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Wednesday, September 22, 2004

Reminiscências de Ex-Rico

Minha mãe é professora de decoração em uma universidade carioca. Entre as disciplinas que ela leciona, ou já lecionou, estão Antiquariato, Prata, Cristais, Art Deco, Art Noveaux, Mobiliário, Festas, etc. Disciplinas de dondoca, como eu chamo, mas ninguém entende disso melhor do que ela. Os alunos recebem seu money's worth, com certeza.



Como ela está sem carro, hoje fui buscá-la em um leilão que ela está ajudando a organizar. Chego lá e, de repente, muitas das peças começam a parecer familiares. Quadros, tinteiros, lustres, penteadeiras. Até a espevitadeira de prata.

O pior foi a mesa. Minha mãe está leiloando a mesa onde dávamos jantares à francesa, completa, com aparelho de jantar de porcelana de sèvres pintada à mão (com direito até à marcadores de lugar), fruteira de metal, candelabros, saleiro e faqueiro de prata, copos e garrafas de cristal baccarat, todos os fru-frus possíveis e imaginários.



Quando menos me dei conta, estava de novo naqueles jantares. A entrada era sempre uma divina bouillabaisse e a sobremesa, pera recheada de sorvete de creme com calda de framboesas. Eu vestia meu terninho e sentava à esquerda do meu pai. Pensando que era gente. E, como qualquer criança rica, sem me dar conta de como minha infância era absolutamente fora do padrão, extraordinária.

Aos pés da minha mãe, escondido sob o tapete, um botão soava discretamente na cozinha. Os desavisados achavam que, por mágica, a copeira sempre adivinhava quando alguém precisava de alguma coisa.



Quando não havia visitas, ainda assim era naquela mesa que jantávamos, todo dia, às 20:35 em ponto (assim que acabava o Jornal Nacional), à francesa, embora com menos utensílios, servidos por uma copeira uniformizada.

Foi uma viagem do tempo, com escala no Twiligtht Zone.

Entrar naquela casa de leilão e ver a mesa posta exatamente como ficava nos jantares mais alinhados da minha infância, assim, ali, no meio do lobby, era como ver um objeto absolutamente familiar em um ambiente totalmente contraditório. Uma orquídea brotando de uma privada. Um livro na geladeira. Um passarinho embaixo d'água.



Há quanto tempo eu não via aquela mesa daquele jeito? Dez anos? E, nos áureos tempos, não passava um mês sem que meus pais dessem algum jantar à francesa para alguém importante. Naquela mesma mesa. Posta exatamente daquele jeito.

Não sei se vocês entendem o que quero dizer. Nunca gostei, e nem gosto, de todas essas frescuras e formalidades.



Mas, hoje, isso já não interessa mais. Pra bem ou pra mal, minha infância foi essa, minha história é essa. Eu cresci assim e jamais terei crescido de outra maneira. A mesa onde fiz a maioria dos jantares da minha vida é essa das fotos - com esse aparelho de jantar que aparece nas fotos - e isso não vai mudar.

O homem que escreve essas linhas é alguém que sempre teve uma espevitadeira de prata em casa, sabe pra que serve e já a viu sendo usada diversas vezes. Não tenho orgulho disso - aliás, nunca tinha pensado nisso até agora - mas quantas outras pessoas podem dizer a mesma coisa?



A exposição vai até quarta, 22, e o leilão começa amanhã, dia 23 de setembro. O lance inicial da espevitadeira é R$2.000.

Ai, ai.


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