|
|
Sunday, June 5, 2011
permalink do artigo abaixo
Olá. Meu nome é Alex Castro e esse blog morreu.
Saturday, June 4, 2011
permalink do artigo abaixo
Entender é um gesto de dominação e redução. Aceitar é um gesto de amor e generosidade. Lá no meu site pessoal. Labels: alex castro empatia
Friday, June 3, 2011
a vida sem rastrosTexto novo, no meu site pessoal. Leiam: a vida sem rastros
Monday, February 21, 2011
Os Melhores Textos sobre Racismo de Alex Castro
Em uma sociedade racista e desigual como o Brasil, afirmar não ver raça, não ligar pra raça, que raças não existem, que isso não tem importância, "que besteira você se importar com isso", etc, significa na prática tomar partido racialmente ao se aliar com a hegemonia invisível que *precisa* desse tipo de negação para sobreviver e prosperar. Não existe neutralidade possível: negar raça já é uma afirmação política que te coloca em um dos lados bem definidos de uma briga antiga. Negar raça já é intrinsecamente racista. * * * Os melhores dos melhores (não deixem de ler esses): - Alguns Números do Racismo Resumo das conclusões principais do Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil, da UFRJ. - "O Brasil Não É Um País Racista! Nosso Problema É Econômico!" Não é preciso muitos dados e gráficos. Se você chega numa cadeia ou no fórum, e todos os juízes e advogados são brancos, e todos os réus são negros; se você chega num hospital, e todos os médicos são brancos, mas todos os faxineiros são negros; se você chega numa empresa e toda a diretoria é branca, mas a moça do café e o rapaz da xerox e o ascensorista são negros; então esse é um país racista. - Pretos, Pobres e Polícia O racismo É um problema sócio-econômico. O que mais vocês acham que o racismo é, meu deus? Um problema literário? Um problema culinário? Reclamar que alguém "falou de racismo deixando de lado o fator sócio-econômico" é como reclamar que alguém falou de inflação deixando de lado o aspecto econômico. Inflação É um fenômeno econômico: não tem como discutir, debater, estudar, pensar a inflação e, ao mesmo tempo, deixar de lado o fator econômico. Como isso seria possível? - Racismo & Casamentos Interraciais Somente o fato de o Brasil ter muitos casamentos interraciais não prova que o país não é racista. Pelo contrário, a dinâmica desses casamentos comprova, mais uma vez, a sobrevalorização do branco e a estigmatização do negro em nossa cultura racista. - Negritude e Cabelo, Estética e Escravidão A beleza é definida em termos das características físicas do grupo dominante. Ou seja, uma pessoa é mais bela quanto mais se parece com o grupo que manda, e é mais feia quanto mais se parece com o grupo que obedece. Dentre os negros e negras universalmente considerados como sex symbols, quantos têm características negróides marcantes e quantos parecem brancos de pele escura? Em outras palavras, a Halle Berry é uma negra linda por ser uma negra linda, ou é uma negra linda por ter cara de branca tostada? - E Existe Isso de Raça? Enquanto discutimos essa fascinante questão, os membros-da-raça-que-não-existe-mas-é-mais-escurinha continuarão sendo consistentemente preteridos em promoções, ganhando salários menores e não conseguindo alugar bons apartamentos. As raças podem até não existir geneticamente mas, durante uma blitz às onze da noite, os policiais já tensos e de armas engatilhadas, as raças são uma realidade bem palpável. Hoje, para todos os fins e efeitos, na vida real e nos estudos universitários, raças existem sim: não como um conceito biológico ou genético, mas sim histórico, sociopolítico, cultural. - O Problema do Brasil É a Falta de Conflito Racial Sangue correndo na rua é o que já não falta. A questão é: de quem? - O Racismo Não É um Problema Individual O baralho que herdamos dos nossos antepassados já está viciado para beneficiar sempre um tipo específico de jogador. Não basta somente que nós, os jogadores beneficiados, simplesmente não trapaceemos. É necessário trocar de baralho. * * * Racismo e Cotas - O Peso da História: A Escravidão e as Cotas A História ainda é uma bola de ferro que os descendentes dos escravos arrastam pelos tornozelos. Os efeitos nocivos da escravidão continuam afetando os bisnetos de suas vítimas diretas. Dado que os efeitos nocivos da escravidão ainda se fazem sentir na pele dos descendentes das vítimas, não é tarde demais para serem indenizados pelo Estado. - Livre Concorrência e Ação Afirmativa Uma das críticas mais comuns à Ação Afirmativa é quanto a injustiça inerente a dar vantagens desproporcionais a um grupo em detrimento dos outros. Mas será que as pessoas acham mesmo que o sistema é justo e meritocrático... e que as malvadas cotas estão chegando para destruir essa perfeita igualdade?! Oras, o sistema não é meritocrático e não é justo. O objetivo das cotas é proporcionar uma vantagem adicional aos grupos que são consistentemente excluídos. - Sem a Discussão sobre as Cotas, Como Saberíamos Quem São os Racistas? O discurso anti-cotas não é por definição e necessariamente racista, mas acaba se tornando terreno fértil para que alguns dos mais comuns e silenciados preconceitos raciais brasileiros vejam finalmente a luz do dia e sejam (pasmem!) articulados em público sem vergonha alguma. * * * Série Você É um Privilegiado? (Convite para Reflexão Individual) O objetivo da série Raça não é promover no leitor uma reflexão individual sobre seu racismo enquanto pessoa, mas sim compreender melhor como funciona o racismo institucional e constitutivo da sociedade brasileira. Se essa reflexão for feita, cada um também vai naturalmente refletir sobre seu papel individual nesse estado de coisas - sem que seja preciso instituir uma caça às bruxas nem pelos "racistas" de verdade e muito menos pelos racistas dentro de nós. I - A Invisibilidade do Privilégio Nossa elite não se vê como elite e nossos privilegiados não se vêem como privilegiados. ... Quando você cresce rodeado por algo - nesse caso, privilégio - aquilo vira a regra contra a qual o mundo é comparado. Nossa vida é sempre a normal, ou melhor, a normativa: as outras é que são menos ou mais alguma coisa. ... O processo funciona mais ou menos assim: você evita os mais pobres (por serem francamente desagradáveis, não?), considera sua vida normativa, e só conhece em detalhes as rotinas dos mais ricos. Resultado: você não se acha nem rico nem privilegiado nem de elite; privilegiado é o Luciano Huck, que tem uma jacuzzi em cada cômodo da casa! Sério, eu vi na Caras. II - O Ônus da Elite Afinal, se sou privilegiado, então existe alguém que não é. Que privilégios eu tive que essas pessoas não tiveram? Qual é a origem sociohistórica dessa assimetria? Se essa assimetria é tão gigantesca como parece, então será que faz sentido falar em sociedade meritocrática? ... No Brasil, a elite-que-não-se-admite-elite (porque a palavra virou xingamento) só sabe desfrutar da delícia de ser elite mas não aceita mais o ônus: rejeita as obrigações morais e responsabilidades históricas que a elite de qualquer sociedade sempre possuiu. III - Os Privilégios da Classe Média Talvez seja essa a maior marca do privilégio: saber que a polícia está do seu lado, que vai defender seus interesses, que vai te ajudar no que for possível. No Brasil, só a elite é inocente até prova em contrário. IV - Brasil, Meritocracia de Todos! É por isso, entre outras coisas, que o Brasil não é um país meritocrático. É por isso, aliás, que o próprio conceito de meritocracia não faz nenhum sentido, pois meu mérito individual nunca é só meu, mas está sempre corrompido ou viciado pelos méritos acumulados dos meus antepassados, na minha família, dos meus compatriotas. É por isso, entre outras coisas, que mesmo um cidadão de classe média baixa, daqueles que fala coisas como "é um absurdo eu gastar uma fortuna em escola particular e plano de saúde, e depois ainda ser escorchado pelo governo que não faz nada por mim!", ainda assim é um tremendo de um privilegiado em comparação à massa de cidadãos brasileiros que não teriam renda pra pagar nem escola particular e nem plano de saúde. Adendos: I - Culpa, Racismo e Privilégio ("Somos Nós os Culpados?") Nenhum leitor desse blog é culpado pela escravidão, pelo racismo, pela desigualdade. Esses problemas são mais antigos que nós e sua culpa transcende qualquer indivíduo. ... Ser responsável por solucionar um problema é muito distante de ser culpado por ele. Somos responsáveis porque esses problemas não podem mais ser ignorados, afetam nossas vidas todos os dias e um dia vão explodir na nossa cara. II - Governo, Raça e Privilégio Quando falo de racismo e privilégio, alguns leitores pensam que estou clamando por ação governamental ou propondo políticas públicas, e respondem que é um absurdo o governo querer se meter no problema das raças, que o governo não tem nada a ver com a desigualdade, que o papel do governo é outro, etc. Governo, governo, governo. Não deixa de ser engraçado: porque não estou falando de governo em momento algum. III - "Mas Afinal Qual É a Solução?" "Tá, professor. Entendemos o problema. Priorizar as raças é ruim porque fortalece o racismo mas promover a mestiçagem é ruim porque estigmatiza quem quer assumir suas raízes. Mas qual é a solução então? Qual é a resposta? O que fazemos?" * * * O Racismo e a Palavra - Usos do Nego Usar o carioquíssimo "nego" ("pô, aí, negozinho tá pirando na batatinha") é racista? - Quem Sabe da Ofensa é o Ofendido Não importa se o apelido do "pretinho" foi dito super na boa, supercarinhosamente, como todo afeto e amor: o que importa é o que ELE acha. E ele não vai te dizer nunca, sabe por quê? Porque ele é o faxineiro, porque ele precisa do emprego, porque ele não quer criar problema com alguém da casta superior, porque ele já ouviu isso tanto que internalizou, etc etc. As razões possíveis são muitas, e nenhuma é boa. Só quem é negro sabe como é ser chamado de negão o dia todo por pessoas brancas. - Lá Se Foram os Negrinhos - Politicamente Correto e Liberdade Polzonoff e eu dividiríamos bravamente a mesma trincheira, conversando sobre livros favoritos entre as salvas de morteiro, empenhados em combate renhido contra os fascistas nojentos que quisessem impedir uma editora de publicar um livro chamado "O Caso dos Dez Negrinhos". * * * Série "Ser da Raça Certa": I: Você É da Raça Certa? Ser da raça certa é nunca pensar na sua raça como raça. Quem tem raça são as minorias, os negros, os japoneses, os índios. Você, não. ... Ser da raça certa é fazer parte do grupo que está dentro, não do que está fora, olhando pelo vidro, com cara de pidão. ... Ser da raça certa é nunca ser *interpelado* racialmente. II: 100% Branco Uma camisa "100% Branco" é de profundo mau-gosto, ao mostrar quem está por cima celebrando sua hegemonia. "100% Negro", por outro lado, é a celebração de uma identidade subalterna tentando se afirmar contra todas as desvantagens inerentes no sistema. III: De que Cor É o Personagem? Ser da raça errada é precisar ser descrito. Se o personagem for da raça certa, ela não fará parte da descrição, pois os leitores JÁ irão visualizá-lo assim. Quando você lê um romance chinês, todo mundo na sua cabeça tem cara de chinês. IV: O Critério Eliminatório Ser da raça certa é saber, com certeza absoluta, que a família da sua nova namorada não vai querer vetar o relacionamento só de olhar pra sua cara, antes mesmo de você abrir a boca. * * * História da Escravidão - Os Defeitos dos Negros Americanos Ou seja, os defeitos e vícios que trazem os negros americanos é justamente serem cidadãos, homens orgulhosos e altivos, conscientes de seus direitos. Cruzes, o Brasil quer distância dessa gente! - Os Americanos e o Tráfico Negreiro Em meados do século XIX, a Grã-Bretanha proibiu unilateralmente o tráfico de escravos no Atlântico e se deu o direito de abordar qualquer navio suspeito de estar carregando escravos. Já os Estados Unidos, país escravista, ainda sem o poder que teria mas já cheio de panache, negou à Grã-Bretanha o chamado "direito de visita". Na verdade, todo mundo negou, claro, inclusive o Brasil, mas, quando era país marronzinho, os ingleses abordavam à força. Daí veio a Questão Christie, blá blá. - Leis para Inglês Ver Caso único na história do mundo, quando o governo imperial finalmente decidiu, por motivos próprios, terminar com o tráfico, passou uma outra lei, em 1850, basicamente proibindo o que já era proibido pela lei de 1831 – mas, dessa vez, é sério, hein, gente? Olha, não pode mais. De verdade. Mesmo. - Será Muita Forçação de Barra Comparar Domésticas com Escravos? As desculpas paternalistas, familiares e carinhosas que os patrões usam pra restringir a liberdade de movimento das empregadas são sempre muito criativas. ... Difícil de imaginar uma história como essa acontecendo em um país sem um forte passado escravista. - A Revolução Haitiana A Revolução Haitiana não ser parte do currículo obrigatório de História é um absurdo. Ela foi um dos acontecimentos mais decisivos e marcantes da história mundial. Sem conhecer a Revolução Haitiana, não dá pra entender NADA sobre a História das Américas no século XIX. - A Tática do Deixa-Disso Fomos a última nação ocidental a abolir a escravidão - e *ninguém* era a favor dela. Nas discussões sobre o assunto, não se vê (como nos Estados Unidos) partidários da escravidão defendendo o sistema ou pregando a inferioridade do negro. ... Convenhamos: já tentamos essa tática. Há cento e tantos anos, o Brasil enfia a cabeça na areia, diz que é uma democracia racial e que não existe problema. Claramente, não funcionou. É hora de mudar de tática. - A Ausência do Escravo da Lei Brasileira Fomos uma das maiores e mais extensivas economias escravistas do mundo, dependíamos de escravos para nossa própria sobrevivência, a escravidão nos definia enquanto cultura - e, mesmo assim, incrivelmente, e nossa Constituição e nosso Código Civil jamais mencionaram a escravidão. Nem mesmo para defini-la. Especialmente para não defini-la. ... Como poderia funcionar uma sociedade complexa e sofisticada como o Brasil oitocentista, uma economia totalmente dependente do escravo, uma cultura completamente bacharelista, se não havia uma definição legal de escravo? - Definindo a Escravidão: Afinal, O Que É um Escravo? Se não existia definição de escravo, então também não existia essência de escravo. Ou seja, a escravidão não era um SER, era um FAZER. Não existia teoria, somente a prática. Escravo é quem agia como escravo, escravo é quem era escravizado. Consequentemente, quem não agia como escravo, quem não se deixava escravizar... não era escravo! Pois, afinal, tirando o agir como escravo, de que outra maneira saberíamos quem era escravo e quem não era? * * * Uma aula de racismo e literatura sobre uma poesia de Castro Alves - Lúcia, de Castro Alves - Conversando sobre "Lúcia", de Castro Alves - Ainda sobre "Lúcia", de Castro Alves - Três Leituras de "Lúcia", de Castro Alves No fim, realmente, a literatura sempre nos ensina mais sobre quem somos, como vemos o mundo e quais são nossas idéias pré-concebidas, do que sobre o texto em si. * * * Racismo e Teatro - Negrinha, de Monteiro Lobato (Cadernos de Teatro, 6) Um pouco da história da representação da escravura nos palcos brasileiros, e uma resenha da recente montagem de Negrinha, com Sara Antunes. * * * Sobre Livros e Autores - Na Verdade, as Idéias Estão no Lugar Uma análise do influente artigo "As Idéias Fora do Lugar", de Roberto Schwarz, trazendo para a discussão outros autores como Joaquim Nabuco, Sidney Chalhoub, Alfredo Bosi e Ricardo Salles. - Gilberto Freyre e Casa Grande & Senzala Uma das melhores coisas que já escrevi. - O Livro do Ano: The Racial Contract, por Charles W. Mills O racismo é um sistema político e uma estrutura de poder baseados em um Contrato Social (na verdade, um Contrato Racial) no qual os membros da raça dominante formam um acordo tácito de, ao mesmo tempo em que garantem para si a maior parte das riquezas/oportunidades/etc da sociedade, também consentem em não ver o próprio sistema, criando assim a "alucinação consensual" de um mundo sem raças, meritocrático e igualitário, que passa a mediar sua interpretação da realidade. Nem todos os brancos são signatários do Contrato Racial, mas todos são beneficiários. - Não Somos Racistas, de Ali Kamel (enfim, lido!) Na mesma linha de Senhor dos Anéis e Crônicas de Nárnia, o romance de fantasia Não Somos Racistas, de Ali Kamel, se passa em uma terra mítica e utópica, onde não existe racismo e impera a mais estrita meritocracia. O livro é polivalente: pode ser lido tanto como humor ("rárá! não acredito que esse cara falou mesmo isso!") ou terror ("e pensar que esse homem é o diretor de jornalismo da Globo!", mas é diversão sempre garantida. - Uma Gota de Sangue - História do Pensamento Racial, de Demétrio Magnoli Ele se diz sociólogo mas, de ouvi-lo falar, o homem não parece ter cursado nem Sociologia I. Eu quase diria que ele dá um verniz acadêmico a muitos dos mais comuns preconceitos raciais brasileiros, mas ele não soa nada acadêmico. Em termos de raciocínio e discurso, ele é muito, muito pior do que o Ali Kamel - tem apenas menos poder. Chegou a me dar calafrios de nojo em alguns momentos. - Nosso Racismo É Um Crime Perfeito: Kabengele Munanga O racismo é uma ideologia. A ideologia só pode ser reproduzida se as próprias vítimas aceitam, a introjetam, naturalizam essa ideologia. ... Há negros que introduziram isso, que alienaram sua humanidade, que acham que são mesmo inferiores e o branco tem todo o direito de ocupar os postos de comando. ... Há racismo, mas sem racistas. Ele está no ar... Como você vai combater isso? ... Nosso racismo é um crime perfeito, porque a própria vítima é que é responsável pelo seu racismo, quem comentou não tem nenhum problema. - Um Debate Sobre Racismo Primeiro, Demétrio Magnolli escreve um artigo no Estadão sobre alguns alunos auto-declarados negros aos quais foram negados os benefícios das cotas universitárias. No artigo, ele aproveita pra enxovalhar o Prof Kabengele Munanga, antropólogo da USP, e um dos homens que mais entende de racismo no Brasil. E vem a resposta, claro. - Racismo à Brasileira, por Edward Telles Um dos melhores livros sobre raça que já li: basicamente, um apanhado de números, estatísticas e experimentos cujo objetivo é combater o "anedotismo" das discussões sobre o assunto. - Caetana Diz Não, de Sandra Lauderdale Graham Um dos meus livros preferidos sobre a escravidão no Brasil. Sem teorias nem tabelas, argumentos ou academês. Só a história real de duas mulheres na sociedade escravista. - O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco Nunca vi análise mais corajosa, mais lúcida, mais combativa, mais atual. - A Centralidade da Liberdade no Pensamento Ocidental Uma resenha, em inglês, comparando dois livros-chave sobre escravidão e relações raciais, enfatizando o modo como o conceito de liberdade, tão importante no pensamento ocidental, só faz sentido quando oposto à experiência da escravidão: Black Atlantic, de Paul Gilroy, e Slavery and Social Death, de Orlando Patterson. - Os Sertões Explica o Brasil - A Importância Tautológica de Os Sertões - O Atavismo de Euclides da Cunha A cada vez que um brasileiro se orgulha dos feitos do Pelé ("coisa nossa!") mas se pergunta porque "eles" têm que vir logo à "nossa" praia!, a contradição constitutiva de Euclides se perpetua. Os Sertões é um clássico porque sua contradição interna ainda é a mesma que a nossa - "nossa" de todos os brasileiros, aliás. Sua fratura exposta é a mesma que ainda nos incomoda. Como todo clássico, Os Sertões vive e pulsa e respira porque ainda fala diretamente a nós. * * * Raça em Nova Orleans - Nova Orleans Gelada ou Os Escravos e a Cana Enquanto isso, nos campos onde foices cortavam com desespero e nos engenhos onde as moendas funcionavam sem parar, qualquer distração desses homens insones significava facilmente a perda de um braço ou da própria vida. Ao final da colheita, com ou sem geada, havia sempre mãos de escravos adubando os campos. O modo mais fácil de reconhecer escravos da cana-de-açúcar, em oposição aos que plantavam café, algodão ou tabaco, era pela enorme quantidade de mutilados. - O Incrível Caso da Mulher Que Processou o Estado da Louisiana para Provar que Não Era Negra - e Perdeu Talvez um dos casos mais emblemáticos da importância cultural de raça e dos problemas da identificação racial. - Um Triste Século para Ser Negro em Nova Orleans No começo do século, os creoles de Nova Orleans estão vivendo sob domínio francês e são a elite de sua cidade. Na virada do XX, já são os novos intocáveis. E as coisas ainda iriam piorar muito antes de melhorar. Série Mulatas de Nova Orleans 1 - Plaçage Era então socialmente aceitável que os moçoilos na casa dos vinte escolhessem uma negra ou mulata livre lá pelos seus 12 a 15 anos para montar casa, criar família e se amancebar. Essas mulheres, que não eram nem amantes nem cortesãs, pois viviam em relações monogâmicas e estáveis, publicamente reconhecidas, com respeitados membros da comunidade, eram legalmente chamadas de concubinas ou placées, do verbo placer, dando origem ao substantivo plaçage. 2 - Quadroon Balls Quadroon Balls eram bailes dançantes com o objetivo de apresentar meninas creoles livres a homens brancos solteiros e disponíveis. As próprias mães das meninas organizavam os bailes e estavam sempre presentes, fazendo vigilância ferrenha. Antes de colocarem suas filhas sob a proteção de um homem branco, ele primeiro tinha que provar suas intenções honestas e sua capacidade financeira de sustentá-la a contento. * * * E Pra Encerrar - Meus Leitores Acham que Racismo Não Existe... Dizem (com inocência perversa) que ser chamado de "branquelo" é o mesmo que ser chamado de "neguinho". Acham (com ingenuidade criminosa) que racismo não existe só porque seus amigos negros nunca lhes falaram disso. Mas esquecem que os amigos negros ficam de boca fechada porque, numa cultura que foge do conflito como a nossa, contar quantas vezes a polícia te humilhou na rua é pedir pra ser chamado de chato, criador de caso, ou até mesmo (pasmem!) racista. - Um Blog Cada Vez Mais Estraga-Prazer [O blog] continua falando de liberdade (apenas agora coletivamente) e continua esfregando na cara dos seus leitores que eles vivem em denegação, que não enxergam os problemas do Brasil, que são racistas e classistas, que viveram vidas privilegiadas e que deveriam se sentir culpados quanto às suas empregadas ("esse problema não existe mais, Alex!"), quanto às suas palavras ("neguinho tá sem noção") e até mesmo quanto às suas preferências estéticas ("pô, Alex, eu não sou racista, eu só acho que preto é feio e cabelo pixaim é áspero, oras!"). - Definindo Raças nos Estados Unidos O q importa é o q vc está fazendo no país, ou o q fizeram teus antepassados: - ¿vc descende diretamente dos europeus q tiveram a iniciativa de construir o país? - ¿vc decende de pessoas q foram trazidas à força pra trabalhar de graça, e agora se transformaram num problema de consciência? - ¿vc chegou aí vindo de um pais pobre, atraído pela riqueza q os decendentes diretos dos europeus construíram? - Como o Racismo Afeta Nossas Vidas You know what it would take for a black dentist to live in that neighborhood? If a black dentist wanted to live in that neighborhood, he would have had to invent teeth! - O Que Você Faria se Visse uma Pessoa Sofrendo Preconceito? O racismo é um problema, antes de tudo, dos brancos. - Brasil: Paraíso ou Inferno Racial? Duas mulheres negras norte-americanas relatam experiências BEM diferentes no Brasil. - 13 Anos de Capas da Playboy Nesse nosso país mestiço e pretensamente não-racista, quantas dessas 196 mulheres, representando o mainstream da beleza nacional, são negras? - Racistas que Comentam em Posts Anti-Racistas "Amigo, acorda. A luta é contra VOCÊ!" - As Histórias de Horror que o Racismo Engendra "Não, Anne-Marie, não faça isso! Não interfira! Você... você não entende como as coisas funcionam no Brasil.... Não entende a ditadura a que nós, as branquelas, estamos submetidas.. Ele é... *engasga* negro.... Ele pode fazer o que quiser! Vamos torcer apenas para que não queira estuprar a pobre menina! Sabe como são esses negros! Nesse caso, seríamos obrigadas a... a... olhar pro outro lado! Ó deus, até quando vai durar essa opressão?!" - Das Vantagens de Ser Negro Na opinião insuspeita de dois dos melhores comediantes norte-americanos da atualidade: o negro Chris Rock e o branco Louis CK. - Brancos Não Tem Raça O Comitê de "Fair Employment Practices" (algo como Práticas Justas de Contratação) do Sindicato dos Ferroviários barrou a presença de sindicalistas negros das suas deliberações sobre racismo no ambiente de trabalho. A alegação: "não deveria haver no comitê nenhum representante de nenhuma raça ou interesse especial." Como se os brancos não tivessem raça. - Racismo Reverso Brancos são 95% dos médicos, 98% dos diretores de empresa, blá blá, mas tudo bem, o mundo é assim mesmo, paciência. Sempre que os negros tentam inverter o placar de 100 X 0 para 100 X 1, tipo criar uma lei que reserve 20% das vagas universitárias para negros, a maioria privilegiada fica histérica: injustiça!, revanchismo!, racismo inverso! ![]() * * * Os textos acima estão entre as coisas mais sinceras e passionais que já escrevi. Espero que gostem e me ajudem a divulgar a série Raça.
Sunday, February 3, 2008
Elogio à BelezaUm escritor argentino, autor do livro de memórias "Feio", está querendo criar um imposto sobre a beleza. Segundo ele, os belos obtém tantas vantagens adicionais que é justo que paguem impostos adicionais. "Bem, nada mais justo então do que os inteligentes usarem sua arma, a inteligência, para convencer os belos a não usarem as deles."Concordo. Feios e barrigudos, só resta mesmo aos inteligentes tentarem mudar as regras do jogo. Burro é quem acredita. Entretanto, eu sou vira-casaca: acho gente inteligente um porre e idolatro a beleza. Além disso, ser agente duplo para os belos tem muitas vantagens: ninguém sabe quem foi Michel Foucault ou André Brissac, por exemplo, mas os favores sexuais mais do que compensam. Assim como o mito do valor inerente da leitura só existe porque as pessoas que gostam de ler têm um lobby mais influente do que as pessoas que gostam de jogar bola em terreno baldio, esse mito da beleza como método não-meritocrático de subir na vida só existe porque são os feios que escrevem pros jornais e fazem as leis. ![]() * * * Apêndice Socrático Antes de publicá-los, sempre mostro meus textos para meus contatos no MSN. A conversa abaixo foi com uma das primeiras leitoras do Elogio à Beleza: Mas, Alex, o cara pode se revoltar pela beleza alheia pelo simples fato de que a pessoa já nasceu bonita... Ou seja, nasceu em vantagem. É diferente de quando alguém vence pela inteligência, isso é adquirido ao longo da vida... Mentira, lenda. Inteligência, beleza, talento, a gente nasce com eles todos, são difíceis de manter, e vamos refinando-os ao longo da vida. Nenhum é de graça, nem cai do céu. Pergunte pra alguém lindo de verdade o tempo e dinheiro que eles gastam nisso. Sim, claro. Mas por exemplo, mulher quando vai procurar emprego, além da mínima formação exigida pro cargo, ela precisa ser bonita na maioria dos casos. Homem não. Isso é escroto. Eu acho horrível, mas eu vejo isso na minha área. Eu trabalho com TI e sempre sou chamada pras etapas seguintes das entrevistas pelo simples fato de, 1) ser mulher e 2) não ser gorda, espinhenta, ou com cara de nerd. Agora, se tu colocas um homem pra fazer entrevistas na area de TI, os caras não vão se importar com aparência... Você devia achar isso bom, é uma vantagem comparativa pra você. Eu sou completamente incapaz de ser contra algo que me favoreça. Mas daí isso contraria tudo o que me ensinaram a vida toda! Eu deveria vencer por méritos acerca da minha capacidade, não da minha cara ou da minha bunda! O problema é que isso que te ensinaram foi o lobby dos feios querendo te convencer que a SUA vantagem competitiva não conta, ué. O texto é justamente sobre isso. Sua bunda é tão sua quanto seu cérebro e você obter vantagens por qualquer um dos dois é igualmente válido. Sua bunda não é menos sua do que o seu cérebro. Isso é certo, reconheço. Mas daí me vem a dúvida: eles querem que eu trabalhe pra eles de verdade ou que eu sirva de deleite no escritório? Eu vou ser contratada pra o quê? Claro que daí alguém pode me dizer que eu posso surpreeendê-los e me mostrar realmente capaz... Mas até la eu não posso deixar de me sentir uma boneca de pano ou uma peça de leilão, sei lá. Se te pagarem salário, do que isso importa? O importa é entrar, lá dentro você pode mostrar que é mais do que uma bela bunda... E, se passarem a mão nela, você ainda chama a polícia e ganha uma indenização polpuda. Mas minha grande dúvida é outra: por que você acha que seu cérebro vale mais do que sua bunda? De onde veio esse ranking de partes do corpo? Isso faz algum sentido? Bem, eu gostaria de usar minha bunda pra outras finalidades... Só que é impossível esconder essas coisas, né? Bem, a bunda é sua. Eu só quero dizer que ela é tão sua e tão válida quanto seu cérebro. Ok, entendi. Mas ainda assim não me conformo, parece tão imbecil... Mas isso é só porque te ensinaram um dualismo cartesiano e ultrapassado, essa história de que somos feitos de corpo e alma, um alto e sublime, outro baixo e sórdido, e portanto o que você consegue com o corpo também é baixo e sórdido, e as únicas coisas que teriam valor verdadeiro seriam as que você consegue com a alma, com o intelecto, etc. Mas essa dicotomia é falsa, você é uma só. Você é tudo isso o tempo todo. Bem. o ruim disso é que eu não sei o que falar pros meus colegas quando eles dizem que eu consigo as coisas só porque eu sou mulher. Isso é claramente injusto já que eles podem fazer o mesmo que eu... Eles preenchem os requisitos tanto quanto... Você pode responder que para cada coisa que você consegue por ser mulher tem outras tantas que você não consegue por ser mulher. Daí eu penso "ok, a decisão do empregador é só dele, quem se importa se ele quer mais é uma visão feminina na empresa do que alguém capacitado?" Só que é MUITO injusto com os outros... Eles nasceram daquele jeito, não é culpa deles... O mundo é injusto. Um emprego que escolha o mais capacitado vai ser injusto com os poucos capacitados. Se escolher os inteligentes, vai ser injusto com os burros. Se escolher os talentosos, vai ser injusto com os que nasceram sem talento. Se escolher os melhores, vai ser injusto com os piores. Qual é a solução? Ai, Deus! Tu me deixa sem respostas! * * * O LLL mudou! Atualizem seus bookmarks e links! O novo endereço é: http://www.interney.net/blogs/lll
Friday, February 1, 2008
Malvada, Fútil e ExibicionistaQuando eu digo que gosto de mulheres malvadas, a maioria dos leitores simplesmente não entende o que quero dizer com isso. Não tem problema: o objetivo do comentário não é explicar o mundo para os desavisados, mas atrair os entendidos. "This little girl is going to die and there's nothing you can do it about it. Don't bother trying to figure out why she's the one. It was a totally random thing, believe me. See, this has nothing to do with her. This is all about me!"Total e completo egocentrismo: só ela importa. A menina é menos que uma, somente um meio para seu fim, sua glória, sua vitória. ![]() A Mulher-Gato (a nova Mulher-Gato, aliás, toda atrapalhada) cai do telhado aos pés da vilã e ela pergunta, em uma daquelas perguntas cruelmente irônicas e bem-humoradas que deixa claro qual será o destino da heroína: "Any last words for the million-plus viewers glued to their laptops?"Nada mais sexy do que ironia de vilã. ![]() Quando a Mulher-Gato acorda, Blitzkrieg, óbvio, está se gabando do seu plano maligno: comprou aquelas luvas que emitem raios de um grupo terrorista e escolheu o nome Blitzkrieg por ser assim meio alemão e meio sinistro: "sounds sort of ominous". Não é lindo uma mulher que quer soar "ominous"? Seu plano é simples: depois de estourar os olhinhos castanhos da menina pela nuca (sua palavras!), toda a cidade vai falar nela! E ainda pergunta: "um plano doce, não?" Eu quase posso ouvir sua voz, igualmente doce, falando palavras tão incrivelmente cruéis. ![]() O plano, apesar de simples (matar uma menina inocente ao vivo e ficar famosa) parece extraordinariamente cruel e leviano. Assim como a Madrasta Má e tantas outras vilãs, Blitzkrieg é extremamente vaidosa: adora saber que milhares de pessoas estão assistindo-a e pretende matar uma criança inocente só para que a cidade toda fale nela. E está empolgada com seu plano. ![]() A vilã anuncia para a câmera: sim, a pobre menininha ainda vai morrer, mas teremos um novo assassinato antes pra deixá-los com água na boca. Ela aponta suas luvas para a Mulher-Gato com um grande sorriso nos lábios e ainda faz pouco dos esforços da heroína para salvar a menina. Claramente sente prazer em que a Mulher-Gato morra sabendo que deu tudo errado, que ela fracassou e Blitzkrieg venceu e, pra melhorar, que a menina ainda assim vai morrer: "Think you're pretty smart, don't you? All you did was speed things up. You die now. Then the kid gets it. Happy?" ![]() Mas a Mulher-Gato se desvia dos raios no último segundo e fica apenas muito ferida. Blitzkrieg se impressiona ("Still alive? I'm impressed!")e diz que, como prêmio por ter sobrevivido mais um pouco e enquanto está se roendo de dor no chão, a Mulher-Gato vai poder assisti-la matando a pobre menininha: "I'm gonna let you watch me kill your little friend."Não basta matar as duas, heroína e menininha, a vilã ainda sente prazer em que Mulher-Gato vai ter que assistir a morte da criança que tentou salvar - e que isso vai ser uma das últimas coisas que verá. O sofrimento e frustração da pobre heroína alimentam seu ego. Para a vitória completa e egoísta da vilã, é necessário acabar com todos, não deixar testemunhas: no seu final feliz perfeito, ela sozinha é a dona do campo de batalha. Nessa hora, naturalmente, ela comete o erro de toda vilã, dá as costas pra heroína ferida, a heroína puxa forças sei lá de onde e acaba com ela. Final feliz. Fim de história. ![]() Enfim, um gibi bem fraco. Mas eu, que coleciono e adoro vilãs, há muito tempo não via nenhuma assim tão exageradamente má, perversamente gostosa, deliciosamente fútil e absolutamente exibicionista. * * * Sim, confesso, eu sinto tesão por uma vilã assim como Blitzkrieg, mas ela não existe e, se existisse, seria um monstro que teria que ir preso. O tesão não significa que concordo com suas ações ou que acho que são recomendáveis, bem ao contrário. Meu tesão é por esse arquétipo (aliás, mais velho que andar pra frente) da femme fatale, da mulher má, da diva egoísta. Por fim, trazendo a questão à realidade, meu verdadeiro tesão é pelas mulheres de carne e osso, lindas e inteligentes, tantas delas minhas amantes e amigas, que também são atraídas por esse mesmo arquétipo, que adoram a fantasia de ser essa mulher e de ter escravos apaixonados aos seus pés para usar e abusar, que gozam com a suprema liberdade de um egoísmo sem limites e de poder não se preocupar com nada nem ninguém, que se excitam ao se imaginar malvadas e poderosas, fúteis e vaidosas, gloriosas deusas do mal. ![]() A verdadeira Lucrécia Bórgia com certeza não era tão má assim, mas a Lucrécia ficcional é o máximo. * * * Raquel diz que meu Elogio às Malvadas foi uma das coisas mais importantes que já leu e conta a seguinte história: de vez em quando, conversa com suas colegas sobre fantasias sexuais e galãs da moda. Entretanto, enquanto elas sonham com o que fariam com o Brad Pitt na cama, Raquel tem outros desejos inconfessáveis. Sua fantasia era fazer o Brad Pitt se apaixonar por ela e, depois, humilhá-lo, obrigá-lo a largar sua carreira no cinema, abdicar de tudo só para tê-la, e ela só provocando-o, atiçando-o, e então, quando já não lhe restasse nada, só aquela paixão irreprimível por ela, ela riria na cara dele, diria que agora que ele não é mais um astro, não lhe serve, não lhe tem serventia alguma, o que vai querer com um pobretão inútil desses?, que vá pintar paredes, arranjar mulheres na zona, qualquer coisa assim, mas saia da minha presença agora!, e ele sairia, arqueado, derrotado, humilhado, e o que mais a excitava, nessa sua fantasia, era a idéia de acabar com a vida de um astro de Hollywood por puro capricho, sem motivo algum, e, melhor ainda, ele ter feito tudo voluntariamente, por puro tesão, um tesão que ele carregaria pra sempre, acumulado e frustrado! (No final, ela estava quase sem ar, olhinhos brilhando, voz arquejante.) Na sua vida civil, Raquel é mignon, educada, quase tímida, se vira ao avesso pelos amigos, faz de tudo para agradar as pessoas. Em suas fantasias, porém, é uma deusa do mal, uma devoradora de homens, cercada por dezenas de escravos devotados que ela joga aos leões depois de abusar sexualmente, adorada e desejada por multidões apaixonadas e sempre frustradas, absolutamente egoísta e mentirosa, interessada somente em si mesma, em seu poder, em sua glória, em sua vitória, em seu final feliz. Tudo o que ela não é. ![]() Melhor cena: os homens brigando no ar e ela olhando tudo excitadíssima, olhos brilhando, se deliciando no duelo dos machos por ela, verdadeira deusa primitiva esperando seu sacrifício de sangue. * * * Para fechar, um trecho do blog Bitchy Jones's Diary sobre a delícia de submeter um homem forte e independente. Quanto maior, mais poderoso, mais másculo, mais amante da liberdade, maior é o prazer de tê-lo sob suas botas: Male submission is about heroic masculinity and male beauty.Se gostou, não deixe de ler The Complete Bitchy Jones, onde ela resume todas as suas idéias mais interessantes. Dica da Rebeca, uma de minhas amigas mais queridas e uma das mulheres mais imaginativamente perversas que já conheci. ![]() Uma das graphic novels mais sensuais de todos os tempos. Como não amar Elizabeth? * * * 15 Personagens de Literatura que Eu Levaria para a Cama
![]() * * * Textos relacionados: Elogio às Malvadas Meninas Malvadas * * * O LLL mudou! Atualizem seus bookmarks e links! O novo endereço é: http://www.interney.net/blogs/lll
Monday, January 28, 2008
Retomada do Blog e Futuros Posts(esse é o ÚLTIMO post do velho LLL. O novo LLL está aqui: http://www.interney.net/blogs/lll)
http://www.interney.net/blogs/lll(esse é o ÚLTIMO post do velho LLL. O novo LLL está aqui: http://www.interney.net/blogs/lll)
Wednesday, January 23, 2008
Bom Crioulo, de Adolfo Caminha (II)
Segundo Judith Butler, em Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão de Identidade (1990), atributos de gênero não são expressivos mas sim performativos e, portanto, esses atributos constituiriam de fato a identidade que pretendem expressar ou revelar. Em outras palavras, para Butler, ser homem ou ser mulher, ser heterossexual ou homossexual, não são categorias imanentes, pois não existiria uma essência, digamos, masculina que precederia a existência do indivíduo do gênero masculino: masculino seria quem se comporta de acordo com os padrões de comportamento culturalmente definidos como masculinos. Mais ainda, se não existe uma natureza pré-existente das identidades de gênero, então não existem atos sexuais verdadeiros ou distorcidos, e a própria noção de “gênero verdadeiro” revela-se uma manobra destinada a impor a dominação masculina e a heterossexualidade compulsória. Romance cuja trama adere estritamente à fórmula naturalista (quem não adere é o narrador, conforme veremos mais abaixo), em Bom-Crioulo os personagens são esquemáticos: ao mesmo tempo, frutos do seu meio-ambiente e reféns de seus instintos. O personagem-título, Amaro, exemplifica bem as contradições da fórmula e as inversões de identidade que ela exige. Por um lado, é o personagem mais ético do romance, agindo sempre com integridade e honestidade - até perder o controle em um acesso de O romance busca um equilíbrio delicado entre as teses cientificistas sobre determinismo biológico e sobre efeito corrompedor do meio ambiente. Ao mesmo tempo em que Amaro é visto como um homem dominado por seus instintos sexuais mais primitivos, o romance também atribui sua corrupção sexual ao ambiente de devassidão das senzalas, que pode ser atribuído, naturalmente, ao fato de serem habitadas por homens dominados por seus instintos sexuais mais primitivos. A partir de sua corrupção, entretanto, Amaro não é mais o mesmo homem que era, com a diferença de ser agora adepto de práticas sexuais sodomitas: pelo contrário, ele sofre uma verdadeira metamorfose conceitual e torna-se uma nova espécie: o homossexual, que surge assim pela primeira vez na literatura brasileira. De acordo com Foucault, em A História da Sexualidade I: A Vontade de Saber (1976), até finais do século XIX, a sodomia era somente uma categoria de atos proibidos e sodomita, a pessoa que os praticava: não era algo que o definia enquanto ser humano. Entretanto, o homossexual como foi classificado no final do século XIX, torna-se um personagem, um passado, um estudo de caso, um estilo de vida, toda uma morfologia. O homossexual seria esse indivíduo cuja totalidade é definida por sua sexualidade e está presente em todas as suas ações, menos um pecado habitual do que uma natureza singular. O antigo sodomita, que era uma aberração temporária, é transformado no homossexual, uma nova A heterossexualidade não é a única identidade subvertida no romance. Amaro é negro, forte, viril, maduro e decidido, enquanto Aleixo, seu jovem amante, é quase uma criança, pequeno, branco, louro, passivo e vacilante. A relação entre eles não é apenas sexual, mas também paternal e professoral. Amaro não vê Aleixo somente como seu amante, mas também como seu pupilo, filho e protegido; Aleixo, por seu lado, se comporta de acordo. Quando Aleixo finalmente troca Amaro por Dona Carolina, parece estar simplesmente trocando um pai por uma mãe: Dona Carolina, velha prostituta, que nunca tinha experimentando nem o amor verdadeiro nem o amor maternal, sente-se atraída mais do que tudo pela fragilidade infantil e inocente de Aleixo. Sob esse aspecto, a competição entre Amaro e Carolina por Amaro se assemelha mais a uma disputa de custódia entre pais divorciados do que a um triângulo verdadeiramente amoroso. Em Bom-Crioulo, pai e mãe, homem e mulher, também não parecem ser o que tradicionalmente são. Finalmente, ao mostrar o branco, miúdo e louro Aleixo passivo diante do grande, negro e forte Amaro, o autor subverte mais uma vez identidades que seriam tradicionais e auto-evidentes aos seus leitores: nesse ponto, a debilidade de Aleixo ecoa a debilidade do próprio Império, branco e escravocrata, que desaparece sem ter quem o defenda. Raça e Homossexualismo Ginway vê no livro uma grande alegoria do país: Aleixo é o Brasil, puro e virgem, corrompido tanto pela nódoa da escravidão, Amaro, quanto pela devassidão do velho mundo, Dona Carolina. (44) Ambas as relações são estéreis, indicando o impasse do cultural e racial do Brasil, incapaz de se perpetuar, incapaz de ser branco como deseja, incapaz de se imaginar mestiço como era. (45) O ideal parece mesmo ser ficar cada raça no seu lugar: quando Amaro considera terminar com Aleixo, sua primeira opção é encontrar uma mulher da mesma cor que ele, para evitar confusões. Depois de estar em um relacionamento tão revolucionário (não apenas homem com homem, mas negro dominante e másculo sobre branco submisso e efeminado), Amaro não quer mais saber de complicação. É também interessante notar que a questão racial não aparece muito no começo do romance, sendo eclipsada pela questão homossexual. Entretanto, assim que Dona Carolina se junta com Aleixo e ambos passam a ver Amaro como rival e possível inimigo, o pederasta se transforma em negro: Aleixo e Carolina parecem ambos perceber - e mencionar - sua raça pela primeira vez. Diz Dona Carolina: "Grandessíssimo pederasta! Nunca supusera que uma paixão amorosa de homem a homem, fosse tão duradoura, tão persistente! E logo um negro, Senhor Bom-Jesus, logo um crioulo imoral e repugnante daquele! ... Negro é raça do diabo, raça maldita, que não sabe perdoar, que não sabe esquecer... ... De resto, o caso do bilhete era uma tolice em que ninguém devia pensar: - Cousas de negro..." (cap.X) Até mesmo Aleixo, que antes o amava e dependia de sua proteção, agora vê nele apenas uma fera, um animal: "Receava encontrar Bom-Crioulo, ter de o suportar com seus caprichos, com o seu bodum africano, com os seus ímpetos de touro, e esta lembrança entristecia-o como um arrependimento. Ficara abominando o negro, odiando-o quase, cheio de repugnância, cheio de nojo por aquele animal com formas de homem, que se dizia seu amigo unicamente para o gozar. Tinha pena dele, compadecia-se, porque, afinal, devia-lhe favores, mas não o estimava: nunca o estimara! ... Se Aleixo havia de se desgraçar nas unhas do negro, era melhor que ela, uma mulher, o salvasse." (cap.VIII) Como aponta Leonardo Mendes, a guerra que Dona Carolina empreende contra Amaro parece justificada mais por uma indignação estética que moral: "o crime que o negro cometia era violar e penetrar aquela delicadeza virginal; sua homossexualidade desbaratava um recolhimento tão ingênuo e discreto." (159) O romance naturalista, quase que por definição, causa anxiedade e desassossego. Em Bom-Crioulo, não apenas a relação homossexual é escandalosa, mas também a inversão do esquema amo/escravo, talvez ainda mais escandolosa para a época: Amaro, em todos os aspectos, é macho, forte, dominador, enquanto que sobram para Aleixo as qualidades submissas dos escravos e das fêmeas: dissimulação e sensualidade: "Uma cousa desgostava o grumete: os caprichos libertinos do outro. Porque Bom-Crioulo não se contentava em possuí-lo a qualquer hora do dia ou da noite, queria muito mais, obrigava-o a excessos, fazia dele um escravo, uma “mulher-a-toa” propondo quanta extravagância lhe vinha à imaginação. Logo na primeira noite exigiu que ele ficasse nu, mas nuzinho em pêlo: queria ver o corpo..." (cap.V) Talvez a ilusão de ótica mais interessante de Bom-Crioulo seja justamente a de apresentar um caso tão escandaloso (o amor homossexual entre Aleixo e Amaro) que faz com que outras relações também escandalosas no romance pareçam aceitáveis na comparação. Uma ex-prostituta quarentona, que vive amigada com um homem casado que a sustenta, decide ter um amante adolescente ("queria agora experimentar um meninote, um criançola sem barba, que lhe fizesse todas as vontades," cap.VI), um rapaz que ela sabia ter vivido maritalmente, em pecado, com um negro por um ano. Em qualquer outro romance do período, essa relação seria escandalosa. Em Bom-Crioulo, ela jamais é nem problematizada. Na comparação com o resto do enredo, parece aceitável e normal, quase conservadora: "D. Carolina realizara, enfim, o seu desejo, a sua ambição de mulher gasta: possuir um amante novo, mocinho, imberbe, com uma ponta de ingenuidade a ruborizar-lhe a face, um amante quase ideal, que fosse para ela o que um animal de estima é para o seu dono - leal, sincero, dedicado até ao sacrifício." (cap.VIII) A relação de Aleixo com Dona Carolina é descrita em termos animalizados, brutais, cruéis: "cravou os dentes na face do grumete, numa fúria brutal, e segurando-o pelas nádegas, o olhar cintilante, o rosto congestionado, foi depô-lo na cama" (cap.IV). Em outro momento (cap.VI), ela chega a ser descrita como um basilisco. Já a relação de Aleixo com Amaro é quase artística, contemplativa, religiosa: Amaro contempla e adora Aleixo como se ele fosse uma obra de arte, um deus grego: "Bom-Crioulo, desde a primeira noite dormida no sobradinho, começou a experimentar uma delícia muito íntima, assim como um recolhido gozo espiritual. ... Todo ele vibrava, demorando-se na idolatria pagã daquela nudez sensual como um fetiche diante de um símbolo de ouro ou como um artista diante duma obra prima. Ignorante e grosseiro, sentia-se, contudo, abalado até os nervos mais recônditos, até às profundezas do seu duplo ser moral e físico, dominado por um quase respeito cego pelo grumete que atingia proporções de ente sobrenatural a seus olhos de marinheiro rude." (cap.V) O romance mostra a relação homossexual entre Amaro e Aleixo de modo muito mais sensível, abstrato, puro, singelo e verdadeiro do que a relação animalesca e sexual entre Aleixo e Dona Carolina. (Ginway, 45) Terá o autor se dado conta disso? Por fim, o romance jamais se posiciona quanto à espinhosa questão da origem do homossexualismo. Enquanto a sexualidade de Amaro é um dado do romance, a de Aleixo é cuidadosamente construída pelo Bom-Crioulo e depois desconstruída por Dona Carolina. Afinal, para Adolfo Caminha, a homossexualidade era nata ou era adquirida? O romance não se coloca. O narrador não consegue se decidir. (Howes, 57) (continua...)
Tuesday, January 22, 2008
Ajuda no Template - UpdateSério, eu não aguento mais o Comentar e esse maldito bug de não mostrar o número de comentários. Fechei com o Ina de ir pro Interney Blogs em fevereiro do ano passado, e achei que não valia a pena consertar. Mas o tempo passa, ainda estou aqui, e o problema está me enchendo o saco. Não quero apagar o Comentar, porque tem um valioso arquivo de 5 anos de comentários, mas queria só que os comentários do Blogger aparecessem na página principal do blog, e nada! Só aparecem nas páginas individuais de cada post. Estou no msn, HEEELLPPP!
Monday, January 21, 2008
Ateus nas TrincheirasUma piadinha americana diz que não existe "ateu em uma trincheira". Pois bem, para negar essa besteirada, um grupo de militares, bombeiros e policiais criou a organização "Ateus nas Trincheiras" (Atheists in Foxholes) e agora estão processando o Exército Americano contra a crescente evangelização das fileiras, protestando inclusive várias ocasiões de "preces forçadas". Via de regra, eu acho que ateu, quando se organiza, fica mais chato e fanático que crente, mas apóio essa iniciativa.
Brasileiros em Nova Orleans"Brazilian Boom", matéria de hoje no jornal local de Nova Orleans, The Times-Picayune. E, nesse link, comentários dos leitores.
Gabeira 2008
Sunday, January 20, 2008
Bom Crioulo, de Adolfo Caminha (I) Em 1886, durante sua viagem de instrução na Marinha, Adolfo Caminha teve oportunidade de conhecer os Estados Unidos, posteriormente escrevendo um dos primeiros livros de viagem que se tem notícia escrito por brasileiro, No País dos Ianques (1894). Nessas crônicas despretensiosas, podemos ver claramente o espírito naturalista do autor, que depois se refletirá em suas obras. Primeiro, ele elogia a independência e o desembaraço das mulheres americanas. Por seus assombrados comentários, podemos somente imaginar como eram oprimidas as mulheres brasileiras da época: "Ah! sim, vi umas graciosas caixeiras acudirem pressurosas e desenvoltas, com o desembaraço próprio de sua raça, aos compradores, coisa aliás muito simples, muitíssimo natural, mas não no Brasil, onde as senhoras estão eternamente proibidas de competir com o outro sexo na vida pública. ... Às nove horas da manhã, que digo eu! às seis horas, depois de ligeira refeição, encaminham-se para o trabalho quotidiano, felizes, satisfeitas, envolvidas em grossas capas de lá no inverno, a bolsa de um lado, sem sequer fazerem-se acompanhar. Vão direitinhas de casa para a loja ou escritório, sem que ninguém lhes dirija uma pilhéria, sem que ninguém as desrespeite, e, à noite, recolhem-se da mesma forma, sempre alegres, transpirando saúde, a face rubra. ... O proverbial desembaraço das americanas manifesta-se a todo instante. Prontas sempre a repelir com dignidade um ataque à sua honestidade, elas se dirigem aos homens em qualquer parte, na rua ou nos salões, com a mesma simplicidade com que o fazem às amigas. O respeito entre os dois sexos, nas classes superiores, é um dos principais caracteres do povo americano. Habituados, homens e mulheres, a uma educação livre, vivendo uns e outros em comum desde criança, as americanas não se confundem nunca diante dos homens. ... Os pais depositam confiança ilimitada nas filhas. Deixam, sem escrúpulo, que elas saiam a passeio, de carro ou a pé, só ou em companhia de um amigo da casa, na certeza de que elas saberão zelar a sua castidade. Os raptos e os defloramentos são raros, não sei se devido ao temperamento da raça ou se à inflexibilidade da Lei. (caps.VI-VII, grifos meus, a não ser quando dito) O outro lado da moeda naturalista é o racismo cientificista e determinista de Adolfo Caminha, visível em alguns trechos: "A Escola de West Point é, sem exagero um exemplo raro de estabelecimentos desse gênero. E não era sem uma ponta de tristeza que nós, brasileiros — raça degenerada e linfática — víamos criar-se assim uma raça forte e alegre com todos os caracteres de virilidade e independência. ... É talvez um duro sistema de educação esse, mas incontestavelmente o mais acertado e eficaz. Simples questão de raça..." (cap.XV) Em 1895, Caminha publica o romance Bom-Crioulo, cuja primeira edição se esgota rapidamente. O livro só será reeditado quarenta anos depois, em 1936, em uma edição bastante deturpada que será apreendida pelo Estado Novo sob alegação de ser comunista. Finalmente, com a terceira edição, em 1956, o livro é canonizado e não sai mais de catálogo. (Azevedo, 117, Mendes, 195) As primeiras reações da crítica são virulentas. José Veríssimo, respeitado crítico literário, é um bom exemplo da recepção do livro: "Bom Crioulo é pior do que um mau livro: é uma ação detestável, literatura à parte. ... Como quer o sr. Adolfo Caminha que seja respeitado e estimado um homem que, sem utilidade alguma social, passou longos dias ocupado em analisar e discutir a psicologia improvável de nauseantes crimes contra a natureza, e tenta depois com isso despertar em nós o arrepio da curiosidade impura e mórbida?" (citado em Howes, 44) Valentim Magalhães, editor da influente revista A Semana, escreveu: "Ora, o Bom-Crioulo excede tudo quanto se possa imaginar de mais grosseiramente imundo. ... não é um livro travesso, alegre, patusco, contando cenas de alcova ou de bordel. ... é um livro ascoroso, porque explora - primeiro a fazê-lo, que eu saiba - um ramo de pornografia até hoje inédito por inabordável, por antinatural, por ignóbil. Não é pois somente um livro falsandé: é um livro podre; é o romance-vômito, o romance-poia, o romance-pus. ... Este moço é um inconsciente, por obcecação literária ou perversão moral. Só assim se pode explicar o fato de haver ele achado literário tal assunto, de ter julgado que a história dos vícios bestiais de um marinheiro negro e boçal podia ser literariamente interessante. ... Provavelmente o Sr. Caminha já foi embarcadiço, talvez grumete como seu louro Aleixo - o que ignoro. (citado em Howes, 43, Azevedo, 122-3) A literatura naturalista é intragável: ela força os limites do possível e transforma novos temas em assunto literário, "mapeando regiões até então lacradas à literatura oficial". (Mendes, 33), revelando "os perigos e mistérios da sexualidade" (Mendes, 23) e gerando níveis de ansiedade insuportáveis. Uma história literária francesa resume grande parte da ansiedade do establishment literário e ainda antecipa a grande questão do pós-modernismo: "(Os naturalistas) apaixonam-se pelo terrível, cedem à necessidade de fazer pasmar o público, e obedecem à lei que condena os recém-vindos a exagerar os seus predecessores: em virtude dessa progressão fatal, certo teremos escritos que farão um ponto de honra de estar para o Sr. Zola como o próprio Zola está para Balzac - mas repito-o, estão de antemão condenados a recuar um dia, seja embora perante o nojo do público ou o alto lá da polícia." (citado em Mendes, 31) Até recentemente, Bom-Crioulo ainda era atacado em termos morais. Lúcia Miguel-Pereira, em 1959, escrevia: "O tema, já de si abjeto, é tratado de modo que o torna extremamente chocante, com pormenores de todo em todo desnecessários, por vezes com um mau-gosto declamatório impensável num escritor da categoria de Adolfo Caminha." (citado em Azevedo, 114-5) Já Wilson Martins, em 1978, criticava o livro pelo motivo oposto, pelo tema ser mais ousado do que o tratamento que recebeu, e por as relações homossexuais serem "sempre descritas por meio de perífrases e imagens envergonhadas, mal disfarçando a repugnância do autor e sua condenação moral." (citado em Azevedo, 116) Além disso, mais do que O Cortiço ou Memórias de um Sargento de Milícias, Bom-Crioulo é a primeira obra da literatura brasileira onde todos os personagens são de classe baixa. Não há mocinha pura e bonita para representar os conceitos tradicionais de feminilidade, não há vilão fácil e irredimível para odiar. Em um romance firmemente entrincheirado no território do "outro", o leitor burguês não tem nenhum personagem confortável com o qual se identificar. (Howes, 56) Não é à toa que o romance causava tanta ansiedade nos críticos. Diante da avalanche de críticas, Caminha se vê obrigado a fazer uma defesa do livro, no qual faz uma profissão de fé do seu naturalismo: "(O Bom-Crioulo é) nada mais que um caso de inversão sexual estudado em Krafft-Ebing, em Moll, em Tardieu, e nos livros de medicina legal. Um marinheiro rudo, de origem escrava, sem educação, nem princípio, num momento fatal obedece às tendências homossexuais do seu organismo e pratica uma ação torpe: é um degenerado nato, um irresponspável pelas baixezas que comete até assassinar o amigo, a vítima de seus instintos. Em torno dele, se espraia o romance, logicamente encadeado, de acordo com as observações da ciência e com análise provável do autor, que, no caráter de oficial de Marinha, viu os episódios que descreve a bordo. ... A julgar como certos imbecis - que os personagens de um romance devem refletir o caráter do seu autor, Flaubert, Zola e Eça de Queiroz praticaram incestos e atos monstruosos. ... Qual é mais pernicioso: o Bom-Crioulo, em que se estuda e condena o homossexualismo, ou essas páginas que aí andam pregando, em tom filosófico, a dissolução da família, o concubinato, o amor livre e toda a espécie de imoralidade social?" (citado por Mendes, 164; Azevedo, 123-4) Como veremos mais adiante, tivesse Caminha se mantido fiel ao programa acima, talvez não fosse nem lido hoje. A tensão primordial que faz do Bom-Crioulo um grande romance nasce justamente da fratura do projeto naturalista de Adolfo Caminha. (continua...)
|
EpitáfioAqui, nesse endereço, viveu e brincou o blog Liberal Libertário Libertino (4 de março de 2003 – 3 de fevereiro de 2008). Atualmente, o blog pode ser lido diariamente em interney.net/blogs/lll Visite também o site pessoal do autor: alexcastro.com.br
meus livros à venda:
Arquivo
Fevereiro 2008
livros recomendados
|