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Saturday, November 27, 2004

Gente que Sabe o seu Lugar - Versão Expandida

Uma amiga, descrevendo as virtudes do seu motorista:

"Ele é ótimo. Sempre o chamamos para almoçar na mesa com a gente, mas ele se recusa, vai comer na cozinha. Sabe o seu lugar."

* * *

Hoje, na piscina, uma babá e uma criança. No fim da tarde, as duas vão saindo e eu digo: tchau!

A babá diz pra criança: o moço tá falando tchau!

A menina se volta e diz: tchau!

Não ocorreu à babá, nem por um instante, que eu estava dando tchau pra ela.

* * *

O leitor Carlos Ramalhete, um pensador cristão conservador com o qual eu não concordo em quase nada, fez o melhor comentário dessa história toda, o comentário que eu estava esperando que alguém fizesse:

"A babá e o motorista estão mais do que certos. Há uma diferença enorme entre respeitar e impor um igualitarismo que não faz sentido. Para eles, comer com o patrão seria uma tortura ("será que estou segurando o talher direito? Será que estou me comportando adeqüadamente?", etc.), uma versão ainda mais complexa e torturante do próprio trabalho. Se o sujeito é um excelente motorista, ele está confiante no que faz e pode ter orgulho disso; se ele é forçado a ser, além de motorista, companheiro de mesa, o que se está fazendo é impor-lhe um dever a mais, mais difícil e mais doloroso. O que seria um momento de folga (o almoço) vira o momento mais difícil do trabalho. Do mesmo modo a babá, que pode se refugiar em seu anonimato e viver a vida dela normalmente sem ter que prestar atenção nas regras de convívio de outra classe, que lhe são estranhas, está muito mais confortável quando não é tratada como se fosse outra pessoa. respeitar quem ela é inclui respeitar o fato de ela não ser sócia do clube da piscina, assim como respeitar o motorista inclui respeitar o fato de que ele não se sente à vontade na mesa do patrão.

Quando se tem consciência disso se pode realmente ajudar sem desrespeitar aquela pessoa a título de "respeito" igualitário; por exemplo, são inúmeros os casos em que os filhos de um "bom motorista" como este têm seus estudos pagos pela família que emprega o pai, etc. Por outro lado, quando se fica tentando sentar o motorista na mesa, o que ele aceitaria de bom grado e consideraria - com razão - como ótima coisa (pagamento de estudos do filho, tratamento dentário, sei lá) passa a ser humilhante. É humilhante receber ajuda de um suposto igual, é constrangedor ver-se forçado a fingir-se membro do que é de fato outra sociedade. Mais vale "saber o seu lugar" e ter assim todo o respeito devido que negar a existência de "lugares" e ser assim desrespeitado e desprovido de qualquer dignidade real. O motorista e a babá só têm dignidade enquanto são vistos como o excelente motorista e a excelente babá que são. Se viram "amiguinhos", o que realmente ocorre é uma desrespeitosa e humilhante condescendência para com pessoas que em outras circunstâncias jamais seriam chamadas a sentar-se à mesa."

Vou falar mais sobre o Carlos depois, mas agora voltemos à nossa história. Enquanto isso, você pode conferir alguns de seus melhores artigos.

* * *

Na época em que eu morava na Barra e tinha muitas empregadas, eu de vez em quando pedia pizza. As empregadas ficavam espiando de olho comprido lá de longe e eu sempre oferecia um pedaço. Elas pegavam seus pedaços e iam comer, em pé, do outro lado da copa.

Aquilo foi me incomodando progressivamente, até que um dia chutei o pau da barraca.

Na pizza seguinte, eu disse: quer dizer que minha pizza é boa o suficiente pra vocês, mas minha companhia não? Nada disso. Se quiserem comer da minha comida vão ter que sentar à minha mesa.

Elas vinham, constrangidas e envergonhadas, dava pra ver que era um esforço. Comiam rapidinho e saíam correndo. Algumas vezes, perguntavam: ahhhh, tem mesmo que sentar aí? E eu respondia: tem, senão, vou comer tudo. E elas: então, não quero!

Pirracentas, pirracento e meio: se não sentassem comigo, eu não deixava nem um pedacinho.

E elas só olhando de longe.

* * *

Não tenho orgulho do que fiz. Fui pirracento, mas entendo perfeitamente como minhas empregadas se sentiam. Quem serviu nas Forças Armadas também entende do que estou falando. Nada pior do que um comandante "casual".

O oficial superior formal, paradoxalmente, deixa seus subordinados à vontade: todos sabem exatamente como proceder, tudo está previsto e codificado nos manuais.

O comandante informal, por outro lado, é uma caixinha de surpresas. Ninguém nunca tem certeza do que irá desagradá-lo. Ninguém sabe quais regras ele segue, quais ela descarta.

O Capitão Barros, por exemplo, é sempre Capitão Barros, ou Senhor, e ninguém tem a menor dúvida quanto a isso. É simples.

Já o Major Cavalcanti faz questão de ser chamado de Beto. Mas o cabo que o chamou de Beto em um dia em que ele estava de mau-humor, recebeu uma reprimenda que nunca mais esqueceu. Com o oficial informal, você nunca tem 100% de certeza.

Enquanto o trato com o Capitão Barros é codificado, previsível e stress-free, o Major Cavalcanti dá muito mais trabalho: ele tem que ser constantemente lido, entendido e interpretado.

* * *


Eu cresci num ambiente de opulência. Jantávamos na sala, todos os dias, à francesa, criada uniformizada, aquelas frescuras toda. Desde cedo, meus pais me levavam à recepções, jantares e viagens, de terninho feito sob medida e sapatos lustrados.

E eu sempre disse o seguinte: é mil vezes mais fácil se comportar em uma recepção do Príncipe Rainier, na Embaixada de Mônaco, do que em uma visita ao barraco de uma empregada no morro.

Pra começar, na recepção do Albert (para os íntimos), as regras estão escritas, codificadas e previstas em séculos de evolução do cerimonial e das boas-maneiras. Quem conhece as regras (e basta lê-las em qualquer manual) nunca tem dúvida sobre o que fazer, pra onde se virar, que talher usar.

Já na casa da empregada, tudo pode acontecer. Eu nunca sabia o que fazer, o que dizer, o que aceitar.

Nas recepções finas, nunca levei beliscões da minha mãe. No morro, era o que ela mais fazia. Por que aceitou isso, menino?! Mas, mãe, ela ofereceu! E você não tinha nada que aceitar, vai fazer falta pra eles depois!, etc.

O pior é a tensão. A anfitriã parece ter dedicado meses àquela visita, nada pode dar errado. E, como estresse é contagioso, o clima fica pesado, ninguém relaxa, a experiência toda é exaustiva.

Você pode argumentar, claro, que cada animal conhece melhor o seu próprio habitat. Eu me sentia à vontade nas recepções formais porque cresci naquele ambiente e sabia como funcionava. Visitar casa de pobre, por outro lado, era uma atividade esporádica.

Eu concordo, mas rebato o seguinte. Digamos que você seja convidado para um jantar no palácio do conde da Estrobênia e está desesperado, porque não sabe o que fazer e como se comportar. Existem diversos livros de etiqueta que você pode ler. Qualquer um deles o deixará razoavelmente preparado para tudo o que pode acontecer no tal jantar.

Mas não conheço nenhum livro que ensine como se comportar em casa de pobre.

* * *

Hoje, eu estou pobre de marrédessi e sobrevivo dando aulinhas de inglês. Estar pobre, entretanto, não significa ser pobre e eu me dou ao luxo de evitar lugares de pobre. Mas, às vezes, não dá pra fugir.

Ano passado, fui com a primeira esposa a uma festa de aniversário de criança em um quintal de Curicica.

A festinha foi legal, comi muito cachorro-quente com coca-cola, mas fiz algo que, pelas reações das pessoas, era um faux-pas imperdoável: como tinha trabalhado sentado o dia inteiro, fiquei de pé.

Tem gente cuja missão na vida é converter novas almas para Jesus. Pois a missão na vida das pessoas daquela festa, desde a anfitriã e sua família até, bem, todo mundo, era me fazer sentar. Aparentemente, eu ficar de pé era uma ofenda imperdoável que simplesmente não podia ser ignorada.

Da primeira vez, foi aceitável. Não quer sentar?, disse a anfitriã, apontando para as várias cadeiras vazias. Não, obrigado, eu disse, passei o dia inteiro sentado.

Em uma recepção fina, eu posso até conceber que a anfitriã diria algo assim, apesar de ser redundante. Afinal, há cadeiras vazias, ela sabe que eu sei que posso sentar nelas, se não sentei, é porque não quis, né? Ponto final.

Mas a coisa não parou por aí, amiguinhos. Ela veio insistir comigo mais umas vinte vezes - não estou exagerando. E não só ela: o marido, a mãe, a irmã, toda a família. E outros convidados também. A cada cinco minutos, vinha alguém e: não quer sentar?

Fiquei revoltado. Mas, caramba!, será que esse povo acha mesmo que se eu quisesse sentar eu já não estaria sentado?

No fim, comecei a ser irônico:

Você não quer sentar?

E eu, na lata: e você, não quer ficar em pé?

Não, não, estou bem aqui sentado.

Pois eu também estou bem aqui em pé.

* * *

Última pirraça: existe coisa mais cafona e suburbana do que gente que diz "licença" antes de entrar na casa dos outros?

* * *

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