Se você gosta do Liberal Libertário Libertino, por favor, considere colocar um de meus banners ou botões em sua página ou blog. Existem vários modelos diferentes, cada um destacando uma frase marcante desse blog.
Agradecimentos à minha grande amiga, a Loba Má, pelo design.
Admiro pouca gente. É um traço de caráter. Nunca tive ídolos, nunca fui fã de nada.
Andando pela Internet, descobri a nova literatura brasileira sendo feita, ao vivo, diante dos meus olhos. Muito lixo, é verdade, como venho desenvolvendo na longa série de artigos sobre a Escola Urbana. Mas também coisas sensacionais, contemporâneos de quem se orgulhar.
Em termos estritamente literários, há três pessoas que eu admiro. Duas são citadas aqui com freqüência, o crítico literário Paulo Polzonoff, autor de O Cabotino, e o romancista Alexandre Soares Silva, autor de A Coisa Não-Deus.
O terceiro, menos citado mas não menos admirado, é o escritor Sérgio Barcellos Ximenes, do Blog do Romance.
Bastou uma resenha do Sérgio, no começo desse mês, para que eu lesse Angústia, do Graciliano Ramos, um autor que adoro e que estava na minha fila há anos. Sua resenha de hoje é de outro romance de outro autor que adoro e que também estou pra ler há anos, Mãe, de Gorki. Adoro Gorki. Sua trilogia autobiográfica é maravilhosa, mas ele devotou sua vida a uma das piores idéias de uma espécie pródiga em péssimas idéias, o comunismo. Nas suas melhores obras, isso transparece pouco. Mãe, entretanto, é tido como dos seus romances mais doutrinários. Estou há anos querendo ler, mas evitando, para não me decepcionar. Agora, essa nova resenha do Sérgio me mostrou que Mãe pode ser melhor do que eu imaginava. Sei não, mas acho que, daqui em diante, a minha lista de leituras vai tender a acompanhar os livros resenhados no Blog do Romance.
Enfim, confesso também ter medo do que esses três podem falar do meu romance e dos meus contos. Tenho medo, mas quero e preciso passar pelo crivo deles. São colegas que entendem do riscado, articuladores com quem dialogar. Digam eles o que quiserem, eu posso até discordar, eles podem até estar errados, mas não poderão ser ignorados.
Alexandre, Paulo e Sérgio, seus putos, sei que vocês lêem esse blog e gostam. Agora, parem de doce e experimentem ler o meu romance. Prometo dividir com os leitores os cascudos que levar de vocês.
Pablo Zumarán se descobriu hoje lendo o LLL: "Li seu texto sobre tradução, legendagem e dublagem. Ri às bandeiras despregadas. ¡Dou o maiórrapôio! (...) Sua fina ironia e verve lógica me deixaram preso ao monitor - coisa q muito E-scritor não conseguiu."
Foi recíproco, porque ele me enviou os endereços de seus blogs e eu também me descobri. Tirando algumas ressalvas minhas quanto à ortografia - é fato comprovado de usabilidade de texto: quanto mais incomum a ortografia, mais difícil de escanear o texto - o que ele escreve é sensacional.
Confiram duas coisinhas que ele escreveu sobre temas que foram muito conversados por essas bandas.
"Ele critica o fato de o brasileiro usar palavras como 'chat' em vez de 'bate-bapo', e 'site' em vez de 'sítio', e coisas do gênero. Mas um fato inescapável é q uma cultura, uma pessoa, uma ciência &c é tanto mais desenvolvida, complexa e eficiente qto mais distinções fizer sobre o q observa. Muita gente não vê diferença entre, por exemplo, 'insultar' e 'ofender'; mas existe uma diferença, e enxergar diferenças desse tipo é indício tanto de complexidade como de desenvolvimento. Portanto, ser capaz de expressar claramente a diferença entre uma idéia e outra por meio de duas palavras distintas é ótimo: 'site' é uma coisa e 'sítio' é outra e as duas nunca serão confundidas. No caso de 'site', o falante de inglês não tem esse boi: p/ distinguir entre um 'site' e outro, ele precisa ou do contexto ou de uma palavra a mais, por exemplo 'internet site' e 'building site'. O q o Rebelo não vê é q está exatamente aí o problema do brasileiro: o brasileiro não gosta de ter q analisar o 'contexto' p/ entender uma palavra e é portanto um mau leitor, um leitor sem prazer; ele não gosta de trocadilhos e tem pouco senso de humor; ele não gosta de vestir palavras antigas c/ significados novos e portanto fica confuso facilmente. Por outro lado, não é verdade (como quer o Rebelo) q o português tem palavras suficientes p/ batizar qqer novidade. Sorry. Muita coisa teria q mudar na infame 'norma culta' e na cultura brasileira p/ acompanhar o ritmo das novas tecnologias. Para ser preciso, é preciso ser metafórico: qqer jargão novo terá q usar o q já existe, como alíás é o q faz o inglês.
"O piloto foi detido por desacatar a PF c/ um gesto obceno, e no dia seguinte ¡a foto do delito me aparece estampada nos jornais de todo o país! HAHAHAHAHAHAHAHA ¡Q estrambotice! Pois sendo este um episódio momentaneamente importante nas relações entre o Brasil e os EUA, ¿será q ninguém se tocou de q a publicação do gesto obceno implica em q ele não é tão ofensivo assim? Se o piloto tivesse abaixado as calças, revelando uma ereção do dito cujo do qual o dedo é apenas símbolo, ¿a foto do evento teria sido publicada assim mesmo? Então!"
Polígono das Secas é o melhor romance de Diogo Mainardi e uma das mais contundentes críticas já feitas à literatura nacional. No natal de 1995, eu comprei cinco cópias para presentear amigos selecionados. Não é algo que eu faça com qualquer livro.
Sua proposta: destruir a literatura regional brasileira e tudo o que ela representa, através de uma paródia daqueles infindavelmente parecidos romances regionalistas que infestaram a nossa literatura entre as décadas de 30 e 70 - até serem desancados pela ainda pior Escola Urbana.
A literatura regional não era intrinsicamente má, assim como a Escola Urbana também não é. Mas 40 anos dos mesmo romances sendo reescritos é um inferno. De quantos caboclos caladões querendo vingar alguma coisa a nossa literatura precisa?
Mais uma vez, o que mata é a redundância.
Infelizmente, não tenho nem o livro aqui para citar os melhores trechos ou dar mais exemplos. Além dos cinco exemplares que dei de presente, emprestei minha cópia tantas vezes que ela sumiu. Quem tiver como conseguir, vale a pena.
Um dos meus projetos literários mais queridos é fazer o Polígono das Secas da Escola Urbana. Escrever uma grande paródia de todos os cacoetes do gênero. Se ficar bom, algum desses editores ignorantes pode até publicar, achando que é sério. E, um projeto desses, é melhor se escrito a várias mãos. Soares, Polzonoff, vocês já estão convidados. Voluntários, apresentem-se.
Finalizando
O otimista Alexandre Soares Silva acha que a Escola Urbana já começa a agonizar. Pessoas começam a reparar nela, reclamações afloram, daqui pro colapso final é um pulo. Sei não. O tédio tem uma inércia poderosa.
E quem reclama? Poucos gatos pingados. A crítica e os leitores parecem ainda apaixonados pela Escola Urbana. Livros como Manual Prático do Ódio são descritos como "romance original e vertiginoso - onde todos cultivam razões odiosamente humanas para matar, amar, morrer"!
A decisão está em nossas mãos, autores e leitores. Não existe o editor malvado ditando o rumo da literatura. O editor publica o que ele acha que as pessoas querem ler.
Cabe a nós, como leitores conscientes, exigir que os livros que lemos tragam um mínimo de originalidade, imaginação, beleza. Eu até admito que romances como Máquina de Pinball causem uma forte identificação entre as jovens mulheres das grandes cidades, mas identificação não é literatura. Pra isso, temos espelhos.
Cabe a nós, como escritores conscientes, exercemos uma censura interna mínima na hora de lançar nossos textos ao mundo. Nossa voz é só uma, entre muitas, e ninguém está exigindo que participemos da conversa. Melhor ser autor de três obras-primas, cada uma com sete anos de diferença, do que publicar um livro por ano e, ao final da vida, ter uma obra enorme que terá que ser garimpada para se encontrar as poucas pepitas entre os pedregulhos.
Não publique só para ouvir o som da própria voz: publique porque tem algo a dizer.
Ninguém cobra de perverso. As empresas que oferecem serviços gratuitos na Internet sabem que a decisão de cobrar é muito impopular. Via de regra, só apelam para a cobrança em último caso, para se manter vivas e porque sua forma de receita original não estava cobrindo os custos. Na maioria dos casos, essa forma de receita original é publicidade.
Quando gosto de um serviço gratuito na Internet, faço questão de fazer com que o fornecedor do serviço tenha algum tipo de compensação pelo presente que está me dando. Por exemplo, clico conscientemente em todos os banners e botões que vejo pela frente.
Sei que se o faturamento de publicidade for bom, essas empresas nunca vão querer se arriscar a cobrar de mim pelos serviços que usufruo de graça. Melhor ainda, nunca vão falir e me deixar sem o serviço.
Apesar disso, muitos internautas andam bloqueando os banners de seus blogs.
Realmente, não sei o que leva alguém a fazer isso.
Será que não vêem que é só por causa dos banners que eles usufruem de seus blogs e sites gratuitamente? Que se os banners sumirem, ou pararem de dar retorno, a empresa não vai ter outra alternativa que não falir ou cobrar?
Alguém Tem Uma Idéia Melhor?
Eu confesso que não gosto muito de banners, mas também confesso que não tenho solução melhor.
Essas pessoas que querem usufruir do serviço (ou seja, não querem que ele feche), mas que não querem pagar por ele e nem querem ficar vendo banners no seu blog, bem, acho esses quereres muito justos, mas essas pessoas deveriam sentar e pensar urgentemente em algum novo modelo de arrecadação para as empresas de internet.
Até lá, essas três opções ficam sendo praticamente as únicas: fechar de vez, cobrar assinatura ou divulgar banners.
Cuidando de Mordida de Cobra
Conversei com um internauta que bloqueia os banners em seu blog e ele me disse:
"O tema 'Blogs Gratuitos: Ética x Estética' daria muito pano pra manga. Minha posição é pró-Estética pelos motivos: o banner é feio, sutil como macaco em loja de louça, e já carregamos a marca 'blogspot' marcada com ferro em brasa no próprio nome. É o suficiente pra mim."
Verdade seja dita, ele não só carrega a marca 'blogspot' no endereço do seu blog como também incluiu na página o selinho de divulgação da empresa, Blogger.
Pôxa, e não é suficiente? De três eu fiz dois, ele parece estar dizendo: não basta para satisfazer esses fominhas do Blogger? E, além do mais, os banners são horríveis!
Isso tudo é muito bonito, e quase faz sentido, até que você lembra que o importante é o banner. O banner é a única fonte de renda da empresa. O nome da URL e o botão são legais, ajudam, divulgam etc, mas quem paga as contas é o banner.
E o banner, por motivos estéticos e anti-éticos, o blogueiro vetou.
Imagino esse internauta socorrendo uma vítima de picada de cobra. Ele faz gaze e compressa, dá bastante água, protege a vítima do sol, faz tudo, tudo mesmo, menos aplicar o soro anti-ofídico. E depois, quando o infeliz morre, ele não se conforma e ainda se acha cheio de razão: mas caramba, eu fiz tudo o que dizia aqui no manual de primeiros-socorros, tudo mesmo, só não fiz uma coisinha.
Logo a coisinha que era fundamental.
Ajude Quem Lhe Ajuda
Amanhã pode ser que a Heloísa Helena tome o poder e nos transforme num gigantesco Cubão, mas hoje ainda estão valendo as leis do mercado. Quem ignora isso só vai fazer dar com a cara na parede.
As empresas de internet precisam pagar suas contas: ou arranjam um jeito de ganhar dinheiro ou fecham.
Portanto, se existe algum serviço gratuito que você usa e gosta, descubra qual é a fonte de receita do fornecedor do serviço e ajude-o. Assim mesmo. Só isso. Ajude quem lhe ajuda. Será que você é capaz?
Se ele vende produtos, sugiro que você compre um de vez em quando. Se ele sobrevive de publicidade, sugiro que você clique nos seus banners e/ou gere pageviews. Se ele tem uma parceria com alguma livraria on-line, sugiro que você compre livros através do link em seu site para que ele ganhe uma porcentagem na venda. E por aí vai.
Todas essas iniciativas são muito pequenas, mas podem fazer uma grande diferença.
O melhor jeito de manter a web gratuita é ajudar as empresas que oferecem serviços gratuitos, nunca sabotá-las.
A leitora Luciana se encantou com o meu blog, se identificou com as histórias das malvadas e decidiu me dar um presente. Quem me dera todas minhas leitoras fossem assim.
As primeiras duas fotos mostram seus pezinhos perfeitos, de pedicure impecável, pousados contra um móvel. Depois, de tanto que eu pedi fotos de suas solas dos pés, ela mandou mais três, também perfeitas, deliciosas.
Estou fascinado pela Luciana. Nossa correspondência foi crescendo aos poucos. Começou por um fascínio pelo escritor misterioso que gosta de malvadas e, hoje, por telefone e MSN, ela já está se abrindo a desejos antes secretos e inconfessáveis.
Luciana não é dominadora, ela é má e má em grande estilo, má como só as grandes vilãs do cinema e da televisão já foram, má com criatividade e humor.
Como podem ver pela seqüência de emails abaixo, Luciana foi entrando pé ante pé - um belíssimo pé, aliás - no mundo da maldade:
"Se eu gosto da idéia do escritor misterioso? Caramba! Eu tenho, inclusive, sonhado com ele! Mas não me refeiro apenas às práticas com os pés, mas a uma série de outras coisas. Isso pode ser arranjado, é claro. Só não sei se me classifico como uma "menina má". Ou talvez até seja, mas nunca parei pra pensar muito nisso. Aliás, seus textos me fizeram pensar também sobre isso.
Se ser perversa é mais ou menos o que você escreveu num de seus artigos (como, por exemplo, a tal viagem de 6 meses da Claricee), ai, ai, ai... então eu me descobri uma menina má. Não com a perversidade tão aflorada, mas com um sentimento que me traz, lá no fundo, um certo prazer em maltratar, em causar sofrimento, em dar a entender uma coisa só pra que o interlocutor me interprete mal e acabe sofrendo um pouquinho.
Mas, se ser perversa é ser como algumas meninas que têm seus blogs publicados na sua página... bem, aí eu não me identifico. Muitas vezes, é difícil distinguir quem é realmente má, quem sente mesmo prazer na sacanagem, de quem faz cena, de quem interpreta um papel. Não basta ser má só nas músicas que ouve, na maneira como escreve ou se veste; é preciso ser má de espírito, de coração. E isso pouquíssimas mulheres conseguem ser."
Pouco depois, Luciana já conseguia admitir pra si mesma que não só era malvada como que sentia o maior tesão em fantasiar maldades:
Minha fantasia maior sabe qual é? Encontrar um cara que se doe mesmo, um cara que desse tudo de si, fosse devotado, apaixonado. E eu? Ah, eu queria mesmo era curtir, me sentir poderosa, rainha, dona da situação. Algo bem 'desproporcional' mesmo, entende como? Ele ali, me satisfazendo, e eu lá em cima, ficando plenamente satisfeita, mas só. Nada de retribuição nenhuma não, imagina! Ele está ali por obrigação mesmo, porque eu sou gostosa demais pra ele conseguir ficar longe, entende? Nada de compromisso, nada de coisas sérias, nada de exclusividade: o que eu queria mesmo era um escravinho que me desse prazer da maneira como EU gosto de receber. Beijar, lamber, sugar, molhar meu corpo inteirinho, até que eu gozasse. Se a língua amorteceria? Se a posição o cansaria? Se a boca ficasse seca demais? Se ele quisesse me tocar de outras maneiras? Que se foda!!! O meu desejo é esse, e ele não vai conseguir estragá-lo, vai fazer tudo do jeito que eu mandar!!"
O passo seguinte era inevitável. Luciana passou a fantasiar sobre levar suas maldades ao extremo, sobre as vítimas dos seus caprichos cruéis. Acho que nem preciso ressaltar que tudo o que é dito abaixo é meramente fantasia. Sim, Luciana tem enorme tesão em fantasiar que é uma vilã assassina e sexy, e suas fantasias ficam cada vez mais cruéis e elaboradas, mas são somente isso, fantasias. Não acredito que ela vá matar alguém na próxima esquina:
"Eu percebi que tem um ponto em especial, em toda essa história, que me excita muito. Gosto quando a minha vítima reúne as forças que ainda tem pra tentar se salvar, mas não consegue. Me excita quando eu estou maltratando e, mesmo estando nas últimas, mesmo estando já muito humilhada, minha vítima ainda tenta se salvar. Parece que a glória é ainda maior. Porque eu acabo com uma vida que tentou muito sobreviver, até o último momento, entende? Acho que eu gosto quando ele tenta fugir, quando pensa que a minha sensualidade não é assim tão arrasadora pra ele. Então ele tenta fugir e só no final, resignado, é que se dá conta de que ele não pode mais comigo. Viu só? Ele lutou muito pra ficar vivo, mas não conseguiu. Não dependia dele. Ele tava na mão dela."
E eu também estou na sua mão, apesar de ser um lugar tão perigoso para estar. E também estou aos seus pés, beijando as solas cruéis que vão me pisar. E também estarei onde mais você quiser que eu esteja.
Perversidade como a sua, eu nunca vi. E quanto mais cínica e malvada você for, mais eu vou te amar.
As fotos e trechos de emails foram publicados com autorização expressa da Luciana. Leitoras que gostam desse blog, retribuam: me mandem, também, fotinhas dos seus pés. Nada será feito sem sua autorização.
Não é de hoje que digo que o Cruz é meu ilustrador predileto. Não sei como a Cora deixa ele publicar esses desenhos no Caderno de Informática!
Reparem, na primeira foto, a deliciosa tornozeleira de estrelinhas, o bico do peito, a calcinha aparecendo e a sandalinha baixa. Na segunda, além dos pezinhos lá embaixo e do all-star do lado, o que mais me chama a atenção é a pose sexy da mão em primeiro plano. Por fim, minha favorita, a terceira, mostra costas lindas, uma bunda perfeita e, o que eu mais gosto, solinha do pé.
Não deixem de conferir também esse clube no Yahoo especialmente devotado às suas maravilhosas mulheres.
Quando eu tinha onze anos e estava na quinta série, eu era o moleque mais insuportável do colégio. Além de muito inteligente, tinha a língua rápida e achava que podia fazer qualquer coisa. Aliás, eu e um colega, igual a mim em todos os quesitos, fazíamos de tudo mesmo.
No fim do ano, a direção decidiu nos expulsar. Éramos moleques de imenso potencial, apesar de incontroláveis, e os professores ainda não queriam desistir de nós: pediram que fôssemos poupados. Infelizmente, pelo menos um teria de ser exemplarmente justiçado, senão a escola viria abaixo.
Nunca entendi bem quais foram os critérios, e só vim a saber disso muitos anos depois, mas o escolhido pra ficar fui eu. Meu amigo acabou expulso, o escândalo foi tanto que parecia o fim do mundo, parecia que aquela expulsão, aos onze anos, determinaria todo o curso da sua vida, destruiria suas possibilidades de sucesso, felicidade e adequação ao modus vivendi, e que ele já estava pré-condenado à sarjeta, vocês sabem como são essas coisas, ainda mais em colégio católico, e meu amigo passou mesmo por uma fase bem revoltada, quem não passou?, e hoje, aos 30 anos, é designer, mora em Milão e sua segunda filha nasceu no dia do meu casamento. Ou seja, a vida é muito maior do que essas besteirinhas.
Mas o valor metafórico da história é grande. Eu nunca vou esquecer que, por critérios insondáveis, uma pessoa igual a mim foi severamente punida por fazer as mesmas coisas que eu fazia. E eu não. Eu ganhei uma segunda chance. Aprendi a lição. Na sexta série, eu já voltei bem comportado. Continuava espaçoso, falante e apaixonado pelos holofotes, como até hoje, mas sem barbarizar.
Pensei nisso porque, finalmente, li O Cabotino, o livro do Polzonoff. Impressionante como pensamos as mesmas coisas e temos opiniões muito parecidas. Ainda bem que escrevi sobre a Escola Urbana antes de ler o livro, senão não teria escrito nunca.
Infelizmente, a recompensa dessa sina de honestidade do Polzonoff foi ser odiado, desprezado, vilipendiado.
É isso que quero pra mim? Lá vai outra pessoa fazendo o mesmo que eu faço e levando na cabeça.
Eu, que sempre disse o que bem entendia, talvez esteja na hora de medir as palavras.
Vejam bem: não por medo de ser odiado, desprezado, vilipendiado, mas por medo de ser odiado, desprezado e vilipendiado por nada, por motivo fútil.
É uma questão de escolher as batalhas.
O Polzonoff é um crítico, essa é sua vocação e sua sina. Ele tem o instrumental teórico para criticar e a inteligência pra defender. Eu, coitado, não tenho nada disso, só opiniões fortes que ficam por isso mesmo, que não preciso emitir e nem tenho como defender.
Sou escritor, essa é minha vocação e minha sina. E ainda espero levar muito na cabeça também, ser odiado e desprezado e vilipendiado, mas pelos meus romances, pelas minhas prisões, pelas minhas idéias radicais, pelas coisas que valem a pena pra mim. E tomara que eu leve na cabeça: se não levar, é porque ninguém está lendo, então, de que adianta?
O longo artigo sobre a Escola Urbana foi a última vez em que falei mal de alguns de meus colegas. Pretendo ainda escrever muito sobre literatura, mas teoria, exposição do meu projeto literário, recomendações de livros.
Criticar? Chega. Livros ruins, melhor ignorá-los.
Na vida, podemos fugir de tudo, da profissão, do nosso país, de nossa língua, só não podemos fugir dos nossos contemporâneos, que sempre serão nossos contemporâneos. Daqui a dez mil anos, Shakespeare continuará contemporâneo de Cervantes e eu sempre serei contemporâneo do Mirisola.
A vida é longa, o mercado é pequeno. Cala-te boca.
Se me pegarem de novo falando mal dos meus contemporâneos, podem puxar minha orelha.
Vou produzir, outros que critiquem. E quando quiserem saber minha opinião sobre algo literário, vou dizer: leiam o Polzonoff. Se minha opinião não for aquela, será bem próxima.
E deixa o bravo do Polzonoff lutar essas batalhas por mim. Ele está mais capacitado do que eu para defender minhas opiniões.
Daniel Galera também concorda, via de regra, com minhas críticas à Escola Urbana, mas ressalta que elas se aplicam a todo tipo de romance: “a redundância, a ausência de transmissão de idéias, a publicação apressada de textos que poderiam ser engavetados por um tempo, a falta de imaginação, etc.” Parece que eu acho que se o próximo livro dele fosse sobre uma “idosa aristocrata que acorda um belo dia numa planície da Sibéria e passa a interagir com uma misteriosa seita local”, ele seria necessariamente melhor, mas “mesmo a mais fantástica e fantasiosa das literaturas pode sofrer dos mesmos males.” A relevância literária não se manifesta somente através do inusitado, diz ele, o buraco é mais embaixo.
Como muita gente deve ter achado a mesma coisa, cabe a explicação. Não acho que uma narrativa imaginativa é intrinsecamente melhor do que uma narrativa autoibiográfica. Não acho nenhum estilo ou método intrinsecamente melhor que outro. A literatura tem muito poucas regras.
O resgate da imaginação seria interessante mas, por si só, não resolve nada. Um livro do Galera sobre uma velhinha na Sibéria não seria necessariamente melhor do que um livro sobre um gaúcho de vinte e tantos anos.
Nada, por si só, resolve nada.
Deixa eu me usar como exemplo: meu romance, todo passado no meu bairro, é sobre jovens, entre 18 e 28 anos, casando, começando na vida e tendo filhos. Nada poderia ser mais próximo da minha realidade. Não há realismo mágico, impossibilidades científicas, elfos e hobbits, deuses barbudos. Narrei o livro como uma mulher pra fugir um pouco de mim mesmo, mas aquela é a minha realidade que está lá, minha e de inúmeros jovens das grandes cidades que estão começando na vida.
Mas, definitivamente, não é Escola Urbana. As pessoas não vivem vidas vazias e sem sentido, não vagam apáticas pela existência, não freqüentam bares imundos com putas feias e bebem Porco Preto. Pelo contrário, são jovens normais de vinte e poucos, eletrizados pela vida, correndo atrás, procurando emprego, tendo ciúmes e confundindo amizade com amor.
Existe uma enorme e intermediária área cinza entre, digamos, o narrador Escola Urbana de Até o Dia em que o Cão Morreu e o romance absolutamente imaginativo do Soares Silva, A Coisa Não-Deus, sobre um céu de anjos ateus. Eu, como nunca vou escrever no estilo Escola Urbana nem me acho capaz dos vôos de imaginação do xará, vou ter que ir me virando nesse meio campo.
Nada impede um romance de ser próximo, tanto da vida do autor quanto dos leitores, e ser absolutamente original. O que mata é seguir a estética viciada e redundante da Escola Urbana.
Aí, alguns leitores chegam pra mim em privado e perguntam como posso adorar a Mitcha. Ela é reacionária, preconceituosa e má, dizem eles.
E, além de tudo, linda, eu acrescento. Como eu poderia não me apaixonar? Quando digo que me apaixono sempre pelas mulheres malvadas, estou falando a verdade.
Cai muito engano no telefone da empresa da Mitcha. Ela nem titubeia: ligam procurando a Fulana e ela diz: Fulana morreu! Em uma dessas vezes, deu a maior confusão, pessoas choraram, sofreram, se desbandaram até o cemitério, e a Mitcha lá, se divertindo.
No fim do post, ela pergunta: "Será que sou má? ahahahahahahahahaha"
Ora, Mitcha, não seja modesta, claro que é. E eu te amo assim mesmo. Não consigo evitar de ficar fascinado com a idéia de uma gatinha como a Mitcha se divertindo de inflingir tamanha dor emocional a uma família.
Reparem nessa nova foto. Vejam essa cara de má, esse desprezo perverso pelo outro. Observem essas mãos lindas, esses dedos em riste que parece que não acabam mais. Olhem esse biquinho zombeteiro, prestes a soltar toda sorte de insultos. Seria preciso todo o meu auto-controle para ver essa foto e não gamar.
Vocês não podem imaginar essa mulher sentada em um trono mandando o caçador trazer o coração da Branca de Neve? Ou tentando dominar o mundo, mas antes parando para explicar ao Batman o funcionamento da armadilha infalível onde acabara de prendê-lo? Ou simplesmente fazendo um escritorzinho de blog lamber seus pés para mostrar quem manda?
Amo a Mitcha por ela ser má, por ela saber que é má e por ela se divertir muito sendo má.
"Não se pode ver o tipo de crítica do Alexandre como um ataque pessoal. Só me resta entender que, para quem escreve porque quer desesperadamente falar, é muito duro ouvir que talvez seja melhor calar."
Affonso, quem escreve porque quer desesperadamente se comunicar não deveria ter escolhido a literatura como meio. Literatura é arte, literatura é técnica, literatura não é para desesperados, literatura não é pra gente que escreve com os colhões, por exemplo.
Quem está desesperado pra se expressar que crie um blog, suba num caixote, faça um diário, escreva artigos para as colunas de opinião dos jornais, tudo menos cagar mais um romance Escola Urbana.
Então, quem também vai ficar desesperado são os leitores.
Não se enganem: eu gosto muito de Daniel Galera , seu primeiro livro de contos foi ótimo e considero Até o Dia em que o Cão Morreu somente uma derrapada precoce em uma carreira longa. Usei seu romance como estudo de caso por saber de tudo isso. Criticar um autor realmente ruim seria covardia.
Galera me mandou um email longo e ponderado, que ele não permitiu que eu postasse aqui, pois já está cansado de polêmicas literárias, mas me deixou citar trechos.
Pra começar, ele vestiu algumas carapuças que não eram pra ele. Besteira. Tudo o que eu tinha a dizer sobre os autores citados, eu disse citando-os. As carapuças e comentários vagos devem ser encaixados nas cabeças dos autores tão ruins que nem citados foram.
Na mensagem, o Galera me explica várias de suas motivações para isso ou aquilo do livro, numa deliciosa conversa de escritor que, realmente, não deve nunca vazar aos leitores. Não se trata nem de artesãos guardando os segredos de sua prática e muito menos de donos de fábrica de salsicha escondendo as porcarias que enfiam nos embutidos.
A intenção declarada de um artista, além de irrelevante, é nociva à obra: os leitores ficam presos à interpretação do autor, como se ela fosse a resposta certa, e deixam de construir seus próprios livros.
Nesse caso, entretanto, acho que a revelação mais importante do email do Galera foi que “um dos meus objetivos era exatamente denunciar a apatia e a patologia contemplativa que tomam conta da vida de muita gente hoje em dia. (...) Minha última intenção era apresentar esse narrador como um cara legal, descolado, um modelo de vida para jovens revoltados com a condição humana. No máximo, podemos ter compaixão por ele, pois ele é uma vítima.”
Como eu tenho fé no Galera, eu considerei seriamente a hipótese de que seu livro fosse diagnóstico e não sintoma, ou seja, denúncia e não celebração dos temas da Escola Urbana.
Mas à medida que eu lia esse e outros livros da Escola Urbana, e fiz muita força pra gostar de alguns, acabei concluindo que não faz diferença. A Escola Urbanaa infectou nossa literatura de tal jeito que é impossível distinguir.
Eu, que dei o voto de confiança ao Galera, eu, que leio com cuidado, eu, que li procurando por sintomas da Escola Urbana, eu, que tentei buscar por indícios de que o livro era diagnóstico e não sintoma, eu não consegui encontrar. Editores, leitores, críticos também não encontrarão.
Acredito no Galera, mas basta ver como os leitores comentam seu livro para perceber que o que foi escrito como crítica está sendo lido como celebração.
Trabalhei em lanchonete por seis meses e, nos dois anos seguintes, fui vegetariano radical, não comia bicho morto nenhum e, mesmo assim, simplesmente não conseguia tirar aquela inhaca de óleo de hambúrguer do meu cabelo.
A Escola Urbana funciona do mesmo jeito: a gente não pode chegar nem perto, nem um pouquinho, nem pra criticar, que ela já contagia, o cheiro gruda no cabelo e não sai mais.
Cancela do estacionamento do Shopping Downtown, na Barra, do outro lado da rua do Feirão de Blindados. Foto tirada pela Lobá Má, mas só porque eu não estava com a minha máquina na hora.
Tenho um amigo mórmon. Ele é brasileiro, estudou comigo na Escola Americana, foi pra Utah fazer universidade, casou com uma gringa e ficou por lá. Outro dia, encontrei os dois no centro. Estavam ambos a passeio no Brasil, ela tinha vindo conhecer a terra do marido.
Perguntei a ele o que ela estava achando e ele me veio com essa:
É, ela gostou, mas encurtamos um pouco a viagem, estamos voltando mais cedo, ela não suportou tanta... E ele olhou em volta... imoralidade, sabe como é? Ela é muito religiosa...
Eu fiquei feliz de ver como ela compreendia bem a realidade brasileira e concordei, empolgado:
Sua esposa está coberta de razão! O que fode o Brasil é essa imoralidade. Ter que ver criança esmolando pela rua, carro bloqueando cruzamento, guarda recebendo propina, congresso seis meses por ano de recesso, é realmente insuportável. A única coisa que salva, pelo menos aqui no Rio, é ver a mulherada de fio dental na praia, os decotes, os rebolados, esse clima de sexo no ar!
E o meu amigo corrigiu:
Não, Alexandre, você não entendeu. Somos religiosos. Esse negócio de injustiça, desigualdade, pobreza, isso não nos incomoda. Deus quis assim, no outro mundo, tudo será corrigido. O que nos incomoda mesmo são essas bundas todas de fora que não estão machucando ninguém.
O conto A Morte do Meu Cachorro faz parte do meu livro de contos Onde Perdemos Tudo.
Sem dúvida, uma das minhas melhores peças, tão boa ou melhor que meu romance Mulher de Um Homem Só. Uma caminhada pelas ruas de Buenos Aires revela questões sobre amizade homem e mulher, as armadilhas da memória e as dores do começo da idade adulta.
Em novembro de 2002, A Morte do Meu Cachorro ganhou o 3º lugar no IX Concurso de Conto, Crônicas e Poesia, de Santana de Parnaíba.
Abaixo, um trecho.
"Só a teimosia ainda me impele: presumir que eu seria capaz de escrever sobre Fiona foi uma temeridade, um desvario de velho carente. Não ando mais pelo Largo da Carioca; da próxima vez, faço um desvio pela Sete de Setembro.
Fiquei sem graça sim, é verdade - talvez a única verdade dita até agora. Houve um quinto sorriso, tão completo e tão sincero quanto o anterior. Sorriso também de corpo inteiro e todo meu. A história então, sob escrutínio, se esfacela:
Fiona me dá um aperto de mão mais caloroso, me fita com seus olhos incandescentes e sorri, fogosa:
- É muito bom mesmo você estar aqui comigo! - Estoura ela.
O sorriso, entretanto, não morre. Não, meus amigos, o sorriso continua lá. Gostaria de poder afirmar que ele permanecia congelado em seu rosto, mas naquele momento não havia nada congelado em Fiona: ela estava em ebulição, faiscando. Sejamos sinceros: seu corpo inteiro sorria pra mim.
Quem não suportou o calor fui eu: fracassei em gerir tamanho sorriso e cedi ante a pressão do seu carinho. Fiona me derrubou com uma erupção de amor.
Percebo agora o quão piedosa era a minha falecida "versão conveniente dos fatos": eu não sabia o que fazer, não sabia em que buraco me enfiar. De que maneira poderia me defender daquela salva maciça de paixão sendo arremetida contra mim? O tal sorriso de corpo inteiro - há pouco desejado - era um fardo incômodo do qual eu precisava me livrar. Sem meios de corresponder aos sentimentos que Fiona disparava, eu ia fraquejando sob sua força.
Desse modo, e muito à revelia, preencho a lacuna do café-da-manhã: eu peguei o Clarín, eu comecei a ler, eu puxei o primeiro cigarro. Pobre Fiona, inocente ao menos dessas acusações, só fez tirar o jornal de seu colo e depositá-lo sobre a mesa. Vagarosamente, com mãos de relojoeiro.
O Clarín seria minha salvação, decidi, aliviado, e peguei um caderno qualquer do jornal. E enquanto eu abria as folhas, bloqueando minha visão de Fiona, tive um último relance de seu rosto. Ela sorria. Ainda.
Inexpugnável em meu refúgio de papel, não sei por mais quanto tempo Fiona sorriu. Eventualmente, deve ter desistido: afirmou um suspiro, acendeu um cigarro e escolheu uma parte do jornal pra ler. As facturas e os cortaditos, quando vieram, foram consumidos em silêncio."
Nem todos esses dois mil e quinhentos devem ter lido, nem todos os que leram devem ter gostado, e muito poucos tiveram o carinho de me escrever pra contar.
As críticas eu leio e absorvo. Os elogios eu publico aqui no blog. Fico emocionado, realmente emocionado, de saber que consigo tocar as pessoas desse jeito. E gosto de saber das histórias, como foi, o impacto que causei.
Além de que, claro, há sempre a esperança dos depoimentos empolgados estimularem mais pessoas a lerem os livros.
Eis então o que me escreveu o leitor Raphael.
Sobre o blog:
"Tenho que reconhecer que assumo uma posição passiva demais em relação ao LLL - é minha página inicial, e desde outubro (quando o conheci) acompanho diariamente seus posts e vou seguindo os links; de uma série de artigos pulo pra outra, através de suas recomendações conheci muita coisa legal (violeta, konstantin, soares silva), enfim, você transportou o prazer da leitura para o internet, abriu este campo para mim. Ao que lhe sou grato.
Preciso dizer que o título foi o primeiro atrativo, libertário e libertino hmmm, gosto disso, é uma construção que busco para mim em vivências e conhecimento. A despeito deste primeiro chamariz, fui sendo seduzido por seu estilo de escrita (o pensamento todo lógico, disposto em "assuntos") e sua inteligência, desafiado por suas posições, me identificando em seus textos (qqr dia desses te mando umas linhas que a prisão aceitação me inspirou) e sobretudo aprendendo com você."
"Li seu livro em uma tarde, indo para o Fórum de Duque de Caxias, e gostei muito. Para ser sincero, não saquei porque ele terminou; fiquei surpreso obviamente de acabar a estória no clímax, mas meu problema maior foi em não me conformar com o fim. Eu queria mais. Não vou dizer que você não me convenceu como mulher pq não tenho essa sacação da sutilezas das personagens e papéis da narrativa parará parará, mas vc me convence de qqr coisa. Vc escreve bem demais e sabe disso. E isso é o bom, pq vc saber disso conta pra melhorar o que vc escreve. A Mulher de um Homem Só é uma experiência intensa. Em seu ritmo, nas relações afetivas, na comunicação entre as personagens. O que mais me chamou a atenção, de início, foi o samba cronológico que vc fez. É legal que já é um cartão de visitas, melhor, um convite ao universo da Carla. Ela sentou do meu lado e foi desabafando, ia lembrando as coisas aos poucos, de vez em quando prestava mais atenção em como contava a história e nem aí....me esperou tomar o ônibus, almoçou comigo, deu uma escapadinha pra fumar um cigarrinho, e me deixou, em plena 2ª Vara de Família de Caxias. Tudo bem, foi ótimo enquanto durou."
"E hoje, li "onde perdemos tudo". Acabo de terminar. Ainda não sei exatamente o que acho, só fiquei com a impressão de que é ainda melhor que o romance de Carla, Júlia e Murilo. Pra ser bem superficial, falando sobre sensações apenas, achei o primeiro conto [A Morte do Meu Cachorro] pesadíssimo, uma bad trip que mexeu comigo, provocou minha sensibilidade. Não sei bem pq, acho que a confusão entre memórias voluntária e involuntária e seu efeito na narrativa, o quanto a ordem dos fatos confunde o protagonista é quase uma questão de tempo bergsoniano (e dá-lhe Proust!). Enfim, pegou pra mim.
Sobre o cara tirando meleca [Grandezas de Candura], quando terminei o livro, recapitulando, tive que parar, reler, pensar....passou o estranhamento. Realmente, a gente pode se dar ao luxo de valorizar pequenos prazeres ditos vulgares, insignificantes, mas sublimes dentro de um contexto; afinal, valorizar "a melhor trepada" entre amigos é infinitamente mais vulgar e indiferente do ponto de vista da sensação individual, do prazer e do êxtase. Sei lá, me veio na cabeça...Quanto aos três últimos, não quero nem comentar muito, ainda estou sob efeito. Olha que não é qqr coisa que me faz matar minha capoeira. Gostei do ritmo, da sensibilidade (como eu evoco isso), das minúcias, da criatividade, da observação. Dignos de lágrimas. Lágrimas de beleza. Obrigado por esses momentos."
Raphael, confia em mim quanto te digo isso: eu é que agradeço.
Minha Coluna na Tribuna:
Não Compre Tartaruga por Lebre
Por algum insondável problema técnico, minha última coluna, publicada nessa sexta-feira, 23 de janeiro, não apareceu na versão on-line do jornal. Aqui vai ela, na íntegra.
Afinal, a que velocidade você realmente navega? Seu provedor pode estar lhe cobrando por um acesso de 256k ou 512k, mas será isso o que você está de fato obtendo?
Não há como ter certeza, mas podemos chegar perto.
Uma solução são os sites que testam a velocidade de sua conexão. O teste é relativamente simples: eles fazem o download de um programa pequeno para o seu computador (em geral, 300k) e medem quanto tempo a transferência leva para se concluir.
Utilizei alguns desses sites para medir a velocidade da minha conexão. Segundo o Velox, ela deveria ser de 256k, mas obtive:
A situação fica ainda pior quando levamos em consideração que o teste foi realizado em uma madrugada, de domingo pra segunda.
Quando o Velox me vende um plano de conexão a 256k, essa é a velocidade nomimal de conexão. Quer dizer, pago R$83 por mês à Telemar, que investiu meu rico dinheirinho em tecnologia de ponta para garantir que minha conexão atinja e, de preferência, mantenha, essa velocidade de 256k, mesmo nos horários de pico.
Em horários mais tranqüilos, como na madrugada de domingo pra segunda, com menos gente utilizando banda, a velocidade poderia ser até maior, pois a demanda é baixa.
Mesmo assim, você poderia pensar, não fiquei muito longe da velocidade contratada, certo?
Errado.
Testes como esses são bons guias para se ter uma idéia da qualidade de sua conexão, mas eles medem somente a velocidade de download.
Naqueles dias em que você precisa baixar um programa de 14MB, ou aquele filme gigantesco que um amigo quer lhe passar, a velocidade de download é fundamental. Mas, convenhamos, você não fica o tempo todo na web baixando arquivos: você fica navegando.
Qual é então a sua velocidade de navegação?
Aí é que a coisa fica ainda pior.
O Numion realiza uma navegação simulada por 40 sites (do Brasil ou do mundo) para tentar determinar a que velocidade você, de fato, navega. Os resultados são deprimentes.
Na mesma madrugada ociosa, quando o aproveitamento deveria ser o melhor possível, minha velocidade real de navegação não passou de 80k.
Hora de juntar os aldeões, acender as tochas e subir a colina para queimar o Velox, o Virtua, o Speedy e quem mais vender falsa banda larga?
Ainda não.
Infelizmente, como falei no começo, essas coisas são difíceis de medir.
Vários fatores influenciam sua velocidade de download e de navegação, desde os mais alheios (engarrafamento da rede, localização do site ou quantidade de usuários conectados) até os mais pessoais (quantidade de janelas abertas no momento da medição ou capacidade de processamento da sua máquina).
Conversei com Horácio Belfort, presidente da ABUSAR (Associação Brasileira dos Usuários de Acesso Rápido), cujo objetivo é melhorar a qualidade dos serviços de acesso à Internet por banda larga.
A velocidade de conexão oferecida pelas operadoras de telecomunicações sempre foi bastante inferior ao que prometiam em suas propagandas e contratos. O consumidor, como de costume, ficava sem pai nem mãe: a irregularidade era difícil de comprovar e, mesmo feita a reclamação, provedores e operadores de telefonia jogavam a culpa um no outro até que o usuário desistisse.
Aos poucos, a ABUSAR vêm conseguindo obter provas técnicas de irregularidades no setor, bem como de acertos ilegais (leia-se cartelização) entre provedores e operadoras de telecomunicações para extorquir o consumidor.
Segundo Belfort, a falta de normatização impede um cálculo preciso da velocidade de conexão dos usuários. Além disso, os medidores dos provedores tendem a indicar maior velocidade para os seus usuários, e menores para os dos concorrentes. Uma boa recomendação é checar a página de medidores da ABUSAR, onde estão listados alguns dos melhores sites e softwares que realizam esse cálculo.
Então, o que fazer?
O conselho de Belfort é simples: teste a sua velocidade de download tanto nas horas tranqüilas quanto nas horas de pico. Anote as velocidades encontradas. Se os números forem consistentemente menores do que sua velocidade de conexão contratada, reclame com sua operadora e anote o número da ocorrência.
Faça questão de ressaltar que vai reclamar com a Anatel em seguida. As operadoras têm pânico da Anatel. Em muitas delas, basta o cliente mencionar o nome da Anatel para ser direcionado para um setor diferente, onde receberá maior prioridade no atendimento.
Espere um pouco para ver se o problema se resolve. Se não, pegue todas as evidências que coletou (horários, velocidades, números de ocorrência) e leve tudo para a Anatel.
Em caso de dúvidas, entre em contato também com a ABUSAR.
As grandes empresas de telecomunicação só falam a linguagem do dinheiro. Quanto antes nos tornarmos fluente nessa língua, melhor.
Acontece com todo mundo. Você está ouvindo rádio, toca uma música maravilhosa e você simplesmente não sabe o nome. O que fazer? O locutor, como sempre, não ajuda. Ele fala de todos os produtos idiotas dos patrocinadores, mas o título da música, que é bom, nada. Passa o tempo. Bate o desespero. Mais uma música maravilhosa perdida.
Não precisa ser assim.
Decore um trecho significativo da música, no mínimo, umas quatro palavras, coloque-as entre aspas e busque no Google. Pronto.
Outro dia, ouvi uma excelente música brasileira. Não sabia o nome, nem quem cantava. Decorei uma expressão que aparece na letra, "catedrais de alvenaria", e busquei no Google. Pimba. Os Presentes, de Eliana Printes.
Algumas dicas: busque por uma seqüência de palavras minimamente original. "Catedrais de alvenaria", por exemplo, não é uma expressão comum. Uma busca por "eu te amo" ou "não me deixe" iria retornar resultados demais.
Caso isso aconteça, refine a busca acrescentando mais uma palavra-chave. Se for uma busca em português, a palavra é "cifra" ("letra" também traz resultados demais). Se a música for em inglês, a palavra é "lyrics" ("letra de música").
As buscas, então, ficariam assim:
"catedrais de alvenaria" cifra
"picks up the rice" lyrics
Podem testar. Comecem tentando descobrir qual é a segunda música.
Uma versão editada desse texto foi publicada na minha coluna Internet, na Tribuna da Imprensa, no dia 9 de janeiro de 2004
Algumas situações irritam, ainda mais porque se repetem todos os dias.
Estava eu na fila da lanchonete e a moça à minha frente, gordinha, pede um Big Mac e uma Coca Light média. Atrás de mim, dois galalaus zoam: "Vê se pode, Big Mac e Coca Light, que ridículo, até parece que se importa com o próprio peso!"
Se vocês forem como quase todo mundo que eu conheço, vão achar que o irritante é a moça gorda consumir um Big Mac com Coca Light. Se vocês forem como eu, vão achar que o irritante é um comentário tão babaca sobre uma atitude tão perfeitamente racional.
Usemos o exemplo acima.
De acordo com os sites das respectivas empresas, um Big Mac tem 490 calorias e uma Coca-Cola média, 200. Uma Coca Light do mesmo tamanho tem pouco mais de uma caloria.
O consumo médio de calorias recomendado para um adulto é de 2000 a 2500. Para quem quer emagrecer, recomenda-se um consumo médio de aproximadamente 1200 a 2000 calorias, dependendo do seu tamanho. Eu, por exemplo, que malho quatro vezes por semana, tenho 1,79m e 95 kg, tento consumir cerca de 1500 calorias por dia. Digamos que a moça gorda esteja seguindo, ou deveria seguir, a mesma dieta.
A refeição que ela escolheu tem cerca de 500 calorias, ou seja, um terço do seu total diário ideal. Ela ainda pode fazer duas refeições iguais a essa e ficar bem.
Por outro lado, as duas mulas atrás de mim e, aparentemente, a torcida do Flamengo, acham que já que ela caiu em tentação e pediu o Big Mac, ela devia escancarar logo de vez e pedir uma Coca normal.
Mas a diferença é gigantesca.
Pra começar, a tal refeição da torcida do Flamengo é 40% mais calórica. Ao invés de um terço, ela passa a representar praticamente a metade da ingestão calórica diária ideal.
Pior, enquanto um Big Mac não é lá flor que se cheire (eu odeio!), as 490 calorias de um Big Mac trazem junto uma série de nutrientes importantíssimos presentes na carne, verduras, queijo, pão, etc. As 200 calorias da Coca Cola não trazem, literalmente, nada de bom. A não a cafeína, que só é boa se você estiver tentando ficar mais ligado, o resto é açúcar e químicos: só servem pra te fazer arrotar.
Por fim, as calorias também não são todas iguais.
Hoje em dia, mais do que nunca, o peixe morre pela boca. Estatística e espelhisticamente (basta eu me olhar no espelho para saber disso), minhas chances são altas de morrer de um ataque do coração por causa do meu excesso de peso. Cada caloria adicional que eu como é um grãozinho de terra a mais sobre meu caixão. Elas todas têm que valer a pena. Como disse o paciente ao médico que lhe pediu pra cortar o charuto: "Mas um bom charuto É a vida!"
Cabe a cada um de nós decidir pelo que vale a pena morrer.
Quem sabe, pra menina gorda e para tantos outros que fazem esse tipo de opção, uma Coca-Cola não é algo pelo qual valha a pena morrer. Um suculento Big Mac sim.
É uma decisão tão racional quanto qualquer outra.
Eu fico só imaginando algum desses indignados no super-mercado. Está com o carrinho cheio, já gastou R$490. Aí, alguém sugere que ele gaste mais R$200 em porcarias, coisas que são até gostosas, mas que ele não precisa. Ele responde que não, que já gastou R$490, já está no seu limite, agora não pode gastar mais e precisa segurar sua onda.
E os dois babacas atrás de mim na fila comentam: "Vê se pode, já gastou R$490 e agora não quer gastar mais R$200, que ridículo, até parece que se importa com o próprio dinheiro!"
Como se quem gastasse R$490 pudesse, por definição, gastar mais R$200. Como se quem ingere 490 calorias também pudesse, por definição, ingerir mais 200 sem problema algum.
Uma versão editada desse texto foi originalmente publicada na coluna Calça Justa do blog Elas por Elas, no dia 9 de janeiro de 2004
Li muito, em preparação desse longo ensaio. Fiz questão de ler todas as resenhas, a maioria positivas, que receberam os piores exemplares da Escola Urbana. Ler alguém, por exemplo, elogiando os méritos de Estorvo, de Chico Buarque, me parece tão bizarro quanto ler alguém elogiando os méritos de comer bosta. Mas li. Li tudo.
A única defesa válida que li da Escola Urbana foi escrita por Cláudio Lampert, colaborador do Epinion, blog de Paula Foschia, a namorada do Polzonoff. Lampert e Polzonoff também são os primeiros autores publicados pela Candide, a nova editora da Paula.
Enfim, o Cláudio leu a resenha na qual o Polzonoff simplesmente destrói o livro do Galera e teve o seguinte a dizer :
"E então Paulo Polzonoff alegra a minha tarde. Descasca o tal Daniel Galera, que eu desconheço quem seja e cujo livro provavelmente não lerei. O nosso crítico paranaense – meu amigo de pouco tempo mas de muitas afinidades – desanca o pobre Daniel. Eu não vou enveredar pela meta-crítica e desancar o Paulo. Ou talvez até faça isso amanhã, quando almoço com ele no Cervantes para falar do meu assunto predileto: o tédio e a apatia. Paulo ataca o tédio, o cansaço, a preguiça e a inércia dos argumentos literários de Daniel (a essa altura, depois desse winning streak, já considero ler a tal estória do dia em que o cão morreu). E ataca a proposta redentora do livro do nosso preclaro Daniel. Pois então digo: literatura existencialista é redentora, nem que seja para fazer a redenção do tédio – redenção essa que, sem nunca ter escrito um opúsculo existencial, promovo diariamente. Divagar sobre a ordem de entrada em vigor da existência e da essência é algo fora de moda? Não sei não. Eu até agora não me convenci plenamente da existência do tal arquiteto divino, que projeta o autor e, na seqüência, faz o crítico – parece até que o tal arquiteto se deleita com essas fricções. Diogo Mainardi escreveu um romance existencialista e foi criticado por isso. Bernardo Carvalho fez a mesma coisa, com um contorno bem menos filosófico, e tomou pau de todos os cantos. E agora é a vez do Daniel, em conjunto com parceiros luxuosos como Averbuck, Young, Mirisola et al., tomar na cabeça porque produz um livro repleto de tédio. E, muito provavelmente, chato como toda a narrativa existencial.
Romances existenciais são muito chatos para quem não provou a vida das calçadas. Quem se identifica com esse tipo de literatura já passou lá por baixo. Roubou no pôquer. Entrou na fila do pão para comprar um trago de conhaque logo cedo. Comprou quilos de droga batizada. Fez surubas circenses com anões besuntados. Admirar o autodidata lendo uma biblioteca inteira pela sua ordem alfabética por entre sessões de onanismo e prostração não é para qualquer um. Alguém conhece um personagem mais apático do que Mersault? Algo mais tedioso do que a forma monocórdia com a qual ele descrevia o ritmo dos domingos em Orã? O Estrangeiro, deixando de lado sua densidade filosófica, é obra de apatia e tédio; relato monótono de uma vida monótona. Até a descrição de um assassinato é lenta e apática.
Quem já foi de cara no limo da vida-como-ela-é-aí-fora gosta dessas nojeiras – por mera identificação, palpito eu. Anote aí leitor: se você já fritou o lado A e o lado B às 10 da manhã, todo suado e com medo do vizinho da frente invadir a sua casa, pode ler qualquer porcaria dessas porque foi escrita para você. Não hesite e consuma esse poliedro de tédio, cansaço, preguiça e inércia. O quadrilátero da minha vida – que não se desfaz nem com maratonas, filhos, amigos cultos que lêem o que há de mais sofisticado no mundo das letras, consumem jazz de primeira linha, clássicos e virtuosos, autores de gênio – é composto disso, só disso. E sem isso, desconfio, não teria a graça que teve até agora.
E se um dia conseguir escrever alguma coisa, certamente vai nessa direção. Por algum motivo, acho que o que tenho de melhor para entregar são as reminiscências dos arrabaldes do começo da minha idade adulta."
Esse é o título de um email que recebi hoje, da leitora Adriana. Eis o texto:
"Oi. Nem sei direito como cheguei aqui no teu blog. Foi ontem, eu estava meio bêbada, entrando nos links dos links dos links dos blogs dos amigos que escrevem receitas e listas do melhor disco do ano.
Li os textos sobre a escola urbana, que achei geniais (confortante saber que mais alguém atirou um livro do Joca Reiners na parede além de mim) e depois dei na tua história. Que é parecida com a minha e acredite, acabou me apontando um caminho.
Eu tive professores que louvavam o meu hum... pendor para a escrita, depois tentei uma faculdade de letras (me entediou), fui estudar administração (ou a arte de puxar tapetes), larguei, fiz psicologia e terminei por acidente.
O único trabalho que já tive foi dando as aulas de inglês vagabundas. Morria de vergonha delas, afinal, uma menina-promessa-escritora tão sensível acabou dando com os burros n´água, coitadinha...
Daí que lendo esses textos eu percebi que quando a gente acha que é uma promessa de qualquer coisa é que a gente comete as maiores barbaridades. Em nome do ego adolescente que quer ser um sucesso nos saraus escolares. Você me deu vontade de ler um dicionário de sinônimos, de escrever quarenta contos a título de exercício e de suar.
Atualmente a minha briga é voltar a escrever coisas que interessem. E eu não acho que é uma questão de procurar o novo, mas de exercitar uma língua esquecida. Não acho que não se possa escrever sobre si mesmo, sobre a decadência da sociedade ocidental ou sobre putas gordas. Mas que seja feito com classe, com cuidado, com entrelinhas que causem alguma coisa que não seja tédio ou asco.
Em vez de reclamar ou me matar ou compor versinhos ególatras eu vou ler até morrer, virar tradutora e escrever todo dia um pouco. Para a gaveta, minha suave companheira. É sempre divertido abrí-la dez anos depois. Baixei teus livros também. Vamos ver. Obrigada pelo serviço prestado, e desculpa o arroubo.
Adriana"
Descupa nada. Adorei. Obrigado por me deixar entrever o impacto que tive em sua vida. Eu só posso agradecer. Você já sabe o que acho sobre tudo isso. Meu único conselho é: fuja dos dicionários de sinônimos, eles distorcem o vocabulário de qualquer escritor.
A Prisão Ambição será das maiores. Já está escrita desde julho, aliás, como a maioria das prisões, mas eu reviso esses textos demais, vocês nem imaginam. Ninguém escreve bem por sorte. Eu me repito muito, sou verborrágico, fico meses rearrumando os parágrafos e eliminando redundâncias. Enfim.
Eu sempre fui garoto-prodígio, milionário, mimado e superdotado (só faltava ser bonito), com o mundo aos meus pés. Fui criado para ter tudo o que vida pode oferecer. Minha ambição foi cuidadosamente cultivada por pais e professores. Eu era uma pessoa insuportável.
Só quando me libertei da minha própria ambição, desse fascínio pelo futuro dourado que ineroxavelmente me esperava, foi que consegui me conhecer e começar a me tornar uma pessoa melhor.
Por enquanto, a Prisão Medo fala um pouco sobre isso.
Clarah Averbuck e Daniel Galera lhe causaram orgasmos literários. Ela andou com Máquina de Pinball na bolsa por vários dias, como se fosse um pequeno tesouro: se identificou totalmente com o romance e com a vida de Clarah Averbuck. Pra ela, aquilo ali é que era a vida, a vida de verdade da mulher moderna e maluca, super inteligente mas sem nada na cabeça, sem perspectiva e querendo curtir a vida. Estou usando as palavras dela.
Até o Dia que o Cão Morreu também foi motivo para celebrações. Ambos os livros são muito iguais, falam de amor de uma forma que não é banal, em uma linguagem muito direta, muito jovem. Mas, também, por outro lado, são livros que não falam de nada, os personagens ficam só bundando de um lado pro outro, e dá um certo desespero imaginar pessoas assim.
Sua terceira grande empolgação foi com Valsa Negra, mas somente pelo enredo. Achou a história bem bolada e bem amarrada e o final surpreendente. Gostou especialmente dos personagens e do modo como foram sendo desenvolvidos ao longo da trama, mudando, evoluindo, involuindo.
Gostou dos outros livros da Livros do Mal (menos Hotel Hell, amém pra ela) e também do Bernadet e do Ubaldo, mas sem fogos de artifício.
Já o excelente A Coisa Não-Deus, de Alexandre Soares Silva, ela tentou ler três vezes, por muita insistência minha, mas anjos interagindo num céu de mentirinha, aquilo pareceu fora demais do seu dia-a-dia e da sua experiência para que pudesse se identificar. Largou.
Minha irmã, que é a inteligente da família, está cursando doutorado em Economia em uma das melhores universidades do mundo, na Califórnia. Apesar de ser uma pessoa culta e sensível, ela simplesmente não consegue ler ficção: por que eu iria me interessar em saber como nunca se desenrolou uma situação que nunca aconteceu entre pessoas que nunca existiram? Ela me diz isso e eu quase imagino como meu pobre pai deve se sentir quando lê meus textos. Ficção não desperta nenhuma empatia em minha irmã.
"Há quem consuma, claro. E a partir dos leitores deste tipo de literatura é possível escrever um verdadeiro Tratado Patológico do Leitor Brasileiro. Que, carente de escritores realmente inventivos, sofre até hoje de imaginose aguda, isto é, carência de imaginação — própria e alheia. Não há como se iludir neste sentido, porque a imaginose aguda é como a subnutrição e está entranhada na nossa cultura. (...) Fico me perguntando apocalipticamente, à la Fukuyama, se também a imaginação, com a história, acabou. Escritores jovens escrevem somente sobre si mesmos, sobre seus umbigos alimentados com sucrilhos Kellogg’s, sobre seus momentos hamletianos tão superfaturados. Ninguém parece ser capaz de um lampejo de criatividade na literatura atual: uma imagem remotamente original, um personagem minimamente carismático."
Será essa a resposta? Que a literatura imaginativa está em decadência porque os leitores perderam a capacidade de imaginar, de viver outras vidas, de habitar novos mundos? Vivem vidas vazias e querem livros que retratem isso?
Por um lado, as pessoas parecem ter perdido a capacidade de sentir empatia, como minha irmã. Por outro, cada vez mais só conseguem ler livros com os quais se identificam, como minha esposa.
Quem lê esse blog, e gosta, quem leu o meu romance, e gostou, está na hora de ler meu livro de contos, Onde Perdemos Tudo, seis histórias unidas pelo tema comum de perda.
Com vocês, o capítulo VIII do conto A Falta que nos Fazem os Figos, sobre premonições, destino e temas afins.
Qualquer semelhança com temas recentemente tratados nesse blog não terá sido mera coincidência.
"VIII
Gabriela conta uma história de pescador
Alguns anos atrás, ela começou, uma equipe de estudiosos de percepção extra-sensorial conduziu uma pesquisa de campo em uma aldeia de pescadores onde, segundo informações, um alto número de crianças havia predito a morte de seus pais.
Feitas as diligências iniciais, verificou-se que o fenômeno de fato se dera. Uma das crianças acordou no meio da noite e disse para a mãe que o pai não iria mais voltar do mar. Outra passou um dia inteiro falando para todo mundo que encontrava pela frente: "O papai morreu no mar, não foi? Eu sei, eu sei." Em ambos os casos, e em vários similares, as previsões se realizaram.
Satisfeitos com a comprovação do fenômeno paranormal, os cientistas estavam se preparando para voltar às suas universidades quando um membro mais cético da equipe questionou a metodologia da pesquisa e resolveu conduzir um outro estudo por conta própria.
Não precisou de muito trabalho para descobrir que o maior medo de qualquer filho - e aliás, esposa também - de pescador é que algum dia o pai ou marido não volte do mar. As esposas, adultas e mais controladas, não saem verbalizando esse sentimento por aí o tempo todo, mas as crianças, destemperadas e impressionáveis, sim.
Em suma, rara era a ocasião em que um pescador saísse ao mar e sua família não tivesse "pressentimentos" de sua morte, que seus filhos não sonhassem com o pai enfrentando as ondas em seu barco para em seguida afundar e morrer. Logo, por uma questão de probabilidade, algum deles teria que acabar acertando.
A explicação do fenômeno, concluiu ela, não era paranormal, e sim, estatística."
Minha mãe é toda mística, espírita, recebe santos, pratica religiões afro-brasileiras.
Sempre que vou viajar, eu digo pra ela: "Mãe, tive um mau pressentimento. Não sei se vou voltar. Foi um sonho. Vi o avião caindo, uma bola de fogo, coisa horrível."
Meu grande consolo, se eu algum dia tiver a desgraça de estar em um desastre de avião, será imaginar minha mãe, no meu funeral, dizendo pra todo mundo, seríssima, vindicada:
Ele sabia. É o destino. Cada um tem a sua hora e a gente sente isso nas mais íntimas fibras do nosso ser, algo assim animal, sabe?, a gente pressente. Mesmo meu filho, mesmo ele, cético e ateu, sabia que sua hora estava chegando.
Ele sabia.
E nem vai se lembrar, coitadinha, que eu dizia a mesma coisa antes de cada viagem que já fiz.
Gente, vocês são muito fofos. Obrigado pelas demonstrações de apreensão e solidariedade.
Só pra clarificar, eu não acredito em deus, fé, espírito, destino, carma, porra nenhuma, mas acredito em entropia e em um universo regido pelo caos, que favorece uns e fode outros de forma totalmente aleatória. Ou seja, acredito em sorte e confio na minha intuição.
Uma vez, meu pai disse que eu devia ser grato a deus por tudo o que ele me deu, mas que eu, infelizmente, não acreditava em sorte.
Como assim? Quem não acredita em sorte é ele: meu pai acha que tudo o que tenho de bom foi deus quem deu, ou seja, não foi sorte, foi dádiva.
Quem não acredita em deus só pode acreditar na sorte: tudo o que tenho de bom foi fruto não só do meu esforço mas também de uma conjunção favorável dos elementos aleatórios do universo. Em termos leigos, sorte.
Perguntem pra minha mulher quantas vezes eu troco de percurso, salto do ônibus ou mudo de elevador só porque tive um pressentimento. Já escapei de dois assaltos assim, como me contaram amigos que ficaram para trás nesses lugares de onde eu subitamente senti ânsias de ir embora.
Só pra constar, foi um dos vôos mais estressantes que já peguei. Houve princípio de incêndio em um banheiro e uma das portas do avião não fechou e teve que ser fechada manualmente.
Quem sabe foi o pai do céu tentando me avisar pra parar de brincadeiras.
Bem, ele vai ter que ser mais claro. Eu nunca entendo indiretas.
Eu acredito no mercado. Ninguém rasga dinheiro. Um editor só publica um livro que é igualzinho a trocentos outros porque ele sabe que aquilo vai vender, que a crítica vai afagar.
A Escola Urbana só existe porque existe um mercado grande de pessoas que consome esse tipo de literatura. E quem são esses bandidos que sustentam tanto lixo?
Para tentar entender melhor a atração que a Escola Urbana exerce nos leitores, selecionei esse trecho de uma resenha muito elogiativa do livro do Galera, Até o Dia que o Cão Morreu, feita por Alessandro Garcia, do blog Suburbana:
"Não temos propriamente um romance, mas simplesmente uma história em que o que é preciso ser contado é. O que sobra são indagações tão valiosas quanto as que nos fazemos todos os dias. Recém-formado em letras, o narrador da história, de quem nunca ficamos sabendo o nome, mora em um apartamento sozinho no centro de Porto Alegre, onde a vista para o Guaíba parece ser o que de mais seguro ele tem. O resto é a eterna sensação de solidão e de distanciamento do mundo, mesmo daqueles que lhe parecem mais perto. Como Marcela, uma modelo que surge em sua vida e que, mesmo repleta de beleza e viço, não afasta o protagonista de uma cantilena de auto-destruição, embalada por doses maciças de álcool e cigarro. Por quê? Porque simplesmente ele não vê sentido em buscar um "sentido" para a vida. A sua falta de jeito (talvez o seu principal problema) não o impede, porém, de encontrar meiguice num cão vira-latas - a quem chama de Churras -, recolhido quando voltava para casa. O tom, quase sempre de contemplação, acaba servindo como a resposta que não se tem às mínimas questões práticas da vida."
Não vou julgar o mérito da resenha em si. Ignoremos o fato de a primeira frase simplesmente não fazer sentido, por exemplo. O que quero saber é: por que ele gostou do livro?
Pra começar, eu me sinto vingado: o leitor concorda com tudo que eu venho dizendo. As características que vejo nos livros da Escola Urbana ele também viu: "eterna sensação de solidão e distanciamento do mundo", "cantilena de auto-destruição", "não vê sentido em buscar um 'sentido' pra vida", etc.
Mas gostou! Por algum motivo que me escapa, ele gosta de ler sobre o tédio, a monotonia, a apatia. Por quê? Por quê?!
Será que são os autores da Escola Urbana que estão respondendo aos anseios do leitor contemporâneo? Será que sou eu, e o Alexandre Soares Silva, e a Daniela Abade e outros infelizes, que estamos deslocados? Será que as pessoas vazias querem mais é ler livros vazios escritos por autores vazios contando as histórias vazias de personagens vazias?
Sempre achei estranho serem logo os artistas, que levam vidas tão interessantes, as pessoas que mais se drogam, que mais fogem da realidade. Por que precisam disso? Não seria mais lógico que fossem os contadores, os caixas de banco e os vendedores de seguros que realmente precisassem de esctacy pra aturar o tédio de suas vidas? A vida de Mick Jagger deve ser interesante o suficiente sem precisar de cocaína.
Quando mais reflito, mais concluo que não entendo nada do mundo, que não sei como as pessoas funcionam. Nada disso faz sentido pra mim.
Essas pessoas de vidas apáticas e vazias, os Mersaults ambulantes, fariam melhor em ler as grandes obras imaginativas da humanidade, o Senhor dos Anéis, Dom Quixote, até mesmo Harry Potter. Talvez essas obras maravilhosas chacoalhassem suas rotinas, quebrassem suas correntes, levitassem seus pés. No mínimo, se divertiriam um pouquinho.
Mas não.
Lêem Máquina de Pinball e Até o Dia em que o Cão Morreu, livros que só reciclam, em forma de literatura, o vazio inescapável que já permeia suas infelizes vidas.
Estou embarcando hoje para Fortaleza, a trabalho, e só volto na sexta. O blog continuará sendo atualizado diariamente, aliás, os posts das próximas duas semanas já estão prontos, vai ser só publicar.
Nos últimos dias, sonhei repetidas vezes com acidentes de avião, logo eu que não tenho medo de voar. Minha mãe, que é meio médium, pediu porque pediu para eu não ir. Mas não posso. Trabalho é trabalho.
De qualquer modo, estou com um mau pressentimento.
Meu romance vem sendo muito bem recebido entre os leitores. Veja abaixo o que mais uma leitora, Calime, postou em seu blog sobre Mulher de um Homem Só:
Sobre um romance
"A tal da Mulher de um Homem Só é um desses casos raros de personagem que ultrapassa o conceito de autor e obra e ganha vida própria.
É curioso como até agora ela me domina um pouco. Feiticeira entretendo a platéia na enumeração de suas mazelas incontáveis: Carla, cruel e cheia de graça. Ninguém resiste a súplica falsamente tímida nas entrelinhas "se ninguém ora por você, a auto-indulgência pode ser um remédio".
Confira no site do romance, aproveite e dê uma olhada no excelente e já linkado blog do autor, Alexandre Cruz Almeida: Liberal Libertário Libertino"
Calime, obrigado por ter o carinho de registrar sua opinião.
Opiniões de leitores são sempre inestimáveis. Se positivas, me ajudam a convencer outros a ler o livro. Se negativas, me ajudam a melhorar o livro que, afinal, ainda está em aberto.
Não acredito que acabei de ouvir, na propaganda das Casas Bahia, e pior, uma propaganda que deve passar só aqui no Rio, que amanhã, 20 de janeiro, é aniversário da cidade - e as lojas vão abrir, apesar do feriado!
Caramba, será que ninguém nem mais pesquisa as besteiras que fala? Quanto dinheiro um anúncio desses movimenta, entre idealização e produção? Não tinham 15 reais pra mandar alguém consultar uma enciclopédia?
Uma de minhas leitoras mais queridas e fiéis, a Dani, deu agora pra dizer que está com medo de me mostrar seus contos. Acha que eu destruiria suas doces ilusões de escritora.
Dani, nunca li seu material, não sei se é bom ou ruim, mas eu funciono por encomenda: basta você me dizer o que quer, e eu atendo.
Estímulo Literário
Se o que você quer é encorajamento, apoio, estímulo, etc, não tem problema algum, basta avisar.
Eu também, quando quero todas essas coisas (o que não acontece muito), dou meus textos para minha avozinha. Ela nem lê, claro. Sei disso, porque se lesse, ela teria uma síncope, e a velha ainda está bem viva. Ela simplesmente diz que adorou, que tudo o que o netinho dela faz é lindo. Eu saio de alma lavada, mas me sentindo algo trapaceiro.
Minha Opinião
Se você diz que quer a minha opinião, que quer saber o que eu acho, então eu vou dizer.
Meu incansável pai sempre me ensinava: filho, quando as pessoas pedem sua opinião, elas não querem realmente sua opinião. Querem que você diga que está tudo bem, querem é paz de espírito. E eu até hoje ainda não entendi: caramba, então por que pedem minha opinião?
Não Existe Opinião no Vácuo
Quando alguém me dá alguma coisa pra ler e pede minha opinião, eu pergunto: o que é isso? Afinal, não existe opinião no vácuo.
Se dizem que é literatura, por exemplo, minha opinião será literária. O texto será comparado com James Joyce, Ésquilo, Daniel Pellizari. Enfim, a galera que se propõe a fazer literatura.
Se dizem que é um artigo acadêmico em ciências humanas, minha opinião será científica. O texto será comparado com Eric Hobsbawm, Manolo Florentino, Roberto da Matta. Enfim, o pessoal que se propõe a estudar as ciências humanas.
Por algum motivo que me escapa, as pessoas acham que isso é injusto.
Mesma Atividade, Mesmos Critérios
É como você estar começando no futebol profissional, ir jogar contra o Ronaldinho e pedir pra ele pegar leve. Como assim pegar leve, diria o Ronaldinho? É pra eu não te marcar? Pra te deixar fazer gol de graça? Quem está em campo é pra jogar, companheiro.
Qualquer escritor sério de literatura pode, deve e será julgado pelos mesmos critérios de Machado de Assis. Ou vocês acham que o Joaquim Maria foi unanimidade nacional, ou nunca recebeu resenha negativa?
Vocês se propõem a fazer as mesmas coisas, é justo que sejam julgados pelos mesmos padrões.
Quem se propõe a ser jogador profissional de futebol, tem que estar pronto pra encarar o Ronaldinho.
Quem se propõe a ser escritor de ficção, tem que estar pronto pra encarar Machado de Assis.
Os Peladeiros
Naturalmente, quem joga uma pelada de domingo com um bando de amigo careca e barrigudo não vai enfrentar nenhum Ronaldinho.
Do mesmo jeito, quem escreve só pra desabafar seus sentimentos, desanuviar a cabeça, fazer terapia, botar as palavras pra fora, etc, e depois não publica, mas só xeroca e mostra pros parentes, ou então entra para algum desses clubes de autores novatos da web, em que todos mostram os contos pra todos, todos acham tudo lindo e fica tudo por isso mesmo, claro, essas pessoas nunca vão ser alvo das críticas que Samuel Beckett, Daniel Galera e Sófocles tiveram que engolir.
Alexandre Sob Encomenda
Por isso, a pergunta é importante. Quer minha opinião sobre o seu material? Ok, mas o que é isso? É literatura, é artigo jornalístico, é relato autobiográfico?
Eu só vou julgá-lo e criticá-lo em termos literários se você me disser que é literatura e que quer minha opinião.
Outro dia, um amigo veio me dizer que nunca tinha lido nada parecido com o livro da Daniela Abade. E eu bati a mão no ombro dele e respondi: pôxa, quer dizer que você nunca assistiu Ghost?
O Livro Começa Mal
Sejamos honestos: o livro começa mal. Além da premissa absolutamente velha, os clichês abundam Pra vocês terem uma idéia, a protagonista demora meio livro pra concluir tamanha platitude como "sofrimento e felicidade não tem nada a ver com justiça." Depois dessa revelação, felizmente, o livro engrena.
Daniela Abade é melhor que isso. Um dos mais belos trechos, o encontro da protagonista com seu ex-namorado, em Creta, é fechado com uma frase inesquecível: o fim não tem desculpa. Aliás, a própria idéia da volta ao mundo de Carla é original e bem desenvolvida.
Requentando Ghost
Depois que Acabou é a história de Carla, uma moça que morre atropelada e depois, bem, não vai a lugar algum. Sem ninguém que a aconselhe, Carla vaga pela terra em uma tentativa de entender sua nova condição.
Fiquei pensando em Borges. Não há razão pra eu escrever um romance de centenas de páginas, dizia ele, somente para elaborar uma premissa que pode ser contada em poucas linhas. Não por acaso, seus melhores contos são romances ultra-comprimidos.
A premissa ser velha não quer dizer que é ruim, ou que não deveria ter sido utilizada, mas sim que Abade deveria ter levado isso em conta na hora de escrever o livro. Vários trechos do começo, que seriam ótimos independentemente ou caso não conhecêssemos a premissa, acabam se tornando clichês, previsíveis e repetitivos.
A gente quase pensa: mas caramba, pra que se dar ao trabalho de escrever tudo isso? Aluga Ghost pela quinta vez e pronto!
A partir do meio do livro, Daniela Abade prova ao leitor que sua escolha de premissa foi acertada e que ela tem, de fato, muitas coisas novas, originais e belas para dizer sobre o tema. Só não precisava ter esperado tanto pra começar.
Minha humilde sugestão: Abade poderia ter simplesmente pulado os clichês e acelerado direto para o seu novo conteúdo. Ou, pelo menos, que resumisse os clichês em poucas páginas, para benefício da meia dúzia leitores que não assistiu Ghost.
Ele já valeria a pena somente pelo caso de amor entre Carla e Marco, magistralmente desenvolvido, comovente e understated. Demi Moore e Patrick Swayze ficam pra trás.
Fugindo da Escola Urbana
Mais importante, Daniela Abade foge totalmente da estética marginal da Escola Urbana. Seus personagens são pessoas normais, que levam suas vidas comuns, amam, comem, se divertem. Sua premissa pode não ser original, mas é imaginativa. Em Depois que Acabou, ninguém perambula apático por uma grande cidade violenta, comendo putas e se drogando, celebrando a falta de sentido de sua vida.
Os Óculos Escuros Quebrados
Até a capa é original. Está cada vez mais difícil encontrar capas de livros não-abstratas, capas que mostrem algum elemento da trama. Parece que ou os capistas simplesmente não lêem os livros que ilustram ou então sinceramente acham que qualquer coisinha que mostrem pode estar interferindo no direito do leitor de visualizar o enredo como bem entender.
Pois, para mim, foi uma grata surpresa abrir um romance que tem um par de óculos escuros quebrados em sua capa e já descobrir, nas primeiras páginas, que esse par de óculos é essencial para a trama.
O Livro Termina Muito Bem
No excelente final, nada de constrangedores encontros com deus, caminhadas em direção à luz ou grandes momentos de epifânia e revelação. O clímax é, ao mesmo tempo, perfeitamente climático, a culminação de toda a trajetória pessoal (de vida?) de Carla, mas também um clímax não dramático, não exagerado, não forçado. Lindo.
Começar um romance é fácil. Difícil é acabar. Difícil é bolar um final à altura dos personagens, da atmosfera, do enredo. Difícil é escrever um final tão bom como esse.
Adorei: "Absolutamente de acordo quanto à desccrição da "romance urbano". De resto, já mandei uma série deles para o lixo: meus e de outros, distinguindo-se os primeiros dos segundos apenas pela lombada, ausente e presente, respectivamente."
Estudo de Caso: Até o Dia em que o Cão Morreu, de Daniel Galera
Até o Dia em que o Cão Morreu é o primeiro romance de Daniel Galera, um dos melhores escritores de sua geração e, também, dono da Livros do Mal, uma editora que espanta pela beleza dos seus livros e qualidade dos autores.
Dependendo do ângulo de onde se vê, o romance é bom e não é.
O Romance é Bom
O livro é bom porque o Galera é um puta escritor. O homem mal tirou as fraldas e já tem domínio completo sobre o meio. O livro é fechadinho, de um profissionalismo impressionante. Nada sobra, nada falta. Não houve aquele trecho que se estendeu demais e ficou fraco, redundante. Não houve aquela palavra fora de hora. O ritmo não foi quebrado, o clima não foi dissipado. O romance avançou sem tropeços em direção ao clímax.
Os coadjuvantes - em muitos romances, relegados ao pano de fundo - deram vida e profundidade à obra, um mais redondo do que o outro, desde o avô desbravador até o porteiro artista, passando pelo motoboy feliz.
O timing da transição do antipenúltimo pro penúltimo capítulo foi perfeito: passamos, em um segundo, da última transa do casal para o narrador abandonando seu apartamento.
O último capítulo à la Molly Bloom foi excelente, um bom contraponto com o resto do romance e um fecho muito apropriado.
Também adorei o deus ex machina do final, em que tudo se resolve e uma escolha se impõe. Deus ex machinas são clichês, mas têm seu lugar na boa literatura. Se usados corretamente, ditam o tom da obra e dão sentido à trama. Como foi o caso aqui.
Se tudo foi ótimo, sobrou o quê para eu não gostar?
O Livro é Ruim
O problema do romance é que ele não poderia estar mais firmemente inserido na emocionante tradição da Escola Urbana.
Apesar dos bons personagens e final apropriado, o enredo é frouxo, somente cenas esparsas ligadas por um tênue fio condutor. O protagonista é um rapaz que não quer nada com a vida, não tem objetivos, paixões ou vontades, e cujo grande passatempo é ficar olhando pela janela. E, por algum motivo que nem ele mesmo entende, fode uma modelo gostosona que continua voltando pra ele apesar de ser tratada com a suprema indiferença de que só um protagonista da Escola Urbana é capaz.
O Polzonoff fez uma resenha (bastante agressiva, aliás) no qual desenvolve alguns desses pontos. Discordo do tom, pois ele faz Até o Dia em que o Cão Morreu parecer um livro ruim, o que não é, mas concordo com tudo o que ele fala sobre a Escola Urbana. Até ler essa sua resenha, aliás, eu me considerava sozinho nessa luta.
O Fator Redentor
Daniel Galera é muito bom. Só isso salva o livro e ainda sobra troco. Não tenho dúvida de que, daqui a pouco, ele abandonará de vez a Escola Urbana.
Galera já começou melhor do que João Gilberto Noll (que escreveu a orelha do livro) jamais foi e melhor do que o romancista Chico Buarque jamais será. E se não é melhor do que o Rubem Fonseca década de 70 (aí também seria querer demais), é bem melhor do que o Zé Rubem atual, quase uma sátira de si mesmo.
Infelizmente, o Galera Fonsequiano do Cão perde de goleada pro genial Galera Kafkiano dos Dentes, seu primeiro livro. Espero ansioso pelo terceiro Galera. Será um Galera desempate, ou um novo Galera?
(amanhã... estudo de caso: depois que acabou, de daniela abade... o anti-escola urbana...)
Quase metade dos arquivos executáveis disponíveis pelo Kazaa está infectada com algum tipo de vírus, diz estudo realizado pela empresa de segurança TruSecure.
Durante o estudo, foram baixados 4.778 arquivos e 45% estavam infectados. Em qualquer dado momento, há 3 milhões de usuários trocando arquivos pelo Kazaa, um ambiente perfeito para a disseminação de vírus.
A boa notícia: o estudo foi realizado apenas com arquivos executáveis, do tipo .exe. Arquivos de música, vídeo e imagem ainda estão livres de vírus, por não serem executáveis, ou seja, só são executados através de algum outro programa.
Por enquanto, ainda é seguro trocar músicas e filmes pelo Kazaa. Softwares, só de fonte segura.
Uma versão editada desse texto foi publicada na minha coluna Internet, na Tribuna da Imprensa, no dia 16 de janeiro de 2004
"Continuando a minha corrida pela boa forma intelectual - a física também, já que eu voltei a malhar em academia, conseguindo ficar por lá durante umas quatro horas enquanto ainda não posso procurar emprego -, acabei de ler o segundo romance do ano. Depois do policial The Fourth Floor, baixei para o meu computador o Mulher de um Homem Só, do Alexandre Cruz Almeida, e li suas 50 páginas contínuas com uma voracidade de dar inveja ao mais nobre CDF.
("Só 50 páginas?", alguém pode perguntar. É, vai ler 50 páginas de tamanho A4 no computador, com fonte Times New Roman 12, durante a noite enquanto seu marido está jogando um videogame sangrento! Quando o romance for publicado, as páginas dobrarão, apesar de a história continuar sendo a mesma. Mas realmente vale à pena e não senti nenhum remorso em deixar o Padre Amaro e o Eça de Queiroz de molho por um dia para ler o livro desse autor estreante.)
A história é narrada em primeira pessoa por Carla, que o autor define como sendo "uma mãe de família bem caretona, católica e ciumenta". Eu particularmente achei incrível como um rapaz conseguiu escrever um livro que parece uma autobiografia com uma riqueza de detalhes tão impressionante. Como um rapaz de vinte e poucos anos pode captar tão bem a essência de uma mulher constantemente confusa e expor os joguinhos femininos do "ruim com ele, pior sem ele" e "se não é possível derrotá-lo, junte-se a ele"? Fiz essa pergunta para o autor, mas acho que já sei a resposta: "Só assim consegui, literariamente falando, fugir de mim mesmo."
O que a personagem Carla nos conta é que, além de ela ser uma mulher de um homem só, ela passou a fazer parte de um triângulo amoroso no momento em que se casou com Murilo, então estudante de Medicina. Apesar de ele e Júlia nunca haverem consumado uma relação amorosa, eram amigos desde adolescentes e se conheciam de trás para frente. Aliás, só não houve relacionamento amoroso porque Murilo nunca viu Júlia com outros olhos e achava ridícula a idéia que todo mundo fazia de não pode existir amizade entre um homem e uma mulher. Mas Júlia... essa não se acertava com homem nenhum e dependia de Murilo para tudo. A esposa e a filha do amigo acabaram entrando nessa amizade quase doentia servindo de muletas para sua sanidade.
Bom, não estou aqui para contar a história, mas sim para elogiá-la e recomendá-la. Para quem ainda não conhece virtualmente o Alexandre (e não sabe o que está perdendo!), ele é o criador do blog um tanto polêmico Liberal, Libertário, Libertino. Já está na minha lista de favoritos, com um sinalzinho de positivo (+) na frente do título para ficar na frente dos demais blogs que eu visito freqüentemente. Eu inclusive já falei do blog LLL no dia 9 de janeiro, revelando-o como um dos meus cinco preferidos no momento. Mas, além de publicar diariamente seus posts "rebeldes e sacanas", ele também se dedica a escrever contos e está lutando para colocar o romance Mulher de um Homem só nas livrarias. Visitando o blog do Alexandre, você poderá encontrar seus textos disponíveis para download.
Boa leitura!"
Rafaela, muito obrigado.
E você, que gosta desse blog, vem aqui sempre, mas ainda não leu o romance, não acha que já está na hora, não? Você pode fazer o download em versão para imprimir ou para ler na tela.
Sempre lembrando, o livro ainda não tem casa certa. Quem puder me recomendar a um agente ou editor cabeça aberta, eu só agradeço.
Uma britânica de 34 anos, diagnosticada com esclerose múltipla em 1998, está tentando arrecadar fundos para combater a doença mostrando seus peitos na Internet.
Tudo começou com uma aposta de bar. Dois bebâdos apostaram que ela não mostrava os seios por 10 libras e Vix, prontamente, mostrou. Depois, enquanto depositava as 10 libras em uma caixa de coleta para esclerose múltipla, ela pensou: hmm... Isso pode ser uma boa maneira de arrecadar fundos para o combate da doença, conscientizar as pessoas do problema e ainda se divertir um pouco. O companheiro de Vix deu todo o apoio.
Eu sei, parece brincadeira, mas não deve ser, não.
O Multiple Sclerosis Resource Center (Centro de Recursos para Esclerose Múltipla) apresenta o banner da Vix em sua home - não, ela não mostra os peitos no banner - e ainda diz: "Por favor, visitem o site da Vix e apoiem o MSRC - essa é uma extraordinária iniciativapor parte dela!"
Verdade seja dita, para quem gosta de inglesas excessivamente brancas, a Vix tem uns peitões dignos de respeito. Os pãos-duros vão fazer a festa: as fotos são liberadas, doa quem quiser.
Desde 1º de janeiro de 2004, Vix já arrecadou 507 libras.
Um amigo, professor de literatura, com quem comentei compartilhei meu desespero, fez pouco: me admira você, Alexandre, que defende tanto a liberdade e tudo mais, pregando esse tipo de censura, ditando o que as pessoas podem ou não podem escrever.
O que eu prego não é censura, mas algo parecido, autocensura. Acho que um autor é medido não só pelos livros que publica como pelos livros que não publica.
Um pintor pinta dezenas, às vezes, centenas de telas para poder expor só aquelas trinta. Um compositor compõe, orquestra e até grava dezenas de músicas a mais do que aquelas que entram no CD.
Não deveria ser vergonha alguma um escritor passar um ou dois anos escrevendo um romance pra depois concluir que não, que ele está abaixo do seu nível de qualidade e não vai ser lançado. Não é nem que está ruim, mas não está ao nível dos outros. Pra que publicar? Não vivo disso.
Um diretor de cinema, uma vez terminadas as filmagens ou a edição, não tem mais esse luxo - o filme vai ter que sair! - mas escritores, sim. A não ser, claro, que ele tenha um contrato. A não que esteja obrigado pela editora a lançar um livro por ano. A não ser que ele tenha largado seu emprego e precise publicar livros pra viver, em cujo caso só podemos ter pena dele.
Mas escritores novatos não têm esse tipo de problema. Escrevem qualquer merda por não conhecer nada melhor. Publicam qualquer merda pois estão ansiosos para ser lidos, desesperados para lançar sua voz aos quatro ventos. Vêem todo mundo falando e querem falar. Vêem todo mundo publicando e querem publicar. Vêem todo mundo blogando e querem blogar.
Essa egotrip histérica eu até entendo, mas os editores poderiam ser mais seletivos. Dizem que é difícil de publicar, mas, julgando por boa parte desses 31 livros, não é não. Nem um pouquinho.
O controle tem que vir dos próprios autores. Não fale só pelo prazer de ouvir a própria voz. Releia seu livro. Compare-o com a produção recente. Ele realmente oferece algo de novo ao leitor? Ele diz algo que Rubem Fonseca não disse, e melhor, na década de 70? Você tem de fato algo a dizer ou quer só satisfazer seu flamejante ego?
Quem sou eu pra falar, você se pergunta? Eu sou um cara que escreve seriamente desde os 14 anos e tenho uma gaveta (várias gavetas!) repletas de originais que tenho discernimento e conhecimento suficientes de literatura para saber que, mesmo alguns sendo bastante bons, não oferecem nada de novo, não acrescentam nada. Pra que publicar? Não preciso disso pra viver. Meu ego é grande mas já está saciado, ele também não precisa disso.
Aliás, ainda vou escrever sobre o efeito salutar desse blog na minha vida. Ele me deu um círculo razoável de leitores, gera feedback constante, proporciona instant gratification, já me rendeu até uma coluna em jornal e, principalmente, mantém meu enorme ego ocupado. Se não fosse por tudo isso, talvez, eu também estivesse publicando o lixo das minhas gavetas só pra ter alguns leitores. Hoje, ao contrário, vou tentando publicar meu romance sem pressa alguma, na certeza absoluta de que será publicado e de que, até lá, meu nome só está crescendo.
Sei que sem os inúmeros rascunhos, estudos e esboços que enchem minhas gavetas eu não teria conseguido escrever o meu romance, Mulher de Um Homem Só, e meu livro de contos, Onde Perdemos Tudo, esses sim genuinamente bons.
Aos meus colegas, escritores novatos e ainda não publicados, eu só posso repetir o conselho de Lilian Hellman: se puder se abster de escrever, faça isso. O mundo não precisa de mais escritores. Nem você precisa ser escritor. Ser escritor só traz tristeza, pobreza e dor-de-cabeça. Deixe a literatura para aqueles pobres-coitados que realmente não conseguem não escrever. Produzir literatura não é vocação, é maldição. Sai dessa.
Vai estudar Ciências Atuariais como sua mãe queria.
(amanhã... estudo de caso... até o dia em que o cão morreu, de daniel galera...)
Você se esquece que, além de previamente sugestionados por você, a maioria dos que leram o conto o sabiam ter sido escrito por uma criança de 14 anos, o que muda drasticamente tanto a natureza quanto a intensidade do exame. Não há como afirmar com certeza mas imagino que, se tivesse lido o mesmo conto numa coletânea à venda em livrarias, sorriria ao final e o guardaria na seção de simpáticos triviais em minha cabeça. À exceção, talvez, da Jujuba, cuja feiúra foi o maior acerto e o ponto mais original da história – fosse Ruben Fonseca ela pareceria a globeleza. Pra 14 anos, é um puta conto. ps – Apesar de saber que podes fazer o que lhe der na veneta com seu blog, não gostei da manipulação arbitrária das opiniões dos leitores. Me lembrou Lacerda e as palestras nas quais exercitava seu fabuloso dom da oratória levando o auditório a uma conclusão para depois convencê-los de outra diametralmente oposta. Opinião de quem freqüenta bastante o site movido por simpatia e vontade de aprender.
Marco Aurélio, você pode até não ter gostado da manipulação, mas fiz isso pra mostrar o quanto somos manipulados o tempo todo. Essa é parte da beleza da literatura. Escrever É manipular o leitor. É um jogo muito matreiro, quase uma disputa entre leitor e autor. Quando o autor é bom, é sublime. Quando sou eu, bem, você não gosta – o que é até muito justo.
Ulysses, Dom Quixote, Lolita, Dom Casmurro, a lista de livros manipuladores é enorme. Os autores nos levam pra cá, nos fazem ver a questão por um lado, depois nos dão uma rasteira, nos trazem pra lá, e nunca sabemos com certeza onde estamos. Lendo Ulysses, eu me senti como um cachorro, sabe, que a gente levanta o osso e ele levanta a cabeça, a gente vai com o osso pra esquerda e ele acompanha, etc. Ulysses é uma grande pegadinha: somos manipulados do começo ao fim.
Não são só os grandes escritores que fazem isso. Agatha Christie era a Rainha da Rasteira, uma hora ela faz tudo para parecer que o culpado é o primo Jack, ao mesmo tempo que prepara o terreno para descobrirmos que, na verdade, era o avô.
Os humoristas também são manipuladores por definição. Humor é enganação, humor é o inesperado: pra fazer humor, temos que forçosamente manipular o leitor, fazer ele olhar pro outro lado, e então puxar o tapete.
Até aceito que você não goste de ser manipulado. Ninguém gosta. Mas a única coisa que fiz diferente do Joyce ou do jornalista do artigo que você leu hoje de manhã foi admitir, escancaradamente, que estava te manipulando, que estava mexendo o osso pra cá e pra lá e você só acompanhando com os olhos.
Achei interessante a comparação com Lacerda. Nunca gostei muito dele, mas agora, por coincidência, estou trabalhando em seu jornal, A Tribuna da Imprensa. Será que está no sangue?
Desculpa o mau-jeito. Enganar o leitor é uma delícia. Prestidigitação pura, eu me sinto o próprio David Copperfield - e, ao confessar tudo isso, me sinto o próprio Mr. M. Pense no que fiz mais como uma aula do que como um brincadeira. Entra na roda quem quer, o importante é saber as regras.
Eu tenho senso de humor e não me levo nem um pouco a sério. E isso é só o que peço dos meus leitores também.
Muito obrigado por visitar o blog e pelo carinho de tomar alguns minutos do seu tempo pra deixar registrada sua opinião.
No final das contas, uma enorme dúvida se impõe: por quê?! Por que escrever um livro igual a milhares de outros? O que esses autores querem dizer? Será que querem dizer alguma coisa?
Qual é seu tema? Será que escrevem esses livros em uma tentativa mal-informada de denunciar o vazio da vida contemporânea, já tão bem denunciado por escritores melhores, ou será que são eles mesmos os vazios e esvaziados, e seus livros, ao invés de denúncias, são sintomas desse vácuo que acomete as nossas letras?
De mais quantos narradores existenciais-niilistas rebeldes-chicletes nossa literatura ainda precisa? Será que esse gigantesco clichê é o único modo que temos de demonstrar a falta de sentido da vida contemporânea e blá-blá-blá? Será que a falta de sentido da vida contemporânea é mesmo um tema tão importante assim que mereça ocupar 90% da produção literária nacional?
Eu Sou Um Protagonista de Romance da Escola Urbana
Um leitor que caia aqui de pára-quedas pode ficar achando que sou o maior reacionário do mundo. Pelo contrário. Acho que sou tão contra essa escola pois sou parecido demais com seus valores.
Eu, sim, apesar de não me considerar rebelde, sou um existencialista-niilista urbano. Não acredito em nada, só em mim e no presente, e olhe lá. A vida, intrinsecamente, não faz sentido, ela só tem o sentido que nós lhe damos.
Larguei minha incipiente carreira de executivo e hoje vivo uma existência contemplativa, dou aulas em cursos de inglês vagabundos, faço alguns trabalhos de consultoria e escrevo. Falo muito palavrão, freqüento um círculo de pessoas muito mais ricas do que eu e tenho uma mulher realmente desproporcionalmente gostosa que não sei o que ainda faz comigo. Pra piorar, ando por tudo quanto é tipo de submundo sexual e já vi coisas de arrepiar cabelo.
Tirando alguns elementos, como o comportamento auto-destrutivo e a violência, eu poderia ser o narrador de um desses romances horríveis. Aliás, se eu escrevesse um livro de não-ficção sobre a minha vida hoje, não haveria como não ser um romance firmemente inserido na tradição da Escola Urbana - a não ser que eu mentisse muito.
De certo modo, a Escola Urbana não me atrai pois já vivo essa vida. Escrever um romance desses é ridiculamente fácil. Eu mesmo, com 14 anos, escrevi um conto muito bom, pelo menos segundo o padrão de qualidade da Escola Urbana.
Se não sou nem um apático, como Mersault, nem um angustiado, com os existencialistas de Sartre, é apenas porque tenho a irracional alegria de viver de Whitman.
Gosto do difícil. Gosto de me reinventar. Gosto de imaginar pessoas diferentes de mim. Gosto de ser protagonistas que eu não poderia ser. Não vão encontrar, entre os meus personagens, angustiados literatos existencialistas. Isso seria muito fácil. Já basta eu.
Não é à toa que a protagonista do meu romance, Mulher de Um Homem Só, é uma mãe de família bem caretona, católica e ciumenta. Só assim consegui, literariamente falando, fugir de mim mesmo.
Prego o fim da Escola Urbana não é por motivos filosóficos ou estéticos ou ideológicos. Acho que a literatura não tem obrigação de nada, a não ser de ser interessante. E esses romances niilistas-existencialistas são chatos, tediosos, apáticos.
E, seu pior pecado, redundantes.
(amanhã... pratique uma saudável auto-censura... se puder se abster de escrever, não escreva... egotrips histéricas... o salutar efeito da web em nossos egos...)
Todos os nossos instintos animais nos ensinam a proteger os nossos (nossa família, nossa tribo) e a temer tudo o que nos é estranho.
Quando eu vi uma pessoa negra pela primeira vez, ainda criança de colo, eu gritei, apavorado. Nada mais natural do que uma criança branca, que nasceu e cresceu entre brancos, ainda puro instinto, tenha medo de um ser todo preto. Inaceitável seria que eu ainda estivesse assim 30 anos depois.
A maioria dos meus leitores (ou assim espero) consideraria preconceito e arrogância se julgar superior aos angolanos somente porque eles vivem em um país mais fraco, mais pobre e sem destaque algum no cenário mundial.
Mas esses mesmos leitores vivem acorrentados em uma prisão de ódio, ressentimento e inveja contra os americanos.
Desprezar o mais fraco por ser mais fraco é a mesma prisão que odiar o mais forte por ser mais forte.
Naturalmente, não estou falando só de patriotismo. A maioria de nós vive acorrentado em uma prisão de ódios, ressentimentos, invejas e desprezos pelas pessoas que nos cercam.
Havia um certo rapaz barbudo que muita gente considera santo. Eu não, mas às vezes acho que dou mais valor ao que ele dizia do que muita gente que come seu corpo e bebe seu sangue.
Devemos perdoar quem nos ofendeu não pra ser bonzinhos, ou para ir pro céu, mas para nos libertar da ofensa. A ofensa não perdoada é cancerígena. Ela fica purgando dentro de nós, até se tornar fatal. A injúria passada, o xingamento engolido acaba nos definindo: nós nos tornamos o insulto recebido.
O objetivo do perdão não é premiar o perdoado, mas libertar o perdoador.
Dêem a César o que é de César e não olhem pra trás. Ofereçam a outra face e não se fala mais nisso. Estejam acima das pequenas coisas da vida.
Meu conto, O de Sempre, com o qual ganhei meu primeiro dinheiro, é um bom exemplo de tudo o que há de errado na Escola Urbana. O conto é péssimo, terrível mesmo. Eu sei, eu disse que tinha orgulho dele, mas foi só pra enganar vocês. Queria saber o que diriam. Uma população que lê Estorvo e acha bom poderia gostar até mesmo daquilo.
Tudo bem, até admito, o conto mostra uma certa promessa. E só.
O maior problema ali não é estilo, ou imaturidade, ou falta de talento, mas ignorância. Até os 14 anos, eu praticamente só tinha lido Bukowski, Stephen King e Rubem Fonseca. Pra mim, literatura era aquilo. Bares imundos, palavrões a granel, pessoas fétidas, vidas vazias e sem sentido.
Escritor tem que ler muito. Escritor tem que ler muito, no mínimo, pra saber o que não fazer. Pra saber o que outros já fizeram. Pra saber o que outros fizeram melhor.
Em si, o conto é ruim? Até que não. Mas em um universo onde já existem Bukowski e Rubem Fonseca, ele é, no mínimo, redundante. Não diz nada de novo. Não acrescenta nada. Não tem nenhum insight original. Zilch.
Minha fase fonsequiana durou dos 14 aos 17. Meus contos dos 17 ainda se inserem na tradição da Escola Urbana, mas já são paródias do gênero, pois senso de humor eu sempre tive e ele me salva de me levar a sério demais. Dos 18 aos 21, eu vaguei meio perdido pela literatura, escrevendo de tudo um pouco.
Aos 21, encontrei minha voz, ainda um pouco dura, mas minha, e escrevi meio romance que estava bastante bom. Dos 21 aos 24, eu treinei e exercitei essa minha voz escrevendo dezenas de contos. Os melhores, eu reuni no meu livro Onde Perdemos Tudo, que ainda vou publicar.
Por fim, a partir dos 24, escrevi meu romance, Mulher de Um Homem Só, e comecei a soltar minha linguagem, tentando ser menos perfeccionista e menos duro. O processo ainda está em andamento.
Meus contos fonsequianos dos 14 aos 17 foram fruto de pura falta de conhecimento. Eu não conhecia nada melhor. Literatura, pra mim, era aquilo. Eu vivia cheio de regras e leis na minha cabeça e, ao crescer, fui descobrindo que literatura era muito mais abrangente do que eu achava que era, que literatura era muito mais livre do que eu imaginava.
Minha melhor explicação para o fenômeno é essa: quem escreve na Escola Urbana entre os 20 e os 30 é porque, simplesmente, ainda não descobriu coisa melhor, ainda não abriu os olhos para a imensidão da literatura lá fora. Não leram o suficiente. Estão vivendo, com alguns anos de atraso, minha fase dos 14 aos 17.
Pelo menos, eu tive a grande vantagem de viver essa minha fase em privado, à revelia de parentes e professores, que insistiam para que eu publicasse aquelas merdas. Eu respondia: quero ser escritor, não menino prodígio quando estiver mais velho, e mais afiado, publico.
Coitados dos bons escritores que estão vivendo sua fase urbana em público, publicando a torto e a direito: amanhã, quando superarem essa fase, vão morrer de vergonha.
Mais coitados ainda, deles e dos seus leitores, são os escritores que nunca saem da Escola Urbana.
(amanhã... por quê?! por quê?!... por que escrever um livro igual a milhares de outros?... o que esses autores querem dizer?... será que querem dizer alguma coisa?)
Nas ciências humanas, um livro ou uma tese nasce de uma curiosidade, de uma comichão intelectual. Você está lendo sobre a Guerra do Paraguai, vê uma menção às crianças em combate e pensa: mas como será que era isso? Quem eram essas crianças? Como funcionava a participação delas?
Bom cientista que é, você fica curioso e vai correr atrás daquela informação. Das duas uma:
a) você encontra um livro sobre o assunto
b) você não encontra um livro sobre o assunto
Se você não encontra um livro sobre o assunto, ótimo, já tem uma tese nas mãos. Você queria saber sobre o assunto tal, descobriu que ninguém nunca falou dele, pronto, taí o seu nicho. Bom doutorado pra você.
Caso encontre o livro, você pode ou ficar satisfeito com sua abordagem e pesquisa, e sair de curiosidade saciada, ou você pode concluir que a abordagem do livro era falha ou insuficiente, que ele falou sobre as crianças paraguaias e não sobre as brasileiras, era excessivamente ideológico, etc.
Então, mais uma vez, usando o livro como ponto de partida, você também arranjou sua tese, seja pra complementar, refutar ou atualizar a obra original. Bom doutorado pra você.
Não consigo imaginar nem o mais medíocre cientista social se propondo a escrever um livro que cubra a mesma área e tem a mesma abordagem que outro livro. Escrever um livro absolutamente igual. Superposição perfeita.
Mas nossos jovens autores de ficção fazem isso o tempo todo: reescrevem livros que já foram escritos não uma, não duas, mas milhares de vezes.
Por que nossos jovens, justo as pessoas que deveriam estar tentando reinventar o mundo e começar tudo de novo, justo as pessoas com quem a sociedade conta para trazer frescor e originalidade às artes, são os mais medíocres, os mais conformistas, os mais confortáveis em apenas repetir o que já foi feito e nada mais?
Esses autores, que se acham tão rebeldes, são, no fundo, reacionários.
Não tenho dúvida que Clarah Averbuck, como pessoa, é alternativa. Mas Máquina de Pinball, apesar de ser uma leitura agradável e divertida, é, literariamente falando, profundamente conservador.
Clarah Averbuck escreve bem. Seu texto tem fluência, é engraçado, às vezes até surpreendente. Mas por que ela escreveu Máquina de Pinball?
Um artista tem que ser capaz de responder a essa pergunta. Qual foi a justificativa estética e artística do seu romance? O que estava querendo mostrar ou transmitir?
Não sabemos. Pistas, o texto não fornece.
A impressão que ficamos, tanto em relação à Máquina de Pinball quanto a outras obras da Escola Urbana, é que o autor escreveu o livro porque queria falar de si mesmo. Só.
Até aí, nada de mais. Falar de si mesmo é um objetivo louvável. Mas não é arte.
Por que os editores editam? Por que os leitores lêem?
"É uma literatura baseada em tédio, cansaço, preguiça e inércia. Pode até ter uma proposta redentora, mas a redenção só acontece a partir do momento em que o tédio tomou conta do romance e não tem por onde escapar. Seria possível montar uma extensa biblioteca somente com livros recém-lançados que se apoiam sobre estes pilares. Ferrez, Clarah Averbuck, Mirisola e coisas deste tipo nada mais fazem do que uma literatura absolutamente retrógrada. Ousaria até dizer reacionária. Uma literatura fora de seu tempo, que não se justifica senão na falta de imaginação dos autores."
Por que nossos jovens autores não estão dizendo nada de novo?
Acho que só há uma resposta, e gostaria de me utilizar como exemplo: ignorância.
(continua amanhã... as fases de um escritor... o meu conto, O de Sempre... obras redundantes...)
"Americanos são recebidos com flores e brindes no Rio
Os passageiros desembarcados dos quatro vôos procedentes dos Estados Unidos receberão brindes nesta terça-feira (13) no aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim, no Rio. A iniciativa é resultado de uma parceria da Secretaria Estadual de Turismo, Riotur e associações de hotéis e de agentes de viagem, com o objetivo de "compensar" os turistas americanos pelos transtornos causados pela exigência judicial de identificá-los. Recepcionistas da TurisRio entregarão aos turistas camisetas com a inscrição "Rio loves you", rosas e brindes da joalheria H. Stern e da Varig, segundo informações da Agência Brasil." (fonte: Folha Online)
É por isso que eu amo a minha cidade maravilhosa. E ainda me perguntam se sou paulista! Aqui, a gente sabe que tratar bem o turista é uma questão, antes de tudo, econômica.
O juiz que reverteu a pirraça usou argumentos econômicos e alguém aqui disse: "Sempre o dinheiro." É isso mesmo. Sempre o dinheiro. O que eu não entendo é porque, para a maioria das pessoas, dinheiro é algo negativo.
Que me desculpem os pobres e as raposas-das-notas-que-estavam-verdes, mas dinheiro é fundamental. Dinheiro pra indústria do turismo, por exemplo, quer dizer empregos e prosperidade para todo o país.
Defender o orgulho nacional ferido é muito bonito, mas, daqui a alguns meses, quando os hotéis e restaurantes começarem a demitir garçons e faxineiras em massa porque o movimento caiu, o pessoal da esquerda patriótica não vai nem conseguir associar as duas coisas.
Eu só acho que poderiam receber bem assim todos os outros turistas. No mínimo, também os argentinos. Rixas imbecis à parte, são eles quem mais visitam o Brasil.
Os leitores só acompanharam parte da polêmica, que também não durou muito, pois adoro ser xingado e não respondo. Vale a pena ir lá ler.
Mais tarde, e isso eu nunca disse aos leitores, acabei descobrindo que ela era namorada de um amigo meu (também Alexandre, ô raça!) e ficou furiosa (comigo e com ele) quando ele começou a citar muito o meu blog e a falar demais em relacionamentos abertos. Ou seja, lá fui eu causar confusão de novo.
O tempo passou, ficamos todos bons amigos, sábado agora até tomamos chope na praia de Copa, eu, ela, minha senhora e o outro Alexandre. Conheci melhor a Renata, que tem realmente a língua ferina e sacana da "mulher moderna" (quase sinto falta dos seus xingamentos!), mas também é simpática, inteligente, super talentosa (três vezes ganhadora do Prêmio Esso!), além de falar pelos cotovelos, igualzinho a mim.
Em seu post de hoje, a moderna fala um pouco do impacto que tive em sua vida e, de lambuja, ainda comenta o polêmico artigo As Mulheres Querem Tudo.
Renata, valeu, de coração. É bom saber que, no final das contas, tive um impacto positivo em sua vida.
A Escola Urbana, por si só, não é ruim. Mas a última vez em que foi boa, a última vez em que representou qualquer tipo de frescor ou originalidade, foi quando Rubem Fonseca lançou O Cobrador, na década de 70.
Era o peido semi-agonizante de uma tradição literária que começou com Mersault dizendo, apaticamente, que sua mãe morreu hoje, ou talvez ontem. Sei lá. E depois indo ao cinema e à praia. Infelizmente, a tradição continuou, mal e mal, até hoje.
No final do século vinte, a Escola Urbana tornou-se uma paródia de si mesma. Levas e levas de autores jovens e ignorantes (e também autores maduros e ignorantes) lançam livros e livros que são, na prática, iguais: reciclam os mesmos temas, os mesmos personagens, o mesmo vocabulário.
Sessenta anos depois, essas pessoas ainda não encontraram nada melhor para fazer do que parafrasear os cacoetes de Mersault, um dos personagens mais chatos e apáticos da literatura mundial. E eu fico pensando: se iriam escolher algum personagem para imitar por tanto tempo, não poderia ser alguém mais interessante? Falstaff, Dom Quixote, Becky Sharp, Tristam Shandy, Brás Cubas?
Eu sou escritor, não crítico. O que quer dizer, sou janela, não pedra. Tento ao máximo não criticar os colegas. Um, porque não ganho nada com isso, somos poucos e temos que nos unir e, dois, porque nem saberia como fazer. Não tenho instrumental crítico pra isso. Leio, reconheço problemas, tento fugir deles quando escrevo. Ponto. No máximo, elogio quem merece.
Por isso, escrevo esse artigo com dificuldade. Estou lambendo ele desde agosto, sem querer mostrar pra ninguém. Mas é difícil se abster de uma questão, pra mim, tão urgente. Cortei ao máximo todos os nomes e referências pessoais. As carapuças que caiam onde couberem.
Em 2003, eu li 31 livros de ficção brasileiros escritos nos últimos 15 anos. A lista está ali do lado para quem quiser conferir. Muito poucos, dolorosamente poucos, não requentavam os tiques da Escola Urbana.
Jovens autores são as principais vítimas. Parece que crescem lendo os livros da Escola Urbana, ficam com a impressão nociva de que literatura é isso e, quando vão escrever, escrevem a mesma coisa que todo mundo já escreveu. Depois, se forem bons, à medida que amadurecem, encontrarão sua própria voz - espera-se.
Desses 31 livros, quase todos os que não pertencem à Escola Urbana são de artistas mais maduros. Dos novatos, a maioria caiu na armadilha - com duas honrosas exceções, Alexandre Soares Silva e Daniela Abade. Reparem que não seguir a Escola Urbana não é garantia de um bom livro, mas é garantia de que não será um livro que todo mundo já leu.
Dos autores novatos que caíram no conto da Escola Urbana, alguns são tão bons que tenho certeza que saírão dessa rápido. Outros, provavelmente chafurdarão por lá pra sempre.
O pior livro da Escola Urbana é Estorvo, do Chico Buarque. Estorvo é péssimo. Estorvo é um dos piores livros de todos os tempos. Estorvo, pra usar vocabulário da crítica, é um ponto ótimo de síntese de todas as características marcantes da Escola Urbana.
Cruz credo.
(amanhã... a questão da falta de originalidade... os autores mais rebeldes são os mais reacionários... por que nossos jovens não estão dizendo nada de novo?)
"O desembargador Catão Alves, presidente do Tribunal Federal da 1ª Região, com sede em Brasília, aceitou pedido de liminar da Prefeitura do Rio para suspender a identificação obrigatória de americanos que chegam à cidade.
Ao embasar a sua decisão, o desembargador afirma que, "se os Estados Unidos da América têm razões para adotar as providências questionadas pelo Ministério Público Federal, o Brasil, sem motivo plausível, uma vez que o receio de atentados terroristas, felizmente, não faz parte da vida nacional, não poderia somente ao fundamento de reciprocidade, fazer o mesmo, porque causaria prejuízos de milhões de dólares à economia nacional, não apenas ao requente, com a fuga de turistas, diante das restrições de ingresso em território pátrio com procura de outras plagas, e, consequentemente, a perda do fluxo turístico norte-americano e da incalculável soma de valores que aqui deixaria", de acordo com informações da prefeitura." (fonte: Folha Online)
Sábia prefeitura da minha cidade maravilhosa que entrou com ação contra a pequenez, e sábio o desembargador que deferiu.
Em 1999, ele decidiu cancelar seu serviço de TV a cabo. A empresa prontamente parou de cobrar mas nunca desligou o sinal. Dumouchel e sua família tiveram TV a cabo de graça por quatro anos.
Na semana passada, Dumouchel, de Fond du Lac, Wisconsin, ameaçou processar a empresa de TV a cabo por tê-lo viciado em álcool e cigarro, por ter engordado sua mulher em 25 kg e por ter transformado seus três filhos em "vagabundos zapeadores". Ele queria US$5.000, ou três computadores e fornecimento de internet a cabo gratuita por toda a vida.
"Minha questão principal," afirma ele, "tem a ver com liberdade de escolha e eles não me deram isso. Eu tenho a escolha de não fumar cigarros, mas tenho que ir até a loja para comprá-los. É uma escolha consciente. Eu acredito que a razão pela qual eu fumo e bebo todos os dias, e minha mulher está acima do peso, é porque assistimos TV todos os dias pelos últimos quatro anos."
Quando repórteres perguntaram porque ele simplesmente não desligou a televisão ou cortou o fio, Dumouchel disse que se sentia incapaz diante do controle remoto: "Quantos de vocês conseguiriam ficar sem TV por um mês?"
Dumouchel ainda disse que, quando não está trabalhando, a TV ocupa toda a sua atenção e que a torrente de anúncios de bebidas e cigarros foi demais pra ele, que também sucumbiu a essas tentações.
Poucos dias depois de criar um circo da mídia a sua volta, Dumouchel desistiu da ação. Dizem alguns que por pressão da sua mulher, que não gostou nada de ser chamada de gorda.
Talvez tenha sido melhor assim. Se a família de Dumouchel tivesse conseguido três computadores e internet a cabo gratuita por toda a vida acho que as coisas estariam bem piores.
Essa eu escrevi pra minha coluna de sexta-feira, 16 de janeiro, na Tribuna. Se vai sair, são outros quinhentos. Postei ela agora, com tanta antecedência, pois hoje fui o Blog Nota Dez da coluna do Gravatá, do jornal O Globo, e quis dar esse agrado aos leitores dele que vão pintar por aqui. Gravatá, valeu!
Não é incrível? Fico pensando nos ufanistas, quadradões e homófobos que buscam por patriotismo, monogamia e heterossexualidade e caem nas minhas prisões. Coitados!
O Google está me ajudando a mexer com muitas cabecinhas.
Outras buscas nas quais o meu site aparece em destaque:
Traje passeio completo - 1o lugar
Malvadas - 1o
Literatura Contemporânea - 1o
Jean-Claude Bernadet - 1o
Carolina Larriera - 1o
Mainardi - 2o
Averbuck - 2o
Almoço Grátis - 2o
Casamento Aberto - 3o
Pessoas Mortas - 3o
Sergio Vieira de Mello - 4o
Livros do Mal - 4o
Artigos - 5o
Orgulho - 7o
Divórcio - 9o
Homem que Copiava - 9o
Banners - 10o
Copa do Mundo - 20o
Algumas buscas são traiçoeiras. Alguém está procurando por traje passeio completo, deve ter uma festa pra ir, e ao invés de encontrar em uma loja de aluguel de roupas, cai na Prisão Conformismo. Não tem muito a ver.
O mais incrível mesmo é ver como os meus textos aparecem bem colocados em buscas por palavras simples e genéricas, como orgulho, divórcio, artigos e banners. Dá até pra pensar: caramba, alguém que busque por artigos está querendo encontrar o quê?
O Google, sozinho, elevou os pageviews do meu site para cerca de 200-300 por dia, mais ou menos o mesmo número que o blog. Melhor ainda, a duração da sessão média está em quase quatro minutos, o que quer dizer que boa parte das pessoas que chegam está, de fato, parando para ler os textos.
Todo mês, somando o blog e o site, são lidas cerca de 10 mil páginas escritas por mim.
Uma nova escola literária vem tomando conta da literatura brasileira há mais de 30 anos. Por falta de nome melhor, eu a chamo Escola Urbana.
Um romance da Escola Urbana é, antes de mais nada, redundante. Tudo é muito comum, muito banal, muito repetitivo. Os personagens são apáticos, as situações, tediosas.
A maioria da nova produção literária nacional se alicerça firmemente nas bambas fundações da Escola Urbana.
Se você começar a ler um livro e ele tiver alguma das característiscas abaixo, cuidado: você pode estar lendo um livro da Escola Urbana.
Protagonistas Apáticos
Um narrador solitário e, muitas vezes, sem nome, sem moral e sem ética, frio e apático, desenraizado, sem família e sem amigos, tendo relações curtas e vazias com quem encontra, incapaz de amar, de se apaixonar ou mesmo de ter qualquer tipo de emoção forte ou verdadeira, imerso em um torpor que parece sem cura e sem saída, perambula pelo submundo de uma grande cidade, sórdida e podre, simbolizando a falta de sentido da vida moderna e a nossa busca por sentido e identidade no meio do caos das metrópoles contemporâneas.
Comportamento Auto-Destrutivo
Os personagens fumam, bebem e se drogam em excesso. Naturalmente, se a vida não faz sentido e se somos minúsculas peças na engrenagem de um mundo hostil, não há porque cuidarmos de nós mesmos, de nossos corpos e de nossa saúde. Mais uma carreirinha aqui, por favor.
Falta de Enredo
Não há enredo digno desse nome, muitas vezes só um tênue fio condutor, em outras, nem isso, apenas eventos desconexos sublinhando, mais uma vez, a falta de sentido da vida nas grandes cidades contemporâneas, a irrelevância nos nossos esforços, etc etc.
Mulheres Objetos
As mulheres são objetos. Os narradores, feios, sujos e malvados, ou comem uma quantidade enorme de putas ou, por algum motivo inexplicável, fodem mulheres lindíssimas. Não digo namoram pois um protagonista de romance da Escola Urbana não se importa o suficiente com si mesmo, ou com qualquer outro, para namorar ou ter qualquer tipo de relação afetiva estável: ele fode. E olhe lá.
Não fica bem claro o que isso significa, literariamente falando. Eu diria que os autores se identificam tanto com seus protagonistas que gostam de fazê-los comer muitas mulheres gostosas. Ainda estou pra ver o narrador durão de livro da Escola Urbana que ache a vida tão sem sentido que seja brocha e não tenha vontade de comer ninguém. Os autores devem pensar que isso refletiria negativamente em suas masculinidades.
Desprezo aos Ricos
Os protagonistas, apesar de pobres e imundos, sempre circulam entre os ricos. Desprezam a incrível futilidade da elite, mas vão às suas festas e freqüentam suas casas - sem se corromper ou impressionar, claro. Isso dá aos jovens autores a oportunidade de fazer uma crítica social rasteira, enquanto mostram aos leitores que dominam o vocabulário da elite, sabem o que é um blinis e quais adjetivos usar pra descrever um Romaneé-Conti.
A Questão das Referências
Alguns livros da Escola Urbana gostam de enfatizar a sua urgente contemporaneidade fazendo referência a todo o tipo de elemento da vida moderna. Então, os livros contêm intermináveis parágrafos nos quais o personagem salta do 474 Leblon-Leme, compra uma Época, toma uma Fanta Citrus, que tinha acabado de ser lançada, e ele gosta muito, aliás, pede um maço de Marlboro e vai pra casa, porque vai começar o último capítulo de Mulheres Apaixonadas.
Um outro estilo, tão irritante quanto, é aquele que não faz literalmente referência temporal-social-cultural-geográfica nenhuma, em uma tentativa de criar uma obra que não remeta a nenhuma cidade ou época específica.
Por fim, o terceiro estilo é o sofisticado, a la Rubem Fonseca, na qual o autor faz questão de nos brindar com sua enorme erudição, citando hordas de autores, sempre no original, além de também fazer referências a tudo o que a vida tem de melhor. Nesses livros, os personagens estão andando pela Visconde de Pirajá, em Ipanema, debatendo Kant e Heidegger em alemão, entram em uma joalheria que só eles conhecem, pois H. Stern é coisa de turista (segue-se um longo trecho para demonstrar como o autor entende de jóias e quilates) e os personagens decidem largar tudo e pegar o vôo de 20:30 da Air France pra Paris, para ir almoçar num bistrozinho da Rue de Quelque Chose que, também, só eles conhecem, pois são pessoas tão exclusivas. Arre.
Excesso de Palavrões
A linguagem se orgulha de ser desagradável e de fazer farto uso de palavrões. Os autores parecem achar que crueza e rispidez são sinônimos de autenticidade e que uma farta quantidade de merdas e foda-ses aumentará o realismo da obra.
Cultura da Violência
Dependendo da obra, a violência também é uma presença quase viva. Todos são assassinos, bandidos, bandoleiros. Mata-se por qualquer coisinha, com a facilidade que se palita um dente, e sem razão alguma, mais uma metáfora contundentemente gasta para mostrar que a vida humana não vale nada e não faz nenhum sentido.
Metalinguagem de Botequim
Como se escrever um romance da Escola Urbana não fosse fácil até demais, afinal, já está tudo tão bem esquematizado, alguns autores ainda colocam a si próprios como protagonistas, ou seja, escritores jovens, marginalizados, fudidos. Nada é mais gasto, mais clichê e mais fácil do que essa metalinguagem de segunda, esses romances de escritores escrevendo sobre escritores escrevendo sobre escritores, com seus personagens forçados que não conseguem ir ao banheiro sem fazer uma citação literária ou lembrar do capítulo de Primavera Negra, onde Henry Miller discorre sobre os melhores autores para ler no banheiro enquanto dá uma boa mijada.
Onde estão os livros sobre as dificuldades dos pedreiros ou sobre os dramas existenciais das manicures? Será que a literatura não se interessa por eles? Será que só nós, escritores, somos conscientes o suficiente, angustiados o suficiente, complexos o suficiente para merecermos estrelar romances?
Tudo estava como sempre quando eu entrei no Mutuca's, o bar mais imundo da baixada fluminense. É um botequim baratinho, tudo o que eu posso pagar com os poucos bicos que arranjo. A barra é pesada e os fregueses evitam ter muitas conversas. De vez em quando, pintam por ali umas putas que até valem a pena comer. Eu não deixo escapar uma.
(cuspi)
O banquinho do balcão em que eu me sentei fez um ruído estranho - que mais lembrava tosse de asmático - e eu pensei que ele ia desabar. Não era nada demais, no fim das contas. Apenas as juntas e dobradiças que estavam enferrujadas. Coisinha besta.
Em uma mesa, mais para o fundo do bar, um bando de marmanjões jogavam pôquer, imersos nas sombras. Uma espessa nuvem de fumaça, vinda de seus cigarros - que parecia ser sólida - pairava sobre eles, ameaçando cair a qualquer instante, esmagando-os. Palavrões e murros são comuns por aquele canto. Vez ou outra, eles até sangravam os trapaceiros. Por duas ocasiões, tiveram até tiros. Em uma dessas vezes, eu vi um camarada se levantar, camisa aberta até a barriga mostrando o peito cabeludo como o de um orangotango, dizendo: "Você perdeu, cara!" e despejar em seguida três azeitonas a queima-roupa num infeliz de olhos esbugalhados. As apostas por ali eram altas.
Esse tipo de violência irritava Marcondes, o barman responsável pela bodega. Ele só deixava fazerem isso lá f ora. Porém, quando um esquentadinho fazia o serviço sujo lá dentro mesmo, ele não perdia a calma. Ajudava o cara a levar o defunto para a rua e depois até cobrava uma taxa adicional pelo serviço. Tudo sem um pio, e depois também, não se falava mais nisso. Ninguém se animava a brincar com as duas 45 do Marcondes. Decididamente. no Mutuca's a melhor política é ficar cada na sua.
(peidei)
- O de sempre... - Falei, meio desanimado, para o Marcondes, que cuspia em um pano, para depois limpar um copo encardido com ele. Acabou de fazer isso e me serviu uma bebida do bar que nem nome tinha. Metade era uma mistura de cada cachaça e aguardente vagabundo que havia no boteco. A outra metade era álcool puro. Podia ser forte como o diabo, e te queimar todo por dentro, mas era a coisa mais barata que havia ali. Depois de me dar a bebida, começou a limpar o balcão com pano encarrado. Tirei um maço de mata-rato do bolso e acendi com um daqueles fósforos moles, cabeça rosa de uma caixa que achara na rua.
Fumava despreocupadamente quandc vi a piranha que estava entrando pela porta. Alta, morena, cílios grandes, lábios e pernas grossas. Um bocado feia, sem dúvida, mas o melhor tipo que poderia aparecer lá no Mutuca's.
Tomei um gole da mistura e senti as entranhas arderem. Com a falta que eu estava de uma boa trepada, o que entrasse era lucro. Sorri para ela com dificuldade. Meus olhos lacrimejavam. Dei uns tapinhas na coxa, convidando-a para sentar em meu colo. Foi exatamente o que ela fez, para minha alegria. Eu já conseguia sorrir com facilidade. Ela sorria também. Meu pau ficou duro na hora e a puta gostou, ficou toda assanhada.
(arrotei)
- Eu sou o Xandinho... e você...?
- Me chamo Juliana, mas pode me chamar de Jujuba. - Respondeu ela, sorrindo com a boca sem alguns dentes.
- O que uma dama como você faz num fim-de-mundo desses?
Tenho que admitir que a resposta dela foi mais sincera do que eu esperava.
- Tô procurando um homem pra trepar...
Respondi na hora.
- Então um você já achou.
- Foi o que eu pensei.
- Deixa eu acabar a minha bebidinha aqui que a gente já vai fazer o que nteressa. - Tomei um gole - A propósito, apelido estranho o seu. hein...?
- Jujuba vem de Juliana e também porque dizem que eu sou boa de comer. - Explicou ela.
(ri)
- Ah, entendi... - Repliquei depois da risada. Bebi mais um pouco da mistura.
Instantes depois, três imbecis encapuçados pularam para dentro do boteco de armas em punho bradando aos quatro ventos que era um assalto.
- Todo inundo quieto! - Gritaram os boçais. Eu podia sentir o hálito deles de longe. Totalmente de fogo.
Pensei que os caras da mesa de pôquer iam fazer alguma coisa, pois afinal estavam armados-mas eles nem piscaram. Continuaram jogando cartas.
Marcondes empalideceu e respondeu, gaguejando, que ia pegar o dinheiro. Abaixou-se com o medo estampado no rosto, mas quando se levantou, com uma 45 em cada mão, sua expressão era de puro ódio. Ele deveria ser ator. Nunca tinha visto ninguém fingir medo tão bem.
- Comam chumbo, otários! - Berrou.
Marcondes berrava, despejando rajadas de balas nos assaltantes, que revidavam. Eu e Jujuba estávamos bem na linha de fogo. Torci para que nenhuma bala atingisse minha misturada, pois afinal já havia pago a bebida. A piranha, apavorada, pulou do meu colo, tentando fugir do fogo cruzado. Uma bala acertou a infeliz bem na testa, que guinchou antes de se estabacar no chão. Ainda bem que não voou sangue em mim. Agora, porém, eu teria que catar uma outra puta. Merda. lsso só acontece comigo.
(arrotei)
Continuei parado no mesmo lugar, de costas para a porta e de frente para o Marcondes, que atirava com uma mão de cada lado da minha cabeça. . Eu podia sentir as balas passarem zunindo perto de meus ouvidos. Fiz a única coisa plausível naquela situação. Tomei mais uma golada da minha mistura.
Uma das ameixas raspou na minha orelha e arrancou um pouco de sangue. Duas ou três gotas do líquido caíram na minha bebida. Fiquei com medo que estragasse. Sabe que até melhorou Até hoje, as vezes, só quando eu tenho saco, faço um furinho no dedo e deixo o sangue escorrer.
Marcondes continuou atirando e dando gritos de júbilo até levar uma azeitona no ombro direito. Largou a arma, com um berro, que caiu ao meu lado no balcão. Ele passou, então, a atirar com um braço só, praguejando baixo. Estiquei minha mão para pegar a arma, porém uma bala acertou-a e ela voou para dentro do balcão. Encolhi minha mão rapidinho.
(peidei)
Eu não sei como, pois estava de costas e não via nada, mas Marcondes venceu os assaltantes. Parou subitamente de atirar e deu um longo suspiro.
- Acabou? - Perguntei, timidamente.
- Acabou!
- Ótimo! - Disse eu, e para comemorar bebi todo o resto da minha misturada de uma vez.
Marcondes, meio caído, com sangue pingando no chão, tirou da estante do bar uma garrafa que somente ele podia beber, um tal de aguardente "Porco Preto". Bebeu uma golada daquela eca, emitiu um som estranho que lembrava vagamente um arroto e me disse:
- Me ajuda a levar os presuntos lá pra fora?
- Ajudo. - Respondi, sem muita convicção.
Jujuba era mais pesada do que eu imaginara. A essa altura, é claro, meu tesão já era.
- E o sangue? - Perguntei.
- Depois eu limpo. Vem, vam'tomar um trago.
(cuspi)
Sentei no balcão, e depois de Marcondes ter se servido de seu "Porco Preto", suspirei e falei, melancolicamente:
Estréia no Calça Justa, do Elas por Elas:
Um Big Mac e uma Coca Light
Rapaz, que dia movimentado. Hoje, parece que estou publicando mais fora do blog do que dentro dele.
Hoje é também a minha estréia no Calça Justa, do maravilhoso blog Elas por Elas.
Mantido pelas jornalistas Mariana e Isadora, o Elas por Elass é um blog sobre comportamento: sobre aquelas histórias deliciosas dos encontros e desencontros de homens e mulheres.
Enquanto o Homem É Tudo Palhaço, por exemplo, outro excelente blog, trata do mesmo assunto, mas em tom de galhofa e zoação, e sempre engraçadíssimo, o Elas por Elas (EPE, pros íntimos) tem uma linha mais parecida com o LLL: insightful e understanding. Acho que, no fundo no fundo, o que eu, a Mariana e a Isadora estamos tentando fazer é entender. Só isso.
Se você gosta aqui do Liberal Libertário Libertino, tem que conhecer o Elas por Elas.
Toda sexta-feira, o Clube da Luluzinha abre suas portas aos machos: é o Calça Justa, onde machos selecionados têm direito à palavra uma vez por semana.
Essa sexta, na estréia do Calça Justa 2004, o macho sou eu, com um texto que escrevi especialmente para as meninas, sobre aquelas pessoas que comem um big mac e depois... tomam uma coca light! O artigo é polêmico e pede a participação das mulheres.
"Um neófito juiz matogrossense determina uma vingança primária contra um povo amigo - seriamente ameaçado pelo terrorismo - e o país aplaude a 'reciprocidade' mais assimétrica que a semântica já viu. Em nome de uma suposta rivalidade entre Estados, cria-se um entrave à liberdade de pessoas."
Economia
Não sei como funciona a economia do Mato Grosso ou do que eles vivem por lá. Mas a RioTur está certíssima em contestar a decisão, pois o Rio, capital do turismo, é quem tem mais a perder quando os americanos escassearem nos aeroportos. Talvez a vida econômica de Cuiabá não sofra se o número de turistas americanos cair em 80%, mas eu sou carioca, e aqui a gente vive disso.
Errar o Alvo
Pior, reclamam da coisa errada. Ser fichado no JFK pode ser chato, mas dura só dois minutos e acabou. Os americanos fizeram coisa pior e não vi ninguém chiar. O próprio juiz, se quiser visitar a terra do Tio Sam, vai ter que se debandar até São Paulo ou Brasília para tirar o visto, um deslocamento incômodo e caro, e que inviabiliza as viagens de muitos brasileiros que moram em cidades sem consulados americanos.
Não ouvi ninguém propor reciprocidade disso.
Reciprocidade Falsa
A reciprocidade é falsa porque a medida dos americanos não visou especificamente a nós, mas a nossa visou especificamente a eles.
Existem 28 países cujos cidadãos não precisam de visto para entrar nos Estados Unidos. São países com os quais os americanos têm relações mais estreitas. E, claro, são os países mais ricos. Todos os outros cidadãos, de todos os outros países, precisam de visto para entrar nos Estados Unidos.
O que os americanos instituíram é que os cidadãos de países que precisam de visto teriam que ser identificados. Ou seja, o Brasil foi incluído junto com 150 outros.
Agora, vamos falar sério: alguém duvida que é mais provável um cidadão boliviano, ruandês ou paquistanês ser terrorista do que um sueco ou canadense?
Pirraça e Criancice
Podemos até reclamar que os americanos estão reagindo exageradamente ao onze de setembro ou que estão indo longe demais no afã de se proteger, atropelando até os seus próprios direitos civis e liberdades históricas.
Mas não podemos negar que eles têm razões válidas para fazer o que fizeram. Teríamos que ser muito cínicos, ou hipócritas, para deixar de admitir que eles estão de fato sob ataque, que os Estados Unidos são de fato alvo de milhares de terroristas internacionais que passam o dia inteiro pensando em como fuder com eles.
Por outro lado, a nossa decisão, a tal alardeada reciprocidade, foi baseada única e exclusivamente em pirraça e criancice. Nada mais.
Despropósito
A pirraça é tão infantil e sem propósito que a Polícia Federal não tem nem pessoal para identificar os todos os americanos e nem o que fazer com os dados coletados. As fotos e as digitais vão ser encaixotadas e esquecidas em um depósito, pois ninguém sabe o que fazer com elas.
É apavorante ver o Brasil todo unido em uma iniciativa cujo único objetivo, declarado e explícito, é espezinhar outro país.
Humilhação Maior
Pior de tudo para o tal orgulho nacional tão afagado pela criancice: dificilmente ela vai vingar. Seja por iniciativa do Itamarary ou da Riotur, ou de mais quem acabar percebendo que essa besteirada dói no bolso, a medida vai cair. Ela simplesmente não é factível nem a médio prazo, quem dirá a longo.
E aí, meus amigos, vai ser muito mais humilhante ser obrigado a deixar fazer do que simplesmente nunca ter feito.
Como sempre, a pirraça terá se provado uma péssima guia nas relações internacionais.
Conclusão
Não pensem que sou pró-americano, ou pró-brasileiro, ou qualquer besteira assim. Eu só acho patético deixar a pirraça ditar a política internacional do Brasil.
Como diria o Francis, todo mundo acha que mora no centro do mundo. Na verdade, o simples fato de esse assunto estar gerando tanta polêmica é a prova de que o Brasil, apesar de não ser, pensa e reage como colônia. Seja grande, Brasil!
Concordo com o grosso dos meus compatriotas que os americanos estão mesmo exagerando na dose.
Também vale a pena ressaltar que eles fizeram por onde. Todos esses terroristas estão atrás deles porque ninguém se intromete nos assuntos de todos os países do mundo sem ter algum tipo de volta.
Por outro lado, é muito fácil para um povo como o nosso, que não tem inimigos históricos, criticar uma outra nação por apenas tentar se proteger.
E, pra terminar, outra observação pertinente: não é à toa que não temos inimigos históricos, ou, paralelamente, não é por acaso que os americanos os têm.
A receita para não ter terroristas querendo lhe destruir é razoavelmente simples: não use bombas atômicas contra populações civis, nunca invada o Afeganistão, evite usar seu serviço secreto para derrubar governos que discordem de você, não ocupe uma pequena nação do sudeste asiático por dez anos, etc etc.
Estréia, hoje, sexta-feira, 9 de janeiro, a minha coluna sobre Internet na Tribuna da Imprensa. A partir de agora, todas as sextas-feiras, vocês (e os leitores da Tribuna) poderão acompanhar minhas dicas e insights sobre o que anda rolando pela Internet.
O tema da primeira coluna é como fugir de vírus de computador sem virar hipocondríaco, como usar o Google para descobrir o título daquela música que você adora mas não sabe o nome e uma promoção de livros que está bastante em conta.
Vocês me conhecem, não consigo escrever pouco. Ou melhor, até consigo, mas dá muito mais trabalho. Já dizia o escritor: desculpe pela carta longa, não tive tempo de escrever uma curta.
Minha coluna original era muito mais longa. Aliás, essa primeira coluna que está saindo hoje era, originalmente, as duas primeiras colunas, que meu editor, o Caetano, tanto cortou que viraram uma só.
Tem escritores que odeiam que mexam no seu texto. Eu adoro. Como falei na Prisão Conformismo, perdi, há muito tempo, contato com as expectativas e reações das pessoas. Simplesmente não sei mais o que ninguém vai achar do que eu escrevo. Por isso, adoro ter um editor que corte as minhas prolixidades e deixe o texto mais enxuto. Além do mais, sou profissional, faz parte.
De qualquer modo, esse blog, por definição, não tem editor nem limites de espaço: o único limite é a paciência do leitor e, como vocês sabem, link externo, serventia do blog.
Amanhã, publico aqui a coluna na íntegra. Lê quem tiver saco.
O primeiro dinheiro que ganhei na vida foram os 60 dólares de prêmio do Primeiro Concurso de Contos da Hebráica Rio, categoria infanto-juvenil, em outubro de 1988. Eu tinha 14 anos.
(Interlúdio sobre conversão e moedas: naturalmente, o prêmio não foi pago em dólares. Mas, naquela época de hiperinflação galopante, o dólar era o único critério seguro, por isso, eu logo converti o valor em dólares e gravei na memória que havia sido o equivalente a US$ 60. Imaginem se eu dissesse que tinha ganho Cz$2.000. Faria algum sentido pra vocês hoje? Ou Cz$2.000.000? Faria alguma diferença? Enfim...)
Melhor de tudo, os contos dos vencedores do primeiro lugar, tanto adulto quanto infanto-juvenil, seriam recitados por um ator profissional para todo o auditório. Eu fico tentando lembrar e acho que eu só podia não saber disso. Se soubesse, teria levado uma câmera, um gravador, alguma coisa.
Quem leu o conto foi Rosane Goffman. Na época, ela estava estreando na TV em Vale Tudo, era razoavelmente obscura e ainda não estava enorme de gorda.
Quando vocês lerem o conto, vão entender porque ele ser recitado, um uma tarde de domingo, perante uma platéia de conservadores velhinhos e pais de família, é um acontecimento que merecia ser filmado.
Dizem que gosto de chocar. Pode ser. Mas nunca choquei tanto quanto naquela tarde, na Hebráica. Foi uma estréia e tanto.
A minha grande dúvida: onde o júri estava com a cabeça? Afinal, eles sabiam que aquilo seria lido alto. Eu, quando me inscrevi, não.
O presidente do júri era o escritor Octávio Mello Alvarenga, também presidente da Sociedade Nacional de Agricultura. Ele depois me chamou pra uma conversa particular na sede da SNA e me confessou que, como presidente do júri, tinha praticamente imposto minha premiação, pois as outras senhoras estavam receosas do valor literário de tantos palavrões. Alvarenga parecia estar se divertindo. Não sei se a Hebráica o chamou para presidir futuros júris. Talvez fosse essa a idéia. Poucas coisas devem ser mais chatas do que ser jurado de concurso literário.
Quando cheguei lá, com a família em peso, uma senhora logo perguntou: Chaim Harish?
(É, esse era o meu pseudônimo. Chaim Harish. Como era um concurso em uma comunidade judaica, quis algo que soasse judaico.)
Eu disse que sim, e perguntei como ela sabia. É que você é o único não-judeu entre os classificados. Até hoje nunca encontrei o ponto exato na minha testa onde está escrito gói, mas fico imaginando que, como era um clube judaico, ela já devia conhecer todos os outros.
No ano seguinte, 1989, eu ganhei de novo, mas não houve leitura dos contos dos vencedores. Como o meu conto desse ano era bem-comportado, só posso concluir que queriam mesmo era chocar. Em 1990, extinguiram a categoria infanto-juvenil, antes que virasse meu feudo particular e, então, competindo contra os adultos, não cheguei nem entre os três primeiros.
Não mudei uma vírgula. Leiam e me digam o que acham. Tenho muito orgulho dessa criança precoce.
Já que estamos trocando figurinhas de livros, ontem fui à Biblioteca da PUC-RJ, o meu playground particular e uma das melhores bibliotecas do Rio, e trouxe:
Rand, Ayn. The Fountainhead. Alguém elogiou muito o Atlas Shrugged e a Loba Má me falou muito bem desse aqui, e eu ainda não conhecia a autora.
Francis, Paulo. Trinta Anos Essa Noite. O Francis é sempre uma delícia de ler, apesar de o período não me interessar muito.
Lima, Oliveira. Dom João VI no Brasil. Dom João VI é um dos maiores estadistas que já passaram por esse país, apesar do que possam ter ouvido falar em filmes e minisséries. O fato de Portugal ter saído das Guerras Napoleônicas independente é prova disso.
Norman, Donald. The Design of Everyday Things. Um dos livros mais badalados de design dos últimos 20 anos. Estou pra ler esse, a trabalho, há anos, mas nunca encontro e não tinha cacife pra comprar.
Seckler, David. Thorstein Veblen and the Institutionalists. Livro de economia, que não é bem a minha praia, mas vocês sabem que me apaixonei, caí de quatro, por Veblen ano passado e quero saber quem mais está seguindo suas teorias.
Bem eclético, né? Sabe lá quando vou acabar de ler isso tudo.
Já que estamos falando de listas de livros, e como eu também mencionei que sou extremamente esquecido, resolvi contar uma coisa.
Todo amante dos livros sempre tem uma lista dos livros que estão namorando. Mas, geralmente, essa lista não é concreta. A minha é. Eu esqueço de tudo. Se não tiver, por escrito, os livros que estou procurando, chego na livraria e esqueço tudo, confundo um autor com o outro, compro o mesmo livro duas vezes.
Então, mantenho essa lista, no meu computador, que atualizo sempre, e carrego na minha carteira, dobradinha, impressa em três colunas e fonte oito, pra tomar menos espaço.
A minha atual lista de livros a comprar, então, ainda sem incluir os livros recomendados pelos meus leitores, é:
Abelard and Heloise, the letters of.
Antunes, Lobo. Os Cus de Judas.
Benson, Raymond. Doubleshot
Benson, Raymond. Never Dream of Dying
Benson, Raymond. The Man with the Red Tatoo.
Bukowski, Charles, Any book by.
Carpentier. El Siglo de las Luces.
Cassady, Neal. First Third.
Dreiser, Theodore. An American Tragedy.
Ephron, Nora. Wallflower at the Orgy.
Fante. Any book by.
Gadda, Carlo Emilio. Aquela Confusão Louca da Via Merulana.
Galdós. Angel Guerra.
Galdós. Miau.
Galdós. Tristana.
Gide. Moedeiros Falsos. Counterfeiters.
Goldsborough. Bloodied Ivy.
Goldsborough. Death on Deadline.
Goldsborough. Fade to Black.
Goldsborough. Last Coincidence.
Goldsborough. Murder in E Minor .
Goldsborough. Silver Spire.
Goncharov. Oblomov.
Gorki. Childhood / My Childhood
Gorki. Earning my Bread / In the World / My Apprenticeship
Gorki. My Universities / My University Days
James, Henry. The Golden Bowl.
Kleist, Any collection of short stories by.
Kundera, Milan. Ignorance.
Lermontov. A Hero of Our Time.
Lispector. Cidade Sitiada.
Lispector. Maçã no Escuro.
Lispector. O Lustre.
Marivaux, Any collection of plays by.
Miller, Henry. Cosmological Eye.
Moliere. Any collection of his plays that includes Misanthrope and Miser.
Moravia. Agostino.
Moravia. La Disubbidienza.
Moravia. La Mascheratta.
Petrarch, Any book by.
Powys, John Cowper. A Glastonbury Romance.
Poyer. Black Storm.
Ryunosuke Akutagawa, Any book of short stories by.
Schnitzler, Arthur, Any collection of short stories by.
Sei Shonagon. The Pillow Book.
Strindberg, Any collection of plays by.
The Mahabharata
Turgenev. Virgin Soil.
Zeami, Any book by. Japanese dramatist.
Dourado, Autran. Livros que eu tenho: Armas e Corações, Violetas e Caracóis, Risco do Bordado, Caveleiro de Antigamento, Vida em Segredo, Ópera dos Mortos, Ópera do Fantoches, Sinos da Agonia, Poética do Romance, Artista Aprendiz, A Serviço Del Rei
Essa é a lista. Como o Dourado tem muitos livros, achei mais prático listar os que eu tenho, ficando implícito que estou buscando todos os outros.
Essa leitora, que também quis se manter anônima e comenta aqui regularmente, teve a gentileza de me visitar em casa e também de me deixar tirar várias fotos dos seus pés, em especial, das solas, que é o que eu mais gosto.
Além disso, adoro anéis de dedo do pé e adoro tornozeleiras, e adoro mais ainda os dois juntos, como aparecem aqui. Seus pés também têm uma característica incomum, mas muito sexy: unhas nos mindinhos, unhas de verdade, que dá pra pintar, e não só aquela restiazinha de unha que a maioria das pessoas têm.
Na primeira foto, seus pés estão indolentemente descansando sobre minha mesa, enquanto ela lê algum texto que lhe dei.
Na segunda foto, a minha preferida, sua belíssima sola do pé repousa sobre uma das minhas pavorosas cadeiras. Reparem nas unhas aparecendo por cima de seus dedos. Reparem também, lá em cima, na tela do meu computador, que eu estava checando as estatísticas de acesso do blog no SiteMeter. Tentem não reparar na cadeira, que parece ter sido roubadas de algum bar vagabundo.
A seguir, seu pé no chão, mostrando as unhas rosadas e o belo anel.
Na última, lindíssima, uma visão lateral, com o detalhe da unha do mindinho e o outro pé nas sombras lá embaixo.
Mais uma vez, como eu sempre digo, eu sei que sou doente.
Na verdade, só publico essas fotos aqui para estabelecer precedente. Leitoras queridas, me enviem fotos dos seus pés. De preferência, das solas. Se eu puder postá-las no blog, avisem, Se não for pra eu postar, eu não posto. Se quiserem, enviem algum textinho junto e eu publico também. Beijos nos pés de todas vocês.
Outra coisa que vocês só podem fazer no site é se cadastrar pra receber, via email, os destaques desse blog.
Podem ficar tranqüilos: o blog é atualizado todo dia, mas só mando mensagem uma ou duas vezes por semana, chamando atenção para posts que acho especialmente dignos de nota. Além disso, são emails pequenos, que nunca passam de 20k. Assine a newsletter.
Na reta final, Adeus, Lênin entrou pra lista dos melhores filmes de 2003.
A premissa é sensacional: uma comunista fervorosa da Alemanha Oriental tem uma síncope logo antes da queda do Muro de Berlim e entra em coma. Acorda alguns meses depois e o médico avisa ao filho que ela não pode ter emoções fortes. Cabe, então, ao filho tentar esconder de tudo quanto é jeito a nova realidade, mas não é fácil. Como explicar aquele outdoor da Coca-Cola no prédio em frente?
No meio do processo, o filho termina por reinventar a própria História, ao encenar para a mãe uma nova versão, mais justa e tolerante, da unificação das Alemanhas.
Nas mãos de um bom diretor americano, essa premissa daria uma excelente comédia. No entanto, nas mãos de um diretor europeu, o filme, além de engraçadíssima, torna-se também uma reflexão importantíssima sobre tudo aquilo que falei na Prisão Realidade: nós somos mais fortes e mais poderosos do que imaginamos.
A realidade não é pra ser aceita, mas sim construída. A realidade pode, e deve, ser domada e moldada para se adaptar à nós e às nossas necessidades.
Gente, nada pior do que a gente falar alguma coisa e vocês entenderam outra. Todo mundo está falando como se eu tivesse dito que ia apagar críticas. Eu não falei isso. A coisa não tem nada a ver com isso. Eu falei em deletar comentários de pessoas que não se identificam, sejam elas contra ou a favor.
E também teve gente vestindo estranhas carapuças. Não propus isso pensando em ninguém específico. Aliás, se isso tivesse acontecido só uma vez, não haveria problema algum.
O foda são as brigas e discussões entre gente que não se identifica. Não tem porque não se identificar: alguma coisa pode ser mais fácil do que criar um email gratuito no Hotmail?
Sou muito esquecido. As pessoas vivem me pedindo as coisas e eu esqueço. Me empresta o livro tal. Vai no site x. Traz aquele documento.
E, invariavelmente, eu esqueço.
Até aí, tudo bem.
As pessoas me cobram o livro que eu era pra ter trazido, eu bato a mão na testa (faço a pantomima toda, é o castigo que me imponho) e digo: puxa, esqueci!
Fica um certo desapontamento no ar mas até aí, tudo bem.
Eu, nos meus anos de empresário, aprendi que sempre se deve acabar uma reunião definindo precisamente no campo de quem está a bola: então, senhores, agora a nossa tarefa é reescrever a proposta com os novos valores, vocês precisam aprovar o novo orçamento com a diretoria, o João Augusto vai redigir a ata da reunião e nos enviar até terça, etc etc. O essencial é, sempre, todo mundo sair da reunião sabendo quem tem que fazer o quê até quando. Senão, nada nunca é feito.
E como eu sei que sou esquecido mesmo, tento passar a bola para o outro time.
Eu digo, muito sinceramente: olha só, eu sou esquecido. A gente está conversando agora, você precisa do livro tal, mas sei que, quando chegar em casa, eu vou esquecer do assunto e só vou lembrar quando te vir de novo. Eu sugiro o seguinte: me liga ou me manda email quando eu estiver em casa e eu já coloco o livro na minha pasta.
Aí começam os problemas.
Não é nem que as pessoas ficam indignadas não. Mas é que elas, também muito sinceramente e invariavelmente, respondem: aaahh, mas aí eu vou esquecer!
E quem fica indignado sou eu.
Me dá vontade de pegar o puto pelo colarinho e dizer: seu merda, se você, que é a parte interessada, que é quem precisa do livro, sabe que não vai lembrar dessa porra daqui a duas horas, por que cargas d'água eu teria obrigação de me lembrar disso quando estiver na santidade do meu lar?
Eu sei, eu sei, é uma besteira. Mas, diga-se a meu favor, só passei a me estressar a partir da vigésima vez que isso me aconteceu.
Nunca falha. Eu sempre me esqueço de trazer as coisas que deveria, eu sempre faço essa proposta (que considero totalmente razoável) de transferir o ônus de lembrar para a parte interessada e sempre me deparo com a mesma reação: ah não, esse ônus eu não quero, quero só o livro, você que se lembre.
Romances Sobre Dinheiro: Balanço Final das Recomendações
Faz pouco tempo pedi recomendações de livros sobre a relação homem/dinheiro. Meus maravilhosos leitores me inundaram de recomendações. Algumas não eram exatamente o que pedi, mas agradeço assim mesmo. Outras, perfeitas, como O Jogador e O Cortiço, eu já tinha lido. Uma eu até mesmo li na hora, Timon, de Atenas, de Shakespeare, recomendada pelo Dalton.
Corri atrás de mais informações sobre todos os livros sugeridos e eis aqui os que vão entrar em minha fila de leitura:
Balzac, As Ilusões Perdidas. (Milton)
Written between 1837 and 1843, Lost Illusions reveals, perhaps better than any other of Balzac's ninety-two novels, the nature and scope of his genius. The story of Lucien Chardon, a young poet from Angoulême who tries desperately to make a name for himself in Paris, is a brilliantly realistic and boldly satirical portrait of provincial manners and aristocratic life. Handsome and ambitious but naïve, Lucien is patronized by the beau monde as represented by Madame de Bargeton and her cousin, the formidable Marquise d'Espard, only to be duped by them. Denied the social rank he thought would be his, Lucien discards his poetic aspirations and turns to hack journalism; his descent into Parisian low life ultimately leads to his own death.
Balzac, Esplendor e Miséria das Cortesãs. (A Harlot High and Low, Splendeurs Et Miseres Des Courtisanes) (Milton)
Balzac, Eugenia Grandet. (Te)
One of the earliest and most famous novels in Balzac's Comedie humaine, Eugenie Grandet portrays the fall of the Grandet household. In its record of financial acuity, the vicissitudes of the wine trade, and the social and economic consequences of the Revolution, we find a vigorous fictional document of the age.
Dreiser, Sister Carrie. (Soares Silva)
Dreiser's Sister Carrie is an urban novel. A country girl comes to the city, ends up with a slick saleman as a kept woman, but runs off with a bar manager to New York where she finds fame as an actress. Her bar manager husband falls on hard times and kills himself. Carrie's fortunes rise as Hurstwood's falls. The characters operate in the world of the city with its mystical pull. Their decisions and some chance events help guide along the plot, but this is a world of survival of the fittest. Carrie turns out to be fit, while Hurstwood does not.
Epstein, Dossier: The Secret History of Armand Hammer. (Flávio)
Galbraith, Age of Uncertainty. (Flávio) (PUC)
Gogol, Almas Mortas. (Luis)
Mandeville, The Fable of the Bees, And Other Writings. (Flávio)
Mann, Buddenbrooks. (Milton)
In loving, ironic, and sympathetic detail, Mann portrays several generations of a merchant family who belong to the bourgeois aristocracy in Lubeck, tracking them from high point to decline.
Moliere, O Avarento. (Te)
Orwell, Keep the Aspidistra Flying. (Milton) (PUC)
The chief character in this early but exceptionally fine novel of Orwell's is Gordon Comstock, a writer who rebels against the twin British middle-class preoccupations: money and respectability.
Pirandello, One, No One, and One Hundred Thousand. (Eu Mesma)
This is the story of man searching through his monologues to find out himself as seen by others and as he assumes he really is wihout what he has assumed all his life. Each brief chapter is a exploration of the different aspects of the man's reality, examined now from a detached position. The reflections are serious and profound, but they keep a good sense of humor through out the whole narrative.
Rand, Atlas Shrugged. (RCS)
Atlas Shrugged is the astounding story of a man who said that he would stop the motor of the world--and did. Tremendous in scope, breathtaking in its suspense, Atlas Shrugged stretches the boundaries further than any book you have ever read. It is a mystery, not about the murder of a man's body, but about the murder--and rebirth--of man's spirit.
Schnitzler, Aurora. (Ed.Boitempo) (Rafael)
Muito obrigado a todos que fizeram sugestões, e quem mais quiser sugerir, será bem-vindo.
Muitos brasileiros se sentem inferiorizados em relação ao inglês e à influência dos americanos. Essas pessoas parecem achar que somos uma nação de coitadinhos, falando uma língua pobrezinha e acuada, na defensiva contra um vizinho mais poderoso. Pessoas como essas apóiam absurdos como as propostas xenófobas do Aldo Rabelo.
Em meu artigo Em Defesa da Língua Portuguesa, eu tento mostrar o oposto: um, que o processo pelo qual uma língua influencia outra é natural e faz parte do desenvolvimento sadio de qualquer língua e, dois, que o português, a sexta ou sétima língua mais falada do mundo (depende de quem conta) está longe de ser uma língua fraca ou debilitada. Vale a pena lembrar também que o português é a terceira língua ocidental mais falada do mundo, atrás apenas do inglês e do espanhol e muito a frente de todas as outras, como francês, alemão e etc.
Um autor que escreve numa linha bem próxima a mim é o Sérgio Rodrigues, colunista da NoMínimo. Nos últimos meses, ele tem escrito bastante, e sempre com muita lucidez, sobre essa questão da defesa da língua portuguesa.
Seu último artigo comenta o livro "Inglês Made in Brazil", de Ron Martinez, um americano residente no Recife. Não li o livro, então fica claro que estou falando só do artigo do Sérgio, mas podem ficar olhando a lista de leituras ali ao lado que o livro de Martinez vai aparecer em breve.
O livro é sobre expressões da língua inglesa absorvidas pelo português, em especial, palavras que parecem inglesas, mas foram inventadas aqui, como motoboy e outdoor. Para Martinez, o que essa fenômeno demonstra é o oposto de uma apatia da nossa língua: na verdade, foi o português, agente ativo, que tomou posse dessas palavras.
"O livro de Martinez (...) ajuda a desmontar o discurso xenófobo que vê na "invasão" das palavras estrangeiras um sinal do fim dos tempos - ou pelo menos do fim do português. (...) O que Martinez diz, porém, é suficiente para realçar a mecânica de uma língua, a nossa, em pleno funcionamento criativo, trabalhando com peças de qualquer origem que estejam à disposição, e apagar a idéia de um idioma apático, mero receptor de mercadoria importada. (...) O debate sobre estrangeirismos, que não é simples e muito menos desapaixonado, ganha com esse livro novos elementos, novas dimensões. Torna-se talvez menos simples ainda, mas cada vez mais apaixonante. "Eu vejo as palavras inglesas usadas em português, não como palavras que invadiram a língua, mas como se o português tivesse tomado posse delas", diz Martinez. É um ponto de vista curioso que o livro defende com galhardia."
Por motivos de trabalho, passarei cinco dias em Fortaleza, em meados desse mês, e não conheço absolutamente nada nem ninguém lá. Quem tiver dicas, sugestões, quiser me mostrar a cidade, etc, pode entrar em contato.
Mike Tyson, enorme e mal-encarado, pisa no seu pé.
Você olha pra ele, faz cara de indignado e pisa no pé dele também.
Isso é reciprocidade.
Infelizmente, logo depois, o Mike Tyson quebra seu pescoço com uma cotovelada.
Isso é a inevitável e dura realidade.
A maioria dos brasileiros, inclusive eu, está adorando a decisão do juiz federal Julier Sebastião da Silva de submeter aos americanos entrando no Brasil a mesma recepção humilhante reservada aos brasileiros chegando nos Estados Unidos.
A decisão está firmemente baseada no consolidado princípio diplomático de reciprocidade. Em outras palavras, se você exige visto dos meus cidadãos, eu vou exigir dos seus. Se você humilha os meus cidadãos, eu vou humilhar os seus, etc.
É tudo muito bonito. O cara que pisou no pé do Mike Tyson também foi de uma reciprocidade louvável. Inclusive é, hoje, o cara mais recíproco do cemitério.
Pena que praticamente tudo o que ele podia fazer contra o Mike Tyson era pisar-lhe o pé, enquanto o Mike Tyson poderia fazer carne moída dele a qualquer momento, bastava querer - e todos sabem que Mike Tyson não é o mais equilibrado dos mortais.
Bem, os Estados Unidos, sob Baby Bush, também não são a mais equilibrada das potências.
Defendemos nossos cidadãos e demos tapinhas na auto-estima nacional. Ótimo. Agora, é sentar e esperar a cotovelada inevitável. Tomara que doa pouco e seja rápida.
Um blog sobre rebeldia, contemplação e sacanagem, regado a muita literatura e humor. Nosso assunto são as várias prisões que acorrentam o homem, como ambi�‹o, verdade e medo. Dê sua opinião!
160. Omil, Alba. Cuatro Versiones del Mart’n Fierro. [Argentina, 1993] Dez. (TulBib)
159. Estrada, Ezequiel Mart’nez. Muerte y Transfiguraci—n de Mart’n Fierro. [Argentina, 1948] Dez. (TulBib)
158. Alposta, Luis. La Culpa en Mart’n Fierro. [Argentina, 1998] Dez. (TulBib)
157. Lesser, Jeffrey. A Negocia�‹o da Identidade Nacional. (Negotiating National Identity. Immigrants, Minorities, and the Struggle for Ethnicity in Brazil.) [EUA, 1999] (TulBib.) Dez.1
143. Cadena, Marisol de la. Indigenous Mestizos. The Politics of Race and culture in Cuzco, Peru, 1919-1991. [EUA, 2000] Out.
142. Moura, Clovis. As Injusti�as de Clio: O Negro na Historiografia Brasileira. [Brasil, 1990] Out. (TulBib)
141. Gorender, Jacob. A Escravid‹o Reabilitada. [Brasil, 1990] Out. (TulBib)
140. Grandin, Greg. The Blood of Guatemala. A History of Race and Nation. [EUA, 2000] Out.
139. Borges, Jorge Luis. Otras Inquisiones. [Argentina, 1952] Out.
138. Lacombe, AmŽrico Jacobina & outros. Rui Barbosa e a Queima dos Arquivos. [Brasil, 1988] Out. (ILL)
137. Graham, Sandra Lauderdale. Prote�‹o e Obedi�ncia: Criadas e seus Patr›es no Rio de Janeiro, 1860-1910.[EUA, 1992] Out. 12 (TulBib)
136. Martinez-Alier, Verena. Marriage, Class and Colour in Nineteenth-Century Cuba. A Study of Racial Atittudes and Sexual Values in a Slave Society. [Reino Unido, 1974] Out.10 (TulBib)
135. Graham, Richard. (org) The Idea of Race in Latin America, 1870-1940. [EUA, 1990] Out.8 (TulBib)
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