Quando escrevi sobre a Escola Urbana, muita gente caiu de pau em cima de mim.
As pessoas têm medo de crítica. Como não querem ser criticadas, tentam interferir com o seu direito de criticar os outros, pra não serem as próximas. Os comentários foram variados, com três vertentes básicas: 1) pra que criticar?, deixa pra lá... 2) quem é você pra criticar? e 3) você está é com inveja!
Tenho um artigo grande, já rascunhado, sobre toda essa questão do medo da crítica e do direito de criticar. Daqui a pouco publico.
Entretanto, quem mais me irritou nessa história toda foi o Mané Goiaba, que inclusive foi comentar sobre essa minha pretensa inveja em outros blogs. Fiquei puto e tirei o meu link pra ele, ainda mais que ele nunca tinha tido a gentileza de me linkar de volta.
Ai, ai. Mas não sou eu que digo pra vocês serem grandes? Pois vou ser também. Dou o braço a torcer em público.
Como já falei em outras ocasiões, a coluna da esquerda, aqui ao lado, nada mais é do que a minha lista pessoal de favoritos. Os links estão ali, acima de tudo, pra facilitar o meu acesso a eles. Os Blogs Favoritos são, realmente, os blogs que visito todos os dias e os outros, com muita freqüência.
Quando me peguei, pela segunda vez, digitando a URL do blog do Mané no meu navegador, só porque o link não estava mais na coluna, fiz um mea culpa e descobri que estava sendo pirracento. Mesquinho. Pequeno.
Minha opinião pessoal sobre o Mané não vem ao caso. Além dos comentários venenosos pelas costas, também foi ele que me ofereceu a treta pra limar banners que motivou o artigo Blogs Gratuitos: Ética vs Estética.
Independente disso tudo, o blog dele é muito útil. Time to put my money where my mouth is.
Enfim, eu poderia ter colocado o link de volta na encolha, mas isso não faria o meu estilo. Como respondi ao Saint-Clair, um dos objetivos desse blog é auto-exposição. Ser grande não significa ter que dar satisfações aos outros, mas inclui fazer as coisas abertamente, sob o escrutínio de todos, sem medo das conseqüências.
Da Série Leitores Satisfeitos:
As Contradições das Pessoas
A Krika, do blog Kuka da Krika, leu o meu romance e reparou algumas contradições interessantes:
"Achei legal você brincar com as contradições das pessoas, como dizerem que são ateus e praticarem ritos religiosos, e até justificarem isso como brasilidade, ou mudarem de opinião, tomando atitudes diferentes diante da mesma situação, como no caso do suicídio só por ter ou não afinidade com o suicida.
E, também explorou bem a rivalidade feminina. Ela existe sob forma de amizade ou tolerância como foi colocado no texto. O que me deixa curiosa, onde você aprendeu tanto sobre o universo feminino? Você realmente se preocupou em entender esse universo, ou usou apenas de ironia?"
Krika, adorei você ter reparado as contradições. A vida é assim mesmo. Eu também sou cheio de ideais e teorias, mas não há ideal ou teoria que sobreviva a uma boa pancada de realidade. A gente sempre tem que conciliar.
Quanto às mulheres, eu sou meio mulherzinha mesmo. Nunca tive grandes amigos homens. Passei a vida cercado de mulheres. Na adolescência, todas minhas amigas e confidentes eram meninas. O grupo no qual eu andava era eu e outras sete amigas, que eu ainda amo até hoje.
Acho que está no sangue.
E você, que gosta desse blog, vem aqui sempre, mas ainda não leu o romance, não acha que já está na hora, não? Você pode fazer o download em versão para imprimir ou para ler na tela.
A Violetinha é marxista demais pro meu gosto, gosta de cavalgaduras como Bordieu e usa palavras como "opressores" e "burguesia", mas ela ainda assim é foda e teve uma certa razão em suas críticas. Eu fiz um texto sobre o dever do escritor quando, na verdade, eu queria dizer dever do colunista ou do cronista, um tipo bem específico de escritor. Por isso, reescrevi o texto, mudando não só isso, mas outras coisas. Realmente, escritor é um conceito mais amplo, mas também não acho que escritor tenha que ser politizado, ou que tenha que "denunciar opressões e opressores", mas essa é outra conversa. Se quiserem comparar a revisão, leiam o artigo original.
Às vezes, os leitores parecem não se dar conta do que é o trabalho de um colunista.
O leitor Augusto Vindeiro escreveu o seguinte sobre a minha coluna de 20 de fevereiro, Em Defesa do Monopólio, onde aponto alguns pontos positivos do monopólio que a Microsoft exerce no mercado de informática:
"A impressão que eu tenho é que, todos os dias, o nosso amigo Alexandre faz para si mesmo duas perguntas: 1) Qual questão representa um consenso atualmente? e 2) Qual argumento eu posso desenterrar, para tentar ir contra o senso comum, para conseguir criar uma polêmica e parecer um gênio? Acho o Alexandre um cara extremamente inteligente e com uma sensibilidade absurda. Pena que ele coloque essas duas qualidades em segundo plano, diante da sua necessidade de criar um show."
Caríssimo Augusto, não é nem que eu tenha vindo do Mundo Bizarro e todas as minhas opiniões sejam o contrário do senso comum e muito menos que eu adoro tanto criar um show que eu precise forçar uma barra e escrever sobre coisas que não são necessariamente minha opinião.
Mas, para prender meu leitor e merecer meu pão, eu preciso preencher essa coluna semanalmente com assuntos interessantes e instigantes.
Quando mataram a Liana e o Felipe, boa parte dos colunistas da grande imprensa não teve pudor algum em somente repetir o blá-blá-blá do senso comum. Cadê o profissionalismo dessa gente? Qual a graça de repisar chão pisado?
Não há nada de errado em termos uma reação "comum" a uma tragédia. Você pensa que é um absurdo, você pensa que o matador tinha apenas dezesseis anos, pensa que ele vai sair em três, pensa "que mundo é esse, meu deus?!", etc. Isso é normal. Em relação a 95% das coisas que acontecem, eu também não tenho nada a dizer, ou, pelo menos, nada de diferente.
Mas um colunista tem obrigação de oferecer algo novo. Pode ser tanto uma informação nova (um fato que o leitor não sabia) ou uma opinião nova (algum ângulo inesperado que não ocorreu ao leitor).
Negligência e incompetência é estarem todos os leitores pensando no absurdo insensato que é a morte desses dois jovens e o colunista sentar pra escrever... sobre o absurdo insensato que é a morte desses dois jovens!
Isso vai acrescentar alguma coisa aos seus leitores? Nada. Nadinha. Eles vão balançar a cabeça, vão pensar (pensar?) que esse mundo está mesmo indo pro buraco e lá se vai o jornal forrar a gaiola do passarinho.
Se eu acho um absurdo insensato terem matado esses dois jovens e olho em volta e vejo todo mundo também achando isso um absurdo insensato, eu concluo que o mundo não precisa de mais uma pessoa fazendo tsc tsc e balançando a cabeça. Melhor ficar calado e ir garimpar assunto pra minha próxima coluna noutro lugar.
Se eu olho em volto e vejo todo mundo malhando o monopólio da Microsoft e descubro uma vantagem desse monopólio que pouca gente percebe, aí sim me vejo na obrigação de escrever sobre isso. Não para convencer ninguém, pois não estou aqui pra botar azeitona na empada dos outros, mas somente para mostrar uma nova perspectiva.
Você, Augusto, que me acha inteligente e sensível, queria me ver escrevendo sobre o quê? Que pobreza é ruim e distribuição de renda é bom? Que foi um absurdo fazerem os velhinhos de noventa anos entrarem na fila, que o Waldomiro é um escroque e que a Guerra no Iraque foi uma fraude?
Por que perder o meu tempo, e o de vocês, nessas platitudes?
Quem quiser balançar a cabeça e confirmar o que já sabia que vá pastar noutras paragens. Aqui não tem capim-com-arroz.
Meu compromisso é tentar sempre mexer com suas cabecinhas, chacoalhar suas idéias feitas, chutar as bases dos seus preconceitos.
"Achei um link de um blog divertidíssimo, com ótimos textos. Pertence a um jornalista da Tribuna da Imprensa chamado Alexandre Cruz Almeida. Encontrei o blog na minha diária dose de pornografia, ao procurar pelas novas fotos da loira gostosa do Bigue bródi. Resultado: boa leitura e nada de pornografia. Mas valeu a pena! Talvez, quando me organizar nessa troca idiota de CPUs aqui na caixa, adicione ele aos links e retire o do finado blog do Vlad."
Deu no Globo de hoje, coluna Gente Boa, de Joaquim Ferreira dos Santos:
"Sarnas de Cesar
A Secretaria de Defesa dos Animais não recolherá mais cães e gatos de rua, agora convertidos, por decreto de Cesar Maia, em “animais comunitários”. “Se sobrevivem na rua são, de alguma forma, cuidados. Dormem na garagem de um, comem no açougue de outro. Pertencem à comunidade e são elementos agregadores dela”, diz a secretária Maria Lúcia Frota. “Ganharão coleira e registro. Começamos segunda-feira por Irajá.”
"A impressão que eu tenho é que, todos os dias, após o trabalho, o nosso amigo Alexandre chega em casa e faz para si mesmo duas perguntas:
1) Qual questão representa um consenso atualmente?
2) Qual argumento eu posso desenterrar, para tentar ir contra o senso comum, para conseguir criar uma polêmica e parecer um gênio?
Acho o Alexandre um cara extremamente inteligênte e com uma sensibilidade absurda. Pena que ele coloque essas duas qualidades em segundo plano, diante da sua necessidade de criar um show."
Caríssimo Augusto, muita gente já veio me dizer isso gritando e nem respondi. Mas você foi educado, então lá vai.
Acho que as pessoas não se dão conta do que é o trabalho de um escritor e/ou colunista e/ou jornalista e/ou blogueiro.
Não é nem que eu tenha vindo do Mundo Bizarro e todas as minhas opiniões sejam o contrário do senso comum e muito menos que eu adoro tanto criar um show que eu precise forçar uma barra e escrever sobre coisas que não são necessariamente minha opinião.
Graças a deus, não sou intelectual, então não me vejo na obrigação de ser inteligente ou mesmo lógico. Sou escritor e sempre encarei esse blog profissionalmente. Esse espaço é minha coluna diária, que preciso preencher com assuntos interessantes e instigantes todos os dias, para prender meu leitor e merecer meu pão.
"Não é problema algum você ter uma reação, digamos, comum à uma tragédia. Você pensa que é um absurdo, você pensa que o matador tinha só 16 anos, pensa que ele vai sair em 3 anos, pensa que mundo é esse, etc. Isso é normal. Em relação a 95% das coisas que acontecem, eu não tenho nada a dizer, ou, no mínimo, nada de novo.
O que me deixa chocado é a enorme quantidade de jornalistas profissionais, colunistas e afins, que não tem nenhum pudor em repetir o blá-blá-blá do senso comum. Cadê o profissionalismo dessas pessoas? Qual a graça de repisar chão pisado?"
Um escritor, ou colunista, tem a responsabilidade de oferecer algo de novo ao seu leitor. Pode ser tanto uma informação nova (algum fato que o leitor não sabia) ou uma opinião nova (algum ângulo inesperado, uma interpretação que não ocorreu ao leitor).
Negligência e incompetência é estarem todos os leitores pensando no absurdo insensato que é a morte desses dois jovens e o colunista sentar pra escrever... sobre o absurdo insensato que é a morte desses dois jovens!
Isso vai acrescentar alguma coisa aos seus leitores? Nada. Nadinha. Eles vão balançar a cabeça, vão pensar (pensar?) que esse mundo está mesmo indo pro buraco e lá se vai o jornal forrar a gaiola do passarinho.
Se eu acho um absurdo insensato terem matado esses dois jovens e olho em volta e vejo todo mundo também achando isso um absurdo insensato, eu concluo que o mundo não precisa de mais uma pessoa fazendo tsc tsc e balançando a cabeça. Melhor ficar calado.
Se eu olho em volto e vejo todo mundo malhando o monopólio da Microsoft e descubro uma vantagem desse monopólio que pouca gente percebe, aí sim me acho na obrigação de escrever sobre isso. Não para convencer ninguém, pois não estou aqui pra botar azeitona na empada dos outros, mas somente para mostrar uma nova perspectiva.
Você, Augusto, que me acha inteligente e sensível, queria me ver escrevendo sobre o quê? Que pobreza é ruim e distribuição de renda é bom? Que foi um absurdo fazerem os velhinhos de 90 anos entrarem na fila, que o Sérgio Naya é um bandido e que a Guerra no Iraque foi uma fraude?
Por que perder o meu tempo, e o de vocês, nessas platitudes?
Quem quiser balançar a cabeça e confirmar o que já sabia que vá pastar noutras paragens. Aqui não tem capim-com-arroz.
Meu compromisso é tentar sempre mexer com suas cabecinhas, chacoalhar suas idéias feitas, chutar as bases dos seus preconceitos.
Trabalho com Internet há muito tempo. Ninguém ganha dinheiro nessa blogosfera, as pessoas podem pelo menos se ajudar. Um blog lava o outro: faço questão absoluta de linkar todo mundo que me linka.
E confesso que acho, no mínimo, falta de educação aqueles sites que eu linko aqui e que não me linkam de volta. Naturalmente, ninguém é obrigado a me linkar. Eu posso gostar do blog da pessoa e ela não gostar do meu. Acontece. Mas, igualmente, eu não sou obrigado a linkar ninguém.
Eu coloco o link aqui e espero. Não fico mendigando. Se o blogueiro tiver a gentileza de retribuir o favor, beleza. Se não, eu decido caso a caso.
Há blogs que gosto tanto que linko mesmo eles não me linkando de volta - mas sob protestos. Exceção para aqueles sites que não tem link nenhum, como o Mudança de Vida, da Francy.
O leitor Wellington Lacerda me enviou um email sensacional com uma nova perspectiva sobre o livro que eu não havia considerado:
"Alexandre,
Vc só esqueceu de um detalhezinho... ter ido ao cinema no dia da morte de sua mãe mostra um Mersault frio. Indiferente à vida. Um Mersault que pode ter matado o árabe com a frieza de quem esmaga um inseto. Esta argumentação constrói a imagem do monstro.
O acusado é inocente até que se prove sua culpa. Qualquer dúvida na culpabilidade implica a inocência. Ora, ninguém mata ninguém sem motivo, esse pensamento é absurdo.
O promotor o acusa de ter ido ao cinema por que isso FOI um crime muito maior que ter matado o árabe. Ninguém no juri saberá por que motivos Mersault matou o árabe. O promotor tem de expor os motivos do crime. Não havendo motivo, existe uma dúvida razoável sobre o crime, e Mersault está livre. Porém, se Mersault despreza a vida humana de forma monstruosa, despreza até mesmo a vida de sua própria mãe a ponto de ir ao cinema, então não resta dúvida de que ele pode ter matado o árabe sem motivo nenhum. E aí ele estará condenado pelo crime que efetivamente cometeu.
O que pode parecer uma argumentação distorcida, na verdade é uma argumentação genial do promotor e uma crítica fabulosa ao sistema.
Mantido pelas jornalistas Mariana e Isadora, o Elas por Elas é um blog delicioso sobre comportamento: sobre aquelas histórias deliciosas dos encontros e desencontros de homens e mulheres.
Toda sexta-feira, o Clube da Luluzinha abre suas portas aos machos: é o Calça Justa, onde homens selecionados têm direito à palavra uma vez por semana.
Essa sexta, o macho da vez sou eu, com um texto que escrevi especialmente para as meninas, sobre a polêmica questão da privada. Afinal, como funciona isso? As mulheres querem que a gente abaixe a tampa, ou levante a tampa, ou ambos?!
Quero saber o que vocês acham.
O bom do Elas por Elas é que a mulherada comenta mesmo, os comentários ficam pegando fogo! Vão lá, leiam e dêem sua opinião.
Se você gosta do Liberal Libertário Libertino, tem que conhecer o Elas por Elas.
Naturalmente, por mais que existam ocasionais lados bons, não há como retorcer a questão: monopólios como esse são extremamente nocivos, tanto para o consumidor, quanto para a sociedade quanto para outras empresas.
* * *
Muito antes dos portugueses pensarem em sair ao alto-mar, o mundo já vivera uma Era das Grandes Navegações. Almirantes chineses exploraram os Oceanos Pacífico e Índico, o Mar Vermelho e o Mar Arábico e chegaram até a costa leste da África, promovendo o comércio e fazendo contatos diplomáticos.
No século XV, cinqüenta anos antes de Vasco da Gama, a China, unificada sob o comando dos imperadores Ming, era a maior entidade política independente do mundo e a mais poderosa. Somente mais alguns anos dessa agressiva política naval e os chineses teriam dobrado o Cabo da Boa Esperança: sabe lá o que seria da América hoje.
A unidade da China foi sua queda. Bastou um conselheiro mais influente, um imperador mais vacilante e um lobby mais bem conduzido que, com uma só canetada, a Era das Grandes Navegações chinesas foi encerrada. Chegou-se ao extremo de impor pena de morte a quem construísse navios de alto-mar. Em pouco tempo, o conhecimento naval foi perdido.
Por decisão e poder de um único homem, a China se voltou para dentro.
* * *
Poucos anos depois, apareceram os portugueses e tomaram conta daqueles mares, praticamente sem encontrar oposição alguma. Durante esse processo, levaram armas de fogos às terras que visitavam.
Os japoneses, a princípio, até gostaram da idéia, mas aí descobriram que aqueles brinquedinhos permitiam que qualquer plantador de arroz matasse, à distância e sem risco, o mais nobre e honrado dos samurais.
Em pouco tempo, o uso e a fabricação de armas de fogo foi proibido em todo o arquipélago. Pelos próximos séculos, enquanto o resto do mundo se queimava em pólvora, o Japão continuou o paraíso das espadas
* * *
Os cavaleiros medievais da Europa também consideraram as armas de fogo anti-esportivas e revolucionárias. Muitos reis e aristocratas simplesmente se recusaram a usá-las. Leis como as do Japão foram passadas em vários reinos europeus.
Ênfase na palavra "reinos", plural de "reino".
A Europa era um continente em polvorosa, formado por centenas de pequenos países, reinos, condados, cidades-estado e repúblicas em eterna guerra uns contra os outros.
Os nobres bem que tentaram fechar a caixa de Pandora mas, em um continente tão competitivo, bastava que um malandro não aderisse ao boicote para obter uma vantagem competitiva insuportável sobre os outros. Por fim, todos foram obrigados a ceder.
* * *
Não parece, mas tudo isso foi pra falar da Microsoft.
Quase todo mundo julga que a China já ser um império unificado e independente quando os europeus ainda pintavam paredes de caverna era uma grande vantagem.
Em termos de paz e prosperidade, eu até concordo. Mas em termos de progresso científico e material, não.
Na Europa politicamente pulverizada e imersa em guerras, a disseminação de novos conhecimentos e novas tecnologias era incontrolável. Na China pacífica e unificada, qualquer capricho do imperador poderia mudar para sempre a história do mundo.
* * *
Apesar das vantagens de um mercado de informática monopolizado, a estagnação é inevitável.
Por mais que a Microsoft tente investir em pesquisas e em novas tecnologias, e acredito que tente, ela ainda assim é uma empresa só, com sua cultura, procedimento e preconceito próprios.
Nada que se compare à explosão de criatividade, novas tecnologias e novas soluções que haveria se o mercado de informática fosse mais saudável, se contasse com mais players em pé de igualdade disputando sua hegemonia.
O custo da estagnação é enorme. Não há como imaginar o quão longe já teríamos ido.
* * *
A outra grande fraqueza de um mercado monopolizado é sua baixa resistência imunológica. Mais sobre isso na semana que vem.
Uma versão editada desse texto foi publicada na minha coluna Internet, na Tribuna da Imprensa, no dia 27 de fevereiro de 2004
Quanta bobagem sobre "culpados" x "inocentes". Em que mundo de faz-de-conta você vive, no qual os personagens literários são "bonzinhos" ou "mauzinhos"? Só idiotas terminam a leitura de um livro sentindo "pena" ou "prazer" pelo destino de um personagem, como se estivesse em um daqueles rídiculos programas que simulam um tribunal.
Sua leitura d´"O estrangeiro" tem a profundidade de um pires de plástico. Para o futuro sugiro leituras mais "leves", que não exijam muito de sua cabecinha vazia, acostumada a enxergar o mundo em preto-e-branco."
"Desculpe-me, Alexandre, mas esta é uma leitura, de cunho puramente ideológico, que empobrece o literário, reduzindo-o a tratado sociológico, e, precisamente, despreza as condições, ideológicas e outras, em que foi produzida. E ainda faz aproximações indevidas. Era melhor a coerência, que o autor propala com também sua, do Bloom e da Paglia.
Aliás, o próprio fato de o autor se defender por antecipação desse modo prova o que digo. Esse impressivismo ideológico deixa de lado toda a questão da arquitetônica da obra, toma o autor como autor concreto, não objetivado na obra, enfim, uma indigência só. Se ele dissesse logo: vou fazer uma leitura tendenciosa, eu aceitaria, mas fazê-la dizendo que não faz é o cúmulo do tendencioso!"
Não entendo o que o Cláudio achou de tão patético no texto. Patética é essa atitude dos leitores. Concordo com ele, nada pior do que leituras ralas de pires de plástico que lêem obras literárias em termos de culpados ou inocentes.
O artigo é justamente pra denunciar esse tipo de atitude. Li O Estrangeiro em uma aula de estudos literários. Todos os alunos, e até o professor, entenderam o livro dessa maneira rala que descrevi.
Meu artigo justamente critica esse tipo de atitude.
Minha empresa tem conta na agência no Banco Real que fica no térreo do edifício em chamas.
Hoje, eu precisava fazer um saque substancial dessa conta pra cobrir um cheque que ia bater em outra conta. Como não queria ir até o centro pra fazer o saque, eu já tinha combinado desde a véspera com a minha gerente que a soma estaria disponível pra mim no Banco Real mais próximo da minha casa.
Pra minha surpresa, acordo essa manhã e meu banco está pegando fogo!
Foi um dos momentos mais embaraçosos da minha vida. Entrei naquele Banco Real, todas as TVs estavam ligadas no incêndio e a moça veio perguntar o que eu queria.
Ahã... Eu vim fazer um saque de muitos mil reais.
Perfeitamente. O senhor é correntista dessa agência?
Não, ahã... Daquela ali...
Ah, então tá.
Deve ter pensado: caramba, não pode nem uma agência pegar fogo que vem logo todo gaiato dizer que tinha milhares de reais depositados lá!
* * *
Última: a CET-Rio passou o dia pedindo para os cariocas evitarem o centro da cidade.
Peraí. Isso aqui virou São Paulo? Desde quando alguém precisa avisar os cariocas para evitar o centro da cidade na quinta-feira depois do carnaval?!
O debate está ficando interessante. A Dani se empolgou (como sempre) e também está falando sobre isso no seu blog, fazendo inclusive um apanhado dos melhores comentários daqui.
Acho só importante ressaltar duas coisas.
Sobre Mersault
A no seu blog escreve que a "relação do personagem com sua mãe é de amor e ódio" e que "ele odeia tudo, tudo, (...) tem nojo e horror de tudo que o cerca. Até seu amor por sua pseudo-namorada e os planos e sonhos simples dela são odiosos para ele."
Não poderia discordar mais. Se Mersault tivesse uma relação de amor e ódio com sua mãe, ele seria um filho como qualquer outro. Se Mersault pudesse odiar, ainda haveria salvação.
O problema de Mersault é que ele é moral e psicologicamente anestesiado. Ele não consegue sentir. Ele anda pela vida indiferente a tudo, quase um autista. E isso faz dele isolado e solitário. Digno de pena.
Contém spoilers: não leia se não quiser saber o fim do livro
O Estrangeiro, de Camus (1942), é uma das maiores pegadinhas da história da literatura.
Vamos aos fatos: na Argélia colonial francesa, um homem mata outro por motivo absolutamente fútil. Pior que fútil. Não havia motivo algum. Ele recebe um julgamento justo, é condenado à morte e, depois, executado.
Nada poderia ser mais straight forward, simples e previsível.
Na verdade, a grande surpresa do enredo acontece depois que o livro é fechado: subitamente, Mersault passa de algoz a herói. 99% dos leitores saem de O Estrangeiro do lado de Mersault, como se ele fosse algum injustiçado, como se ele fosse uma vítima inocente do sistema.
Camus distorce tanto nossa percepção, ficamos tão concentrados nos esforços da promotoria em condenar Mersault não pelo crime, mas por ter ido ao cinema no dia da morte da mãe, que esquecemos que Mersault cometeu, de fato, o crime pelo qual está sendo acusado! O homem é culpadíssimo!
A promotoria pode até ter provado seu caso por vias tortas, usando argumentos que nada tinham a ver com o crime, mas nós, leitores, sabemos que Mersault merece sua punição.
Ou melhor, deveríamos saber, se não caíssemos no conto de Camus.
Uma Leitura Colonialista
Não gosto muito das leituras colonialistas que alguns criticos, à la Edward Said, fazem da literatura. Jogo no time de Harold Bloom e Camille Paglia. Mas, enfim, talvez uma leitura colonialista nos ajude a explicar as causas desse fenômeno.
Podemos especular que Mersault, um branco, só mata o árabe de forma tão fútil, como se ele fosse um inseto, porque, para Mersault, ele era de fato menos que um inseto.
Do mesmo modo, durante o julgamento, o promotor convenientemente ignora os detalhes do crime e se concentra no caráter de Mersault, talvez por saber que, para um júri de brancos franceses, ir ao cinema no dia da morte da mãe é um crime muito pior do que matar um mero árabe.
Tal qual estivesse no júri, o leitor cai na mesma armadilha.
Discordamos do promotor, é verdade - coitadinho do Mersault, condenado por falar a verdade, por não ser hipócrita, etc - mas concordamos com ele em relação a quais são os fatos essenciais do caso. Nós também só colocamos em questão o caráter de Mersault.
Deixamos o promotor desviar nosso olhar do árabe morto na praia e não pensamos mais nele. Jamais, em hora alguma, consideramos o árabe como um ser humano igual a nós, cujo bárbaro e unprovoked homicídio merece uma punição apropriada.
Nós, o júri, a acusação, Mersault, todos relegamos a humanidade da vítima para segundo plano.
O Legado de Mersault
O Estrangeiro é uma obra imortal. Daqui a mil anos, quando os jovens quiserem estudar o que foi o século XX, vão ler Camus. E, pior, vão entender tudo, de Hitler à Guerra Fria.
Pois O Estrangeiro prenuncia e simboliza todo o vazio moral da nossa era.
Uma população tão crédula que se deixe levar por essa narrativa aparentemente inocente, ou tão anestesiada moralmente que se deixe desviar com tanta facilidade da questão fundamental - o homicídio, bem, essa vai ser a população que vai apoiar o nazismo e o comunismo, o macartismo e o golpe de 1964.
Cordeirinhos. Inocentes úteis. Pessoas que estavam só seguindo ordens.
Pior, O Estrangeiro é um dos precursores da maldita Escola Urbana que, ao longo das décadas seguintes, nos legaria Rubem Fonseca, Chico Buarque e Marcelo Mirisola.
Tomara que os alunos do terceiro milênio também leiam Garcia Marquez ou Milan Kundera. Pra ver que nem tudo era desgraça no século XX. Que nem todos caíram no golpe do Mersault.
Da Série Leitores Satisfeitos:
Nelson da Praia: "Quando Vi Tinha Lido Tudo"
O Nelson da Praia, um dos melhores blogueiros desse país, me mandou o seguinte email:
"Confesso que comecei a ler sua novela (permita-me a liberdade terminológica) meio que imbuído de uma obrigação de blog buddy: fazer o quê, né? ele pediu tão educadamente, terminei o serviço mais cedo aqui na agência, não custa dar uma olhadinha nas primeiras páginas...
Quando vi tinha lido tudo. Notável seu senso de ritmo, timing, condução de personagens. Um defeito ou outro que sua novela possa ter ocorreria em qualquer autor consagrado, pode ter certeza. Bola para a frente. Bata na porta, dispare a campainha das editoras. Você merece."
Nelson, esse elogio, vindo de quem vem, é uma delícia de receber. Obrigado.
E você, que gosta desse blog, vem aqui sempre, mas ainda não leu o romance, não acha que já está na hora, não? Você pode fazer o download em versão para imprimir ou para ler na tela.
Já falei aqui sobre o autor como manipulador. Qualquer bom autor sabe fazer seu leitor ir aonde ele bem quiser, como um treinador balançando o osso na frente do cachorro. A good author can get away with anything.
Acho isso especialmente interessante de se reparar nos heróis que não são heróis e nos vilões que não são vilões.
Twister, o Filme
Já repararam que os vilões do filme Twister não fazem nada de malvado? Nada. Nem uma vilaniazinha sequer.
Eles se vestem de preto, dirigem vans pretas e são competitivos. Além disso, seu líder é antipático e metido. Uuu, que medo! Será que vão querer conquistar o mundo?
Os pretensos vilões são cientistas, assim como os heróis, querendo apenas fazer seu trabalho em prol da ciência.
Única e exclusivamente por causa do modo tendencioso como a história é contada, eles ficam parecendo grandes vilões sem ter feito nada para justificar a fama. Quando morrem (ahã... não seria talvez um castigo grande demais para tão pouca vilania?) ninguém sente pena deles.
Bem feito! Quem mandou se vestir de preto!
Celebridade
Na novela Celebridade, Darlene é do bem e Beatriz é do mal. Por quê? Porque o autor quis, claro. E você caiu.
Darlene é simpática e pobrezinha, mas tem muito mais maldades no seu currículo do que a Beatriz. Por exemplo, sente inveja mortal do sucesso de sua amiga, Jacqueline, uma emoção nada bonita.
Além disso, ter tentado armar um flagrante de adultério só pra se promover, sem pensar que isso iria acabar com o casamento do Nelito e causar muita dor à sua família, já seria considerado uma vilania inaceitável em outras novelas. Maria de Fátima, em Vale Tudo, vilã de carteirinha, nunca desceu tão baixo.
Mas Darlene é tão gente boa que esquecemos com facilidade seus escorregões morais.
E Beatriz? Tudo bem, ela é antipática, rica, mimada e preconceituosa. Vilã!, bradam todos. Pra fogueira com ela! Mas o que ela fez de fato? Beatriz fez alguma maldade contra alguém? Se sim, foi em algum capítulo que perdi.
Apesar de suas falhas de caráter gritantes, Beatriz está apenas tentando salvar seu casamento e recuperar seu marido. Tem ódio da amante do marido, mas quem não teria? Atazana a vida do filho, mas que mãe não atazana?
Gilberto Braga apresenta positivamente uma personagem que faz as piores maldades para ficar famosa e, pronto, ela vira uma das mocinhas. Por outro lado, apresenta negativamente uma outra que não faz nada de mais e ela se torna vilã.
É lindo ver como o autor manipula os telespectadores ao seu bel-prazer.
Tudo isso é pinto, aliás, perto do que Camus fez em O Estrangeiro.
(amanhã, O Estrangeiro, de Camus, a maior pegadinha da história da literatura...)
Deu no The Onion:
Massachusetts Supreme Court Orders All Citizens to Gay Marry
Alguns destaques:
"As we are all aware, it's simply not possible for gay marriage and heterosexual marriage to co-exist," Massachusetts Chief Justice Margaret H. Marshall said. "Our ruling in November was just the first step toward creating an all-gay Massachusetts."
Marshall added: "Since the allowance of gay marriage undermines heterosexual unions, we decided to work a few steps ahead and strike down opposite-sex unions altogether. Instead of spending months or even years volleying this thing back and forth, we thought we might as well just cut to the eventual outcome of our decision to allow gay marriages," Marshall said. "Clearly, this is where this all was headed anyway."
Without the order, Rep. Michael Festa said the vote, and his personally dreaded wedding to House Speaker and longtime political opponent Thomas Finneran, would be delayed.
"This is a victory, not only for our state, but for America," Festa said. "Simply allowing consenting gay adults the same rights as heterosexuals was never the point. By forcing everyone in the state into a gay marriage, we're setting the stage for our more pressing hidden agendas: mandatory sodomy and, in due time, the legalization of bestiality and pedophilia."
Massachusetts has one of the highest concentrations of gay households in the country, at 1.3 percent, according to the 2000 census. Under the new laws, the figure is expected to increase by approximately 98.7 percentage points."
Um leitor me escreveu o seguinte sobre a coluna de 17 de fevereiro, A Morte de Um Dentista:
"No mundo em que vivenos, ninguem sobrevive se não declara profissao ou atividade, seja ele branco, ou negro ou amarelo ou spook! Ser negro confere a condiçao de martir e vitima de holocausto, diferente de um branquelo qualquer que se negue a ser abordado pela PM que arrisca a ser fuzilado. Ja passei por constrangimentos, um PM até chegou a enfiar o dedo ndentro do cu pra procurar uma madita droga, e ainda por me expulsou da praçinha, enquanto um criollinho qualquer vindo do interior tentando a sorte na cidade grande foi liberado sem mais, enquanto eu fui atingido na minha dignidade e não obtive seuqer um pedido de desculpas da dupla de P´ms. Esse recem formado é apenas uma vitima como outra qualquer do abuso e delinquencia policial. Ou sera que por ser negro vindo do reino de zumbi lehes confere imunidade, e eles podem praticar um sem numero de crimes em nome da opressao que vem historicamente sofrendo´? Sera esse mais um capitulo da Cabana do Pai Tomas?"
"Eu queria só ter uma pergunta respondida: Por que você escreve esse blog? (Não é para dizer o quanto é brilhante?)"
Ilusão de Ótica
Cetecler, eu agradeço os elogios, mas não sou brilhante e nós dois sabemos disso. Somos homens lidos: podemos puxar da cartola, sem precisar pensar muito, dezenas de nomes de pessoas realmente brilhantes.
Um dos problemas do Brasil é que nossos padrões são baixíssimos. Como disse o Polzonoff uma vez, o Brasil é um lugar onde o Jô Soares é visto como intelectual:
"Considero-o emblemático. Um verdadeiro símbolo do que é a inteligência para nós, brasileiros. Uma pessoa que assistir ao Programa do Jô todos os dias e reparar na platéia vai entender porque o Brasil é um país atrasado. (...) Sinto um quê de decepção ao ver que Jô Soares é o máximo a que se almeja chegar, intelectualmente, no Brasil."
Eu até admito que eu possa parecer brilhante pra algumas pessoas, aquelas que só leram Paulo Coelho e Sidney Sheldon, que nunca tiveram um professor carismático na escola, que só visitam blogs ki falaum axxim, etc, mas é ilusão de ótica. Se evoluírem além desse estágio, vão descobrir que não sou nada de mais.
Para acelerar esse processo de evolução, eu recomendo que leiam meus mestres: Henry Miller, Walt Whitman, Henry Thoreau, Ralph Waldo Emerson, La Mettrie, Roberto Freire.
Quem gosta do que eu falo vai gostar mais ainda de beber na fonte. E vão perceber o meu verdadeiro tamaninho.
Humildade
Por favor, não estou sendo humilde. Eu desprezo a humildade e os humildes com todas as minhas forças. Não me conformo de algo tão nocivo e pernicioso quanto a humildade ser considerado virtude.
Ou a pessoa é humilde mesmo, e só merece desprezo, ou é uma falsa humilde, e aí é uma hipócrita. De qualquer modo, não há salvação para os humildes até que fiquem de pé e reconheçam o seu próprio valor.
Sobre o Blog
O primeiro aniversário desse blog está chegando e vou escrever alguns textos sobre como ele nasceu, porque foi criado e o que ele já conseguiu alcançar. Enquanto isso, acho que vale uma resposta rápida.
Escrevo esse blog por 3 motivos:
1) Disciplina
Passei 2002 quase sem escrever e queria um motivo para voltar a escrever sempre, todos os dias, e bem.
2) Divulgação
Daqui a pouco, vou começar a tentar vender livros por aí e seria bom não ser mais um completo desconhecido. Além disso, para um escritor freelancer, um blog é um portfólio maravilhoso.
3) Exposição
Parte do meu projeto de libertação e descoberta pessoal inclui eu me expor ao mundo, sem máscaras, sem medo de preconceitos ou da opinião alheia. Meio que como aquele passo dos Alcóolicos Anônimos em que você procura as pessoas que feriu e pede desculpas.
Aviso aos blogueiros: vou começar a fazer uma limpa na coluna da esquerda. Afinal, não dá pra só entrar, entrar, e não sair ninguém. Vou tirar os links quebrados, óbvio, e também links de gente que não dá as caras há muito tempo.
Se eu por acaso tirar o seu, e você ainda ler esse blog e perceber!, basta me avisar que eu ponho de novo.
Só não quero é ficar linkando pra gente que o caminhão já pegou faz tempo.
Eu fui reclamar do meu ego grande e o novo leitor Guilherme sugeriu:
"As vezes sinto a mesma coisa q vc no meu blog...mas escrevo bem pior q vc e quando leio blog tipo o seu vejo como eu sou um coco...procure ler outros blogs e verá q naum é tão bom assim"
Pô, Guilherme, o pior é que ler outros blogs não dá certo.
Há exceções, graças a deus. Outro título para os Blogs Favoritos poderia ser Gente que Manda Melhor que Eu. O Soares Silva, o Polzonoff, a Violeta, o Milton, a Tata, o PC, o Plausível, o Porfírio, o Zé, o Sérgio, o Inagaki, o Edson, a Dani, a Mariana e a Isadora, estão todos aí pra provar que eu não sou o único que manda bem nesse mundo.
Mas não foi fácil garimpar essas pérolas.
Você Se Acha Muito Inteligente, Não É?
Quando fiz faculdade, tinha uma senhora burríssima na minha turma. Ela se sentia completamente inferiorizada perto de mim e algumas vezes ficava agressiva. Um dia, ela se emputeceu e bradou, no meio da turma:
Você se acha muito inteligente, não é?
E eu respondi, com muita calma e sinceridade: não me acho, não; só pareço assim comparado à cavalgaduras como a senhora.
Foi um momento chato.
Eu Cresço É na Comparação
Eu gosto de ficar sozinho.
Quando estou sozinho, entro em contato comigo mesmo e todas as minhas limitações e defeitos afloram. Quando estou sozinho, tenho noção perfeita de tudo o que me falta aprender, sobre mim mesmo, sobre a vida, sobre a arte. Quando estou sozinho, eu me sinto o último dos homens. Sinceramente, não me acho nem um pouco inteligente, nem um pouco talentoso, nada. Sou um pobre mamífero com um longo caminho a percorrer.
Meu problema são os outros. Eu cresço é na comparação.
Converso com as pessoas e fico horrorizado com sua pequenez. Elas são burras, incultas, preconceituosas, medrosas.
O medo talvez seja o que mais me me surpreende. Vejo adolescentes abdicando dos seus sonhos por medo do futuro, procurando carreiras seguras, pensando em emprego estável. Vejo quase todos tomados por um irresistível medo da vida. Pior, medo de si mesmos, de descobrir quem realmente são.
Eu juro que não me acho nada de mais. Mas basta passar duas horas com os humanos que começo a me considerar quase um buda. Meu ego ameaça alçar vôo e eu me sinto mal, minha própria arrogância me intoxica, e bate aquela necessidade de ficar sozinho de novo, de tentar reencontrar a perspectiva de minha própria pouca importância.
Quando fujo das pessoas não é por não gostar delas, mas por não gostar da pessoa que eu me torno perto delas.
* * *
Escrever isso não foi fácil. Sei que confessei coisas impopulares. Mas, como disse na Prisão Conformismo, estou perdendo a capacidade de prever qual será o impacto das minhas palavras. Já não sei mais o que as pessoas vão achar de mim. E também não ligo. Falo. E conto com vocês para o feedback.
Tem um stalker mandando emails para os meus leitores. Eu peço: não respondam.
Não há palavra para stalker em português. É alguém que fica te perseguindo, te atazanando, ligando pra sua casa obssessivamente, seguindo você onde quer que você vá. Mulheres e celebridades são vítimas preferenciais dos stalkers.
Só há um jeito comprovado de se lidar com eles: ignorá-los.
Pensem comigo: um stalker da Xuxa, alguém que acampe no quintal da casa dela, deixe 495 mensagens na secretária e fique seguindo-a pela rua, quer, antes de mais nada, um relacionamento com a Xuxa. Quer um diálogo.
Se a Xuxa não responder, provavelmente ele vai cansar e vai se fixar na Malu Mader.
Se a Xuxa responder, mandar ele se fuder, soltar os cachorros nele, entrar com uma ação cautelar, ela vai estar presenteando-o com tudo o que ele mais quer: uma relação com a Xuxa. Ele agora não é mais apenas o Zé Ninguém do Engenho de Dentro. Ele é o cara perseguido pelos seguranças da Xuxa. Ele é o cara sendo processado pela Xuxa. Já criou-se um vínculo.
Não precisa ser celebridade para ter um stalker. Qualquer mulher já passou por isso. Tem sempre aquele mala que não se toca, não aceita um não como resposta.
É difícil não fazer nada, mas não há outro jeito.
Se o stalker deixa 20 recados na sua secretária, e você aguenta firme, dá o desprezo absoluto, mas aí, na 21ª ligação, você perde a paciência, tira o telefone do gancho e manda ele a merda, fudeu.
Fudeu porque você acabou de quantificar claramente que o custo de obter sua atenção, de criar um diálogo (que é, afinal, tudo o que ele quer) é de vinte ligações. Pode ficar certo que ele vai ligar, no mínimo, outras vinte vezes.
Chatos e malas em geral não devem nunca ter o privilégio de saber a irritação que nos causam. Deixe que fiquem apenas imaginando. Não responda. Não brigue. Não xinge. Sejam grandes! - nem que apenas por pragmatismo.
Stalkers têm a capacidade de concentração de uma mosquinha. Sem feedback, eles esquecem o que estão fazendo em cinco minutos.
* * *
Sei que esse próprio post vai contra os meus conselhos.
Sim e não. Por um lado, estou dando ao retardado uma atenção que ele não merece e que nem sua mãe lhe dá. Em um primeiro momento, ele vai ficar mais saidinho, sim.
Por outro lado, sei que ele está escrevendo pra muitos de vocês e que vocês estão dialogando com ele, brigando, respondendo. Isso é um erro. Não façam isso.
Depois desse post, eu vou passar a ignorar a existência do engracadinho. Nem os posts dele eu vou mais apagar. Se vocês também fizerem isso, vão ver que antes do fim do carnaval ele já vai ter arranjado outro brinquedo.
E peço desculpas pela aporrinhação. Obviamente, foi tudo culpa minha.
Sério. Eu imploro. Sabe aquelas roupas pré-lavadas? Que você não precisa lavar? Pois é. Eu sou pré-elogiado, não precisa elogiar.
Meu ego já é grande demais, isso não faz bem. Critiquem. Perguntem. Opinem. Caiam de pau. Mas não me elogiem.
Cada vez que recebo um elogio, eu me sinto mal. Penso: será que mando bem mesmo? Não pode ser, não acredito nisso. Mesmo que mande, melhor achar que não mando, melhor me iludir, pra eu não deitar em berço esplêndido, pra eu continuar tentando me melhorar. Senão, fudeu.
Sabem aquele escravo que, nas grandes celebrações do Império, ia atrás de César sussurando: "Lembre-se, você é apenas humano"? Pois é disso que preciso.
Meus amigos já estão todos pré-avisados. Na remota possibilidade de eu algum dia virar uma pessoa pública, eles terão que confirmar que não foi o sucesso que me estragou. Ele sempre foi metido e insuportável, dirão nas coletivas para a imprensa, mesmo quando não era ninguém.
Gosto de saber que tem gente que lê o que escrevo e odeia. Sente nojo. Me acha pretensioso, óbvio, pedante. Eu me sinto confiante na humanidade. Penso: meu deus, nem todo mundo caiu no meu blefe, ainda há esperanças!
Como não dá pra reler Coelet todos os dias, o único crítico com quem sei que posso contar é o Oliver, o meu poodle.
Tenho um prazer perverso em chegar na área e ver minha última coluna espalhada no chão, amarelada de mijo, um cocô enorme em cima do meu nome.
É um banho de água fria no ego. É um exemplo concreto da transitoriedade das vaidades humanas. E é uma aula de jornalismo.
Todo jornalista que se preze deveria ter um cachorro em casa para poder ver concretamente (ver e cheirar, claro) qual é o destino inevitável de tudo o que escrevemos.
O Oliver quer nem saber: pode ser a última coluna bombástica do Hélio Fernandes, pode ser uma notinha boba do Márcio G., pode ser até uma crônica genial da Clarah.
Acabei de criar a Galeria de Honra do LLL, cujo objetivo explícito é divulgar os santos que colocam meus botões ou banners nos seus blogs ou sites.
Os botões disponíveis podem ser vistos nesse post ou na coluna da esquerda, ao lado, e as banners estão nessa página, sempre destacando uma frase marcante do blog. Eles são bonitos, elegantes, diferentes, intrigantes e, melhor de tudo, não piscam.
Todo mundo ganha nessa divulgação. Eu vou ter os meus botões e banners espalhados por aí, e você vai ter seu link em uma área nobre aqui do blog, acima até mesmo dos Blogs Favoritos. Garanto que vou lhe mandar vários novos leitores.
Se você já gosta desse blog e vem sempre ler as novidades, pense com carinho nessa proposta. Colocar um botão no seu blog vai inclusive facilitar as suas vindas pra cá, ao invés de você ter que ficar o tempo todo digitando URLs. Pra mim, por exemplo, meu blog é a minha lista de favoritos: só visito os sites que estão linkados aqui.
Muitas fotos nuas da Antonela, do Big Brother Brasil (BBB4), fotos da Antonela na Playboy, fotos da Antobela de tudo quanto é jeito.
Aprendi esse truque na revista Mad. De vez em quando, o Ota fazia uma capa bombástica com um tema do momento, tipo "A Morte do Super-Homem" e vinha escrito, em letrinhas miúdas, logo acima do título: "nada sobre". Sempre vendia.
"Alexandre Cruz é um nome que nada diz a ninguém e que NINGUÉM LERIA SE NÃO SURGISSE NA INTERNET A REBOQUE DO PROFESSOR DOUTOR SERGIO VIEIRA DE MELLO."
Se ele tivesse só trocado Sérgio Vieira de Mello por Antonela seria quase verdade.
O meu truque, tão óbvio, está sendo citado pela internet como se fosse alguma grande descoberta da pólvora. No fórum Ciência da Computação, alguém comentou:
"Galera, descobri hoje um geito alucinante de encher o fórum de visitas. É o seguinte, o seguinte blog http://liberallibertariolibertino.blogspot.com/ postou um artigo incluíndo o nome da Antonella umas 50 vezes. O Google indexou o site do cara e ele recebeu mais de 1000 visitas num dia. Bom, em compensação ele recebeu alguns comentários meio desapontados. Tentei postar o link, mas não rolou, quem quiser ver vai ter de entrar no site (endereço acima) e achar o post da Antonella (aconselho usar o Ctrl+F)."
Os punheteiros da Antonela estão caindo de pau em mim, claro. Deixa eles. Ainda bem que só podem segurar o pau com uma mão, pois com a outra... Bem, pensando bem, com a outra também. Que me processem por propaganda enganosa. Vai ser o processo de propaganda enganosa mais flagrante desde o caso de Lionel Hutz contra A História sem Fim.
Por que fiz isso?
Estou sempre buscando por novos leitores. Quem não corre atrás, fica pra trás. Aprendi o valor do marketing braçal já no SobreSites.
Para divulgar o post sobre a Prisão Preconceito, me inscrevi em todos os fóruns e grupos de discussão sobre racismo. Escrevi sobre os Dilemas da Tradução e podem ficar certos que entrei em todos os grupos de tradutores e dubladores para chamá-los pra conversa. E ainda peço sempre aos leitores queridos que repassem os emails a quem quer que possa se interessar.
Fiz o primeiro comentário sobre a Antonela de pura gaiatice, porque não levo nada a sério mesmo e estou sempre zoando. Nunca imaginaria o tamanho do impacto.
Levei um susto com tanto punheteiro entrando aqui e voltei atrás.
Depois, parei de viadagem e coloquei de novo: ah, foda-se.
E daí? Ralo pra caramba pra trazer leitores pra cá, deixa eles virem. Podem estar com esperma na cabeça agora, mas talvez sejam pessoas semi-racionais. Se 1% deles passar os olhos pelo blog, ler, gostar, salvar e voltar já valeu a pena.
Afinal, a brincadeira não me custa nada e o retorno é astronômico. Considerem.
Janeiro foi meu melhor mês. O blog teve uma média de 250 pageviews por dia, com picos ocasionais de até 500, chegando a um total de 8500 no mês. Somando com os pageviews do site, 16 mil páginas escritas por mim foram lidas somente em janeiro. Pré-Antonela. É bastante coisa. As estatísticas são abertas ao público e podem ser conferidas aqui e aqui.
Em fevereiro, por causa da Antonela, o blog bateu 2400 pageviews no último domingo, 3400 na segunda (meu aniversário) e 3200 na terça.
Ou seja, em apenas três dias, 9000 pessoas passaram pelo blog, mais do que em todo o mês de janeiro, meu melhor mês. Se somente 1% desses, 90 pessoas, se converterem em leitores, já vai ser bom demais.
Tudo bem, eu admito, há a qualidade dos pageviews. Os 8500 de janeiro foram meus leitores mesmo, legítimos. Os trolhões que estão vindo em fevereiro, quem sabe?
Mas não quero deixar os mãos-peludas órfãos.
Antes de terminar, uma foto da Antonela, a melhor foto dela que consegui arranjar. Confesso que acho a Antonela uma loirinha muito da sem-graça e irritante. Não acho sexy mulheres feitas que se comportam como meninas. Acho debilidade mental, mas enfim.
Nessa foto, pelo menos, ela está com uma expressão adulta no rosto, ao mesmo tempo safada e perversa, sorriso contido querendo explodir no rosto. Também adorei a sensualidade de sua mão, com esse dedão assim em riste, e o contraste da pele da palma com das costas da mão.
Eles se autodefinem como "um Blog Sobre Socialistas-Caviar, Esquerdinhas-Chique, Viúvas da União Soviética, Patricinhas Guevarinhas de Butique, Playboys metidos a revolucionários e Fascistas de Esquerda em geral".
Minha irmãzinha, que é quem me explica as coisas, fez o seguinte comentário sobre o artigo Em Defesa do Monopólio:
"Uma terminologia nova foi criada em economia para descrever bens como a Microsoft: bens de clube. Sao bens, como vc bem descreveu, que a principal caracteristica deles eh que sao tanto melhor, quanto maior for a quantidade de pessoas que os utilizem tambem. Antes um programa que de pau do que um programa que nao pode ser aberto por um numero significativo de pessoas com quem vc deseja interagir.
Quando morreu Sérgio Vieira de Mello, em agosto, escrevi um artigo sobre ele. De vez em quando, pingam umas reações tardias. Vejam o que tinha a dizer o leitor John Smith , cuja tecla CAPS LOCK estava descontrolada:
"ALEXANDRE, Tenho estudado seu caso lendo suas carnavalescas performances literárias. Aconselho você a escrever «a vida afetiva e emocional de Lulla da Silva» OU « os amores de Annan Secretário Geral», com sucesso garantido, ENFRENTANDO ASSIM, NUM GESTO DE DIGNIDADE, OS VIVOS QUE O POSSAM OLHAR CARA A CARA, EM VEZ DE SE ESCONDER NO SILÊNCIO DOS MORTOS E SE SERVIR DELES PARA SE DAR A SI PRÓPRIO A CONHECER JÁ QUE Alexandre Cruz é um nome que nada diz a ninguém e que NINGUÉM LERIA SE NÃO SURGISSE NA INTERNET A REBOQUE DO PROFESSOR DOUTOR SERGIO VIEIRA DE MELLO QUE MERECIA DE SI RESPEITO PELOS VALORES QUE DEFENDEU E PELO TRABALHO QUE DESENVOLVEU EM TODO O MUNDO E DE MANEIRA ESPECIAL EM ÁFRICA ONDE HÁ CARÊNCIAS E PROBLEMAS HUMANOS DE TODA A ORDEM. MAS VOCÊ NAÕ CONHECIA NEM CONHECE!
Diz você ser escritor e com aspirações literáriAs e convencido de ter humor. Ora o que eu vejo é você num mundo paralelo e vazio de sentido convencido de que é o centro do universo e de que os outros assim o vêem. «ESPELHO, ESPELHO MEU,DIZ-ME : naõ há ninguém mais belo do que eu!!!» UM PARENTESIS COM UMA PERGUNTA : VOCÊ É FILHO ÚNICO ? SEUS PAIS TIVERAM VOCÊ TARDIAMENTE ? Você é inteligente e se se REpensar poderá desenvolver mesmo seu talento e atingir outro tipo de público que o RESPEITE e lhe reconheça mérito. «ENTÃO???...» Você ainda é muito novo e ser escritor não é coisa imediata e fácil. Espero ainda um dia cruzar-me com você, já com sucesso merecido, em uma feira internacional de livros, e poder felicitá-lo cara a cara. John"
Um leitor me escreveu, disse que adorou o blog, mas que não teve tempo de ver direito: iria voltar depois para ler mais. Deixei passar uns dias e perguntei, inocentemente:
"E aí, já teve chance de voltar lá e se refastelar?"
Ao que meu leitor respondeu:
"Eu agradeço pela resposta, apesar de não fazer idéia do que significa "refastelar" (nem o Aurélio nem o Gamma possuem essa palavra, se você puder me esclarecer...)"
Fiquei encucado. Procurei no Houaiss e nada. Nem mesmo nenhuma outra palavra parecida, de radical semelhante.
Ao contrário da maioria das pessoas, eu não idolatro dicionários nem deixo que eles definam as palavras por mim, mas não consigo deixar de achar estranho quando dois bons dicionário não trazem um verbo que sempre usei e que é básico no meu vocabulário.
Será que sou eu que estou ficando maluco?
Busquei por refastelar no Google e observem alguns dos resultados:
"Se puder, dê uma volta numa "gaivota", sentindo a densidade tranquila das águas do Rio Vizela, que nasce um pouco antes. Pode levar um bom merendeiro, refastelar-se durante uma tarde nas margens do açude, acompanhado da família e do cirandar de crianças e aves, em voos de liberdade." (guia de camping português)
"Uma foca aproveita para se refastelar rapidamente com a bola de isco de sardinhas, dando um novo sentido à fast food." (edição portuguesa da revista National Geographic)
"Por exemplo, O Dr. Liesen observou que os atletas de futebol tinham tendência para, entre as sessões de treino, se limitarem a refastelar-se e a ver televisão, ficando as suas mentes quase num estado de vegetal." (site técnico de fisioterapia esportiva de portugal)
"Largaram ao romper da manhã, mal dizendo adeus à família e aos vizinhos, ainda a rebolarem na enxerga da cabana indecisos entre erguerem-se e conquistar o dia ou ficarem a refastelar-se no calor dos corpos e da palha." (narrativa de ficção portuguesa)
"Nos portos onde parávamos, éramos agraciados por muitas delícias típicas da culinária cabocla, que sempre foi o meu encantamento maior _ cozinhar, refastelar-se à mesa, dar prazer gastronômico aos outros : esse era meu sonho..." (site de turismo e culinária do Amazonas)
"Assim, poupando uns trocos aqui e ali, já talvez dê para comprar depois o Cinema Display... mas ver um filme num Mac, ainda assim, não se compara em vê-lo lá na sala, num bom ecrã, bom som e pipoca doce ou salgada. Hmmm, afinal sempre vou tirar o cu da cadeira... para me refastelar lá no sofá, as luzes já se estão a apagar... "Vou já, querida!" (site português sobre DVDs)
"Enrolei pra dizer que meu programaço de sexta é sair com a minha mãe e suas amigas velhas pra fazer lanchinho das 18 hs, na casa de mais uma coroa, se refastelar de tanto comer, e voltar pra casa sonolenta e pum...cama pra que te quero." (blog de uma carioca)
"O que se sabe ao certo é que os seus amigos são vadios que se amotinam pelas ruas da cidade; as suas mulheres, meretrizes. O Malcozinhado, bordel de má fama lisboeta, é o lugar preferido para refastelar-se. Gosta de fitar o sexo oposto. Assedia, fala, canta. É jocoso. Convida a dançar, cheiro a cravo." (site português sobre a vida de Camões)
Hmm... Detecto um padrão? Pelo visto, adquiri o uso de uma palavra que só os portugueses ainda usam. Quer dizer, tirando um ou outro blogueiro carioca e o pessoal do amazonas.
Fui tirar a prova. Chamei a patroa, amazônica de carteirinha, e perguntei o que era refastelar. E ela sabia.
Não conto o final da história. E vocês, o que acham?
O blog daqui a pouco fará um ano de existência. Como parte das comemorações, quero rebatizá-lo. A verdade é que o nome Liberal Libertário Libertino é bem preciso e até simpático, mas é um jogo de palavras velho e gasto.
Tenho algumas opções.
Tudo, o Tempo Todo.
Esse é o meu lema pessoal.
Enlouquecendo Cedo Demais.
A descrição bem precisa de um leitor sobre o que está acontecendo comigo.
Alexandre Cruz Almeida
Meio ególatra, mas o pior mesmo é que vai ser confundido com o Alexandre Soares Silva.
E vocês, o que acham? Têm alguma preferência entre esses três? Têm alguma outra sugestão?
A casa vai ficando progressivamente imunda. Como somos pobrezinhos, eu e minha mulher tentamos limpar tudo nós mesmos, mas a sujeira vai acumulando. Em um dado momento, temos que admitir: está demais pra nós. Hora de chamar a faxineira pra dar uma geral.
Aí, pasmem!, na véspera da faxineira chegar, minha mulher passa o dia inteiro limpando tudo e a casa fica um brinco.
Não entendo nada: mas criatura, não concordamos em chamar a faxineira justamente porque não tínhamos como dar conta disso?! Aí você vai e limpa tudo? Amanhã a faxineira vai fazer o quê? Ver novela, tomar café, ler jornal?
Diz minha mulher: ah, sei lá, tenho vergonha dela chegar e ver a casa assim imunda, o que ela iria pensar de mim?
Tomara que ela nunca seja presa, senão periga de nem ligar pro advogado. Com vergonha dele ver ela assim presa.
Ninguém duvida que a Microsoft detém um virtual monopólio do mercado de software.
Monopólios são desencorajados e desmembrados pelo governo por uma razão simples: preço. O monopolista impõe o preço que bem entende e o consumidor é que paga a conta.
Para o usuário doméstico, entretanto, esse monopólio em particular não pesa no bolso. Só pagam por software Microsoft as empresas que não podem correr o risco de usar versões piratas. O consumidor médio, em geral, nem sabe quanto custa um Windows.
Talvez por isso o monopólio da Microsoft incomode menos do que outros monopólios e possíveis monopólios, como o das bebidas, aviação, telecomunicações e chocolates.
Além disso, o monopólio do mercado de software também tem um lado bom que poucas pessoas enxergam.
Um Mundo, Uma Língua
Eu já trabalhei como professor de inglês e português para uma multinacional latino-americana no Rio de Janeiro. Eu ensinava os executivos expatriados latinos e norte-americanos a falar português e ensinava os brasileiros e expatriados latinos a falar inglês. Brincava que, sem mim, os funcionários da empresa só se comunicariam por sinais.
Melhor do que ninguém, eu sei quanto dinheiro aquela empresa gastava com "localização de conteúdo." Foi assim que paguei minha faculdade.
Imagine agora os seguintes cenários. Você faz uma apresentação em Power Point para ser mostrada na empresa do cliente. Você escreve um trabalho escolar no Word e leva para sua reunião de grupo. Você cria um site otimizado para ser visualizado no Explorer.
Parecem coisas simples, porque estamos habituados a elas, mas não são. Meio como naqueles filmes de ficção científica em que os personagens desembarcam em um mundo desconhecido e já saem conversando com os habitantes, como se não houvesse diferenças de língua.
Os cenários descritos são simples (e baratos) por causa do monopólio da Microsoft. Podemos fazer uma apresentação em Power Point e levar para um cliente sem medo pois não há chances de ele não ter o Power Point instalado em alguma de suas máquinas. Qualquer um tem Word, a maioria dos internautas usa o Explorer.
Raramente pensamos como isso facilita a nossa vida.
Imagine dezenas de pequenas, médias e grandes empresas disputando um mercado de software vibrante e competitivo. Imagine cada uma delas com seu próprio programa de apresentações em slides, o seu editor do texto, o seu navegador de Internet, com formatos de documentos e especificações diferentes.
Imagine ter que levar uma apresentação a um cliente sem fazer idéia de qual software ele usa - pois não há marca dominante no mercado. Imagine o inferno que seria desenvolver sites que pudessem ser corretamente visualizados em uma dúzia de navegadores diferentes.
Estudo de Caso: Internet
Houve época em que o Explorer e o Netscape disputavam o mercado dos navegadores. Lutei bravamente pelo Netscape, de 1996 até 1999, até que desertei para o lado inimigo. Hoje, o Netscape está praticamente extinto e os outros navegadores têm participação ínfima no mercado. 99% dos visitantes do meu site usam Explorer.
Desenhar sites que sejam otimizados tanto para o Netscape quanto para o Explorer dá um trabalho danado. Participei da criação de um portal cujo lançamento foi adiado em cinco meses só porque o cliente (sabiamente) exigia que o site fosse visualizado igualmente bem nos dois navegadores.
Não foi fácil. Elementos gráficos que ficavam lindos no Netscape apareciam truncados no Explorer e vice-versa. O design do site acabou tendo que ser muito simplificado para que os elementos restantes fossem bem visualizados em ambos os navegadores. Deu um trabalho danado, mas conseguimos.
Pensem nos custos. O cliente teve que pagar quase 40% a mais apenas para garantir que seu site fosse bem visualizado pelos cerca de 8% de linhas-duras que ainda usavam o Netscape naquela época.
Imagine se houvesse dezenas de navegadores competindo por esse mercado. Das duas, uma.
Para que os sites pudessem ser bem visualizados por todos esses navegadores, o padrão gráfico e funcional da web teria que ser ridiculamente baixo. Ainda estaríamos navegando por sites somente-texto, com aquela cara meio 1995.
Esse foi o lado bom.
Pior, designers e clientes não conseguiriam se contentar em fazer sites simples. Baseados nos perfis de seu público-alvo, as empresas criariam sites lindos, otimizados para um ou dois navegadores específicos, e que simplesmente não funcionariam em nenhum outro.
A Internet se dividiria em feudos e os feudos se subdividiriam em tribos. Nossa capacidade de navegação seria limitada pelo nosso navegador. Profissionais da Internet, como eu, que por obrigação profissional têm que ser capazes de entrar em qualquer site, teriam que ter dezenas de navegadores instalados e ficar alternando entre um e outro. Usuários de internet comuns jamais se dariam a esse trabalho e acabariam confinariados aos sites visualizáveis em seu navegador.
As maiores empresas de internet acabariam criando diferentes versões de seus sites, em URLs diferentes. Assim, haveria o www.yahoo-browserX.com, www.yahoo.browserY.com e por aí vai, cada um com sua cara diferente, de acordo com as especificações e limitações de cada programa.
Os custos de criação e manutenção de sites iriam subir absurdamente, assim como o custo de entrada no mercado de Internet, que ficaria proibitivamente alto. Mercados que até hoje ainda não conseguiram se padronizar e se estabilizar (como a publicidade on-line) não teriam a menor chance.
A Internet seria um negócio menos atrativo e menos acessível aos empreendedores. Conseqüentemente, a quantidade de serviços oferecidos pela web seria muito menor, a Internet seria menos interessante e, quem sabe, talvez até acabasse sendo somente uma moda passageira.
O Mundo Seria Outro
Parece um apocalíptico cenário de horror, mas já vivemos nesse mundo.
Lembra da empresa onde trabalhei? Também temos nossa capacidade mundial de atuação limitada por sistemas operacionais diferentes (línguas), gerando enormes custos adicionais em termos de traduções, adaptações, dublagens e aulas de idiomas.
Imagine sair do Brasil, pousar na Mongólia e ser perfeitamente entendido. Imagine empresas abrindo escritórios em qualquer parte do mundo sem se preocupar com a língua ou com choques culturais. Imagine ler livros de qualquer outro sem se preocupar com tradução e nunca mais ter que assistir filme lendo letrinha.
O mundo seria outro.
Por causa do monopólio da Microsoft, o mundo da informática é assim.
Semana que vem, algumas considerações sobre os malefícios do monopólio: estagnação cultural e baixa resistência imunológica.
Uma versão editada desse texto foi publicada na minha coluna Internet, na Tribuna da Imprensa, no dia 20 de fevereiro de 2004
Podem zoar de mim, mas esse programa do Clodovil fofocando com a empregada é impagável. Não sei nem o nome do programa, mas já é a enésima vez que estou zapeando pela TV, passo por ele e, quando vejo, estou lá há horas.
"O artigo sobre os 30 anos eh de fato muito engracado - particularmente a questao de que nao vivemos pouco, mas ficamos mortos tempo demais. Eu tinha certeza absoluta que vc ia citar Edipo; vc sempre cita. Tive portanto que esperar ate a ultima linha."
Meus Trinta Anos, Parte 4 de 4, Final:
O Fim É A Explicação
Planejar o Tempo que se Tem
Tenho uma série de metas a realizar. Para realizar essas metas, eu tenho um plano de ação. Meu plano de ação atual pressupõe que vou viver, no mínimo, até os 55 anos. Embora seja provável que eu viva mais, estou me programando pra realizar tudo o que tenho pra realizar nos próximos 25 anos.
Tudo suposições. O ônibus pode me atropelar aos 42. Meu coração pode parar aos 38. Posso escorregar no chuveiro aos 98.
Pois eu adoraria saber quando o chefe vai, de fato, bater na minha porta e pedir pra ver o relatório.
O problema não é ter pouco tempo: é não poder planejar o tempo que se tem.
Se for daqui a cinco anos, iria ser péssimo, mas nenhuma grande tragédia. Eu simplesmente adotaria um esquema de emergência, abandonaria tudo o que não fosse essencial e me concentraria nas tarefas a realizar.
Se for daqui a cinqüenta anos, isso me daria liberdade de arriscar mais, tentar coisas diferentes, sair em tangentes interessantes, pois sei que teria tempo de voltar para a estrada principal.
Por exemplo, me propus tirar três anos de licença da literatura pra abrir uma empresa e tentar ganhar dinheiro. Foi uma experiência interessante e aprendi muito, mas só o tempo dirá o seu verdadeiro valor.
Se eu morrer aos 38, terá sido um trágico desperdício, um desvio que consumiu minhas energias e me impediu de realizar coisas mais importantes. Se eu morrer aos 55, terá sido uma experiência inestimável.
Imagino somente um grande problema: se eu soubesse que iria morrer velho, eu me conheço, eu iria me acomodar e não fazer mais nada até a velhice chegar.
O Fim É A Explicação
Não dá pra julgar um livro antes de terminar de ler. É à luz do final que captamos a essência do enredo.
Levo Sartre um pouco mais longe: sim, a existência precede a essência, pois só quando essa existência cessa é que a essência pode ser plenamente apreendida.
Ou, como diz o coro final de Édipo:
"E aprenda que os homens devem ter sempre em mente a morte, e que nenhum pode ser considerado feliz até o dia em que leve sua felicidade para o túmulo em paz."
O pau continua comendo lá no tópico Patriotismo do fórum da Brazzil. No meio da feira, entretanto, um leitor fez uma pergunta interessante:
"Gostei muito do seu texto Em Defesa da Língua Portuguesa e concordo com tudo aquilo que disse. Eu também acho que a língua deve evoluir e crescer e acima de tudo modernizar-se e ser criativa, se não , aí sim, tornar-se-á uma língua MORTA... Agora eu tenho uma pergunta, algumas pessoas deste fórum, e acredito que representem ou simbolizem um grupo de pessoas no Brasil que pensaria da mesma forma, defendem que o português do Brasil se torne "brasileiro" e que corte de vez com o português de Portugal. Qual a sua opinião no assunto? p.s. eu sou português..."
Não defendo nada. Qualquer resposta seria leviana.
Minha mulher é da Amazônia e lá eles têm uma palavra específica para descrever o mau cheiro do peixe: pitiú. Aqui, no Sudeste do Brasil, não temos palavra pra isso. Diríamos mau cheiro do peixe ou fedor do peixe. Naturalmente, o peixe é muito mais parte integrante da vida das populações amazônicas do que urbanas do Sudeste.
Defendo é que o português de Portugal deixe de ser o padrão do português. Cada povo tem o seu padrão. Construções linguísticas que estariam erradas no Brasil são certas em Portugal e vice-versa. Nada pior do que ouvir alguém dizer que brasileiro não sabe falar português, como se o português não pertencesse tanto aos brasileiros quanto aos cabo-verdianos e moçambicanos e etc.
Realidades diferentes moldam culturas diferentes. O idioma somente reflete isso.
As línguas seguem o povo e o povo sempre está certo. Se o Brasil e Portugal estão falando línguas cada vez mais diferentes é porque estão se tornando povos cada vez mais diferentes, com cada vez menos pontos de contato.
Eu, por exemplo, leio romances e textos acadêmicos portugueses sem problemas. Já li até as Décadas de João de Barros no português da época (c.1550), naquela edição em fac-símile da Casa da Moeda. Deu trabalho, mas foi uma delícia.
Entretanto, não consigo entender quase nada do Meu Pipi, o blog português de maior sucesso.
Prédio aqui em frente. Um senhor de 57 anos caiu da janela de seu apartamento.
Ele morava sozinho e ia receber hóspedes no Carnaval, inclusive crianças pequenas. Bom anfitrião, achou por bem instalar redes de segurança nas janelas.
Encostou uma cadeira na janela, se esticou pra fora, começou o serviço, pisou em falso.
Ainda tentou se agarrar na rede de segurança mas ela rasgou.
Caiu gritando. Eram nove da manhã. Quem ouviu, diz que o grito durou bem mais do que os dois segundos que um corpo humano leva para cair do nono nadar.
A rede de segurança, rasgada, ficou balançando ao vento.
O apartamento está fechado. A família, e suas crianças, tiveram que procurar outro lugar pra ficar no Rio.
Essa história ilustra bem porque os homens casados duram mais que os solteiros. Uma mulher jamais deixaria seu marido fazer uma besteira dessas.
Meus Trinta Anos, Parte 3 de 4:
Pra Que Serve a Juventude?
Histórias de Escritores
Lúcio Cardoso escreveu vários livros fraquinhos. Aos 50 anos de idade, pouco depois de publicar sua maior obra, Crônica da Casa Assassinada, ele sofreu um derrame e nunca mais conseguiu escrever.
Cornélio Pena cometeu três romances ilegíveis. Aos 58 anos, publicou A Menina Morta, um dos melhores romances já escritos no nosso país. Morreu do coração logo depois.
Mais um pouquinho e ambos não seriam nem notas de pé de página na literatura. Pior, não teriam nos mostrado do que eram capazes, não teriam nos legado duas obras tão belas.
Guimarães Rosa passou dez anos escrevendo Grande Sertão: Veredas. Pouco depois de acabar o livro, sofreu um leve ataque cardíaco e ficou pra sempre com medo de morrer.
Ainda viveu mais de dez anos, mas jamais empreendeu nada de vulto, com medo de deixar a obra inacabada. Sua produção final são curtíssimas histórias com a mesma linguagem e nada do conteúdo de Grande Sertão: Veredas.
Se Rosa tivesse sabido que teria até 1967, ao invés daquele medo de morrer a qualquer momento, será que não teríamos hoje outro Grande Sertão: Veredas? Jamais saberemos.
Pra Que Serve a Juventude?
Considerem um dia normal na minha vida.
Eu acordo de manhã cedo, alegre, vigoroso e bem-disposto. Então, ao invés de sair fazendo o meu trabalho, eu enrolo, navego na Internet, leio o jornal, escrevo um post, assisto o Sítio.
O dia vai passando e começa a mordiscar uma culpa, ressoar um desespero: caramba, ainda não fiz nada!
Tento fazer tudo de uma vez só, mas aí já estou cansado e não tão disposto, preciso de café e guaraná em pó pra manter minha energia, e penso: putz, se eu tivesse feito isso de manhã, quando ainda estava descansado e bem-disposto, ficaria bem melhor.
Será a vida assim também?
A historinha se presta a duas lições conflitantes.
Por um lado, juventude é pra isso mesmo, badalar, fazer merda, perambular. Sem estresse, sem cobrança. Quando ficarmos velhos, quando vier a conta, quando chegarem as obrigações e responsabilidades, aí começaremos de fato a ser membros produtivos da sociedade.
Por outro lado, é melhor darmos nossa contribuição ainda de manhã, enquanto ainda podemos, enquanto ainda temos força e vitalidade. Depois, ficamos cansados, abatidos, conservadores e impotentes, tomando remédio pra tudo e votando no PFL. Tudo se torna mais difícil.
Naturalmente, são concepções totalmente diferentes de mundo.
A lição que você tirar dessa história será profundamente reveladora da pessoa que você é.
Como diria George Bernard Shaw, a juventude é boa demais para ser desperdiçada nos jovens.
(amanhã... conclusão... planejar o tempo que se tem... o fim é a explicação... é à luz do final que captamos a essência do enredo...)
Festa de 100 anos. A aniversariante, apesar de meio esquecida, ainda está jovial, dança, conversa, comemora.
Um dos parentes, médico, comenta com outro, de soslaio: "Sei não, hein, acho que a dona fulaninha não dura muito, não." O outro dá esporro: "Deixa de ser inconveniente, rapaz. Onde já se viu alguém de 100 amos durar muito? O importante é que ela está bem."
O final é previsível: a velha ainda demorou a morrer, mas o médico estava no trânsito, sofreu uma batida que nem danificou o carro, deu um mau jeito na coluna com a freada, entrou em coma, houve complicações.
Hoje estou meio ocupado, ainda vou escrever melhor sobre isso, mas quem acha que estou triste ou deprimido por fazer trinta anos, ou que sou daquelas pessoas angustiadas e cheias de dramas existenciais, não só não me conhece como não entendeu nem o tom nem o conteúdo do que estou escrevendo aqui.
A gente abre o jornal e lê a notícia: "Policiais matam dentista", e já ficamos condoídos: meu deus, que mundo é esse em que nem os dentistas estão a salvo da violência?!
Lendo a reportagem, entretanto, alguns fatos novos vão surgindo.
Primeiro, o dentista era negro, o que foi provavelmente a causa dos disparos. Um rapazinho loiro de Higienópolis teria merecido o benefício da dúvida antes de ser sumariamente assassinado. Como afirmou o pai da vítima, "se estivesse escrito 'eu sou dentista' em sua testa, hoje ele estaria vivo".
Segundo, o dentista negro não era dentista. Sim, o rapaz era formado em Odontologia. Aliás, um dos detalhes humanos mais vulturinamente explorados pela imprensa é que ele tinha se formado somente cinco dias antes da tragédia.
Ora, formado em Odontologia não é dentista, assim como formado em Direito não é advogado. Quem se forma em Odontologia é bacharel em Odontologia, quem se forma em Direito é bacharel em Direito. Dentista é quem atua profissionalmente como dentista. Advogado é quem atua profissionalmente como advogado. A obtenção do diploma é somente um pré-requisito para ser dentista mas, por si só, não faz de ninguém dentista.
Resta então uma enorme dúvida: por que a imprensa bate tanto na tecla de que ele era dentista?
Filhote de Elefante Nasce Prematuro
Falemos sinceramente. O jornal está pendurado na banca, você está passando atrasado para o trabalho e vê de relance a manchete "rapaz da periferia é morto por PMs". Você pára pra ler? Claro que não. Você ainda pensa: "Caramba, só falta agora noticiarem que 'chuva cai e molha tudo'!" e segue viagem, apertando o passo.
Uma manchete dessas não chama atenção de ninguém. "Filhote de elefante nasce prematuro" seria mais bombástico que isso.
Uma manchete mais precisa poderia ser "rapaz negro é morto por PMs". Afinal, ser negro foi o que presumivelmente fez ele levar os tiros.
Gostaria de pensar que a manchete não foi essa para evitar a aparência de preconceito. Mas não foi isso não. Essa não foi a manchete porque, também, não seria notícia. "Polícia mata mais um crioulo, e daí? O filhote do elefante está passando bem?"
Então, se era pra usar um critério descritivo que nada tem a ver com os tiros em si, por que não experimentar manchetes como "PMs matam rapaz de camisa azul" ou "asmático é morto pela PM"?
Mas nada disso é notícia.
O único modo de criar a notícia é fazendo o rapaz parecer mais importante do que é. O que equivale dizer que sua importância intrínseca de ser humano, cidadão e filho não vale absolutamente nada.
Os PMs teriam concordado em gênero, número e grau.
De Quem É a Culpa?
Por um lado, a culpa não é dos PMs, que ganham um salário de fome, têm um treinamento insuficiente e uma taxa de mortalidade maior que a de um homem-bomba palestino. Poucos soldados de forças regulares do Ocidente já estiveram em mais combates do que um PM médio do Rio e São Paulo.
Alguém mal pago, mal treinado e mal equipado, patrulhando território hostil, é naturalmente arisco. Atira por qualquer coisa e pergunta depois. Sabe que os bandidos também atiram primeiro.
Por outro lado, a culpa também não é da imprensa. A imprensa é o termômetro da sociedade. A imprensa não quer dominar as mentes dos leitores ou impor sua ideologia: via de regra, a imprensa só quer vender jornal.
Os profissionais do jornalismo sabem que, certo ou errado, lamentável ou louvável, a manchete "rapaz negro da periferia é morto por PMs" não vende jornal. "Dentista é morto por PMs" vende.
Preconceito racial é terrível, mas preconceito social é pior ainda. O rapaz morreu por ser negro e, agora, a imprensa está matando-o de novo.
Flávio San'Ana não era dentista, mas não ser dentista não deveria ser demérito algum. Não ser dentista não deveria tornar ninguém cidadão de segunda classe. Não ser dentista não deveria aumentar as chances de um contribuinte ser morto em um encontro casual com os membros uniformizados da força policial encarregada da segurança das ruas.
Culpar a imprensa é atirar no mensageiro. Será que estaríamos discutindo essa questão se a manchete, o tempo todo, tivesse sido apenas "rapaz negro da periferia é morto por PMs"?
A culpa é de todos nós.
Uma versão editada desse texto foi publicada na Tribuna da Imprensa, no dia 17 de fevereiro de 2004 e, também, no Observatório da Imprensa, número 264, de 17 de fevereiro de 2004
Meus Trinta Anos, Parte 2 de 4:
Os Prazos do Chefe
Eu só sei funcionar tendo prazos e deadlines. Estou sempre com um prazo a cumprir, com alguma coisa a entregar pra alguém, seja um relatório de consultoria, uma coluna pro jornal ou um trabalho pra pós.
E é uma lei da física que qualquer tarefa sempre tende a preencher todo o prazo disponível.
Se eu acordo às 9hs, sei que tenho que entregar um trabalho às 18hs e que ele demora 2hs pra ser feito, minha tendência será ficar enrolando e enrolando, fazendo o trabalho mais e mais devagar até eu olhar no relógio, ver que já são 17hs, putaqueopariu, ainda não fiz quase nada!, surtar e fazer tudo nas coxas.
Feliz de quem consegue acordar às 9hs, se concentrar no trabalho, acabar tudo até às 11hs e tirar o resto do dia de folga.
A vida é como um deadline, só que a gente não sabe a hora da entrega. O chefe pode bater a qualquer momento e querer ver o que você conseguiu fazer até àquela hora. Pode ser muito cedo, às 10 da manhã, pode ser logo depois do almoço, às 3 da tarde, ou até mesmo às 11 da noite, muito depois de você acabar tudo e já estar de saco cheio de tanto esperar.
O melhor presente que eu poderia receber no meu aniversário seria saber a data da minha morte.
Não pra ser mórbido, mas pra ser prático.
Imagine que você tem um relatório pra entregar. Você acorda de manhã e precisa planejar o seu dia de trabalho.
Se você sabe que seu chefe vai bater na sua casa às 11hs pra pegar o material, você corre, pula o café da manhã, não lê o jornal, tudo pra cumprir o prazo.
Se você sabe que seu chefe só vai vir lá pelas 19hs, você pode se dar ao luxo de tomar o café e ler o jornal sossegado, trabalha um pouco e, quem sabe?, dá até uma paradinha pro almoço também.
Mas é muita sacanagem seu chefe querer que você faça o relatório às escuras, sem saber de quanto tempo você dispõe, e ele ainda podendo aparecer a qualquer momento para levar tudo.
Pois vivemos a vida assim.
(amanhã... pra que serve a juventude... concepções conflitantes de vida... histórias de escritores... o medo de morrer de Guimarães Rosa...)
"Partido no poder é q nem carcaça de cachorro podre na estrada: em vida, corria em suas veias o sangue das idéias, ideologias e ideais - ou seja, todas essas pataquadas hipoplausibiléticas; depois de eleito, vira uma gosma fedenta no asfalto q é bom nem chegar perto, mas q c/ o tempo vai se achatando. No fim, a chuva leva."
Muito obrigado a todos pelas manifestação de carinho.
O Fernando perguntou: "Não sei se acredita em missão, mas se acredita, acha que se morresse HOJE, teria realizado sua missão? Ou não acredita?
Missão é um conceito religioso demais pro meu gosto. Não consigo acreditar em nada disso.
Sou um animal como qualquer outro, apenas com um diferencial evolutivo diferente. O polvo solta tinta, o lhama cospe e nós, humanos, temos esses grandes e desajeitados cérebros.
Não quer dizer que somos mais especiais que os lhamas, ou que temos uma alma imortal enquanto os pobres polvos não.
Na verdade, não quer dizer nada. Quando morremos, vamos para o mesmo lugar que os polvos e os lhamas.
Não há deus, não há missão, não há destino. Só nós, bichos humanos, tentando entender o mundo à nossa volta.
Tenho metas, sim, metas que eu mesmo estabeleci, metas bem pragmáticas e racionais, que ainda não cheguei perto de realizar.
Se morresse hoje, eu seria apenas uma promessa não cumprida.
Há algum tempo atrás, quando tudo o que eu queria ser era ser escritor, isso significaria que minha vida foi um fracasso.
Meus Trinta Anos, Parte 1 de 4:
Morbidez e Vitalidade
Faço trinta anos hoje.
Aniversário é dia de pensar na morte. Aliás, pra mim, todo dia é dia de pensar na morte, mas especialmente no dia do aniversário. E especialmente quando se está completando trinta anos.
Os Beijos de 2116
Algumas pessoas acham que sou mórbido, por pensar demais na morte. Elas concordariam com Whitman, em To Think of Time:
Do you suspect death? If I were to suspect death, I would die now,
Do you think I could walk pleasantly and well-suited toward annihilation?
(Você suspeita a morte? Se eu suspeitasse a morte, morreria agora,
Você acha que eu poderia andar tão faceiro e bem disposto em direção à aniquilação?)
Sou exatamente o oposto. Se achasse que eu fosse viver pra sempre, não faria nada. Deitaria em berço esplêndido pela eternidade, lendo, bebendo vinho, comendo.
A única coisa que me faz levantar da cama é saber que vou morrer, e em breve, e que ainda tem muita coisa que quero fazer antes disso.
Pessoas mórbidas usam preto, são sombrias, apáticas e pessimistas. Nunca fazem nada porque tudo vai dar errado e o universo não faz sentido. Meu avô parou de comprar roupas aos 50 anos: "De que adianta, meu neto? Vou morrer mesmo..."
Eu não sou nada disso. Minha energia, minha vitalidade, minha alegria, todas elas são derivadas de um simples fato: em 2116, eu vou estar inapelavelmente morto.
2116 será um ano como outro qualquer, as pessoas vão nascer, morrer e transar, vão escrever literatura (seja lá em que meio ela for publicada e consumida) e vão achar que as coisas não são mais tão boas quanto eram antigamente.
Mas eu não vou estar lá. A mulher que eu não beijar até 2116, eu não beijo mais. O livro que eu não ler até 2116, eu não leio mais.
O problema não é viver pouco: é ficar morto muito tempo.
Em minhas aulas de inglês, eu gosto de ensinar o Present Perfect usando um exemplo semelhante.
I have never been to China, eu digo. Mas ainda estou vivo. Enquanto há vida, há China. Amanhã posso encasquetar de ir pra lá e vou.
Por outro lado, Getúlio Vargas never went to China. Getúlio Vargas acabou, coitado. Pra onde ele tinha que ir, ele já foi. Se até hoje ele ainda não foi à China é porque não vai mais.
Enquanto há Present Perfect, há esperança.
(amanhã... os prazos do chefe.. saber a data da minha morte... só sei trabalhar com deadlines...)
Faço trinta anos hoje e sinto que algo está faltando. Vocês vão achar graça, mas são as olimpíadas.
Pra mim, 2004 sempre será o ano das olimpíadas no Rio de Janeiro.
A campanha Rio 2004 - Cidade Candidata marcou tanto a minha vida que fico chocado quando converso com outras pessoas e elas nem sabem do que estou falando.
Naquela época, em 1996, meu pai era membro de algum conselho municipal ligado à Riotur, participou do planejamento de parte da campanha e chegava sempre em casa com novidades do front. Novidades e, claro, pins, bottons, adesivos, cadernos, tudo.
O logotipo da campanha é lindo. Só encontrei esse pequenininho que está aí do lado. Quem lembra, lembra. Quem não lembrar, terá vaga idéia.
Eu não só andava pela cidade orgulhoso, usando o material da campanha, como também distribuía o meu excedente por onde quer que fosse.
1996 foi quando descobri a Web. Um dos primeiros sites que visitei foi o da campanha, morto há eras. Uma das primeiras atividades que desenvolvi foi pilhar meus poucos amigos conectados a votar em uma campanha on-line sobre as olimpíadas no site da CNN. Brasileiro adora essas coisas. Não deu outra: foram tantos votando que o Rio ganhou disparado.
Infelizmente, o COI discordou.
Enquanto isso, eu pensava: quando a olímpiada acontecer, eu vou ter trinta anos. Pensei tanto que ficou marcado: o ano dos meus trinta anos vai ser o ano das olimpíadas. Nunca passou pela minha cabeça a possibilidade de que, em 2004, eu não estivesse morando no Rio.
Bem, os trinta anos chegaram, mas nada de olimpíada.
Pra não decepcionar demais esse povo todo vindo atrás de fotos de muiépelada, algumas pinturas do sensacional Egon Schiele. Cliquem nas imagens para ver em tamanho maior:
Sério, bate um medo. Ter vinte anos, mesmo vinte e muitos, é ser jovem e não ter obrigação de nada. Ter trinta e poucos, mesmo trinta anos e um dia, é já ser gente grande, temos que estar em situação estável, começando a pagar o apartamento, encaminhados na empresa e criando os filhos.
Quem me conhece sabe que não ligo pra nada disso, muito menos pras expectativas dos outros sobre o que um homem de trinta anos precisa ou não precisa ter.
Mas, mesmo assim, não dá. Nem eu consigo ser blasé em relação a isso.
Eu precisava entregar meu trabalho final (final e único, aliás) para a matéria Cultura Brasileira, do meu mestrado em Jornalismo Cultural.
Nem pensei duas vezes. Entreguei o meu artigo Em Defesa da Língua Portuguesa, postado aqui nesse blog entre 22 de setembro e 3 de outubro de 2003.
Resultado: tirei 9. Pior: era pra ser 10. Vocês acreditam que a professora teve a pachorra de escrever 10, rasurar e escrever 9,0 por cima? Deveria valer a primeira nota, mas enfim.
Únicos comentários: faltavam citações e opiniões de outras pessoas.
Sou mesmo um delinqüente. Também entreguei um mesmo trabalho para quatro outras matérias: Crítica Literária, Teoria da Comunicação, Sociologia e Monografia.
Esse trabalho nada mais é do que a futura Prisão Ambição, que já estava rascunhada faz tempo e que, no primeiro sufoco, virou trabalho.
Levei 10,0 em Crítica Literária e 8,0 em Teoria da Comunicação, mas essa foi porque eu vivia zoando das posições políticas da professora, inclusive aqui no blog, sem dar nome aos bois. Sociologia e Monografia ainda não se manifestaram.
A Prisão Ambição vai ser das melhores. Está escrita, mas em formato academicóide. Estou reescrevendo, mas demora.
Um simpático leitor postou trechos da Prisão Patriotismo logo no tópico Patriotismo do fórum da Brazzil, uma revista de temas brasileiros voltada para estrangeiros e expatriados.
Claro que ia dar confusão.
Eu vou só me recostar e me divertir, mas recomendo a todos os leitores que entrem na porradaria.
Muitas fotos nuas da Antonela, do Big Brother Brasil (BBB4), Antonela fazendo sexo, Antonela fazendo sexo oral, Antonela fazendo sexo anal, Antonella fazendo sexo com cavalos, Antonela fazendo sexo de tudo quanto é jeito, Antonela nas poses mais picantes, Antonela toda arreganhada.
Meu deus, será que é só na Antonela que as pessoas pensam? Será que é só pela Antonela que as pessoas buscam? Só pensam na Antonela, só buscam sobre a Antonela, é Antonela pra cá, Antonella pra lá, Antonela, Antonella e Antonella, parece que não têm outra coisa na cabeça (nas cabeças) que não seja essa tal de Antonela. Sério, se eu vir o nome Antonella mais uma vez, eu grito!
Ontem, depois que o Google indexou aquele inocente comentário que fiz na quarta, esse blog teve o seu melhor dia. Foram mais de 1200 pageviews, contra uma média diária de 250.
E o pior é que não tem como evitar esses tarados de baixarem aqui a cada comentariozinho que eu faça!
Há cerca de dois anos, Howard Dean era somente o desconhecido ex-governador de um pequeno estado da Nova Inglaterra. Hoje, depois de perder todas as primárias presidenciais que disputou, ele parece estar solidamente encaminhado de volta para o mesmo anonimato de onde veio.
Nesse meio tempo, entretanto, ele levantou 40 milhões de dólares, a maior soma jamais levantada por um pré-candidato democrata, mobilizou todo o país e tornou-se o favorito para derrotar o presidente Bush.
Como Howard Dean conseguiu tanto, em tão pouco tempo? Simples. Ele foi o primeiro político a utilizar toda a força da Internet em seu benefício. E como Dean conseguiu cair tanto, e tão rápido? Bem, a resposta pode ser a mesma.
Ascensão e Queda de Howard Dean
O pai da ofensiva on-line de Dean é Joe Trippi, seu ex-coordenador de campanha. Ele organizou uma rede de sites e blogs para promover Dean. Conseguiu arrecadar doações de mais de 280 mil pessoas, boa parte disso pela Internet. Promoveu meet-ups por todos os Estados Unidos, onde mais de 150 mil americanos se encontraram para apoiar Dean. Criou até mesmo o Dean Defense Force, uma força-tarefa com o objetivo de mandar emails para editores pressionando-os a apoiar Dean e a corrigir eventuais distorções ou erros de cobertura.
Até as primárias começarem, Dean era o favorito. Aliás, durante seis meses, foi o único pré-candidato assumido, aparecendo na mídia e fazendo campanha praticamente sozinho.
Enquanto isso, visionários pregavam que a Internet já estava dominando a política. Acabou a Era da Televisão, diziam: a partir de agora, ganha o candidato que comandar o maior número de blogs.
Por um instante, me senti de volta à bolha, entre 1998 e 2000, quando sinceramente acreditávamos que a Internet resolveria tudo, mudaria o mundo e ainda encheria nosso bolso de dinheiro. Essa nova bolha estourou ainda mais rápido: já no primeiro soprinho, adeus Howard Dean.
Ele não ganhou nenhuma das quatorze primárias realizadas e, na maioria, perdeu de longe. Essa semana, mal participou de outras duas, alegando estar se preparando para a primária de Wisconsin, na terça-feira, 17 de fevereiro.
Dizem as más-línguas que se Dean não ganhar em Wisconsin, ele sairá da disputa. Mas as más-línguas estão sendo até generosas. Convenhamos: se Dean não ganhar nem em Wisconsin, é porque ele de fato não está na disputa. E nem nunca esteve.
O Que Deu Errado?
Tudo aconteceu muito rápido.
Há apenas um mês, o senador John Kerry tinha 9% das preferências e ninguém dava nada por ele. Hoje, ele tem 50% e, segundo pesquisas, é o único democrata capaz de derrotar Baby Bush. Desde o começo de sua ascensão, não houve nenhum tropeço, nenhuma parada. O homem parece imbatível.
Enquanto isso, o nome de Howard Dean já está sendo usado como sinônimo de dar um tiro no próprio pé. Kerry só não ganhará a indicação, dizem analistas políticos, se ele der uma de Howard Dean ("if he pulls a Howard Dean") e se auto-implodir.
Por quê? Existem vários motivos, com certeza, mas a Internet não é de todo inocente.
Dean realmente conseguiu formar um grupo coeso de internautas para a apoiá-lo, através de uma rede complexa de blogs, sites, meet-ups, listas de discussão e o que mais existisse. Em uma rede como essa, qualquer notícia corre rápido como fogo na palha. Especialmente más notícias.
A Internet magnificou tanto seus sucessos quanto seus fracassos: as gafes e tropeços de Dean reverberaram entre seus próprios seguidores muito mais do que deveriam. O Dean Defense Force foi uma ótima idéia, mas o blog do grupo está morto desde 5 de janeiro. Howard Dean poderia se perguntar: E agora? Quem me defende de meus defensores?
Pesquisas realizadas nas primárias de Iowa e New Hampshire mostram que Kerry derrotou Dean mesmo entre os eleitores que usam a Internet para se informar sobre os candidatos. Ou seja, Dean usou a Internet para mobilizar os eleitores para votar, mas eles votaram em outro.
A sina dos pioneiros é mesmo triste e dura. As táticas de alavancagem on-line que Dean desenvolveu com tanto afinco, tentativas e erros, ao longo de dois anos, foram adotadas rapidamente, e sem custo algum, por seus adversários.
John Kerry hoje também tem seu blog e, somente desde as primárias de Iowa, em 19 de janeiro, já arrecadou mais de US$ 2 milhões.
Brinquedo Quebrado
A Internet já não revolucionou o modo como compramos utilidades domésticas. A Internet já não gerou uma era de prosperidade econômica sem precedentes. E será que nem mesmo determinar o curso da política a Internet consegue? Mãe, esse brinquedo está perdendo a graça! Ele não faz nada!
Também não é pra tanto.
Markos Zuniga, um dos consultores da campanha de Dean, defende a rede: "O elemento Internet fez o que tinha que fazer: pegou um candidato que era apenas um asterisco e transformou-o no favorito, além de dar-lhe US$ 40 milhões e um exército de voluntários. O que mais a Internet poderia fazer? Levar os eleitores até às cabines?"
E Trippi acrescenta: "Isso não foi como o estouro da bolha ponto com. A campanha de Howard Dean foi o milagre das ponto com."
Apesar de tudo, a pré-campanha 2003 de Howard Dean deixou algumas lições. Financeiramente falando, grandes investidores não são mais a única opção. Viabilizar uma campanha através de doações pequenas feitas por cidadãos comuns já é possível.
Mais importante, o potencial de mobilização da Internet mal começou a ser explorado. Em um país em que o voto não é obrigatório e poucas pessoas votam, a Internet pode, e deve, tornar-se uma ferramenta de maior democratização e popularização do processo eleitoral. Na maior potência do mundo, não é pouca coisa.
Enfim, uma vez mais, a Internet falhou em mudar as leis da física e virar o universo de cabeça pra baixo. Naturalmente, isso só é um problema para quem esperava tanto.
Falam que a Internet não serve pra nada, o que é uma tremenda injustiça. A Internet serve pra muita coisa. As utilidades feijão-com-arroz todo mundo conhece: copiar trabalho escolar, fazer hora enquanto espera dar cinco horas pra acabar o expediente, gerar pulsos para as empresas de telefonia, etc.
Mas tem uma utilidade fundamental da Internet que ninguém menciona: desmascaradora de idiotas.
Tinha gente que eu respeitava. Eu dizia: esse cara manda bem. Sabe das coisas. Fala direitinho. Tem um cérebro. Aí, um belo dia, ele te manda um email com a frase: "Nunca se sabe, né?" e, embaixo, uma oferta da Microsoft, dizendo que se você encaminhar aquela mensagem pra mais dez pessoas, você vai ganhar mil dólares. Mil! Ah tá, então ficamos combinados assim.
Não pensem que desisto fácil dos amigos. Eu respondo, explico porque não pode ser verdade, até encaminho o idiota a uma página de lendas urbanas feita especialmente pra desbancar essas besteiras, com todos os argumentos mastigadinhos. A besta vai, lê, e ainda responde: ih, é verdade, bobeei, né?, mas como é que eu ia saber?
É verdade, como que ele ia saber? Realmente, não tem como uma pessoa conseguir adivinhar, sozinha, que a Microsoft não chegou ao topo distribuindo dinheiro por aí.
Mas sou tolerante com as fraquezas humanas. Deixa estar.
Daqui a pouco, outro email. Dessa vez, o da Nestlé. Promoção, lançamento da linha 2003, repasse esse email para 15 pessoas e receberá um kit com produtos, etc. Não sei o que meu hoje ex-amigo pensou. Vai ver que dar só um kit era mais factível do que dar mil dólares. Seria necessário um zoólogo para entender seu raciocínio.
Bem, aí acabou, né? Sem a Internet, eu jamais saberia que essa pessoa, que eu respeitava, era, na verdade, uma idiota.
Parece pouco, mas identificação de idiotas é um das habilidades mais vitais no mundo de hoje.
Tenho 29 anos. Várias pessoas já me propuseram todo o tipo de negócio e sociedade. Distinguir os humanos dos símios, portanto, é fundamental para minha saúde financeira.
Vejam como foi por pouco: quase montei uma empresa junto com alguém que acredita não só que
1) a Microsoft dá dinheiro pra quem encaminha um email, como
2) que a Microsoft tem como descobrir quem encaminhou o email.
Alguns critérios são eliminatórios. Fazer sociedade com alguém corrupto e desonesto até dá, se você souber se cuidar, mas com um ingênuo que acredita em qualquer coisa é impossível. Senão, periga de eu sair um minuto e, quando volto, ele trocou a empresa por um pé de feijão!
Devo uma pra Internet.
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Da Série Leitores Satisfeitos:
Momentos de Fúria e Indignação
A leitora Elisangela me mandou o seguinte email:
"Acabo de ler seu romance e tive ótimos momentos de fúria e indignação... (...) digo isso porque me coloquei no lugar da esposa e nesse momento comecei a querer entrar na história e fazer do meu jeito... Meu casamento não duraria um verão! Não por ciúme, mas porque prezo muito a privacidade e o espaço particular de cada um... Mas é claro que aí não haveria história para contar.
Sim, eu gostei e principalmente porque descarreguei minhas tensões. É um fato que nunca ocorreria na minha vida e não tem nada em comum comigo e foi por isso que valeu a pena.
A maneira como vc lida com a intuição feminina é fantástica, pois normalmente sentimos essa "coisa" no ar e agora falo por mim: "nunca falha!" O final é bom... quer dizer, bom para um livro, pois na vida real ela (Julia) não sairia tão bem da história, pelo menos não da minha história... se é que vc me entende!
Não sou uma pessoa que tem o hábito de ler, mas gostei do seu estilo, pois me proporcionou um bom momento de lazer. Se tiver outros romances por favor me indique. Obrigada"
Elisangela, obrigado por baixar, muito obrigado por ler, gratidão eterna por ter o carinho de comentar. Não se preocupe com não ter o hábito de ler: livros que são escritos só para ser lidos por quem tem o hábito de ler são, em geral, tediosos. O bom livro tem que mexer com todos.
E o meu grande tesão é justamente esse: entrar aí dentro da Elisangela e mexer tudo lá dentro, chacoalhar e ver o que acontece. Momentos de fúria e indignação. Adorei.
E você, que gosta desse blog, vem aqui sempre, mas ainda não leu o romance, não acha que já está na hora, não? Você pode fazer o download em versão para imprimir ou para ler na tela.
Minha mente realmente funciona de um modo estranho.
As pessoas vêem essa placa e criam todo tipo de fantasia romântica em cima disso. Elas se imaginam desesperadas, ensandecidas de paixão, indo numa bruxa de subúrbio pra encantar quem adoram e conquistar a felicidade eterna.
Devem ser pessoas que amam mais do que são amadas, desejam mais do que são desejadas.
O que espanta é que um pesadelo tão aterrorizante como esse seja considerado um cenário romântico. Afinal, pra cada pessoa que manda trazer seu amado existe (teoricamente) um amado relutante que queria apenas prosseguir com a sua vida.
Estou em casa, lendo um livro, e de repente sou tomado por um ardor repentino de ficar pra sempre com aquela leitora chata de Goiânia que se apaixonou subitamente por mim e em quem eu já dei dois tocos. Nem paro pra pensar. Largo tudo. Não apareço na aula que tenho que dar. Dane-se o trabalho de consultoria que estou tentando vender. Foda-se minha mulher, que tenta me segurar pelos tornozelos. Vou até a rodoviária e pego o primeiro ônibus para Goiânia. Um homem com uma missão. Um homem trazido.
Depois, enquanto estou sentado no sofá da sala da minha amada, assistindo Domingo Legal com olhar de peixe bobo, ela vai até Mãe Dinalda da Silva dar sua contribuição. Mãe Dinalda não cobra pelo serviço, mas, afinal, deu certo, não deu?
E quanto será que vale pra ela ter conseguido me trazer? 50? 100? 500 reais? Um tabuleiro de arroz-doce? Um chaveirinho?
A noção de burguesia me espanta. Sou formado em História: ouvi muito sobre essa tal de burguesia. Quem ainda acredita nisso? Como definem esse termo?
O presidente da Coca-Cola no Brasil não é burguês: ele é um trabalhador como qualquer outro e pode mostrar sua Carteira de Trabalho pra provar. Já o espanhol, dono da padaria da esquina, que se esfalfa nos fogões desde às 4 da manhã, esse é um burguezão. Deu pra entender?
Burguês é uma palavra vazia usada por pessoas vazias para descrever os estereótipos vazios que projetam em seus desafetos. Algo assim como comunista na década de 60.
Hoje, tenho 29 anos, sou mais velho e mais sábio e não me filio a nenhum grupo, partido ou corrente política ou literária. Desprezo a esquerda e a direita em doses rigorosamente iguais, mas me incomodo mais com a esquerda, pois ela grita mais alto.
Sou trabalhador free-lancer, recusei todos os empregos que me ofereceram e presto serviços pra diversas empresas, sem carteira assinada por nenhuma delas. Quando não trabalho, não ganho. Não tenho pis, pasep, fgts, aposentadoria ou qualquer outra forma de rede de segurança fornecida por terceiros ou pelo estado.
Não possuo nada, rigorosamente nada, no meu nome. Devo R$6.000 ao cartão de crédito, R$1.000 ao cheque especial e R$5.000 ao meu pai. Qualquer segurança que eu tenha emana exclusivamente dos meus braços, enquanto eu puder usá-los.
E declaro, sem medo das patrulhas: pra mim, o critério burguesia é eliminatório.
Antigamente, eu era tolerante. Mas tenho 1,80m e 100kg. Meu ataque cardíaco inevitável pode estar logo ali, virando a esquina. Não tenho tempo a perder.
Usou a palavra burguesia a sério, acabou a conversa. Não vale a pena. Não tem o que discutir, não tem o que argumentar.
Se for um texto, eu paro de ler. Se for um texto que eu precise por algum motivo, vou reconsiderar o motivo. Se for uma pessoa, eu me levanto e vou embora. Se eu estiver no telefone, desligo. Se eu estiver segurando sua mão e salvando-a de um abismo, eu solto.
Da Série Leitores Satisfeitos:
Uma Garrafa de Vinho Quase Vazia
Nada melhor do que receber feedback do nosso trabalho. Eis o que o leitor João Lima tem a dizer sobre o meu romance, Mulher de Um Homem Só:
"O que me chamou a atenção logo de cara foi o seu pouco apreço pelas vírgulas, o que faz com que o texto fique frenético certas vezes, tanto que deixa o leitor cansado, mas de um cansaço agradável, como aquele que sobrevêm após uma tarde de futebol ou uma noite inteira de sexo.
Os personagens estão, sim, bem construídos, e o universo de classe média alta carioca mostrado é bastante convincente.
Mas minha maior queixa, sem dúvida, é em relação ao tamanho. Seu romance-conto desperta a mesma sensação que temos quando encontramos uma garrafa de um excelente vinho, mas que, infelizmente, está quase vazia. Você bebe aquele restinho com delícia, mas pensa: "bem que a garrafa poderia estar cheia". A reclamação não é contra o vinho, que, por sinal, é ótimo, mas quanto à quantidade.
Os personagens são ótimos, mas poderiam ser bem mais aprofundados e explorados, caso a na rrativa se estendesse mais, incluísse mais personagens e mostrasse um lapso de tempo maior.
Bom, quem sou eu para dar palpite na obra dos outros? Ninguém.
Mas é bom afirmar: os personagens não cresceram mais ainda por falta de espaço, já que o romance é pequeno. Nunca por falta de profundidade. Há aqueles personagens que se arrastam por meio milhar de páginas e continuam insossos, sei bem disso. Mas senti que seus personagens necessitaram de mais espaço para se agigantarem, de modo que, se eles não são tão grandes, não é culpa deles, mas do tamanho do texto, uma pequena falha que pode ser facilmente corrigida (se você assim o quiser, é claro). Dê mais espaço para eles, e certamente os verá ganhar proporções titânicas.
No mais, gostaria de dizer: a história é boa, gostei mesmo.Só fiquei um pouco frustrado por ter terminado tão cedo um programa que poderia ser bem mais extenso."
João, muito obrigado pelo carinho de escrever. Agradeço pelos elogios: adorei a metáfora da garrafa de vinho, vou roubar pra mim. Sobre as vírgulas, bem, se você lê esse blog já deve ter percebido que quem não gosta de vírgulas não sou eu, é a Carla.
Os romances (os escritos e cheios de letrinhas) são como os romances (os melados e cheios de beijos): duram o tempo que têm que durar. O maior erro que um romance (de ambos os tipos) pode cometer é overstay its welcome: não saber a hora de acabar.
Confesso que Mulher de Um Homem Só originalmente seria maior, mas perdi o interesse. Senti que o romance, como está, já dizia tudo o que eu tinha pra dizer sobre os personagens. O resto seriam apenas peripécias, como diz Autran Dourado, que não acrescentariam nada: todos os insights já teriam acontecido.
Melhor sair cedo e deixar saudades.
O João só cometeu um grave erro, sobre o qual vou falar nos próximos dias. Ele diz: "Bom, quem sou eu para dar palpite na obra dos outros? Ninguém."
Poucas falácias são mais perigosas do que esse aparentemente inofensivo pedaço de senso comum. Mais a seguir.
E você, que gosta desse blog, vem aqui sempre, mas ainda não leu o romance, não acha que já está na hora, não? Você pode fazer o download em versão para imprimir ou para ler na tela.
Acabei de ler The Fountainhead. Foi uma das experiências mais impressionantes da minha vida - reparem que não disse leitura.
É um daqueles livros pra se comprar e dar de presente, para os poucos que entenderiam. Infelizmente, hoje sou pobre, ao contrário do que era na época em comprei cinco cópias de Polígono das Secas para distribuir. O próprio exemplar que eu li é de uma biblioteca.
Se fosse em português, eu emprestaria ao meu pai. Talvez ele finalmente entendesse, se não quem eu sou, quem eu tento ser.
Falei demais sobre esse livro. Já estava escrevendo sobre ele antes de acabar de ler, o que é inédito. Enfim, o meio e o fim estão mais que à altura do começo.
Recomendo o livro, nos mais fortes termos possíveis, a todos os que confiarem na minha opinião.
Leia só o primeiro capítulo, meras doze páginas. O romance está todo lá. Se não gostar, nem perca seu tempo.
Como diz um personagem a outro, "You're casting pearls without even getting a pork chop in return."
Meu deus, o que é isso? Será possível que toda segunda-feira esse homem me surpreenda? Cora, onde você está que deixa publicarem essas imoralidades no seu caderno de informática? Não sei onde está, mas continue lá, por favor!
Reparem em seu ar displicente, lendo o livro toda nua. Reparem no pobre macho ao seu lado. Reparem na enorme sandália plataforma transparente que parece estar em cima de um aparador. Reparem na cara de bobo do gato do outro lado da rua. Reparem no rabo do gato acariciando seus dedos dos pés.
Reparem, principalmente, ah meu deus, nos pés. Reparem na belíssima tornozeleira de pedrinhas. Reparem no movimento dos dedinhos.
Como o Cruz consegue transmitir tão bem os dedinhos se mexendo?
A maioria dos desenhistas foge de pés. Gostariam de fugir de pés e de mãos, variáveis demais a se considerar, mas das mãos não dá. Então fogem dos pés sempre que podem. Nunca desenham descalço um pé que pode estar calçado. Nunca mostram um pé calçado quando pode haver algum objeto mais fácil de desenhar obstruindo a visão.
Desenhar um pé não é fácil. Dar movimento a um pé é extremamente difícil. Dar movimento aos dedinhos de um pé é coisa de mestre. Fazer isso tudo, e ainda parecer sensual, só o Cruz.
Não deixem de conferir também esse clube no Yahoo especialmente devotado às suas maravilhosas mulheres.
Como sempre, o PC não faz nada pela metade e o artigo é um apanhado muito interessante dos problemas recentes em relação aos vírus e das atitudes a se tomar.
Eu entrei na roda como exemplo de, acreditem ou não, "gente grande":
"Diante disso, não são poucos os usuários que rejeitam os antivírus completamente (como o colega Alexandre Cruz Almeida na nota "Diga não à hipocondria"). Tendo sido avisados dos riscos, preferem assumi-los como gente grande do que cair no atoleiro da guerra vírus/antivírus ou botar a culpa de sua desgraça na orquestração de um punhado de arquetípicos charuteiros vestidos em ternos Armani."
O Alexandre Soares Silva comentou hoje sobre dois golpes comuns das artes dramáticas: o golpe da espiga e o golpe do vovozinho. Adorei e recomendo, como sempre. Eu nunca tinha pensado no golpe da espiga, mas o do vovozinho eu já identifiquei há tempos - e sempre me incomodou.
Algo semelhante ao golpe do vovozinho é o momento chora-aqui-ó, muito comum em filmes dramáticos. Chorei tonéis em Lista de Schindler, mas sempre com aquela sensação incômoda lá no fundo. O filme, tristíssimo e lindo, não precisava usar um truque tão barato e fácil quanto essa profussão de momentos chora-aqui-ó.
Aproveito o artigo do Soares Silva pra dividir com vocês duas leis das artes dramáticas que descobri. Elas foram primeiro observadas e catalogadas no cinema mas, naturalmente, também se aplicam à literatura, teatro e histórias em quadrinhos.
Lei da Falta de Suspeitos
No final do filme Ghost, para grande surpresa da platéia, o melhor amigo do Patrick Swayze se revela o bandido da história.
Grande surpresa de quem não sabe contar, claro. Quem mais seria o vilão da história? Um estava morto, a outra era a mocinha e a outra era uma negona que tinha entrado no meio da trama. Só sobrava realmente ele.
Uma variação da Lei da Falta de Suspeitos é a Lei do Bom Ator Sobrando. No filme Assassinato na Casa Branca (Murder at 1600), Alan Alda é um dos primeiros nomes nos créditos. Entretanto, ao longo do filme, o homem não faz quase nada.
Lá pelo final já era óbvio que Alda iria se revelar o grande bandido da trama e que seu nome nos créditos e seu alto cachê se justificariam com um dramático monólogo vilanesco nos últimos quinze minutos. Não deu outra. O que mais um ator do calibre dele estaria fazendo ali?
Lei do Sonho
Em Caçada ao Outubro Vermelho (Hunt for the Red October), o personagem de Sam Neill, pouco antes da fama em Jurassic Park e ainda servindo de escada a Sean Connery, fica repetindo incessamente que, assim que chegassem na América, iria se dedicar a criar coelhos. Seu sonho era ter um rabbit farm in Iowa.
Na sátira do Mad, o personagem de Sean Connery comenta: "É uma pena ouvir isso."
"Por quê?", pergunta o outro.
"Porque, em filmes como esse, quem tem um sonho sempre morre."
Batata. Podem começar a olhar. Tirando as exceções grotescas (quando é o mocinho falando, etc), quem tem um sonho sempre morre.
Meu romance vem sendo muito bem recebido entre os leitores. Veja abaixo o que mais uma leitora, Calime, postou em seu blog sobre Mulher de um Homem Só:
Sobre um romance
"A tal da Mulher de um Homem Só é um desses casos raros de personagem que ultrapassa o conceito de autor e obra e ganha vida própria.
É curioso como até agora ela me domina um pouco. Feiticeira entretendo a platéia na enumeração de suas mazelas incontáveis: Carla, cruel e cheia de graça. Ninguém resiste a súplica falsamente tímida nas entrelinhas "se ninguém ora por você, a auto-indulgência pode ser um remédio".
Confira no site do romance, aproveite e dê uma olhada no excelente e já linkado blog do autor, Alexandre Cruz Almeida: Liberal Libertário Libertino"
Calime, obrigado por ter o carinho de registrar sua opinião.
Opiniões de leitores são sempre inestimáveis. Se positivas, me ajudam a convencer outros a ler o livro. Se negativas, me ajudam a melhorar o livro que, afinal, ainda está em aberto.
Fala sobre o tempo quem não tem mais nada pra dizer. Então, vamos lá:
A Máxima de Hoje
Por que a temperatura máxima nacional é sempre no Rio?
"A máxima de amanhã será 24 graus nessa capital aqui no sertão nordestino, 26 graus nessa cidade no meio da selva amazônica, 25 nessa outra capital no planalto central onde nunca chove e, finalmente, 38 graus na aprazível e ventilada cidade litorânea na borda da zona subtropical."
Será que o Rio é mesmo mais quente do que o sertão da Paraíba?!
Calorzão, Hein?
Como se não bastasse a roupa grudando no corpo, o pior mesmo é ter que ouvir todo mundo falando a mesma coisa, um mais original que o outro:
Ô calor, hein? Que calor! Calor infernal! Caramba, como está quente. Esse verão promete!
Nem um bom pé d'água resolve o drama, pois os originais de plantão só mudam a letra, a melodia da ladainha continua a mesma:
Que chuva, hein? Está chovendo cães e gatos. Nunca vi cair água assim. Também, depois daquele calorão...
"Todo ano é isso... RJTV, previsão do tempo: "Tempo BOM em toda a cidade!" (abre um sorriso e só falta piscar pra mim, que tô assistindo) "Mínima de 30º e máxima de 40º!" (se fosse possível, o apresentador pulava o balcão e mandava um u-huu!!!!, de joelhos no cenário) Não é possível que um calor infernal desses seja motivo pra tanta alegria! Derrete até peruca de náilon da velharia na rua, e exaltam como se fosse um troço sadio. Ah, é uma alegria, né? "Um calor de rachar", como diz o Ronaldim na propaganda, triste porque está longe. A maioria adora e fica exultante de olhar pro termômetro marcando uns 41º."
Eu fico há anos encasquetado com isso. Caralho, tempo bom pra quem? Pra quem conserta ar-condicionado? Pra quem vende sorvete? Pra quem mora no exterior e não tem que colocar a Brahma na geladeira?
Pra mim, carioca, free-lancer, que passa o dia todo indo daqui pra lá debaixo desse sol mercurial, é um verdadeiro suplício.
Aguardo ansioso o dia em que o meteorologista vai dizer: "Gente, excelentes notícias: amanhã, tempo bom em toda cidade. Isso mesmo que vocês ouviram, tempo bom: nuvens esparsas, leve brisa, queda de 10 graus na temperatura e ainda aquela chuvinha refrescante no fim da tarde."
Vocês falam de capitalistas ("ficar defendendo os pobres coitados dos empresários e capitalistas?"), de grandes empresas, de contratar consultorias ("da próxima vez que quiserem abrir um serviço gratuito, contratem alguns consultores primeiro para verificar a viabilidade do negócio").
Acho que vocês não entenderam bem. O Fotolog não é o iG ou a Globo.com. O Fotolog são três carinhas que trabalham na indústria de TI, fizeram essa criança no seu tempo livre, pagando custo de servidor do bolso e virando muita noite. E vocês falam dos caras como se eles fossem aqueles magnatas americanos de cartum, com fraque e cartola, esfregando as mãos na expectativa de explorar os coitadinhos.
Caramba, coitados dos caras. Quer dizer que pra eles oferecerem um serviço de graça pro mundo inteiro (e não serem xingados depois quando quiserem cobrar), eles teriam que ainda por cima ter contratado uma consultoria?! E na bundinha, não vai nada?
Quando escrevi o artigo Não Existe Almoço Grátis, sobre exatamente esse mesmo problema, fiz questão de entrevistar o Daniel Braga, dono do Comentar, que é um moleque de 20 e poucos anos, que acabou de passar no vestibular e mora com os pais. O Daniel fez tudo o que os rapazes do Fotolog fizeram: criou o serviço no tempo vago, ficou difícil de manter e ele criou um serviço pago com mais recursos.
Não vi ninguém chamando ele de capitalista selvagem ou mandando ele contratar consultores ou dizendo que é azar o dele o Comentar ser um sucesso. Seria ridículo.
Mas parece que tudo que vem dos Estados Unidos é coisa de magnatas, de capitalistas, de grandes empresas. E tasque piche e penas nos meninos do Fotolog.
A Questão É Cultural Sim
Existe reclamar e reclamar.
Os americanos são consumidores chatos, reclamam de tudo. Mas nunca reclamam de ter que pagar. Um americano é educado numa cultura em que tudo é pago. Até hospital público e universidade são pagos. Vai explicar pra um americano que uma universidade pública brasileira é 100% gratuita! O cara não entende.
Lá, eles reclamam e escolhem muito, trocam de empresas, não ficam parados, cobram serviço. Se o Fotolog tem poucos clientes americanos, talvez seja realmente porque o sistema dá muito chabu e os americanos já migraram para outro similar mais eficiente.
Jamais ocorreria a um americano reclamar por um serviço pago tornar-se gratuito.
Já o Brasil é a terra dos direitos. Incluíram até na Constituição o Direito à Moradia, não é lindo? Não sei quem garante esse direito, mas ficou super bonito lá escrito.
Aqui temos universidades, hospitais, restaurantes, até provedores gratuitos. Aqui existe uma teoria de que o governo tem que ser dono de empresas de telefonia, petróleo, educação. Nunca me explicaram muito bem qual é a vantagem pra mim da Petrobrás ser estatal, mas tudo bem.
Ao mesmo tempo, somos consumidores carneirinhos. A maioria das empresas faz gato e sapato do consumidor tupiniquim e ninguém reclama, aceitamos tudo, achamos que o erro é sempre nosso.
Mas quando um pobre coitado que bolou um serviço grátis, e pagava do próprio bolso, decide pensar em cobrar, uau, é o fim do mundo, capitalismo selvagem, querem nos explorar.
Essa discussão me cansa. É de uma puerilidade gigantesca. Vocês só provaram o que eu disse: o brasileiro é um consumidor infantil, que não faz idéia do que é e do que não é seu direito e reclama sempre na hora errada, da coisa errada.
É verdade: existem serviços semelhantes ao Fotolog, alguns melhores. Usem-nos. Serviço gratuito é presente, e de presente não se reclama. Usem ou não usem. Se querem o direito de reclamar, paguem por isso.
"Ao mesmo tempo que voce diz cada coisa que não se escreve como aquela de dizer que devemos nos manter escravos da mentira, pois a verdade aprisiona, voce banca o caretão, assume aquilo que é, um recionario posando de liberal! Mas, por que o brasileiro não gosta de pagar? Por acaso esta querendo encher o bolso da industrai de software enquanto milhoes não tem emprego e sem a pirataria não teriam sequer acesso á rede, viveriam pior que Talebans. Conheço muitos que ficam naquela pose PC, politically corect, sao contra a piratrai, mas se apareceuma novidade recem saida nas telas de cinema logo correm ao primeiro camelo da esquina atras do Ultimo Samuray. Fique sabendo, mesmo na sua pose de underground, que explorar a boa fé das pessoas tambemmnão é etico! Alias, não presiso ficar recebendo a sua newsletter de um brazuca qualquer qurendo bancar o Thomas Edison de Dpogville. Um falso iluminista querendo dar liçoes de moral!"
Não se pode exigir de um livro o que ele não se propõe. The Fountainhead não tem que ser realista, pois nunca se propôs a ser realista: é um romance de tese.
Via de regra, fujo de romances de tese: teses e idéias ficam melhor em ensaios e dissertações, mas, enfim, esse livro é a minha cara.
Ayn Rand criou uma filosofia chamada Objetivismo, onde prega os valores da razão, do egoísmo e do capitalismo. Seus romances, ensaios e peças de teatro são veículos para suas teses.
Já na introdução à The Fountainhead, ela admite claramente que escreveu o livro para descrever o homem ideal, como ele pode e deveria ser, e como esse tal homem perfeito faria para funcionar em sociedade e vencer seus desafios:
"This is the motive and purpose of my writing: the projection of an ideal man. The portrayal of a moral ideal, as my ultimate literary goal, is an end in itself - to which any didactic, intellectual or philosophical values contained in a novel are only means. (...) My purpose is not the philosophical enlightenment of my readers [but] the portrayal of Howard Roark as an end in itself."
O romance só pode ser entendido, apreciado ou odiado com base nessa premissa.
Eu não quero dizer nem que o livro é bom nem que ele é ruim por ser um romance de tese. Existem romances de tese bons e (a vasta maioria) ruins. Estou dizendo apenas que ele deve ser julgado em função de ter ou não atingido o que se propôs atingir.
Nada, nada mesmo, poderia estar mais longe de um romance de Sidney Sheldon, ou da Escola Urbana.
Discordo da Loba quando ela diz que não tem como não gostar. Infelizmente, tem sim. Mas depende da sua postura.
Eu e a Loba amamos o livro pois amamos Howard Roark: seus ideiais são os nossos ideais, sua integridade e força é a integridade e força que gostaríamos de ter.
Mas reconheço que, se você não partilha dos valores de Ayn Rand e de Howard Roark, o livro deve beirar o insuportável. Ele é prolixo, intelectualóide e moralista. Pior, os personagens são simples e caricaturais.
Como escritor, dado o que Rand estava tentando atingir, não acho que poderia ser diferente.
Por fim, incompreensível é tudo o que o livro não é. Pelo contrário, por seu papel de exemplificação da teoria da autora, ele é claro até demais. Não há espaço para ambiguidades.
Reparem que embora eu esteja amando o livro, estou apenas na página 170. Recomendo o livro, não as idéias de Rand, que embora soem interessantes, não estudei a fundo nem mesmo para saber se concordo, muito menos para recomendar.
Finalizando, a filosofia de Ayn Rand em suas próprias palavras:
"My philosophy, in essence, is the concept of man as a heroic being, with his own happiness as the moral purpose of his life, with productive achievement as his noblet activity and reason as his only absolute."
Depois de meses de erros técnicos, lentidão nos servidores e problemas generalizados, o Fotolog finalmente parece que vai entrar nos eixos. A partir de ontem, o sistema não está mais aceitando novos usuários gratuitos e vai passar a dar maior prioridade aos assinantes pagos. Além disso, acabou de receber um importante aporte financeiro.
Finalmente, reconhecendo que os brasileiros já são mais da metade dos usuários, fizeram esses comunicados em português.
O Que É Um Fotolog?
Fotologs são blogs de fotos, ou seja, sites que permitem que você coloque fotos na Internet com facilidade e rapidez.
Fotógrafos amadores andam pela cidade com suas câmeras, fotografando o mar, o pôr-do-sol, placas engraçadas, as pernas das mulheres. Mães tiram fotos de seus filhos, donas-de-casa, de seus bolos, artistas plásticos, de suas obras, adolescentes, de seus amigos e noitadas. E postam na Internet.
Estava conversando sobre o assunto com o meu pai e ele perguntou: “Mas o que essas pessoas ganham isso?” Depende. O que você ganha caminhando pela praia ou jogando bocha?
Flogar, hoje, já virou hobby.
Tipos de Fotologs
A maioria dos flogs é individual.
Um dos mais populares é o da Sinistra, cuja fotonovela, Mansão Maliciosa, ela espera depois publicar em forma de livro.
A artista plástica Loba Má está desenvolvendo uma série de colagens belas e perturbadores sobre “espaços do tédio”, como call-centers e salas de espera.
Adam Seifer, ou Cypher, o criador do Fotolog, fotografa tudo o que come: é o Foodlog.
Em um fotolog normal, só o dono pode postar fotos. Já um fotolog coletivo, por definição, está aberto a todos. E são os mais interessantes.
Para os cariocas doentes, não faltam flogs do Rio, nem atual e nem antigo.
O Fotolog no Brasil
Hoje, 6 de fevereiro, existem cerca de 300 mil fotologs, dos quais 170 mil brasileiros, cerca de 56% do total. Em comparação, os fotologs americanos são apenas 20 mil, meros 6%.
Ninguém consegue explicar porque há tantos flogs brasileiros, nem os próprios criadores do Fotolog. Há teorias, nenhuma satisfatória. Tudo bem, brasileiros estão sempre ansiosos para consumir novas tecnologias, mas a ponto de desbancar os americanos? E de tão longe? É incrível.
A língua oficial do Fotolog é inglês, mas só pra inglês ver. Andando por lá, o que mais se vê é o bom e velho português, salpicado por hilários trechos em inglês macarrônico. Uma flogueira, de fotos provocantes, diz em seu título: “Look me... and feel!” Tentei explicar pra ela que essa expressão “look me” não quer dizer nada em inglês, mas ela não quis nem saber.
A invasão brasileira causa uma série de problemas logísticos.
Um desses problemas é que os brasileiros simplesmente não entendem que são um problema, e ainda se ofendem: “Como assim? O que tem de errado com os brasileiros?”
Nada, mas imaginem se vocês criam um serviço on-line brasileiro, como o Fulano ou o Ivox e, um belo dia, você descobre que 56% dos usuários são paquistaneses, que não falam português, se comunicam entre si na língua deles (que você não entende) e, pior, não pagam.
A Hora do Bolso
O brasileiro, tradicionalmente, não gosta de pagar. Até aí, tudo bem. Ninguém gosta. Mas o brasileiro sinceramente acha que tem direito de usufruir do trabalho dos outros de graça. Esse é o problema.
O Fotolog não tem publicidade. Ele se mantém, mal e mal, vendendo assinaturas, que eles chamam de Gold Camera. Quem se dispõe a investir cinco dólares por mês, pode postar até seis fotos por dia com direito a cem 100 comentários, além de outras regalias, enquanto que, no serviço gratuito, é só uma foto e dez comentários por dia.
Os fundadores ainda mantêm seus empregos, cuidam do Fotolog nas horas vagas e reaplicam todo o dinheiro arrecadado em tecnologia e banda.
Sem o mecenato dos 1% de santos que assinam a Gold Camera, a brincadeira já teria acabado.
Nossos patrícios, entretanto, não vêem a coisa desse jeito. Quando os criadores do Fotolog criaram a Gold Camera para tentar viabilizar o serviço, os usuários brasileiros, com seu inglês de jogador de futebol no exterior, quase quebraram tudo, incitaram revoltas, escreveram manifestos e, claro, não pagaram.
Coitados dos americanos. Criados em uma cultura que valoriza o empreendimento, não entenderam porque tanto barulho. Acharam, sinceramente, que a questão era financeira, que R$15 por mês era demais para a realidade brasileira.
Alguém precisa explicar pra eles que, para 80% dos flogueiros tupiniquins, isso é mixaria.
A Nova Fase do Fotolog
Usar o Fotolog nos últimos meses tem sido um martírio. A lentidão é extrema, os erros se sucedem, as fotos não conseguem ser enviadas, fotologs somem sem explicação, assinantes do serviço pago se vêem no plano gratuito.
Por causa disso, começou a crescer um movimento de assinantes exigindo, entre outras coisas, prioridade no atendimento e bloqueio de novos fotologs gratuitos até que o sistema se estabilize.
Ontem, as coisas começaram a mudar.
A equipe do Fotolog não apenas cedeu aos pedidos como ainda anunciou o primeiro aporte de capital da empresa. Os fundadores vão poder, finalmente, sair de seus empregos, contratar uma equipe e melhorar o serviço.
Interessante mesmo foi o modo como fizeram o comunicado: em inglês... e português.
Depois, navegando pelo site, deu pra ver muito do conteúdo importante também estava em nossa língua.
E, quando tentei postar uma foto e não consegui, o sistema teve a gentileza de me avisar, em português, que a capacidade do sistema estava comprometida, que só assinantes pagos estavam podendo postar e para eu tentar de novo entre 2 e 11 da manhã... horário de Brasília.
Quem diria ver um site americano dando as horas em horário de Brasília.
Uma das tarefas prioritárias do primeiro (e por enquanto único) funcionário da empresa é tentar buscar uma parceria com alguma empresa nacional que, nas palavras de Seifer, “entenda como monetizar os internautas brasileiros melhor do que nós.”
Como usuário do Fotolog e ex-empresário falido de empresa de Internet, eu só posso desejar boa sorte.
Uma versão editada desse texto foi publicada na minha coluna Internet, na Tribuna da Imprensa, no dia 6 de fevereiro de 2004
Por um lado, odeio vestibular. Fiz de tudo para não fazer. Na prática, nunca fiz. No vestibular pra História na UFRJ, em que bastava não ser eliminado, eu fui. No vestibular de História, pra PUC, bastava não zerar, eu marquei C em todas e fui embora, passei. No vestibular de Jornalismo, pra Estácio, bastava não zerar, eu marquei C em todas e fui embora, passei. Em quarto lugar. Acabou que só entrei pra UFRJ porque me transferi da PUC, tinha notas ótimas e artigos publicados na área.
O método americano é mais, digamos, abrangente. Eles levam tudo em consideração. Tudo mesmo. Desde projetos sociais nos quais você se envolveu até se você trabalhava durante as férias escolares. O processo é imprevisível e muitas vezes injusto. Você, às vezes, pode não entrar porque eles já aceitaram editores de jornal demais, agora querem alunos com backround de música. Nunca se sabe. O potencial de distorção é grande.
No Brasil, nunca funcionaria. O QI (quem indica) iria reinar absoluto. O vestibular, pra nós, é o método perfeito. Criticam tudo nesse país mas nunca ouvi criticarem a probidade do vestibular - e como não faltam inimigos do vestibular, isso é ainda mais digno de nota.
Num país tão injusto, o vestibular nivela tudo. É o momento da verdade. Só você e aquela prova. Não faz diferença onde você estudou, se você é rico ou pobre, branco ou preto, filho do porteiro ou filho do governador. O vestibular é o único momento em que todos os brasileiros são iguais.
Naturalmente, quem é rico e estudou nas melhores escolas vai ter uma vantagem, mas não há como eliminar essas vantagens, a não ser tornando os outros café-com-leite (o que querem fazer com as cotas), algo tão humilhante quanto injusto. Os ricos sempre terão as vantagens competitivas, não tem jeito - a não ser fazer uma revolução e cortar-lhes as cabeças.
No vestibular, essas vantagens são diminuídas ao mínimo. É a melhor chance que um rapaz pobre da periferia tem pra desbancar e derrotar um riquinho mimado da zona sul.
Gosto de ver vocês pilhados. Teve gente se revoltando, se mostrando, se abrindo, se enrolando na bandeira. Alguns se revoltaram, dizendo que queriam ver mais universidades brasileiras na lista, mas eu, que conheço o mundo lá fora, me espantei de serem tantas. Indispensáveis mesmo eram só USP, Unicamp e UFRJ.
A lista está certa. Independente de quantas olimpíadas de matemática a gente ganhe, as universidades brasileiras não batem esse bolão mesmo, não. Como disse a Loba Má, qualquer boate americana tem uma estrutura melhor do que nossas melhores universidades, essa é a triste verdade. Quem só conhece as melhores federais daqui entra em Cornell, Columbia, Stanford, e é um outro universo. É muito fácil pra quem nunca saiu do país, nem nunca entrou no campus de uma Ivy League, achar que a USP é a coisa mais foda do mundo.
O curso de História, que completei na UFRJ, em termos materiais, não diferiu em nada de como seria um curso de História ministrado em 1880 - aliás, quem conhece o IFCS, sabe que as cadeiras são dessa época mesmo. Inclusive, durante alguns dias, ficamos sem luz, pois a universidade não pagou a conta. Mais 1880 impossível.
Pra quem faz História, isso tudo é folclórico.
Minha mulher, entretanto, fez mestrado em Geoquímica em outra federal e, lá, quando falta luz ou pipocam greves intermináveis, as amostras estragam, os experimentos se interrompem, as carreiras ficam em suspenso e muito dinheiro é jogado fora. Não é bonito.
Em suma, as nossas universidades fodas são fodas justamente por serem fodas em meio a tantas adversidades, mas não vamos nos negar a enxergar essas adversidades. Tentar fazer um trabalho sério numa federal brasileira é um martírio. Qualquer bom acadêmico desejaria a tranquilidade de recursos materiais da boate média americana.
Aulas com o Autor do Livro
Eu cursei História na PUC e UFRJ. Não há nada melhor. Quem é alguém em História do Brasil está ou na UFRJ ou na USP. Fazer História na UFRJ significa ter aula com as maiores mentes do campo, com quem realmente está na vanguarda, fazendo acontecer.
Raras eram as aulas que não fazíamos com a autor do livro. Estudei Brasil Império com Ilmar Rohloff de Mattos e José Murilo de Carvalho. Estudei Brasil República com Anita Prestes e Marieta de Moraes. Estudei escravidão com Manolo Florentino. Estudei História Ibérica com João Fragoso. Estudei História Antiga com Emmanuel Bouzon. Estudei Literatura Medieval com Luiz Costa Lima. Estudei História Contemporânea e Psicanálise com Clara de Góes.
Quem conhece minimamente esses campos reconhece os nomes. Bouzon é um dos maiores experts em Mesopotâmia do mundo. O Manolo revolucionou o modo com se estuda a escravidão.
E não estou só falando de matérias eletivas. Esses mestres, incrivelmente, davam até mesmo matérias feijão-com-arroz.
Nunca vou esquecer uma dobradinha que fiz com Anita Prestes. No primeiro tempo, Brasil República, uma obrigatória pra 80 alunos, em que a Anita tinha que se ater ao programa e, o mais difícil, não barbarizar. Logo depois, eu e meia dúzia de felizardos íamos para o gabinete dela para a "eletiva de autor" Influência dos Militares da República Velha, a área de maior conhecimento da Anita, onde ela se esbaldava, deixava correr sua verve e sua cultura e, muitas vezes, negava o que tinha ensinado na aula comportada anterior.
Essas dobradinhas eram comuns, pois todos os professores davam, além das eletivas de sua paixão, também as obrigatórias chatinhas.
Tenho amigos que estudaram nas melhores universidades do mundo e nunca tiveram aula com o autor do livro, com alguém realmente foda daquele campo de conhecimento. Tenho amigos que contam, com orgulho, a única aula que tiveram, em quatro anos de graduação, com alguém que realmente valesse a pena. Eu, depois de dois anos de História na PUC e quatro na UFRJ, conto nos dedos as aulas que tive com gente mais ou menos.
Acho que só por isso minha experiência universitária foi tão boa, apesar de 100% inútil. Se eu tivesse cursado Jornalismo na UFRJ, por exemplo, curso que comecei na PUC e na Estácio, com certeza não teria sido tão gratificante, mesmo a UFRJ sendo a 331ª melhor universidade do mundo blá blá blá.
Um leitor me recomendou Atlas Shrugged, da mesma autora, mas como não consegui encontrar e a Loba Má há anos insistia pra eu ler The Fountainhead, cedi.
Estou embasbacado. Petrificado. Eu rio. Eu choro. Eu grito "yes!" no meio do ônibus lotado como se estivesse em uma arquibancada.
Deveria ser leitura obrigatória pra todos os artistas.
Meu novo blogueiro preferido, o Doutor Plausível, escreveu uma série de artigos sobre a norma culta da língua e os absurdos feitos em seu nome. Como assino embaixo de tudo o que ele diz, vou dar só aqui um exemplo pessoal, mas recomendo que antes leiam isso (post de 2 de fevereiro) e isso.
Enfim, como disse o Plausível, não é que a norma culta não seja inteligente, ela não é abrangente.
O Projeto SobreSites
Eu fundei e dirigi, por dois anos, o Projeto SobreSites, hoje uma rede de mais de 80 guias temáticos sobre todos os assuntos possíveis e imaginários, desde Arquitetura até Aquarismo. Dêem uma olhada que vale a pena: o SobreSites tem, hoje, mais de 4 milhões de pageviews mensais. E, se quiserem ser editores do Guia de algum assunto que dominem, é só falar comigo.
Pois o maior desafio do SobreSites é justamente gerenciar esses mais de 80 colaboradores competentes, voluntários e não-remunerados que produzem e mantém tantos Guias de altíssimo padrão de qualidade. Como não podemos pagá-los, temos que pelo menos lhes dar atenção e carinho.
Mas é uma tribo muito diversa. Temos donas-de-casa falando de Defesa dos Animais, adolescentes falando de Anime e Harry Potter, médicos falando de Saúde Infanto-Juvenil e líderes religiosos falando de Hare Krishna, Catolicismo e outros. Alguns fáceis de lidar, outros metidos a estrela. Tem de tudo.
Português Impecável, mas Implacável
Um dos funcionários, que acabou promovido a Gerente de Relacionamentos, tinha um jogo de cintura fenomenal. Ao falar com o Editor de Catolicismo, invocava a Virgem e a Cruz. Ao falar com a Editora de Harry Potter, terminava dizendo: "Espero sua Coruja". Os emails para a Editora de Wicca eram abertos com "saudações wiccans". Melhor ainda, era estudante de História na UFF e também era fluente em academês, única língua na qual alguns editores se comunicavam. Ele sabia entrar na tribo de cada editor, sabia falar sua língua, sabia pertencer. As pessoas ficavam à vontade com ele, já o consideram amigo depois de uma breve conversa.
Outro funcionário, que acabou demitido, fazia Letras, era inteligentíssimo e tinha um português perfeito, mas só sabia falar academês.
Tentei, durante vários meses, ensiná-lo que nenhuma linguagem, por si só, é superior à outra. Nenhum discurso é válido em 100% dos casos. O ser humano dominou o globo por ser adaptável. É fundamental adaptar a linguagem ao receptor.
Ele não entendia. Se entendia, não praticava. Seu português escrito era impecável, mas implacável. Sem concessões.
A gota d'água foi seu relacionamento com um aspirante a Editor de Skate. Seus emails para o skatista tinham palavras que, se algum skatista soubesse, logo deixaria de ser skatista, pois seu cérebro ficaria tão pesado que afetaria seu centro de gravidade e ele cairia pra frente.
E eu dizia: seu português é impecável, mas de que adianta escrever palavras que você sabe - ou deveria saber - que um skatista de 16 anos não conhece? Só pra fazê-lo se sentir burro, constrangido, inconveniente?
O Editor de Skate em potencial sumiu. O funcionário sumiu logo depois. Ele e seu português absolutamente impecável.
Já rodei muito esse mundo. 21 países é coisa à beça, mas quando olho a superfície total das minhas viagens no mapa, não parece quase nada. Hoje em dia, não tenho mais saco pra viajar. Andei muito e descobri que mudam os prédios, as roupas, as comidas, o resto é igual. Cada vez mais, a única viagem que vale a pena é pra dentro.
Poucas partes do corpo humano são mais sensuais e expressivas do que as mãos.
Adoro especialmente unhas grandes e bem-feitas.
Além disso, essa moda recente de fazer desenhos nas unhas vêm me enlouquecendo. Chego a parar na rua pra tentar ver os padrões direito. Melhor ainda, são um excelente quebra-gelo: olha, que unha linda, deixa eu ver, o que é?, puxa, eu acho isso o máximo, etc etc.
A Evolução das Unhas
Vamos parar um pouco e considerar as unhas. A gente olha pras nossas mãos e pés e pensa: pra que raios servem as unhas, esses pedaços de matéria dura revestindo um dos lados dos dedos? Não parecem ter muita utilidade.
Mas toda unha é, antes de tudo, uma garra domesticada.
Unhas, grandes, afiadas e nunca cortadas, eram o que usuaríamos pra subir em árvores, nos segurar nos galhos e cortar comida. Em outro momento, mais carnívoro, seriam usadas para segurar e matar a presa. E, claro, nas costumeiras lutas entre primatas, elas se converteriam em nossas principais armas para conquistarmos os favores sexuais da macaca mais gostosa do bando.
De qualquer modo, até hoje ainda há algo de estranhamente cruel e intimidador em uma unha comprida.
Infelizmente, uma das primeiras providências da civilização foi domar as unhas. Homens estão definitivamente proibidos de usá-las. As mulheres ainda podem, mas curtas - curtas em relação ao tamanho que poderiam atingir, que fique bem entendido.
A graça é que critérios como esses são totalmente aleatórios. Unhas grandes não são intrinsecamente femininas nem masculinas. Mas enfim, como nem mesmo um louco iconoclasta como eu vive no vácuo, também associo unhas grandes e afiadas à mulheres.
As unhas são talvez a única arma que os homens permitiram às mulheres, ao mesmo tempo que negando-as a si mesmos - afinal, era coisa de mulher. Nada seria menos viril do que um homem unhar outro.
Unhas Malvadas
Unhas grandes representam todo o mistério e perigo da mulher. Uma mulher que traga suas unhas longas cuidadosamente afiadas está não só seguindo a moda: ela está nos lembrando, sutilmente, que é um animal perigoso e insondável. Parecem dizer: posso arranhar suas costas durante o sexo para lhe dar mais prazer ou posso arrancar seus olhos. Ou ambos. A escolha é sua.
Um homem que se envolve com uma mulher de unhas grandes o faz por sua conta e risco.
E, como os leitores desse blog já estão cansados de saber, tenho uma forte tara por mulheres más.
Vocês vão achar graça, mas todo esse longuíssimo texto, que já remeteu até a pré-história, era somente para apresentar a primeira foto acima, que encontrei no flog Hands e me deixou balançado.
Imagino que poucas pessoas olhariam para essa foto com tesão. Sou uma delas.
Há uma beleza primordial nessa mão. Ela é, ao mesmo tempo, sexy e perigosa, feminina e ameaçadora, frágil e perversa.
Desocupados da China fizeram o primeiro ranking mundial de universidades, levando em conta critérios como número de vencedores do prêmio Nobel, citações em revistas especializadas, etc. Minha única (e enorme) crítica ao método: eles ignoram, solemente, as humanas (exceto pelo Nobel de Economia, por exemplo) e praticamente só consideram as contribuições das universidades nas ciências exatas.
Tenho orgulho de anunciar que sou formado pela 331ª melhor universidade do mundo, a combalida UFRJ. Além disso, o Brasil também comparece à lista com USP (152º), Unicamp (378º) e Unesp (435º). Parece pouco para os ufanistas de plantão, mas Chile, Argentina e México tiveram somente uma cada, e olhe lá. Na América Latina, mais ninguém. Portugal também só teve uma, e não foi a famosa Universidade de Coimbra.
Estudei em escola americana e me lembro de universidades caça-níqueis dos confins do Arkansas e do Wyoming que mandavam representantes para garimpar alunos por aqui, brasileiros endinheirados que não tinham noção que boate é boate, em Ipanema ou em North Dakota.
Ah, sei que essas listas não valem nada, mas como eu adoraria andar com ela na carteira e sacá-la ao primeiro gringo preconceituoso.
Hmm, interessante, até gostei dos sporting facilities do Jockstrap College ou da área verde ao redor do Redneck County University, mas, realmente, se é pra ir pros 400s, melhor tentar a USP ou a UFRJ, não é?
Só deus sabe como penei para ter o direito de estudar no Brasil. As escolas americanas são rankeadas (assim como nossos cursinhos aqui) pelo número de alunos que enfiam nas melhores universidades. Todo ano, os folders institucionais da escola eram atualizados pra dizer: em 2003, colocamos 2 alunos em Harvard, 3 em Cornell, 1 em Princeton, etc. Naturalmente, o aluno-geninho que passasse pra Medicina na UFRJ ou Direito na UERJ era totalmente inútil para os fins propagandísticos da escola.
Pois é. Eu nunca fui bom aluno (meu CR era 79, considerado médio-baixo) mas eu era ativo e metido a líder, presidente do grêmio e editor do jornal, essas coisas, além de ter notas excelentes no SAT verbal, uma espécie de vestibular americano.
Com minhas notas, eu nunca entraria em nenhuma top 10, mas havia grandes possibilidades das minhas atividades extra-curriculares convencerem algumas das quase-topo a me aceitarem somente no quesito "potencial de liderança".
Vocês acreditam que fiquei sendo perseguido tanto pelo diretor quanto pelo orientador vocacional por quase dois anos? Cheguei a ouvir que estava jogando a minha vida fora!
Enfim, nunca tive dúvidas sobre minha decisão, nem nunca quis estudar fora. Mas teria sido bom ter mais alguém dizendo, e por escrito, que escolher a USP ou a UFRJ era, de fato, uma decisão bem mais racional do que se desbancar daqui pra ir estudar em alguma boate americana.
O Milton escreveu um post muito interessante sobre os Beatles. Logo depois, inexplicavelmente, minha mulher chegou em casa com desejo de Beatles, expulsou o Andrés Segovia interpretando Bach do aparelho de som (lindo! lindo!) e ouviu um cd dos Beatles atrás do outro.
"Às vezes, esquecemos dos Beatles. Meu filho ouve - e todos ouvem junto - carradas de Led Zeppelin, Deep Purple, AC/DC, Stones, Queen, Radiohead, Coldplay e outros. Na semana passada, durante uma divertida reunião na cama com crianças, pipocas, refris e algumas discussões, resolvi recuperar uma velha fita de vídeo com o documentário de 5 horas que acompanhou o lançamento do Beatles Anthology. Este documentário, datado de meados dos anos 90, foi calando-nos um a um. Ficamos inteiramente concentrados nele. Eu, ouvinte quase exclusivo de música erudita; Claudia, que só quer saber de óperas ou música brasileira; Bernardo, meu filho, que está quase sempre ouvindo rock pesado e Bárbara, minha filha, que prefere música dançável e de diversão (ao estilo do B-52, por exemplo), assistimos a tudo fascinados. A explosão de juventude, alegria e criatividade representada por eles afeta qualquer um."
O Milton é realmente perceptivo. A gente esquece os Beatles, mas eles estão sempre lá. A gente ouve outras coisas, mas nunca deixa de ouvir os Beatles.
Uma das manias mais chatas da Internet são aqueles testinhos tipo "que palavrão você é?", "que membro dos Simpsons você é?", etc. Pura babaquice. Existem, realmente, coisas que nos definem, mas são outros buracos em outras latitudes.
Outro dia, eu perguntei se vocês eram Creonte ou Antígona, Capitu inocente ou culpada, Saldanha ou Floriano. Acho, sinceramente, que as respostas a essas perguntas nos definem como pessoas.
E, agora, vou fazer outra: que álbum dos Beatles vocês são?
Pensem a respeito: todo mundo gosta dos Beatles, mas os álbuns são muito diferentes entre si.
Alguém que prefira Let It Be gosta de uns Beatles bem diferentes do que um cara que prefere Yellow Submarine. Como comparar fãs de Rubber Soul com fãs de Magical Mystery Tour? São duas tribos quase incompatíveis.
Eu sempre fui um Sgt Pepper's guy. Ouvia o disco direto, o dia inteiro.
O tempo passou e descobri, muito para a minha surpresa, que tinha me tornado um Abbey Road guy. Nenhuma das minhas músicas prediletas está em Abbey Road, mas ele é, hoje, pra mim, o CD mais poético, mais sublime, mais melancólico dos Beatles.
Aula de Saúde, muitos anos atrás. A professora perguntou: o vírus da Aids é de contágio fácil ou difícil? A turma, bombardeada por todo tipo de aviso histérico sobre a epidemia, respondeu, em peso: muito fácil! A impressão que tínhamos era que bastava respirar pra pegar Aids.
A professora clarificou: vírus de contágio fácil eram aqueles que se transmitiam pelo ar, como o Ebola. O temido HIV, na verdade, era um vírus de dificílimo contágio, só sendo transmitido em situações bem específicas. Bastava fugir ou evitar essas situações (o que é mais fácil falar do que fazer, claro) para ter certeza de não contrair o HIV.
De vez em quando, eu encontro pessoas que navegam pela Internet como nós, adolescentes dos anos 80, tateávamos pela sexualidade: com medo de pegar um vírus a cada instante.
E muitas me perguntam, desesperadas: como faço para não pegar vírus? Qual é o segredo?
Não tem segredo. Vírus de computador é como o vírus da Aids: extremamente difícil de pegar. Basta evitar os comportamentos de risco.
O Que Não Fazer: Usar Anti-Vírus
Em tempos de pânico por causa do MyDoom, vale a pena o lembrete: não instale um programa anti-vírus no seu computador. Isso é como se matar por medo de morrer.
A única coisa pior do que ter o Norton rodando no seu computador é ser infectado por um vírus. Aliás, dependendo do vírus, ele pode ser menos nocivo e menos intrusivo do que o Norton.
Os programas de anti-vírus tomam conta da sua máquina, reconfiguram tudo, interferem na maioria das operações básicas e consomem muita memória, tornando o processamento muito lento.
Qualquer vírus que fizesse metade do que o Norton faz seria considerado perigossíssimo.
Programas de anti-vírus são úteis apenas quando sua máquina já estiver infectada. Você compra ou baixa a última versão, instala, remove o vírus e desinstala.
Deixar um anti-vírus preventivamente instalado no seu computador é uma péssima idéia. Melhor arriscar os vírus.
O Que Fazer: Não Abra Nada
O segredo é simples: não rode nenhum aplicativo cuja origem você desconheça. Ficou muito complicado? Deixe eu explicar de forma simples: não clique nos arquivos anexados que você recebe por email.
Uma vez infectada a máquina da vítima, o vírus se auto-envia para todos os nomes da lista de contatos do Outlook.
Isso quer dizer que quando você receber um email do seu tio Godofredo dizendo: "Esse vídeo é sensacional!", não clique no arquivo anexado.
Confiança no remetente não é um fator. Seu tio Godofredo pode ser a pessoa mais confiável do mundo. Se estiver infectado, o vírus vai se mandar para todo mundo na lista de endereços do tio Godofredo, inclusive você.
A boa notícia é que não existe vírus que infecte o seu computador sozinho. É necessário que você clique nele para acioná-lo. Como saber o que é vírus? Não tem jeito. Não clique em nada.
Sei o que está pensando. É como a professora de Saúde: pregar abstinência é fácil, difícil é fazer.
Caso o arquivo seja muito interessante, envie um email de confirmação para o remetente: tio, você me mandou mesmo um vídeo? Se ele responder: "Claro, e você não viu ainda? É o máximo!", tudo bem. Se ele responder: "Que vídeo?", é vírus.
Alguns poucos tipos de arquivos ainda são seguros, como txt e jpg, mas só porque ainda não se descobriu um jeito de enfiar vírus neles.
Todos os outros são suspeitos, em especial exe, doc, htm, html, xls e ppt. Qualquer arquivo, de qualquer formato, não abra.
O Que Fazer: Windows Update
Um bom conselho preventivo é visitar freqüentemente a página do Windows Update, da Microsoft. Via de regra, a maioria dos vírus utiliza buracos no Windows e a Microsoft sempre lança os updates para fechar esses buracos. Assim que ouvir falar de um vírus, não abra, jamais, aqueles emails que dizem "use esse patch imediatamente!": vá ao site da Microsoft e instale o novo update.
Nada é certo nessa vida. Mas, fazendo isso, pode ter certeza de que estará protegido contra quase tudo.
Havia chovido pela manhã e ele preferiu deitar-se sobre a toalha. Eu, ao contrário, tirei a camisa. No contato com a terra úmida, senti um calafrio, o arco de minhas costas sendo roçado apenas pelas pontinhas mais altas de grama. De olhos fechados, eu não via o sol que se ostentava sobre nós, mas seu calor, mão de massagista experiente, passeava por meu corpo, me reaquecendo.
Estávamos de cabeças encostadas e eu podia detectar o inconfundível aroma de seu xampu de maçã. Abri os olhos ao ouvir a primeira página virada. Enquanto ele prosseguia a leitura, explorei o ambiente. Lá ao longe, do topo de uma montanha em forma de nariz, precipitava-se uma asa-delta amarela e verde, planando pelos céus em suas cores berrantes. Em terra, uma frondosa quaresmeira se espalhava perto de nós, fornecendo generosas sombras que não me interessavam. Suas flores roxas, estimuladas pelo verão próximo, começavam a desabrochar. Pena ainda não haver nenhuma caída pela terra; eu adoraria cheirá-las.
Ao mesmo tempo, também anunciando a chegada da nova estação, duas cigarras macho disputavam, através do canto, a posse das fêmeas. E apesar de sua curtíssima vida adulta, ambas demonstravam louvável cavalheirismo, chilreando por apenas alguns instantes e depois cedendo a vez à adversária. Mas a quem as fêmeas prefeririam, a de fretenido agudo e intermitente, ou a de ziziado lento e grave? Enquanto a vencedora se reproduziria, continuando sua linhagem, a derrotada não teria nem chance de encontrar outra parceira. Morreria em breve, levando consigo o canto pelo qual quase ninguém se interessou.
Me espreguicei, esticando ao máximo o corpo, retesando cada músculo e, depois, deixando-os relaxar. Sentia-me derretida sobre a grama. De repente, soprou um vento mais frio, farfalhando as árvores e calando as cigarras, mas não me importei. Em breve, eu estaria aquecida de novo, pois nada obstruía minha oferta de calor naquele céu sem nuvens.
Ele me passou a bolsa e procurei, dentre os tantos itens, pelo meu romance. Fui encontrá-lo apenas no fundo, debaixo do telefone celular desligado. Abri o livro e levei-o ao nariz. Sua editora era nova no mercado e eu ainda estava memorizando o aroma meio doce de suas publicações. Bem diferente, por exemplo, do leve azedo da Nova Fronteira e do salgado áspero da Record.
A história, deliciosa, mal começara e me envolvera. Em uma pequena trattoria lombarda, três acadêmicos bebiam Pinot Grigio e discutiam a genialidade e a culinária, sob um sol quente de junho. Acabavam de chegar à mesa dois esplêndidos faisões ao alabastro quando a gargalhada, súbita, me desconcentrou.
Não era a primeira vez que ele lia o conto, mas o poema do escritor que encarava trutas sempre o fazia rir. Trocamos olhares e sua cabeça pendeu em direção à garrafa térmica. Aceitei a oferta. Ele se serviu do café, bebeu sua parte e me passou o resto. Corpo já empertigado, esfreguei a xícara quente por meus seios, pescoço e rosto. Depois, inalei por alguns instantes o aroma amargo e só então o bebi. Meu companheiro, apesar de conhecer o ritual, acompanhou-o até o fim.
O líquido alastrou-se por meu corpo e saboreei cada momento de sua jornada. Quando voltei a deitar, entretanto, a quentura aumentara o choque térmico com a grama úmida. Senti que um novo calafrio se espalhava por mim, tentando a todo custo seguir o trajeto do café e lhe anular o efeito.
Enquanto meu corpo escolhia entre o calor e o frio, abri meu livro mas achei melhor não lê-lo e larguei-o aberto sobre o peito. Era um romance tão bom que se dava ao luxo de dispensar a pressa. Ao invés da passividade da leitura, preferi pensar sobre aqueles três personagens aos quais eu mal fora apresentada. Quem eram eles? Que destino lhes caberia pelas próximas páginas? De que maneira aquele longo trecho sobre genialidade e culinária seria inserido no contexto da história?
Ele bocejou e, aos poucos, também me veio o sono, acalentado pela regularidade de sua respiração e pela cadência de suas viradas de página. Sentindo o perfume de seus cabelos, com o gosto insistente do café ainda na boca e aquecida pelo sol do meio-dia, dormi.
O conto Um Dia, Entre Tantos faz parte do meu livro de contos Onde Perdemos Tudo.
É uma das peças mais trabalhadas que produzi e, talvez por isso mesmo, já não me atrai tanto: tudo soa literário demais. Enfim, eu era mais jovem, mais contido e cheio de regras na cabeça. Hoje, faria melhor, mas não gosto de mexer no passado. Ganha um brinde quem identificar o livro.
Um blog sobre rebeldia, contemplação e sacanagem, regado a muita literatura e humor. Nosso assunto são as várias prisões que acorrentam o homem, como ambi�‹o, verdade e medo. Dê sua opinião!
160. Omil, Alba. Cuatro Versiones del Mart’n Fierro. [Argentina, 1993] Dez. (TulBib)
159. Estrada, Ezequiel Mart’nez. Muerte y Transfiguraci—n de Mart’n Fierro. [Argentina, 1948] Dez. (TulBib)
158. Alposta, Luis. La Culpa en Mart’n Fierro. [Argentina, 1998] Dez. (TulBib)
157. Lesser, Jeffrey. A Negocia�‹o da Identidade Nacional. (Negotiating National Identity. Immigrants, Minorities, and the Struggle for Ethnicity in Brazil.) [EUA, 1999] (TulBib.) Dez.1
143. Cadena, Marisol de la. Indigenous Mestizos. The Politics of Race and culture in Cuzco, Peru, 1919-1991. [EUA, 2000] Out.
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