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Wednesday, December 31, 2003

Blogs Gratuitos: Ética Versus Estética – Parte II de II



Cuidando de Mordida de Cobra

Expus minha posição ao leitor que me ofereceu a treta e ele disse:

"Pois é, Alexandre, o tema "Blogs Gratuitos: Ética x Estética" daria muito pano prá manga. Minha posição é pró-Estética pelos motivos: o banner é feio, sutil como macaco em loja de louça, e já carregamos a marca 'blogspot' marcada com ferro em brasa no próprio nome. É o suficiente prá mim. Mas enfim..."

Acho que ele colocou a questão tão bem que virou até título do artigo: ética versus estética.

Na verdade, o que houve foi o seguinte: o Blogger deu a ele um blog de graça e pediu três coisinhas em troca.

O blogspot.com no nome do blog e o banner no topo da página não foram realmente pedidos, mas vieram com o pacote. Não há como ter um blog no Blogger sem o primeiro e, teoricamente, não deveria ser possível eliminar o segundo.

Na prática, a única coisa mesmo que o Blogger pediu foi pra ele incluir o selo do Blogger na página.

Verdade seja dita, colocar o selinho o meu leitor até colocou, quando seria fácil não colocar. O blogspot na URL ele não teve como mexer. Mas limou o banner. Pôxa, de três eu fiz dois, ele parece estar dizendo, não é o suficiente pra satisfazer esses fominhas do Blogger? E, além do mais, os banners são horríveis!

Isso tudo é muito bonito, e quase faz sentido, até você se lembrar do seguinte: o importante é o banner. O banner é a única fonte de renda do Blogger. O nome da URL e o botão são legais, ajudam, divulgam etc, mas quem paga as contas é o banner. O banner é que é fundamental para a sobrevivência da empresa.

E o banner, por motivos estéticos e anti-éticos, o meu leitor vetou.

Pior, mesmo assim, ele se sente quites com Blogger só porque o termo blogspot aparece, "marcada com ferro em brasa", em sua URL.

Imagino meu leitor socorrendo uma vítima de picada de cobra. Ele faz gaze e compressa, dá bastante água, protege a vítima do sol, faz tudo, tudo mesmo, menos aplicar o soro anti-ofídico. E depois, quando o infeliz morre, meu leitor não se conforma e ainda se acha cheio de razão: mas caramba, eu fiz tudo o que dizia aqui no manual de primeiros-socorros, tudo mesmo, só não fiz uma coisinha.

Logo a coisinha que era fundamental.

Ajude Quem Lhe Ajuda

Então, amigos leitores, eu renovo o apelo que fiz no artigo Não Existe Almoço Grátis.

Pode ser que amanhã o universo vire de cabeça pra baixo, mas hoje ainda estão valendo as regras do mercado, da oferta e da procura. Vocês podem não gostar, podem se mudar pra Albânia, podem se filiar ao PSTU, mas até a Heloísa Helena tomar o poder e nos tranformar num Cubão, a realidade ainda é o mercado. E quem ignora isso só vai fazer dar com a cara na parede.

As empresas não sobrevivem de vento e precisam pagar suas contas. Ou elas arranjam um jeito de ganhar dinheiro ou fecham.

Portanto, se existe algum serviço gratuito que você usa e gosta, descubra qual é a fonte de receita do fornecedor do serviço e ajude-o. Assim mesmo. Só isso.

Eu sei, parece um contra-senso para a maioria das pequenas mentes marxistas que conheço, que ainda acreditam que existe almoço grátis e que toda empresa é intrinsecamente má, mas minha proposta é mesmo radical.

Ajude quem lhe ajuda. Será que você é capaz de fazer isso? Se alguém lhe dá um serviço gratuito, eu proponho que você tente dar algo em troca para esse alguém.

Se ele vende produtos, sugiro que você compre um de vez em quando. Se ele sobrevive de publicidade, sugiro que você clique nos seus banners e/ou gere pageviews. Se ele tem uma parceria com o Submarino, sugiro que você compre livros através do link em seu site para que ele ganhe uma porcentagem na venda. E por aí vai.

Todas essas iniciativas são muito pequenas, mas podem fazer uma grande diferença.

Mais do que qualquer outra coisa, você estará ajudando a si mesmo.

Links Relacionados:

Não Existe Almoço Grátis - O artigo que deu origem a tudo

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Blig
SiteMeter
Nedstat


Tuesday, December 30, 2003

Blogs Gratuitos: Ética Versus Estética – Parte I de II



Um dos meus simpáticos leitores me enviou uma treta para limar os banners do meu blog. A intenção certamente foi boa, e eu agradeço, sinceramente e em público, mas decidi recusar.

Não Existe Almoço Grátis

Ultimamente, quando o Blig ameaçou cobrar pelos seus serviços e agora com a Globo.com expulsando todos os não-assinantes do Blogger Brasilil, eu escrevi um artigo chamado Não Existe Almoço Grátis , que convido todos a lerem.

Eu defendo, em outras palavras, que não temos direito algum de usufruir gratuitamente de serviços que custaram muito para ser desenvolvidos e que ainda custam muito para ser mantidos. Pelo contrário, o dono do serviço, que o criou e disponibilizou, é que tem todo o direito de cobrar por ele. Paga e usa quem quiser e puder.

Ainda acrescentei o seguinte: ninguém cobra de perverso.

As empresas que oferecem serviços gratuitos na rede sabem que a decisão de cobrar é muito impopular e que gera rigorosamente o mesmo tipo de manifestação pueril que vem acontecendo na Internet. Via de regra, essas empresas só apelam para a cobrança em último caso, para se manter vivas e porque sua forma de receita original não estava cobrindo os custos. Na maioria dos casos, essa forma de receita original é publicidade.

Como Manter a Web Gratuita

Quando eu gosto de um serviço gratuito - e eu adoro vários, como o SiteMeter, Nedstat, Comentar, Blogger, etc - eu faço questão de fazer com que essas empresas tenham algum tipo de compensação pelo presente que estão me dando. Clico conscientemente em todos os banners e botões que vejo pela frente.

Não sou criança e nem nasci ontem. Sei que se o faturamento de publicidade for bom, se o click-through compensar, essas empresas nunca vão querer se arriscar a cobrar de mim pelos serviços que usufruo de graça. Melhor ainda, nunca vão falir e me deixar sem o serviço.

Os mais jovens talvez não saibam o que é isso, mas eu ainda me lembro com pesar dos serviços gratuitos que eu adorava e que perdi, para sempre, simplesmente porque as empresas faliram. Só pra dar dois exemplos: HotLinks e e-comics. Alguém ainda lembra deles?

Realmente, não sei o que leva alguém a querer eliminar os banners do seu blog. Se o cúmulo da velocidade é fechar a gaveta e jogar a chave dentro, o cúmulo do egoísmo, se não é isso, é bem próximo.

Será que não vêem que é só por causa dos banners que eles usufruem do blog gratuitamente? Que se os banners sumirem, ou pararem de dar retorno, a empresa não vai ter outra alternativa que não fechar ou cobrar? E nenhuma dessas opções, teoricamente, é agradável ao usuário que aprecia o serviço.

O melhor jeito de manter a web gratuita é justamente ajudar as empresas que oferecem serviços gratuitos, nunca sabotá-las.

Alguém Tem Uma Idéia Melhor?

Essas pessoas que bloqueiam banners devem ser as mesmas que ficaram bradando por liberdade de expressão na internet e inclusão digital quando o Blig ameaçou cobrar.

Não existe mágica. Os funcionários da Globo.com precisam ser pagos. Eu confesso que não gosto muito de banners, mas também confesso que não tenho solução melhor.

Essas pessoas que querem usufruir o serviço (ou seja, não querem que ele feche), mas que não querem pagar por ele e nem querem ficar vendo banners no seu blog, bem, acho esses quereres muito justos, mas essas pessoas deveriam sentar e pensar em algum novo modelo de arrecadação para a Globo.com e mandar para eles urgente.

Até lá, essas três opções ficam sendo praticamente as únicas: fechar de vez, cobrar assinatura ou divulgar banners.

(conclui amanhã... cuidando de mordida de cobra.... meu humilde apelo... ajude quem lhe ajuda...)

Links Relacionados:

Não Existe Almoço Grátis - O artigo que deu origem a tudo

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Monday, December 29, 2003

Blogs de Pessoas Mortas



Em maio, três adolescentes morreram em um concerto de rock em Curitiba. Uma das meninas, Larissa Seletti, de 15 anos, tinha um blog, que ficou online por vários meses depois de sua morte. O blog era um fascinante instantâneo de como era sua vida, seus amores, sua, hmm, sexualidade.

Hipnotizado por essa história mórbida e surreal, eu escrevi uma série de artigos, sobre o blog da menina morta e sobre outros blogs de pessoas mortas também, pois acabei descobrindo que o fenômeno não é tão raro assim.

Inspirada nessa série, a DaniCast contou, em seu post de 22 de dezembro, outras histórias, algumas falsas e outras verdadeiras, de mortes na Internet. Vale a pena ler.

Muita gente que leu esses meus artigos ficou revoltada. Acharam que faltei ao respeito com a menina. Até hoje seus familiares me escrevem, prometendo me processar e me linchar, não necessariamente nessa ordem.

A questão é espinhosa. Se houve falta de respeito, foi da Larissa com ela mesma. Algumas coisas são dolorosas de um pai ler sobre sua filhinha de 15 anos, mas quem escreveu essas coisas foi ela. Larissa conta que os colegas não a deixaram ir pro meio da muvuca de um show porque "tbm ne.. qndo fui quase perdi a virgindade..." Eu só reproduzi e comentei.

Em algum momento desses últimos meses, o blog da Larissa saiu do ar, seja a pedido da família ou porque o Blig fez merda, mas eu salvei tudo no meu HD. Pensei até em colocar no ar de novo, em outro endereço, mas achei que se a família, teoricamente, pediu pra tirar do ar, não sou eu que vou colocar. Utilizo apenas as fotos, que tirei do blog de Larissa.

Chegamos então à primeira questão, que vocês devem responder depois de ler os artigos: manter no ar o blog de uma pessoa morta é falta de respeito ou, pelo contrário, é uma forma de respeitá-la e mantê-la viva?

A segunda questão é a que a DaniCast levanta: e será que é verdade? Será que podemos confiar no que a gente lê na Internet?

Sobre isso, eu já escrevi bastante. Minha resposta é: não pensem nisso. E daí se for mentira? Há pouco tempo atrás, Jorge Furtado, Lázaro Ramos e Luana Piovani estiveram no meu blog comentando o filme O Homem Que Copiava. Será que eram eles mesmo? A verdade também pode ser uma prisão, se nós a deixarmos controlar nossas vidas.

Enfim, o assunto é fascinante e dá muito pano pra manga.

Links Relacionados:

O Blog da Menina Morta - O artigo que deu origem a tudo
Blogs de Pessoas Mortas
Prisão Verdade
A Galinha do Homem que Copiava
A Diferença Entre a Verdade e a Mentira
DaniCast

LLL Ditando as Pautas da Cidade



1º Feirão de Blindados - Só Até Domingo - Foto tirada por mim, em 22 de dezembro
Vocês viram aqui primeiro. Tirei a foto do feirão de blindados na segunda, 22 de dezembro, e postei aqui no dia seguinte. O Caetano, editor do caderno de cultura da Tribuna da Imprensa, viu a foto aqui e publicou no jornal na sexta-feira, 26.

De lá pra cá, o assunto já foi comentado pelo Ancelmo Gois, pelo Tutty e até transformado em reportagem pela TV Record. E sabe lá por quem mais que eu não soube.

Não vou dizer que eles me copiaram, claro. Pra qualquer um com a verve satírica do Tutty Vaques, por exemplo, seria impossível passar por aquela faixa e não pensar alguma besteira.

Só não esqueçam que viram aqui primeiro.


Sunday, December 28, 2003

Repercussão de As Mulheres Querem Tudo



Meu artigo As Mulheres Querem Tudo, publicado entre os dias 5 e 11 de dezembro, anda causando frisson pela Internet. Vários blogs dedicaram um espaço substancial para discuti-lo, comentá-lo ou atacá-lo.

Pra começar, eu queria dizer que esse artigo foi escrito pensando em dois blogs amigos.

Um, o Kit Básico da Mulher Moderna, da querida Renata, que tinha feito, recentemente, um post chamado A Versão do Cavalo do Príncipe, sobre príncipes encantados e cinderelas. E fiquei matutando o assunto.

E, também, escrevi o artigo a convite das meninas do Elas por Elas, Mariana e Isadora, para o Calça Justa, a seção semanal onde os homens botam a boca no mundo. Mas como o Calça Justa só vai voltar em janeiro, achei que esse artigo era bom demais para esperar tanto. Escrevi outros dois artigos pra elas e decidi publicar logo o As Mulheres Querem Tudo.

Quanto à repercussão, a primeira pessoa a comentar o artigo foi minha querida amiga Diva Artisan, que sempre concorda comigo em quase tudo e dessa vez discordou em absolutamente tudo. Infelizmente, parece que o seu maravilhoso blog foi uma das vítimas das novas políticas capitalistas da Globo.com. Consegui encontrá-lo somente no cache do Google, mas reproduzo tudo mais abaixo.

Além disso, os blogs O Sorriso do Gato de Alice, em 13/12, e Perolada, em 22/12, também fizeram comentários interessantes sobre o artigo.

Finalmente, o Sandrus, do Arkhan Asilum, e o Ratapulgo, do Copy & Paste postaram a quarta parte todinha em seus blogs.

Acho natural que citem somente a quarta parte, que é onde estão as conclusões, mas não consigo deixar de pensar que o processo pelo qual cheguei a essas conclusões é bem mais interessante do que as próprias.

Dêem uma olhada no que esse povo todo escreveu e tirem suas próprias conclusões.

Abaixo, o post da Diva, do finado (espero que por pouco tempo) ArtErótika:

"Homens, perdidos no mundo sem mãe ou esposa

Para entender esse post, por favor leiam os seguintes blogs: no O Sorriso do Gato de Alice leiam o post de 11 de dezembro intitulado "Homens... " e leiam por favor no Liberal Libertino a série intitulada "As Mulheres Querem Tudo".

A mulher tinha um papel servil na sociedade. Ela era mãe, dona de casa, empregada para tarefas domésticas, criada sexual. Ela se casava e ficava casada para o resto da vida, servindo aquele sujeito. Não havia outra opção.

Isso tudo mudou. A mulher passou a trabalhar, a ter direito a orgasmos, a ter direito a votar, a ter opiniões próprias, a procurar sua própria satisfação pessoal. Os homens estão perdidos nesse contexto. Não sabem mais quem eles devem ser ou o que devem ser.

Um dos problemas que eu vejo é uma recusa surda-muda da sociedade em se adaptar a essa nova realidade. Pessoas ainda casam, tem filhos e assumem compromissos que precisam durar muito - uma vez que, se decidirem ter crianças, terão que assumir pelo menos vinte anos de responsabilidades comuns. Mas as pessoas não sabem mais como negociar relacionamentos, qualquer relacionamento.

Sabe, eu não sou feminista. Eu acho o feminismo tão prejudicial e ruim quanto o machismo. O lugar da mulher não é na cozinha ou no tanque, ou na cama de alguém, mas o lugar do homem também não é trabalhando e sustentando ninguém e a mulher não precisa queimar sutiãs em praça pública.

Tanto o homem quanto a mulher deveriam revisar seus posicionamentos dentro dos relacionamentos. Urgentemente.

Eu li todos os artigos do blog do Alê da série intitulada "As Mulheres Querem Tudo" e não consigo concordar com quase nada do que li lá.

As mulheres sabem que homem querem, os homens é que ainda procuram modelos de mulheres que não existem mais.

Os homens estão tão ou mais emocionalmente complicados do que as mulheres e pior: homens não choram, não extravasam, não falam sobre isso. Eles se fazem de blasé ou fingem que são descomplicados, mas não são. As mulheres geralmente tem maior maturidade emocional porque elas exercitam o lado emocional sem medo.

Homens ainda esperam por mulheres perfeitas sim, só que esse "perfeita" não é no sentido da máxima perfeição, não, e sim, "adequadas ao modelo que os homens ainda trazem na cabeça" - e isso, queridos, não existe mais.

Sim, a mulher acredita no amor. A mulher é educada para isso. A mulher tem anseios de ter filhos, em alguma altura da vida. E a sociedade ainda prega que para ter filhos, é necessário casar. Então a mulher, como tem feito há milhares de anos, sai em busca de um procriador e mantenedor, um macho que esteja disposto a ajudar a montar um ninho e criar filhotes. E os homens estão mais despreparados do que nunca para isso, porque a mulher, em todo o resto, mudou.

Sim, a mulher ainda "se contenta com o que encontra" e isso, está errado: temos que ser mais criteriosas, e não sair casando com qualquer um. Se todas as mulheres fossem mais criteriosas, os neanderthais se extinguiriam rapidamente.

Alê, menino carente sensível é um preconceito, cuidado. Homens são carentes e sensíveis sim, eles apenas se fazem de durões porque a sociedade espera isso deles. E pagam um ônus imenso por isso. São obrigados a viver uma vida inteira sem saber lidar direito com as próprias emoções e dominados por seus demônios interiores.

Ser mulher é tão mais fácil.

Como mencionou O Sorriso do Gato de Alice, os homens estão despreparados para se relacionar com mulheres que queiram apenas se relacionar com eles e mais nada. Não, querido, não quero casar. Não, querido, não quero dormir com outros caras. Não, querido, não quero morar junto. Sim, querido, eu amo você, mas eu amo a minha independência, a minha liberdade, e adoro morar no meu próprio apartamento, ter meu próprio emprego, sair com minhas amigas. Eu gosto do nosso relacionamento dessa maneira.

Eles enfartam. Ficam procurando armadilhas que não existem. Se sentem inúteis. Perdem seu papel tradicional e não conseguem inventar um novo. Daí acontece aquele famoso desenlace que eu já vi mais de uma vez: o cara rompe com aquela mulher independente e esquisita e vai atrás de alguma mulher que tenha sido educada de forma mais tradicional. Alguém que queira lavar as cuecas deles e fritar ovo para eles. Alguém que sonhe em casar e ser dependente. É tão mais confortável, e os amigos não vão fazer piadinhas e chamar a namorada deles de piranha só porque ela é forte e independente e sabe o que quer. A mãe dele não vai ficar perguntando "e aí, quando vocês casam?" ou "e aí, cadê o meu neto?"

Saídas confortáveis, saídas menos trabalhosas.

Não tenho soluções ou respostas para nenhuma dessas questões. Sei que não é tão simples assim. Mas talvez a ponta do fio que comece a desenrolar esse novelo seja: individualidade. Se você, homem ou mulher, cuidar de si mesmo em todos os sentidos, físico, mental, cultural, profissional, os relacionamentos com certeza fluirão melhor. Porque se o homem não precisa de empregada doméstica porque já tem uma, ou de mãe, porque já tem uma, ou de sócio-financeiro, porque a vida profissional está resolvida, fica mais fácil achar uma mulher que preencha os quesitos que deveria preencher: amiga, amante, companheira.

O mesmo vale para as mulheres."


Links Relacionados:

As Mulheres Querem Tudo - O artigo que deu origem a tudo
ArtErótika - Em cache
O Sorriso do Gato de Alice
Perolada
Arkhan Asilum
Copy & Paste
Kit Básico da Mulher Moderna
Elas por Elas


Saturday, December 27, 2003

Teoria do Chapéu



Meu novo chapéu panamá, em seu posto, sobre a minha estanteEsse natal, eu me dei um chapéu de presente. Detesto o sol do Rio e detesto andar horas pegando sol na cachola. Sempre que vou andar, levo um boné, mas não gosto do meu visual de boné: pareço um velho idiota usando um boné de criança, vivendo uma segunda infância retardada. Por isso, comprei o chapéu panamá. Agora, pelo menos, vou parecer só um gordo excêntrico, que é o que eu sou mesmo.

Descobri uma coisa interessante. Não dá pra usar chapéu e mastigar ao mesmo tempo: quando fechamos o maxilar, nossas têmporas se expandem e aperta tudo lá em cima. A não ser que o chapéu esteja simplemente muito largo (e, nesse caso, ele vai voar no primeiro ventinho) simplesmente não dá.

Eis, portanto, a minha teoria: os chapéus saíram de moda na mesma época em que os chicletes viraram moda. Foi uma batalha de titãs, de vida ou morte. Só um sairia vivo. As pessoas ou usam chapéus ou mascam chiclete. Não dá pra fazer os dois.

As fábricas de chiclete devem ter se dado conta disso cedo mas os pobres chapeleiros ingênuos só perceberam a tragédia quando já era tarde. As crianças viciadas em chiclete nos anos 40 e 50 cresceram e, nos anos 60 e 70, simplesmente jamais abririam mão de seus queridos chicletes por um mero chapéu. E foi o fim da indústria chapeleira.

Ainda bem que odeio chiclete. E estou muito feliz com meu panamá.


Friday, December 26, 2003

Recomendações de Leitura



Um dos blogs que mais me divertem é o Homem É Tudo Palhaço. São quatro mulheres que passam o tempo todo falando mal dos homens. A coisa é escrachada mesmo. Uma linha bem diferente, digamos, da minha abordagem ou da do Elas por Elas, que tentamos compreender os fenômenos comportamentais. As meninas do Homem É Tudo Palhaço não tentam compreender nada, elas só zoam. E zoam bem, o blog é engraçadíssimo.

Tudo bem, algumas vezes eu penso que elas pegam meio pesado. Porra, elas não perdoam nada. Fico me lembrando do episódio do Seinfeld em que a Elaine dá esporro nele porque ele termina com as namoradas pelas razões mais superficiais, tipo comer ervilha uma por uma. Pois a gente lê o Homem É Tudo Palhaço, ri e pensa: ou essas mulheres não sabem escolher homem e, por isso, só andam com palhaços, ou então elas são tão seletivas e tão cri-cri que espantam todos os não-palhaços. Ou ambos.

Na última semana, acompanhei, dia a dia, a melhor série do Homem É Tudo Palhaço até hoje: a história do Bodão. A história do Bodão é de chorar de rir. A história do Bodão é tão inacreditável que só pode ser verdade. A história do Bodão prova que, quaisquer que sejam os seus defeitos, as meninas do HTP contam uma história como ninguém.

Outra recomendação é o blog Canjicas, recomendado pelo Soares Silva. Acabei de ler o blog inteiro, inteirinho, com lágrimas nos olhos, de tanto rir e de emoção, pois o cara manda muito bem. Sem comentários, vão lá ler.

Última notinha: realmente, estou desovando todos os enchimentos nessa temporada natalina. Continuo escrevendo meus artigos pensados e insightful, mas estou guardando para quando os leitores voltarem. Por enquanto, vou dando dicas de leitura, malvadas, pés de leitoras, tudo o que fui guardando para os dias sem assunto.

Links Relacionados:

Homem É Tudo Palhaço - A História do Bodão
Canjicas

O pezinho de minha leitora anônima, com sua sexy tornozeleira - Clique para ver em tamanho maior

Os Pés das Leitoras



Leitora boa lê meu blog, faz comentários, linka pra mim, repassa meus emails. Mas leitora boa mesma é aquela que deixa eu fotografar e beijar seus pés.

Minha foto preferida, com o pé em cima da cadeira - Clique para ver em tamanho maiorEssa querida leitora de hoje quis ficar anônima e não me deixou tirar fotos de seu rosto. Azar de vocês, ela é uma gata.

Além da belíssima sandália, em escamas douradas, que acho que só dá pra ver na foto grande, o que mais chamou minha atenção no pezinho da minha leitora foi sua tornozeleira.

Ela não quis mostrar sua sola do pé, a sola da sandália foi o melhor que consegui - Clique para ver em tamanho maiorAdoro torno-zeleiras de bolinhas brancas, ou de pérolas, acho super sexy. Ao contrário da maioria das minhas taras, entretanto, essa eu sei exatamente de onde veio: da Dra. Cyber.

A malvada Dra. Cyber é um dos ícones da minha infância. Por causa dela, e só por causa dela, eu até hoje tenho fixação por sarongues, cabelo chanel e tornozeleiras de pérolas. Leia mais sobre a Dra. Cyber no meu artigo Elogio às Malvadas.

Não sei vocês, mas a minha foto preferida é a segunda, em que ela está com seu belo pezinho sobre a cadeira.

A perversa Dra. Cyber, seu cabelo chanel, sarongue e tornozeleira de pérolas são ícones sexuais da minha infância - Clique para ver em tamanho maiorDepois, consegui que ela colocasse o pé sobre a mesa. Sempre amei essa pose: mulheres com os pés indolentemente largados em cima de mesas me passam uma impressão de extrema sensualidade, de "não-tô-nem-aí-pras-aparências".

Infelizmente, minha querida leitora se recusou a tirar a sandália e me deixar tirar uma foto da sua sola do pé, que é o que mais gosto. Disse que estava sujinha. Insisti de tudo quanto foi jeito, mas não rolou. Essa foi pena pra mim e pra vocês: uma bela solinha do pé é algo tão lindo que uma sujeirinha nem atrapalha.

Beijinho, então, nem pensar.


Thursday, December 25, 2003

Meu Natal



Estou micado aqui em casa, atualizando um site que mantenho, um trabalho chatíssimo, longuíssimo e repetitivo.

Enquanto isso, nos intervalos, vou escrevendo mais e mais posts pro blog. Acho engraçado que a maioria dos blogueiros decretou recesso de fim-de-ano, ou algo assim, para avisar que vão ficar até começo de janeiro sem postar.

Eu sou o oposto. Nesses últimos dias, e nos próximos, é que vou escrever muito, estou em casa, sem grandes obrigações externas. Mas parece, realmente, que os leitores de blogs também decretaram recesso, pois quase ninguém apareceu por aqui hoje.

Resultado: não vou postar pra ninguém ler, mas já estou com um estoque enorme de matéria para publicar nos próximos dias, quando o pessoal começar a voltar.

Aliás, amanhã, aquela foto do feirão de blindados sai na Tribuna da Imprensa.

E outra coisa que preciso perguntar aos poucos gatos-pingados que aparecem: estão gostando da série com as vilãs? Tem a ver? Quando postei o primeiro artigo sobre malvadas, em agosto, eu estava com medo que ninguém fosse gostar, e a resposta foi eufórica. Dessa vez, talvez pelas poucas visitas, as vilãs estão meio que ignoradas.

O que acham?

Malvadas: Roleta

Roleta, provocando seu mais novo cativo, Sr.Incrível - Clique para ver em tamanho maior

Roleta também é uma das novas vilãs que estão surgindo por aqui. Esses scans são de Liga da Justiça 12, novembro de 2003, ainda nas bancas.

Roleta é dona de uma casa de lutas e apostas. Basicamente, duas vezes lutam até a morte, o povo aposta e a casa, ou seja, Roleta, sempre ganha. Claro que alguém morre, mas nossa bela vilã não se importa nem um pouco com isso.

Roleta explicando sua diabólica brincadeira aos prisioneiros, adoro esse ângulo baixo - Clique para ver em tamanho maior



Em geral, os participantes são meta-humanos pé-rapados mas, dessa vez, Roleta conseguiu capturar dois membros da Sociedade da Justiça para seus jogos mortais.

Na primeira figura, ela está conversando com seu prisioneiro, Sr.Incrível. Nada mais sexy do que o momento em que a vilã se gaba e goza de seu poder conversando com os cativos. Vejam como ela flerta com ela, passa as mãos em seu peito e rosto e acaba até dizendo: "Espero algo nada menos que espetacular."

Roleta revelando o truque de sua pequena brincadeira - Clique para ver em tamanho maior




Depois, duas belas visões de Roleta: de costas, meio de lado, mostrando belas pernas tatuadas e pés calçando sandálias de salto alto e, também, uma deliciosa visão de baixo pra cima.

A terceira figura mostra mais uma bela visão de seu corpo, a medida em que explica o jogo aos participantes.

Então, pra finalizar, ela baixa os óculos, dá o seu olhar mais sensual, sorri diabolicamente e tem, aparentemente, um enorme prazer em informar aos jogadores que o perdedor morrerá. A maldade aqui é que, ao mesmo tempo, ela parece adorar dizer isso e, por outro, ela põe o corpo fora: não sou eu quem vai matar ninguém, vocês é que vão jogar, eu vou só assistir...

Close delicioso de Roleta, enquanto pronuncia a deliciosa e inevitável sentença de morte de um dos heróis - Clique para ver em tamanho maiorNão sou boazinha?

Mais malvadas


Wednesday, December 24, 2003

Todo Mundo Não Sou Eu



Depois que fiz o post de segunda-feira, sobre tentar quebrar a corrente da culpa do natal, toda vez que dou feliz natal para um leitor, ele diz: ué, feliz natal, vindo de você?

Sim, feliz natal vindo de mim. Não parto do princípio que todas as pessoas do mundo são iguais a mim. Pelo contrário, sei que são bem diferentes. Desejo feliz chanucá pros meus amigos judeus, por que não desejaria feliz natal aos meus amigos cristãos? Mas não gosto que me desejem nem feliz natal nem feliz chanucá. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Então, para quem comemora o chanucá, feliz chanucá. Para quem comemora o natal, feliz natal.

Para quem não comemora nada, bem... boa noite.

Ateus e Crentes



De vez em quando, eu quase acredito que é possível, ao mesmo tempo, ter um cérebro e acreditar em deus. Não conheço muitos crentes inteligentes, mas o Alexandre Soares Silva tem sido uma excelente surpresa.

Seu artigo de ontem sobre ateus é um verdadeiro achado:

"Às vezes me parece (...) que Deus tem tamanho espírito esportivo que deu mais inteligência aos ateus do que aos crentes. (...) Deus, também é verdade, parece ter colocado os piores jogadores no nosso time. Não há ateu tão estúpido quanto um crente estúpido. Deus e o Diabo escolhendo os jogadores dos seus times. Deus teve pena dos aleijadinhos intelectuais e os escolheu; Deus não deixou que eles ficassem por último."

Soares, você tem razão, para os ateus, a vida é um breve piquenique: que aproveitemos bem o nosso tempo, comendo, bebendo e sendo felizes, ao ar livre, sob o sol. Feliz de quem não é um bicho sem alma e vai viver pra sempre. Feliz natal!

Tem Coisas Que Só Acontecem na Barra da Tijuca



1º Feirão de Blindados - Só Até Domingo - Foto tirada por mim, em 22 de dezembro

Agora não é mais preciso ser rico para andar blindado pelas ruas da Barra da Tijuca. Se há brechó de roupas e móveis, por que não um modesto brechó de blindados usados? Fica a dúvida: será que os poderosos executivos que mandam blindar seus carros blindam também os carros da esposa e dos filhotes? Por incrível que pareça, não: na maioria das famílias blindadas que conheço, só o macho alfa roda protegido.

Malvadas Que Amo: Beverly Lacoco



Beverly recebe a incrível notícia de que se tornará uma poderosa vilã - Clique para ver em tamanho maiorBeverly Lacoco não é uma vilã recorrente. Ela só aparece na edição brasileira número 5 do Agente X, de novembro de 2003, ainda nas bancas. Mas já foi o suficiente para fazer dela uma das minhas vilãs preferidas.

Junto com seu amante e capacho, O Olho Encapuzado, também chamado de Kenny, ela está saqueando e devastando Delta City. Ela não tem superpoderes mas o Doutor Orangotango está trabalhando nisso com afinco.

O primeiro quadrinho mostra o momento das boas notícias: o cientista maluco confirma que conseguiu encontrar um jeito de dar superpoderes à malvada. Reparem bem sua felicidade tão sincera e tão expontânea, o modo como ela pula no pescoço do seu Kenny e se diz a mulher mais sortuda do mundo!

No segundo quadrinho, a conseqüência lógica e inevitável. Meu deus, como esses homens são bobos. Será que não sabem (inclusive eu) o preço que se paga por amar as malvadas.

Beverly diz: "E devo tudo a vocês dois. Kenny, você me tornou a garota mais feliz do mundo. E o doutor, bem, o que posso dizer? Você me tornou a garota mais poderosa do mundo."

Beverly malvadamente descarta seus maiores aliados - Clique para ver em tamanho maiorE completa: "Isso significa que não preciso mais de vocês!"

Ora, é claro que não precisa. Uma boa mulher malvada não precisa de ninguém. Ela não tem amigos nem cúmplices. Só capachos e capangas, que ela usa e joga fora. Isso é tão óbvio que elas, coitadinhas, nem mesmo entendem como os homens podem ser tão bobos e se apaixonar por elas mesmo assim. Não aprendem!

Vocês podem pensar que a alegria dela no primeiro quadrinho foi fingida. Tsc tsc. Prova de que não entendem as malvadas.

Não, meus amigos. Naquela momento, ela estava sinceramente alegre e agradecida ao Kenny, justamente por ele ter lhe proporcionado os meios de ser ainda mais malvada e independente, de não precisar de mais ninguém, em especial dele, de quem ela já devia estar pensando em descartar enquanto pulava em seu pescoço.

É assim que as mulheres pensam, as vilãs, mais ainda.

Mais malvadas


Tuesday, December 23, 2003

Glauco Cruz

Ilustração de Glauco Cruz - Reparem bem na cara de êxtase do gato com essa sola do pé tão linda sendo esfregada em sua cara - quem não gostaria?Ilustração de Glauco Cruz para a coluna do Cat, do Caderno de Informática do Globo dessa semana, publicado em 22 de dezembro de 2003.

Esse cara desenha as melhores mulheres de todos os tempos - e os pés mais lindos também.

Reparem bem na cara de êxtase do gato com essa sola do pé tão linda sendo esfregada em sua cara. Quem não gostaria?

Não deixem de conferir também esse clube no Yahoo especialmente devotado às suas maravilhosas mulheres.

Aliás, já repararam como estou visual esses dias? :)

Vilãs de Quadrinhos: Forja e Magenta

Forja, em um comovente reencontro com seu ex-marido - Clique para ver em tamanho maiorUltimamente, os quadrinhos estão apresentando mais vilãs que o normal. Nas páginas da Liga da Justiça, o Flash está há quatro meses enfrentando um grupo de supervilões que inclui duas sensuais malvadas. Os scans são da Liga da Justiça 12, de novembro de 2003, ainda nas bancas.

Na primeira imagem, Forja, a líder dos vilões, tem o prazer de informar ao seu ex-marido, ajoealhado aos seus pés, que ela irá matá-lo - a ele e ao Flash.

Eu acho especialmente sexy os pedacinhos de pele que ficam a mostra em seu uniforme, incluindo batata da perna e coxas.

Na outra figura, Magenta está abraçando Viga, o supervilão que segura o Flash pelo pescoço. A malvada parece muito excitada de imaginar que o valoroso herói está prestes a morrer nas mãos dos supervilões e pede, em uma voz que só posso imaginar como doce e provocadora, para que ele mate o Flash rapidinho.

Magenta, toda molhadinha só de imaginar o Flash sendo morto pelo Viga - Clique para ver em tamanho maiorEla parece estar tão feliz e excitada que o Viga teria toda a razão em imaginar que, assim que matar o Flash, ele e Magenta terão uma noite inesquecível.

Até parece. No próximo número, com certeza alguma coisa vai estragar o prazer da bela perversa.

Mais malvadas


Monday, December 22, 2003

Quebrem a Corrente da Culpa



Não me mandem votos de Feliz Natal.

Eu sou ateu, considero Jesus (se é que existiu) apenas um sujeito muito boa praça e, aliás, a própria Bíblia, por suas evidências internas, indica que ele nasceu em final de setembro. A data em final de dezembro é bastante posterior à época bíblica e foi criada para opor o natal cristão às comemorações pagãs pelo solstício de inverno.

Não me mandem votos de Feliz Natal!Em suma, essa porra dessa data não quer dizer nada, nem pra quem é cristão de carteirinha e ama Jesus, então, por favor, não venham me aporrinhar com felizes natais.

Houve época em que eu mandava cartões de natal. Cruzes, eu até pintava os meus próprios cartões. A mão. Um por um. Não por amor à Jesus ou ao cristianismo, claro, pois ateu eu sempre fui, mas por amor ao sentimento natalino.

Que piada.

Depois comecei a ver que mandar cartões de natal era, de fato, uma grande maldade. Você está apenas contribuindo para uma grande corrente de culpa, que parece ter sido iniciado por nossas mães e que nunca mais acabará. A pessoa recebe um cartão e pensa: puxa, eu não mandei nada pra ele, eu não comprei nada pra ele, eu não falo com ele há meses/anos, caramba, que chato, e agora? Sou mesmo um cretino.

Pior, os meus cartões, por serem tão originais, pintados à mão e o escambau, deveriam aumentar ainda mais o sentimento de culpa. Afinal, como competir com isso? Vou me sentir uma ingrata se mandar um simples cartão do Garfield em resposta a um cartão desses! E agora? Só se eu for lá e der pra ele! (Infelizmente, ninguém chegou a esse ponto.)

O natal é a temporada da culpa. Sentimos culpa por não termos sido melhores, por não termos ido mais à igreja, por não termos ligado tanto para a Tia Clotilde, no Paraná, por não termos sido bons pais, filhos, irmãos ou maridos, por não termos tido tempo pra fazer cartões de natal tão bonitos quanto os que recebemos, etc.

Já há tanta culpa circulando, tentemos não dar nossa contribuição.

Eu imploro: quebrem a corrente de culpa!

Cláudia Raia, no lançamento do filme Abracadabra

Malvadas Que Eu Amo: Cláudia Raia



Eu sei, sou doente, mas vou assistir Abracadabra só por causa de Cláudia Raia.

Cláudia Raia, como Medéia, no Sítio. Reparem que risada gostosa. Não pode ser por coisa boa...Ninguém interpreta uma vilã malvada e histriônica como Cláudia Raia. Ela estava deliciosamente má como Mina, em O Beijo do Vampiro e, recentemente, como a perversa Medéia, no Sítio,

Em outras épocas, Cláudia já foi Ângela, a explodidora de shoppings, mas não era a mesma coisa. Ela estava contida, controlada - em suma, uma pessoa normal. E já descobri que Cláudia Raia gosta mesmo é de soltar a franga, rir freneticamente suas gargalhadas diabólicas, e isso ela só pode fazer quando interpreta vilãs de programas ou filmes infantis.

Ou seja, ela vai estar, novamente, enlouquecidamente má em Abracadabra.

Cláudia Raia, como a Madrasta Má, balançando seus belos dediinhos para nós como só as vilãs sabem fazerReparem na segunda foto. É impressão minha ou essa é uma pose tradicionalmente das malvadas, sacudir seus dedinhos para nós, com toda a carga de maldade e sensualidade que isso pode ter, como se apenas por balançar aqueles dedinhos sexy ela já estivesse fazendo maldades, acabando conosco, nos enfeitiçando?

E observem sua gargalhada como Medéia. Pode ser uma gargalhada boa, uma gargalhada de uma mulher boazinha que acabou de saber que o Fome Zero bateu suas expectativas?

Acho que não. Para Cláudia Raia, vilã de programa infantil, soltar uma gargalhada livre, leve e solta dessas, é porque alguém se deu muito mal. E ela, malvada, está adorando. Eu também.

Mais malvadas


Saturday, December 20, 2003

Pacto da Mediocridade



Adorei as sugestões de leituras. Já estou até lendo o primeiro, Timon of Athens, recomendado pelo Dalton, um dos meus leitores mais maravilhosos e que comenta pouco. Os outros livros eu vou ter que correr atrás, mas o literato que não tem uma coleção das obras completas do bardo em casa deveria considerar a construção civil como ramo de atuação.

Dalton, obrigado.

Shakespeare

Humor em Timon of Athens



A peça, além de ter tudo a ver com o que estou procurando, é hilária. Algumas vezes, Shakespeare tem umas tiradas que poderiam estar (pra bem ou pra mal) em qualquer sitcom americano e não consigo deixar de pensar que, hoje, ele estaria roteirizando Friends ou Will & Grace e escrevendo sua literatura séria on the side.

Só alguns exemplos:

Um cidadão reclama pra Tímon que um dos seus escravos está dando em cima de sua filha. Tímon defende o escravo:

Timon: The man is honest
Pai da menina: His honesty rewards him in itself; it must not bear my daughter.

O filósofo Apemanto é o rei das tiradas. Podia ser o George, de Seinfeld, mas é Shakespeare.

Tímon mostra uma jóia a Apemanto: What dost thou think 'tis worth?
Apemanto: Not worth my thinking.

Depois de levar outra cortada verbal, um ricaço xinga Apemanto:

Lord: Hang thyself!
Apemanto: No, I will do nothing at thy bidding. Make thy requests to thy friend.

A última é do bobo da corte. Um dos ricaços comenta:

Lord: Thou art not altogether a fool.
Fool: Nor thou altogether a wise man. As much foolery as I have, so much wit thou lackest.

E, depois, alguém ainda comenta: that answer might have become Apemanthus.

Shakespeare no Original



Sei que muitos leitores vão ter alguma dificuldade em ler e entender os exemplos acima. Nem todo mundo é fluente em inglês e nem todos os fluentes em inglês conseguem entender Shakespeare. Por outro lado, o único Shakespeare que tenho é em inglês, lê quem quer, também não me vejo na obrigação de traduzir tudo, até porque sou tradutor profissional e odeio traduzir.

Um dos meus artigos mais polêmicos foi Os Dilemas da Tradução, no qual eu defendo que devemos, sempre que for mais ou menos possível, ler as obras no original. Tudo bem, ler Dom Quixote no original é difícil, você vai perder algumas coisas, mas o simples êxtase de estar sozinho no quarto com Cervantes, só você e ele, sem intermediários, vale e muito a pena os pequenos mal-entendidos. Leiam o resto do artigo que vocês vão gostar.

Enfim, outro dia, numa lista de discussão de literatura, uma moça fez uma excelente pergunta: ela queria ler Shakespeare e perguntou se era muito difícil ler no original, se precisava de alguma leitura prévia. Ou seja, uma moça inteligente e metódica que gosta de fazer as coisas direito.

O que eu recomendei, vocês já imaginam. Falei pra ela tentar em inglês e, se não desse, somente se não desse, passasse para o português.

Mas teve gente propondo que ela lesse em português mesmo: uma das participantes, formada em Letras-Inglês, disse que ela tivera que ler Shakespeare no original pra faculdade e que achava que era quase impossível.

Quase impossível.

Quer dizer, meus amigos, eu devo realmente ser uma anomalia genético-cultural. Agora entendo porque chamam o Alexandre Soares Silva ou o Polzonoff de pedantes por simplesmente comentar suas leituras.

Que pacto de mediocridade é esse?

Se nem os nossos formados em Letras-Inglês lêem Shakespeare no original, pra que servem? Não é esse seu trabalho?

Ninguém tem obrigação de ler nada no original, embora seja sempre a melhor opção. Mas se nem as pessoas formadas em Literatura, com especialização em uma dada língua, estão lendo no original (ou acham que é melhor ler no original) as obras escritas naquela língua, então é melhor mesmo cortar esse desperdício todo pela raiz.

Eu sempre achei meio herético e escandaloso esse negócio de "desconstruir Hamlet" e academicidades do gênero. Meu deus, porque alguém quereria desconstruir Hamlet - ou qualquer outra obra literária? Que instinto perverso é esse que faz uma pessoa que vê uma obra linda e bem construída ter ganas de desconstruí-la linha por linha?

De vez em quando, ainda sai algo de bom das faculdades de literatura, mas fico pensando: não seria mais útil para a sociedade botar esse povo todo pra construir prédio, carregar caixote ou servir mesa?

Links Relacionados:

Timon of Athens - Extraído do Tales from Shakespeare, de Charles e Mary Lamb


Thursday, December 18, 2003

Romances sobre Dinheiro



Estou escrevendo um romance sobre o dinheiro e sua influência em nossas vidas e gostaria de usar vocês um pouquinho como fonte bibliográfica. Como vêem, hoje estou só pedindo.

Gostaria de ler mais livros que tratassem dos dilemas da relação do homem com seu dinheiro, ricos em decadência ou novos ricos em ascensão, coisas assim.

Alguns dos livros relacionados que já li são:

- O Leopardo, do Lampedusa

- Theory of the Leisure Class, do Veblen

- Tender is the Night, do Fitzgerald

- O Jardim das Cerejeiras, do Tchecov

O que mais vocês podem me recomendar?

Três Perguntas



Eu tenho três perguntas pra vocês. Perguntas simples, rápidas e diretas. Espero respostas francas, mesmo que seja apenas que vocês não sabem do que estou falando, ou que sabem, mas não conhecem o suficiente para dar uma opinião. Caso tenham uma posição definida, por favor expliquem seus motivos.

Vamos lá:

Capitu, culpada ou inocente?

Antígona ou Creonte?

Floriano ou Saldanha?

Depois que eu achar que todo mundo que tinha que dar opinião já deu, eu comento o assunto.

Um épico injustiçado



Cheios de dedos, intelectuais têm dificuldade em reconhecer os méritos literários de "O senhor do anéis"

por Alexandre Cruz Almeida

"O Senhor dos anéis: o retorno do rei", terceira parte da trilogia dirigida por Peter Jackson, tem estréia marcada nos Estados Unidos para 17 de dezembro. No Brasil, o filme deve estrear no dia de Natal. Deve. Apesar de o site da Warner ainda listar a estréia nacional como confirmada para o dia 25 de dezembro, fontes próximas já dão como certo o adiamento dessa data. As especulações variam. Alguns cogitam a sexta-feira, 26, outros, o sábado, 27, mas a maioria concorda que a data mais provável é a do feriado de 1º de janeiro.

"O que se sabe com certeza absoluta é que a pré-estréia será no dia 20 de dezembro," diz Daniel Cossi, Fundador e Diretor-Presidente da Sociedade de Tolkien Brasileira .

Naturalmente, o possível adiamento não agradou em nada a legião de fãs de Tolkien no Brasil. E agradou menos ainda o motivo alegado: evitar concorrência direta com "Abracadabra", o novo filme da Xuxa, que estréia dia 19, também pela Warner.

A mensagem é clara: o estúdio considera que ambos os filmes têm o mesmo público e, sendo o caso, por que colocá-los para brigar logo de cara? Não há motivo para arriscar diluir o impacto cada vez mais importante do primeiro fim-de-semana. Além disso, não haveriam cinemas suficientes para comportar dois megalançamentos simultâneos.

Como Xuxa teria se recusado a trocar a data do lançamento de seu filme, só restou à Warner adiar a estréia de "O senhor dos anéis" por aqui. Não há porque estranhar a banca da ainda rainha dos baixinhos: seus filmes são disparados as maiores bilheterias do cinema nacional.

Mercadologicamente, não se pode negar que o estúdio tem lá sua razão, mas vá convencer os fãs de Tolkien. Por seu lado, eles também argumentam que os públicos-alvo não são tão semelhantes assim: enquanto o filme da Xuxa é voltado para crianças e pré-adolescentes, "O senhor dos anéis" é um filme para todas as idades.

"No Brasil, vende-se mídia e não filmes," opina Daniel Cossi, que também é editor do Guia de Tolkien, do Projeto SobreSites. Ele acredita que o problema está, justamente, no modo como os filmes são vendidos no Brasil: o apelo de filmes como o da Xuxa, diz ele, são mais pelas participações especiais de uma avalanche de nomes famosos do que por suas qualidades cinematográficas, como roteiro e produção.

Mas não é de hoje que "O senhor dos anéis" é taxado de simples obra infanto-juvenil.

Tolkien e a Tradição Épica

Há muito mais literatura entre o primeiro e o último livro de "O senhor dos anéis" do que suspeita a vã filosofia dos doutores em Literatura Comparada.

A trilogia se insere solidamente na grande tradição das narrativas épicas e não fica a dever a nenhuma. Pelo contrário, é a síntese de todas, com uma roupagem moderna e mais acessível.

Tolkien faz uso de todos aqueles arquétipos que povoam o imaginário humano desde as primeiras rodas ao redor da fogueira até a mais recente novela das oito. Em seus livros, e não só em "O senhor dos anéis", podemos encontrar os monstros irredimíveis e os monstros que se revelam heróis, os heróis incorruptíveis e os heróis corrompidos, o rei que revela sua nobreza ao se comportar com um homem do povo e o rei que revela sua falta de berço ao abusar das prerrogativas do cargo. Duendes, magos, princesas, elfos e anões completam a lista de arquétipos.

Apesar disso, "O senhor dos anéis" nunca é um romance fácil. Ele se utiliza dos arquétipos sem se submeter a eles. Distorce nossas expectativas e nos revela mais do que esperávamos. Sua deliciosa complexidade se deve nem tanto às referências geográficas e mitológicas da Terra-Média, dificuldade que um bom glossário resolve, mas sim às inúmeras camadas de leitura e interpretação que a saga exibe.

"O assassinato no Expresso Oriente", por exemplo, clássico de Agatha Christie, foi escrito unicamente por ela, sem a participação de nenhum leitor. Não interessa quantas vezes o lermos: ele vai sempre dizer a mesma coisa, contar a mesma história.

Experimente ler "O Processo", de Kafka (ou "O senhor dos anéis", de Tolkien) de dez anos em dez anos: a cada leitura, você estará segurando um livro diferente.

A crônica da Terra-Média se presta a múltiplas leituras.

Uma leitura mais clássica, por exemplo, se focalizaria em Aragorn, o herói épico tradicional, forte, seguro, leal, comprometido, um poço de qualidades romenescas.

A leitura mais óbvia pensa o livro como a história de Frodo. Por um lado, o portador do anel é o herói trágico por excelência, escolhido pelo destino para se sacrificar pelo bem comum, sem esperar nada em troca. Como ele mesmo diz, em um dos trechos mais bonitos do livro, ele salvou o Condado, mas não para ele; algumas vezes, alguém tem que desistir de algo para que os outros possam usufruir dos seus benefícios.

Frodo também encarna um típico personagem do imaginário do século XX: o homem comum pego em acontecimentos muito maiores que o obrigam a navegar entre escolhas morais complexas. O exemplo mais imediato são os chamados "romances sérios" de Graham Greene.

Mas há outras leituras possíveis do épico de Tolkien.

Esqueçam os lordes como Aragorn e, de certo modo, Frodo. Experimentem ler o livro como a história de um jardineiro simples que seguiu seu patrão sem titubear em uma missão suicida do outro lado do mundo.

De certo modo, Sam é o único que não se deixa deslumbrar pelos acontecimentos históricos que presencia. Até mesmo Merry e Pippin têm suas ilusões de grandeza e orbitam as cortes dos reis humanos. Mas Sam, o simples Sam, de mentalidade tacanha e direta, consegue o que nem os mais poderosos conseguiriam, usar o anel sem se corromper, e depois voltar calmamente para o Condado e viver feliz para sempre.

Outras leituras são possíveis. E a cada nova leitura, o enredo do livro revelará novos símbolos, novos significados, novos tesouros.

Apesar disso, os doutores da Academia, que suspiram por grandes épicos da humanidade como "La Mort d'Artur", "Nibelungenlied", "El Cid", "Os Lusíadas" e "Bewoulf", torcem os narizes para "O senhor dos anéis".

É pena. Iriam adorar. O livro foi escrito para eles e por um deles. Ninguém melhor do que eles para aproveitar todas as referências e estruturas simbólicas do texto.

Mas, infelizmente, os doutores da Academia, e tantos outros, não lêem "subliteratura".

Publicado na Tribuna da Imprensa, a Dez.17, 2003

Links Relacionados:

Guia de Tolkien SobreSites
Sociedade de Tolkien Brasileira
Warner Bros
Omelete
Cinema em Casa
Guia de Cinema SobreSites


Wednesday, December 17, 2003

Estréia na Tribuna da Imprensa



Hoje é minha estréia no diário carioca Tribuna da Imprensa.

Para quem não conhece, a Tribuna desempenhou um papel importante na história do Brasil: nas mãos de Carlos Lacerda, o jornal fez e desfez governos. Nos últimos tempos, tem acolhido blogueiros esparsos em suas fileiras, como Clarah Averbuck, João Paulo Cuenca e, agora, eu.

Conheci o Caetano, editor do caderno de cultura Tribuna Bis, através da minha sensacional leitora Júlia Viegas. Navegando aqui pela blog, o Caetano leu o post sobre Tolkien, na série Literatura Imaginativa, gostou e me convidou para adaptar o artigo, falando também um pouco sobre o filme, para a capa do Tribuna Bis de hoje.

Aqui está a criança: Um Épico Injustiçado.

Aproveitem, a Tribuna não tem arquivo on-line e o link só é válido hoje. Amanhã, eu publico o texto completo aqui.

Caetano e Júlia, obrigado.

Os Cariocas Não São Mais os Mesmos



O encontro estava marcado para às 20h, no Centro. Eu, como trabalho em Jacarepaguá até às 21hs, já avisara que iria chegar a partir de 22:30hs, que é o tempo de chegar em casa, tomar banho e fazer a viagem.

Cheguei no Amarelinho às 23hs, depois de cruzar a cidade, esperando poder comprar o Cabotino das mãos do próprio autor, falar mal de literatura contemporânea, e também conhecer minha leitora Pauvolida e as blogueiras Paula e Isadora.

Nada. Encontrei só a queridíssima Mariana, do Elas por Elas, já pagando a conta.

O que houve com os cariocas? Nem mesmo a Pauvolida, que foi lá pra me conhecer, me esperou até às 23h e olha que avisei que iria chegar às 22:30hs. Pôxa, na minha terra um atrasinho de meia hora, ainda mais pra eventos sociais e em uma noite de chuva, são aceitáveis.

Gente, não tem problema, conheço vocês na próxima.

Elaine, mil desculpas por você ter perdido a viagem. Se tivesse esperado a meia hora, a gente tinha se conhecido.


Tuesday, December 16, 2003

Última Chamada para o Encontro Bloguístico



Gente, é hoje, terça-feira, 16 de dezembro. Quem quiser me conhecer (e eu quero muito conhecer vocês!) basta comparecer ao Amarelinho, na Cinelândia, centro do Rio de Janeiro, a partir das 21hs. Eu estarei lá, com certeza, e também a Paula, do Epinion, o Polzonoff, a Mariana e a Isadora, do Elas por Elas, entre outros.

Apareçam.

A Literatura Imaginativa, Parte IV de IV, Final:
J. J. Veiga e a Literatura Distópica



Sombras de Reis Barbudos, que eu reli, na empolgação de escrever esse artigoJ. J. Veiga foi dos poucos autores brasileiros que ousou ser imaginativo. Ao lado de Adonias Filho, Cornélio Penna e Lúcio Cardoso, J. J. Veiga faz parte do meu time de grandes autores brasileiros esquecidos. Em breve, vou falar longamente sobre cada um deles e fazer o que eu puder para ressucitá-los.

Outro dia, ouvi alguns literatos conversando sobre literatura distópica. Pra quem não sabe que bicho é esse, estamos falando do contrário da literatura utópica: a muito grosso modo, livros passados em mundos terríveis, em futuros indesejáveis.

Enfim, um deles estava todo feliz e orgulhoso por ter descoberto o russo Zamiátin, cujo principal romance é às vezes traduzido por aqui como Nós, às vezes como A Muralha Verde. E o literato dizia, educando os colegas, que muita gente pensava que a literatura distópica começa com Brave New World, do Huxley, ou 1984, do Orwell, mas que, na verdade, Zamiátin veio antes deles todos, estabeleceu todos as convenções do gênero e os dois citados nada mais fizeram que adaptar e atualizar Zamiátin.

E eu, que nunca estudei nem quero estudar literatura, que nunca tinha ouvido falar de literatura distópica e que só leio os livrinhos, olho as letrinhas e tento me divertir, comentei, que legal, e vocês já leram J. J. Veiga?

Sobrancelhas sobem, sorrisos irônicos brotam: não é aquele autor de livros infantis?

Ignorei o comentário.

Sei lá, falei, me parece ter algo a ver, Os Pecados da Tribo é um livro excelente e se insere exatamente nesse gênero literário que vocês estão discutindo. Além disso, os outros dois grandes romances dele, Sombras de Reis Barbudos e A Hora dos Ruminantes, também têm vários pontos de contato com a distopia, pois tratam de cidades pequenas invadidas por forças tirânicas e incontroláveis que tornam a vida insuportável.

Eles balançaram a cabeça, me deram um pirulito, coitadinho, ele nem sabe do que está falando, e me mandaram ir brincar lá fora. Duvido que algum deles tenha corrido atrás de J. J. Veiga depois para sequer ver qual era.

O Pastor das Nuvens, de Marco Túlio CostaVeiga, assim como Lobato e Soares Silva, também escrevia para crianças. Parece inevitável. Os autores que realmente têm imaginação para dar e vender, mesmo que escrevam livros "sérios", acabam transbordando essa verve também sobre a literatura infantil – se é que existe esse bicho.

Seus três grandes romances, já citados, às vezes se confundem, em minha cabeça, com seus romances mais juvenis, como Relógio Belisário e Risonho Cavalo do Príncipe, e fico sem saber quais são os juvenis e quais são os adultos.

Quando penso mais um pouco, eu me pergunto, na verdade, se essa classificação existe ou faz o mínimo de sentido.

Também sinto isso em relação à Marco Túlio Costa, excelente escritor. Li vários de seus livros quando era adolescente, mas estou falando especialmente de O Canto da Ave Maldita (outro romance distópico por excelência que os doutores da PUC nunca vão ler) e O Pastor das Nuvens (romance simbólico passado em uma terra que, na verdade, é um tabuleiro de xadrez!), livros que não fariam feio em nenhuma antologia literária do mundo.

E penso: são mesmo livros infanto-juvenis ou são apenas livros? São livros que devem alguma coisa a alguém? São livros menores? São livros que precisamos ler fazendo concessões?

Não. Com certeza, não.


Monday, December 15, 2003

A Literatura Imaginativa, Parte III de IV:
Tolkien e a Literatura Épica



Perdeu-se o gosto pela literatura imaginativa.

A gente lê A Coisa Não-Deus e fica com essa impressão, insidiosa, ali na esquina da cabeça, de que estamos lendo literatura infanto-juvenil. Sabemos que não, pelo menos nós que temos mais de meio cérebro, mas a impressão é irresistível. E lamentável.

É como se tanta explosão de criatividade não pudesse ser voltada para adultos. Adultos são sóbrios e caretas, adultos não se interessariam por um anjo que aprendeu inglês lendo The Great Gatsby e, por isso, chama todo mundo de "old sport". Não, imagina, só crianças gostariam de uma coisa dessas.

Mas, se quisermos rebater esse preconceito, teremos problemas. Afinal, que outros livros de literatura contém tamanhas explosões de criatividade?

Os primeiros nomes que vêm à cabeça são, claro, das chamadas subliteraturas, horror e ficção científica, e a literatura infanto-juvenil. Lobato, Rowling, Tolkien, Asimov, Bradbury, Lovecraft, King. Um dos excelentes livros que li esse ano, La Invención de Morel, de Bioy Casares, também se insere nessa tradição imaginativa da ficção científica.

Não vou entrar no mérito de definir o que é literatura e o que é subliteratura, isso é um trabalho de sísifo que só gente numa mesa de bar, cheia de chope na cachola, se propõe a fazer. Quando você senta no computador, já se dá conta que é melhor falar de coisas menos polêmicas e mais seguras, como o conflito no Oriente Médio.

Mas resta o fato de que a maioria dos autores borbulhantes de imaginação são considerados como paraliteratura.

J.R.R. Tolkien (atenção: spoiler abaixo)

J. R. R. TolkienTolkien é muito, muito melhor escritor do que lhe atribuem. O Senhor dos Anéis é um dos melhores livros de todos os tempos e digo isso sem medo da retaliação dos imbecis. Ele se insere solidamente na grande tradição das narrativas épicas e não fica a dever a nenhuma. De fato, é a síntese de todas, com uma roupagem moderna e mais acessível.

Apesar do uso dos arquétipos facilmente identificáveis, característico da tradição épica, O Senhor dos Anéis nunca é um romance fácil, que se revela à primeira agulhada. Ao contrário, ele é complexo (e não estou falando, naturalmente, do enredo e das referências mitológicas) e suas múltiplas camadas de significado sempre guardam um novo e delicioso segredo para nós.

Quase todos, por exemplo, lêem o romance como sendo a história do Frodo (ao mesmo tempo, herói trágico por excelência e, na mais recente tradição do século XX, homem comum pego em acontecimentos maiores que ele) ou do Aragorn (o herói épico tradicional).

Mas esqueçam o pobre ring bearer (como é que traduziram isso em português?) ou o rei bã-bã-bã: leiam o livro como a história de um jardineiro simples que seguiu seu patrão em uma missão ao outro lado do mundo e de como ele conseguiu salvar seu mundo, seu condado, casar, ter filhos e ser feliz, tendo, no processo, por sua firmeza de caráter, encontrado forças para fazer o que nem mesmo os mais poderosos conseguiriam: usar o anel e não ser corrompido por ele.

Lendo o romance sob esse prisma, muitos símbolos e temas mudam totalmente de significado e o livro ganha um twist muito diferente. Experimentem.

Conheço literatos que têm orgasmos com La Mort d'Artur, Nibelungenlied, A Eneida, A Odisséia, El Cid, Os Lusíadas e Bewoulf, mas torcem o nariz ao Senhor dos Anéis: subliteratura, escrito para crianças, só não é pior que Harry Potter, argh.

Sinto muita pena desses cidadãos. Não por serem imbecis preconceituosos, claro, pois se fosse sentir pena de todo imbecil preconceituoso, não faria outra coisa na vida. Sinto pena porque o Senhor dos Anéis foi escrito para eles, e por um deles, porque ninguém melhor do que eles poderia aproveitar todas as referências e estruturas simbólicas do texto e porque sei que eles também teriam os mesmos orgasmos múltiplos lendo Tolkien.

Amanhã, conclusão... J. J. Veiga e a literatura distópica...


Sunday, December 14, 2003

A Literatura Imaginativa, Parte II de IV:
Estudo de Caso: Autran Dourado



Autran DouradoLi em algum lugar, faz pouco tempo (ou foi o Alexandre Soares Silva escrevendo ou foi o Polzonoff escrevendo sobre A Coisa Não-Deus) que os autores brasileiros parecem ter sido convencidos, em algum momento, que imaginação e boa literatura não combinam. O ideal de todos parece ser reescrever Um Coração Simples, do Flaubert, o romance, por excelência, onde nada acontece.

Ópera dos MortosO comentário me remeteu inevitavelmente a Autran Dourado. Sua obra-prima, Uma Vida em Segredo, é uma releitura de Um Coração Simples, feita, diz ele, antes de conhecer esse livro. Por tudo o que sei da integridade artística de Dourado, não há motivo para duvidar dele.

(Eu sempre adoro imaginar como seria um encontro entre prima Biela e Macabéa. Acho que vou acabar escrevendo esse pastiche algum dia. Pena que vai ser tão curto – e sem diálogos!)

Em seus ensaios, Dourado defende que o número de peripécias em uma narrativa é inversamente proporcional à sua qualidade literária. É como se quanto mais coisa acontecesse, quanto mais interferência houvesse, mais difícil fosse prestar atenção na arte. Dourado não só vive por essa lei como parece ter convencido bastante gente disso.

A Barca dos HomensNão é que ele ache, por exemplo, que Guerra e Paz seja um mau livro: ele diz que só um Tólstoi teria conseguido escrever um bom livro com tanto enredo assim, de modo que é melhor nós, pobres mortais (no que ele humildemente se inclui), nem tentarmos.

Dourado é um artesão da língua, com mais de 60 anos de estrada. Ninguém pode ser mais correto do que ele: o homem é praticamente infalível. Mas, se nunca falha, também nunca acerta. Seus livros são perfeitos, verdadeiras obras-primas da ourivesaria, mas sem gosto (a palavra que me vem à cabeça é bland), meio mortos e frios, sem vida, sem energia. Eu procuro o que criticar e não encontro, os romances são, via de regra, excelentes, mas há uma falta dramática de alguma coisa que não sabemos precisar.

Os Sinos da AgoniaEu gosto de Dourado e não digo isso levianamente. Já li O Risco do Bordado, Um Cavalheiro de Antigamente, Uma Vida em Segredo, Ópera dos Mortos, Os Sinos da Agonia, Uma Poética do Romance, A Serviço Del-Rei e A Barca dos Homens. E vou ler outros, pois não desisti dele. Pra quem se pretende artesão-aprendiz como eu, é sempre útil (pra não dizer gostoso) apreciar o trabalho de um mestre-artesão, mesmo que falte alguma coisa que não se sabe bem o que é.

De todos esses livros, só mesmo Uma Vida em Segredo pode ser considerado um grande romance, apesar de ser releitura de Um Coração Simples, apesar de ser frio e imóvel e apesar de se inserir solidamente na emocionante tradição no romance no qual nada acontece.

Enfim, a vida é injusta. Alexandre Soares Silva acabou de chegar e já desbancou, com um só livro, o mestre-artesão de 60 anos de experiência. A crítica só não sabe disso ainda, mas vai saber.

Amanhã, Tolkien e a literatura épica...


Saturday, December 13, 2003

Quem Tem Medo da Violeta?



Eu tenho. Eu tenho medo da Violeta.

Tenho medo porque ela expõe todas as minhas fraquezas. Tenho medo porque, perto dela, eu me sinto pequeno, mesquinho, hipócrita, egoísta... normal.

A Violeta me impressiona por sua paixão, intensidade, sinceridade, rebeldia, irredutibilidade. Ela não admite, não cede, não aceita e não compactua.

Tenho medo da Violeta porque acho que estar com ela é como estar com aquelas menininhas insuportáveis de cinco anos de idade que te cutucam e dizem, na cara dura: tio, você é feio e gordo. E aí, você faz o quê? Se for honesto consigo mesmo, você responde: é, eu sei, mas nunca escuto ninguém me dizer isso, apesar de todo mundo me olhar e pensar isso. E agradeço.

O medo que eu tenho da Violeta me faz entender melhor o medo que as pessoas têm de mim. O medo que tenho da Violeta me faz entender que muitas vezes temos medo não do outro, do estranho, mas sim do ideal que não conseguimos alcançar, da pessoa que não somos porque simplesmente não nos esforçamos o suficiente.

Sei que já caminhei muito nessa minha estrada, sei que estou mais longe do que muita gente, mas também me é um conforto saber que a Violeta está lá na frente, luminosa, brilhando como um farol, mostrando o caminho.

Violeta, não corte seus pulsos. Talvez pessoas como você tenham mesmo que ser sozinhas, porque não há, de fato, ninguém ao seu lado. Mas não se mate, não ainda.

Antes, eu quero, pelo menos, e quero muito, te conhecer.

Alguns dos melhores momentos dos últimos dias:

"Eu não vou bancar a conciliadora e reajustar minhas palavras para que elas agradem todo mundo. Eu poderia chegar agora e escrever "bom, pessoal, o que eu quis dizer é que eu não acredito em exclusividade para mim, se você acredita nisso para você, vá em frente e, óbvio, seja feliz", mas, eu não vou fazer isso, porque eu, realmente, não acredito na porra da exclusividade nem pra mim nem pra ninguém. Também não acredito em "segurança emocional", porque todas as vezes que eu senti a tal da "emoção" com relação ao que quer fosse foi como se eu tivesse realmente sido jogada do 11o andar. Não existe segurança emocional, nunca existirá e, infelizmente, eu estou certa quando digo isso."

Para quem gostar, recomendo a Prisão Segurança, onde eu falo, basicamente, sobre isso, só que muito mais longamente e sem tanta indignação.

Outra, sobre os libertários de butique:

"Uma das coisas que mais me revoltam nessa vida são as pessoas que tanto criticam a monogamia, mas que, em sua essência, são apegadas a esse valor como o que há de mais sagrado nesse mundo. Alguns casais pensam que porque vão a casas de suingue e porque permitem que seus parceiros façam sexo com quem tiverem vontade, estão sendo contra a monogamia. (...) Você trepa com outras pessoas pro seu casamento não cair no tédio. Você vai a casas de suingue, você paga prostitutas, você acha lindo que sua esposa tenha outros parceiros, única e exclusivamente porque você não quer que sua relaçãozinha de merda, sua relaçãozinha de papai-mamãe morra."

Violeta Hardcore


Friday, December 12, 2003

Conheça Seu Blogueiro Predileto



Não necessariamente eu. Nessa terça, 16 de dezembro, as meninas do Elas por Elas, a Paula, do Epinion e o Polzonoff (entre outros) vão promover um encontro no Amarelinho, na Cinelândia, às 20h.

Eu vou, com certeza. Chegarei por volta das 22:30hs.

Tem muitos leitores que eu quero conhecer. Tem muitos leitores que querem me conhecer.

Bem, apareçam.

A Literatura Imaginativa, Parte I de IV:
A Coisa Não-Deus, de Alexandre Soares Silva



A Coisa Não-Deus, de Alexandre Soares SilvaAcabei de ler A Coisa Não-Deus, de Alexandre Soares Silva, e a minha primeira impressão foi: esse é o melhor livro que li esse ano.

Como afirmações desse tipo são sempre temerárias, ainda mais porque leio muito, resolvi repassar minha lista de leituras de 2003 para confirmar a façanha.

De cara, achei melhor contextualizar para "melhor obra de ficção que li esse ano", pois The Theory of the Leisure Class, do Veblen, Walden, do Thoreau e Decline and Fall of the Roman Empire, do Gibbon são, nessa ordem, os melhores livros que li esse ano. Naturalmente, perder desses três pesos-pesados não é demérito algum.

(Alexandre, o Sabino disse uma vez que escritores são como figurinhas: a gente troca com os amigos e ainda se orgulha de mostrar o álbum completo. Você tem esse Saramago? Eu tenho dois desse Ubaldo, quer trocar?, por aí vai. Por isso, não me sinto cabotino de citar tantos nomes de livros e autores. Aliás, na sua parada do orgulho leitor, o gordo lendo o Decamerão sou eu!)

Mas será que A Coisa Não-Deus é mesmo o melhor livro de ficção do ano? Passei a lista em revista.

Eu diria que os finalistas são Dias & Dias, da Ana Miranda, Aquele Rapaz, do Bernadet, Decamerão, do Bocaccio e Les Particules Eléméntaires, do Houellebecq.

Passo e repasso a lista, são nomes de relativo peso, será que A Coisa Não-Deus é mesmo o melhor livro do ano?, mas primeiras impressões são, realmente, essenciais.

Sinto que deveria colocar o Decamerão na frente e, vamos ser sinceros, o Decamerão é maravilhoso, é mesmo um patrimônio da humanidade que ainda estará sendo lido daqui a milênios. Mas é uma colcha de retalhos de histórias de qualidade bem discrepante.

Os outros três romances, todos tão contemporâneos quanto A Coisa Não-Deus, são sensacionais, mas talvez nenhum com status de obra-prima, de uma obra maior. Talvez nem A Coisa Não-Deus. Difícil dizer, em se tratando de livros tão recentes.

Mas releio, mais uma vez, minha lista de leituras e a impressão se mantém: A Coisa Não-Deus foi a melhor obra de ficção que li em 2003.

Estorvo, do Chico Buarque

Talvez eu não esteja sendo de todo justo. Logo depois de ler A Coisa Não-Deus, eu li Estorvo, do Chico Buarque. Na verdade, reli.

Estou escrevendo um artigo polzonoffiano sobre tudo o que há de ruim na literatura brasileira. Estorvo (fácil, um dos piores romances de todos os tempos) está servindo de verdadeiro case-study do assunto.

Bem, perto de Estorvo, até Onze Minutos, do Paulo Coelho, me pareceu ótimo.

Porque o Livro É Bom?

Pra começar, o livro é engraçado, o que é um requisito sine qua non para grandeza artística. Um artista que não sabe rir, de si mesmo e dos outros, nunca será grande.

Mais importante, o livro é imaginativo, e não pede desculpas por ser imaginativo, algo que poucos livros hoje em dia se dão o direito de ser.

Amanhã, Estudo de Caso: Autran Dourado...

Links Relacionados:
Alexandre Soares Silva - O Blog do Alexandre, meu novo blog favorito
Paulo Polzonoff Jr. - Outro blog favorito, de um crítico literário sensacional
A Literatura da Falência do Macho - Excelente artigo do Polzonoff sobre Houellebecq, entre outros


Thursday, December 11, 2003

As Mulheres Querem Tudo, Parte IV, Final:
Lutando Contra o Príncipe Encantado



Uma das grandes diferenças entre homem e mulher (a muitíssimo grosso modo, obviamente) é que os homens, emocionalmente menos complicados, sabem bem o que querem em termos de mulher, encontram rápido, ficam felizes com a descoberta e se acomodam.

Já as mulheres nunca sabem com certeza que tipo de homem estão procurando.

A maior prova disso: os homens, quando reclamam de suas mulheres, é porque elas mudaram.

As mulheres, por outro lado, dizem: mas esse homem não muda nunca!

O problema está na educação.

Ninguém nunca diz pra um menino que mulheres são perfeitas, nem mesmo que deveriam ser perfeitas e, muitíssimo menos, que ele deveria esperar por uma mulher perfeita.

Pelo contrário, a educação de um menino entatiza, quando muito, quantidade, nunca qualidade. Pra que esperar pela mulher perfeita, se você pode passar o rodo nas imperfeitas, que são muito mais divertidas?

Enquanto isso, as mulheres sofrem uma perversa lavagem cerebral: o paradigma do príncipe encantado lhes é enfiado goela abaixo. Não interessa se é culta ou ignorante, pobre ou rica, todas as mulheres, em algum momento, terão que chegar a um acordo com o príncipe encantado: ou o rejeitam ou sucumbem a ele. De qualquer modo, ele está sempre ali, sempre assombrando.

Antigamente, as mulheres primeiro se guardavam para o príncipe e, depois, ou viravam solteironas, ou acabavam se sujeitando a casar com meros plebeus.

Hoje, as mulheres se divertem enquanto o príncipe não aparece em suas vidas, mas ainda assim planejam, em algum momento, assentar residência com o príncipe e virar mulheres sérias.

O princípio é radicalmente o mesmo: há sempre um ponto bem definido no futuro em que haverá essa tão esperada ruptura entre o presente imperfeito e uma espécie de nirvana que se seguirá ao encontro com o homem perfeito.

Os homens se casam com suas mulheres pelo que elas são ou, pelo menos, pelo que acham que elas são. Por isso, sua reclamação principal é que elas mudam: quando casei com você, você não era assim, você não fazia isso, você está ficando uma megera igualzinho à sua mãe. E com as mesmas ancas da sua mãe também!

Já as mulheres se casam com os homens apesar de seus defeitos. É quase como se tivessem desistido de encontrar o príncipe encantado, mas não de fabricá-lo. Já que a porra do príncipe não surgiu, eu mesma faço o meu, pronto!

Então, se casam com alguém desejável, mas com defeitos já visíveis, quase sempre já identificados e catalogados, na esperança de conseguir, aos poucos, mudá-lo de acordo com o ideal de perfeição do príncipe. Com o tempo, já que o homem não muda, as frustrações vão crescendo.

O mais engraçado é a falta de comunicação.

Eu já vi homens sinceramente estupefatos: como ela pode ficar tão furiosa de eu fazer isso e aquilo se eu sempre fiz essas coisas, durante o namoro, durante o noivado, durante os primeiros anos do casamento, e ela nunca disse nada?

Simples, meu caro. Ela sempre odiou isso, mas casou com você apesar disso, casou com você porque achou que você iria mudar, amadurecer, que ela iria conseguir fazer você parar com isso.

E as mulheres também ficam sinceramente estupefatas: mas eu não entendo isso, esse homem está com quase quarenta anos e continua largando a toalha em cima da cama e querendo encher a cara com aqueles cachaceiros amigos dele, quando ele tinha vinte anos, tudo bem, mas será que ele não vai amadurecer nunca?

Naturalmente, ambas as lógicas (sic) são mutuamente incompreensíveis.

As mulheres têm todo o direito de casar com um neandertal e depois decidir que querem um cro-magnon. Mas então que troquem de modelo. Maldade é querer exigir que um bruto, com quem casaram por ser um bruto, de repente tenha rompantes de lorde.


Wednesday, December 10, 2003

Programa Nacional de DST/Aids vs Igreja Católica


Programa Nacional de DST/AidsTrabalhei por um tempo no site do Programa Nacional de DST/Aids e, como todo mundo lá, tenho um orgulho planetário das iniciativas brasileiras nessa área.

Agora, tenho mais orgulho ainda. Na segunda-feira, o PN DST/Aids aumentou o volume de uma guerra surda que já se travava há tempos, dizendo que a Igreja Católica "está errada ao insistir que o preservativo não protege, e pode estar cometendo mais um crime contra a Humanidade".

Sou só eu, ou vocês também adoraram esse "mais um"?

A carta aberta divulgada pelo PN DST/Aids chega a me dar calafrios, fico com lágrimas nos olhos, ainda mais porque conheço os caras, sei que eles vivem e batalham por esses ideais todos os dias e que não há um pingo de hipocrisia por trás de nenhuma de suas palavras.

Alguns dos melhores trechos:

"Estamos em um país democrático, democracia esta que parcela da própria Igreja ajudou a construir, com a coragem de religiosos como Dom Paulo Evaristo Arns e inúmeros outros. Temos uma Constituição que defende as liberdades fundamentais como direito inalienável. Entre eles, a livre manifestação do pensamento e a liberdade de credo. O Governo Brasileiro não discute os dogmas e valores morais e individuais de abstinência e fidelidade conjugal."

"Seria um erro uma política pública baseada no respeito à universalidade, à diversidade e na realidade cultural da sociedade preconizar condutas que não são compartilhadas por todas as pessoas. Temos o dever e a responsabilidade de afirmar que o preservativo é a única maneira de prevenir o HIV entre as pessoas que têm vida sexual ativa. No Brasil, um contingente de 91 milhões de pessoas."

"Democraticamente, não podemos ignorar a multiplicidade das orientações sexuais e nem deixar de respeitar o direito que as pessoas têm de manifestá-las e exercê-las. É papel do Estado garantir a saúde física de todos os cidadãos, e é papel das religiões tentar melhorar a saúde espiritual do Planeta. Mas não podemos mentir."

"A Igreja erra quando, para fazer valer o seu ponto de vista teológico, lança dúvidas sobre verdades científicas há muito comprovadas, pondo em risco a vida de pessoas que, por obediência religiosa, acabam se descuidando. Quando lidamos com vidas humanas não temos o direito de errar."


Leiam a íntegra aqui.

Links Relacionados:
Programa Nacional de DST/Aids


Tuesday, December 9, 2003

As Mulheres Querem Tudo, Parte III:
O Neandertal e a Mulherzinha



As mulheres querem tudo. Ainda querem todas as qualidades viris e neandertais que suas avós queriam e aprenderam a querer toda uma nova série de qualidades sensíveis pós-modernas que, antigamente, só eunucos e tias solteironas tinham.

Até aí tudo bem. Acho até divertido ser, alternadamente, latin lover canalha e menino carente sensível.

Não satisfeitas, as mulheres ainda exigem, como minha esposa na festa, que os homens tenham a obrigação de adivinhar quando elas querem o braço forte do neandertal ou o ombro amigo do gentleman.

Homens são mais simples. Eles escolhem um arquétipo e ficam com ele. Pra sempre.

Eu, por exemplo, gosto de mulheres fortes e independentes. Só. Outros tipos de mulheres, viadas, frágeis, frescas, românticas, hipersensíveis, etc, confesso ter vontade de espantar à pauladas. Nunca acho nenhuma dessas características nem remotamente atraente. Quando me apaixonei pela Joana, por exemplo, a única mulherzinha com quem já andei, foi apesar dessas características. Seus caprichos e viadagens me irritavam profundamente.

Tenho um amigo cujo sonho é ter um emprego público, uma casa no subúrbio pra dar churrasco pros amigos todo fim-de-semana e uma mulher na qual ele possa (essa parte ele descreve bem fisicamente) dar uma tapão na bunda e dizer: "Muié, mais cerveja pro pessoal!" E ela daria uma risadinha, sacudiria a enorme bunda e iria rebolando buscar mais cerveja. Naturalmente, acabado o churrasco, ela também arrumaria todo aquele caos, enquanto ele tiraria sua merecida soneca, que afinal ninguém é de pedra lascada.

Meu amigo é quase um neandertal, mas seu modo primitivo de ver as coisas é, também, bastante válido. Ele sabe exatamente o que quer. Se encontrar uma mulher que se preste a esse papel, e existem muitas, ele nunca vai reclamar que ela é muito dependente, muito burrinha ou que não trabalha. É isso exatamente que ele quer. O tempo todo.

Por outro lado, tenho certeza absoluta que, em vários momentos ao longo do casamento, essa mulher tão viadinha vai lhe jogar na cara que ele é um bruto, que não a deixa trabalhar e que não liga pros seus sentimentos - como se não fosse exatamente assim que ela queria que ele fosse, como se ela não o tivesse escolhido, entre tantos outros homens, justamente por essas características.

Essa menina em corpo de mulher nunca terá que se preocupar com o mundo real ou com ganhar seu próprio sustento. Terá um braço forte sempre à disposição, para ampará-la, dar-lhe uns tabefes, se sair da linha, ou somente uns tapinhas, para que vá buscar mais cerveja.

Nunca teria que resolver sozinha o problema que minha esposa encarou aquela noite, mas também nunca lhe ocorreria que manter as camisas do marido limpas e passadas é qualquer outra coisa que não sua mais expressa responsabilidade segundo a ordem natural das coisas.

Visto por esse prisma, minha mulher é que é a vítima. Ela, tão libertina, é que foi pega no contrapé da história.

Por um lado, tem que se virar sozinha algumas vezes, como na saída da festa e, por outro, também tem a dolorosa noção que o estado do meu colarinho vai refletir diretamente na percepção que as pessoas têm dos seus dotes de esposa.

Ê mundo.

(amanhã... conclusão... lutando contra o príncipe encantado...)


Monday, December 8, 2003

As Mulheres Querem Tudo, Parte II:
You Can't Have the Cake and Eat It Too



Chegamos então à grande esquizofrenia da mulher moderna:

Por um lado, minha mulher quer que eu seja um homem independente, que saiba cuidar de si.

Por outro, ela sabe que a sociedade presume que eu lhe seja dependente: seu desempenho enquanto mulher será julgado, entre outros quesitos, pela minha apresentação.

Ou seja, ao querer um homem independente, o que ela realmente quer não é um homem independente: o que ela realmente quer é obter a reputação de esposa-que-cuida-muito-bem-do-marido sem precisar, pra isso, ter trabalho cuidando de mim, já que eu, homem independente, me cuido sozinho.

Mas, como diz um dos meus ditados favoritos, you can't have the cake and eat it too.

Precisei de Um HOMEM ao Meu Lado!

Temos um casamento aberto.

Quase sempre saímos juntos, como casalzinho baunilhogâmico. Outras vezes, saímos juntos, mas nos separamos, cada um por si e boa sorte, ninguém é de ninguém.

Em uma dessas vezes, cheguei perto demais dela e levei um pito: o cara com quem ela estava flertando achou que eu estava demarcando território e melou o clima.

Depois disso, procurei ficar o mais afastado possível, até que porque eu também estava bastante ocupado com uma outra menina.

No fim da noite, minha mulher teve problemas na saída. Um problema bobo, de deixar mulher nervosa à toa, e que ela podia ter resolvido sozinha – tanto que resolveu. Mas as mulheres têm essa mania, totalmente machista, aliás, de achar que ter um homem por perto resolve tudo, mesmo que ele não faça nada, mesmo que não exista nada que ele possa fazer.

Só que eu, escaldado e a pedidos, estava mantendo distância.

Depois, ouvi o discurso padrão: tive que resolver tudo sozinha!, precisei de UM HOMEM (falado assim mesmo, com a boca cheia) e você não estava lá pra ficar ao meu lado!

Eu sei que meu casamento é sui-generis. Sei que meus exemplos não são aplicáveis à vida de quase ninguém e servem apenas para as pessoas balançarem a cabeça e refletirem sobre a decadência dos valores da família tradicional brasileira, mas, enfim, o princípio é o mesmo:

You can't have the cake and eat it too.

(amanhã... o neandertal e a mulherzinha... o contrapé da história...)


Sunday, December 7, 2003

Preconceito Linguístico, de Marcos Bagno



Preconceito Linguístico, de Marcos Bagno, foi um dos livros mais interessantes que li esse ano. Aliás, só agora me dei conta que esqueci de anotá-lo na lista ao lado. Enfim, o texto iluminou minhas idéias a respeito de como as línguas evoluem.

O autor é de esquerda e muito politicamente correto mas, admiravelmente, não deixa essas falhas de caráter interferirem na clareza e precisão do seu raciocínio. Só isso já vale o livro.

A edição desse mês da Novae está com uma resenha bem interessante de Preconceito Linguístico, escrita por um estudante de comunicação André Azevedo da Fonseca.

O título da resenha é apavorante, reminiscente de tudo o que o pensamento de esquerda produziu de pior: "A língua do patrão: usos do idioma reproduzem relações de poder na sociedade". Apesar disso, o artigo faz uma excelente síntese dos pontos mais interessantes e memoráveis do livro.

Para quem tem interesse no assunto língua e linguística, recomendo também meus artigos sobre os dilemas da tradução e defesa da língua portuguesa.

Links Relacionados:
A Língua do Patrão
Novae
Os Dilemas da Tradução
Em Defesa da Língua Portuguesa


Friday, December 5, 2003

As Mulheres Querem Tudo, Parte I:
A Roupa do Casamento



Semana passada, minha mulher e eu fomos padrinhos de casamento. Ao longo da semana anterior, ela, estressadíssima com sua roupa, ficou me perguntando várias vezes se eu já tinha verificado meu terno, se estava tudo certo, se eu não precisaria fazer nada, etc. E eu só enrolando, dizendo que ia fazer, que ia ver, mas, obviamente, o assunto era a última das minhas prioridades.

Chega a tarde do grande dia, minha esposa abre o armário e descobre que minha única camisa social branca está encardida, inusável.

Alerta vermelho, soam as sirenes, chove o granizo. Esporro generalizado.

Com uma certa razão, claro. Eu realmente tinha sido negligente e irresponsável. Mas o que me chamou atenção foi como o escândalo da minha mulher ilustrou a grande esquizofrenia feminina dos dias de hoje.

Quero Um Homem Que Não Dependa de Mim

No primeiro momento de fúria, ela esbravejou que queria um homem independente, que soubesse se cuidar, que soubesse cuidar das suas coisas, que não dependesse dela pra tudo que nem um bebêzão.

Nesse ponto, a bronca foi injusta. Eu sou, em muitos aspectos, bem mais independente e responsável do que ela – e, com certeza, mais organizado do que 98% dos homens heterossexuais que conheço.

Tudo bem, eu tinha vacilado naquela ocasião específica, mas não por eu ser desorganizado ou dependente, mas porque o bom ou mau estado das minhas roupas não é uma prioridade na minha vida.

De qualquer modo, a crítica revela um anseio válido das mulheres modernas: elas não são mais como suas mães, que querem um homem para cuidar, vestir e dar de mamar. As mulheres de hoje, independentes, inteligentes, doutoradas e barbadas, querem mais é homens inteligentes que sejam seus parceiros e não seus filhos.

O Que As Pessoas Vão Pensar de Mim Se Te Virem Assim?!

Então, veio a segunda parte do escândalo: o que as pessoas vão pensar de mim se te virem desse jeito?!

Subitamente, eu ser independente já não é mais nem um pouco importante.

Pelo seu comentário, minha mulher parece achar que há uma expectativa social de que a mulher é que tem que cuidar do homem, mantê-lo bem vestido e arrumadinho, sem manchas ou amassados.

De onde se conclui que, se um homem aparecer em um evento social com uma camisa branca encardida, ninguém vai pensar mal dele. Claro que não. Desde quando é obrigação do homem se vestir? Homem tem outras preocupações. A culpa é da relapsa da esposa, que não consegue nem vestir direitinho seu próprio Ken.

Mais uma vez, ela tem razão e não tem.

Eu tinha um colega de trabalho que sempre chegava no escritório bastante fedido, repetia roupas e usava barbas e cabelos longos e desalinhados. Pra piorar, era recém-casado com uma mulher vinte anos mais nova. Não deu outra, a sentença dos outros funcionários, homens e mulheres, foi sumária e inequívoca: a culpa toda era da mulher que, talvez por ser tão mais nova, não sabia cuidar dele, ou não tinha moral de mandá-lo tomar banho, aparar a barba, usar desodorante e trocar de roupas.

Pareceu não ocorrer a ninguém a simples possibilidade de ser ele o único e maior culpado por sua falta de higiene pessoal.

Tive que dar o ego a torcer. Socialmente falando, se eu aparecesse de camisa encardida, não tenho dúvidas de que a culpa recairia na coitada da minha esposa.

Entretanto, se ela é tão liberal e libertina quanto diz ser, isso não deveria ser incômodo, deixe os minúsculos pensarem o que quiserem, eu digo, mas, para minha mulher, libertar-se da opinião dos outros ainda é impossível.

Aliás, antes de sairmos desse assunto: como eu disse, sou viadamente organizado e limpinho. Eu jamais, em tempo algum, iria a qualquer lugar com aquela camisa encardida. Isso nunca me passou pela cabeça. Eu estava tranqüilo porque sabia que, na pior das hipóteses, se a camisa branca estivesse inusável, eu iria com alguma outra das minhas camisas sociais não-brancas. Claro que os padrinhos tinham que ir de camisa social branca, mas eu prefiro ser o único padrinho vestido errado (já tenho fama de excêntrico mesmo, me convida pra padrinho quem quer) do que o único padrinho porco. Acabou que fui de terno preto com uma camisa social verde-escuro e a combinação ficou ótima.

(continua amanhã... a grande esquizofrenia da mulher moderna.. you can't have the cake and eat it too...)


Thursday, December 4, 2003

Minha Cara



Nunca quis colocar minha cara na roda. Nem tanto por timidez, sou a pessoa menos tímida do mundo, mas por achar que minha cara não tem nada a ver com o que estou tentando fazer aqui. Quero que minha mensagem seja válida e inteligível eu sendo um carioca de 29 anos ou uma velhinha de Macapá. Qualquer reação que vocês tenham à minha imagem, seja positiva ou negativa, vai ser apenas interferência em nossa linha de comunicação.
Minha cara inchada - Clique para ver em tamanho maior, ainda mais inchada
Enfim, as pessoas são muito visuais, pedem pra me ver, então, aqui vai... Essa caricatura foi feita sábado passado e, realmente, ficou ótima. Ao mesmo tempo, bem fiel e estilizada, realista e romântica.

Espero que mate essa sede visual de vocês, para que possam melhor se concentrar nas letrinhas.

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O blog é atualizado todo dia, mas podem ficar tranqüilos: os e-mails serão enviados esporadicamente, só quando houver posts dignos de nota. Por exemplo, o último email que enviei aos meus leitores foi sobre a Prisão Conformismo, em 18 de novembro.

Meu compromisso com meus assinantes:

Os e-mails nunca serão maiores que 20k. E-mail de divulgação já é ruim, mas ainda vai. E-mail não solicitado de 600k dá vontade de caçar o cara, queimar sua vila, matar seu cachorro e estuprar sua irmã!

Você nunca receberá mais que um e-mail por semana, sendo que o mais provável seja uns 2 a 3 emails por mês.

Nunca passarei seu email adiante para algum spammer ainda pior que eu.

Não me comprometo a ser bem-educado, não me comprometo a responder emails, não me comprometo a ser inteligente ou espirituoso ou engraçado.

Mas me comprometo a ser interessante, o que já é bastante coisa.

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Wednesday, December 3, 2003

A Alienação dos Mais Jovens



Conflito de gerações sempre houve.

Mas ser adolescente em 1910 era muito parecido com ser adolescente em 1890. Ser adolescente em 1980, entretanto, é uma experiência cada vez mais diferente do que ser adolescente em 2000.

As rápidas mudanças de tecnologia e comportamento estão alargando o fosso entre as gerações. O outro, ou seja, o membro de outra geração, torna-se cada vez mais distante e mais estranho.

Como o preconceito nada mais é do que medo do outro, medo do desconhecido, estou me deparando cada vez mais do que chamo de preconceito entre gerações.

O exemplo mais comum é um comentário, que tenho lido em algumas crônicas, ou ouvido da boca de pessoas entre 30 e 50 anos:

"Você acredita que meu filho/sobrinho/etc nunca viu uma vitrola? Que nem sabia o que era um LP?! Que viu um telefone de discar e me disse que nem sabia como se ligava naquilo! Que não fazia idéia de quem era Elis Regina!"

E todos balançam a cabeça, lamentam o pobre estado da juventude de hoje e pedem mais um chope.

Se o comentário fica por aí, tudo bem. Acho até normal as pessoas ficarem chocadas ao saber que objetos de uso comum do seu dia-a-dia e que seus ídolos de antigamente estão caindo no esquecimento. Afinal, isso nada mais é do que a nossa mortalidade sendo nos esfregada na cara. A fila anda.

Tenho 29 anos, dou aulas pras moleques entre 12 e 16 e, realmente, me choca constatar que eles desconhecem quem seja Ronald Reagan, Elis Regina e até mesmo Lulu Santos. Mas, no meu caso, é só surpresa mesmo (caramba, é o cara que canta o tema da Malhação, como é que vocês não conhecem?!) que não se transforma em julgamento de valor.

Quase sempre, entretanto, esse estarrecimento natural é rapidamente transformado em crítica sem fundamento. O comentário seguinte, depois que chega o chope, é sobre a alienação dos jovens, que só pensam em suas vidinhas e acham que o mundo começou com eles.

"Outro dia, estava no carro com minha filha e as amigas, e você acredita que nenhuma delas, nenhuma, tinha ouvido falar de Elis Regina?! Ah, mas elas conhecem Coldplay, KLB, Kelly Key, Jota Quest, essas besteiras todas! Mais um, Juvenal!"

E eu pergunto, sua filha nasceu em que ano? Ele responde que foi em 1985, ou seja, três anos depois da morte da Elis. Eu pergunto quando ele nasceu. 1950, é a resposta.

Muito bem. Me diga o nome de algum grande cantor brasileiro da década de 40, que encerrou sua carreira até 1950. Ele não sabe. Nenhum nome lhe vem à cabeça. Eu, que sou de 1974, estava com Ary Barroso e Carmen Miranda na cabeça.

Ok, algum ator então, sabe o nome de algum ator brasileiro de destaque da época? Não. Mais uma vez, nada. Nem um nome sequer. E eu, de novo, pensando em Carmen Miranda e me perguntando se Oscarito era dessa época.

Algum escritor, pelo menos, sabe o nome de um escritor? Essa achei que seria fácil. Até Machado de Assis e José de Alencar seriam nomes válidos. Mas ele balbucia: Nelson Rodrigues. Não conta. O pornógrafo estava começando carreira na década de 40, não encerrando. Aliás, ele morreu apenas dois anos antes de Elis.

Quer dizer, o puto não conseguiu dizer o nome de um, de um! artista brasileiro de renome que tivesse encerrado sua carreira antes dele nascer e ainda se acha no direito de espinafrar a filha e as amigas por não conhecerem alguém que deixou de existir três anos antes de elas começaram a existir.

Francamente!

Depois disso, começa o preconceito tecnológico. Não é um absurdo os moleques de hoje nunca terem visto uma máquina de escrever manual? Não são uns alienados por nunca terem escutado um LP? Não são uns ignorantes por não saberem usar um telefone de discar?

Não, não, não.

Por que cargas d'água alguém, qualquer um em qualquer época, teria obrigação de ter familiaridade com objetos que não estão mais em uso, que não servem mais pra nada e que pertencem a um passado cada vez mais remoto?

Afinal, será que os nascidos em 1950 andaram de tílburi, acenderam candeeiros ou usaram escarradeiras?

Então não fode.

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Tuesday, December 2, 2003

Único País da América do Sul que Não Fala Espanhol



Na Prisão Patriotismo, eu disse que ninguém tem a obrigação de saber que língua se fala no Brasil ou qual é a nossa capital. Afinal, nós também não sabemos que língua se fala no Madagáscar ou qual é a capital do Butão.

Mas o pior mesmo não é a ignorância. É a ignorância de quem acha que sabe.

Cena de uma sala de aula: a professora está contando uma história que aconteceu com ela. Estava nos EUA com seu namorado americano e um outro cara elogiou o sotaque dela e perguntou de onde ela era. Antes que pudesse responder, o namorado cortou: "Adivinha! É o único país da América do Sul que não fala espanhol!"

E sabem o que ele respondeu?, disse a professora, como se tivesse revelando que o pobre homem era algum ignorante por não saber o que não tinha obrigação de saber: Argentina!

Todos na sala riram, veja só você, que ignorância!, achar que a Argentina é o único país da América do Sul que não fala espanhol.

E lá fui eu levantar a mão e ser chato.

Professora, desculpa, mas ignorante era o seu namorado (e você, mas isso não falei), pois o Brasil não é o único país da América do Sul que não fala espanhol.

Ela me olhou, confusa. Achei que alguém mais na turma iria sair em minha defesa, mas não. Também achei que ela iria se tocar na hora e dizer: ah tá, claro. Mas não.

Ela disse: ué, é sim...

E eu listei: Guiana, Guiana Francesa e Suriname.

Ela não deu o braço a torcer e piorou ainda mais a situação: ah, tá, claro, mas ele falou da América do Sul, não da América Latina.

Putz. Pior ainda. Se fosse América Latina, seriam muito mais países do que só esses três. Jamaica, Belize, Haiti, a lista continua. Eu podia ter ficado calado e deixado passar, mas não aguentei. Lá se vai minha nota de final de curso.

Eu disse: esses três países não só ficam na América do Sul como fazem fronteira com o Brasil.

Pronto. Se vocês acharam que não podia ficar pior, erraram. Ela, ainda por cima, mudou as regras do jogo e falou uma coisa literalmente nada a ver: mas é que estávamos falando só de países latinos.

Hã?! Desde quando isso?

Não satisfeito, eu ainda lancei uma última: na Guiana Francesa, eles são latinos, falam francês.

Aí ela mudou de assunto e a aula prosseguiu, graças a deus.

O problema não é ser ignorante. O problema é fazer pouco da ignorância dos outros.

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Monday, December 1, 2003

Coca-Cola Às Sete da Manhã



Outro dia, acordei, fui até a minha geladeira e, inocentemente, tomei um gole de Coca Light. A moça que estava comigo, 38 anos, mãe de dois adolescentes, fez exatamente o que a minha mãe teria feito: deu um escândalo.

O que é isso, Coca-Cola a essa hora da manhã?! Que absurdo!

Não entendo essas coisas.

Por conversas aqui e ali, percebi que a indignação com meu comportamente é generalizada. A maioria das pessoas (e a totalidade das mães) realmente acha algum tipo de heresia tomar refrigerante de manhã.

Será que alguém poderia me explicar qual é o problema?

Na minha cabeça, ou Coca-Cola faz mal ou não faz.

Se faz mal às sete da manhã é porque faz mal às dez da noite também.

Agora, se não faz mal às cinco da tarde então é porque não faz mal às sete da manhã.

Há exceções à essa regra, claro. Depende do efeito do produto consumido.

Eu, por exemplo, tomo café às sete da manhã mas nunca às sete da noite. Sou hiperativo: se ingerir cafeína à noite, não durmo mais.

Mas, de qualquer modo, não é o café que faz mal: o efeito dele é que é desejável às sete da manhã e indesejável às sete da noite.

Por outro lado, há o caso do álcool.

Em geral, também é considerado algum tipo de crime contra a humanidade beber antes do almoço. Pessoas que são vistas com um copo de uísque às dez da manhã são logo alvos de sussuros e reprimendas, como se tivessem se tornado inimigos públicos número um.

Até entendo o lado psicológico da coisa. Se a pessoa está bebendo até mesmo de manhã, então é porque provavelmente tornou-se alcóolatra, perdeu o controle da bebida, está passando por uma grave crise.

Só há um problema: não se pode provar uma coisa citando a própria como evidência. Esqueci o nome disso (peço auxílio aos universitários, tautologia?) mas é uma falácia lógica comum. O parágrafo acima não pode ser utilizado para explicar porque o álcool não deve ser consumido de manhã pois só é motivo de escândalo o cara estar bebendo de manhã porque beber de manhã já é considerado algo terrível a priori. Ou seja, não explica nada.

Vai ver não entendo porque não bebo. Mas uma dose de uísque junto com as torradas e ovos do café-da-manhã tem algum efeito diferente no organismo do que a dose de uísque junto com o bife com fritas do almoço?

Como sempre, a pergunta não é retórica. Odeio perguntas retóricas. Quero saber o que vocês acham. Principalmente, a quem também acha que beber uísque e coca-cola às nove da manhã faz mal pra saúde, eu pergunto, por favor: por quê?


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