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Tuesday, December 7, 2004
Prisão: O Direito de JulgarA leitora Julia levanta o seguinte e pertinente ponto:"A divisão dos links gera um certo desconforto: eu gosto de você e te linkei, mas não sou suficiente bom para esta no panteão dos favoritos ou seja, eu existo mas não sou bom. Constar na sua barra de links parece assim um "selo de falta de qualidade". É pouco lisonjeiro, e imagino que as pessoas realmente prefeririam não ser linkadas assim. Eu não gostaria de ser linkada assim. Se algum dia decidir não linkar alguém que me linkou, prefiro fazê-lo com mais dignidade do que atribuir a quem eu sei que me lê e gosta de mim categorias . Ou seja, a sua luta pela gentileza encontra assim um paradoxo: é gentil classificar quem não pediu para ser classificado, sem seu consentimento?" Saraivada de Perguntas Ora, Julia, estamos aqui promovendo uma lista dos melhores autores do mundo. Algum deles pediu para ser classificado ou julgado? Quando eu digo que Elle MacPherson é a mulher mais linda do mundo, a Gisele Bündchen se ofende? Quando digo que Celebridade é a melhor novela que assisti, o elenco de Começar de Novo leva isso no pessoal? Qual é o problema de eu dizer, por exemplo, que o blog do Rafael Galvão é um dos meus preferidos mas o do Gustavo não? Isso é alguma ofensa? Alguém deve se sentir mal por não ser o preferido do outro? Será então que devo ficar diminuído em minha qualidade de escritor porque nenhuma das pessoas que leu meu romance o incluiu em sua lista de 10 romances preferidos de todos os tempos? Ou será que o meu gesto de linkar alguém só vale alguma coisa se essa pessoa for minha preferida? Será que linkar alguém que eu gosto ou leio apenas ocasionalmente é pior que nada? Melhor ignorá-lo por completo? Ou o Favorito ou Nada A Tribuna da Imprensa, onde mantenho uma coluna, é um jornal pequeno, opinativo e corajoso. Eles sabem que não são o primeiro jornal de ninguém. Todo mundo que lê a Tribuna também lê outro jornalão, seja O Globo, Folha, Jornal do Brasil. De certo modo, isso desobriga a Tribuna de cobrir cada noticiazinha: a equipe sabe que quem lê a Tribuna não quer se informar sobre o que aconteceu - teoricamente, já se informou em seu primeiro jornal - mas sim quer opinião de qualidade. Fico imaginando uma Tribuna antropomórfica nas bancas. O leitor compra O Globo e depois pede a Tribuna. E responde a Tribuna, com a voz da Júlia: ah, não, nada disso, você já comprou O Globo, vai me comprar pra quê, pra eu ser seu segundo jornal? Pois prefiro nem ser comprada, pode guardar seu dinheiro de volta no bolso! Medo de Julgar Metade das pessoas que conheço têm um medo atroz de emitir julgamentos. Começam suas frases com besteiras como "quem sou eu pra julgar?" e por aí vai. Não são loucas, isso é que é pior. Sabem que vivem entre cavalgaduras ainda maiores, entre pessoas que, ao primeiro contato com a opinião dos outros, retrucam, agressivamente: "E quem é você pra julgar?!" Eu respondo: "Alexandre Cruz Almeida, boa tarde pro senhor também." Não preciso de mais nenhum outro pré-requisito do que esse. Julgamentos Superficiais Todo dia, sou julgado por milhares de pessoas que desembarcam nesse blog. Elas lêem poucas palavras, passam os olhos em meia dúzia de posts e já me rotulam para todo o sempre, já me julgam impreterivelmente louco, gênio, arrogante, pedante, engraçado, gente-boa, iluminado, palhaço, cabotino. E vocês nunca me viram reclamar. Temos que julgar todos o tempo todo - julgar sendo uma outra palavra para "ter opinião própria". E não temos tempo de conhecer todo mundo a fundo. Então, impreterivelmente, a grande maioria de nossas opiniões e julgamentos são superficiais, como não poderiam deixar de ser, e se baseiam em aparência, em algumas poucas palavras, no que quer que tenhamos tempo ou oportunidade de captar. E isso não é ruim, porque é inevitável, porque é o possível. Alguém que conheça TODOS a fundo ou não faz outra coisa na vida ou vive numa ilha com Robinson Crusoé e Sexta-feira. O Direito de Julgar O politicamente correto nos roubou o direito de articular os nossos julgamentos, mas, e isso eu garanto, ninguém parou de julgar ninguém por causa disso. Será que isso é herança maldita do nosso sistema escolar, com esse fetiche por provas? Afinal, uma prova nada mais é do que um julgamento oficial, e com hora marcada, deixando implícito que não seremos julgados pelo que fazemos nas outras horas? Eu Julgo Então, se ninguém admite, admito eu, porque, afinal, apesar dos pezinhos, e das notícias de internet, e das resenhas de livros, esse blog existe, antes de tudo, para denunciar prisões: Eu julgo. Posso até não verbalizar o meu julgamento por educação, caridade ou cautela, mas eu julgo. A partir do meu primeiro contato com você, seja por email, telefone ou pessoalmente, eu julgarei sua voz, seu penteado, seu uso da concordância nominal, suas posições políticas, a quantidade de perdigotos que você emite, tudo. Cada coisinha será observada, analizada e catalogada, e poderá ser usada contra você ou ao seu favor. Como sou uma pessoa inteligente e sei que a cabeça é redonda para o pensamento mudar de direção, o meu julgamento é sempre provisório e fluido: uma má impressão pode ser tão facilmente desfeita quanto uma boa. Quem não quiser ser julgado por mim, basta não me escrever, não me encontrar, não colocar seu trabalho na Internet. Mas que não se engane: estará sendo julgado pelos outros. * * * Uma coisa que eu queria deixar claro: quando escrevo esses artigos em resposta à opinião de um leitor, nunca é desse leitor que estou falando. Não me deixo levar assim pela opinião de uma pessoa só. Peguei o comentário da Julia (que não sei nem quem é) somente como exemplo de uma opinião relativamente disseminada e que já ouvi várias e várias vezes. Se a opinião não fosse disseminada, não valeria a pena o post. Isso, com certeza, é a prisão alguma coisa, mas o quê?
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EpitáfioAqui, nesse endereço, viveu e brincou o blog Liberal Libertário Libertino (4 de março de 2003 – 3 de fevereiro de 2008). Atualmente, o blog pode ser lido diariamente em interney.net/blogs/lll Visite também o site pessoal do autor: alexcastro.com.br
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Fevereiro 2008
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