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Saturday, January 31, 2004
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Banners e Botões
Se você gosta do Liberal Libertário Libertino, por favor, considere colocar um de meus banners ou botões em sua página ou blog. Existem vários modelos diferentes, cada um destacando uma frase marcante desse blog.
Agradecimentos à minha grande amiga, a Loba Má, pelo design.
Conheça todos os modelos.
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Confesso Ter Medo
Admiro pouca gente. É um traço de caráter. Nunca tive ídolos, nunca fui fã de nada.
Andando pela Internet, descobri a nova literatura brasileira sendo feita, ao vivo, diante dos meus olhos. Muito lixo, é verdade, como venho desenvolvendo na longa série de artigos sobre a Escola Urbana. Mas também coisas sensacionais, contemporâneos de quem se orgulhar.
Em termos estritamente literários, há três pessoas que eu admiro. Duas são citadas aqui com freqüência, o crítico literário Paulo Polzonoff, autor de O Cabotino, e o romancista Alexandre Soares Silva, autor de A Coisa Não-Deus.
O terceiro, menos citado mas não menos admirado, é o escritor Sérgio Barcellos Ximenes, do Blog do Romance.
Bastou uma resenha do Sérgio, no começo desse mês, para que eu lesse Angústia, do Graciliano Ramos, um autor que adoro e que estava na minha fila há anos. Sua resenha de hoje é de outro romance de outro autor que adoro e que também estou pra ler há anos, Mãe, de Gorki. Adoro Gorki. Sua trilogia autobiográfica é maravilhosa, mas ele devotou sua vida a uma das piores idéias de uma espécie pródiga em péssimas idéias, o comunismo. Nas suas melhores obras, isso transparece pouco. Mãe, entretanto, é tido como dos seus romances mais doutrinários. Estou há anos querendo ler, mas evitando, para não me decepcionar. Agora, essa nova resenha do Sérgio me mostrou que Mãe pode ser melhor do que eu imaginava. Sei não, mas acho que, daqui em diante, a minha lista de leituras vai tender a acompanhar os livros resenhados no Blog do Romance.
Enfim, confesso também ter medo do que esses três podem falar do meu romance e dos meus contos. Tenho medo, mas quero e preciso passar pelo crivo deles. São colegas que entendem do riscado, articuladores com quem dialogar. Digam eles o que quiserem, eu posso até discordar, eles podem até estar errados, mas não poderão ser ignorados.
Alexandre, Paulo e Sérgio, seus putos, sei que vocês lêem esse blog e gostam. Agora, parem de doce e experimentem ler o meu romance. Prometo dividir com os leitores os cascudos que levar de vocês.
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Doutor Plausível
Pablo Zumarán se descobriu hoje lendo o LLL: "Li seu texto sobre tradução, legendagem e dublagem. Ri às bandeiras despregadas. ¡Dou o maiórrapôio! (...) Sua fina ironia e verve lógica me deixaram preso ao monitor - coisa q muito E-scritor não conseguiu."
Foi recíproco, porque ele me enviou os endereços de seus blogs e eu também me descobri. Tirando algumas ressalvas minhas quanto à ortografia - é fato comprovado de usabilidade de texto: quanto mais incomum a ortografia, mais difícil de escanear o texto - o que ele escreve é sensacional.
Confiram duas coisinhas que ele escreveu sobre temas que foram muito conversados por essas bandas.
Primeiro, sobre o deputado Aldo Rabelo e a defesa da língua portuguesa:
"Ele critica o fato de o brasileiro usar palavras como 'chat' em vez de 'bate-bapo', e 'site' em vez de 'sítio', e coisas do gênero. Mas um fato inescapável é q uma cultura, uma pessoa, uma ciência &c é tanto mais desenvolvida, complexa e eficiente qto mais distinções fizer sobre o q observa. Muita gente não vê diferença entre, por exemplo, 'insultar' e 'ofender'; mas existe uma diferença, e enxergar diferenças desse tipo é indício tanto de complexidade como de desenvolvimento. Portanto, ser capaz de expressar claramente a diferença entre uma idéia e outra por meio de duas palavras distintas é ótimo: 'site' é uma coisa e 'sítio' é outra e as duas nunca serão confundidas. No caso de 'site', o falante de inglês não tem esse boi: p/ distinguir entre um 'site' e outro, ele precisa ou do contexto ou de uma palavra a mais, por exemplo 'internet site' e 'building site'. O q o Rebelo não vê é q está exatamente aí o problema do brasileiro: o brasileiro não gosta de ter q analisar o 'contexto' p/ entender uma palavra e é portanto um mau leitor, um leitor sem prazer; ele não gosta de trocadilhos e tem pouco senso de humor; ele não gosta de vestir palavras antigas c/ significados novos e portanto fica confuso facilmente. Por outro lado, não é verdade (como quer o Rebelo) q o português tem palavras suficientes p/ batizar qqer novidade. Sorry. Muita coisa teria q mudar na infame 'norma culta' e na cultura brasileira p/ acompanhar o ritmo das novas tecnologias. Para ser preciso, é preciso ser metafórico: qqer jargão novo terá q usar o q já existe, como alíás é o q faz o inglês.
Leia o texto completo.
E, depois, sobre a pirraça contra os americanos:
"O piloto foi detido por desacatar a PF c/ um gesto obceno, e no dia seguinte ¡a foto do delito me aparece estampada nos jornais de todo o país! HAHAHAHAHAHAHAHA ¡Q estrambotice! Pois sendo este um episódio momentaneamente importante nas relações entre o Brasil e os EUA, ¿será q ninguém se tocou de q a publicação do gesto obceno implica em q ele não é tão ofensivo assim? Se o piloto tivesse abaixado as calças, revelando uma ereção do dito cujo do qual o dedo é apenas símbolo, ¿a foto do evento teria sido publicada assim mesmo? Então!"
Leia o texto completo, no post de 17 de janeiro.
Links Relacionados
Dois Panacas Discutindo
Doutor Plausível
Em Defesa da Língua Portuguesa
Orgulho de Ser Brasileiro
A Pirraça
Friday, January 30, 2004
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A Escola Urbana, Parte XIV, Final:
Destruir a Escola Urbana
Acabou de chegar? Está perdido? Que catzu de Escola Urbana é essa? Dê uma olhada aqui e entenda o que está acontecendo.
Polígono das Secas é o melhor romance de Diogo Mainardi e uma das mais contundentes críticas já feitas à literatura nacional. No natal de 1995, eu comprei cinco cópias para presentear amigos selecionados. Não é algo que eu faça com qualquer livro.
Sua proposta: destruir a literatura regional brasileira e tudo o que ela representa, através de uma paródia daqueles infindavelmente parecidos romances regionalistas que infestaram a nossa literatura entre as décadas de 30 e 70 - até serem desancados pela ainda pior Escola Urbana.
A literatura regional não era intrinsicamente má, assim como a Escola Urbana também não é. Mas 40 anos dos mesmo romances sendo reescritos é um inferno. De quantos caboclos caladões querendo vingar alguma coisa a nossa literatura precisa?
Mais uma vez, o que mata é a redundância.
Infelizmente, não tenho nem o livro aqui para citar os melhores trechos ou dar mais exemplos. Além dos cinco exemplares que dei de presente, emprestei minha cópia tantas vezes que ela sumiu. Quem tiver como conseguir, vale a pena.
Um dos meus projetos literários mais queridos é fazer o Polígono das Secas da Escola Urbana. Escrever uma grande paródia de todos os cacoetes do gênero. Se ficar bom, algum desses editores ignorantes pode até publicar, achando que é sério. E, um projeto desses, é melhor se escrito a várias mãos. Soares, Polzonoff, vocês já estão convidados. Voluntários, apresentem-se.
Finalizando
O otimista Alexandre Soares Silva acha que a Escola Urbana já começa a agonizar. Pessoas começam a reparar nela, reclamações afloram, daqui pro colapso final é um pulo. Sei não. O tédio tem uma inércia poderosa.
 E quem reclama? Poucos gatos pingados. A crítica e os leitores parecem ainda apaixonados pela Escola Urbana. Livros como Manual Prático do Ódio são descritos como " romance original e vertiginoso - onde todos cultivam razões odiosamente humanas para matar, amar, morrer"!
A decisão está em nossas mãos, autores e leitores. Não existe o editor malvado ditando o rumo da literatura. O editor publica o que ele acha que as pessoas querem ler.
Cabe a nós, como leitores conscientes, exigir que os livros que lemos tragam um mínimo de originalidade, imaginação, beleza. Eu até admito que romances como Máquina de Pinball causem uma forte identificação entre as jovens mulheres das grandes cidades, mas identificação não é literatura. Pra isso, temos espelhos.
Cabe a nós, como escritores conscientes, exercemos uma censura interna mínima na hora de lançar nossos textos ao mundo. Nossa voz é só uma, entre muitas, e ninguém está exigindo que participemos da conversa. Melhor ser autor de três obras-primas, cada uma com sete anos de diferença, do que publicar um livro por ano e, ao final da vida, ter uma obra enorme que terá que ser garimpada para se encontrar as poucas pepitas entre os pedregulhos.
Não publique só para ouvir o som da própria voz: publique porque tem algo a dizer.
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Minha Coluna na Tribuna:
Como Manter a Internet Gratuita Leia, hoje, na minha coluna:
Como Manter a Internet Gratuita
Ninguém cobra de perverso. As empresas que oferecem serviços gratuitos na Internet sabem que a decisão de cobrar é muito impopular. Via de regra, só apelam para a cobrança em último caso, para se manter vivas e porque sua forma de receita original não estava cobrindo os custos. Na maioria dos casos, essa forma de receita original é publicidade.
Quando gosto de um serviço gratuito na Internet, faço questão de fazer com que o fornecedor do serviço tenha algum tipo de compensação pelo presente que está me dando. Por exemplo, clico conscientemente em todos os banners e botões que vejo pela frente.
Sei que se o faturamento de publicidade for bom, essas empresas nunca vão querer se arriscar a cobrar de mim pelos serviços que usufruo de graça. Melhor ainda, nunca vão falir e me deixar sem o serviço.
Apesar disso, muitos internautas andam bloqueando os banners de seus blogs.
Realmente, não sei o que leva alguém a fazer isso.
Será que não vêem que é só por causa dos banners que eles usufruem de seus blogs e sites gratuitamente? Que se os banners sumirem, ou pararem de dar retorno, a empresa não vai ter outra alternativa que não falir ou cobrar?
Alguém Tem Uma Idéia Melhor?
Eu confesso que não gosto muito de banners, mas também confesso que não tenho solução melhor.
Essas pessoas que querem usufruir do serviço (ou seja, não querem que ele feche), mas que não querem pagar por ele e nem querem ficar vendo banners no seu blog, bem, acho esses quereres muito justos, mas essas pessoas deveriam sentar e pensar urgentemente em algum novo modelo de arrecadação para as empresas de internet.
Até lá, essas três opções ficam sendo praticamente as únicas: fechar de vez, cobrar assinatura ou divulgar banners.
Cuidando de Mordida de Cobra
Conversei com um internauta que bloqueia os banners em seu blog e ele me disse:
"O tema 'Blogs Gratuitos: Ética x Estética' daria muito pano pra manga. Minha posição é pró-Estética pelos motivos: o banner é feio, sutil como macaco em loja de louça, e já carregamos a marca 'blogspot' marcada com ferro em brasa no próprio nome. É o suficiente pra mim."
Verdade seja dita, ele não só carrega a marca 'blogspot' no endereço do seu blog como também incluiu na página o selinho de divulgação da empresa, Blogger.
Pôxa, e não é suficiente? De três eu fiz dois, ele parece estar dizendo: não basta para satisfazer esses fominhas do Blogger? E, além do mais, os banners são horríveis!
Isso tudo é muito bonito, e quase faz sentido, até que você lembra que o importante é o banner. O banner é a única fonte de renda da empresa. O nome da URL e o botão são legais, ajudam, divulgam etc, mas quem paga as contas é o banner.
E o banner, por motivos estéticos e anti-éticos, o blogueiro vetou.
Imagino esse internauta socorrendo uma vítima de picada de cobra. Ele faz gaze e compressa, dá bastante água, protege a vítima do sol, faz tudo, tudo mesmo, menos aplicar o soro anti-ofídico. E depois, quando o infeliz morre, ele não se conforma e ainda se acha cheio de razão: mas caramba, eu fiz tudo o que dizia aqui no manual de primeiros-socorros, tudo mesmo, só não fiz uma coisinha.
Logo a coisinha que era fundamental.
Ajude Quem Lhe Ajuda
Amanhã pode ser que a Heloísa Helena tome o poder e nos transforme num gigantesco Cubão, mas hoje ainda estão valendo as leis do mercado. Quem ignora isso só vai fazer dar com a cara na parede.
As empresas de internet precisam pagar suas contas: ou arranjam um jeito de ganhar dinheiro ou fecham.
Portanto, se existe algum serviço gratuito que você usa e gosta, descubra qual é a fonte de receita do fornecedor do serviço e ajude-o. Assim mesmo. Só isso. Ajude quem lhe ajuda. Será que você é capaz?
Se ele vende produtos, sugiro que você compre um de vez em quando. Se ele sobrevive de publicidade, sugiro que você clique nos seus banners e/ou gere pageviews. Se ele tem uma parceria com alguma livraria on-line, sugiro que você compre livros através do link em seu site para que ele ganhe uma porcentagem na venda. E por aí vai.
Todas essas iniciativas são muito pequenas, mas podem fazer uma grande diferença.
O melhor jeito de manter a web gratuita é ajudar as empresas que oferecem serviços gratuitos, nunca sabotá-las.
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Os Pés de Uma Leitora Malvada A leitora Luciana se encantou com o meu blog, se identificou com as histórias das malvadas e decidiu me dar um presente. Quem me dera todas minhas leitoras fossem assim. As primeiras duas fotos mostram seus pezinhos perfeitos, de pedicure impecável, pousados contra um móvel. Depois, de tanto que eu pedi fotos de suas solas dos pés, ela mandou mais três, também perfeitas, deliciosas. Estou fascinado pela Luciana. Nossa correspondência foi crescendo aos poucos. Começou por um fascínio pelo escritor misterioso que gosta de malvadas e, hoje, por telefone e MSN, ela já está se abrindo a desejos antes secretos e inconfessáveis.  Luciana não é dominadora, ela é má e má em grande estilo, má como só as grandes vilãs do cinema e da televisão já foram, má com criatividade e humor. Como podem ver pela seqüência de emails abaixo, Luciana foi entrando pé ante pé - um belíssimo pé, aliás - no mundo da maldade: "Se eu gosto da idéia do escritor misterioso? Caramba! Eu tenho, inclusive, sonhado com ele! Mas não me refeiro apenas às práticas com os pés, mas a uma série de outras coisas. Isso pode ser arranjado, é claro. Só não sei se me classifico como uma "menina má". Ou talvez até seja, mas nunca parei pra pensar muito nisso. Aliás, seus textos me fizeram pensar também sobre isso.
Se ser perversa é mais ou menos o que você escreveu num de seus artigos (como, por exemplo, a tal viagem de 6 meses da Claricee), ai, ai, ai... então eu me descobri uma menina má. Não com a perversidade tão aflorada, mas com um sentimento que me traz, lá no fundo, um certo prazer em maltratar, em causar sofrimento, em dar a entender uma coisa só pra que o interlocutor me interprete mal e acabe sofrendo um pouquinho.
Mas, se ser perversa é ser como algumas meninas que têm seus blogs publicados na sua página... bem, aí eu não me identifico. Muitas vezes, é difícil distinguir quem é realmente má, quem sente mesmo prazer na sacanagem, de quem faz cena, de quem interpreta um papel. Não basta ser má só nas músicas que ouve, na maneira como escreve ou se veste; é preciso ser má de espírito, de coração. E isso pouquíssimas mulheres conseguem ser."Pouco depois, Luciana já conseguia admitir pra si mesma que não só era malvada como que sentia o maior tesão em fantasiar maldades: Minha fantasia maior sabe qual é? Encontrar um cara que se doe mesmo, um cara que desse tudo de si, fosse devotado, apaixonado. E eu? Ah, eu queria mesmo era curtir, me sentir poderosa, rainha, dona da situação. Algo bem 'desproporcional' mesmo, entende como? Ele ali, me satisfazendo, e eu lá em cima, ficando plenamente satisfeita, mas só. Nada de retribuição nenhuma não, imagina! Ele está ali por obrigação mesmo, porque eu sou gostosa demais pra ele conseguir ficar longe, entende? Nada de compromisso, nada de coisas sérias, nada de exclusividade: o que eu queria mesmo era um escravinho que me desse prazer da maneira como EU gosto de receber. Beijar, lamber, sugar, molhar meu corpo inteirinho, até que eu gozasse. Se a língua amorteceria? Se a posição o cansaria? Se a boca ficasse seca demais? Se ele quisesse me tocar de outras maneiras? Que se foda!!! O meu desejo é esse, e ele não vai conseguir estragá-lo, vai fazer tudo do jeito que eu mandar!!" O passo seguinte era inevitável. Luciana passou a fantasiar sobre levar suas maldades ao extremo, sobre as vítimas dos seus caprichos cruéis. Acho que nem preciso ressaltar que tudo o que é dito abaixo é meramente fantasia. Sim, Luciana tem enorme tesão em fantasiar que é uma vilã assassina e sexy, e suas fantasias ficam cada vez mais cruéis e elaboradas, mas são somente isso, fantasias. Não acredito que ela vá matar alguém na próxima esquina: "Eu percebi que tem um ponto em especial, em toda essa história, que me excita muito. Gosto quando a minha vítima reúne as forças que ainda tem pra tentar se salvar, mas não consegue. Me excita quando eu estou maltratando e, mesmo estando nas últimas, mesmo estando já muito humilhada, minha vítima ainda tenta se salvar. Parece que a glória é ainda maior. Porque eu acabo com uma vida que tentou muito sobreviver, até o último momento, entende? Acho que eu gosto quando ele tenta fugir, quando pensa que a minha sensualidade não é assim tão arrasadora pra ele. Então ele tenta fugir e só no final, resignado, é que se dá conta de que ele não pode mais comigo. Viu só? Ele lutou muito pra ficar vivo, mas não conseguiu. Não dependia dele. Ele tava na mão dela." E eu também estou na sua mão, apesar de ser um lugar tão perigoso para estar. E também estou aos seus pés, beijando as solas cruéis que vão me pisar. E também estarei onde mais você quiser que eu esteja. Perversidade como a sua, eu nunca vi. E quanto mais cínica e malvada você for, mais eu vou te amar. As fotos e trechos de emails foram publicados com autorização expressa da Luciana. Leitoras que gostam desse blog, retribuam: me mandem, também, fotinhas dos seus pés. Nada será feito sem sua autorização.Links Relacionados
Elogio às Malvadas Mais Malvadas
Thursday, January 29, 2004
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Mais Glauco Cruz
Não é de hoje que digo que o Cruz é meu ilustrador predileto. Não sei como a Cora deixa ele publicar esses desenhos no Caderno de Informática!
Reparem, na primeira foto, a deliciosa tornozeleira de estrelinhas, o bico do peito, a calcinha aparecendo e a sandalinha baixa. Na segunda, além dos pezinhos lá embaixo e do all-star do lado, o que mais me chama a atenção é a pose sexy da mão em primeiro plano. Por fim, minha favorita, a terceira, mostra costas lindas, uma bunda perfeita e, o que eu mais gosto, solinha do pé.
Não deixem de conferir também esse clube no Yahoo especialmente devotado às suas maravilhosas mulheres.
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Sou Janela, Não Pedra
 Quando eu tinha onze anos e estava na quinta série, eu era o moleque mais insuportável do colégio. Além de muito inteligente, tinha a língua rápida e achava que podia fazer qualquer coisa. Aliás, eu e um colega, igual a mim em todos os quesitos, fazíamos de tudo mesmo.
No fim do ano, a direção decidiu nos expulsar. Éramos moleques de imenso potencial, apesar de incontroláveis, e os professores ainda não queriam desistir de nós: pediram que fôssemos poupados. Infelizmente, pelo menos um teria de ser exemplarmente justiçado, senão a escola viria abaixo.
Nunca entendi bem quais foram os critérios, e só vim a saber disso muitos anos depois, mas o escolhido pra ficar fui eu. Meu amigo acabou expulso, o escândalo foi tanto que parecia o fim do mundo, parecia que aquela expulsão, aos onze anos, determinaria todo o curso da sua vida, destruiria suas possibilidades de sucesso, felicidade e adequação ao modus vivendi, e que ele já estava pré-condenado à sarjeta, vocês sabem como são essas coisas, ainda mais em colégio católico, e meu amigo passou mesmo por uma fase bem revoltada, quem não passou?, e hoje, aos 30 anos, é designer, mora em Milão e sua segunda filha nasceu no dia do meu casamento. Ou seja, a vida é muito maior do que essas besteirinhas.
Mas o valor metafórico da história é grande. Eu nunca vou esquecer que, por critérios insondáveis, uma pessoa igual a mim foi severamente punida por fazer as mesmas coisas que eu fazia. E eu não. Eu ganhei uma segunda chance. Aprendi a lição. Na sexta série, eu já voltei bem comportado. Continuava espaçoso, falante e apaixonado pelos holofotes, como até hoje, mas sem barbarizar.
Pensei nisso porque, finalmente, li O Cabotino, o livro do Polzonoff. Impressionante como pensamos as mesmas coisas e temos opiniões muito parecidas. Ainda bem que escrevi sobre a Escola Urbana antes de ler o livro, senão não teria escrito nunca.
Infelizmente, a recompensa dessa sina de honestidade do Polzonoff foi ser odiado, desprezado, vilipendiado.
É isso que quero pra mim? Lá vai outra pessoa fazendo o mesmo que eu faço e levando na cabeça.
Eu, que sempre disse o que bem entendia, talvez esteja na hora de medir as palavras.
Vejam bem: não por medo de ser odiado, desprezado, vilipendiado, mas por medo de ser odiado, desprezado e vilipendiado por nada, por motivo fútil.
É uma questão de escolher as batalhas.
O Polzonoff é um crítico, essa é sua vocação e sua sina. Ele tem o instrumental teórico para criticar e a inteligência pra defender. Eu, coitado, não tenho nada disso, só opiniões fortes que ficam por isso mesmo, que não preciso emitir e nem tenho como defender.
Sou escritor, essa é minha vocação e minha sina. E ainda espero levar muito na cabeça também, ser odiado e desprezado e vilipendiado, mas pelos meus romances, pelas minhas prisões, pelas minhas idéias radicais, pelas coisas que valem a pena pra mim. E tomara que eu leve na cabeça: se não levar, é porque ninguém está lendo, então, de que adianta?
O longo artigo sobre a Escola Urbana foi a última vez em que falei mal de alguns de meus colegas. Pretendo ainda escrever muito sobre literatura, mas teoria, exposição do meu projeto literário, recomendações de livros.
Criticar? Chega. Livros ruins, melhor ignorá-los.
Na vida, podemos fugir de tudo, da profissão, do nosso país, de nossa língua, só não podemos fugir dos nossos contemporâneos, que sempre serão nossos contemporâneos. Daqui a dez mil anos, Shakespeare continuará contemporâneo de Cervantes e eu sempre serei contemporâneo do Mirisola.
A vida é longa, o mercado é pequeno. Cala-te boca.
Se me pegarem de novo falando mal dos meus contemporâneos, podem puxar minha orelha.
Vou produzir, outros que critiquem. E quando quiserem saber minha opinião sobre algo literário, vou dizer: leiam o Polzonoff. Se minha opinião não for aquela, será bem próxima.
E deixa o bravo do Polzonoff lutar essas batalhas por mim. Ele está mais capacitado do que eu para defender minhas opiniões.
Das outras batalhas, cuido eu.
Wednesday, January 28, 2004
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A Escola Urbana, Parte XIII:
Nada, Por Si Só, Resolve Nada
Acabou de chegar? Está perdido? Que catzu de Escola Urbana é essa? Dê uma olhada aqui e entenda o que está acontecendo.
Daniel Galera também concorda, via de regra, com minhas críticas à Escola Urbana, mas ressalta que elas se aplicam a todo tipo de romance: “a redundância, a ausência de transmissão de idéias, a publicação apressada de textos que poderiam ser engavetados por um tempo, a falta de imaginação, etc.” Parece que eu acho que se o próximo livro dele fosse sobre uma “idosa aristocrata que acorda um belo dia numa planície da Sibéria e passa a interagir com uma misteriosa seita local”, ele seria necessariamente melhor, mas “mesmo a mais fantástica e fantasiosa das literaturas pode sofrer dos mesmos males.” A relevância literária não se manifesta somente através do inusitado, diz ele, o buraco é mais embaixo.
Como muita gente deve ter achado a mesma coisa, cabe a explicação. Não acho que uma narrativa imaginativa é intrinsecamente melhor do que uma narrativa autoibiográfica. Não acho nenhum estilo ou método intrinsecamente melhor que outro. A literatura tem muito poucas regras.
O resgate da imaginação seria interessante mas, por si só, não resolve nada. Um livro do Galera sobre uma velhinha na Sibéria não seria necessariamente melhor do que um livro sobre um gaúcho de vinte e tantos anos.
Nada, por si só, resolve nada.
Deixa eu me usar como exemplo: meu romance, todo passado no meu bairro, é sobre jovens, entre 18 e 28 anos, casando, começando na vida e tendo filhos. Nada poderia ser mais próximo da minha realidade. Não há realismo mágico, impossibilidades científicas, elfos e hobbits, deuses barbudos. Narrei o livro como uma mulher pra fugir um pouco de mim mesmo, mas aquela é a minha realidade que está lá, minha e de inúmeros jovens das grandes cidades que estão começando na vida.
Mas, definitivamente, não é Escola Urbana. As pessoas não vivem vidas vazias e sem sentido, não vagam apáticas pela existência, não freqüentam bares imundos com putas feias e bebem Porco Preto. Pelo contrário, são jovens normais de vinte e poucos, eletrizados pela vida, correndo atrás, procurando emprego, tendo ciúmes e confundindo amizade com amor.
Existe uma enorme e intermediária área cinza entre, digamos, o narrador Escola Urbana de Até o Dia em que o Cão Morreu e o romance absolutamente imaginativo do Soares Silva, A Coisa Não-Deus, sobre um céu de anjos ateus. Eu, como nunca vou escrever no estilo Escola Urbana nem me acho capaz dos vôos de imaginação do xará, vou ter que ir me virando nesse meio campo.
Nada impede um romance de ser próximo, tanto da vida do autor quanto dos leitores, e ser absolutamente original. O que mata é seguir a estética viciada e redundante da Escola Urbana.
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Escola Urbana O que é essa Escola Urbana sobre a qual eu tanto falo?
Estudo de Caso: Até o Dia em que o Cão Morreu Minha resenha do romance do Galera
Livros do Mal Site da Editora
Até o Dia em que o Cão Morreu Site do Livro
Daniel Galera Site do Autor
Para ler enquanto se espreme espinha A Resenha do Polzonoff
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Eu Amo a Mitcha
Eu amo a Mitcha, do Meu Blog, Porra!
Aí, alguns leitores chegam pra mim em privado e perguntam como posso adorar a Mitcha. Ela é reacionária, preconceituosa e má, dizem eles.
E, além de tudo, linda, eu acrescento. Como eu poderia não me apaixonar? Quando digo que me apaixono sempre pelas mulheres malvadas, estou falando a verdade.
 Outro dia, ela fez um post "Eu Sou Má?"
Cai muito engano no telefone da empresa da Mitcha. Ela nem titubeia: ligam procurando a Fulana e ela diz: Fulana morreu! Em uma dessas vezes, deu a maior confusão, pessoas choraram, sofreram, se desbandaram até o cemitério, e a Mitcha lá, se divertindo.
No fim do post, ela pergunta: "Será que sou má? ahahahahahahahahaha"
Ora, Mitcha, não seja modesta, claro que é. E eu te amo assim mesmo. Não consigo evitar de ficar fascinado com a idéia de uma gatinha como a Mitcha se divertindo de inflingir tamanha dor emocional a uma família.
 Reparem nessa nova foto. Vejam essa cara de má, esse desprezo perverso pelo outro. Observem essas mãos lindas, esses dedos em riste que parece que não acabam mais. Olhem esse biquinho zombeteiro, prestes a soltar toda sorte de insultos. Seria preciso todo o meu auto-controle para ver essa foto e não gamar.
Vocês não podem imaginar essa mulher sentada em um trono mandando o caçador trazer o coração da Branca de Neve? Ou tentando dominar o mundo, mas antes parando para explicar ao Batman o funcionamento da armadilha infalível onde acabara de prendê-lo? Ou simplesmente fazendo um escritorzinho de blog lamber seus pés para mostrar quem manda?
Amo a Mitcha por ela ser má, por ela saber que é má e por ela se divertir muito sendo má.
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Elogio às Malvadas
Mais Malvadas
Tuesday, January 27, 2004
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A Escrita dos Desesperados
O leitor Affonso diz:
"Não se pode ver o tipo de crítica do Alexandre como um ataque pessoal. Só me resta entender que, para quem escreve porque quer desesperadamente falar, é muito duro ouvir que talvez seja melhor calar."
Affonso, quem escreve porque quer desesperadamente se comunicar não deveria ter escolhido a literatura como meio. Literatura é arte, literatura é técnica, literatura não é para desesperados, literatura não é pra gente que escreve com os colhões, por exemplo.
Quem está desesperado pra se expressar que crie um blog, suba num caixote, faça um diário, escreva artigos para as colunas de opinião dos jornais, tudo menos cagar mais um romance Escola Urbana.
Então, quem também vai ficar desesperado são os leitores.
Acabou de chegar? Está perdido? Que catzu de Escola Urbana é essa? Dê uma olhada aqui e entenda o que está acontecendo.
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A Escola Urbana, Parte XII:
Daniel Galera e as Intenções do Autor
Acabou de chegar? Está perdido? Que catzu de Escola Urbana é essa? Dê uma olhada aqui e entenda o que está acontecendo.
 Não se enganem: eu gosto muito de Daniel Galera , seu primeiro livro de contos foi ótimo e considero Até o Dia em que o Cão Morreu somente uma derrapada precoce em uma carreira longa. Usei seu romance como estudo de caso por saber de tudo isso. Criticar um autor realmente ruim seria covardia.
Galera me mandou um email longo e ponderado, que ele não permitiu que eu postasse aqui, pois já está cansado de polêmicas literárias, mas me deixou citar trechos.
Pra começar, ele vestiu algumas carapuças que não eram pra ele. Besteira. Tudo o que eu tinha a dizer sobre os autores citados, eu disse citando-os. As carapuças e comentários vagos devem ser encaixados nas cabeças dos autores tão ruins que nem citados foram.
Na mensagem, o Galera me explica várias de suas motivações para isso ou aquilo do livro, numa deliciosa conversa de escritor que, realmente, não deve nunca vazar aos leitores. Não se trata nem de artesãos guardando os segredos de sua prática e muito menos de donos de fábrica de salsicha escondendo as porcarias que enfiam nos embutidos.
A intenção declarada de um artista, além de irrelevante, é nociva à obra: os leitores ficam presos à interpretação do autor, como se ela fosse a resposta certa, e deixam de construir seus próprios livros.
Nesse caso, entretanto, acho que a revelação mais importante do email do Galera foi que “um dos meus objetivos era exatamente denunciar a apatia e a patologia contemplativa que tomam conta da vida de muita gente hoje em dia. (...) Minha última intenção era apresentar esse narrador como um cara legal, descolado, um modelo de vida para jovens revoltados com a condição humana. No máximo, podemos ter compaixão por ele, pois ele é uma vítima.”
Como eu tenho fé no Galera, eu considerei seriamente a hipótese de que seu livro fosse diagnóstico e não sintoma, ou seja, denúncia e não celebração dos temas da Escola Urbana.
Mas à medida que eu lia esse e outros livros da Escola Urbana, e fiz muita força pra gostar de alguns, acabei concluindo que não faz diferença. A Escola Urbanaa infectou nossa literatura de tal jeito que é impossível distinguir.
Eu, que dei o voto de confiança ao Galera, eu, que leio com cuidado, eu, que li procurando por sintomas da Escola Urbana, eu, que tentei buscar por indícios de que o livro era diagnóstico e não sintoma, eu não consegui encontrar. Editores, leitores, críticos também não encontrarão.
Acredito no Galera, mas basta ver como os leitores comentam seu livro para perceber que o que foi escrito como crítica está sendo lido como celebração.
Trabalhei em lanchonete por seis meses e, nos dois anos seguintes, fui vegetariano radical, não comia bicho morto nenhum e, mesmo assim, simplesmente não conseguia tirar aquela inhaca de óleo de hambúrguer do meu cabelo.
A Escola Urbana funciona do mesmo jeito: a gente não pode chegar nem perto, nem um pouquinho, nem pra criticar, que ela já contagia, o cheiro gruda no cabelo e não sai mais.
(amanhã... mais da conversa com o Galera...)
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Escola Urbana O que é essa Escola Urbana sobre a qual eu tanto falo?
Estudo de Caso: Até o Dia em que o Cão Morreu Minha resenha do romance do Galera
Livros do Mal Site da Editora
Até o Dia em que o Cão Morreu Site do Livro
Daniel Galera Site do Autor
Para ler enquanto se espreme espinha A Resenha do Polzonoff
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Placas
Cancela do estacionamento do Shopping Downtown, na Barra, do outro lado da rua do Feirão de Blindados. Foto tirada pela Lobá Má, mas só porque eu não estava com a minha máquina na hora.
Monday, January 26, 2004
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A Imoralidade Brasileira
Tenho um amigo mórmon. Ele é brasileiro, estudou comigo na Escola Americana, foi pra Utah fazer universidade, casou com uma gringa e ficou por lá. Outro dia, encontrei os dois no centro. Estavam ambos a passeio no Brasil, ela tinha vindo conhecer a terra do marido.
Perguntei a ele o que ela estava achando e ele me veio com essa:
É, ela gostou, mas encurtamos um pouco a viagem, estamos voltando mais cedo, ela não suportou tanta... E ele olhou em volta... imoralidade, sabe como é? Ela é muito religiosa...
Eu fiquei feliz de ver como ela compreendia bem a realidade brasileira e concordei, empolgado:
Sua esposa está coberta de razão! O que fode o Brasil é essa imoralidade. Ter que ver criança esmolando pela rua, carro bloqueando cruzamento, guarda recebendo propina, congresso seis meses por ano de recesso, é realmente insuportável. A única coisa que salva, pelo menos aqui no Rio, é ver a mulherada de fio dental na praia, os decotes, os rebolados, esse clima de sexo no ar!
E o meu amigo corrigiu:
Não, Alexandre, você não entendeu. Somos religiosos. Esse negócio de injustiça, desigualdade, pobreza, isso não nos incomoda. Deus quis assim, no outro mundo, tudo será corrigido. O que nos incomoda mesmo são essas bundas todas de fora que não estão machucando ninguém.
Ah, então tá.
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A Morte de Meu Cachorro: Um Conto
O conto A Morte do Meu Cachorro faz parte do meu livro de contos Onde Perdemos Tudo.
Sem dúvida, uma das minhas melhores peças, tão boa ou melhor que meu romance Mulher de Um Homem Só. Uma caminhada pelas ruas de Buenos Aires revela questões sobre amizade homem e mulher, as armadilhas da memória e as dores do começo da idade adulta.
Em novembro de 2002, A Morte do Meu Cachorro ganhou o 3º lugar no IX Concurso de Conto, Crônicas e Poesia, de Santana de Parnaíba.
Abaixo, um trecho.
"Só a teimosia ainda me impele: presumir que eu seria capaz de escrever sobre Fiona foi uma temeridade, um desvario de velho carente. Não ando mais pelo Largo da Carioca; da próxima vez, faço um desvio pela Sete de Setembro.
Fiquei sem graça sim, é verdade - talvez a única verdade dita até agora. Houve um quinto sorriso, tão completo e tão sincero quanto o anterior. Sorriso também de corpo inteiro e todo meu. A história então, sob escrutínio, se esfacela:
Fiona me dá um aperto de mão mais caloroso, me fita com seus olhos incandescentes e sorri, fogosa:
- É muito bom mesmo você estar aqui comigo! - Estoura ela.
O sorriso, entretanto, não morre. Não, meus amigos, o sorriso continua lá. Gostaria de poder afirmar que ele permanecia congelado em seu rosto, mas naquele momento não havia nada congelado em Fiona: ela estava em ebulição, faiscando. Sejamos sinceros: seu corpo inteiro sorria pra mim.
Quem não suportou o calor fui eu: fracassei em gerir tamanho sorriso e cedi ante a pressão do seu carinho. Fiona me derrubou com uma erupção de amor.
Percebo agora o quão piedosa era a minha falecida "versão conveniente dos fatos": eu não sabia o que fazer, não sabia em que buraco me enfiar. De que maneira poderia me defender daquela salva maciça de paixão sendo arremetida contra mim? O tal sorriso de corpo inteiro - há pouco desejado - era um fardo incômodo do qual eu precisava me livrar. Sem meios de corresponder aos sentimentos que Fiona disparava, eu ia fraquejando sob sua força.
Desse modo, e muito à revelia, preencho a lacuna do café-da-manhã: eu peguei o Clarín, eu comecei a ler, eu puxei o primeiro cigarro. Pobre Fiona, inocente ao menos dessas acusações, só fez tirar o jornal de seu colo e depositá-lo sobre a mesa. Vagarosamente, com mãos de relojoeiro.
O Clarín seria minha salvação, decidi, aliviado, e peguei um caderno qualquer do jornal. E enquanto eu abria as folhas, bloqueando minha visão de Fiona, tive um último relance de seu rosto. Ela sorria. Ainda.
Inexpugnável em meu refúgio de papel, não sei por mais quanto tempo Fiona sorriu. Eventualmente, deve ter desistido: afirmou um suspiro, acendeu um cigarro e escolheu uma parte do jornal pra ler. As facturas e os cortaditos, quando vieram, foram consumidos em silêncio."
Para ler o resto, você pode fazer o download de Onde Perdemos Tudo para ler na tela do computador ou para imprimir.
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Over 2,500 Served
 2.500 downloads já foram realizados dos meus dois livros, Mulher de Um Homem Só e Onde Perdemos Tudo.
Nem todos esses dois mil e quinhentos devem ter lido, nem todos os que leram devem ter gostado, e muito poucos tiveram o carinho de me escrever pra contar.
As críticas eu leio e absorvo. Os elogios eu publico aqui no blog. Fico emocionado, realmente emocionado, de saber que consigo tocar as pessoas desse jeito. E gosto de saber das histórias, como foi, o impacto que causei.
Além de que, claro, há sempre a esperança dos depoimentos empolgados estimularem mais pessoas a lerem os livros.
Eis então o que me escreveu o leitor Raphael.
Sobre o blog:
"Tenho que reconhecer que assumo uma posição passiva demais em relação ao LLL - é minha página inicial, e desde outubro (quando o conheci) acompanho diariamente seus posts e vou seguindo os links; de uma série de artigos pulo pra outra, através de suas recomendações conheci muita coisa legal (violeta, konstantin, soares silva), enfim, você transportou o prazer da leitura para o internet, abriu este campo para mim. Ao que lhe sou grato.
Preciso dizer que o título foi o primeiro atrativo, libertário e libertino hmmm, gosto disso, é uma construção que busco para mim em vivências e conhecimento. A despeito deste primeiro chamariz, fui sendo seduzido por seu estilo de escrita (o pensamento todo lógico, disposto em "assuntos") e sua inteligência, desafiado por suas posições, me identificando em seus textos (qqr dia desses te mando umas linhas que a prisão aceitação me inspirou) e sobretudo aprendendo com você."
Sobre o romance Mulher de Um Homem Só:
"Li seu livro em uma tarde, indo para o Fórum de Duque de Caxias, e gostei muito. Para ser sincero, não saquei porque ele terminou; fiquei surpreso obviamente de acabar a estória no clímax, mas meu problema maior foi em não me conformar com o fim. Eu queria mais. Não vou dizer que você não me convenceu como mulher pq não tenho essa sacação da sutilezas das personagens e papéis da narrativa parará parará, mas vc me convence de qqr coisa. Vc escreve bem demais e sabe disso. E isso é o bom, pq vc saber disso conta pra melhorar o que vc escreve. A Mulher de um Homem Só é uma experiência intensa. Em seu ritmo, nas relações afetivas, na comunicação entre as personagens. O que mais me chamou a atenção, de início, foi o samba cronológico que vc fez. É legal que já é um cartão de visitas, melhor, um convite ao universo da Carla. Ela sentou do meu lado e foi desabafando, ia lembrando as coisas aos poucos, de vez em quando prestava mais atenção em como contava a história e nem aí....me esperou tomar o ônibus, almoçou comigo, deu uma escapadinha pra fumar um cigarrinho, e me deixou, em plena 2ª Vara de Família de Caxias. Tudo bem, foi ótimo enquanto durou."
Sobre o livro de contos Onde Perdemos Tudo:
"E hoje, li "onde perdemos tudo". Acabo de terminar. Ainda não sei exatamente o que acho, só fiquei com a impressão de que é ainda melhor que o romance de Carla, Júlia e Murilo. Pra ser bem superficial, falando sobre sensações apenas, achei o primeiro conto [A Morte do Meu Cachorro] pesadíssimo, uma bad trip que mexeu comigo, provocou minha sensibilidade. Não sei bem pq, acho que a confusão entre memórias voluntária e involuntária e seu efeito na narrativa, o quanto a ordem dos fatos confunde o protagonista é quase uma questão de tempo bergsoniano (e dá-lhe Proust!). Enfim, pegou pra mim.
Sobre o cara tirando meleca [Grandezas de Candura], quando terminei o livro, recapitulando, tive que parar, reler, pensar....passou o estranhamento. Realmente, a gente pode se dar ao luxo de valorizar pequenos prazeres ditos vulgares, insignificantes, mas sublimes dentro de um contexto; afinal, valorizar "a melhor trepada" entre amigos é infinitamente mais vulgar e indiferente do ponto de vista da sensação individual, do prazer e do êxtase. Sei lá, me veio na cabeça...Quanto aos três últimos, não quero nem comentar muito, ainda estou sob efeito. Olha que não é qqr coisa que me faz matar minha capoeira. Gostei do ritmo, da sensibilidade (como eu evoco isso), das minúcias, da criatividade, da observação. Dignos de lágrimas. Lágrimas de beleza. Obrigado por esses momentos."
Raphael, confia em mim quanto te digo isso: eu é que agradeço.
Sunday, January 25, 2004
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Minha Coluna na Tribuna:
Não Compre Tartaruga por Lebre Por algum insondável problema técnico, minha última coluna, publicada nessa sexta-feira, 23 de janeiro, não apareceu na versão on-line do jornal. Aqui vai ela, na íntegra.
Afinal, a que velocidade você realmente navega? Seu provedor pode estar lhe cobrando por um acesso de 256k ou 512k, mas será isso o que você está de fato obtendo?
Não há como ter certeza, mas podemos chegar perto.
Uma solução são os sites que testam a velocidade de sua conexão. O teste é relativamente simples: eles fazem o download de um programa pequeno para o seu computador (em geral, 300k) e medem quanto tempo a transferência leva para se concluir.
Utilizei alguns desses sites para medir a velocidade da minha conexão. Segundo o Velox, ela deveria ser de 256k, mas obtive:
http://super.sisgel.com/medidor.asp - 286k (Indicação não confiável, velocidade maior que a contratada)
http://www.maclink.com.br/teste.html - 205k
http://www.ip2.com.br/home/content/ip2/bandalarga - 183k
A situação fica ainda pior quando levamos em consideração que o teste foi realizado em uma madrugada, de domingo pra segunda.
Quando o Velox me vende um plano de conexão a 256k, essa é a velocidade nomimal de conexão. Quer dizer, pago R$83 por mês à Telemar, que investiu meu rico dinheirinho em tecnologia de ponta para garantir que minha conexão atinja e, de preferência, mantenha, essa velocidade de 256k, mesmo nos horários de pico.
Em horários mais tranqüilos, como na madrugada de domingo pra segunda, com menos gente utilizando banda, a velocidade poderia ser até maior, pois a demanda é baixa.
Mesmo assim, você poderia pensar, não fiquei muito longe da velocidade contratada, certo?
Errado.
Testes como esses são bons guias para se ter uma idéia da qualidade de sua conexão, mas eles medem somente a velocidade de download.
Naqueles dias em que você precisa baixar um programa de 14MB, ou aquele filme gigantesco que um amigo quer lhe passar, a velocidade de download é fundamental. Mas, convenhamos, você não fica o tempo todo na web baixando arquivos: você fica navegando.
Qual é então a sua velocidade de navegação?
Aí é que a coisa fica ainda pior.
O Numion realiza uma navegação simulada por 40 sites (do Brasil ou do mundo) para tentar determinar a que velocidade você, de fato, navega. Os resultados são deprimentes.
Na mesma madrugada ociosa, quando o aproveitamento deveria ser o melhor possível, minha velocidade real de navegação não passou de 80k.
Hora de juntar os aldeões, acender as tochas e subir a colina para queimar o Velox, o Virtua, o Speedy e quem mais vender falsa banda larga?
Ainda não.
Infelizmente, como falei no começo, essas coisas são difíceis de medir.
Vários fatores influenciam sua velocidade de download e de navegação, desde os mais alheios (engarrafamento da rede, localização do site ou quantidade de usuários conectados) até os mais pessoais (quantidade de janelas abertas no momento da medição ou capacidade de processamento da sua máquina).
Conversei com Horácio Belfort, presidente da ABUSAR (Associação Brasileira dos Usuários de Acesso Rápido), cujo objetivo é melhorar a qualidade dos serviços de acesso à Internet por banda larga.
A velocidade de conexão oferecida pelas operadoras de telecomunicações sempre foi bastante inferior ao que prometiam em suas propagandas e contratos. O consumidor, como de costume, ficava sem pai nem mãe: a irregularidade era difícil de comprovar e, mesmo feita a reclamação, provedores e operadores de telefonia jogavam a culpa um no outro até que o usuário desistisse.
Aos poucos, a ABUSAR vêm conseguindo obter provas técnicas de irregularidades no setor, bem como de acertos ilegais (leia-se cartelização) entre provedores e operadoras de telecomunicações para extorquir o consumidor.
Segundo Belfort, a falta de normatização impede um cálculo preciso da velocidade de conexão dos usuários. Além disso, os medidores dos provedores tendem a indicar maior velocidade para os seus usuários, e menores para os dos concorrentes. Uma boa recomendação é checar a página de medidores da ABUSAR, onde estão listados alguns dos melhores sites e softwares que realizam esse cálculo.
Então, o que fazer?
O conselho de Belfort é simples: teste a sua velocidade de download tanto nas horas tranqüilas quanto nas horas de pico. Anote as velocidades encontradas. Se os números forem consistentemente menores do que sua velocidade de conexão contratada, reclame com sua operadora e anote o número da ocorrência.
Faça questão de ressaltar que vai reclamar com a Anatel em seguida. As operadoras têm pânico da Anatel. Em muitas delas, basta o cliente mencionar o nome da Anatel para ser direcionado para um setor diferente, onde receberá maior prioridade no atendimento.
Espere um pouco para ver se o problema se resolve. Se não, pegue todas as evidências que coletou (horários, velocidades, números de ocorrência) e leve tudo para a Anatel.
Em caso de dúvidas, entre em contato também com a ABUSAR.
As grandes empresas de telecomunicação só falam a linguagem do dinheiro. Quanto antes nos tornarmos fluente nessa língua, melhor.
Links Úteis:
ABUSAR
Numion
Anatel
Medidores de Conexão
Saturday, January 24, 2004
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Qual É a Música?
 Acontece com todo mundo. Você está ouvindo rádio, toca uma música maravilhosa e você simplesmente não sabe o nome. O que fazer? O locutor, como sempre, não ajuda. Ele fala de todos os produtos idiotas dos patrocinadores, mas o título da música, que é bom, nada. Passa o tempo. Bate o desespero. Mais uma música maravilhosa perdida.
Não precisa ser assim.
Decore um trecho significativo da música, no mínimo, umas quatro palavras, coloque-as entre aspas e busque no Google. Pronto.
Outro dia, ouvi uma excelente música brasileira. Não sabia o nome, nem quem cantava. Decorei uma expressão que aparece na letra, "catedrais de alvenaria", e busquei no Google. Pimba. Os Presentes, de Eliana Printes.
Algumas dicas: busque por uma seqüência de palavras minimamente original. "Catedrais de alvenaria", por exemplo, não é uma expressão comum. Uma busca por "eu te amo" ou "não me deixe" iria retornar resultados demais.
Caso isso aconteça, refine a busca acrescentando mais uma palavra-chave. Se for uma busca em português, a palavra é "cifra" ("letra" também traz resultados demais). Se a música for em inglês, a palavra é "lyrics" ("letra de música").
As buscas, então, ficariam assim:
"catedrais de alvenaria" cifra
"picks up the rice" lyrics
Podem testar. Comecem tentando descobrir qual é a segunda música.
Uma versão editada desse texto foi publicada na minha coluna Internet, na Tribuna da Imprensa, no dia 9 de janeiro de 2004
Friday, January 23, 2004
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Um Big Mac e Uma Coca Light
 Algumas situações irritam, ainda mais porque se repetem todos os dias.
Estava eu na fila da lanchonete e a moça à minha frente, gordinha, pede um Big Mac e uma Coca Light média. Atrás de mim, dois galalaus zoam: "Vê se pode, Big Mac e Coca Light, que ridículo, até parece que se importa com o próprio peso!"
Se vocês forem como quase todo mundo que eu conheço, vão achar que o irritante é a moça gorda consumir um Big Mac com Coca Light. Se vocês forem como eu, vão achar que o irritante é um comentário tão babaca sobre uma atitude tão perfeitamente racional.
Usemos o exemplo acima.
De acordo com os sites das respectivas empresas, um Big Mac tem 490 calorias e uma Coca-Cola média, 200. Uma Coca Light do mesmo tamanho tem pouco mais de uma caloria.
O consumo médio de calorias recomendado para um adulto é de 2000 a 2500. Para quem quer emagrecer, recomenda-se um consumo médio de aproximadamente 1200 a 2000 calorias, dependendo do seu tamanho. Eu, por exemplo, que malho quatro vezes por semana, tenho 1,79m e 95 kg, tento consumir cerca de 1500 calorias por dia. Digamos que a moça gorda esteja seguindo, ou deveria seguir, a mesma dieta.
A refeição que ela escolheu tem cerca de 500 calorias, ou seja, um terço do seu total diário ideal. Ela ainda pode fazer duas refeições iguais a essa e ficar bem.
Por outro lado, as duas mulas atrás de mim e, aparentemente, a torcida do Flamengo, acham que já que ela caiu em tentação e pediu o Big Mac, ela devia escancarar logo de vez e pedir uma Coca normal.
Mas a diferença é gigantesca.
Pra começar, a tal refeição da torcida do Flamengo é 40% mais calórica. Ao invés de um terço, ela passa a representar praticamente a metade da ingestão calórica diária ideal.
Pior, enquanto um Big Mac não é lá flor que se cheire (eu odeio!), as 490 calorias de um Big Mac trazem junto uma série de nutrientes importantíssimos presentes na carne, verduras, queijo, pão, etc. As 200 calorias da Coca Cola não trazem, literalmente, nada de bom. A não a cafeína, que só é boa se você estiver tentando ficar mais ligado, o resto é açúcar e químicos: só servem pra te fazer arrotar.
Por fim, as calorias também não são todas iguais.
Hoje em dia, mais do que nunca, o peixe morre pela boca. Estatística e espelhisticamente (basta eu me olhar no espelho para saber disso), minhas chances são altas de morrer de um ataque do coração por causa do meu excesso de peso. Cada caloria adicional que eu como é um grãozinho de terra a mais sobre meu caixão. Elas todas têm que valer a pena. Como disse o paciente ao médico que lhe pediu pra cortar o charuto: "Mas um bom charuto É a vida!"
Cabe a cada um de nós decidir pelo que vale a pena morrer.
Quem sabe, pra menina gorda e para tantos outros que fazem esse tipo de opção, uma Coca-Cola não é algo pelo qual valha a pena morrer. Um suculento Big Mac sim.
É uma decisão tão racional quanto qualquer outra.
Eu fico só imaginando algum desses indignados no super-mercado. Está com o carrinho cheio, já gastou R$490. Aí, alguém sugere que ele gaste mais R$200 em porcarias, coisas que são até gostosas, mas que ele não precisa. Ele responde que não, que já gastou R$490, já está no seu limite, agora não pode gastar mais e precisa segurar sua onda.
E os dois babacas atrás de mim na fila comentam: "Vê se pode, já gastou R$490 e agora não quer gastar mais R$200, que ridículo, até parece que se importa com o próprio dinheiro!"
Como se quem gastasse R$490 pudesse, por definição, gastar mais R$200. Como se quem ingere 490 calorias também pudesse, por definição, ingerir mais 200 sem problema algum.
Uma versão editada desse texto foi originalmente publicada na coluna Calça Justa do blog Elas por Elas, no dia 9 de janeiro de 2004
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A Escola Urbana, Parte XI:
Em Defesa da Escola Urbana
 Li muito, em preparação desse longo ensaio. Fiz questão de ler todas as resenhas, a maioria positivas, que receberam os piores exemplares da Escola Urbana. Ler alguém, por exemplo, elogiando os méritos de Estorvo, de Chico Buarque, me parece tão bizarro quanto ler alguém elogiando os méritos de comer bosta. Mas li. Li tudo.
A única defesa válida que li da Escola Urbana foi escrita por Cláudio Lampert, colaborador do Epinion, blog de Paula Foschia, a namorada do Polzonoff. Lampert e Polzonoff também são os primeiros autores publicados pela Candide, a nova editora da Paula.
Enfim, o Cláudio leu a resenha na qual o Polzonoff simplesmente destrói o livro do Galera e teve o seguinte a dizer :
"E então Paulo Polzonoff alegra a minha tarde. Descasca o tal Daniel Galera, que eu desconheço quem seja e cujo livro provavelmente não lerei. O nosso crítico paranaense – meu amigo de pouco tempo mas de muitas afinidades – desanca o pobre Daniel. Eu não vou enveredar pela meta-crítica e desancar o Paulo. Ou talvez até faça isso amanhã, quando almoço com ele no Cervantes para falar do meu assunto predileto: o tédio e a apatia. Paulo ataca o tédio, o cansaço, a preguiça e a inércia dos argumentos literários de Daniel (a essa altura, depois desse winning streak, já considero ler a tal estória do dia em que o cão morreu). E ataca a proposta redentora do livro do nosso preclaro Daniel. Pois então digo: literatura existencialista é redentora, nem que seja para fazer a redenção do tédio – redenção essa que, sem nunca ter escrito um opúsculo existencial, promovo diariamente. Divagar sobre a ordem de entrada em vigor da existência e da essência é algo fora de moda? Não sei não. Eu até agora não me convenci plenamente da existência do tal arquiteto divino, que projeta o autor e, na seqüência, faz o crítico – parece até que o tal arquiteto se deleita com essas fricções. Diogo Mainardi escreveu um romance existencialista e foi criticado por isso. Bernardo Carvalho fez a mesma coisa, com um contorno bem menos filosófico, e tomou pau de todos os cantos. E agora é a vez do Daniel, em conjunto com parceiros luxuosos como Averbuck, Young, Mirisola et al., tomar na cabeça porque produz um livro repleto de tédio. E, muito provavelmente, chato como toda a narrativa existencial.
Romances existenciais são muito chatos para quem não provou a vida das calçadas. Quem se identifica com esse tipo de literatura já passou lá por baixo. Roubou no pôquer. Entrou na fila do pão para comprar um trago de conhaque logo cedo. Comprou quilos de droga batizada. Fez surubas circenses com anões besuntados. Admirar o autodidata lendo uma biblioteca inteira pela sua ordem alfabética por entre sessões de onanismo e prostração não é para qualquer um. Alguém conhece um personagem mais apático do que Mersault? Algo mais tedioso do que a forma monocórdia com a qual ele descrevia o ritmo dos domingos em Orã? O Estrangeiro, deixando de lado sua densidade filosófica, é obra de apatia e tédio; relato monótono de uma vida monótona. Até a descrição de um assassinato é lenta e apática.
Quem já foi de cara no limo da vida-como-ela-é-aí-fora gosta dessas nojeiras – por mera identificação, palpito eu. Anote aí leitor: se você já fritou o lado A e o lado B às 10 da manhã, todo suado e com medo do vizinho da frente invadir a sua casa, pode ler qualquer porcaria dessas porque foi escrita para você. Não hesite e consuma esse poliedro de tédio, cansaço, preguiça e inércia. O quadrilátero da minha vida – que não se desfaz nem com maratonas, filhos, amigos cultos que lêem o que há de mais sofisticado no mundo das letras, consumem jazz de primeira linha, clássicos e virtuosos, autores de gênio – é composto disso, só disso. E sem isso, desconfio, não teria a graça que teve até agora.
E se um dia conseguir escrever alguma coisa, certamente vai nessa direção. Por algum motivo, acho que o que tenho de melhor para entregar são as reminiscências dos arrabaldes do começo da minha idade adulta."
Thursday, January 22, 2004
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Acabas de Salvar uma Vida
Esse é o título de um email que recebi hoje, da leitora Adriana. Eis o texto:
"Oi. Nem sei direito como cheguei aqui no teu blog. Foi ontem, eu estava meio bêbada, entrando nos links dos links dos links dos blogs dos amigos que escrevem receitas e listas do melhor disco do ano.
Li os textos sobre a escola urbana, que achei geniais (confortante saber que mais alguém atirou um livro do Joca Reiners na parede além de mim) e depois dei na tua história. Que é parecida com a minha e acredite, acabou me apontando um caminho.
Eu tive professores que louvavam o meu hum... pendor para a escrita, depois tentei uma faculdade de letras (me entediou), fui estudar administração (ou a arte de puxar tapetes), larguei, fiz psicologia e terminei por acidente.
O único trabalho que já tive foi dando as aulas de inglês vagabundas. Morria de vergonha delas, afinal, uma menina-promessa-escritora tão sensível acabou dando com os burros n´água, coitadinha...
Daí que lendo esses textos eu percebi que quando a gente acha que é uma promessa de qualquer coisa é que a gente comete as maiores barbaridades. Em nome do ego adolescente que quer ser um sucesso nos saraus escolares. Você me deu vontade de ler um dicionário de sinônimos, de escrever quarenta contos a título de exercício e de suar.
Atualmente a minha briga é voltar a escrever coisas que interessem. E eu não acho que é uma questão de procurar o novo, mas de exercitar uma língua esquecida. Não acho que não se possa escrever sobre si mesmo, sobre a decadência da sociedade ocidental ou sobre putas gordas. Mas que seja feito com classe, com cuidado, com entrelinhas que causem alguma coisa que não seja tédio ou asco.
Em vez de reclamar ou me matar ou compor versinhos ególatras eu vou ler até morrer, virar tradutora e escrever todo dia um pouco. Para a gaveta, minha suave companheira. É sempre divertido abrí-la dez anos depois. Baixei teus livros também. Vamos ver. Obrigada pelo serviço prestado, e desculpa o arroubo.
Adriana"
Descupa nada. Adorei. Obrigado por me deixar entrever o impacto que tive em sua vida. Eu só posso agradecer. Você já sabe o que acho sobre tudo isso. Meu único conselho é: fuja dos dicionários de sinônimos, eles distorcem o vocabulário de qualquer escritor.
A Prisão Ambição será das maiores. Já está escrita desde julho, aliás, como a maioria das prisões, mas eu reviso esses textos demais, vocês nem imaginam. Ninguém escreve bem por sorte. Eu me repito muito, sou verborrágico, fico meses rearrumando os parágrafos e eliminando redundâncias. Enfim.
Eu sempre fui garoto-prodígio, milionário, mimado e superdotado (só faltava ser bonito), com o mundo aos meus pés. Fui criado para ter tudo o que vida pode oferecer. Minha ambição foi cuidadosamente cultivada por pais e professores. Eu era uma pessoa insuportável.
Só quando me libertei da minha própria ambição, desse fascínio pelo futuro dourado que ineroxavelmente me esperava, foi que consegui me conhecer e começar a me tornar uma pessoa melhor.
Por enquanto, a Prisão Medo fala um pouco sobre isso.
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A Escola Urbana, Parte X:
O Fim da Ficção
 Minha esposa não é nenhuma literata.
Em 2003, na minha rebaba, ela leu todos os livros da Livros do Mal (são oito), Máquina de Pinball, de Clarah Averbuck, Valsa Negra, de Patrícia Mello, Aquele Rapaz, do Bernadet e A Casa dos Budas Ditosos, do Ubaldo. Doze livros, se não esqueci nenhum.
Clarah Averbuck e Daniel Galera lhe causaram orgasmos literários. Ela andou com Máquina de Pinball na bolsa por vários dias, como se fosse um pequeno tesouro: se identificou totalmente com o romance e com a vida de Clarah Averbuck. Pra ela, aquilo ali é que era a vida, a vida de verdade da mulher moderna e maluca, super inteligente mas sem nada na cabeça, sem perspectiva e querendo curtir a vida. Estou usando as palavras dela.
 Até o Dia que o Cão Morreu também foi motivo para celebrações. Ambos os livros são muito iguais, falam de amor de uma forma que não é banal, em uma linguagem muito direta, muito jovem. Mas, também, por outro lado, são livros que não falam de nada, os personagens ficam só bundando de um lado pro outro, e dá um certo desespero imaginar pessoas assim.
Sua terceira grande empolgação foi com Valsa Negra, mas somente pelo enredo. Achou a história bem bolada e bem amarrada e o final surpreendente. Gostou especialmente dos personagens e do modo como foram sendo desenvolvidos ao longo da trama, mudando, evoluindo, involuindo.
Gostou dos outros livros da Livros do Mal (menos Hotel Hell, amém pra ela) e também do Bernadet e do Ubaldo, mas sem fogos de artifício.
Já o excelente A Coisa Não-Deus, de Alexandre Soares Silva, ela tentou ler três vezes, por muita insistência minha, mas anjos interagindo num céu de mentirinha, aquilo pareceu fora demais do seu dia-a-dia e da sua experiência para que pudesse se identificar. Largou.
Minha irmã, que é a inteligente da família, está cursando doutorado em Economia em uma das melhores universidades do mundo, na Califórnia. Apesar de ser uma pessoa culta e sensível, ela simplesmente não consegue ler ficção: por que eu iria me interessar em saber como nunca se desenrolou uma situação que nunca aconteceu entre pessoas que nunca existiram? Ela me diz isso e eu quase imagino como meu pobre pai deve se sentir quando lê meus textos. Ficção não desperta nenhuma empatia em minha irmã.
Diz o Polzonoff:
"Há quem consuma, claro. E a partir dos leitores deste tipo de literatura é possível escrever um verdadeiro Tratado Patológico do Leitor Brasileiro. Que, carente de escritores realmente inventivos, sofre até hoje de imaginose aguda, isto é, carência de imaginação — própria e alheia. Não há como se iludir neste sentido, porque a imaginose aguda é como a subnutrição e está entranhada na nossa cultura. (...) Fico me perguntando apocalipticamente, à la Fukuyama, se também a imaginação, com a história, acabou. Escritores jovens escrevem somente sobre si mesmos, sobre seus umbigos alimentados com sucrilhos Kellogg’s, sobre seus momentos hamletianos tão superfaturados. Ninguém parece ser capaz de um lampejo de criatividade na literatura atual: uma imagem remotamente original, um personagem minimamente carismático."
Será essa a resposta? Que a literatura imaginativa está em decadência porque os leitores perderam a capacidade de imaginar, de viver outras vidas, de habitar novos mundos? Vivem vidas vazias e querem livros que retratem isso?
Por um lado, as pessoas parecem ter perdido a capacidade de sentir empatia, como minha irmã. Por outro, cada vez mais só conseguem ler livros com os quais se identificam, como minha esposa.
Será o fim da ficção?
(amanhã... em defesa da escola urbana...)
Wednesday, January 21, 2004
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Onde Perdemos Tudo
Quem lê esse blog, e gosta, quem leu o meu romance, e gostou, está na hora de ler meu livro de contos, Onde Perdemos Tudo, seis histórias unidas pelo tema comum de perda.
Com vocês, o capítulo VIII do conto A Falta que nos Fazem os Figos, sobre premonições, destino e temas afins.
Qualquer semelhança com temas recentemente tratados nesse blog não terá sido mera coincidência.
"VIII
Gabriela conta uma história de pescador
Alguns anos atrás, ela começou, uma equipe de estudiosos de percepção extra-sensorial conduziu uma pesquisa de campo em uma aldeia de pescadores onde, segundo informações, um alto número de crianças havia predito a morte de seus pais.
Feitas as diligências iniciais, verificou-se que o fenômeno de fato se dera. Uma das crianças acordou no meio da noite e disse para a mãe que o pai não iria mais voltar do mar. Outra passou um dia inteiro falando para todo mundo que encontrava pela frente: "O papai morreu no mar, não foi? Eu sei, eu sei." Em ambos os casos, e em vários similares, as previsões se realizaram.
Satisfeitos com a comprovação do fenômeno paranormal, os cientistas estavam se preparando para voltar às suas universidades quando um membro mais cético da equipe questionou a metodologia da pesquisa e resolveu conduzir um outro estudo por conta própria.
Não precisou de muito trabalho para descobrir que o maior medo de qualquer filho - e aliás, esposa também - de pescador é que algum dia o pai ou marido não volte do mar. As esposas, adultas e mais controladas, não saem verbalizando esse sentimento por aí o tempo todo, mas as crianças, destemperadas e impressionáveis, sim.
Em suma, rara era a ocasião em que um pescador saísse ao mar e sua família não tivesse "pressentimentos" de sua morte, que seus filhos não sonhassem com o pai enfrentando as ondas em seu barco para em seguida afundar e morrer. Logo, por uma questão de probabilidade, algum deles teria que acabar acertando.
A explicação do fenômeno, concluiu ela, não era paranormal, e sim, estatística."
Você pode fazer o download de Onde Perdemos Tudo para ler na tela do computador ou para imprimir.
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Minha Pobre Mãe
Minha mãe é toda mística, espírita, recebe santos, pratica religiões afro-brasileiras.
Sempre que vou viajar, eu digo pra ela: "Mãe, tive um mau pressentimento. Não sei se vou voltar. Foi um sonho. Vi o avião caindo, uma bola de fogo, coisa horrível."
Meu grande consolo, se eu algum dia tiver a desgraça de estar em um desastre de avião, será imaginar minha mãe, no meu funeral, dizendo pra todo mundo, seríssima, vindicada:
Ele sabia. É o destino. Cada um tem a sua hora e a gente sente isso nas mais íntimas fibras do nosso ser, algo assim animal, sabe?, a gente pressente. Mesmo meu filho, mesmo ele, cético e ateu, sabia que sua hora estava chegando.
Ele sabia.
E nem vai se lembrar, coitadinha, que eu dizia a mesma coisa antes de cada viagem que já fiz.
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Sorte, Intuição e Premonição
Gente, vocês são muito fofos. Obrigado pelas demonstrações de apreensão e solidariedade.
Só pra clarificar, eu não acredito em deus, fé, espírito, destino, carma, porra nenhuma, mas acredito em entropia e em um universo regido pelo caos, que favorece uns e fode outros de forma totalmente aleatória. Ou seja, acredito em sorte e confio na minha intuição.
Uma vez, meu pai disse que eu devia ser grato a deus por tudo o que ele me deu, mas que eu, infelizmente, não acreditava em sorte.
Como assim? Quem não acredita em sorte é ele: meu pai acha que tudo o que tenho de bom foi deus quem deu, ou seja, não foi sorte, foi dádiva.
Quem não acredita em deus só pode acreditar na sorte: tudo o que tenho de bom foi fruto não só do meu esforço mas também de uma conjunção favorável dos elementos aleatórios do universo. Em termos leigos, sorte.
Perguntem pra minha mulher quantas vezes eu troco de percurso, salto do ônibus ou mudo de elevador só porque tive um pressentimento. Já escapei de dois assaltos assim, como me contaram amigos que ficaram para trás nesses lugares de onde eu subitamente senti ânsias de ir embora.
Só pra constar, foi um dos vôos mais estressantes que já peguei. Houve princípio de incêndio em um banheiro e uma das portas do avião não fechou e teve que ser fechada manualmente.
Quem sabe foi o pai do céu tentando me avisar pra parar de brincadeiras.
Bem, ele vai ter que ser mais claro. Eu nunca entendo indiretas.
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A Escola Urbana, Parte IX:
Afinal, Quem Lê Esses Livros?
 Eu acredito no mercado. Ninguém rasga dinheiro. Um editor só publica um livro que é igualzinho a trocentos outros porque ele sabe que aquilo vai vender, que a crítica vai afagar.
A Escola Urbana só existe porque existe um mercado grande de pessoas que consome esse tipo de literatura. E quem são esses bandidos que sustentam tanto lixo?
Para tentar entender melhor a atração que a Escola Urbana exerce nos leitores, selecionei esse trecho de uma resenha muito elogiativa do livro do Galera, Até o Dia que o Cão Morreu, feita por Alessandro Garcia, do blog Suburbana:
"Não temos propriamente um romance, mas simplesmente uma história em que o que é preciso ser contado é. O que sobra são indagações tão valiosas quanto as que nos fazemos todos os dias. Recém-formado em letras, o narrador da história, de quem nunca ficamos sabendo o nome, mora em um apartamento sozinho no centro de Porto Alegre, onde a vista para o Guaíba parece ser o que de mais seguro ele tem. O resto é a eterna sensação de solidão e de distanciamento do mundo, mesmo daqueles que lhe parecem mais perto. Como Marcela, uma modelo que surge em sua vida e que, mesmo repleta de beleza e viço, não afasta o protagonista de uma cantilena de auto-destruição, embalada por doses maciças de álcool e cigarro. Por quê? Porque simplesmente ele não vê sentido em buscar um "sentido" para a vida. A sua falta de jeito (talvez o seu principal problema) não o impede, porém, de encontrar meiguice num cão vira-latas - a quem chama de Churras -, recolhido quando voltava para casa. O tom, quase sempre de contemplação, acaba servindo como a resposta que não se tem às mínimas questões práticas da vida."
 Não vou julgar o mérito da resenha em si. Ignoremos o fato de a primeira frase simplesmente não fazer sentido, por exemplo. O que quero saber é: por que ele gostou do livro?
Pra começar, eu me sinto vingado: o leitor concorda com tudo que eu venho dizendo. As características que vejo nos livros da Escola Urbana ele também viu: "eterna sensação de solidão e distanciamento do mundo", "cantilena de auto-destruição", "não vê sentido em buscar um 'sentido' pra vida", etc.
Mas gostou! Por algum motivo que me escapa, ele gosta de ler sobre o tédio, a monotonia, a apatia. Por quê? Por quê?!
Será que são os autores da Escola Urbana que estão respondendo aos anseios do leitor contemporâneo? Será que sou eu, e o Alexandre Soares Silva, e a Daniela Abade e outros infelizes, que estamos deslocados? Será que as pessoas vazias querem mais é ler livros vazios escritos por autores vazios contando as histórias vazias de personagens vazias?
Sempre achei estranho serem logo os artistas, que levam vidas tão interessantes, as pessoas que mais se drogam, que mais fogem da realidade. Por que precisam disso? Não seria mais lógico que fossem os contadores, os caixas de banco e os vendedores de seguros que realmente precisassem de esctacy pra aturar o tédio de suas vidas? A vida de Mick Jagger deve ser interesante o suficiente sem precisar de cocaína.
 Quando mais reflito, mais concluo que não entendo nada do mundo, que não sei como as pessoas funcionam. Nada disso faz sentido pra mim.
Essas pessoas de vidas apáticas e vazias, os Mersaults ambulantes, fariam melhor em ler as grandes obras imaginativas da humanidade, o Senhor dos Anéis, Dom Quixote, até mesmo Harry Potter. Talvez essas obras maravilhosas chacoalhassem suas rotinas, quebrassem suas correntes, levitassem seus pés. No mínimo, se divertiriam um pouquinho.
Mas não.
Lêem Máquina de Pinball e Até o Dia em que o Cão Morreu, livros que só reciclam, em forma de literatura, o vazio inescapável que já permeia suas infelizes vidas.
Enquanto os reis barbudos, de Veiga, e os anjos, de Soares Silva, voam lá em cima, os leitores chafurdam cá embaixo.
(amanhã... o fim da ficção... minha esposa e minha irmã... perda de empatia e excesso de identificação...)
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Tuesday, January 20, 2004
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Premonição
Estou embarcando hoje para Fortaleza, a trabalho, e só volto na sexta. O blog continuará sendo atualizado diariamente, aliás, os posts das próximas duas semanas já estão prontos, vai ser só publicar.
Nos últimos dias, sonhei repetidas vezes com acidentes de avião, logo eu que não tenho medo de voar. Minha mãe, que é meio médium, pediu porque pediu para eu não ir. Mas não posso. Trabalho é trabalho.
De qualquer modo, estou com um mau pressentimento.
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Mais Leitores Satisfeitos
Meu romance vem sendo muito bem recebido entre os leitores. Veja abaixo o que mais uma leitora, Calime, postou em seu blog sobre Mulher de um Homem Só:
Sobre um romance
"A tal da Mulher de um Homem Só é um desses casos raros de personagem que ultrapassa o conceito de autor e obra e ganha vida própria.
É curioso como até agora ela me domina um pouco. Feiticeira entretendo a platéia na enumeração de suas mazelas incontáveis: Carla, cruel e cheia de graça. Ninguém resiste a súplica falsamente tímida nas entrelinhas "se ninguém ora por você, a auto-indulgência pode ser um remédio".
Confira no site do romance, aproveite e dê uma olhada no excelente e já linkado blog do autor, Alexandre Cruz Almeida: Liberal Libertário Libertino"
Calime, obrigado por ter o carinho de registrar sua opinião.
Opiniões de leitores são sempre inestimáveis. Se positivas, me ajudam a convencer outros a ler o livro. Se negativas, me ajudam a melhorar o livro que, afinal, ainda está em aberto.
E você, o que achou?
Faça o download em versão para imprimir ou para ler na tela.
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Santa Inguinorança
Não acredito que acabei de ouvir, na propaganda das Casas Bahia, e pior, uma propaganda que deve passar só aqui no Rio, que amanhã, 20 de janeiro, é aniversário da cidade - e as lojas vão abrir, apesar do feriado!
Caramba, será que ninguém nem mais pesquisa as besteiras que fala? Quanto dinheiro um anúncio desses movimenta, entre idealização e produção? Não tinham 15 reais pra mandar alguém consultar uma enciclopédia?
Sério, é o fim.
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Quem Tem Medo do Alexandre?
Uma de minhas leitoras mais queridas e fiéis, a Dani, deu agora pra dizer que está com medo de me mostrar seus contos. Acha que eu destruiria suas doces ilusões de escritora.
Dani, nunca li seu material, não sei se é bom ou ruim, mas eu funciono por encomenda: basta você me dizer o que quer, e eu atendo.
Estímulo Literário
Se o que você quer é encorajamento, apoio, estímulo, etc, não tem problema algum, basta avisar.
Eu também, quando quero todas essas coisas (o que não acontece muito), dou meus textos para minha avozinha. Ela nem lê, claro. Sei disso, porque se lesse, ela teria uma síncope, e a velha ainda está bem viva. Ela simplesmente diz que adorou, que tudo o que o netinho dela faz é lindo. Eu saio de alma lavada, mas me sentindo algo trapaceiro.
Minha Opinião
Se você diz que quer a minha opinião, que quer saber o que eu acho, então eu vou dizer.
Meu incansável pai sempre me ensinava: filho, quando as pessoas pedem sua opinião, elas não querem realmente sua opinião. Querem que você diga que está tudo bem, querem é paz de espírito. E eu até hoje ainda não entendi: caramba, então por que pedem minha opinião?
Não Existe Opinião no Vácuo
Quando alguém me dá alguma coisa pra ler e pede minha opinião, eu pergunto: o que é isso? Afinal, não existe opinião no vácuo.
Se dizem que é literatura, por exemplo, minha opinião será literária. O texto será comparado com James Joyce, Ésquilo, Daniel Pellizari. Enfim, a galera que se propõe a fazer literatura.
Se dizem que é um artigo acadêmico em ciências humanas, minha opinião será científica. O texto será comparado com Eric Hobsbawm, Manolo Florentino, Roberto da Matta. Enfim, o pessoal que se propõe a estudar as ciências humanas.
Por algum motivo que me escapa, as pessoas acham que isso é injusto.
Mesma Atividade, Mesmos Critérios
É como você estar começando no futebol profissional, ir jogar contra o Ronaldinho e pedir pra ele pegar leve. Como assim pegar leve, diria o Ronaldinho? É pra eu não te marcar? Pra te deixar fazer gol de graça? Quem está em campo é pra jogar, companheiro.
Qualquer escritor sério de literatura pode, deve e será julgado pelos mesmos critérios de Machado de Assis. Ou vocês acham que o Joaquim Maria foi unanimidade nacional, ou nunca recebeu resenha negativa?
Vocês se propõem a fazer as mesmas coisas, é justo que sejam julgados pelos mesmos padrões.
Quem se propõe a ser jogador profissional de futebol, tem que estar pronto pra encarar o Ronaldinho.
Quem se propõe a ser escritor de ficção, tem que estar pronto pra encarar Machado de Assis.
Os Peladeiros
Naturalmente, quem joga uma pelada de domingo com um bando de amigo careca e barrigudo não vai enfrentar nenhum Ronaldinho.
Do mesmo jeito, quem escreve só pra desabafar seus sentimentos, desanuviar a cabeça, fazer terapia, botar as palavras pra fora, etc, e depois não publica, mas só xeroca e mostra pros parentes, ou então entra para algum desses clubes de autores novatos da web, em que todos mostram os contos pra todos, todos acham tudo lindo e fica tudo por isso mesmo, claro, essas pessoas nunca vão ser alvo das críticas que Samuel Beckett, Daniel Galera e Sófocles tiveram que engolir.
Alexandre Sob Encomenda
Por isso, a pergunta é importante. Quer minha opinião sobre o seu material? Ok, mas o que é isso? É literatura, é artigo jornalístico, é relato autobiográfico?
Eu só vou julgá-lo e criticá-lo em termos literários se você me disser que é literatura e que quer minha opinião.
Basta falar.
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