teriam nada a ver com o aborto se as mulheres só abortassem meninas.
Aliás, pensando bem, nem assim, pois mesmo as meninas têm pais e os pais têm o direito de decidir sobre a vida e o destino de seus filhos. Ambos os pais.
Senão, daqui a pouco vão dizer que um homicídio cometido por mulher, cuja vítima seja mulher, não pode ser investigado por um homem.
Você não tem nada a ver com isso, Sargento Valadão. Considere-se fora do caso!
* * *
Idéia para romance: mulher quer abortar, marido/companheiro/namorado quer criar o filho, nem que seja sozinho, ambos estão morando em um país que permite o aborto, pai entra na justiça para tentar proteger preventivamente a vida do filho, etc etc. Pergunta: é melhor serem marido e mulher em relação estável ou namorados casuais? Assim nascem os romances. Eu só não escrevo pois se tornaria um romance político e ideológico.
De vez em quando, os leitores reclamam que ignoro ou não respondo comentários.
Sobre isso, eu só posso dizer: vão chorar na cama que é lugar quente.
Esse blog tem milhares de pageviews e poucas dezenas de comentários. Uma proporção de 40 pra 1, pra quem quiser saber. Vocês me vêem reclamar?
O fato de eu não responder um comentário não quer dizer que ele foi ignorado. O Comentar me envia um email cada vez que alguém comenta. Então, eu leio todos os comentários, mesmo quando alguém comenta um post de seis meses atrás. Nenhum é ignorado.
Tenho o maior carinho por qualquer um que se dê ao trabalho de opinar sobre meus artigos. Tenho menos carinho por quem me faz cobranças - mesmo se tiverem razão.
Se eu não respondo comentários, via de regra, é porque não tenho mais nada a acrescentar. Meus posts são enormes, caso vocês não tenham reparado, e eles sempre esgotam o que eu tenho a dizer sobre o assunto.
Muitas vezes, a pergunta já foi respondida no próprio texto, o comentador é que não leu direito.
Os comentários que eu menos respondo, aliás, são os com que eu mais concordo. Odeio abrir uma caixa de comentários, ou uma página de fórum, e ler um ou dois comentários de fato e duas dúzias de isso aí, apoiado, muito bem, etc etc.
Voltem e recomendem aos amigos. O elogio que eu quero é esse.
Outros leitores me elogiam pela atmosfera de liberdade que reina nos comentários. Bem, por isso mesmo, são muitos comentários, uma média de trinta por dia, em fevereiro. Se eu fosse escrever trinta respostas, não tinha mais post no dia seguinte.
Por fim, não consigo escrever pouco. Frequentemente, eu começo a escrever um comentário e o desgraçado fica tão grande que vira post.
Fiquei muito decepcionado com meus leitores essa semana.
Fiz aquele post todo polêmico sobre a hora do nascimento, tocando apenas tangencialmente na questão do aborto e deixando bem claro que não queria criar um debate sobre esse tema.
Aí, sentei pra observar o barraco... E nada! Vocês comentaram o post com calma, maturidade e civilidade.
Resultado: tive que ir me divertir assistindo o Wagner Montes.
Estava conversando com o agente literário Alexandre Carlos Teixeira, da Solombra Books e Alexandre defendeu que a imprensa divulgasse listas dos mais vendidos de literatura brasileira. Hoje em dia, já existem várias subdivisões: auto-ajuda, esotéricos, infanto-juvenil, não-ficção, etc. Por que não literatura brasileira?
Seria bom, é verdade, mas, convenhamos, não é uma necessidade premente.
Em lista divulgada essa semana pelo O Globo, dos dez livros de ficção mais vendidos sete são brasileiros, um número respeitável.
E não estamos falando de subliteratura. Seria diferente se esses sete livros mais vendidos fossem romances policiais ou thrillers requentados de espionagem.
Com raras e honrosas exceções, os nomes que aparecem na lista dos mais vendidos de ficção são escritores de literatura com L maiúsculo. Na lista de hoje, estão Veríssimo, Luft, Cony, Buarque. Acho o Chico um autor sofrível, por exemplo, mas não dá pra negar que o que ele faz (ou tenta fazer) é literatura. Outras figurinhas constantes são Rubem Fonseca, Patrícia Mello, João Ubaldo Ribeiro e outros. E ainda há as figurinhas polêmicas, como Paulo Coelho e Mário Prata.
Em meu artigo Em Defesa da Língua Portuguesa, , eu abordei essa força da cultura brasileira. Os xenófobos e paranóicos de plantão vivem dizendo que nossa cultura precisa ser defendida, como se ela fosse uma cultura fraca, coitadinha, na defensiva.
Mas a cultura brasileira é surpreendentemente forte e rica. Somos um dos países do mundo que mais consome sua própria cultura.
Em termos culturais, não precisamos ter medo de ninguém.
Lá pelas tantas, o Pablo, vulgo Dr. Plausível, vulgo Permafrost, defendeu que alguns escritores tinham sorte e outros não. Ao que a Chris, que também comentou meu romance, respondeu: "Êpa!!! Escritor (ou o artista em geral) não tem sorte, tem talento. E isso não é para qq um. Não se aprende na escola. Nascemos com ou sem ele."
O Pablo prometeu uma resposta mais longa e ponderada e, hoje, cumpriu: está lá no seu blog Dois Panacas Conversando.
Ter Sorte
Eu acredito em sorte. Aliás, só um ateu pode realmente acreditar em sorte. Quem vive em um universo regido por alguma inteligência superior sempre acaba achando que suas sortes são bençãos e seus azares, castigos.
Napoleão exigia que seus generais tivessem sorte. Alguns argumentavam que isso era injusto, pois estava fora de seu controle, ao que Napoleão replicava: pois também exijo que meus generais tenham saúde e inteligência, coisas tão fora de seu controle quanto ter sorte.
Sorte ou se tem ou não se tem. Sorte é uma combinação delicada de diversos fatores, desde se preparar para a hora certa, incluindo saber estar no lugar certo na hora certa até a capacidade de não estragar tudo quando a hora certa chegar.
Adoro gamão e odeio xadrez. Xadrez me parece um jogo pasteurizado demais, o ambiente é controlado e previsível, não há espaço para o imponderável.
Já gamão é como a vida. Saber jogar e não ter sorte não adianta nada. Ter sorte e não saber o que fazer com ela adianta menos ainda.
Ter tudo, conhecimento, talento, saúde, contatos, e não ter sorte é a pior piada que o destino pode pregar a uma pessoa.
Visões Deterministas da Arte
Por mais que eu concorde com a questão da sorte, discordo das conclusões principais do Pablo. Por exemplo:
"No caso do escritor, ele leva a fama de criador qdo na verdade a maior parte do tempo não é mais q um descobridor, um cavador de acasos na prisão cavernosa da língua q usa. A diferença entre os escritores é q alguns têm mais sorte, outros têm menos. Por exemplo, vc agora estaria usando praticamente os mesmos termos pra elogiar algum outro autor, se Górki tivesse escorregado numa laranja aos 12 anos e sofrido uma lesãozinha na área de Brocca. Ou seja, falar de "dever do escritor" é uma conversa totalmente desprovida de sentido. E aqui entro em outro assunto, q é a necessidade de ter padrões: o público vê padrões como o olho vê figuras nas nuvens. Qqer q fosse sua história de leituras, vc teria preferências, e estas têm menos a ver c/ as qualidades intrínsecas dos escritores q c/ a sua tendência a ver golfinhos no céu."
"O monstro original era a visão política, histórica, sociológica da literatura - literatura como descrição da luta de classes. (...) Para Bielinski, (...) a arte melhor e menos adulterada era necessariamente a expressão não apenas do artista, mas sempre de um meio, uma cultura e uma nação, cuja voz, consciente ou não, era o artista. Sem essa função, ele se tornaria banal e inútil, e somente nesse contexto sua personalidade teria qualquer significado".
Acreditar nisso corresponde a acreditar que Jorge Luis Borges, crescendo no bairro pobre de Palermo, foi um produto de Palermo; que Palermo falou através de sua boca, como o Faubourg Saint-Germain supostamente falou pela boca de Proust."
Pablo, rejeito totalmente essa visão determinista e coletivista tanto da História quanto, mais ainda, da Arte. Um único indíviduo pode fazer a diferença sim. Os indivíduos podem transcender sua criação, sua experiência e sua cultura sim.
Os Caçadores de Mamute
Concordo que é preciso ter sorte para nascer na época certa, não ser atropelado aos oito anos e ter acesso ao seu talento. Esse processo aleatório e perverso com certeza elimina muitos dos possíveis Newtons e Shakespeares.
Eu também, às vezes, me pergunto quantos gênios da infórmatica morreram nas Cruzadas ou quantos excelentes caçadores de mamute desperdiçam sua vida programando em perl. Quantos Mozarts nunca conhecemos somente porque nunca tiveram acesso à instrumentos musicais?
Mas, independente de quantos fiquem para trás, é grande o número de competidores que conseguirão passar pelas eliminatórias e disputar, de fato, o grande prêmio. Nessa hora, e em muitas outras, o talento vai ser o critério decisivo.
Essa foi uma semana de muitos aniversários importantes. Primeiro, o Rio, no dia 1º. Depois, esse blog, no dia 4. Teve até o aniversário da minha chefa, que eu amo, também no dia 4. Além disso, como encontramos o Oliver na rua em março de 2003, convencionamos que seu aniversário será em março.
Mas o aniversário mais importante do mês é hoje.
Minha mais amada faz 26 anos. (quem já deu parabéns no dia 1º de março, não precisa mais!)
Eu sempre me considerei irascível, individualista e egoísta, completamente insuportável para convívios extensos e fadado (não estou reclamando!) a ser solteiro pra sempre.
Ela provou que eu estava errado. A Di me ensinou coisas que nunca imaginei que aprenderia, me amou como jamais fui amado e me ensinou a amar como jamais amei.
Por um lado, ela me mostrou que é possível alguém querer ficar com um mala como eu. Por outro, como ela também é insuportável, ela me fez descobrir, para minha agradável surpresa, que sou muito mais paciente, tolerante e maduro do que eu imaginava.
O meu chute no balde e meu subsequente processo de libertação foram realizados com seu total apoio. Não seria qualquer uma que viria do norte para casar com um próspero empresário e aceitaria, no meio do caminho, tornar-se esposa de um professor de inglês part-time.
A gente se conheceu em outubro de 2000, nos apaixonamos em janeiro de 2001, já estávamos morando juntos em setembro do mesmo ano e nos casamos no papel em maio de 2003.
As pessoas às vezes me perguntam o que eu faço. Ora, eu faço de tudo.
Quem tem só uma fonte de renda está sempre inseguro. O chefe acorda de mau humor e pimba, lá se vai toda sua renda pelo ralo.
Eu tenho sete fontes de renda. Todas mínimas, mas sete.
O melhor é que nem preciso levar nenhuma delas 100% a sério, porque se perder uma não será uma catástrofe.
Reparem nas minhas últimas vinte e tantas horas.
Às 9hs de ontem, tive reunião em uma gigante das telecomunicações para a qual presto consultoria em Internet.
Depois, passei na delegacia do Leblon para entrevistar um delegado para uma matéria na Tribuna.
Às 14hs, fui para a reunião dos professores do curso onde dou aulas.
Cheguei em casa às 17hs, naveguei na Internet, dormi um pouco.
Às 22hs, compareci à minha primeira Maratona de Cinema do Odeon. Adorei. O único problema era que eu tinha que estar na sala de aula às 9hs de hoje, sábado: só deu tempo de dar uma cochiladinha de uma hora.
Agora, estou em casa rapidinho, nesse maldito computador ao invés de almoçar, e daqui a pouco vou sair para a minha pós-graduação, de 13hs às 19hs.
Nada me deixa mais feliz do que ver meus leitores assim viajando no meu romance. Vocês são incríveis.
A leitora Christiane me pediu permissão para escrever um comentário sobre o post de ontem. Quer saber se pode, quer saber se eu deixo.
O Direito Sagrado do Leitor
O livro é de vocês, não meu. Vocês podem falar o que quiserem.
Quer saber o que eu NÃO gosto? Aquele leitor que chega se desculpando, todo semi-humilde: sei que não sou nenhum crítico literário... Ou então: não é nenhuma crítica literária, mas o que eu achei foi...
E sabem por que não gosto disso? Porque dá a impressão que só críticos literários podem ter opiniões válidas sobre literatura. Que opiniões sobre literatura só são válidas se forem eruditas e pretensiosas.
Besteira. Arte é para todos.
Todo consumidor de arte tem o direito sagrado de simplesmente amar ou odiar qualquer obra, sem precisar justificar sua opinião ou oferecer eruditos embasamentos crítico-teóricos.
Sou contra o "não vi e não gostei", mas nada mais válido do que o "não gostei, sei lá porque, só sei que não gostei."
Uma Piada com o Leitor
Com a palavra, a leitora Chris e sua opinião soberana:
"Fiquei com um medo danado de que tivesse exagerado na viagem e que você não entendesse lhufas. Acho que o post chama mais o povo. Bota a galera no circuito pra meter o pau ou de repente parar pra pensar. É legal porque de repente tem mais gente com um monte de "viajeira" enrustida que vai acabar saindo do armário.
Gosto, particularmente, desse trecho. É exatamente aquilo que o Thimóteo falou: "A venda dos quadros é a pá de cal, a queda do real e do concreto sobre nossas cabeças." Mais do que todo o restante da obra, é o trecho que realmente me afligiu. Impregnou-me de um sentimento profundo de angústia e lástima. E ainda, pra quem ainda tinha alguma dúvida, faz com que se tenha certeza de que o verdadeiro foco é Júlia, é a história dela, e não a de Carla, que está sendo contada. Seria natural, que Carla, como fêmea, centralizasse boa parte de sua narrativa na figura da filha ou até do marido, mas ela não o faz. Em nenhum momento sente-se essa coisa visceral da relação mãe-filho ou da mulher-seu homem. Não. Tudo o que se diz, o que se sente e o que se pensa é sobre ela, Júlia. O trecho do espólio, diminui ainda mais a dimensão do personagem de Carla dentro do romance. Fica aquela sensação de que nada do que um dia foi importante pra ela, realmente o tenha sido. Mariana ignora todo aquele drama. Não tem nenhum vínculo emocional com aquilo tudo, com a obsessão de Júlia ou a exasperação de Carla. É pragmática. Vende os quadros e acabou-se. Que interessa o que aquilo possa ter significado um dia?
Acho que esse trecho, Alexandre, te desnuda mais que tudo. É onde você aparece mais. Mais do que na tara de Murilo por pés. É ali que está sua visão de mundo. O hoje é isso aí: egoísmo, egocentrismo e grana - superficialidade. É assim que você vê o mundo. O toque de leveza bem humorada do final, depois de uma narrativa tensa, que todo o tempo deixa o ar uma atmosfera trágica, frustra a expectativa do leitor de uma fatalidade iminente somado ao sarcasmo sutil da referência ao descaso de Mariana, dizem tudo. Sinto como se fosse uma piada com o leitor, como se no final visse você dizer: "mas você realmente achou que aquilo era sério? Era tudo de mentira, brincadeira." E mais, deixa no ar o questionamento sobre a credibilidade da versão de Carla. Assim como Bentinho, quem garante que o que ela vê seja real? Ela pode estar distorcendo o real. Quem sabe?
Não sei se viajei demais, especulei demais. Mas, enfim, foram coisas que me passaram pela cabeça quando eu li o romance. Aí, quando li o depoimento do Timóteo, fiquei com vontade de falar também. Sou preguiçosa, sabe, preciso de um empurrão, de um chefe batendo na porta e perguntando o que eu já fiz.
Queria saber o que você acha: viajei muito? Não sei que consegui expressar claramente tudo o que penso, é que às vezes meu pensamento sai na frente, e vai numa velocidade tão grande, que nem sempre eu o alcanço. E aí eu fico assim, com essa sensação de que não disse exatamente o que queria. Por isso quero saber sua compreensão do que escrevi, pra saber se consegui traduzir o maldito, que bateu em disparada quando eu o tentei pegar."
As Opiniões Certas
Um último esclarecimento: opiniões como a da Chris, a do Thimóteo e várias outras chamam minha atenção por serem criativas e originais, por mostrarem novas perspectivas e, às vezes, até por me ensinarem coisas sobre o meu livro que eu nem mesmo sabia.
Não quer dizer que concordo com elas, ou que essas opiniões são certas.
Não existem "opiniões certas". E se não dou a minha, que vale tanto quanto a de qualquer leitor, é justamente por medo que ela se torne a opinião dominante e impeça o surgimento de novas interpretações.
Meu pai sofre de ceratocone, uma doença degenerativa da córnea causada por um gene recessivo. É muito provável que eu e minha irmã também tenhamos o gene recessivo do ceratocone em nosso DNA. Felizmente, é uma doença relativamente rara. As chances de eu encontrar uma parceira que também tenha esse mesmo gene recessivo e, conseqüentemente, ter um filho com ceratocone, são muito pequenas.
Por outro lado, se eu decidir ter um filho com minha irmã, as chances de a criança nascer com ceratocone são gigantescas.
Tirando razões culturais, esse é o melhor argumento contra casamentos consangüíneos.
* * *
Populações geneticamente homogêneas, que procriem majoritariamente ou exclusivamente entre si, sempre serão muito vulneráveis a infecções e defeitos genéticos.
Podem ser até imunes a quase tudo mas, como suas características genéticas são muito semelhantes, o virusinho que derrubar um deles provavelmente derrubará todos.
Assim como a China unificada estava a mercê dos caprichos de um único homem, populações geneticamente homogêneas estarão sempre arriscadas a morrer em massa quando expostas ao vírus errado.
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Quase todos esses vírus de computador que aparecem nas manchetes foram criados para explorar falhas de segurança do Outlook, o programa de email da quase todos os usuários de Internet.
Se o mercado de informática fosse dinâmico, com dezenas de empresas disputando a preferência do consumidor, não haveria nenhum sistema operacional utilizado por 99% dos usuários e, portanto, jamais existiriam vírus capazes de infectar 99% dos usuários.
Haveria vírus, claro, mas direcionados. Cada vírus só infectaria os usuários do sistema operacional para o qual ele foi feito. Os problemas seriam localizados em grupos específicos de usuários e nunca, nunca ganhariam as manchetes dos jornais.
Esse é mais um custo do monopólio da Microsoft que o internauta é que paga.
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A expressão "virus de computador" foi cunhada em 1983 por Fred Cohen, em sua tese de doutorado na University of Southern California.
Fred não fazia idéia como sua metáfora era apta.
Um vírus é uma entidade (a ciência ainda não se decidiu se um vírus é um ser vivo ou não) que monta no código genético de um hospedeiro para poder sobreviver e procriar. Um vírus de computador também invade o código da programação de um programa para poder se propagar.
A própria evolução posterior dos vírus, coisa que Fred Cohen não poderia prever, fortaleceu ainda mais a metáfora.
O físico britânico Stephen Hawking, aliás, defende que os vírus de computador devem ser considerados formas de vida. "Diz muito sobre a natureza humana que a única forma de vida criada por nós é puramente destrutiva. Criamos vida à nossa imagem."
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Contra tantas doenças que os europeus trouxeram ao Novo Mundo, a única contribuição que se presume ter sido feita na contra-mão foi a sífilis.
Os primeiros casos de sífilis entre europeus foram registrados entre as tripulações que chegavam das primeiras viagens ao Novo Mundo.
A sífilis era rápida e mortal. Os infectados morriam em poucos dias, às vezes horas.
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O objetivo número um de um vírus (ou, no caso da sífilis, bactéria) é se propagar. Muitas vezes, os sintomas de uma doença (espirrar, por exemplo) são, na verdade, estratégias do vírus: ele faz com que o hospedeiro espirre para se propagar pelo ar.
Um vírus bem sucedido é aquele que consegue fazer o seu hospedeiro circular e infectar o máximo de novos hospedeiros. Se o hospedeiro estiver incapacitado ou morto, ele não poderá espalhar o vírus.
Quem pegava a primeira variação da sífilis não tinha como infectar mais ninguém: morria rápido, sangrando e sofrendo, e levava a bactéria junto. Vírus muito rápidos e mortais dão excelentes filmes-catástrofe, mas são uns fracassados do ponto de vista evolucionário.
Ao mesmo tempo, desenvolveu-se também uma mutação mais branda da doença. Essa versão, ao infectar o hospedeiro sem incapacitá-lo, acabava sendo transmitida a todos os seus parceiros sexuais.
A versão branda da sífilis é um sucesso evolutivo até hoje, enquanto a fatal morreu junto com seus hospedeiros e tornou-se apenas uma nota de pé de página na história.
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Os vírus de computador também tornaram-se mais brandos. No começo, eram agressivos, apagavam tudo, reformatavam a máquina, um verdadeiro pesadelo. Se tivessem pedido conselhos à bactéria da sífilis, não teriam cometido esse erro. Naturalmente, um computador formatado ou inutilizado não vai transmitir outros vírus para ninguém tão cedo.
Hoje em dia, os vírus estão praticamente inofensivos. Atravancam a rede sim, geram um número gigantesco de mensagens de erro, sim. Mas nunca mais ouvi falar de vírus cometendo danos irreversíveis em um computador.
Os novos vírus parecem a Darlene, de Celebridade: só querem mesmo aparecer.
* * *
Os vírus de computador continuam evoluindo.
Até pouco depois atrás, quando você era infectado, seu Outlook enviava emails para todos na sua lista de contatos como se fosse você, usando o seu nome e propagando o vírus.
Mas as pessoas ficaram mais inteligentes. Quando recebiam emails suspeitos, achavam estranho, perguntavam aos amigos e desmascaravam o vírus. Logo depois, instalavam anti-vírus e fim de festa.
Os vírus agora também tiveram que ficar mais matreiros. Eles te infectam e se auto-enviam para sua lista de contatos, mas não usam mais o seu nome: usam os nomes das próprias pessoas da sua lista.
Ou seja, seu amigo João recebe um email com vírus do seu outro amigo Fernando. João avisa Fernando que ele lhe mandou um vírus, Fernando passa um anti-vírus no seu computador e diz que não está infectado, João diz que tem que estar, pois recebeu um vírus dele, Fernando começa a se irritar, João puxa uma arma e, enquanto seus amigos se matam, você, o verdadeiro culpado, está com seu nome fora da confusão e continua propagando vírus a torto e a direito.
Genial.
* * *
Não fosse o monopólio da Microsoft e do Outlook, nada disso estaria acontecendo.
Uma versão editada desse texto foi publicada na minha coluna Internet, na Tribuna da Imprensa, no dia 5 de março de 2004
Da Série Leitores Satisfeitos:
O Quebra-Molas ou a Pá de Cal
O leitor Thimóteo, do blog Via Oral, leu o meu romance e teve alguns comentários bem interessantes a fazer.
Aviso aos desavisados: os comentários do Thimóteo contém spoilers, ou seja, entregam o que acontece no final do livro. Se você ainda não leu e pretende ler, melhor ficar por aqui.
"Acabei de ler seu Romance, "Mulher de um Homem Só". Parabéns pelo trabalho: é realmente muito bom. A narrativa veloz, quase em desespero da Carla-narradora, é deliciosa. V. conhece muito do espírito feminino.
Mas, o que gostei especialmente, foi da "cunha" na página 19, onde surge o espólio da Júlia. Vejo nesse espólio, muito mais que os quadros, o objeto concreto. Ali, naquele trecho, fica, dramaticamente, o espólio da obra literária, que é a geradora da emoção, da dó e da dor da perda. A Júlia é a grande personagem dessa história, decerto; mas, o que a gente não se dá conta é que, ao longo da narrativa, a gente se envolve com ela: se enraivece, a odeia, se apaixona e, por fim, sofre em sabê-la morta. A Júlia existe em todos nós, em nosso egoísmo, em nossa voluntariedade, em nossa arrogância. É corajosa e não liga a mínima pro que pensa o mundo. Egocêntrica, mimada e potente, no fundo é o que (muitos de) nós, inconscientemente, gostaríamos de ser. Sua morte mata um pouco da gente, da esperança do amor eterno que desejamos, do sonho de que, mesmo aos trancos, barrancos e solavancos, nossa vida possa valer a pena. A venda dos quadros é a pá de cal, a queda do real e do concreto sobre nossas cabeças. Mas é também o lembrete de que a existência só vale pelo que fazemos e pelo que sentimos, muito mais por nós mesmos que pelos outros. Sua obra me causou essa sensação, esse delírio; é isso que, ao meu ver, faz um escritor. E assim, v. já está feito."
Odeio me manifestar muito sobre o meu romance. Autor tem mais é que criar e ficar calado, pra não interferir nas viagens dos leitores. Publico essas opiniões de leitores aqui somente para estimular novos leitores e para mostrar como o livro se presta a múltiplas interpretações.
Eu só queria dizer (rápido!) que o Thimóteo tocou num ponto, pra mim, fundamental. Esse trecho é a alma do romance, aquela pincelada sutil que coloca tudo em perspectiva. Muita gente não entende, reclama que corta o ritmo e que não faz sentido, insistem para eu eliminá-lo. Mas seria como amputar o coração: simplesmente não dá.
O trecho é rápido, traiçoeiro e elíptico. Não dá pra entender de uma só leitura, ainda mais se você estiver lendo em um ritmo frenético, algo que a narrativa de Carla praticamente te força a fazer.
Penso nesse trecho como um quebra-molas: se você vier rápido demais, decola sem nem saber por quê. Ele te força a parar a leitura, voltar atrás, ler de novo e pensar. Primeiro, você pensa pra entender: o que diabos está acontecendo? Que nome é esse que nunca apareceu? E, depois, você pensa pra interpretar: o que isso significa dentro do romance?
Cada um responde a essas perguntas como achar melhor.
Entretanto... Se você nem se fez essas perguntas, se nem captou essa estranheza, ih, meu amigo, então você caiu no golpe da Carla, foi se deixando levar pela velocidade da narração dela e nem viu a paisagem pelo caminho, engoliu tudo o que ela disse sem nem questionar.
Em quantas outras armadilhas dela será que você caiu?
E você, que gosta desse blog, vem aqui sempre, mas ainda não leu o romance, não acha que já está na hora, não? Você pode fazer o download em versão para imprimir ou para ler na tela.
Menciono a data só para que não passe em brancas nuvens.
Infelizmente, estou tendo uma semana enrolada e não tive tempo de fazer o post que queria, contando como esse blog surgiu, o que me motivou a criá-lo e o que ele conseguiu atingir nesses doze meses.
O Frenesi e Lucidez apresenta textos literários belissimamente escritos sobre temas como fetiche por pés, Vênus das Peles, de Sacher-Masoch e o filme Contos Proibidos do Marquês de Sade, entre outras coisas. Vale a visita.
Trecho:
"A seus pés
Ela bem sabe o fetiche que tenho por seus pés, e claro, se aproveita disso.
Gosta de sair comigo para comprar suas sandálias, ou tamancos. Então veste uma minúscula e sensual langeri, que depois percebo, combina com a cor do calçado que comprará, coloca uma saia de curta a curtíssima e juntos vamos as lojas. Escolhe sempre sem pressa nas vitrines enquanto os atendentes vêm ansiosos oferecer seus préstimos, e quando algo lhe agrada ela escolhe um vendedor e pede para provar, mas não põe as mãos na mercadoria, senta-se na cadeira do provador como que ocupasse um trono e deixa que calce, e descalce seus pés, sem medo de dizer não e sair sem comprar nada, sempre enrubescendo a face do nefasto que mesmo sem querer sente seu perfume íntimo e avista muito mais que eu que estou ao lado. Com minha presença, ele desconsertado, teme espiar seu meio de pernas que distraidamente por vezes pode revelar algo mais, imediatamente me sobe o tesão que também me enrubesce, sinto minha face esquentar sanguinolenta e me doer pontudo no peito, e na testa, já nem sei se senti primeiro o tesão ou a pontada, mas inflamo, e ela percebe. Sem temer a extravagância, ela escolhe uma sandália altíssima e de tiras, que o rapaz, ainda que envergonhado, e evitando nossos olhos, sem pressa trança em seu tornozelo e fecha a fivela em sua canela. Faz questão que lhe coloque o par, levanta-se para olhar no espelho e pergunta se gostei com uma piscada safada, fazendo menção de que é para mim. Enquanto pago no caixa ela retira o pacote e conversa com o atendente ainda extasiado e boquiaberto, enrijeço, do corpo até a alma, - me paga a danada, sinto vontade de com força rachá-la ao meio - e anseio louco por estar na intimidade com ela. Finalmente a sós, vou abraçá-la e ela me repulsa dizendo que sou apressado. Ela abre as pernas expondo para mim sua suculência, seu aconchego, mas não sem antes me fazer seu vassalo, seu capacho, seu cão. - Cadela. "
Eu até hoje não entendi essa importância toda que as pessoas dão à data (e muito menos à hora) do nosso nascimento.
Nasci às 9:45hs do dia 16 de fevereiro de 1974.
Mas sério, o que foi que houve assim de tão fantástico nesse momento? O que foi que mudou?
Segundo nossa lei, nossa cultura e nossa filosofia, eu só passei a existir às 9:45hs do dia 16 de fevereiro de 1974. Antes disso, eu era um nada. Eu simplesmente não existia.
Só que não é verdade. Às 15:30hs de 15 de fevereiro de 1974, eu fazia praticamente as mesmas coisas que eu fazia às 15:30hs de 16 de fevereiro. A diferença é que no segundo momento eu existia, no primeiro, não.
Naturalmente, se passo a considerar que o meu nascimento não foi o começo da minha existência, surge uma outra questão muito pior, com implicações terríveis: afinal, quando eu comecei a existir de fato, como ser vivo, consciente e com direito à proteção da lei?
Esse caminho é perigoso pois se eu for longe demais nele posso acabar tendo que concordar com uma das piores escórias da terra, a ultra-direita radical religiosa. Cruz credo.
Infelizmente, meu raciocínio vai na frente e eu só posso ir seguindo atrás.
A partir do momento em que passo a existir, teoricamente não posso mais ser morto assim sem mais nem menos. Antes disso, posso. Afinal, não existo. Não sou nada. Minha morte seria só um procedimento cirúrgico. Besteira.
Se tem uma massa assando no forno (ainda não é um bolo!) e eu abro o forno e desligo o fogo, eu não posso dizer que acabei com o bolo, pois o bolo ainda não existe, e como posso acabar com algo que não existe?, mas o fato é que impedi o bolo de existir, o que dá rigorosamente no mesmo.
Se alguém me matasse hoje, ou se alguém tivesse me matado em agosto de 1973, quando eu tinha três meses de concebido, também daria, na prática, rigorosamente no mesmo.
Ambos os atos estariam me impedindo, digamos, de ver o ano de 2005 e de saber quem matou Lineu Vasconcelos.
A diferença é que o primeiro assassinato me permitiu, pelo menos, 30 anos e duas semanas de vida. O segundo, nem isso.
* * *
Não vou, repito, não vou entrar numa discussão sobre aborto aqui.
Quis apenas compartilhar com vocês uma questão filosófica que até hoje me intriga.
Acho meio forçação dizer que passei a existir no momento que o espermatozóide do meu pai fecundou o óvulo da minha mãe, em algum momento de maio de 1973.
Por outro lado, dizer que só passei à existir às 9:45hs de 16 de fevereiro de 1974 é tão forçação de barra quanto, uma convenção para fins legais e burocráticos.
Sei que essa pergunta tem implicações legais e pragmáticas sérias e é horrível quando uma questão filosófico-existencial básica como essa pode ter sua resposta utilizada para servir aos interesses desse ou daquele grupo político ou religioso.
Como disse, não vou entrar em um debate sobre o aborto, mas não consigo deixar de me perguntar:
Essa historinha é da época em que o Mar Morto ainda não estava nem doente. Me contaram pela primeira vez como tendo acontecido com Arthur Moreira Lima. Depois disso, já ouvi como tendo acontecido com todo mundo, desde Homero até Eminem. Enfim, aqui vai a minha versão original:
Arthur Moreira Lima estava tocando piano, maravilhosamente bem como sempre, e um chato se encosta no piano e comenta:
Ah, eu daria minha vida pra tocar bem assim...
E o Arthur levanta o rosto, olha pra ele e diz:
Eu dei.
Leia uma história parecida no Leite de Pato de hoje.
Antes que vocês fiquem confusos, uma explicação: primeiro, escrevi um artigo chamado O Dever do Escritor, mas a Violeta, que admiro muito, caiu de pau em cima de mim dizendo que o dever do escritor não era nada daquilo. Pensei um pouco e vi que ela tinha uma certa razão. Eu estava me referindo a um tipo específico de escritor, e reescrevi o artigo, chamando-o de O Dever do Colunista. Agora, entretanto, inspirado nessa confusão, escrevo, de novo, um outro artigo sobre O Dever do Escritor, dessa vez, de Literatura. Mesmo. Ufa! Ficou claro? Então releia tudo até entender.
A Violeta levantou um debate sobre o dever do escritor. E como existem vários tipos de escritor, vamos primeiro definir: escritor, aqui, será o escritor de ficção. Ou seja, o artista da literatura.
E o dever do artista não pode nunca passar pela política. O artista que se mete em política se trumbica.
O povo está sendo oprimido? Há uma ditadura nas ruas? Que chato. Mas arte não tem nada a ver com isso.
Política É Concessão e Compromisso
A política, quando bem feita, quando não descamba em ditadura, é composta por compromissos e concessões que visam chegar a um consenso.
A arte não é um consenso. A arte não pode ter compromissos. A arte não pode fazer concessões. O bom artista só tem compromisso consigo mesmo, não respeita consensos e não faz concessões.
Se o artista acha que o povo está sendo oprimido, ele que lute contra isso como cidadão. Funde uma ONG, vote nos melhores candidatos, escreva artigos para jornais, tente se eleger deputado.
Mas não me escreva um romance para denunciar a opressão da burguesia. Pelo amor de deus, não crie um número musical em homenagem às vítimas do imperialistmo. Por tudo o que é mais sagrado, não faça uma pintura abstrata onde o vermelho representa a ditadura que esmaga o povo, as duas linhas paralelas representam homens e mulheres caminhando juntos, mas sem nunca se encontrar, rumo ao infinito, e a mancha marrom representa o café que respingou na tela.
Não há regras para o papel do artista. O compromisso dele é com ele mesmo. Contanto que ele não se deixe aprisionar, ele pode tudo.
O Chico Caruso estava relembrando a primeira charge que fez com o Lula. Foi um escândalo no partido. Veio o Henfil falar com ele: "Chico, você fez tudo que a ditadura não conseguiu: pintou nosso companheiro de ridículo!" Sabiamente, o Chico mandou o Henfil tomar no cu.
Essa é o problema do artista engajado. O artista engajado não faria a caricatura do Lula para não prejudicar o movimento. O artista engajado se torna menos artista a cada concessão que faz a elementos extra-artísticos.
Já o artista de verdade só se importa com a própria arte e com mais nada.
"A única responsabilidade do escritor é para com sua arte. Será inteiramente desapiedado se for um bom escritor. (...) O resto vai por água abaixo: honra, orgulho, decência, segurança, felicidade, tudo. (...) Se um escritor tiver que roubar sua mãe, não hesitará; a "Ode a uma Urna Grega," de Keats, vale mais do que qualquer punhado de velhas." William Faulkner
Política É Fugaz
O raio de ação de um artista é tão grande, ele é tão livre nas atitudes que pode tomar, que ele pode até mesmo se propor, como seu objetivo artístico, denunciar opressões e defender o proletariado. Mas isso é tão, mas tão difícil que só mesmo sendo muito bom.
Quem quiser olhar na coluna da esquerda, vai ver que acabei de ler dois livros do Górki.
Górki apoiou uma das mais perversas ditaduras da história, a União Soviética, movida pela mais imbecil ideologia, o Comunismo. Ele foi o sustentáculo cultural dos regimes de Lênin e Stalin. Politicamente falando, o homem é quase um criminoso contra a humanidade.
Não sei como tive coragem de abrir o primeiro livro de Górki. Foi por muita insistência de Henry Miller. Mas ainda bem que li.
Górki tem uma força, uma vitalidade, uma alegria de viver de fazer inveja a Whitman. Górki pode tudo. A good artist can get away with anything. Não consigo imaginar uma autobiografia melhor do que a dele.
Górki é Górki. Górki vai permanecer. No futuro, quando o marxismo não for nem a piada de mau gosto que é hoje, pois as pessoas não vão nem lembrar o que é, Górki ainda estará sendo lido. Com algumas notas de pé de página, claro, mas será lido.
Mas a política é fugaz demais. Para cada Górki, existem milhares de Cholokhovs e Soljenítsins, tanto de um lado quanto de outro, pois só o hidrôgenio é mais disseminado do que a burrice, autores fracos e medíocres que só se sustentaram por alguns anos pois defenderam essa ou aquela ideologia do momento. Mas todo regime cái. Toda ideologia some. E seus defensores somem junto.
Filosofia Não É Arte
A Violetinha me criticou por falar de O Estrangeiro e nem mencionar o existencialismo. Ora, não mencionei porque não tinha nada a ver com o tema daquela resenha, mas tem a ver aqui.
Adoro filosofia existencialista. Se sou algum -ista, é existencialista. Já li esses malucos todos, Kirkegaard, Camus, Sartre, Ortega y Gasset, Jaspers, Nietzsche, etc etc.
O Estrangeiro é um excelente romance existencialista (quem acha que eu não gostei de O Estrangeiro tem que ler de novo minha resenha) porque Camus é antes romancista do que filósofo.
Já os romances de Sartre são chatos e insossos porque Sartre é e sempre foi filósofo. Seus romances não são romances, são estudos de caso. Sartre não tinha compromisso com a arte: Sartre queria apenas exemplificar suas teorias.
Conclusão
Quem faz arte pra provar uma teoria filosófica, defender um governo ou mesmo socorrer uma pobre classe social oprimida não está fazendo boa arte. Está sendo, talvez, uma boa pessoa, um bom cidadão, um bom político, um bom filósofo.
Esse blog fechou fevereiro com devastadores 40 mil pageviews, contra somente 9 mil em janeiro.
Naturalmente, em janeiro, ninguém veio aqui buscar por fotos da Antonela nua.
Como eu mesmo maceteei meus pageviews, esses números não querem mais dizer muita coisa. Dizem até quanta gente passou por aqui, e foi muita gente!, mas não quantos de fato me leram.
Decidi então tentar algo diferente: contar os comentários.
Em novembro, esse blog teve 208 comentários, subindo pra 267 em dezembro e 479 em janeiro. Sem contar os meus próprios comentários.
Bem, a maior prova que, independente de tretas, o número de leitores motivados e interessados realmente subiu foi que os comentários dobraram. Foram 967 comentários em fevereiro, uma média de 33 por dia.
Eu te amo mais do que deveria, é verdade. De certo modo, meu amor por você é uma prisão, mas fazer o quê? Às vezes, eu sinto que deveria passar um tempo longe, só pra te dar mais valor, só pra ver se consigo viver sem você, só pra garantir que esse amor não me aprisiona. Mas nunca consegui. Amor não se escolhe e nem toda prisão é ruim.
Sempre utilizei a Internet para ler jornais do mundo todo.
Em dezembro de 2001, porém, quando chutei meu balde e larguei minha empresa, me voltei totalmente pra dentro. Fiquei dois anos na mais rigorosa e deliciosa alienação, sem nem saber o que estava acontecendo na esquina, só preocupado com os aspectos interiores do ser humano. Nesse período, comecei a escrever As Prisões.
Agora, me convidaram pra assumir essa coluna na Tribuna da Imprensa e estou me reintegrando à imprensa e ao mundo lá fora.
Minha primeira atitude foi assinar a Folha, na minha opinião, o melhor jornal do Brasil, e O Globo, o melhor jornal local. Pensei em assinar o JB, mas aí já seria temerário. Não tenho dinheiro nem pra assinar os dois primeiros.
Também passei a visitar inúmeros sites de jornalismo e, por isso, incluí uma seção Imprensa na coluna da esquerda.
Além do Globo e da Folha, que chegam aqui na porta, leio diariamente, na Internet, o Jornal do Brasil, ainda valoroso, e o New York Times, meu jornal preferido. O New York Times é de babar. Os caras são bons demais. Começo pela página de opinião e, dali, vou entrando.
Todo dia, a meia-noite em ponto, tenho compromisso marcado. Nessa hora, são atualizadas a Tribuna da Imprensa e a No Mínimo.
A Tribuna me deu casa, comida e coluna lavada, e tem um excelente time de colunistas, não só os tradicionais Hélio Fernandes e Carlos Chagas, mas também blogueiros como o Cuenca e a Clarah. Ou seja, o melhor da tradição e o melhor da vanguarda.
A No Mínimo, herdeira do falecido e saudoso NO, é hoje um dos melhores veículos jornalísticos de qualquer meio, internet, impresso ou televisivo. Seu time de colunistas é uma verdadeira seleção, e o Guilherme Fiuza, artilheiro do campeonato.
Às terças, é dia de ler o Observatório da Imprensa, editado pelo amigo Dines, e saber o que os colegas andam falando e, mais frequentemente, do que andam reclamando. Leitura paralela é o blog Xingatório da Imprensa, que tem os mesmos objetivos, é tão sério quanto e, convenhamos, bem mais engraçado.
Às quartas, é dia de ler o The Onion, America's Finest News Source, uma verdadeira aula de ética e qualidade no jornalismo. Sua edição especial sobre o 11 de setembro foi a melhor coisa que li sobre a tragédia.
Quando tenho tempo, ou ocorre algum grande evento que justifique o trabalho, eu checo a cobertura internacional de três veículos bem heterogêneos: a Al Jazeera, pra uma versão mais anti-americana, o El País, a melhor cobertura internacional do mundo, e o Corriere della Sera, pra eu treinar meu italiano.
Por fim, utilizo três bons sites que fazem uma cobertura da imprensa e me avisam se houver algo que não vi: o Mané Goiaba Sempre Alerta, que já mencionei, o maravilhoso Ponto Media, sobre imprensa e internet e o Weblog da NoMínimo, do Pedro Dória.
Como sempre digo, a coluna da esquerda é pra minha conveniência pessoal. Que isso não seja visto como egoísmo mas, pelo contrário, garantia de qualidade: as coisas que fazemos para nós mesmos são sempre as melhores.
Um blog sobre rebeldia, contemplação e sacanagem, regado a muita literatura e humor. Nosso assunto são as várias prisões que acorrentam o homem, como ambi�‹o, verdade e medo. Dê sua opinião!
160. Omil, Alba. Cuatro Versiones del Mart’n Fierro. [Argentina, 1993] Dez. (TulBib)
159. Estrada, Ezequiel Mart’nez. Muerte y Transfiguraci—n de Mart’n Fierro. [Argentina, 1948] Dez. (TulBib)
158. Alposta, Luis. La Culpa en Mart’n Fierro. [Argentina, 1998] Dez. (TulBib)
157. Lesser, Jeffrey. A Negocia�‹o da Identidade Nacional. (Negotiating National Identity. Immigrants, Minorities, and the Struggle for Ethnicity in Brazil.) [EUA, 1999] (TulBib.) Dez.1
143. Cadena, Marisol de la. Indigenous Mestizos. The Politics of Race and culture in Cuzco, Peru, 1919-1991. [EUA, 2000] Out.
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